“Hugh” curta metragem baseado em uma lenda apache.

“Hugh” curta metragem baseado em uma lenda apache.

Por Josie Conti

Baseado em uma lenda apache, esse curta metragem francês encanta ao nos lembrar da magia de ouvir uma boa história.

O  xamã , próximo a fogueira,  conta para as crianças da tribo sobre como era quando o céu era baixo demais e os homens não conseguiam andar eretos…

Muito significado pela beleza, pela simbologia e pela riqueza de que hoje somos tão carentes: a transmissão da cultura oral.

Créditos: MATHIEU NAVARRO, SYLVAIN NOUVEAU, AURORE TURBE, FRANCOIS POMMIEZ

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Invictus: o poema que inspirou Nelson Mandela em seus 27 anos de de prisão

Invictus: o poema que inspirou Nelson Mandela em seus 27 anos de  de prisão

Willian Ernest Henley, ao escrever o poema abaixo, jamais sonharia que os seus versos poderiam inspirar um homem com grandeza de Nelson Mandela a suportar, por vinte e sete anos, o cativeiro, condenado por sua luta contra o apartheid.

Foi esse mesmo poema que deu o título ao filme de 2009 com Morgan Freeman e Matt Damon.

Declamado por Alan Bates e legendado em Português para uso da Academia Ubuntu.

INVICTUS
William Ernest Henley

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

***

INVICTO
William Ernest Henley

Da noite escura que me cobre,
Como uma cova de lado a lado,
Agradeço a todos os deuses
A minha alma invencível.

Nas garras ardis das circunstâncias,
Não titubeei e sequer chorei.
Sob os golpes do infortúnio
Minha cabeça sangra, ainda erguida.

Além deste vale de ira e lágrimas,
Assoma-se o horror das sombras,
E apesar dos anos ameaçadores,
Encontram-me sempre destemido.

Não importa quão estreita a passagem,
Quantas punições ainda sofrerei,
Sou o senhor do meu destino,
E o condutor da minha alma.

***

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta

William Ernest Henley (23/08/1849 – 11/07/1903)

Nelson Mandela (18/07/1918 – 05/12/2013)

Fonte das tradução: A Magia da Poesia

Nota: Se as legendas não aparecerem automaticamente, lembre-se de ativá-las no canto inferior direito do vídeo.

E o bullying? Também não seria “liberdade de expressão”?

E o bullying? Também não seria “liberdade de expressão”?

Por Nara Rúbia Ribeiro

Vejo que hoje muitas pessoas demonstram um entendimento equivocado acerca da livre manifestação de pensamento. Por exemplo. Se o coleguinha do seu filho o chama, de modo recorrente, de “gordo”, “crente burro”, “idiota católico”, “branquelo azedo”, isso é “bullying”. Mas se um jornalista faz isso, o nome é outro: é liberdade de expressão.

Precisamos, então, ponderar acerca desse direito tão importante às bases democráticas, mas devassador quando tem exorbitados seus limites.

Ocorre que a liberdade de expressão não é absoluta. Essa liberdade, assim como todos os outros direitos, é relativa. Precisa amoldar-se, no contexto social, a várias outras garantias que a lei dá ao indivíduo.

Aquilo que você pensa, é algo seu. Inerente a você e isso é indiferente à sociedade. A partir do momento em que você manifesta o seu pensamento, ele terá repercussão em dado local, num determinado período de tempo e, se ferir direito de terceiros, teremos que colocar na balança o que vale mais: o seu direito de dizer ou o direito que foi ferido pela sua fala. A sociedade estabelece leis para que possamos aferir o que é mais importante.

Por exemplo, talvez você não goste de negros. Conheço muitos que não gostam. É um direito seu. Cada um cultiva internamente aquilo que bem lhe aprouver: flores ou abrolhos. Pavimenta estradas de esperança ou  margeia lamaçais de podridão. Ser preconceituoso é um direito íntimo seu. Agora, se você disser que não gosta de negros, aí a coisa muda de figura. Afinal, você externou uma opinião sua que qualifica homens e mulheres não por sua essência, mas por  sua cor. E isso é racismo e trata-se de um crime passível de severa punição.

Você pode achar o seu vizinho esnobe e feio. E se isso ficar com você, que problema há? Mas se você o disser, ele poderá se sentir ofendido, e isso poderá caracterizar um crime de injúria.

contioutra.com - E o bullying? Também não seria “liberdade de expressão”?Talvez você não goste do credo de alguém. Direito seu. Mas se você ridicularizar esse credo, você pode ferir intimamente o outro. E ele possui, assegurado constitucionalmente, o direito ao livre exercício de seu credo, de modo a garantir que sua crença não seja um motivo de escárnio. Se você fizer isso, pode infringir o art. 208 do Código Penal, que diz que é crime “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa”.

Você pode achar que, por exemplo, todo político é ladrão. Pode achar (veja que pensamento vulgar, mas tem gente que até pensa) que todo padre é pedófilo. Mas se você o disser, assim mesmo: genericamente, incorre em crime tanto de injúria quanto de calúnia. Como são ações penais de natureza privada, (aquelas situações em que é a própria pessoa ofendida e não o ministério público leva o caso a julgamento) se qualquer político ou padre se ofender (seguindo com o exemplo acima mencionado), você responde por esses crimes. Afinal, é crime mesmo.

E não interessa se quem achincalha, ofende, agride ou calunia é você, um menininho que estuda com o seu filho ou se é um jornalista de uma grande revista internacional. Ninguém tem o direito de usar o verbo para humilhar e ofender gratuitamente, movido por preconceito, pela necessidade de hierarquizar o humano, de colocar o outro em um patamar inferior ao seu (ou aos seus). Afinal, assim como os indivíduos coexistem e devem conviver harmonicamente, assim também a integralidade dos nossos direitos, e não apenas o direito à liberdade de expressão, deve ser respeitado.

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

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Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

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Beatles Selfie- paródia

Beatles Selfie- paródia

“Muitas vezes ficamos tão ocupados controlando a imagem, que iremos revelar ao mundo que acabamos perdendo o verdadeiro contato com os momentos que constituem a singularidade da vida concreta.

Quando capturar algo que na câmera tem a prioridade sobre o que acontece à nossa volta, isso pode ser indicativo de um problema real, ou seja, passamos a ficar conectados com as imagens, mas desconectados de nós mesmos, ao criar um verdadeiro dilema: como eu posso esperar que os outros prestem atenção a mim se nem eu mesmo consigo descrever o que está acontecendo à minha volta?…

Documentar a experiência não pode, jamais, ser mais importante do que vivê-la.” Dr Cristiano Nabuco

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O Rio de Hoje

O Rio de Hoje

Por Adriana Vitória

Por que temos a tendência a sempre tapar o sol com a peneira mesmo que os pequenos furinhos desta já tenham se transformado em um gigantesco rombo deixando tudo a mostra? Quem, em sua absoluta consciência, não consegue enxergar o processo destrutivo que o Rio vem vivendo nas últimas décadas? Só o “novo” carioca não percebe a devastação da cidade que um dia tão e sempre tão querida. Não tenho nenhuma dúvida de que temos, hoje, uma da piores qualidades de vida do planeta.

Em 1977, minha mãe queria mais “tranquilidade”. Saímos então de Ipanema, onde cresci e nos mudamos para o Pontal no Recreio dos Bandeirantes. Lindo ! Praias desertas e casa a beira mar, mas não tinha nada, absolutamente nada por perto, o que tornou nossa vida muito difícil, nos forçando a ir para a outra ponta dos 13 km da praia, o Quebramar já então na Barra.

Lembro que fechávamos a rua pra fazer a festa junina da escola. Andávamos sozinhos pra lá e pra cá nos encontrando na praia, nas rodas de capoeira e na escola. As ruas eram de terra, só a Olegario Maciel tinha calçamento de paralelepípedo e os prédios não podiam ter mais de cinco andares. Na praia, não raro, podíamos ver baleias, grandes arraias, caranguejos e muitos tatuís na areia. Vida feliz de “interior”.

Hoje, Recreio e Barra têm milhares de condomínios que mudaram não só a paisagem, mas a natureza daquela região tão frágil. Seus esgotos são despejados no mar e nos canais sem nenhuma cerimônia. Ao longo dos anos até os windsurfistas tiveram que abandonar o esporte nas lagoas pela contaminação e nós voltamos para Ipanema.

Na minha infância íamos também muito ao parque da cidade, hoje tomado pela favela da Rocinha que atravessou o Dois Irmãos e desceu pela Gávea, até destruir completamente o parque. Casas da região que valiam em torno de alguns milhões hoje valem alguns milhares de reais se conseguirem vende-las, mas nem vamos falar dos IPTUs, já que estes continuam em alta, demonstrando a total fala de respeito dos governantes com os cidadãos deste cidade. Vergonha!

A Lagoa Rodrigo de Freitas tinha seus momentos de horror quando os gases causados pelo esgoto dos imóveis que eram despejados em suas águas causando a morte em massa de peixes causando um mal cheiro digno da baia de Guanabara. A situação não mudou muito.

A entrada da cidade cheira a lixo em estado de decomposição . Milhões foram “doados” a cidade para despoluir a baia de Guanabara. Nada, nunca foi feito. Onde o “dindin” foi parar?

O aluguel de um quarto na caótica Copacabana pode custar de mil a mil e quinhentos reais por mês. Quanto aos imóveis, nem falemos, basta consultar qualquer classificado com imóveis do Rio pra se ter uma ideia do absurdo.

O calor insuportável só piora a cada ano, mas as favelas aumentam de tamanho descontroladamente, invadindo as áreas florestais, uma vez que não existe nenhum planejamento urbano.

Tudo isto pode ser observado por qualquer turista. Estamos falando da zona sul, pois a norte, sempre passou despercebida pelos governantes, e para grande parte dos moradores da zona sul, tanto faz, do túnel Rebouças pra lá, vivem os invasores indesejáveis de suas praias, um dia, tão preciosas.

Eduardo Paes, desde que assumiu a prefeitura do Rio, em 2009, tornou a vida impraticável pra qualquer cidadão comum sair de carro a não ser que tenha dinheiro suficiente sobrando para pagar cerca de 35,00 de estacionamento privado por algumas horas, isto quando existir um por perto. Retiraram milhares de vagas por toda a zona sul da cidade, mas os transportes continuam os mesmos. Os únicos com vagas garantidas em qualquer lugar são os carros da prefeitura.

Ambulantes sempre existiram na cidade, fazendo a alegria dos cariocas. O cara do milho, da tapioca, da empada, do açaí… São trabalhadores incansáveis, cheios de alegria e bom humor que enfrentam o calor de quase 50 graus sempre sorrindo, cheios de boas histórias. Estão ali, todos os dias, faça sol ou chuva, tentando sobreviver, mas a prefeitura não permite e os caça impiedosamente, recolhendo suas mercadorias e ferindo a sua dignidade.

Alguém ainda quer viver aqui? Eu e a minha família nos mudamos pra serra, a 85km do Rio, mas tenho que confessar, o estado vai de mal a pior. O horizonte perdido daqui da serra também já não existe, e em nenhum outro lugar deste estado lindo por natureza e destruído pela ganância e falta de amor.

Mais do que uma crítica, esse foi um desabafo.

contioutra.com - O Rio de Hoje
Ipanema e Leblon em 1904
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Imagem atual

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“A Língua das Coisas”, curta metragem inspirado na obra de Manoel de Barros

“A Língua das Coisas”, curta metragem inspirado na obra de Manoel de Barros

Curta-metragem selecionado pelo programa Curta Criança do MINC e TV Brasil, livremente inspirado na obra de Manoel de Barros, exibido e premiado em festivais de cinema no Brasil e no exterior.

Sinopse

Em um sítio, distante de tudo, vivem o menino Lucas e seu avô. O avô só sabe a língua do rio, dos bichos e das plantas. Lucas está cansado da rotina de pescar e das histórias inventadas pelo avô, que diz pescá-las no rio: palavra por palavra. Um dia, a mãe de Lucas vem buscá-lo para morar na cidade. Mesmo contrariado, o avô o encoraja a ir para aprender a falar língua de gente. Na escola, a nova língua não entra na sua cabeça. Não cabe. E pra piorar, ele começa a escrever uma língua inventada, só dele. Todos pensam que ele tem um parafuso a menos. Em seguida, sua mãe recebe a notícia da morte do avô. De volta ao sítio, Lucas corre em desespero na esperança de encontrá-lo, na ilusão daquela notícia ser uma história inventada. Mas não é. Desolado, ele se senta a margem do rio, e sem se dar conta, dezenas de palavras são trazidas pela correnteza.

E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.

Manoel de Barros

A Língua das Coisas – The Language of Things from Caraminhola Filmes on Vimeo.

Dica da Conti outra: Saiba mais sobre a obra do poeta e conheça os projetos sociais da Fundação Manoel de Barros.

Espero que você seja feliz, mas bem longe de mim.

Espero que você seja feliz, mas bem longe de mim.

Por Nina Spim

Há algum tempo, presenciei uma situação com alguns conhecidos meus. Estávamos numa palestra na faculdade e, na fileira à nossa frente, havia duas meninas que, provavelmente, eram amigas. Elas conversavam e, é, às vezes elas tocavam os cabelos uma da outra. Ali, vi duas amigas sendo amigas. A gente toca em quem gostamos, certo? Até mesmo eu, que sou uma pessoa que se esquiva de contato físico, toco nos meus amigos, simplesmente porque é uma reação natural.

No entanto, alguns dias depois, qual foi a minha surpresa por pescar um assunto entre meus conhecidos que também viram a relação das duas meninas à nossa frente. Basicamente, eles estavam abominando o que presenciaram. Porque “só faltou que as meninas se beijassem” e, provavelmente, isso seria um escândalo.

Duas coisas vieram à minha mente. Primeiro: acho incrível o quanto as pessoas exageram em certos aspectos só para tentarem chamar à razão as outras. Como supracitado, as garotas estavam apenas sendo garotas amigas. E, segundo: quando foi que nos permitimos reprimir os outros pelas felicidades deles?

É provável que, se fossem um garoto e uma garota, a situação teria passado batida. Afinal, a gente vê um casal heterossexual em todos os lugares e nos habituamos a beijos públicos e demonstração de carinho de forma comedida. Raramente alguém reprime esses casais. Mas é comum encontrarmos pessoas que se incomodem com o amor alheio, quando ele é diferente do que esperam. Às vezes, a repressão vem em forma de uma olhadinha enojada, ou de um comentário preconceituoso (e equivocado) numa rodinha de amigos.

Quem coíbe não entende que está suprimindo a liberdade do próximo – ou talvez entenda, saiba exatamente o que está fazendo e não se sente culpado por tal ato. E não há como compreender esse tipo de gente. Se você está feliz, tudo bem demonstrar isso para quem quiser e tenho certeza de que, se alguém lhe dizer para “se comportar”, você se ofenderá. Então, por que praticar o que não quer que façam contigo? Por que se permitir ser aquela pessoa intolerante que não compreende que a felicidade alheia não é da sua conta? E que, acima de tudo, a sua liberdade termina quando começa a do outro?

Se ser feliz é se policiar o tempo inteiro e ficar se justificando por seus atos, talvez, muita gente precise repensar em seus conceitos e preconceitos. Ninguém deveria aceitar ser diminuído por outrem. E, se você não quer que te diminuam, comece a não diminuir as pessoas ao seu redor. Por mais que o “diferente” não agrade a muitos, o respeito é muito mais do que dizer que tem amigos gays, negros, gordos, ruivos, baixos (e de muitos outros jeitos), mas que prefere não tocar neles, ou sair com eles. Respeitar é compreender que vocês são diferentes e que essa pessoa merece ser tratada com tanta consideração quanto você é tratado.

Nota da Conti outra: o texto acima foi publicado com a autorização da autora.

contioutra.com - Espero que você seja feliz, mas bem longe de mim.

 Nina Spim

contioutra.com - Espero que você seja feliz, mas bem longe de mim.É uma escritora sonhadora dotada de blue feelings. Cursa Jornalismo na PUCRS, adora as palavras, mora nos livros, gosta de cinema como um esporte, é seriadora aos fins de semana e escritora compulsiva. Autora dos contos “Heart and Love” e “Coisas, definitivamente, de Amélia” das Antologias Amor nas Entrelinhas e Aquarela, respectivamente, pela Adross Editora.

Dona do blog http://ninaeuma.blogspot.com/

ReLOVution – por uma revolução do amor pelo o amor

ReLOVution – por uma revolução do amor pelo o amor

Por Tatiana Nicz

“Pessoalmente, desejo que o século XXI seja chamado de “século do amor”, porque necessitamos desesperadamente de amor, o tipo de amor que não produz sofrimento. Se não tivermos suficiente bondade e compaixão, não seremos capazes de sobreviver enquanto planeta. Há um Buda que supostamente nascerá para nós chamado Maitreya ou Bondade Amorosa, o Buda do Amor. Cada um de nós é uma célula no corpo do Buda do Amor.”

Thich Nhat Hanh no livro Eu Busco Refúgio na Sangha – um caminho espiritual

O século XXI segundo o monge budista Thich Nhat Hanh será marcado pela busca espiritual. Segundo ele, o século XX que foi marcado pelo individualismo, violência, confusão e medo, e nós temos uma grande missão para esse novo século: trazer consciência e atenção para nossas escolhas e atos, fazer com o coração. E é no coração que mora o remédio para salvar o mundo que está em um sentimento bem simples, mas que engloba uma complexidade enorme em si, o amor.

Se quisermos mesmo viver em um mundo melhor precisamos também com urgência, ressignificar o amor. O amor ou afeto, como dizem os psicólogos, é um dos sentimentos primordiais do ser humano, é instintivo, assim como todos os outros seres do planeta, nascemos programados para amar, isso está em nosso DNA. Mas o amor de hoje não é o mesmo que Jesus pregava, que o budismo se refere, o amor de Eros na mitologia Grega. Esse amor (juntamente com muitas outras palavras) é erroneamente confundido com outros elementos, e tornou-se tudo, menos amor.

O amor é um sentimento inerente ao ser humano, um bebê já nasce instintivamente amando e buscando a face da mãe, e sem nunca antes tê-la visto, ele já sabe reconhecê-la. Darwin quando escreveu a “Descendência do Homem” mencionou duas vezes a sobrevivência do melhor e 95 vezes a palavra amor. Mas Darwin, assim como muitos outros, foi mal interpretado, ou melhor, interpretado para ser utilizado como instrumento de domínio. A religião também fez esse papel, a essência da palavra pregada por Jesus ou Maomé é de amor puro e cooperação, não é de punição, nem pecado, nem sofrimento, nem guerra.

Os contos, livros e filmes fizeram seu papel construindo o mito do amor romântico e, ao mesmo tempo que isso é belo e “feliz para sempre” na ficção, na vida real é um tanto utópico. A maneira como as sociedades foram se organizando e criando uma gama de polarizações ao longo dos séculos acabaram por condicionar o amor. Hoje em dia fatores como crenças, religião, cor da pele, traços culturais, opção sexual, posicionamento político, aparência física e dinheiro são condições para amar e ser amado.

E assim, por buscarmos algo tão utópico e condicionado, amar hoje pode gerar muito sofrimento criando pessoas angustiadas, ansiosas, inseguras, deprimidas, que se sentem rejeitadas. O sentimento de posse que permeia os relacionamentos “românticos” é uma espécie de “cereja do bolo” na receita de um relacionamento fadado a ruir. O século mudou, o estilo de vida mudou, o mundo está em profunda “ebulição”, as sociedades estão se reorganizando com uma rapidez absurda, as distâncias encurtaram, mas ainda buscamos o mesmo modelo de união de séculos atrás. Está mais do que na hora de reiventarmos também esse formato de união (in)estável.

Para trazer mudança nesse padrão, inicialmente precisamos reaprender a amar nossas crianças. Ensiná-las a amar. Uma criança que cresce sentindo-se rejeitada, sem amor e acolhimento, torna-se um adulto inseguro e dissociado. Uma criança que cresce sem referências de amor puro, tem dificuldades para amar e muito medo, aprende logo cedo que amar é sofrer e recria esse padrão constantemente em sua vida e acredita que amor exige de sua parte muito esforço. Mas o amor puro vem de graça, sem grandes esforços e sem sofrimento, ele apenas é.

Também precisamos amar a nós mesmos, é um clichê que poucos realmente seguem, sim amar a si próprio, aprender a perdoar-se, a ser menos crítico e mais gentil com nossas imperfeições e a aprender a amá-las também. Depois que nós nos amamos incondicionalmente tudo fica mais leve, também o amor pelo outro fica mais leve. Quando entendemos que todos nós somos passíveis de sermos amados e merecedores de receber amor de graça pelo (muito) que somos, todos os relacionamentos se tornam mais leves. E então aprenderemos a amar apenas por amar, sem direito de posse, sem julgamentos e pre(-)conceitos, sem cobranças, sem condicionamentos, sem expectativas, sem culpa e sem medo, pois o amor precisa ser livre de tudo isso para ser puro.

Nesse contexto atual, drenamos do amor o seu elemento primordial e que o torna tão especial: a liberdade. A liberdade de apenas ser, a liberdade de escolher, a liberdade de fluxo e movimento, a liberdade de viver livre de sofrimentos e apegos. Sim, o amor é a lei maior, o remédio para todos os nossos males e só ele pode salvar o mundo, mas antes que o amor possa revolucionar o mundo, precisamos ainda revolucionar o amor.

“#Somos todos Baga?” Será que essa pega?

“#Somos todos Baga?” Será  que essa pega?

Não bastasse a profunda dor causada pelo terrorismo em solo francês, mais de dois mil nigerianos foram vítimas, na cidade de Baga, de ato terrorista praticado por radicais islâmicos. O massacre se deu, conforme afirma a Anistia Internacional, no dia 8 de janeiro, enquanto o mundo voltava os seus olhos para a França.

Afirmou o responsável pelo distrito, Baba Abba Hassan, que a maioria das vítimas são crianças, mulheres e idosos que não conseguiram fugir quando o grupo terrorista invadiu Baga, com granadas e fuzis.

Até a data de ontem, as centenas de corpos ainda estavam espalhados pela cidade, posto que, pelo elevado número, foi impossível ao povo e às autoridades providenciar os enterros.

Então, pergunto: Será que a comunidade internacional se mobilizará, comovida, também em defesa dos mortos na Nigéria? Ou será que a dor de milhares de pessoas só merece holofote quando as vítimas são brancas, cultas e faz parte do dito “Primeiro Mundo”?

contioutra.com - “#Somos todos Baga?” Será  que essa pega?
O grupos radical islâmico Boko Haram tem cometido uma série de atentados na Nigéria

Fonte:  Vermelho

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Reflexo turvo

Reflexo turvo

Por Marcela Picanço

Talvez eu seja mesmo um caso à parte, como todo mundo sempre me diz, mas eu custo a acreditar. Sinto-me complemente encaixada e igual às outras pessoas. Com os mesmos dilemas e situações reversas. Por isso, acho que consigo falar de mim e ser ouvida por muitos. A identificação é reciproca. Mas, em alguns momentos em que eu me desligo, sinto-me parte de outro lugar. Como se eu pudesse comandar um mundo feito com as minhas ideias. Sinto-me como a lua em suas nuances. Às vezes, minguo; outras vezes, quero aparecer por inteira. Mas esse processo de transformação me destrói por dentro. Como uma lagarta que vira borboleta ou a cigarra que canta desesperadamente antes de sair da sua casca para encontrar outra dimensão.

Vou tentando, aos poucos, adaptar-me a mim mesma, sem entender muito esse processo. Quando eu mudo, passo os dias refletindo e me testando, até eu dizer chega. Uma hora acaba e eu me acostumo com esse novo “eu”, pronto para dar mais um jeito na vida. Pronta para pegar as malas de novo, sair por aí procurando um lugar que me mantenha sempre viva. Sempre tive muito medo de amar, porque amar era a certeza que eu tinha de que estaria estagnada. Mas amar é só mais uma forma de voar, mantendo a cabeça em algo fixo. E, às vezes, eu sinto que tem um buraco dentro de mim. E, em vez de sair procurando algo que faça essa dor parar de arder, eu me procuro por todos os cantos, até concluir que eu faço parte de todos os lugares. Eu faço parte de mim, mas não há nada no mundo que consiga preencher esse abismo que existe aqui dentro, ou algo que cesse essa fome pelo presente, pelo inconstante.

Se tentam me definir, eu viro bicho. Sempre fui o indecifrável, por mais que tente interpretar minhas ações constantemente. Sempre me confundo entre minhas verdades, porque, para ser tão eu, é preciso ser vários ao mesmo tempo. Desafio-me o tempo todo, dentro da minha cabeça, fazendo um nó que se expande até meus cabelos e os deixam completamente embaraçados. Fico embriagada diante de tanta euforia, ao tentarem me entender. Eu sou o avesso do questionamento, mas também sou o contrário da resposta. Se um dia me encontrar, eu volto pra tentar lhe explicar e deixo de ser tão louca, tão solta, tão eu.

Grandes pensamentos da Psicologia: seleção ilustrada

Grandes pensamentos da Psicologia: seleção ilustrada

Por Josie Conti

Para quem conhece o Trabalho da CONTI outra no Facebook e no site, não é novidade que as temáticas trabalhadas passeiam pelos campos da arte, do comportamento humano e da literatura. Não há nenhum compromisso com excesso de cientificidade ou com nenhuma profissão em específico.  O objetivo do trabalho é o convite à reflexão, à contemplação e ao sentimento.

Assim, segue a seleção de reflexões abaixo. Estão destacados pensamentos de grandes autores da Psicologia. A seleção é pessoal e não priorizou ou excluiu nenhuma escola voluntariamente, embora certamente deva ter excluído, uma vez que o número de frases é restrito.

Façam um bom passeio!

 “Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, sem querer”

Sigmund Freud

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“Eu faço as minhas coisas e você faz as suas.
Eu não estou neste mundo para satisfazer as suas expectativas.
E você não está neste mundo para satisfazer as minhas.
Você é você, e eu sou eu.
E, se por acaso, nós nos encontrarmos, será ótimo.
Se não, nada se pode fazer.”

Frederick Perls

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by Nom Kinnear-King

“Conheça todas as teorias,domine todas as técnicas,mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana” 

Carl Gustav Jung

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Art by ZsaZsa Bellagio

“Se algum desejo seu não for atendido, não se surpreenda. Nós chamamos isso de vida.”

Anna Freud

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“Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou” 

Jacques Lacan

contioutra.com - Grandes pensamentos da Psicologia: seleção ilustrada

 

“Os principais problemas enfrentados hoje pelo do mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano” 

B. F.Skinner

 

 

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Art by Christian Schloe

 “Não podemos mudar, não podemos nos afastar do que somos, enquanto não aceitarmos profundamente o que somos”

Carl Rogers

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“Se nossos pensamentos forem limpos e claros, estaremos melhor preparados para alcançar nossos objetivos.”

Aaron Beck

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“Eu queria provar que os seres humanos são capazes de algo maior do que guerras, o preconceito e o ódio. Eu queria fazer ciência considerar todos os problemas que os cientistas não conseguiram: a religião, a poesia, valores, filosofia, arte. Eu continuei com eles tentando entender as pessoas grandes, os melhores exemplares da humanidade que pude encontrar”

Abraham Maslow

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Catrin Welz-Stein

“Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.”

Skinner

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Art by Erin Case

O fato da consciência humana permanecer parcialmente infantil por toda a vida é o âmago da tragédia humana.”

Erik Erikson

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Art by Alessa Lannetti

“O desejo é a essência da realidade. “

Jacques Lacan

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Le gardien by Sophie Wilkins

 “Nasceu gente é inteligente”

Jean Piaget

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Art by Erin Mcguire

“A criança joga (brinca), para expressar agressão, adquirir experiência, controlar ansiedades, estabelecer contatos sociais como integração da personalidade e por prazer.”

Winnicott

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Catrin Welz-Stein

Eu sou Charlie, mas não muito

Eu sou Charlie, mas não muito

Por Nara Rúbia Ribeiro

Toda e qualquer violência praticada contra um ser humano é um ato reprovável. Mas não é só o corpo que se pode violentar. Afinal, o homem não é só a matéria corpórea que veste. É o infinito de suas abstrações. Assim, podemos violentar o pensamento do outro. A vontade do outro. A sua liberdade. A sua fé. Por isso, digo acerca do atentado terrorista que ceifou a vida dos colunistas da Revista Charlie Hebdo, na França, primeiro que sou Charlie, posto que qualquer violência praticada contra um humano é uma violência a toda a Humanidade. Mas observando o comportamento editorial da Revista vitimada, afirmo: Eu sou Chalie, mas não muito.

É preciso, no exercício da alteridade, se colocar também no lugar de pessoas de diversos credos que se ofendiam cotidianamente com charges grotescas dessa revista. Não há democracia sem liberdade de expressão, mas nunca devemos nos esquecer de que nossas expressões são livres para edificar e consolar, informar e instruir. As asas dessa liberdade têm espaço delimitado de voo, pois várias outras liberdades devem com ela conviver, harmonicamente. Incluindo, aqui, a liberdade religiosa.

O que a Charlie promoveu, durante anos, foi uma discriminação mascarada de humor. Foi o achincalhamento, a zombaria, a desonra de povos inteiros e de seus valores.

Vindos, em sua grande maioria, das ex colônias francesas, mais de 6 milhões de muçulmanos residem na França. Estes sempre foram inseridos na sociedade francesas como se fossem de “uma segunda classe”: pobres, vítimas de preconceitos, hostilizados por sua crença. Mas, como tudo pode piorar, a Revista Charlie

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O Alcorão é uma merda – Isto não para as balas

tratou de cuidar disso. Criando dezenas de charges ofensivas contra o Islã, a Charlie acentuou o preconceito e ainda profanou preceitos sagrados daquela religião. O povo islâmico era sempre retratado como idiotas armados em prontidão para matar e explodir, e Maomé, que para essa crença não pode ser de modo algum retratado, era objeto de escárnio, em charges de extremado mau gosto.

Penso que os homens, por conveniência, só sabem individualizar o humano quando se esquece do coletivo, na busca do que é seu. Quando se trata do outro, nós o massificamos. Pertencem a categorias rotuladas, e, para a Revista vitimada, esses rótulos eram escritos em letras garrafais, com tinta luminosa. Para eles, judeus, cristãos, muçulmanos, o exercício dessas crenças, é algo que faz o crente um humano menor, indigno de respeito.

Em todos os credos, em todas as religiões, há pessoas de diferentes níveis de evolução moral, mental e espiritual. Nivelar a todos, é falta de inteligência do avaliador. Nivelar ao patamar do mais raso dos indivíduos, é vilania. Não raro, era esse o trabalho da Charlie.

contioutra.com - Eu sou Charlie, mas não muito
Pai, Filho e Espírito Santo.

Ainda me lembro do quanto me entristeceu ver uma charge dessa Revista onde a trindade católica era retratada na prática de uma orgia, quando, em ato sexual, os seus três elementos se penetravam. Entristece-me essa maldade de querer destruir algo que, para dado povo, é santo e perfeito. A que serve isso?

Sempre digo que tolero quase tudo. Só me falta aprender a tolerar sem dor o convívio com os intolerantes. Eles existem em todas as crenças, mas não se restringem a elas.  Intolerantes são também aqueles que, intelectualizados, se acham acima de dogmas e preceitos alheios, mas que querem impor a sua própria visão de mundo, não raro, pela força, criando, assim, o seu próprio séquito.

 O que fizemos aqui foi um exercício que, para os criminalistas, é chamado de vitimologia. Analisando o comportamento da vítima e as suas implicações para a ocorrência do fato criminoso. Isso, contudo, não isenta o algoz de sua culpa. O terrorismo é uma das mazelas mais profundas do mundo. Coloca em xeque os bens mais valiosos da sociedade e, não raro, os seus agentes o fazem em nome de Deus

Por tudo isso eu sou Charlie, posto que qualquer violência praticada contra um humano também me fere. Mas também sou as milhares de pessoas a quem a Revista ofendeu, prejudicou, humilhou e fez acentuar o preconceito que já sofriam. E sabedora de que ainda teremos desdobramentos desse triste incidente, espero que aprendamos a lição de respeitar a vida de cada indivíduo, em sua ímpar dimensão existencial, e que as liberdades tenham asas, mas que voem sem zombarias, sem humilhações, e sem rótulos.

Para complementar o raciocínio do texto acima, “Somos os infernos dos outros?” – Leandro Karnal

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

contioutra.com - Eu sou Charlie, mas não muito

Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

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Aquebrantando padrões: desavenças

Aquebrantando padrões: desavenças

Por Tatiana Nicz

“Mariana é viciada em repetições. Precisa viver e reviver sempre as mesmas frustrações porque, assim, sente-se segura. Dessa maneira, ela acha, outras frustrações não viverá. As mesmas, ela já tira de letra, acostumada.”
Aritmética – Fernanda Young

Sabemos que crianças aprendem através de exemplos, esses dias vi uma propaganda bem forte do Governo Australiano que mostra crianças imitando os adultos, xingando, fumando, bebendo, brigando. Isso ficou mais claro para mim quando vi uma criança de 3 anos xingando, fiquei surpresa, mas fez sentido quando lembrei da propaganda, muita gente usa xingamentos como se fosse algo banal, então é compreensível ver crianças tão pequenas falando algo tão ofensivo quando estão com raiva, porque raiva todo mundo tem, para elas deve ser qualquer coisa que se fala quando se está com raiva.

Automaticamente nós repetimos outros que repetiram outros que repetiram outros – e aqui não colocarei culpa apenas nos pais, todos nós na sociedade temos responsabilidade. Não sei exatamente quando isso começou, mas me baseando pela Bíblia, acho que já faz um “tempinho”. Enfim, o ponto é: se a gente não fizer algo com consciência, tendemos a repetir padrões. E o problema é que na raiva, não há consciência.

[Aparte:
Quando levantamos o tom de voz ou falamos de maneira agressiva com alguém é porque estamos com raiva, sim sei, isso é bem óbvio. Mas uma teoria da neurologia diz que a raiva é também acessada na parte basal do cérebro – o reptiliano (ver teoria do cérebro trino) – então quando estamos com raiva ou nos sentimos ameaçados somos incapazes de pensar e agir de maneira racional. Sendo assim, em uma discussão quente não existe racionalidade, o que existe são palavras que machucam e raiva, muita raiva. E isso nos impossibilita de dialogar ou de se conciliar (pelo menos naquele momento). Fora os níveis de estresse que isso causa: quando estamos estressados o cérebro manda sinal para o corpo de que estamos em perigo, quando estamos em estado de alerta as glândulas supra-renais produzem um hormônio chamado cortisol, o cortisol faz o corpo diminuir a queima calórica para poupar energia, não quero me estender em detalhes técnicos, mas na prática é bem simples, cortisol deixa o metabolismo lento, ou melhor, engorda. Viver com raiva deve causar muito mais danos à nossa saúde, mas vocês entenderam o ponto, então vou me ater apenas à essa palavra mesmo que já serve para assustar muito gente: engorda. Ou seja, além de não conseguir resolver algo, porque com raiva ninguém consegue pensar, tem esse pequeno bônus que é engordar.
Fim do aparte]

Eu cresci em um lar aparentemente normal, tinha pai e mãe, mas eles brigavam, até que se separaram e (para não perder o costume de pais que se separam) brigaram mais um pouco. Tinha irmão e irmã, mas a gente brigava. E contaram para nós que era normal o casal brigar, que era normal irmão brigar. Como em muitas outras casas isso também acontecia, parecia que era normal mesmo. Fazia sentido que desavenças sejam normais entre pessoas que dividem o mesmo teto, mas não tinha tanta certeza em qual nível e frequência deveria ser considerado “normal”, afinal qual é o limite de “normal”? Ou melhor, normal não sei se existe, mas então do saudável? Lembro que sentia raiva, muita raiva e já naquela época não fazia sentido que isso deveria ser tão normal/saudável assim.

Vi que talvez não fosse, quando uma amiga foi me visitar. Acho que não nos damos conta que estamos acostumados com algo que não nos faz bem até vermos a cara de espanto de outra pessoa, foi assim naquele dia, minha irmã e eu começamos a discutir e quando vi a menina estava assustada dizendo que queria ir embora. Eu entendi a razão de sua surpresa depois que conheci a família dela: acolhedora, harmoniosa e sorridente. Pessoas para lá de especiais que gosto muito. E hoje, tantos anos depois, finalmente entendi sua reação: tudo é questão de costume, mas a gente também se acostuma com as coisas que não fazem bem e passa a achar “normal”, realmente, para quem não está acostumado e para qualquer ser, brigar não é legal. Pelo menos eu não gosto. Então é uma pena mesmo que nos acostumamos.

E tão ruim quanto brigar é ver os outros brigando. E o problema é que quando estamos com raiva é difícil ponderar, respirar, entender que devemos poupar os espectadores, olha, tem que treinar muito para conseguir isso. É o que eu pretendo. Porque ninguém briga sozinho, existe na briga um processo de retro-alimentação. E tem um agravante no padrão de repetição, se você se acostuma com o caos, é só nele que você vai aprender a viver. Como brigava com meus irmãos, acho que desenvolvi habilidades para viver no caos que não tinha em tempos de harmonia, fases de harmonia me entediavam, então inconscientemente passei a reproduzir situações caóticas e dramáticas na minha vida para me sentir à vontade.

Até que um dia o drama de verdade, aqueles de filmes que a gente se mata de chorar, do tipo que vem em turbilhão e muda tua vida de cabeça para baixo, alheio à sua vontade e escolhas, então esse tipo, bateu na porta. Quando isso acontece a única alternativa para você continuar a viver bem é justamente não dramatizar. Então que eu finalmente aprendi a mudar o canal. Mas também não estou sozinha nisso, tem muita gente acostumada com o caos e o drama, tem muita gente reconstruindo esse ambiente à sua volta. Parece que as pessoas estão em geral mais adaptadas ao caos do que à paz. Vivemos em estado de alerta e por muito pouco ou quase nada brigamos. Talvez isso também está contribuindo para deixar a população mundial mais pesada – em todos os sentidos.

Como eu acredito que toda mudança é possível, mas para isso temos que querer, não com pouco trabalho estou aprendendo a aquebrantar esses padrões, para isso resolvi seguir alguns passos:

1) aprenda a se relacionar em paz com você mesmo, seja gentil com deus defeitos e fragilidades e pare de se punir tanto; lembre-se que você também precisa ser uma boa companhia para você mesmo e para os outros;
2) aprenda a se proteger, livre-se de ambientes e relacionamentos com pessoas que vivem nesse padrão, nesse ano que passou me afastei de muitas pessoas, mesmo de pessoas que eu amava, para o bem de ambas as partes, porque juntos criamos certo padrão;
3) tenha filtro, escolha conscientemente relacionamentos e círculos de amizade mais harmoniosos;
4) aprenda a respirar e ter calma na hora de uma discussão, a escolher melhor as palavras quando as palavras do outro começam a doer. (é nessa parte que não cheguei, ou melhor cheguei, mas ainda não consegui dominá-la).

E a solução está no costume: temos que nos acostumar também com o fato de que podemos sintonizar outro canal e viver em harmonia e, igual minha amiga lá em cima, realmente quanto menos caos você tem em sua vida, mais sensível à ele você fica. Hoje o caos tem me incomodado muito mais. Um palavrão ou xingamento para mim tem sentido e muita força, não é apenas uma palavra torta no meio da raiva. Talvez mais alguns anos de treino me ajudem a chegar no número 5 como diz a Bíblia: “Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra;”.

Então mãos à obra, tem muito trabalho pela frente! Em tempo: para 2015 anotado, leveza de ser, ou seja, mais amor e menos “guerra”.

AS FÉRIAS DA BABÁ

AS FÉRIAS DA BABÁ

Por Gustl Rosenkranz

Se tem uma coisa que não gosto é o cinismo com o qual muita gente tenta se isentar da sua responsabilidade social. Vejo ricos, novos ricos e gente de classe média continuando a praticar um regime de quase escravidão, tratando empregados (principalmente os domésticos) como se fossem pessoas de segunda categoria, sem direitos e, pior ainda, sem dignidade humana. Se alguém duvida de que essa mentalidade primitiva é herança dos colonizadores portugueses, que vá a Portugal e veja de perto como até hoje os criados são tratados por lá.

Sim, me incomoda o cinismo, que vivi mais uma vez bem de perto em uma das minhas estadias em Salvador. Fiquei hospedado num hotel em Itapuã. Como não era verão e o carnaval estava muito longe, encontravam-se entre os hóspedes poucos estrangeiros, prevalecendo o turista brasileiro, de classe média alta. Lá também estava uma família do Sudeste do país: pai, mãe, avó e quatro crianças mal-educadas, que corriam e gritavam todos os dias às sete da manhã nos corredores do hotel, acordando a todos, ao ponto de eu um dia levantar mal-humorado, refletindo sobre canibalismo e desejando que Herodes passasse por ali. É claro que essa família havia trazido uma babá, que durante todo o tempo tinha que ficar correndo atrás das crianças, cuidando, tentando educar, desesperando-se. Observei por dias seguidos tal família, ficando horrorizado com a forma como lidavam com a criada, a serviçal, a semi-escrava. Os pais (e também a avó) queriam descansar, o que é compreensivo, pois para isso foram à Bahia. Portanto, as crianças eram encaminhadas para a babá, sempre que queriam algo. Eles nem mesmo respeitavam o direito da babá de ter alguns minutos para comer em paz. Como os encontrava diariamente no café da manhã, vi que a coitada nunca podia tomar o seu desjejum sossegada, sendo constantemente interrompida pelos pais, pelas próprias crianças ou pela vovó preguiçosa, que era incapaz de ir pessoalmente ao quarto buscar algo que ela mesma por negligência havia esquecido. A babá tinha que largar o café na mesa e correr para atender os desejos do senhorio. À noite, o casal saía, a vovó ficava de bate-papo furado na recepção e a empregada, que dormia no mesmo quarto que os quatro monstros em miniatura, cuidava de todo o resto.

Certo dia, fiquei mais tempo sentado no restaurante do hotel, após o café da manhã, assistindo um programa na televisão, que me impressionou pela superficialidade. As pessoas foram-se aos poucos, ficando somente eu, a matriarca, as crianças e naturalmente a babá. Como essa última cuidava dos traquinas, a mãe sentiu-se com certeza entediada, começando uma conversa comigo. Desviei minha atenção do programa de televisão para a senhora, esperançoso de que o conteúdo de tal diálogo seria melhor do que aquele apresentado pela loira televisiva com o seu papagaio sintético esquisito. Infelizmente fui decepcionado, escutando um monte de abobrinhas, presenciando uma ignorância social (e geográfica, pois ela achava que o Ceará teria fronteira com a Bahia) que me meteu medo. A mulher falava mal dos funcionários do hotel (todos preguiçosos e pouco profissionais), da Bahia (que achava um lugar sujo e bagunçado), dos baianos (um povo burro e lento) e de tudo aquilo que não cabia no seu pequeno universo de madame brasileira. Críticas compreensíveis até certo ponto, já que a prestação de serviços na Bahia é algo que realmente deixa muito a desejar, mas incompreensíveis devido ao tom de arrogância com o qual essas palavras foram ditas. A certo ponto, ela parou de criticar os outros, passando a elogiar a si mesma, indo ao cúmulo do cinismo quando disse o quanto ela (como patroa) era uma pessoa boa, tão boa que estava pagando as férias da babá em Salvador.

OPPS, PERAÍ! FÉRIAS OU TRABALHO?

Fiquei abismado com o que ouvi e ousei-me questionar se as “férias” da babá não seriam na verdade trabalho, mais exatamente um plantão de 24 horas por dia e 7 dias por semana, mas mulher não entendeu (ou não quis entender), apontando para a criada e sugerindo que ela estava muito feliz. Olhei para a babá e vi como a pobre coitada estava “feliz”, catando miolo de pão do chão, que duas meninas capetas continuavam a jogar para cima, sem que ninguém percebesse a indignidade da situação.

Despedi-me e fui embora sem mais comentários, pois tive medo de perder a diplomacia e terminar “rodando a baiana”, dando a ela motivos para supor que o baiano, além de “preguiçoso, lento e burro”, seria também grosso.

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