A sociopatia no filme “O Abutre”

A sociopatia no filme “O Abutre”

Por Octavio Caruso

“O Abutre” (Nightcrawler), de 2014, o primeiro trabalho como diretor do roteirista Dan Gilroy é simplesmente brilhante. A melhor sequência, dentre várias que poderia destacar, representa a esperteza do roteiro em inserir o espectador na pungente crítica que direciona ao jornalismo baixo e imediatista que é realizado nos dias de hoje. Como eu sempre digo: a sociedade não cria os abutres, ela os alimenta. Na sequência do crime na mansão, Gilroy nos convida a seguir os passos do protagonista Lou Bloom, vivido impecavelmente por Jake Gyllenhaal, uma longa travessia por corpos ensanguentados, num crescendo de horror que, por incrível que pareça, não suscita reação alguma no rosto do jovem que manipula sua câmera como uma arma. A frieza dele, planejando cada passo, até mesmo modificando elementos na cena, objetivando captar o brutal cenário da forma mais cinematográfica, por conseguinte, mais atraente para a sua cúmplice na estação de televisão, vivida por Rene Russo, sua alma gêmea na total ausência de caráter e ética.

Um sociopata se define pelo comportamento antissocial, sem amarras morais, podendo apresentar tendências criminosas. Bloom é mostrado em seu cotidiano como alguém que rega sua plantinha, ou registrando suas participações na televisão, porém, fora isso, ele parece não ter amigos, namorada, em suma, ele carece de empatia e vive uma rotina sem nenhum apego com a sociedade. A sua atitude arrogante, que consiste em, invariavelmente, e de forma cínica, manter o foco da atenção em suas ações, uma imagem distorcida de autoavaliação, que transparece uma segurança fora do comum. A sua interação com os outros é limitada a frases rápidas, abordagem direta, como um titereiro habilidoso, resultando em relacionamentos intensos e instáveis, objetivando apenas sua ambição impulsiva de momento: crescer na indústria do telejornalismo, aproveitando a brecha dos profissionais sem escrúpulos e a fome de um público, os abutres, que consomem esse sensacionalismo barato. Quem se opuser a esse caminho, será simplesmente eliminado.

Ele sabe que quanto mais demorar sua exploração, melhores serão os números de audiência, o espectador chocado terá tempo de avisar o vizinho, os familiares, os colegas de trabalho. O momento mais inteligente ocorre quando ele adentra o quarto do bebê. Nós não sabemos absolutamente nada sobre aquela família, apenas visualizamos um quarto decorado de forma infantil, com um berço posicionado no centro. É quando o roteiro implacavelmente nos insere na crítica. O personagem se aproxima lentamente do berço, fazendo com que nós compartilhemos o mesmo frenesi daqueles que perdem vários minutos na frente da televisão acompanhando uma perseguição de carro ou um sequestro em tempo real. Nós, os abutres que somos alimentados por esse jornalismo cretino. Nós que não conseguimos desviar os olhos, numa mistura de sentimentos humanamente ambíguos, por um lado, desejando que o bandido seja preso logo, por outro, desejando que ele consiga driblar a polícia por mais tempo, para que aquela emoção da caçada nos tire de nosso cotidiano apático.

É exatamente o sentimento odioso que mantém programas sensacionalistas policiais no ar, com tanta audiência, invadindo as casas dos brasileiros até mesmo na hora do almoço. Voltando à cena, o diretor corta antes de revelar o interior do berço. A intenção é nos estimular a repulsa por algo que não vimos. O espectador comenta com sua companhia na sessão: “Nossa, ele filmou até o bebê morto, que monstro insensível”. Alguns minutos depois, como que com um sorriso sarcástico de quem provou sua tese com louvor, o filme revela que não havia bebê algum no berço, aquele quarto, provavelmente, estava sendo preparado para uma criança que ainda não nasceu. E, mais além, descobrimos que a mansão era de traficantes de drogas.

Todo o investimento emocional do espectador, tanto o real, quanto o do noticiário na obra, foi manipulado pela irresponsável estação de televisão, que, numa atitude coerente à podridão de todos os atos anteriores, decide se negar a evidenciar essa conclusão. O mais importante para um jornalismo imediatista é que o público, resumido a números numa conta bancária, se mantenha na frente da televisão, ou folheando as páginas do jornal, pelo maior tempo possível. Contar a eles que a pobre família vítima dos assassinos era, na realidade, um bando de criminosos, iria afastar o público. Quando o jornalismo perde o senso de moral, ele se torna uma busca desesperada por manchetes sensacionalistas, simplificando qualquer discurso a imagens de impacto, visando o choque, nunca a reflexão. Essa longa sequência é apenas um dos motivos que fazem com que o filme seja uma obra espetacular, pensada para adultos, com uma coragem que faz falta na indústria.

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OCTAVIO CARUSO

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Carioca, apaixonado pela Sétima Arte. Ator, autor do livro “Devo Tudo ao Cinema”, roteirista, já dirigiu uma peça, curtas e está na pré-produção de seu primeiro longa. Crítico de cinema, tendo escrito para alguns veículos, como o extinto “cinema.com”, “Omelete” e, atualmente, “criticos.com.br” e no portal do jornalista Sidney Rezende. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, sendo, consequentemente, parte da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

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A Cidade dos Ratos

A Cidade dos Ratos

Por Lúcia Costa

Contam que aquele Rato morava em uma enorme toca com sua esposa Rata e seis Ratinhos de olhos recém-abertos.

A gruta daquele casal tomava um espaço que poderia abrigar umas centenas de ratos. O queijo encontrado lá dentro dava para alimentar outros mil. Dona Rata reinava com sua dúzia de criados que cuidavam da casa, dos filhos e dos espaços não preenchidos.

A comunidade de ratos que sobreviviam próximo àquela vasta gruta particular crescia aos pulos. Apinhavam-se em minúsculas tocas e se alimentavam do lixo encontrado em uma enorme mansão que surgia em meio a um jardim com labirinto e lago.

À noite, a multidão de ratos esfomeados invadia a cozinha da mansão e comia tudo que achava pela frente. Ao amanhecer, constatava-se a devastação retratada pelos restos de comida e a sujeira espalhada pelos enormes cômodos da casa.

Os donos da mansão criavam um gato a muito leite e grandes mimos. Todo aquele banquete noturno dos ratos em seu território, e ele nem se mexia. Abria levemente um olho, certificava-se de que sua comida permanecia intacta e sua cama seca e limpa, fechava o olho e dormia, dormia, dormia…

A dona da casa, cansada daquela sujeira matinal, ordenou aos empregados que comprassem muitos quilos de queijo e colocassem veneno. Alguém teria que dar um fim àquela baderna. Alguém teria que acabar com a farra dos ratos. E assim o fizeram: envenenaram o apinhado de queijo e espalharam pelos caminhos onde a ratarada marchava em procissão durante a madrugada, à procura de comida.

A noite esfriou e os ratos não se demoraram em fazer a festa na mansão; o veneno não tardou em seu efeito. Foi uma carnificina geral: tombavam ratos velhos e ainda bem moços, no útero e recém-nascidos. Era uma podridão que infectava outros tantos e os mortos se multiplicavam. A cidade dos ratos estava perdendo sua população periférica.

Só a propriedade do Rato permanecia intacta. Ele não deixava os doentes entrarem em seus limites. Mandou cercar com fios elétricos tudo o que lhe conferia. Mas um dos ratos, enquanto fechava os olhos para as cores do mundo, lançou uma dúvida à comunidade pouca e restante: como aquele rato que colecionava grilhões de queijo em seus domínios não fora, ele e família, atingido pelo veneno? Afinal, todo o queijo daquela sociedade vinha da mansão.

A explicação fugia aos ouvidos da plebe que o veneno sufocava e matava. Acontece que, às escondidas, o gato da casa levava talhos de queijo ao rico Rato. Não só aquele gato; outros vários bichanos de mansões vizinhas também lhe presenteavam com quilos e quilos da mesma iguaria, subtraída dos seus ricos patrões. Em troca, exibiam-se pelos jardins correndo atrás do rico Rato e de sua esposa, dona Rata. Tudo previamente combinado entre ratos e gatos para impressionar seus donos.

Aos domingos, o espetáculo era ensaiado aos olhos dos milionários das mansões que se reuniam em seus admiráveis jardins para apreciar seus bichanos enquanto perseguiam ratos. Apreciação e orgulho. Felinos sendo felinos e ratos sendo ratos.

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Linguagem dos mudos, por Rubem Alves

Linguagem dos mudos, por Rubem Alves

Quando eu era menino, com os meus colegas de escola aprendemos, por conta própria, a linguagem dos surdos-mudos, e assim conversávamos entre nós. Lição aos pedagogos: criança, quando quer, aprende, espe­cialmente se a coisa não for lição de casa. Ainda hoje me lembro. Con­sigo falar com as mãos. Coisas simples. Ler é mais difícil. É preciso que a conversa seja vagarosa. Pois visitando o Instituto Metodista de Lins, um grupo de adolescentes me apresentou um colega surdo-mudo. Eu o saudei na linguagem dos surdos-mudos. O sorriso dele foi maravilhoso! Ficamos amigos sem um único som. O mesmo aconteceu, faz poucos dias, no caixa do Pão de Açúcar. Fiz uma brincadeira com o jovem que estava pondo minhas compras nos plásticos e ele não disse nada. Aí a caixa explicou: “É surdo-mudo…”. Falei com ele em linguagem dos surdos-mudos. De novo, foi aquela alegria! Não seria legal se as crianças e adolescentes, por puro prazer, aprendessem o alfabeto dos surdos-mudos? Não se aprende inglês e francês? Deveriam aprender, nas escolas, como parte de um projeto de inclusão.

Rubem Alves no livro “Ostra feliz não faz pérola”.

Conheçam o Instituto Rubem Alves e participem de seus projetos.

Veja um exemplo!

Para exemplificar a profundidade do que foi dito, deixo a baixo um vídeo promocional da Sansung onde os moradores de um bairro em Istambul aprenderam a língua dos sinais para surpreender Muaharrem, um dos seus vizinhos, que é surdo e usa a linguagem dos sinais para se comunicar. O resultado do trabalho é incrível e realmente emocional, como nos descreve Rubem Alves no texto acima.

Dica de livro: Sete Vezes Rubem (Fruto do trabalho de uma década, esta obra reúne sete livros de Rubem Alves publicados pela Papirus entre 1996 e 2005.)

Filho de Audrey Hepburn dá entrevista exclusiva, fala dos bastidores e deixa recado aos brasileiros

Filho de Audrey Hepburn dá entrevista exclusiva, fala dos bastidores e deixa recado aos brasileiros

Audrey Hepburn é um dos nomes mais respeitados na história do cinema, uma atriz que se envolvia com os problemas sociais, muito antes disso se tornar uma calculada ferramenta de autopromoção, ela era genuinamente interessada em legar para as gerações posteriores uma realidade mais justa. E, em mais uma entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, conversei por um par de horas no Skype com o filho dela, Sean Hepburn Ferrer, que, gentilmente, aproximou ainda mais sua mãe dos cinéfilos brasileiros. E, num gesto de extrema simpatia, fez questão de enviar essa foto. Thank’s, Sean!

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O – A sua mãe é um ícone de feminilidade e liberdade, um símbolo de uma época mais elegante no mundo, mas, como um apaixonado pelo cinema, desde a infância, a sua mãe é um ícone de alta competência enquanto atriz. Ela fazia parecer tão fácil, e, como Fred Astaire ensinou com sua dança, isso é o elemento mais difícil. Como ela se sentia atuando? Ela era confiante, enquanto atriz?

S – Não, ela não era confiante, na realidade, ela não se reconhecia como uma atriz, por isso que ela tratava todos com muita gentileza nos sets de filmagem. Ela era sempre pontual, não tinha aqueles rompantes típicos de estrelismo. Ela era treinada como dançarina, então ela sabia tudo sobre trabalho duro. E ela não podia ser bailarina, ela era muito alta, para o perfil das dançarinas de sua época, até pelo ponto de vista do desenvolvimento muscular, então ela teve que escolher outra carreira. Após a guerra, ela e sua família não tinham nada, mas juntaram o que tinham para se mudarem para Londres, e a vida a levou a seguir adiante. Mas há um frescor em sua atuação. Ela não se via exatamente como ela era, o que, de certa forma, era um precursor do método de atuação de Stanislavski, ela realizava algumas porções disso, como pesquisar o personagem a ponto de torná-lo real, mas fazia isso de uma forma natural.

Quando ela se preparou para “Um Clarão nas Trevas”, ela passou seis semanas em um instituto para cegos, para entender como eles se comportavam, como se moviam, seus hábitos.  Quando ela se preparou para “Uma Cruz à Beira do Abismo”, ela passou um tempo em um convento, para realmente entender como era a rotina. Quando se preparou para “Minha Bela Dama”, ainda que ela tivesse controle pleno da linguagem, do sotaque britânico, cockney, ela achou importante se preparar, como para tudo, da mesma forma como para seu trabalho como embaixadora do Unicef, o que também envolvia uma performance. Se você perguntar, todos irão dizer que ela era muito bem preparada para a função, tanto quanto qualquer outro embaixador. Ela já havia estudado tudo que precisava sobre o estado das crianças na África, já para as entrevistas, antes mesmo de visitar o local.  Ela estudava muito, para tudo, uma compensação talvez, já que ela se sentia mal por não ter podido, por causa da guerra, completar uma educação formal. Ela não tinha isso, então ela lia muito, durante toda sua vida, o que a tornou muito alerta em vários assuntos. Hoje em dia, com a internet, tudo é muito mais acessível para nós, e descobrimos que muitas pessoas importantes, através da História, sofriam de dislexia, não acabaram o ensino formal. Muitos dos jovens que fazem milhões no Vale do Silício não terminaram a faculdade. Mas ela, em sua época, era vítima de um preconceito, e sofria com isso. E isso a motivou a continuar exercitando, os músculos e o conhecimento, o que, em suma, é do que a vida é feita, o que nos faz evoluir e não ficar entediados.

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Embaixadora do Unicef

O – Citei Astaire anteriormente, então falemos de “Cinderela em Paris”. Ela começou como dançarina, então, acredito que esse elemento no roteiro foi uma grande motivação para ela. Como ela se sentia sendo parceira de Astaire?

S – Na época, ela tinha poder em Hollywood, a estrela de Astaire estava em declínio, e, mesmo sendo muito

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Audrey Hepburn e Fred Astaire

mais velho que ela, exatamente porque ela o admirava por tantos anos, minha mãe pediu para que ele fosse contratado para o filme. O papel dele é baseado em Richard Avedon, com quem ela também trabalhou no início. Ele era um fotógrafo jovem, na época, duas crianças batalhando suas carreiras, e, depois ele ficou famoso, e eles continuaram amigos pela vida toda. Ela estava muito empolgada, e, para mim, é um filme que me dá muita alegria em assistir várias vezes, porque é perceptível a inspiração, o resgate emocional, que a ajudou a atravessar a guerra, durante a época em que achou que havia perdido seu pai, e ela realmente o perdeu, em essência, mesmo tendo encontrado ele novamente após a guerra. Ele era emocionalmente incapaz de ter a relação que ela desejava. Então, para ela, voltar e poder fazer esse trabalho com Astaire, sendo capaz de mostrar seu talento e conhecimento, foi maravilhoso.

O – O meu filme favorito dela, aquele que considero seu melhor momento como atriz, é “Uma Cruz à Beira do Abismo”, de Fred Zinnemann. Você se recorda de conversas com ela sobre o filme? Qual sua opinião sobre ele?

S – Minha babá me contava uma história, que vou revelar a você. Quando entramos na sessão do filme, as luzes já tinham se apagado, e, ao sentarmos, minha babá, que era uma senhora italiana, muito religiosa, fez uma pequena reverência e fez o sinal da cruz. Então, só de caminhar pela sala de cinema, aquele ritual, ela imaginou que estava numa igreja e que ela tinha que se comportar daquela forma. E Fred disse, após a sessão, que, de tudo que havia escutado sobre o filme, a reação da minha babá havia sido o melhor elogio. Hitchcock dizia: “eu te assusto, mas não a ponto de fazer você desviar os olhos da tela, senão, significa que eu perdi você, e a mágica se quebra”. É interessante o contexto em que ela fez o filme, porque éramos uma família fervorosamente não religiosa, ela, por ter tido uma mãe que era cientista cristã, fez com que ela não quisesse nenhuma espécie de religião em sua vida. E ela criou os filhos dessa forma, deixando que a decisão fosse nossa, quando crescêssemos, após estudarmos. Mas ela era uma grande crente do milagre da natureza. Ela costumava dizer que, para ela, o nascimento de um bebê, a flor que nasce de uma árvore, já eram milagres suficientes na vida, ela não precisava de mais nada, não precisava de qualquer ideologia.

O – Eu percebo que a importância de sua mãe, especialmente na juventude de hoje, a relevância dela, não é fabricada e alimentada pela indústria, como ocorre, por exemplo, com James Dean. Os jovens são atraídos a ela de forma instintiva, eles se importam por respeito verdadeiro, não apenas pela satisfação de um status social/cool. Eles compram as camisetas com o rosto dela estampado, mas, também, assistem aos filmes e leem livros sobre ela. Como você define esse impacto dela na juventude de hoje?

S – É verdade, tivemos essa confirmação, que mais de 50% dos fãs dela hoje são adolescentes, meninos e meninas. A partir dos dez, onze anos, até jovens que estão na faculdade. Sei disso a partir de várias fontes, por exemplo, de estudantes que tem ela como tema de algum trabalho escolar. Acompanho e ajudo essas crianças, que vem a mim através da Unicef, algo em torno de 2 a 3 por mês. Consigo a permissão dos pais ou dos professores, e converso com elas por Skype, leio para elas, é bastante trabalho, mas faz parte do cuidado com o legado da minha mãe. Mas eu adoraria estar aqui falando que eu planejei isso, que fui o empresário desse legado por vários anos, ainda que não seja mais exclusivo, já que meu irmão agora está envolvido. Você disse muito bem, “instintivo” é a palavra certa para definir. Eles possuem essa visão caleidoscópica dela. Alguns a conhecem como uma estrela de cinema, outros como uma fashionista, outros a conhecem pelos óculos, alguns pelos seus filmes, ou a conhecem como uma senhora que foi pra África e ajudou crianças, e, juntando tudo, eles formam uma visão completa. Mas é como quando se aprende uma língua nova, você vai aos poucos, você começa falando algumas palavras em português, depois a substituir as palavras espanholas e italianas pelas portuguesas, e daí em diante.

Eu acredito que tem algo relacionado à legitimidade que ela transmitia em seus trabalhos, algo de extremamente genuíno sobre ela, que esses jovens não encontram hoje em um mundo onde o Michael Jackson pode ser o maior artista pop do século, e, no dia seguinte, ele se torna um molestador de crianças. Ela teve pontos altos e baixos, mas a história dela é como um conto de fadas, uma garotinha que não tinha nada, perdeu os pais, foi para a guerra com fome, e teve que lutar para sair de lá, até se tornar uma estrela de cinema. No sentido real, é uma história simples e pura, onde ela terminou a vida fazendo o bem. É o tipo de história que escutamos quando somos crianças. Todos esses elementos reunidos fazem com que as crianças sintam que ela seja um porto seguro, um bom exemplo de alguém para se inspirar, tentar emular. Ainda que, como sempre saliento, todos sejam indivíduos especiais, houve apenas uma como ela, há apenas um como você, é muito confortante saber que esse tipo de história pode acontecer. Ela foi a mulher mais fotografada, mas olhe para o momento histórico em que ela foi fotografada, olhe o contexto. Hoje é fácil, com IPhones  e as redes sociais, mas, naquela época, logo após a guerra, tirar fotografias era caro, um processo extremamente mais complexo do que é hoje.

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Audrey Hepburn, 1950s

O – E, hoje, qualquer um é fotografado, basta participar de um medíocre reality show, que a pessoa se torna uma celebridade. Eram tempos mais elegantes.

S – Exatamente.

O – Você tem alguma história interessante dos bastidores de alguma filmagem dela?

S – Alguns eu visitei, como nas filmagens de “Robin e Marian”, eu trabalhei com ela na produção de “Muito Riso e Muita Alegria” (1981). Peter (Bogdanovich) escreveu um pequeno papel pra mim, achou que eu era engraçado. Eu a vi em várias situações, em discursos públicos, então eu tenho uma visão abrangente dela. Talvez não tenha uma história engraçada para contar, mas uma confirmação do fato de que todas as performances dela, todos os discursos que fez, foram muito importantes e muito difíceis para ela. Eu a vi em vários eventos, tremendo como vara verde, antes de ir ao palco. Mas, de certa forma, o medo do palco é o que torna você bom, como estávamos falando momentos atrás. Ela nunca realmente se sentia confortável com o público, ainda que ela fosse muito boa em entrevistas, ou talvez nem tanto, mas sempre que ela tinha que ir a público fazer discursos, ela tremia.

O – Muitos atores, no que me incluo, são muito introvertidos fora dos palcos.

S – É verdade.

O – Como sua mãe lidava com a própria criatividade? Ela apreciava todas as etapas do processo de filmagem?

S – Eu acho que ela se esforçava muito para encontrar o material certo. Meu pai (o ator Mel Ferrer) teve um papel muito importante nisso, ele era um homem difícil, mas muito educado em Hollywood, um homem que lia muito. Claro que ele costumava fazer os vilões, fora ser um homem difícil, complicado, esse é o motivo dele não ter cultivado um grande legado, não é tão lembrado.

O – Adoro seu pai em “Scaramouche”.

S – Sim. Mas, voltando à sua pergunta, ela fazia todas as etapas, a publicidade que os estúdios requeriam, e então ela botava um ponto final, não falávamos sobre isso em casa, não tínhamos uma sala de projeção, tínhamos cópias dos filmes dela em 16 mm, que foi a forma com que eu descobri os filmes dela, no sótão de casa, no verão, com as janelas abertas, uma toalha amarrada a um dos feixes, e um velho projetor, aquele maravilhoso som característico.

Foi como eu vi todos os filmes dela, na minha própria sala de projeção improvisada, feita a mão. Tínhamos uma pequena TV, em preto e branco, no quarto de brincar. Ela não trazia Hollywood pra casa, ela não cultuava isso, ela era uma pessoa normal, ela adorava ir ao mercado, e, quando eu não podia mais ficar com ela nas filmagens, ela desistiu da carreira de atriz, para ser mãe em tempo integral. Ela era assim.

O – É impossível não abordarmos “Bonequinha de Luxo”, e, acredito, já deve estar cansado de falar sobre ele. A sociedade teve seus valores mudados, o mundo se tornou mais sombrio e cruel, mas o trabalho de sua mãe no filme continua tocante como sempre. Quando escutamos a trilha sonora de Henry Mancini, somos transportados para aquele mundo de sonhos. Você pode falar um pouco sobre a importância do filme no mundo moderno?

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A bonequinha de luxo

S – Eu acho que o filme é, sem dúvida, o monstro sagrado dela. E acho que é uma combinação de fatores: um bom timing, as pessoas certas, um bom roteiro e o encaminhamento do roteiro na direção certa, e o fato de que ele tinha um inato senso de estilo, em que ela colocava, naquela época, Givenchy, que era apenas um designer em ascensão, não era como Armani, que colocaria um time de pessoas para fazer a roupa dela para o filme. Naquela época, ela tirava roupas comuns do mostruário de uma loja, tentando compor o que pensava melhor para a personagem, e, quase sempre, acabaria optando pelo preto básico. Então, acho que há o aspecto fashion, uma história clássica, atuações maravilhosas, uma música fantástica, que todos tiveram que lutar para manter no filme, pois, como você sabe, os executivos tentaram tirar a trilha, eles odiavam a canção (“Moon River”), é parte do processo. Chamar de colaboração pode ser bobo, mas, de fato, é uma colaboração, pelo ponto de vista do cinema de guerrilha, uma luta para manter os elementos dentro do projeto, e garantir que ele seja realizado.

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Ícone de beleza e estilo

E se ela não tivesse o bom gosto e a educação, ela teria os deixado fazer coisas com o filme que não estavam certas. É interessante perceber que o filme foi composto, praticamente, como uma homenagem a Marilyn Monroe. É, essencialmente, sobre a história de Norma Jean. E se você olhar para os personagens, especialmente quando Buddy Ebsen aparece, como o marido, aquela parte toda é, realmente, a vida de Norma Jean, até o nome real é muito similar. É interessante que eles decidiram que essa homenagem seria bem evidente, bem óbvia, e, em minha opinião, acho difícil que a Marilyn conseguisse interpretar, tivesse o estofo para vários daqueles momentos, digo, não era necessário uma Elizabeth Taylor, uma atriz séria, mas acho que Marilyn teria sido muito light, não atingiria as notas necessárias para contar essa história.

O – Acredito que a música tenha sido um fator importante na mente criativa de sua mãe. Qual tipo de música ela escutava em casa?

S – Nos últimos anos, escutávamos a trilha de “A Casa da Rússia” (composta por Jerry Goldsmith, um filme com Sean Connery e Michelle Pfeiffer), eu dei a ela várias trilhas sonoras, como “A Missão” (composta por Ennio Morricone, um filme com Robert De Niro).  Ela adorava trilhas sonoras de filmes e, no início dos anos 70, ela escutava muito Burt Bacharach, The Carpenters, ela amava música clássica e era uma grande fã de Bach. Ela gostava também de Vivaldi e Chopin, claro. E éramos muito próximos de Arthur Rubinstein, que considero até hoje, o melhor pianista daquela era. Um gênio, à sua própria maneira, um gênio no melhor sentido da palavra. Um gênio que viveu uma boa vida e colocou dois filhos saudáveis no mundo, e era uma pessoa maravilhosa de se conviver. E ele era muito parecido com minha mãe, sua maior preocupação era com os ensaios, treinar, estudar. Ele adorava chocolates suíços, então ele treinava e os comia, enquanto conversávamos. Eu devia ter uns 10, 12 anos. Gostava muito dele como pessoa, então, pra mim, até hoje, te digo que tenho poucas coleções musicais em casa, mas, uma delas, é a coleção completa das obras de Rubinstein. Escutar ele me conduz de volta a algo real, e não falo sobre sentar num salão de teatro, falo sobre sentar na sala de estar com o próprio Rubinstein, vestido com um velho paletó de tweed, contando divertidas histórias. Ele era muito caloroso, uma pessoa adorável. Eu valorizo carinhosamente esses momentos.

O – Como sua mãe se sentia com o reconhecimento pelo trabalho? Como ela lidava com seus admiradores? Gostava do assédio, de ser abordada?

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A princesa e o Plebeu

S – Ela sempre foi muito humilde e se doava, acreditava que um filme era o resultado de uma corrente de eventos, como ela gostava de se referir, assim como em seu trabalho com a Unicef, que fornecia um resultado valoroso. Se fosse fraco, o resultado não seria interessante. Então ela não pensava muito sobre sua imagem. Tem uma ótima história, de quando ela estava começando em Hollywood, por volta de 1953, 1954, teve um jantar do sindicato dos atores, e colocaram minha mãe sentada ao lado de Marlon Brando. Eles se cumprimentaram, mas ele não falou mais com ela durante todo o evento. E ela sempre pensou que ele não tinha gostado dela, que ele não a tinha achado interessante o suficiente pra trocar umas palavras. E, anos mais tarde, ela manteve o mesmo agente, depois de ter estado com o homem que era o fundador do Universal Studios, um pequeno agente de Hollywood, que trabalhava com grandes estrelas, seu nome era Kurt Frings, ele trabalhou com Elizabeth Taylor, com os Beatles, e mais algumas pessoas, poucas, 6 a 8 eram suficiente pra ele, já garantiam a ele bastante dinheiro. E ele estava vivendo com uma mulher, com duas crianças, Miko e Maya, com quem cresci junto. Na Suíça, após voltarmos pra casa, acho que Marie (mulher de Kurt) e Marlon tiveram uma conversa, E, pelo correio, veio essa carta de Marlon, que dizia: “Eu só gostaria que você soubesse que eu também me lembro daquele evento, e que eu não conseguia falar com você, porque eu estava completamente absorto, admirado com sua beleza”.  E minha mãe ficou muito emocionada com esse gesto. Isso ocorreu, talvez, uma semana antes de sua morte, foi um maravilhoso fechamento para algo que ela guardava há muito tempo.

O – Linda história, Sean. Como é para você assistir os filmes dela hoje? Quão difícil é separar a mãe da atriz nessa experiência?

S – Sim e não, quero dizer, algumas pessoas morrem e deixam para seus filhos um restaurante, uma loja de sapatos, um hotel, e a cada vez que o filho passa por aquela porta giratória do hotel, ele enxerga seu pai, esse tipo de coisa. Eu aprendi que posso caminhar por qualquer local do mundo, que haverá uma foto da minha mãe, e tenho certeza que também é assim no Brasil.

O – Sim, no meu quarto, por exemplo, tem uma foto dela, que estou vendo nesse momento.

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Nas filmagens de “Além da Eternidade”

S – (risos) Mas esse é um caso especial, você é da área de cinema. Posso entrar num quarto de hotel no Japão e, assistindo CNN, lá está ela, falando. Eu me acostumei com isso. É algo normal. Só se torna mais difícil quando assisto “Além da Eternidade” (filme dirigido por Steven Spielberg, o último trabalho de Audrey). Não dedico tempo a assistir “Amor Entre Ladrões” (1987) e “A Herdeira” (1979), mas “Além da Eternidade” é um filme lindo, porém, quando a vejo nele, aquela é a mulher que eu perdi, a sua aparência, a voz, aquela mulher que morreu nos meus braços em 20 de Janeiro de 1993. Isso dificulta para eu assistir, mas é totalmente aceitável assistir seus primeiros trabalhos.

O – Os meus filmes favoritos dela são, como já disse, “Uma Cruz à Beira do Abismo”, “Sabrina”, “Charada” e “A Princesa e o Plebeu”. Quais são os seus filmes favoritos dela?

S – “Cinderela em Paris” é importante pelo contexto. Tenho muito respeito por “Uma Cruz à Beira do Abismo”, porque ela escolheu um papel que a levou para outro patamar, um desafio como atriz séria, sem o suporte de sua aparência, de seu corpo, no sentido de transmitir emoção, ela tinha apenas uma pequena parte de seu rosto à mostra. Eu sou um apaixonado por “Amor na Tarde”, porque o diretor, Billy Wilder, era estudante de Lubitsch, e o filme tem aquele toque do diretor, que eu amo. Maria Cooper é uma amiga, e Gary Cooper era um homem extraordinário. Assisti muito “A Princesa e o Plebeu”, e, obviamente, “Bonequinha de Luxo” é um filme vital. Um envelheceu lindamente, o outro nem tanto, mas ainda é importante, como quando se assiste “O Rei e Eu”, por exemplo. Talvez eu seja muito criterioso ao julgar, eu estive envolvido na restauração de “Minha Bela Dama”, e fiz uma forte campanha para que fosse inserida a gravação de sua voz cantando no filme. Tentei muito, mas não foi possível, porque, às vezes, ela não atingia a nota de forma exata. Hoje, você assiste “Os Miseráveis” e não pensa duas vezes. Ela era tão boa quanto qualquer um dos atores desse filme, pode confiar em mim.

O – Sean, eu te agradeço demais a gentileza. Você poderia deixar uma mensagem especial para meus leitores, os cinéfilos brasileiros que amam o legado artístico de sua mãe?

S – Eu gostaria de agradecer a todos que mantém esse carinho por ela, porque, de verdade, se ela tivesse mais cinco minutos nesse planeta, ela provavelmente utilizaria tentando fazer algum bem. A situação no mundo está ficando mais difícil, com as crises econômicas que vivemos. Esse carinho das pessoas está nos ajudando para que continuemos contando a história dela, e, essa história, basicamente, é o desejo desesperado de que, algum dia, as vidas das crianças valham o mesmo, não importando onde essas crianças tenham nascido. Todos nós sabemos hoje, a pesquisa já foi feita, que tudo se resume a direitos pessoais, em alguns países funciona, em outros não, alguns países onde a economia é estável, em outros não. É o que se deve fazer para proteger o que é seu, e, claro, antes do direito pessoal, e de propriedade, vem os direitos humanos pessoais, isso estava na essência do que ela acreditava, então, o mais lindo é que esse carinho das pessoas tem tornado mais fácil para nós continuarmos a campanha pelas coisas em que ela acreditava. Isso é, de verdade, o mais importante.

O – Essa é a grande mensagem por trás do legado artístico dela.

S – Exatamente, Caruso.

contioutra.com - Filho de Audrey Hepburn dá entrevista exclusiva, fala dos bastidores e deixa recado aos brasileiros
Sean e Audrey

Nota: O site Conti outra, e com certeza seus leitores, agradece ao nosso querido Octavio Caruso pela autorização da primeira publicação desta entrevista, uma exclusividade do site Devo Tudo ao Cinema.

“O otimismo só é direito de quem está em evolução”, Flávio Gikovate

“O otimismo só é direito de quem está em evolução”, Flávio Gikovate

A maturidade emocional é o termo que descreve um estado de alma que cria condições mais favoráveis para que a pessoa seja mais serena e feliz.

A principal condição psíquica que permite o encontro de certa maturidade emocional deriva de boa tolerância a frustrações e contrariedades

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
Facebook: www.facebook.com/FGikovate
Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Esse blog possui a autorização de Flávio Gikovate para reprodução deste material.

Quem constrói trilhos sabe da existência dos trens

Quem constrói trilhos sabe da existência dos trens

Por Patrícia Pinheiro

Recentemente, em uma das aleatórias e proveitosas conversas que sempre tenho com um amigo meu, para exemplificar como suas crenças funcionam, ele compartilhou comigo o seguinte fato pessoal: “Sabe, Pati, sempre que eu vou tomar banho, eu lavo bem cada parte do meu corpo – inclusive a orelha -, não só porque gosto de higiene, mas porque penso que, por mais improvável que seja, nunca se sabe quando alguém vai querer beijá-la.”

Pode parecer algo bobo, mas, com isso, ele me mostrou que, apesar da preguiça – que sempre é potencializada pela desmotivação advinda das grandes chances de nossos esforços se mostrarem “inúteis” – ele não deixa de dar minuciosa atenção a algo que poderá vir a garantir-lhe alguma forma de satisfação; ele não deixa de acreditar na possibilidade e garante, todo dia, que tudo seja feito para que se dê o sorriso mais aberto quando a vida também lhe sorrir.

É o que fazemos ao começarmos a estudar para aquele concurso impossível; ao capricharmos no visual para ir até o mercadinho da esquina; ao lembrarmos ao vô com Alzheimer quem somos e o quanto o amamos. A gente inventa desejos, grandes ou pequenos, e, antes mesmo que se tenha caneta e papel, os desenhamos através da fé e dedicação diárias; das saudáveis doses de otimismo que nos movem a seguir traçando linha por linha, ainda que se saiba que, ao final, tudo pode virar um grande rabisco.

No filme “Sob o Sol da Toscana”, quando a personagem principal desabafa com seu amigo, se questionando sobre o propósito de estar dedicando tanto tempo para reformar sua nova casa se não haveria ninguém com quem dividi-la – e seu sonho era construir uma família ali -, ele responde: “Entre a Áustria e a Itália, há uma parte dos Alpes chamada Semmering. É uma parte incrivelmente difícil de subir, um local muito alto das montanhas. Eles construíram um trilho nestes Alpes para ligar Viena e Veneza, mesmo antes de existir um trem que pudesse fazer a viagem. Mas eles construíram porque sabiam que, algum dia, o trem chegaria.”

É claro que, como em toda boa comédia romântica, o trem dela chegou: ela não só encontrou o parceiro dos sonhos como preencheu a casa de festas e amigos. No mundo real, sabemos que não é bem assim. A gente inventa e reinventa desejos, quebramos a cara e, por vezes, descobrimos felicidade naquilo que nem fazia parte do roteiro.

Mas o importante é que, desde que saibamos descartar aquilo que não nos acrescenta e que não façamos – ativamente – mal a ninguém, possamos carregar serenidade suficiente para encontrarmos felicidade no processo – afinal, SOMOS processo; motivação para não perdermos o encanto dos detalhes e construirmos trilhos, ainda que não tenha um trem para passar; e, acima de tudo, o otimismo necessário para que estejamos abertos e prontos para colher todas as felizes aleatoriedades da vida.

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Cena do filme “Sob o sol da Toscana”

Jim Carrey, em 2 minutos, fala sério (acreditem!) e nos dá uma grande lição de vida

Jim Carrey, em 2 minutos, fala sério (acreditem!) e nos dá uma grande lição de vida

Convidado a ser padrinho de uma turma de formandos, em pouco mais de dois minutos, Jim Carrey, grande ator que certamente já nos fez rir infinitas vezes, faz com que paremos para meditar sobre as nossas escolhas de vida.

Assista ao vídeo e responda: suas escolhas estão baseadas no Amor ou no Medo?

Juramento às bandeiras

Juramento às bandeiras

Por Ana Flávia Velloso

Não é possível pretender-se apolítico. Não existe neutralidade. Há ideologia em tudo o que se faz, que se pensa, que se espera. Não me comprometo com nenhum partido, facção ou personagem político. Mas tenho lá minhas crenças e bandeiras.

Acredito na democracia, no princípio da igualdade, na liberdade, na solidariedade humana, na justiça, no direito.

Não sei se acredito no casamento. Mas no amor eterno,sim, e também na família.

Acredito na amizade.

Acredito em Deus. Não acredito em religiões, embora isso não me impeça de acender uma velinha para Santa Rita, admirar a biografia de São Francisco de Assis, comungar na missa, aprender técnicas budistas de meditação, circular pela mandala do templo da boa vontade nos dias de desordem mental ou deixar-me inundar de gratidão pelo criador nos dias de plenitude interior.

Como Rita Lee, duvido muito da fé. Mas acredito no pecado e na redenção. Acredito na privação da quaresma, na Páscoa e em sua mensagem de renascimento. Acredito que a vida é uma só e acredito na vida eterna. Acredito que tudo, tudo passa – vipássana -, acredito em Cristo, e acredito em Buda. Acredito em Bahá’u’llah. Em Maomé ainda não consegui acreditar.

Acredito no inconsciente e acredito em Freud, mas àqueles que pregam a psicanálise como mãe da verdade lembro que não acredito em igrejas e esclareço que detesto confrarias.

Acredito na força curativa do riso, do silêncio, do tempo, do chocolate, dos animais domésticos. Acredito no bom humor como filosofia de vida. Acredito na arte, na poesia e no esporte. Não acredito em grifes, acredito na moda como forma de expressão do indivíduo e da sociedade. Acredito no bom gosto.

Acredito no rivotril, no lexapro e no prozac, e acredito nos florais de Bach, no chazinho de camomila, na comida orgânica, no poder dos grãos, e ainda na suprema delícia da picanha argentina na brasa, bem mal passada.

Acredito que a água é um recurso finito, que o fim do mundo é uma realidade em andamento, no Protocolo de Kyoto, nas cortes internacionais, na união gay e na mudança de sexo.

Acredito no sonho, na importância da rotina, no valor da improvisação, na humanidade e em suas incoerências, e louvo a contradição.

Acredito no sonho, na estrela que nos move lá do alto – stela duce! – e no pó que nos aguarda, bem aqui, sob nossos pés.

Acredito na dúvida, que faz o ser humano mais interessante e menos cacete, e acredito, enfim, na profunda chatice inerente às pessoas dotadas de inflexível razão e suturadas certezas, que nos pedem voto ou tentam doutrinar.

Amém.

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Por que razões as pessoas “mais interessantes” são aquelas que moram longe?

Por que razões as pessoas “mais interessantes” são aquelas que moram longe?

Por Diego Caroli Orcajo

Frequentemente ouvimos as pessoas contando que conheceram “alguém muito legal” via internet, alguém que por sinal mora muito longe. Não com menor frequência acompanhamos também o surgimento de grandes paixões à distância, paixões que costumam ter como único empecilho os quilômetros que separam o “casal apaixonado”.

E então, será que de fato o senhor destino coloca bem longe de nós aquelas pessoas que melhor se adequariam a nossos desejos? Não parece ser fácil contrariar tal tese, tendo em vista que todos nós já fomos vítimas de tal circunstância. Porém sem querer ser estraga prazeres (novamente), terei de dizer que as coisas não são bem como parecem.

Me parece extremamente prudente iniciar apresentando-lhes dois conceitos básicos, o efeito halo e o efeito horn:

– Efeito Halo é um processo no qual uma impressão inicial positiva faz com que  nossa mente perceba com maior intensidade outras qualidades no indivíduo, inibindo a percepção de aspectos contrários àqueles que formaram a primeira impressão. “A avaliação positiva de uma parte resulta numa avaliação positiva do todo”.

– Efeito Horn é o contrário. Uma percepção inicial ruim faz com que percebamos com maior intensidade todos os aspectos que nos desagradam em um indivíduo, ignorando todo o restante. “A avaliação negativa de uma parte resulta numa avaliação negativa do todo”.

Pronto, o primeiro requisito para uma compreensão adequada do tema já foi fornecido. Agora em um segundo momento irei expor a parte que (em minha concepção) é mais a de maior importância, a questão da “idealização”.

Todos nós passamos a vida inteira idealizando. As relações todas surgem em companhia de diversas idealizações acerca do indivíduo até então desconhecido.

E como é que a idealização pode vir a explicar tal circunstância? Acreditem, é mais simples do que parece.

Cada nova pessoa com a qual nos deparamos (seja por via de recursos virtuais ou presenciais) recebe uma carga de idealização. Se espero criar laços de amizade posso idealizar que ela é extremamente confiável, companheira e assim por diante. Quando a ligação é de viés amoroso, acabamos por idealizar na pessoa tudo aquilo que desejaríamos de uma “namorada perfeita”, por exemplo.

Até aqui tudo bem, deu para entender bastante coisa porém ainda não foi explicada a diferença entre as idealizações construídas acerca de interações presenciais se comparadas às virtuais (à distância), ou seja, tudo o que foi explicado é real, porém cabe tanto em um caso quanto em outro.

Oras, como é que uma idealização vai se desconstruindo? Por meio da interação real com esta pessoa oras, nada melhor do que o choque de realidade para nos mostrar que as coisas não são tão boas (ou ruins) quanto parecem.

Então ok, o efeito halo ocorre em qualquer forma de interação, porém com a diferença crucial de que em interações à distância ficamos muito mais vulneráveis às impressões que confirmam nossas fantasias (e pouco confrontados com a realidade – que via de regra iria nos fazer notar que a pessoa não é bem o que esperamos) .

Com tudo que foi exposto creio que já possam responder sem pestanejar: “Por que as pessoas mais interessantes moram longe?”. Pelo simples fato de que a distância reduz muito a possibilidade de que a convivência real destrua tais fantasias. Então a pessoa “que mora longe” – da qual tanto gostamos – tecnicamente “não existe” e estamos apaixonados por uma construção de nossa fantasia? Mil perdões, a resposta é sim!

Diego Caroli Orcajo, 23 anos. Estuda psicologia na Faculdade Municipal Professor Franco Montoro.

“Joaquim Sapé” poema espetacular de Manoel de Barros

“Joaquim Sapé” poema espetacular de Manoel de Barros

Os ornamentos de trapo de Joaquim Sapé já estavam
criando cabelo de tão sujos.
Joaquim atravessava as ruelas da Aldeia como se fosse
um Príncipe.
Com aqueles ornamentos de trapo.
Quando entrava na Aldeia com o saco de lata às
costas
Crianças o arrodeavam.
Um dia me falou, esse andarilho (eu era criança):
– Quando chove nos braços de um formiga, o
horizonte diminui.
O menino ficou com a frase incomodando na cabeça.
Como é que esse Joaquim Sapé, que mora debaixo do
chapéu, e que nem tem aparelho de medir céu, pode
saber que os horizontes diminuem quando chove nos
braços de uma formiga?
Se nem quase formiga tem braço!
Igual quando ele me disse que do lado esquerdo do
sol voam mais andorinhas do que os outros pássaros?
Pois ele não tinha aparelho de medir o sol, como
podia saber!
Ele seria um ensaio de cientista?
Ele enxergava prenúncios!

Manoel de Barros, no livro “Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo”, Editora Record

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Sobre os dois homens que receberam de Gandhi sua “iniciação espiritual

Sobre os dois homens que receberam de Gandhi sua “iniciação espiritual

Queriam ser iniciados por Gandhi

Certo dia, apareceram num dos ashrams de Ganddhi dois homens e pediram ao Mahatma que os iniciasse nos mistérios do mundo espiritual.

Gandhi acedeu ao pedido e ofereceu-se para ajudá-los.

Os dois hospederam-se no ashram, prelibando as maravilhosas experiências, sob a direção de tão exímio chefe espiritual.

E, para dar prelúdio à iniciação, Gandhi encarregou os dois candidatos à suprema espiritualidade de varrerem o pátio do ashram coberto de folhas secas.

Os dois empunharam as vassouras e varreram o pátio.

Depois, Gandhi mandou que descarregassem batatas e cortassem verduras, e que rachassem lenha para o fogo sobre os qual se iria preparar o almoço de todos os residentes na colônia espiritual.

E assim se fez.

À tarde, Gandhi mandou os dois, com latas de creolina, às aldeias circunvizinhas para fazer limpeza nas privadas e fossas, como costumava fazer ele mesmo, em companhia de uma turma especial encarregada da higiene.

Ao voltarem do serviço, nada espiritual, um dos dois disse ao companheiro: “Será que Gandhi se esqueceu do nosso pedido de iniciação espiritual?”

Ao anoitecer, os dois aspirantes à suprema espiritualidade tomaram a sua frugal refeição em companhia de Gandhi e dos outros residentes na colônia.

Antes do descanso noturno, todos fizeram uma hora de meditação.

No dia seguinte, os mesmos trabalhos com pequenas variantes.

De manhã e à noite, horas de meditação.

Os doía estavam cada vez mais decepcionados. Esperavam, parece, que o Mahatma os convidasse pra uma sala fechada, misteriosamente imersa numa penumbra azulada ou esverdeada, recorresse a algum ritualismo mágico-místico, e que dessa cerimônia os iniciados saíssem definitivamente iniciados para o resto da vida. Viviam, como milhares de outros, na ilusão de que iniciação consiste em algum toque de magia, em algum ato momentâneo, e não numa permanente atitude, numa vivência contínua e progressiva ascensional.

Finalmente, no terceiro dia, um dos dois teve a coragem de perguntar a Gandhi:

– Mestre, quando começa a nossa iniciação?

– Já começou – respondeu Gandhi.

Humberto Rohden 

Este texto foi retirado do livro “Mahatma Gandhi”, de Humberto Roden, publicado pela Editora Alvorada.

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“Casa-da-mãe-Joana”: você conhece o significado e a origem dessa expressão?

“Casa-da-mãe-Joana”: você conhece o significado e a origem dessa expressão?

Casa-da-mãe-Joana

É um lugar em que todo mundo manda e faz o que bem entende.

O rei francês, de 1285 a 1314, Felipe IV, o Belo, resolveu comprar uma briga feia: cobra impostos sobre os bens da Igreja. A discussão foi tão séria que em 1303 o papa Bonifácio VII excomungou Felipe, que, em represália e por não ser tão belo assim, mandou que um de seus legistas ( o perito em legislação, Felipe ainda estava vivo), Gulherme de Nogaret, invadisse a Itália e prendesse o papa. Bonifácio VIII morreu na prisão e foi sucedido pelo Bento IX. Logo, logo, em 1305 assumia um novo papa, Clemente V, que, seguindo um gentil conselho de Felipe, transferiu a sede do papado, de Roma para a cidade provençal de Avignon.

Avignon foi residência de 7 papas, de 1309 a 1378, mas no início não era só dos papas, pertencia a uma napolitana, Joana I, rainha de Nápoles.

Linda e inteligente, Joana era mecenas de poetas e intelectuais. Ela se casou com o primo, Andrew, irmão de Luís I, da Hungria. Andrew foi assassinado numa conspiração que, dizem as más línguas, teve participação da própria esposa.

Furibundo, Luís invadiu Nápoles em 1348, obrigando Joana a se refugiar em Avignon. No mesmo ano, ela vendeu a cidade a Clemente V, com a condição de ser declarada inocente de sua participação na morte do ex-marido. Joana foi assassinada por seu sobrinho e herdeiro, Carlos de Anjou em 1382.

Enquanto ainda mandava e desmandava em Avignon, Joana resolveu regulamentar os bordéis da cidade. Uma de suas medidas foi estabelecer que todo bordel deveria ter uma porta por onde todos entrariam. Assim, cada prostíbulo ficou conhecido como “o paço da mãe” (a dona da cidade) Joana”, com o sentido de uma casa que está aberta a qualquer um.

A expressão viajou até Portugal e veio para o Brasil, onde a palavra paço, de uso pouco popular, foi logo substituída por casa.

Reinaldo Pimenta

O texto acima foi extraído do livro “A casa da Mãe Joana – Curiosidades nas origens das palavras, frases e marcas”. A obra é de Reinaldo Pimenta e foi publicada pela Campus Editora.

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Cena do filme “”L’Apollonide, souvenirs de la maison close”

Suécia, o avesso do Brasil

Suécia, o avesso do Brasil

Livro desvenda uma civilização transparente, em que os políticos são cobrados como funcionários da população, onde todos se tratam como “você” e o sistema leva invariavelmente às raias da honestidade

Por Elder Dias

Parauapebas pode não ser uma cidade tão conhecida, mas tem quase 200 mil habitantes e é a 6º mais populosa do Pará. É de lá o vereador Odilon Rocha de Sanção (SD), que, semanas atrás, tratou de dar visibilidade maior, embora controversa, ao município. É que viralizou nas redes sociais o vídeo em que ele, da tribuna da Câmara, no dia 24 de abril, contestava os vencimentos para exercer o cargo legislativo. “O valor que o vereador ganha aqui, se ele não for corrupto, mal se sustenta durante o mês”, bradou, contra o que considera uma injustiça.

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Odilon-o-corrupto-assumido.

Um vereador de Parauapebas recebem R$ 10.013 de salário bruto. Tem também direito a R$ 2,8 mil para custear despesas com combustível e R$ 1 mil para despesas com telefone. No total, são mais de R$ 13,8 mil. Os 15 legisladores da cidade ainda usufruem, cada um, de uma caminhonete alugada e diárias para viagens que variam de 300 a 800 reais. O que Odilon questiona, entretanto, é que o salário não daria para custear o “padrão de vida” de um vereador.

O ano é 2015. Estamos já há uma década e meia dentro do século 21. E ainda há brasileiro que se acha no direito de lamentar não ter uma empregada doméstica “prestativa”. Não é raro ouvir de alguém algo como “tive de procurar um amigo deputado” para conseguir um emprego ou uma vaga de UTI. E é fato que políticos, entre eles muito provavelmente Odilon Rocha, considerem, se não justo, pelo menos normal ter um gabinete relativamente amplo, duas dúzias de assessores, carro oficial, auxílio-moradia, auxílio-combustível e apartamento funcional. Além de alguma verba indenizatória, para custear despesas gerais.

Levando os costumes nacionais ao pé da letra, ainda não saímos de 1808, ano da vinda da família real portuguesa para o Brasil. Dom João VI voltou para Portugal, vieram a independência política, os reinados de seu filho e de seu neto, uma República instalada por conveniência, alguns golpes de Estado, militares no poder, um processo de redemocratização e a estabilização econômica, mas nada conseguiu aniquilar o mal maior do País: a força patrimonialista que faz a corrupção perdurar como uma praga impossível de ser vencida. Um vergonhoso estandarte nacional. O sistema se desenrola de tal modo que, a rigor, torna-se quase impossível ser integralmente honesto por aqui. Mais grave ainda: esse “quase” da última frase se verifica um falso rigorismo do texto, um cuidado totalmente dispensável e até errôneo.

Se o Brasil tivesse, no globo terrestre, um lugar que fosse seu avesso em termos de ética, trato social e zelo pela coisa pública, qual seria? Não haveria nada de errado se o País passasse a se chamar “Aicéus”. É o anagrama inverso de Suécia, um reino no norte da Europa, na quase sempre gelada Escandinávia, que junta tradição e modernidade como forças para imprimir um modelo atualizado de respeito ao dinheiro do contribuinte e à igualdade entre seus habitantes, não obstante o status que cada um tenha em particular. Mais do que isso, por lá o sistema faz com que o cidadão seja impelido a ser… honesto!

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Capa de “Um País Sem Excelências e Mordomias”: livro mostra que suecos dão às autoridades seu devido lugar

A forma com que os suecos lidam com seus pares em tese mais poderosos é o tema central de “Um País Sem Excelências e Mordo­mias”, obra escrita pela jornalista Claudia Wallin (Geração Editorial, 344 páginas) e que mora em Esto­colmo, a capital da Suécia. Casada com um “viking”, ela começou a conhecer o que é um político na Suécia quando viu Carl Bildt empurrando seu carrinho de compras em um supermercado. Ele tinha sido primeiro-ministro e era então ministro das Relações Exteriores. Mas, ali, Bildt era só um cidadão sueco.

O livro é uma coletânea de informações e de depoimentos sobre como a esfera pública pode e deve trabalhar sob a tutela de um povo. Na Suécia, os cidadãos cobram cada centavo da considerável fatia que os tributos tomam de seus salários, a ponto de o que por aqui seria nada mais do que um privilégio tolerável se tornar um escândalo de derrubar gabinetes por lá.

Os suecos têm a honestidade quase como uma condição iminente. Veja a resposta de Göran Lambertz, um dos juízes mais conhecidos do Supremo Tribunal da Suécia, em entrevista publicada no livro, à questão “O que faz a Suécia para prevenir a corrupção no sistema judiciário?”:

— Na verdade, não muito. Isso porque existe na Suécia uma longa tradição de que as pessoas, em geral, não são corruptas. Se alguma pessoa oferecesse suborno a um juiz, ou se algum juiz pedisse algo, seria um grande escândalo no país. Mas isso simplesmente não acontece (…) Acho que nenhum juiz sueco jamais aceitaria um suborno. É algo tão proibido que chega a ser impensável. É distante demais das nossas tradições. E se algum ato irregular for cometido, ele será reportado à polícia. Por isso, mesmo se algum juiz pensar em cometer um ato impróprio, ele não o fará. Porque teria medo de ser reportado à polícia.

Boa parte dos que chegaram até este ponto do texto durante a leitura do parágrafo interior devem ter feito mentalmente uma analogia de Göran Lambertz com Nicolau dos Santos Neto, o juiz Lalau, ou com Flávio Roberto de Souza, aquele que levou para a garagem de seu prédio, no Rio, o Porsche do empresário Eike Batista, que estava apreendido pela Justiça Federal. Pois talvez Lambertz ou qualquer outro cidadão sueco não consiga nem fazer tal comparação, por falta de parâmetro. Falta-lhes vivência do que seja corrupção, ainda mais corrupção cometida por um magistrado.

Chega a hora, então, de pensar por que os políticos e demais poderosos daqui não são como os de lá. A resposta pode não ser das mais agradáveis: é uma questão histórica, cultural, de costumes. E aqui, como lá, os políticos não brotam de árvores — saem do seio da sociedade.

A história civilizatória dos nórdicos ajuda a compor a explicação para a diferença positiva aos suecos. Durante a Idade Média, entre os séculos 8 e 11, os vikings eram hegemônicos na Escandinávia. Salteadores dos oceanos, saqueavam e aterrorizavam as populações da Europa desde o Mar Báltico até os confins do Mediterrâneo. Nada de combatentes bonzinhos ou brutamontes agradáveis como o Hagar, o Horrível das tirinhas. Tons de cinza à parte, eles deixaram um legado importante à posteridade: as “tings”, assembleias que eram o que Claudia Wallin chama de “parlamentos embrionários”. Por meio dessas reuniões, os vikings tomavam decisões em conjunto, por consenso, observando um princípio: ninguém era mais importante do que qualquer outro. Todos iguais. Tão iguais que hoje, por lei, se aboliu qualquer pronome formal: um sueco nunca chama o outro, seja quem for, de “senhor”, muito menos de “excelência”. Todos e todas são “você”.

A igualdade se tornou valor essencial entre os suecos. E impulsionou uma precoce maturidade da democracia. Uma prova disso é que por lá vigora há um quarto de milênio — desde 1766 — uma norma que dá ao povo mecanismos para fiscalizar todos os atos dos agentes públicos. Foi a primeira lei de transparência da história. No Brasil, se ainda hoje é difícil até mesmo para outras autoridades, como representantes do Ministério Público, ter acesso a documentos necessários a uma investigação, imagina-se o que não seja escondido do cidadão comum.

Aliás, “cidadão comum” é uma expressão inexistente (ou desnecessária, ou, ainda, redundante) na Suécia. Lá há “cidadão”, apenas.

Um país transparente e onde ninguém é mais do que ninguém
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Swedish diplomat and politician Hans Blix relaxing in the Swedish pavilion atrium. By: Tobias Andersson Åkerblom

Se há alguém que queira se candidatar a deputado na Suécia, que se prepare para ter mais sacrifícios do que benesses: usufruirá de um pequeno (minúsculo mesmo, ainda mais para os padrões brasileiros) apartamento funcional na cidade onde trabalhará — e isso só se sua cidade de origem ficar a mais de 50 quilômetros de Estocolmo; nada de assessor particular, muito menos equipe de gabinete — o máximo são algumas pessoas disponibilizadas ao partido para ajudar o conjunto de seus parlamentares; carro oficial? Dificilmente, e estritamente para missões em que isso se fizer necessário; motorista particular, nem pensar; verba indenizatória, aquela usada para fins diversos? Sem chance. E se pensar em ser vereador, que tenha disposição e disponibilidade para realizar um bom trabalho. E voluntário (talvez Odilon Ro­cha, o vereador inconformado de Parauapebas, não se agradasse da ideia).

Para concluir: será de bom tom que o político saiba lavar e passar sua própria roupa — para o caso de ser desafiado a demonstrar suas habilidades domésticas em talk-shows, como ocorreu com Fredrik Rein­feldt. Primeiro-ministro de 2006 a 2014, ele periodicamente ia à TV para dar dicas de como fazer a faxina em casa.

Nos casos relatados em “Um País Sem Excelências e Mordo­mias”, o que mais se vê são autoridades suecas — cujos equivalentes no Brasil costumam ser tratados por todos com salamaleques — fazendo compras no supermercado (como o citado Carl Bildt, ex-primeiro-ministro e então ministro das Relações Exteriores), pegando a fila do ônibus (Sten Nordin, prefeito de Estocolmo), pedalando e depois pegando um trem para chegar ao trabalho (Göran Lambertz, juiz do Supremo Tribunal da Suécia), ou ainda trocando os pneus do próprio carro (Hans Blix, ex-primeiro-ministro e ex-chefe de inspetores da ONU, conhecido por ter desafiado os Estados Unidos quando da invasão do Iraque, sustentando que lá não havia as armas de destruição em massa aludidas por George W. Bush para justificar o ataque).

Além de tudo isso, prepare-se o candidato a político para sofrer bastante cobrança da imprensa e da população a respeito de seus gastos. Se a corrupção é rara por lá, isso não significa que político sueco seja santo: o livro conta vários episódios em que parlamentares e outras autoridades se tornaram suspeitos daquilo que aqui seria tratado como “apenas uma irregularidade”. Mas, e lá? São escândalos de consequências torrenciais. “Em geral, suas carreiras políticas acabam”, conta, no livro, o repórter político Mats Knutson.

A população e a imprensa são muito duras com relação aos desvios, pelo mesmo motivo: “Sou eu quem paga os políticos. Não vejo razão alguma para dar a eles uma vida de luxo”, resumiu Joakim Holm, um cidadão sueco entrevistado para reportagem do “Jornal da Band”, para o qual Claudia Wallin produziu material. O que move o sistema todo nessa marcha que traz assepsia ao modelo? A vigilância permanente. Eleitores e jornalistas estão sempre de olho no que fazem os representantes do povo. E qualquer desvio, por menor que seja, repercute gravemente.

É assim, simples: na Suécia, a máxima de que o político é um sujeito a serviço da sociedade é levada às últimas consequências pelo cidadão. E, como Claudia deixa bem entendido no livro, tudo gira em torno da satisfação (prestação de contas) devida pelos ocupantes de postos públicos à população. Por isso, tudo o que puder ser transparente terá de ser transparente.

Isso vale, inclusive, para as comunicações recebidas e enviadas pelo primeiro-ministro: as correspondências oficiais e mesmo o e-mail do chefe do governo podem ser lidos por qualquer pessoa, sem que esta precise se identificar nem justificar o pedido. Obviamente, quando há questões de segurança (e isso, sim, precisa ser justificado à população) envolvidas nas informações, guarda-se o sigilo devido durante o tempo necessário.

A triste discrepância entre o destino dos impostos pagos por suecos e brasileiros 

A escrita da autora de “Um País Sem Excelências e Mordomias” é apenas esforçada. Por vezes, o texto se apresenta de forma redundante, até repetitiva. Mas a jornalista Claudia Wallin cumpre o papel de repassar ao leitor as impressões sobre o estilo de vida sueco, principalmente no que diz respeito à relação “cidadãos versus políticos”. Nas entrevistas inseridas no decorrer do livro, é interessante notar o enfoque e a ênfase que os personagens envolvidos dão à figura do “contribuinte”. O termo é citado diretamente na maioria dos diálogos e indiretamente é o principal foco de todos. É o bolso do cidadão o centro das preocupações na hora de calcular qualquer reajuste no vencimento de parlamentares e demais autoridades. O mais interessante: a valorização da remuneração nunca é feita pelos próprios interessados — ao contrário do Brasil, onde, mais do que costume, está previsto em lei que deputados devam reajustar seu próprio salário e que os juízes decidam eles mesmos o quão justo é o aumento que vão receber.

A preocupação sueca — e dos nórdicos em geral — com a destinação dos impostos tem razão de ser. Todos os países da Escandinávia estão entre os de maior carga tributária. A Suécia, em particular, segundo dados de 2012, da Heritage Foundation, ostentava o 3º posto no ranking. Em outras classificações relativas ao mesmo tema, o reino sempre estará em posição de destaque. É o preço que se paga por ter, em compensação, um dos serviços públicos mais completos e de mais alta qualidade em todo o mundo.

Portanto, ainda que a revolta por aqui seja alta e haja um impostômetro instalado no coração da gigante São Paulo, lá na Suécia se pagam mais tributos do que aqui. Um adendo a se considerar é que, por outro lado, ano após ano o Brasil vem subindo degraus na corrida da carga tributária. Enquanto na terra dos vikings que serve de comparação o total pago em impostos correspondia a 44,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, o Brasil fechou aquele ano com essa relação já em 35,8%.

A diferença está no respeito com que o poder público e os detentores de cargo tratam o dinheiro que têm sob sua guarda. E também em como o povo fiscaliza a aplicação do que pagam. Enquanto por lá o que se cobra é devolvido em forma de benesses, o título de uma reportagem da Agência Brasil feita há pouco mais de um mês traz desalento: “Brasil continua em último no ranking de retorno de tributos à população”. O estudo, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), comparou dados de 30 países.

Ou seja, pagar impostos é algo que tanto brasileiros como suecos fazem de forma elevada. Só que o retorno em serviços é absurdamente discrepante: na Escandinávia as pessoas, exigentes, têm consciência de que a estrutura disponibilizada pelo governo para setores como educação, saúde e outros funciona e de que, apesar de ter nível de excelência, pode e precisa ser melhorada. No Brasil, as escolas públicas estão sucateadas física e humanamente; o Sistema Único de Saúde (SUS), cuja concepção merece elogios do mundo todo, é na prática uma lástima; a segurança pública, o saneamento básico, os pontos de cultura, tudo fica a dever. Pagamos impostos nível Suécia, recebemos serviços nível Azerbaijão — ex-república da União Soviética e à frente do Brasil no ranking mundial do Índice de Desen­volvimento Humano (IDH). Mais grave: se observarmos o irrisório retorno em relação ao considerável montante que o brasileiro paga, a conta final seria justificativa para uma revolta. Como nunca antes na história deste País.

Nem Ingmar Bergman escapou
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Ingmar Bergman: doente após ser acusado de crime fiscal

Celebridades não têm vida fácil na Suécia. Assim como ocorre com os políticos, também os famosos são tratados de forma equânime aos cidadãos anônimos. No livro “Um País Sem Excelências e Mordomias”, consta uma passagem emblemática envolvendo o diretor Ingmar Bergman, ícone do cinema mundial. Ele sentiu a força do poder da isonomia de tratamento sueca em 1976, ao ser detido dentro do Teatro Dramático Real de Estocolmo, onde conduzia o ensaio de uma peça, “Dança da Morte”. Motivo: uma empresa de Bergman estabelecida na Suíça teria sido criada só para escapar da alta tributação de seu país de origem.

Conduzido a um tribunal fiscal, onde o promotor expôs a acusação, o cineasta se tornou réu de um processo por evasão fiscal entre 1969 e 1974. No fim, acabou inocentado — o inquérito foi arquivado. Mas, dias depois de ser arrebatado pelas forças policiais do teatro em que trabalhava, Bergman teve um colapso nervoso e chegou a ser hospitalizado com quadro de depressão. Corroborava, assim, o preceito ético do país: ser acusado de ato desonesto na Suécia é estar à beira da morte, pelo menos moral.

“Perdoado”, o diretor partiu para um exílio voluntário do país, deixando bens e propriedades para que ninguém pensasse que estaria tentando alguma forma de subterfúgio. O responsável por obras como “Moran­gos Silvestres” (1957) e “Gritos e Sussurros” (1972) chegou a dizer que não voltaria à Suécia, mas para lá retornou em 1984 e foi lá que morreu, em 2007, aos 87 anos.

Matéria publicada originalmente no Jornal Opção.

Reproduzida no Conti outra com a autorização do autor.

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Juiz sueco usa bicicleta e trem para ir à Corte

Aos viajantes, com amor

Aos viajantes, com amor

Por Bia Dourado

São poucos os que sabem viajar. São muitos os que viajam.

Viajante não precisa de distância para se encantar com os detalhes. Viajante valoriza a história, a geografia, o sotaque do bairro. Viajante dança. Celebra o outro. Se desmancha para fazer parte da paisagem.

Viajante e criança partilham esse estado constante de despertar o entorno e chamar para brincar. Se engana aquele que pensa que é preciso passaporte. Viajar para dentro é muito mais difícil, bonito e transformador.

Arrisco dizer que há uma função social desse viajante que não sai do lugar, ainda que entenda que ele não faz pelos outros. Ele, por consequência ou generosidade, nos empresta o óculos da poesia para que enxerguemos nossa própria vida. Esse óculos corrige um estrabismo muito comum, que arrasta nosso olho direito para o umbigo e o esquerdo para o vizinho.

Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi pra me ver (Manoel de Barros)

Boa parte das pessoas mais interessantes que conheci, viajaram muito pouco. Possivelmente nunca deixaram o país. Elas não sentiram a necessidade de conhecer a Torre Eiffel. Não estiveram no Coliseu. Nunca atribuíram felicidade à New York. Mas elas abraçam negros, pardos, brancos e coloridos, sem precisar filosofar a respeito. Elas riem de histórias de amor, sem questionar gêneros. Elas contam causos, ignorando os cursos de Storytelling. Elas não atravessaram oceanos para conhecer o diferente, pois o diferente esta à volta, divertindo a todo instante.

E antes que você me questione se o viajante de bairro é diferente do viajante de avião, adianto que não. Ambos são guiados pela estrela da curiosidade que os faz sentir plenamente vivos no Pari ou em Bogotá. E que alegria quando eles se encontram e o macro mundo festeja o micro. E vice e versa. E versa e vice. É prosa e poesia sem fim.

A grande diferença está no viajante e naquele que percorre distâncias.

Se você só fez fotos, sem saber a história daquele lugar, só percorreu distâncias. Se sabe falar a língua mas não a usou para fazer uma amizade que seja, só percorreu distâncias. Se julgou o que é diferente e buscou apenas as vantagens do destino por esquecer de se despir dos óculos de lentes colonizadoras, só percorreu distâncias. Se a sua viagem te fez sentir superior aos seus conhecidos, por ter ido além deles, te garanto: você só percorreu distâncias. Se você não se sentiu pequeno diante de alguma beleza maior. Se você não chorou ao superar os próprios preconceitos. Se não se permitiu confiar em desconhecidos. Se não ajudou ninguém no caminho… amigo, você tem muito o que viajar ainda. A notícia boa é que não precisa ir longe para começar.

Texto reproduzido com a autorização da autora.

Para mais textos da jornalista Bia Dourado visite o Blog Circo Dourado.

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