Paisagens deslumbrantes criadas com comida

Paisagens deslumbrantes criadas com comida

O fotógrafo inglês Carl Warner usa porções de comida como base para criar paisagens deslumbrantes (e deliciosas), que fazem parte de seu projeto chamado Foodscapes. Essas obras de arte engenhosas são criadas a partir de alimentos frescos como pão, carnes, frutas, legumes e doces.

Warner trabalha como fotógrafo no setor de publicidade há mais de 30 anos. Ele tem vasta experiência desenvolvendo fotos para anúncios, e seu projeto Foodscapes chamou a atenção da mídia internacional.

A inspiração do projeto surgiu em 1999, mas a ideia só começou a ser executada bem mais tarde, em 2008. Em entrevista para o Huffington Post, Warner disse: “Eu estava caminhando pelo supermercado em um dia qualquer, e vi uns cogumelos Portobello muito bonitos. Eles pareciam árvores exóticas, então eu pensei em levá-los ao meu estúdio. Eu percebi que precisava de algum plano, então eu voltei ao mercado e comprei um pouco de arroz e feijão para construir um set de trabalho. Funcionou. Eu nunca havia visto nada parecido com isso”.

Desde então ele aprimora sua ideia original, usando seus conhecimentos de iluminação artificial para criar novas paisagens. O segredo, diz Warner, é iludir as pessoas, fazendo-as acreditar que as cenas são reais, embora não passem de projeções artísticas fantásticas.

Ao planejar cada imagem, Warner decide quais ingredientes serão usados e, em seguida, um estilista alimentar e uma máquina de modelar ajudam-no na execução. Todo o processo pode durar semanas. Muitas vezes, as cenas são montadas em partes, minuciosamente.

As imagens criadas por Warner são instigantes e surreais. Sua arte com alimentos inclui navios rumo ao horizonte, barcos que desafiam mares tempestuosos, florestas, desertos, pradarias, praias, montanhas, sempre em representações lúdicas.

Todos os alimentos foram consumidos por Warner e seus assistentes, ou então doados para abrigos. Não houve desperdícios.

Veja então algumas das paisagens deliciosas criadas por Carl Warner:

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida contioutra.com - Paisagens deslumbrantes criadas com comida

Os relacionamentos de hoje em dia

Os relacionamentos de hoje em dia

Paramos de nos esforçar. Afinal de contas, por que se esforçar pelo amor de apenas uma pessoa quando o que a sociedade quer que a gente pense é que o mar está cheio de peixes? Não vale a pena sofrer por apenas uma pessoa quando tantas outras estão a um simples passo: no celular, nas redes sociais, nos sites de relacionamento e em muitas outras alternativas. O difícil, hoje em dia, é escolher, entre tantas opções, a que julgamos melhor. Um celular dá muito menos trabalho do que uma pessoa. Temos a impressão de que um «Bom dia» pelo Whatsapp substitui o abraço da manhã. Dizemos para nós mesmos que o romance morreu, e talvez tenhamos razão, mas por que não redescobri-lo? Talvez o romance de hoje só comece quando deixarmos o celular na bolsa na hora do jantar. Talvez a única forma de viver um romance na sua plenitude seja olhando na cara da pessoa que está sentada na nossa frente.

Quando achamos uma pessoa legal, nosso olhar não para quieto, fica numa busca frenética por outras opções em volta, porque sempre existe a opção da escolha, e é essa escolha que nos anula. Sempre somos levados a pensar que quanto mais oportunidades, melhor. Mas nunca devemos esquecer o provérbio «quem muito abarca pouco aperta»; ou seja: nunca ficaremos satisfeitos. Sequer entendemos o que significa estar satisfeito, desconhecemos este conceito porque sempre estamos aqui e lá ao mesmo tempo, pensamos nas opções escondidas atrás da porta, sempre mais e mais e mais…

Sabemos ficar tranquilos e sabemos nos divertir, mas, se não temos coragem para encarar nossos demônios, como vamos amar outra pessoa? Sempre nos rendemos e abandonamos o barco. É possível que nenhuma geração anterior tenha visto o mundo de forma tão frívola. Podemos entrar na Internet, ver a foto de um lugar bacana, pegar o cartão de crédito e comprar o voo na hora. Podemos, mas não fazemos. Ou seja, ainda que tenhamos essa capacidade, preferimos ficar em casa acompanhando a vida dos outros no Instagram, talvez uma vida que também poderíamos ter. Vemos lugares onde nunca estivemos e gente que não conhecemos, nos deixamos bombardear por estímulos sensoriais e nos perguntamos «por que somos tão infelizes?». A resposta é simples: não temos ideia do que é a nossa vida, mas sabemos exatamente o que ela não é.

Se, finalmente, encontramos alguém que nos ame e que nós amamos, queremos rapidamente revelar a novidade publicamente, contamos para todo mundo que estamos em uma relação, mudamos o nosso status no Facebook e colocamos uma foto no Instragram. Deixamos de ser uma pessoa e passamos a ser ’nós dois’, e sempre devemos aparecer publicamente bem e sorridentes, felizes e em harmonia. Não falamos nada quando brigamos, nada de foto de olhos chorosos e lençóis encharcados de lágrimas. Tampouco escrevemos 140 símbolos no Twitter para avisar o mundo que a relação está a ponto de acabar. Não, essas coisas não são reveladas porque são pessoais. E os momentos de alegria a dois, não são? Sempre mostramos a relação como algo ideal e fugimos do que ela realmente é.

Até que vemos outros casais felizes e começamos a nos comparar com eles. Nos transformamos na geração da comparação, uma geração que funciona na base das curtidas«. Sempre queremos mais e mais. Bastam apenas algumas curtidas (ou a falta delas) para pensarmos que somos melhores ou piores que os outros. Nunca seremos suficientemente felizes porque os padrões de comparação não são reais. A vida que criamos é irreal, assim como as nossas relações. E, infelizmente, não podemos — ou melhor: não estamos prontos para — entender isso.

Finalmente, decidimos terminar as relações, porque não somos suficientemente bons e porque nossas relações não são como manda o ideal. Então, mais uma vez, decidimos mudar, entramos em vários perfis na Internet, pedimos — ou cutucamos — outra pessoa como se pede uma pizza e tudo começa de novo: emoticons, sexo, a mensagem de «bom dia», uma selfie, etc. Outro casal superficialmente feliz. Comparações, comparações, comparações. De repente, sem perceber, aparece uma onda de insatisfação, brigas, «há algo de errado conosco», «isso não está dando certo», «eu quero outra coisa», e terminamos de novo, outro amor que se desfaz sem nunca ter, verdadeiramente, acontecido.

A próxima vez, a mesma coisa, outro sucesso passageiro, outra tentativa de encaixar a complexidade de uma relação em 140 símbolos, em imagens estáticas e cheias de filtro, em 4 idas ao cinema. Nos preocupamos tanto em passar a impressão de felicidade que somos o oposto dela. Qual é o nosso ideal? Alguém sabe? Ninguém.

Acontece que esse ’algo a mais’ que sempre buscamos é sempre a mesma mentira. O que é natural, e o que realmente queremos é conversar um pouco, queremos ver a cara do nosso amor ao vivo e não em uma tela de celular, queremos que tudo aconteça progressivamente. Na verdade, a simplicidade é o caminho. Não precisamos de uma vida de ’curtidas’, seguidores e comentários. Infelizmente, ainda não percebemos isso. Queremos uma conexão profunda e verdadeira, um amor construído com verdades, queremos toque, queremos ter certeza de que aproveitamos a vida de forma inteira. É disso que precisamos, e é isso que não sabemos.

Até agora, não vivemos. Não amamos…

Autor: Jamie Varon
Tradução e Adaptação: Incrível.club
Foto da portada: Veronica Caycedo

Somos loucos, entendeu?

Somos loucos, entendeu?

Antes de prosseguirmos, algumas regras precisam ser informadas. São três. Ainda estamos em construção e toda sugestão é bem vinda, mas desses três princípios não abrimos mão; 1. Fale sobre suas loucuras. 2. Continue falando sobre suas loucuras. 3. Dê um abraço na pessoa mais próxima no momento. Completada todas as regras citadas, seja bem vindo (a) ao clube. Também somos conhecidos, carinhosamente, pelo nome Clube dos Loucos. O grupo não é grande, mas transborda amor com facilidade.

Em tempos de intolerâncias, preconceitos e uma espécie de sanidade orquestrada para o fechar do coração, convoco todos os espíritos deslocados para sonharmos juntos. Essa conversa de ingenuidade por acreditar num mundo melhor não passa de pessimismo daqueles que desistiram de acreditar. Realidade é perspectiva e não condição. Enquanto existir fôlego para pessoas como nós – que insistem, tudo será possível. Não ligue das suas manias serem estranhas ou engraçadas sob o olhar dos outros. Ignore se praticar o certo e o gentil fará de você um pobre coitado, ou, no discurso pejorativo – “bonzinho só se fode”. Nada disso. Tampouco pincele felicidade. Quem gosta de ser feliz em parcelas é o banco. Gargalhe como se não houvesse amanhã. Beije de língua, mas sem pensar no movimento seguinte. Faça sexo por tesão e não para trapacear o relógio. Cante alto sua música favorita, mesmo na rua. Sorria mesmo sem ter ouvido o possível aceno de alguém. Assista inúmeras vezes o filme que deixa o coração em êxtase. Pequenas loucuras despercebidas pela maioria, mas tão fundamentais quanto escolher levantar da cama dia após dia.

Somos loucos, entendeu? Aprendemos diariamente com essa sintonia que grita forte por esse amor sadio, cúmplice e que não nega mais. Por quê? Corações inteiros não precisam responder porquês.

Assim como Sherazade, guardamos mil histórias dentro de nós

Assim como Sherazade,  guardamos mil histórias dentro de nós

Começo este texto relembrando resumidamente a história da Sherazade e às mil e uma noites:

Conta a lenda que um Rei mergulhado no rancor e na amargura devido à traição de sua esposa, decidiu vingar-se contra o feminino, casando-se a cada noite com uma nova esposa, à qual ordenaria invariavelmente a sua morte. Mas eis que um dia chega a vez de Sherazade, que provida de um plano arriscado e engenhoso, muda o desenrolar da história.

A cada noite a nova rainha conta uma história encantadora ao Rei, deixando-a interminada ao raiar do dia. Ele, ávido em querer conhecer do desfecho, polpa a vida de Sherazade dia após dia. Passam-se mil e uma noites e Sherazade diz que não tem mais histórias para contar.

Apresenta ao Rei os filhos gerados nesse tempo, os quais ele não conhecia pois estava inebriado pelas histórias da rainha. Neste momento, o rei percebe que não há mais rancor ou desejo de vingança em seu coração e que não poderia mais viver sem Sherazade.

Assim, como o Rei desta história, muitos de nós passamos por momento difíceis de digerir. Traumas, traições, enganos, decepções, ilusões, lutos… uma enormidade de situações pode fazer com que, em algum ou em muitos momentos, nos sintamos dominados por fortes emoções e sentimentos que nos impedem a ação racional ou a elaboração de um sofrimento existencial.

No caso de Rei, a traição de sua mulher despertou nele uma força destrutiva generalizada em relação ao feminino, projetada não somente sobre as futuras esposas destinadas à morte, mas também direcionada aos aspectos femininos de sua própria personalidade inconsciente. A atitude agressiva do Rei impedia qualquer contato com sua própria sensibilidade e com suas emoções, as quais trariam os recursos curativos ao seu coração desapontado. Ao contrário, tal atitude o mantinha destinado a uma ação compulsiva e insaciável de vingança, destruindo também sua própria personalidade.

Mas, ei que surge Sherazade, personalizando as forças criativas do feminino e por esta via, torna-se capaz de transpor as defesas e a unilateralidade do Rei. Através das suas histórias, conduzidas de maneira tão extasiantes e atrativas,ela fazia com que o Rei esquecesse da sua intenção provisoriamente, passando a vivenciar novos interesses e sensações.

As histórias têm o poder de nos transformar. Despertam nossa atenção, nossa capacidade imaginativa, e através delas, nossa disposição para a elaboração simbólica. Elas nos atingem justamente no lugar onde moram nossos sentimentos e nos ajudam na abertura emocional para transpormos nossas dificuldades existenciais.

Se notarmos bem, toda história possui um início que se dirige para um conflito e para o potencial para resolução do mesmo. Geralmente há um clímax, que nos mostra a necessidade de um nível máximo de tensão para a transformação ocorra e o desfecho da história possa ser positivo. Não podemos ficar com histórias sem final, pois não há como deixar em aberto este espaço em nossas mentes. Além disso, toda história tem um herói ou um ato heroico essencial para a resolução do conflito inicial. Ele é o símbolo da nossa capacidade de superação e amadurecimento para lidar criativamente com os múltiplos aspectos da vida.

As mil e uma histórias e a força criativa de Sherazade transformam o Rei e com isso mudam o curso do destino de ambos. Não há mais desejo de vingança, não há mais a morte e a destruição. Há somente o casamento, símbolo da união dos opostos (feminino e masculino) e os frutos, representados pelos filhos.
Alimentados pela saga de Sherazade, nós também podemos encontrar um caminho criativo para lidarmos com nossa própria história, especialmente com nossos lados destrutivos, compulsivos e estagnados.

Toda vida tem uma história, uma bibliografia que lhe traduz os fatos vividos na direção de onde os sentimentos se impuseram na jornada existencial. Tendemos a acreditar que essa história, devido a realidade dos fatos torna-se única e imutável, pois afinal, o que passou já passou, já está escrito, não tem volta.

Mas, se começarmos a fazer o exercício de contarmos e recontarmos nossa história, permitindo que novos enredos (nossos e de outras pessoas) nos reguem a alma, é possível que em algum momento nossa própria história se transforme em outra, não somente com um novo desfecho, mas também com um novo olhar sobre toda a trajetória.

A verdade é que nossa história se modifica e se enriquece a cada dia. A cada fato novo, o passado também se reconstrói. A linha do tempo se alimenta para os dois lados, ligando o que passou ao que virá.

Toda história é uma jornada heroica. É um caminho humano em direção a toda nossa potência criativa e existencial. Ela se modifica a cada passo em direção a maturidade, a cada encontro que nos transforma, a cada ideia nova que confronta as anteriores.

Poder reconstruir e recontar nossa história a cada dia nos anima e nos consola. Nos mostra que as feridas que hoje ainda fazem sagrar e chorar, serão um dia cicatrizes que representarão a força e capacidade de se recuperar e seguir a diante.

Por isso, busquemos todos os dias a Sherazade que habita nosso ser. E se guardamos mil histórias dentro de nós, que elas nos levem a nossa versão final, aprimorada, amadurecida e feliz.

SOMOS ETERNOS RASCUNHOS

SOMOS ETERNOS RASCUNHOS
Young woman having fun and blowing bubbles outdoors

O que parecia ser um definitivo fim do caminho era um beco sinuoso e úmido. Sedutor. Iluminação difusa, aérea. Uma dessas esquinas caprichosamente desenhadas nas amplas, monótonas e previsíveis alamedas da vida. Parece, de fato, que nada é exatamente o que parece ser. Somos salvos de virar estátuas de sal graças à nossa maravilhosa transitoriedade.

Um alívio imenso poder respirar fundo, como se respira depois do gozo. Encher o peito de ares novos e bem-vindos. Deixar que o sangue renovado flua, escorra seus caminhos num caminho engenhoso e belo por dentro de nós.

Um presente inesperado poder dançar fora do ritmo, como deusas celtas a se confundir com a terra, numa noite de solstício de verão. Passos brincalhões a nos misturar com a música que vem de lembranças boas e escapa dos lábios em canções queridas, ungidas, murmuradas.

Uma inundação de sentimento de liberdade, compreender que absolutamente tudo é provisório, solto, imprevisível. Entregar-se ao balanço de um abraço de si mesmo. Encontrar-se. Perder-se. Reencontrar-se na descoberta de um amor que chegou de mansinho, foi tomando tudo de sua bondade e desencavando lá de dentro sonhos esquecidos, guardados, adormecidos.

Um banho de chuva depois de uma longa e intempestiva jornada no deserto. Deixar a água bendita, escorrer pelos cabelos, contornar o rosto, o colo. Absorver o sal dos lábios há muito calados, no resignado entendimento de que talvez as melhores coisas venham depois. Mais tarde.

Enfiar os dedos dos pés na areia e acolher o mar que se dissolve em espuma, ao desmaiar languidamente na praia. Deixar que o arrepio do encontro suba pelas pernas, encontre a espinha e inunde o coração. Entrega. Prazer. Rendição.

Sentir o abraço morno do sol que se despede no fim da tarde. Parte com a tranquilidade das almas solúveis que não temem o fim, porque compreenderam que o término de qualquer coisa não passa de uma ilusão, à qual nos apegamos apenas para poder acreditar que os pontos finais da vida moram na ponta dos nossos dedos.

Encontrar a noite, suas sombras e luzes a desenhar histórias que se perderam no tempo, que nos preenchem do agora e que nos despertam a excitação do que ainda está por vir. Dissolver-se na certeza de que as incertezas são tão bonitas quanto um floco de neve. Temporais. Frágeis. Fluidas.

Envolver-se no manto de estrelas dessa noite e adormecer na serenidade de ter finalmente compreendido que somos eternos rascunhos de nós mesmos. Amanhã, outra versão de nós virá nos despertar para outros sonhos, outros desejos, outros encontros. Uma vida novinha em folha caberá na palma da mão, na curva de um sorriso, no calor de um amor tranquilo. Paz. Acolhimento. Redenção.

 

 

 

 

 

Para você que enxerga o amor nas prateleiras de supermercado

Para você que enxerga o amor nas prateleiras de supermercado

“Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar.” (Chico Buarque)

O amor não está à venda, mas o desejo está. Para alguns, a vontade de ter alguém é motivo suficiente para uma mudança no status de relacionamento. Trata-se de quando não é capaz de manter a própria solidão e precisa dividi-la com o outro. Mas a sensação momentânea do carinho passa e, com ela, surge uma nova necessidade. É quase um vício, mas longe de ser amor. Relacionamentos volúveis conduzidos por abstinência. Há quem jure de pé junto estar amando naquele momento. Que a vida sorriu e trouxe a sorte para o encontro. Semanas depois, a partida. Culpa o adeus sob a justificativa do amor ter trapaceado. Foi injusto. Não merecia.

O amor não está à venda, mas o ego está. Para outros, o querer alguém é tanto que nubla os próprios sentidos. Quando imerso numa relação, resolve que o amor só é amor quando os seus pressupostos são atendidos e o seu ego alvo de carícias. Mas nem sempre a sua vontade é lei e, com ela, surge o desrespeito. É mais um vício. Este, bem mais longe de ser amor. Relacionamentos nocivos compostos por desigualdades. Há quem jure de pé junto estar querendo o bem do amor. Porque quem ama quer o bem e não faz nada menos que o certo para esse amar. Meses depois, a partida. Culpa o adeus sob a justificativa do amor ter trapaceado. Era tudo mentira. Não merecia.

O amor não está à venda, mas a cumplicidade está. Para poucos, o amor nunca foi motivo, mas escolha. Não existe dúvida, quando, dividindo afeto com alguém, a única preocupação é sobre estar entregue, aberto e transparente. Mas nem sempre o amor deparado faz poesia. Algumas vezes, em linhas tortas, o medo acena para o fim. Há quem jure de pé junto não temer. Afinal, o amar fez morada e não pretende procurar um novo lar. Anos depois, a partida. Culpa o tempo sob a justificativa do amor ter trapaceado. Ingratidão. Não merecia.

O amor não está à venda. Não imagino o amar como um produto cuidadosamente embalado e exposto em diversos tamanhos e formas. Tampouco me interessa a busca a todo custo da sua sensação. Procuro o sorriso nos pensamentos, a coreografia ideal nas falas e um senso de equilíbrio nos gestos. Se, a partir disso, nascer algo parecido com o amor, seja bem vindo. Nem preciso jurar de pé junto. Passados alguns minutos, o silêncio. O amor é de graça. Eu mereço.

Você pode ser o antidepressivo de alguém.

Você pode ser o antidepressivo de alguém.

Não sei bem como são os medicamentos antidepressivos e aqui não estou falando contra, nem recomendando que alguém interrompa a medicação receitada pelo psiquiatra. Não é sobre usar ou não medicamentos, mas sobre lugares da vida em que substâncias químicas jamais serão suficientes.

Eu gostaria de algo pra tomar e pronto, todas as minhas questões fossem resolvidas. Gostaria muito de ser uma pessoa bem resolvida, eu sou como você. Cheio de problemas feito livro de aritmética e de dúvidas feito barrar de pesquisar do Google.

Você já leu a bula de um Prozac? Elas não ensinam nada sobre caso a gente ter alma sensível às coisas mais bobas da vida, desconsideram veementes o sentimento de quando surge a vontade de engolir as nuvens do céu. O Prozac não vai me dizer se devo insistir ou desistir de algumas amizades, nem me explicar qual é a relação amorosa mais apropriada.

Para viver além da medicação é preciso deitar no chão. Tirar os sapatos, cantar mesmo sem dom suas músicas favoritas, desenhar essa realidade paralela de quem não tem dom de representar fielmente os objetos. Fazer de conta ser qualquer coisa.

Você também necessitará ter dois dois olhos capazes de chorar com ou sem motivo. Tudo bem se borrar a maquiagem que acabara de preparar ou sua cara inchar como um panda alucinado. Tudo bem mesmo! Pandas são até desenhos animados que salvam seus amigos lutando karatê, parecer um panda é melhor que engolir o choro e viver entalado de tristeza.

Chame seus amigos e vá pra algum lugar. Se eles não quiserem ir, se você acha já ter irritado tanto o mundo que agora está sozinho, tudo bem, tudo bem também. Aproveite-se. Escolha o seu lugar. Talvez dê pra dançar. Talvez seja o momento de viajar. Com certeza há milhares de “talvez” para achar conversando consigo mesmo. Falar sozinho não existe se você está acompanhado de si.

Eu sei, você  esquecerá estas palavras nas horas de agonia, eu mesmo esqueço, tudo bem. Também, se precisar tomar algo além do receitado pelo médico , por favor, tome algumas horas deixando doer. Não há nada de errado em sentir um dia ficar mais pesado e entortar os ombros. Se é o fim? É sim. Mas também é sempre o recomeço, todo dia, passo a passo.

Para viver com menos comprimidos é preciso aceitar determinadas doses de loucura. Nem tudo em você é mesmo uma coisa normal, mas como ser normal é fruto de comparações com outras pessoas, mais uma vez, tudo okay. Você pode ser o louco delas assim como muitas vezes elas são as loucas para ti.

E se puder, quando puder, a hora que puder. Estenda as suas mãos, saia um pouco do seu mundo e suas estrelas, tente tocar em outra pessoa com suas galáxias todas. Os seus ouvidos podem ser o barquinho que ajudará um marinheiro que caiu do naufrágio a chegar em terra firme. O “tudo bem, eu te entendo” sincero e empático pode se transformar numa bússola a mostrar uma nova rota. É só se deixar ser.

Seus braços têm a capacidade de enrolar um corpo dando a poderosa substância mística e ao mesmo tempo científica, denominada aqui de abraçaço. Não é o abraço comum de dois empresários que fecharam um negócio lucrativo. Mas o abraçaço de uma criança que encontrou outra criança há dois minutos atrás, e já quer que ela seja uma criatura espalhafatosa de tão feliz.

Você pode achar e relutar que não, você não. Mas há alguém por aí com uma receita psiquiátrica imaginária com seu nome. Recomendando que sejam utilizadas várias doses da sua companhia e do seu afeto. Pode ser alguém de perto, de longe, de mais ou menos perto e longe. É alguém que mais cedo ou mais tarde aparece, muitas vezes sem saber o porquê, precisando de uma cápsula da sua presença.

Mesmo que nunca diga explicitamente, quem sabe um sorriso de alívio, um aperto no dedo mindinho, algo nele dirá; – Você é o antidepressivo que eu tomei sem receita.

A mágica é que nessa hora, essa pessoa será seu antidepressivo também, e vocês parecerão duas belas caixas sorridentes de medicação sem bula e sem contra-indicações.

Esqueça o que te disseram sobre o amor

Esqueça o que te disseram sobre o amor

“A força invencível que impulsiona o mundo não são os amores felizes, mas os contrariados.” (Gabriel García Márquez)

Desde cedo você é convidado para conhecer as peripécias do amor. Começa com o riso frouxo na infância e nas inúmeras tentativas ingênuas de agradar quem se gosta. Emprestando um brinquedo você acaba entregando o coração. Inocente, vibra com a primeira vez que segura a mão em direção ao parquinho da praça. Depois o sorvete compartilhado, uma clara prova de respeito e admiração. O tempo é um detalhe chato, e quando a mãe grita que volte ao ninho, o bico chega a dar pena por tamanha separação precoce. Até que você esquece, porque nesse tempo, o coração é novo, jovial e vibrante. Ele transborda amores facilmente. Nem liga para os riscos, simplesmente vai e encara. Se não der, nada que novas e adoráveis distrações não resolvam. E assim você segue, acreditando em novos risos no dobrar da esquina.

O colorir sai de cena para a chegada do “é agora ou nunca”, afinal, na adolescência não pode existir margem de erro. É o tempo do amor certeiro, do amor pra vida inteira. O caderno rabiscado, as frases pulsantes para externar um sentimento infinito recheado de loucuras e sonhos a dois, onde o beijo torna-se urgente, o abraço uma contemplação da instigante felicidade. Um corpo inteiro falando pelos cotovelos e tudo aquilo que você quer em troca: – Eu te amo. E te amo. E te amo mais um pouquinho. Não! Eu te amo mais! Para sempre!

De forma irônica, a vida lhe mostra que não é bem assim que funciona. Porque o coração ainda é jovem, inquieto e confuso. Não sabe mensurar amores ou contenta-se em longo prazo. O tempo urge e novas distrações vão caindo de paraquedas, justo quando você achava ter encontrado o amor maior. Novamente, ingênuos. Daí o mundo desaba no primeiro término. Falta ar, falta tudo. Fala até que queria ter uma máquina que apagasse as memórias vividas do desamor, porque só de lembrar, impossível de viver.

Passado o período de caças às bruxas, com o coração já cambaleando e maltratado mediante tontos tombos e capotagens, você pensa ter aprendido a lidar. É adulto e responsável. Paga as suas contas, vive uma época de muitos amigos, experiências, novidades e prazeres. Prepotente, se coloca na crista da onda quando o assunto é falar de amor. Pitacos por todos os lados, mas de noite, tira o coração empoeirado da gaveta e pensa sobre quando conhecerá alguém capaz de cuidar da maior preciosidade da sua vida.

Um novo dia surge. Relacionamentos líquidos, relacionamentos duráveis. Você até deu alguma sorte durante um tempo. O amor sorriu pra você. Era carinhoso e cheio de afagos e cuidados. Compartilhar era fácil com. Não era necessário dizer muito, pois quando as mãos estavam dadas era verdadeiro. Mas desde cedo nos ensinaram errado sobre o amor. O romantismo que nos fora passado está muito distante da realidade. Porque a concepção de amor praticada com o passar dos anos fugiu do controle. Exacerbamos o mito de duas pessoas poderem ficar juntas só porque se amam. Esquecemos o cuidado com o outro. Jogamos fora a admiração do ontem para darmos lugar aos jogos irrefutáveis das convivências. Trocamos o respeito pelo querer estar certo. E em todo esse processo, incorporamos mazelas no riso que antes era genuíno.

No entanto, temos uma lição cabal a ser compreendida; é dos desamores que surgem os grandes amores. Ainda há esperança.

“Pode ser o que você nunca viu / Pode ser o que você tem na mão / Pode ser exatamente o que eu digo / E também pode não / Então esqueça seus sonhos / Esqueça as regras e a exceção / É mais real cru e fascinante / É mortal passível de ressurreição” (Herbert Vianna; João Barone)

Sim, somos cheios de defeitos, mas para que caprichar tanto?

Sim,  somos cheios de defeitos, mas para que caprichar tanto?

 

  • Só de raiva eu falei mais alto ainda!

Nesta frase o sujeito:

  1. a) Foi admirado por todos; b) Deu mais voz à sua razão; c) Fez papel de mandão; d) Permitiu que um defeito agisse por ele.

Há um infinito de outros exemplos – sempre mais nos outros do que em nós, como manda aquela insensata cegueira seletiva- de como é possível piorar ainda mais um feito mal feito, vulgarmente chamado defeito.

Defeito é um negócio que era para ir em uma direção e vai para outra, que provocaria risadas se não provocasse raiva ou repulsa, que geralmente invade o terreno alheio e provoca bagunça não desejada.

Defeito é um feito do qual seu dono algumas e equivocadas vezes se orgulha, crê que marca sua individualidade e personalidade, que o destaca na massa, a mesma massa que em geral se esforça para esconder e reprimir seus próprios defeitos.

Defeito não é de propósito, as mais das vezes, mas também não é trabalhado para se transformar em virtude. Defeito é cicatriz. A pessoa tem e carrega os seus como quem carrega a bolsa, sempre pesada e cheia de tralhas inúteis.

Não é difícil conviver com defeitos. Se olhar com simpatia, podem ser características.

Sofrível é viver com defeitos espaçosos, egóicos, inflacionados e supervalorizados. Aí sim, dá aquela vontade de correr para longe.

A pessoa que fala o que lhe vem à cabeça, sem o mínimo filtro de cortesia por exemplo, carrega um grande defeito. Isso não é sinceridade nem espontaneidade, é grosseria, e das grandes. É o defeito de se esvaziar e encher de lixo, o próximo.

Defeito todo mundo tem e muitos de nós compartilhamos os defeitos coletivos, mas, entre segurar a onda de estragos e caprichar para dar mais emoção, se você prefere a segunda opção, eu preciso te contar um segredo: Ninguém ama os seus defeitos! Se são tolerados, é por uma atitude miúda que ainda não passou pelos seus pensamentos: Educação, cortesia, bom senso.

Não valorize seus defeitos não, ao contrário, se possível, coloque as virtudes na mesa para a alegria de quem está por perto.

Eu sei que amanhã vai passar, mas hoje está doendo muito…

Eu sei que amanhã vai passar, mas hoje está doendo muito…

Muitas vezes, não queremos ouvir ninguém nos dizendo que aquilo vai passar, que amanhã será um novo dia, que temos de ser persistentes, pois sairemos mais fortes daquilo tudo. Queremos apenas que alguém entenda a nossa dor e nos deixe sentir todo o amargor daquele momento doído.

Nossa primeira reação ao ver uma pessoa querida sofrendo é tentar lhe transmitir esperança, no sentido de confortar a sua dor. Para isso, costumamos encorajá-la a olhar para o futuro, dizendo-lhe que aquilo tudo tem algum propósito e ela ainda haverá de entender, que tudo o que nos acontece é útil e necessário, entre outras palavras de conforto.

Muitas vezes, porém, não queremos ouvir ninguém nos dizendo que aquilo vai passar, que amanhã será um novo dia, que temos de ser persistentes, pois sairemos mais fortes daquilo tudo. Queremos apenas que alguém entenda a nossa dor e nos deixe sentir todo o amargor daquele momento doído, alguém que nos permita ser fracos e inseguros naquele instante, permanecendo ao nosso lado, se possível com um silêncio que acolha e transmita compreensão.

Todos sabemos que os tombos nos fortalecem e trazem aprendizados importantes ao nosso amadurecimento pessoal. Também sabemos que o tempo ameniza o sofrimento e traz novas esperanças, novos motivos para continuarmos sonhando nossos ideais de vida. Porém, no momento em que estivermos imersos na escuridão inconsolável, sentindo-nos a pior das pessoas, muito pouco nos adiantarão quaisquer palavras que tratem do futuro, porque o hoje estará nos aniquilando.

Isso não quer dizer que não precisaremos de gente ao nosso lado nos dando forças durante nossas misérias emocionais; isso quer dizer que precisaremos de alguém que, antes de tudo, demonstre entender o que estamos sentindo e nos permita passar por aquilo, até que o fundo do poço não mais nos caiba. Quem sofre precisa de consolo empático, precisa saber que o outro entende e vai deixá-lo sofrer o que tiver que ser seu até que consiga expulsar aquilo tudo de sua vida.

Então, quando as nuvens começarem a se dissipar, quando os raios de sol conseguirem alcançar o rosto de quem padecia na escuridão, aquele que esteve ali ao seu lado fará toda a diferença, ajudando-o a voltar ao caminho de ida, à jornada de busca da felicidade que com certeza ainda estará por vir. Caminhar junto é preciso, mas saber a quem dar as mãos enquanto se constroem os sonhos que sustentarão essa jornada determinará a qualidade de vida e de amor que levaremos em nossos corações.

Você já tocou sua alma com carinho hoje?

Você já tocou sua alma com carinho hoje?

“Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma.”  Cora Coralina

Nestes tempos acelerados, em que ansiedade virou epidemia e falta de tempo motivo de orgulho, quando foi a última vez que você tocou sua alma com carinho?

Fazer o melhor, ser o melhor, superar, produzir. E, de repente, nos esquecemos do que realmente importa, da essência e do que nos dá energia e alegria para prosseguir.

Tocar a própria alma é algo muito particular que envolve coisas singelas. A alma não faz questão de estardalhaços e somente atitudes delicadas, daquelas quase imperceptíveis a olho-nu, é que podem tocá-la.

Um chocolate quente, um cochilo breve mas revigorante, o cheiro de uma flor, café com biscoitinhos. O abraço de um amigo, um banho reconfortante, ligar para a família (aquela do seu coração). O calor do sol no inverno ou a sombra de uma árvore no verão. Sentir a brisa, o cheiro de chuva, ouvir ou tocar aquela música que te faz lembrar quem você é. Um livro, uma poesia, um filme. Tocar a grama, espreguiçar, colocar uma música no seu quarto e dançar até cansar. Cantar, meditar, respirar. Seu moletom velho e confortável. Cheiro de alho refogado. Aquele bolo que saiu do forno. Uma lambida do seu cachorro. Dar-se um abraço e dizer “Ei, você fez seu melhor! Estou orgulhoso de você.”.

Normalmente, o que toca nossa alma está muito ligado às nossas memórias de infância, quando ainda estávamos mais conectados com nossa essência. Infelizmente, nós crescemos e esquecemos o quão importante é manter esse contato. Sem ele, morremos aos poucos. A vida torna-se mecânica e sem sentido. A tristeza aparece.

O bom dessa coisa de tocar almas é que elas, por mais diferentes que sejam, podem comunicar-se umas com as outras. Mesmo que você esqueça de tocar a sua própria, cada vez que chega na de alguém, é instantaneamente tocado.

Mas, como foi dito, almas são feitas de material puro, tocadas apenas com delicadeza. Naquele sorriso sincero, naquele gesto de preocupação, naquela surpresa pequena, porém doce e cercada de carinho. Tudo que é genuíno chega até as almas. Toca fundo e ressoa para as outras, em diferentes cores e melodias suaves. Após tocar todas as almas existentes, dissipa-se pelo universo e fica na memória.

Ela tem pernas tortas que me levam aos caminhos sinuosos do seu coração

Ela tem pernas tortas que me levam aos caminhos sinuosos do seu coração

Sei que não sou filho de rei, não sou grandioso ou muito adequado. Sou somente um mero agricultor que planta poesias e observa com mansidão e serenidade o florescer de amores. Tratarei, então, de plantar com carinho todo verso que ecoa na minha veste interior, para que o meu amor por ti se renove a cada estação.

Não tenho medo de fincar raízes. Quero-as fincadas no meu quintal, para que eu possa contemplá-las todos os dias, pela manhã, ao abrir a janela do quarto, na companhia do sol. Quero saborear todas as suas birras e suas loucuras. Quero tê-la por inteiro, tocando profundamente os recantos mais longínquos da sua alma.

Posso não ter dinheiro, mas não me faltam amor e vontade de descobrir cada mistério que te cerca. Quando estiver brava, pode me jogar na parede e descarregar sua torrente de emoções; eu te abraçarei forte e farei de tudo para o teu mar de angústias se acalmar. Se isso não for suficiente, não se esqueça de que sussurrarei no teu ouvido bobagens para que possa sorrir e sentir-se amada.

Não preciso de muita coisa, só eu, você e guardar a infinitude do tempo em uma garrafa vazia, para que eu possa beber da felicidade outra vez. Felicidade que estará sempre em uma flor, com um pouquinho de água em cima da mesa.

Você tem pernas tortas que me levam aos caminhos sinuosos do seu coração. Caminhos de loucura que anseio, como uma porta entreaberta, à espera de uma batida que alegre o morador que repousa na mansidão da ternura.

Com você sinto uma paz que jamais senti. Você tem esse dom de acalmar a minha alma. Mas também, adoro as suas estranhezas que fazem com que eu me sinta vivo. Você sempre diz que eu tenho os olhos bonitos; deve ser porque, mesmo no silêncio, eles continuam dizendo que te amo.

Não tenho medo da intimidade e de ficar vulnerável, porque a esse amor já estou entregue e não tenho medo de me ferir; tenho apenas de não o viver. Pode abrir a porta, já estou aqui. Vem balançando os teus cabelos negros feitos de linho e forma comigo um amálgama das nossas belezas e estranhezas. Abraça-me e fecha os olhos, para que possa sentir os compassos harmônicos dos nossos corações. Guarda esse som e lembra-te que essa é a melodia do nosso amor.

Carl Gustav Jung e sua inesquecível entrevista para a BBC em 1959

Carl Gustav Jung e sua inesquecível entrevista para a BBC em 1959

Em um dia de primavera de 1959, a BBC encaminhou um repórter para entrevistar o psicanalista suíço Carl Gustav Jung em sua casa, nas proximidades de Zurique. A entrevista foi ao ar com o nome “Face To Face” e deveria ser profunda, mas de maneira que pudesse ser entendida por pessoas que não tivessem conhecimentos específicos da área de psicologia.

A entrevista foi um grande sucesso na época. Muitas pessoas a assistiram inclusive Wolfgang Foges, diretor da Aldus Books, que como bom admirador da psicologia moderna lamentava, na época, que apenas Freud tivesse as linhas gerais do seu trabalho conhecidas por um grande número de leitores. Na época Jung não era conhecido pelo público comum e sua leitura era considerada extremamente difícil.

Foges então tentou persuadir Jung a colocar suas ideias básicas em um livro, de forma que fossem acessíveis a todos os leitores. Jung, no entanto, à princípio, disse que não escreveria o livro. Disse um não bastante gentil e explicou que no passado nunca tentara popularizar sua obra e que não tinha certeza se o poderia fazê-lo de forma satisfatória aos 84 anos de vida.

Com o sucesso do “Face to Face”, Jung passou a receber uma infinidade de cartas de pessoas comuns, sem qualquer experiência médica, que ficaram encantadas com sua presença marcante, humor e encanto despretensioso durante a entrevista; pessoas que perceberam em sua visão de vida algo que lhes podia ser útil. E Jung ficou muito feliz com tudo isso, não só pelo grande número de cartas, mas também por terem sido remetidas por pessoas com as quais ele não teria tido oportunidade de interagir durante a vida.

Foi então que Jung teve um sonho de grande importância para ele. Sonhou que ao invés de estar sentado em seu escritório conversando com médicos e psiquiatras, estava de pé em um local público dirigindo-se a uma multidão de pessoas que o ouviam extasiadas e que compreendiam perfeitamente tudo o que ele dizia.

Dessa forma, quando o convite para o livro se repetiu, Jung o aceitou. Pedindo apenas que ele não fosse uma obra individual, mas coletiva, realizada com a cooperação de um grupo de seus mais íntimos seguidores. Nasceu assim o último livro escrito por Jung, “O Homem e Seus Símbolos”, livro cujas linhas escritas por ele foram terminadas apenas dez dias antes de sua morte, em junho de 1961.

A entrevista “Face To Face” pode ser assistida de forma sintética no vídeo a seguir e logo depois transcrevi seu conteúdo parcial.

Espero que assim como eu, vocês apreciem essa deliciosa oportunidade de assistir a um dos maiores psicanalistas de todos os tempos falando de forma tão animada sobre um pouco do que ele considerava verdadeiro e valioso, em sua teoria e vida.

“Face To Face” – John Freeman entrevista Carl Gustav Jung de 1959 para a BBC.(Legenda e tradução do vídeo: Erick Ungarelli)

Transcrição Resumida da Entrevista “Face to Face”

Freeman: Posso levá-lo de volta a sua infância? O Sr. se lembra da ocasião em que pela primeira vez teve consciência do seu self individual?

Jung: Foi aos onze anos. De repente a caminho da escola eu saí de uma névoa. Foi exatamente como se eu sempre houvesse estado em uma névoa, andando em uma névoa, e eu saísse dela sabendo: “Eu sou o que sou”. E depois eu pensei: “Mas o que eu era antes?” E então eu soube que eu havia estado em uma névoa sem saber me diferenciar das outras coisas até então. Antes eu era apenas uma coisa entre outras coisas.

Freeman: Que lembranças o Sr. tem de seus pais? Eles o educaram de forma rigorosa e antiquada?

Jung: Bem, eles pertenciam à época posterior à Idade Média. Meu pai era um pastor protestante do campo e você pode imaginar como eram as pessoas naquela época, em 1870. Elas tinham as mesmas convicções que regiam a vida das pessoas há mil e oitocentos anos.

Freeman: Com quem o Sr. se dava mais intimamente, com o seu pai ou com sua mãe?

Jung: É difícil dizer, é claro que as pessoas são comumente mais próximas das mães, mas quando se tratava de um sentimento pessoal, eu me relacionava melhor com meu pai, que era mais previsível do que com minha mãe que era para mim algo um tanto problemático.

Freeman: O Sr. era feliz na escola?

Jung: No começo eu fiquei feliz por ter companheiros, porque eu era muito solitário. Nós morávamos no campo e na época eu não tinha irmãos.  Minha irmã nasceu muito tempo depois. Mas logo, para uma escola rural, eu estava muito adiantado. Então comecei a me chatear.

Freeman: O Sr. acreditava em Deus naquela época? E agora, o Sr. acredita?

Jung: Sim, na época eu acreditava. Agora? É difícil responder porque… eu o sei/o conheço. Eu não preciso acreditar porque agora eu o sei/o conheço.

Freeman: O que o fez querer tornar-se médico?

Jung: Foi uma escolha oportunista, pois à princípio eu queria ser arqueólogo, egiptólogo, mas não tinha dinheiro. Então meu segundo amor era a natureza, a zoologia. Pensei na faculdade de ciências naturais. Então percebi que seria professor e essa não era minha aspiração. Então soube que estudando medicina eu teria uma chance de ser médico e atuar na prática. Fazer algo útil aos seres humanos brilhou para mim.

Freeman: O Sr. ao decidir ser médico teve dificuldade em alguns exames?

Jung: Particularmente tive dificuldade com alguns professores. Alguns não acreditavam que eu fosse capaz de escrever uma dissertação. Um professor me disse uma vez que meu trabalho teria sido de longe o melhor da sala se eu não o tivesse copiado. Fiquei furioso e disse que aquela tinha sido a dissertação na qual eu tinha trabalhado mais, pois o tema para mim era muito interessante.

Freeman: Quando o Sr. se decidiu pela medicina, o que o fez se especializar-se em psiquiatria?

Jung: Quando eu estava estudando para o exame final deparei-me com um manual de psiquiatria. Até então eu não havia dedicado atenção ao assunto e me lembro de ter apenas lido a introdução que falava da psicose como um desajuste da personalidade e isso foi o suficiente. Meu coração bateu selvagemente e eu sabia que seria psiquiatra. Ninguém compreendeu porque naquela época a psiquiatria não era absolutamente nada.

Freeman: Quanto tempo depois dessa decisão o Sr. entrou em contato com Freud?

Jung: Isso foi no final dos meus estudos. Demorou um pouco até que isso acontecesse. Em 1900 eu já tinha lido a interpretação dos sonhos e os estudos de Breuer e Freud sobre a histeria. Só em 1907 conheci Freud pessoalmente.

Freeman: O Sr. concluiu qual o seu próprio tipo psicológico?

Jung: Naturalmente dediquei muito tempo a essa dolorosa questão. Bem, o tipo não é nada estático, muda durante a vida, mas eu certamente me caracterizei pelo pensamento. E sempre tive também muita intuição. Eu tinha dificuldade com sentimentos e minha relação com a realidade não era brilhante. Eu sempre estava em discordância com a realidade das coisas. Aí estão todos os dados para um diagnóstico!

Freeman: Olhando para o mundo de hoje o Sr. acha que uma terceira guerra mundial é possível?

Jung: Uma coisa é certa, uma grande mudança de nossa atitude psicológica é iminente. Isso é certo.

Freeman: Por quê?

Jung: Porque precisamos de mais. Precisamos de mais psicologia. Precisamos de mais entendimento sobre a natureza humana, pois o único perigo real existente é o próprio homem. Ele é o grande perigo e lamentavelmente não temos consciência disso. Sabemos muito pouco sobre o homem. Sua psique deveria ser estudada, pois somos a origem de todo o mal vindouro.

Freeman: O Sr. escreveu coisas sobre a morte que me surpreenderam um pouco. Lembro-me que o Sr. disse que a morte é psicologicamente tão importante quanto o nascimento, que é parte integrante da vida. Mas ela não pode ser como o nascimento se é o fim. Ou pode?

Jung: Certo, se ela for um fim, mas não estamos muito certos desse fim. Porque existem as faculdades especiais da psique que não é inteiramente limitada pelo espaço e tempo. Você pode ter sonhos, ou ver doses do futuro. Pode ver mais longe do que as esquinas. Isso mostra que ao menos algumas partes da psique não dependem de limites. E daí se a psique não é obrigada a viver dentro do tempo e espaço? Isso indica uma continuação prática da vida. Uma espécie de existência psíquica além do tempo e espaço.

Freeman: O Sr. acredita que a morte é um fim?

Jung: Bem, não posso dizer. A palavra acreditar é algo difícil para mim. Eu não acredito. Eu preciso de uma razão para uma dada hipótese. Eu sei uma determinada coisa e então eu a sei. Não preciso acreditar nela. Não me permito acreditar por acreditar. Eu não posso acreditar, mas com suficientes razões para uma hipótese eu a aceitarei naturalmente.

Freeman: Que conselho o Sr. dá às pessoas idosas que creem que a morte é o fim de tudo?

Jung: Eu tratei de muitas pessoas idosas e é interessante perceber que o inconsciente ao notar que está aparentemente ameaçado pelo fim total, passa a menosprezar tal fato. A vida se comporta como se fosse prosseguir, dessa forma acho melhor que uma pessoa de idade viva na expectativa do dia seguinte como se fosse viver séculos, assim ela viverá adequadamente. Se ela tiver medo e não tiver perspectiva, ela olhará para trás e ficara petrificada e morrerá antes do tempo. Mas se ela estiver viva e aguardar ansiosa a grande aventura ela viverá.

Freeman: O que o Sr. acha da ideia de imergir a natureza individual do homem em um todo coletivo e padronizado?

Jung: Em suma (…) o homem não pode suportar uma vida sem significado.

Acompanhe a autora desse e de outros textos no Facebook pela sua página Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Cuide bem de mim, mesmo quando eu tiver ido embora

Cuide bem de mim, mesmo quando eu tiver ido embora

Aguente firme, isso pode doer mais do que qualquer outra coisa já tenha doído, mas vai passar, eu juro que vai. Nós somos jovens, com toda uma vida pela frente, tantos deslizes ainda a cometer e tantas promessas ainda por cumprir.

Não foram poucas as lágrimas, é verdade, mas também não foram poucos os sorrisos e sorvetes, as cócegas e as noites passadas em claro com conversas animadas sobre os planos futuros. Planos traçados com a pressa de quem quer engolir a vida em um só trago. Planos que não cabem na gaveta de um só viver e que por isso dividimos entre nós.

Não precisa pegar de volta todas as suas coisas. Por que não finge esquecer por aqui aquele par de sapatos que você tanto gosta, ou uma dúzia de versos escritos em guardanapos? Assim você poderá voltar sempre, abrir as portas do meu armário e do meu guarda-roupa e, assim, sem querer, esquecer mais um xale ou um colar, dando início a um círculo vicioso de desculpas para nossas saudades se encontrarem.

Vamos prometer levar conosco o costume de caminhar de mãos dadas sob o olhar entusiasta dos casais de idosos no parque aos domingos, mesmo que não seja mais a sua mão sobre a minha, nem os seus passos ao lado dos meus. Prometer que nossos telefones ainda irão tocar na calada da noite e que ainda trocaremos segredos de nossas vidas íntimas. Prometer que iremos continuar a nos tratar carinhosamente, talvez até com os mesmos apelidos de sempre, como mozão ou xuxuzinho.

Mesmo que nada disso seja verdade, vamos prometer. O coração pesa menos quando contamos mentiras sinceras.

Não posso te devolver os anos que passou comigo, já que eles são parte do que eu sou agora, do que eu me tornei, como um braço ou uma perna e não tenho nenhum interesse em ficar manco. Gostaria que ficasse também com aqueles que eu dediquei à você, porque posso dizer sem medo de errar que foram os anos mais bem investidos até o momento.

Cuide com carinho das piadas ruins que eu contei para quebrar o gelo no nosso primeiro encontro, nunca se sabe quando elas poderão ser úteis. Das feridas não quero notícias, das cicatrizes tampouco. Ao invés disso, me conte do seu novo rapaz e de como ele toca bem no violão aquela música que eu nunca aprendi.

Não quero me tornar apenas mais um livro na sua estante, sem mais nenhuma página a ser lida. Prefiro ser como uma estrela no céu, para a qual você sempre poderá olhar da janela do seu quarto, uma pra você dar nome e reconhecer no meio da multidão celeste.

Guarde bem entre as fotografias que quase tiramos e tudo aquilo que eu quase disse – talvez seja mais importante do que tudo o que eu já falei até agora.

Acima de tudo, guarde com você o que eu fiz, não o que eu apenas pensei em fazer.

INDICADOS