Nas esquinas do virtual, o encontro com um amigo real

Nas esquinas do virtual, o encontro com um amigo real

Por Josie Conti e Gustl Rosenkranz

Não é difícil conhecer alguém. O mundo está cheio de gente e, num simples “sair de casa”, podemos nos deparar com uma pessoa que nunca vimos antes.

Basta um pequeno imprevisto ou qualquer coincidência para fazer com que duas pessoas, até então estranhas, entrem em contato direto uma com a outra, trocando algumas palavras, sem que nunca se possa saber antes no que esse encontro irá resultar. Pode ser que seja a única vez e que essas pessoas nunca se vejam e se falem novamente, mas também pode ocorrer delas se acharem simpáticas, prolongando a conversa e criando um laço que pode perdurar mais, talvez até pelo resto da vida. E aquela pessoa estranha, que surgiu em nosso caminho de repente, pode se tornar um bom amigo e aquele novo contato o início de uma caminhada comum.

Encontros acontecem o tempo todo e em tudo quanto é lugar: ao virar na próxima esquina, na fila do caixa no supermercado, no ponto de ônibus, no café na praça ou na sala de espera do consultório médico. Muitos desses encontros são rápidos e passageiros, já que simplesmente passam em nossa vida, mas também há os encontros que ficam e que são renovados por reencontros, podendo gerar um relacionamento mais profundo.

É assim na vida real e, por mais incrível que possa parecer, isso também vale para o mundo virtual. Quando “caminhamos”, por exemplo, por redes sociais, nos deparamos constantemente com nova gente, ou melhor, com perfis de gente estranha, que não conhecemos e que normalmente nada ou pouco nos dizem. Mas, às vezes, interagimos com um ou outro porque algo nos chamou atenção: uma foto, um comentário, um post qualquer…

Engana-se quem pensa que o mundo virtual não é real. Por trás de pixels, satélites e cabos de fibra ótica existem pessoas tão vivas quanto nós. São pessoas que experenciam suas rotinas, suas conquistas e seus lutos. São pessoas que sentem a brisa do vento em seus rostos e o calor do sol em sua pele. São pessoas com histórias e bagagens, com defeitos e qualidades e que sentem alegria e dor, emoção e cansaço, orgulho e inveja, aspiram desejos e expiram sonhos. São pessoas tão humanas quanto nós, que estamos do lado de cá.

Nessas esquinas cibernéticas, ter destinos díspares não evita o cruzamento dos seres que passam. Ora mal se veem, ora param para se entreolhar. São segundos em que o mundo para em consideração ao encontro, momentos em que o caminho previsto pode ser profundamente alterado ou magicamente extinto.

Entretanto, não seria correto supor que não haveria nenhuma diferença entre conhecer alguém no mundo real e no virtual, pois diferenças existem. Olhar a foto de um perfil jamais será a mesma coisa que olhar alguém nos olhos, mandar um smile jamais será a mesma coisa que sorrir ao vivo para alguém. Mas ainda assim: encontros verdadeiros e profundos são possíveis em ambos os mundos.

Há máscaras que permitem o fantasiar-se de um personagem mais feliz e realizado. Outras escondem interesses, falam com tom doce, mas ocultam o fel de desejos pouco virtuosos. Existem, ainda, as mais perigosas que são aquelas que já se fundiram com o usuário que não consegue mais discernir onde termina a fantasia e onde começa a realidade. Nesse baile, engano e autoengano podem dançar num mesmo salão. Projeções dão ritmo aos passos e as idealizações podem se apresentar como o ópio daqueles que acreditam no feitiço da perfeição.

E, do encontro inicial, a dança segue para o reconhecimento.

O tempo será o porta-voz da verdade ao derrubar as máscaras da ilusão. Os meses mostrarão se o amigo virtual é aquele que poderá ou não ser real.

Foi assim com nossa amizade, que começou através de um “esbarrão virtual”, quando nossos caminhos se cruzaram por acaso, sem que nenhum de nós esperasse algo mais ou mesmo imaginasse que agora, quase dois anos depois, sentiríamos a proximidade, a profundidade e principalmente o carinho que agora temos um pelo outro.

Berlim, aeroporto Tegel, janeiro de 2016, dois amigos virtuais se tornaram reais.

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Amor não é apego (nem sofrência, por favor )

Amor não é apego (nem sofrência, por favor )

Por Cristina Parga

A questão é simples e complexa (…): amor de verdade não dói. Ele inunda o coração e se basta sozinho. Já o apego traz sofrimento, porque guarda dentro de si o medo da perda. Da rejeição. De “ficar sem a pessoa”, de “ficar sozinho”. O amor não pode ter medo de perder porque não perde nunca – ele existe indiferente da reciprocidade. Existe em si mesmo.

Desde pequenos fomos ensinados a pensar em amor e apego como quase sinônimos, e a encarar com alguma benevolência um ciúme “saudável”, ou o medo de perder o amado(a) como prova de que realmente o que se sente é amor. Séculos de literatura, arte e poesia na nossa sociedade ocidental nos moldaram a pensar assim – isso desde as dores do amor romântico do jovem Werther, passando por Lady Gaga,  até os cantores atuais da sofrência. Os budistas lidam melhor com a questão – recomendo palestras do Dalai Lama e da monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre o tema. Fácil de achar no youtube.

É claro, eu, como a maior parte dos mortais, compreendo racionalmente a diferença entre os dois sentimentos – mas daí a separar apego e amor dentro do coração, são outros quinhentos. Lembro de ouvir palestras e ler sobre o assunto e literalmente passar por cima dele – afinal, eu entendia a ideia mas não via como colocar em prática. Era abstrato demais. Algo que só pessoas muito evoluídas espiritualmente ou com décadas de análise talvez pudessem sentir. Mas não. Um dia aconteceu. E foi num sonho.

Parênteses: Alguns dos nossos melhores insights vêm nos sonhos – não levante correndo para engolir um café e correr para o escritório. Tire pelo menos uns 5 minutos para ouvir o que o seu mundo interno tem a dizer quando você dorme e a consciência relaxa.

Anos depois de um término, sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo de algum país distante. Abro o pacote e encontro um casaco cinzento e antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias passadas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.

No sonho, vestida com aquele casaco de tantas guerras, percebia que era eu quem ele buscava. A pérola invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha. E que ele, debaixo de tantos brasões e realizações, de tantas máscaras a que a vida nos obriga a usar para vencer no mundo, também era. The real deal. O czar medroso, generoso e puro que se esconde por trás da armadura, para não doer mais. É, mas não sabe. Nem quer saber. Quando irá acordar, meu deus?

Nunca – diz meu coração. E de repente me sinto aliviada, sem aquele peso. Porque não preciso de mais nada. O que sinto é suficiente – e enorme o bastante para me fazer querer viver muito mais. Ainda no sonho, passo por aquela rua, aquela casa. Fecho as janelas do táxi, fecho os olhos. Deixo ir.

Estou na praia, sozinha. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com cada uma delas pesando suave na mão, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele (sobre)vive. Esse dia não vai chegar, olho para o mar e sei. Mas isso não muda nada. Nem me faz querer nada que não seja pura oferta da vida, do mar. Do mundo.

Querer, querer. Só queremos. Queremos ter tudo – e vivemos presos no medo de perder o que “conquistamos”. Escuto as ondas indo e vindo e me sinto livre – ainda estou inteira. Cada vez mais. Nossas memórias passam pelo espelho das águas como flashes, mas não trazem saudade – o tempo-espaço é acessível a qualquer fechar de olhos. A cada onda que se quebra no horizonte.

Os budistas dizem que o todo sofrimento vem do desejo (não sou budista e ainda não atingi o nirvana para interpretar corretamente essa frase), e que o caminho para sair da prisão do apego e da dor é deixar ir. Aprender a se bastar. E ficar genuinamente feliz com o crescimento do outro – mesmo que ele tenha escolhido viver longe de você.

Fácil falar, não é? Mas eu juro que num segundo, dentro de um sonho, foi fácil – e a partir daí foi ficando cada vez mais natural.

Porque amor de verdade não precisa do outro. Afinal, o outro está sempre contido dentro do amor. Não como um fantasma – mas como uma constância que faz nosso coração bater mais rápido em cada respirar de maresia, em cada linha de um poema. E não, não dói. A felicidade do outro passa a ser sua também, porque é impossível sentir algo que te completa e expande tanto e ser mesquinho, querendo aprisionar o que só existe quando há entrega – e para haver entrega é preciso haver liberdade.

Amor de verdade é gratuito e autossuficiente, eterno no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?

Não, você não lembra. Mas não faz mal. Eu lembro por nós dois.

Saiba mais: Para mais artigos que tratam do tema APEGO clique aqui.

CRISTINA PARGA

Autora de “Furta-cores” (2012, 7Letras, contos) e “Qualquer areia é terra firme” (7Letras, romance, no prelo). Mestranda em Letras, assistente editorial, escritora, redatora, jornalista e insone. Living on coffee and flowers.
Acompanhe a autora no facebook.

Sentimos sua falta, Togu.

Sentimos sua falta, Togu.

Por Josie Conti

Em 2012, após contanto com Estela Bertrami B. Souza, tive a oportunidade de conhecer o trabalho de seu irmão, o artista plástico Togu. O CONTI outra ainda nem tinha site, e, na época, publicamos um álbum com alguns de seus belos trabalhos (reproduzo as imagens no final da matéria).

Na época, eles tinham perdido um dos irmãos e a tristeza e o vazio da falta os assolava. Togu, que era portador da Síndrome de Down, e profundamente amoroso e apegado ao irmão, estava lidando com o ludo da maneira que podia.

Em reconhecimento ao seu lindo trabalho e para alegrá-lo, publicamos suas obras. Segundo Estela, Togu tinha uma tremenda autoestima e ficou imensamente feliz e, na época, a publicação que ele considerou um presente o encheu de orgulho e amenizou um pouco a dor do momento.

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Togu e Estela

Entretanto, como 99% dos portadores da síndrome que chegam até uma idade um pouco avançada para eles, Togu começou a apresentar sintomas demenciais. E, depois disso,  gradativamente foi parando com todas as suas atividades até ficar acamado e precisar ser internado. Faleceu em 15 de novembro de 2015 deixando na vida de todos os que tanto o amavam  uma inexplicável e imobilizante uma tristeza.

Togu era o último dos irmãos homens. Hoje, guardam carinhosa lembrança e saudade todos os que o conheceram, suas irmãs e sua querida mãe de 97 anos.
Permanece conservado seu atelier e seus inúmeros quadros.

Abaixo, alguns de suas lindas e coloridas obras para acalentar nossos corações.

Obrigada, Estela, por me permitir, mesmo que apenas por suas obras, conhecer o Togu e também sentir por sua perda. Obrigada também por enviar o relato que foi base de toda a escrita.

Togu, saiba que o sentimento de perda é proporcional ao tamanho da alegria com que você preencheu os corações que tocou.

Assim como nossas lembranças, suas obras para sempre ficarão.

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Para conhecer mais obras de Togu acesse sua galeria virtual.

Facebook é tranquilizante para tratar nossa solidão e falta de conhecimento, afirma Zygmunt Bauman

Facebook é tranquilizante para tratar nossa solidão e falta de conhecimento, afirma Zygmunt Bauman

A sociologia foi criada com objetivo de servir aos administradores de pessoas; deveria, então, se tornar uma arma para a disciplina, para evitar greves e conluios de operários.

No entanto, a partir dos anos 90 ela perde esta clientela e se desata do mundo corporativo. Um desastre para alguns sociólogos, mas uma bênção para Zygmunt Bauman, que viu a oportunidade da sociologia trilhar seu próprio caminho. Em entrevista por Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, Bauman discute sua profissão, a organização do trabalho, as redes sociais na modernidade líquida, o momento atual da Europa com refugiados e o milagre brasileiro.

O autor, com 35 livros publicados no Brasil e vendagem por volta de 600 mil exemplares, veio ao país para uma palestra no evento Educação 360º. O foco de sua análise são as mudanças que se passaram da modernidade sólida (ou simplesmente modernidade, para o senso comum) para a modernidade líquida (ou pós-modernidade, também no senso comum). A primeira observação se dá sobre a relação dos funcionários com o patrão.

Após os constantes ataques aos sindicatos, a união de trabalhadores para negociação com os patrões se esgotou e uma nova forma de relação se dá entre os trabalhadores. Estamos em um “estado permanente de mútua suspeita e competição. Todos nós estamos em competição potencial uns com os outros”, diz Bauman.

As empresas consideram, e isso é parte da nova filosofia de administração, que as demissões periódicas, a econômica periódica, a reestruturação periódica, em que alguns casos algumas pessoas são demitidas são elementos necessários da boa administração. Por quê? Porque coloca os membros remanescentes da equipe olhando de forma suspeita para seus colegas, não se unem para enfrentar os patrões. Pelo contrário, tentam provar para os seus patrões que quando chegar na próxima rodada de demissões, que o outro deve ser demitido e não eu.

A vida em sociedade fica mais difícil e as pessoas são obrigadas a encontrarem refúgio em locais controláveis. A internet é o exemplo perfeito em que as relações são fechadas numa zona de conforto que ecoa a mesma voz do usuário eternamente. O indivíduo se torna autoridade sobre tudo, “porque é muito simples: é só você parar de responder a algo, parar de visitar os sites que você acha ofensivos. Você os desliga. Você não pode desligar quando você está na rua e encontra pedestres que você não gosta. Você precisa conviver com eles”, diz o sociólogo.

O problema da insegurança generalizada pela competição potencial presente é resolvido pelas redes sociais. Ironicamente, Bauman comenta.

Felizmente nós temos Mark Zuckerberg com o Facebook, nós temos o Google, nós temos outras coisas que nos suprem com tranquilizantes para tratar doenças que sofremos como solidão e falta de conhecimento. O problema de poder adquirir conhecimento completo, de qualquer coisa, é atenuado por esses serviços tranquilizantes.

É claro que o Facebook é um modelo mais geral. O autor assume que, na academia, um artigo pode ser resumido em 200 notas de rodapé bem feitas, já que a intenção do conhecimento profundo do todo é deixada de lado.

O autor pontua que o Google, mesmo sendo a maior biblioteca do mundo, é só uma biblioteca de citações, de trechos. A fragmentação do conhecimento está no próprio resultado da busca, que direciona o usuário para milhares de possibilidades que nunca abordarão a totalidade do problema.

Oferecer milhares de resultados já põe em dúvida o caminho a ser seguido. Se a falta do conhecimento correto era o problema da modernidade sólida, a modernidade líquida precisa confrontar o excesso de informação.

O que eu aprendi com o Google é que eu nunca saberei o que eu deveria saber, tudo está ao alcance dos meus dedos, mas isso não significa que sou mais sábio. Me sinto humilhado ao redor dos outros. Não só por não ser mais sábio do que eu sou, mas também pela impossibilidade de adquirir a sabedoria que nos permite realmente responder a pergunta que está na nossa frente

Por fim, o milagre brasileiro é destacado por Bauman como um processo em andamento, mas que encontrou suas deficiências. Assim como a Europa, em que a utopia da União Europeia se tornou a distopia do fechamento de fronteiras pela Hungria, o Brasil precisará repensar sua situação.

Veja abaixo a entrevista na íntegra.

Livro recria infância de Guimarães Rosa

Livro recria infância de Guimarães Rosa

 

Na pequena Cordisburgo, Minas Gerais, um menino imaginava que sabugos de milho eram boizinhos, passava horas observando as formigas em sua agitação rumo ao formigueiro e brincava de caçar vagalumes. Um dia, porém, descobriu a brincadeira mais divertida de todas: os livros e suas palavras. O nome do garoto? João Guimarães Rosa ou simplesmente Joãozito.

Misturando ficção e relato o livro” João, Joãozinho, Joãozito“, de Claudio Fragata, imagina a infância e o amadurecimento de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

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Fragata ainda aproxima a história de Joãozito com a de Miguilim, um dos grandes personagens de Guimarães Rosa, que ganhou, na ficção, lembranças reais da infância do escritor. As ilustrações são de Simone Matias e ajudam a compor o lirismo da obra, que é uma porta de entrada para o legado de Guimarães Rosa para os pequenos leitores.

Mitos indígenas para crianças- Daniel Munduruku

Mitos indígenas para crianças- Daniel Munduruku

Por Daniel Munduruku*

Apresentar os mitos indígenas para crianças é um maravilhoso exercício para reviver as expressões que os povos ancestrais criaram para aceitar a condição humana.

Em tempos antigos, homens e mulheres sentavam-se ao redor do fogo para contar suas façanhas diárias: a luta contra um animal feroz, o susto de encontrar um ser da floresta. Narrar o ocorrido gerava a certeza de um pertencimento ao universo em que se vivia. Naquele momento, todos compreendiam que o universo – contemplado nas noites sem lua – era uma infinita teia.

A vida era um emaranhado de fios tecidos por uma misteriosa mão que pairava sobre toda forma de vida e que era capaz de manipular os acontecimentos naturais (chuva, trovões, nascimentos e mortes), para lembrar a todos sua finitude.

Expectativas de aprendizagem: Ler em voz alta ou recontar mitos de maneira a suscitar o interesse de outros interlocutores; trocar impressões com outros leitores a respeito dos textos lidos; coletar informações sobre os povos indígenas a que pertence o mito lido; traduzir a experiência do mito em diferentes linguagens.

Sabendo-se “criados” e frágeis, homens e mulheres passaram a entoar cantos, criar sons e preces capazes de amainar a fúria natural do Ser Criador. Tinham a convicção que seus poemas, sons, melodias e passos ritmados iriam “manter o céu suspenso” e o mundo não acabaria. Assim, nossos primeiros pais foram criando histórias para que as novas gerações compreendessem e aprendessem como se comportar enquanto faziam sua passagem por esta vida.

A essas histórias o Ocidente denominou Mitos. Essa palavra nem sempre é bem- entendida e algumas vezes se tem a impressão de que estamos falando sobre uma história inventada apenas para “explicar” fenômenos naturais ou justificar uma crença infantil nos fenômenos naturais.

Na verdade, não se trata de justificar crenças se não em aceitar a condição humana que todos possuímos e que não pode ser transformada em fórmulas científicas. A lógica do mito é nos colocar diante do possível para nos levar ao mundo do impossível.

Tem sido assim por toda a história da humanidade. Tem sido essa a “lógica” que tem movido nossos pais primeiros desde os primórdios dos tempos e que nos move ainda hoje, mesmo vestindo outras roupagens para nos encantar. Assim é a linguagem da televisão, do teatro e do cinema. Eles têm feito a magia de atualizar os Mitos que em nós habitam.

Mitos indígenas brasileiros

O Brasil é um celeiro muito abrangente de mitologia. Nosso país é formado a partir da diversidade de mitos criadores de diferentes grupos humanos que aqui se estabeleceram, trazendo consigo narrativas que contavam seus sonhos, seus medos, seus deuses, suas origens.

Esses povos – e todos seus mitos – atracaram em uma terra onde já havia um conjunto de saberes ancestrais mantidos por um gradiente de povos nativos que receberam o nome de indígenas – mesmo que nativo, oriundo, originário.

Eram aproximadamente 900 povos e 1,1 mil línguas distintas entre si. Habitavam todas as regiões desta terra e tinham uma gama de conhecimentos incompreensíveis aos que estavam chegando, como senhores ou escravos.

Como quem estava chegando, sentiu-se no direito de colonizar, ignorou totalmente os saberes nativos e passou a dizimar ou a reduzir a diversidade em um único (pré)conceito que chegou até os dias atuais: os índios.

Precisamos resgatar essa diversidade que ainda está presente em nossa terra. Começar através dos resgates dos mitos ancestrais é uma fórmula que pode dar certo para aproximar os indígenas das crianças brasileiras.

Vale lembrar que o mito é um método pedagógico de narrar os acontecimentos. Os feitos naturais e sobrenaturais que comumente estão presentes em nosso mundo sempre causaram espanto, admiração e a necessidade de uma explicação racional.

O Mito sempre foi uma maneira de explicar esses fenômenos utilizando uma linguagem simbólica e, assim, aproximando os seres humanos dos feitos dos deuses ou seres criadores. Povos do mundo todo usaram esse método em seus primórdios. Conhecemos muitos deles por conta da educação que recebemos ter origem na Grécia Antiga, o berço da civilização ocidental.

Do mesmo modo, nossos povos indígenas brasileiros desenvolveram essa leitura do mundo para explicar o que para eles era inexplicável: a origem do mundo e das coisas, os ciclos da natureza, nossa condição humana de homem ou mulher, os lugares sociais de cada um, a grandiosidade do cosmos, a vida e a morte.

A resposta para cada uma e de outras dessas questões eram dadas em forma de histórias, a maneira mais simples de fazer as pessoas entenderem a complexidade da vida. Essa contação de histórias nunca foi uma forma de iludir as pessoas, mas de oferecer um norte a ser seguido enquanto membro daquele povo. Dessa maneira firmavam um compromisso de cuidado com o Todo que era de todos e se construía a harmonia necessária para a convivência diária.

O Mito é, assim, para os indígenas brasileiros, uma realidade. Mesmo vivendo em contato com uma sociedade dita “desenvolvida”, os indígenas sabem que, no fundo, o que na cidade se chama desenvolvimento, na cultura ancestral se chama Mito.

Ou seja, continua-se submetido aos mitos, mudando apenas os interesses que estão em jogo. O “progresso” é a atualização de uma narrativa que começou desde um tempo que está perdido na memória da humanidade e que une os povos entre si. Essas narrativas podem, e devem, ser um instrumento importante para a educação cotidiana. Como fazer isso? Embora não haja fórmula mágica para esse tipo de evento, vale seguir alguns pontos básicos.

Imagem de capa: ilustração do livro Como Surgiu : Mitos Indígenas Brasileiros

* Daniel Munduruku é graduado em Filosofia e Doutor em Educação pela USP, é escritor de vasta obra voltada para crianças e jovens

10 sinais de que você se apaixonou a perder de vista

10 sinais de que você se apaixonou a perder de vista

Qual a sensação de se apaixonar a perder de vista? Não há nada mais desafiador, considerando a fluidez dos sentimentos nos dias de hoje. Ter coragem de se abrir ao desconhecido sem carregar o peso do passado revela uma nova postura diante da vida.  Se você se identificar com os dez sinais apresentados abaixo você se apaixonou a perder de vista e não sabia:

1) Perder a noção de distancia entre você e o ser amado.

Quem se apaixona a perder de vista não investe em construir barreiras para se proteger do outro. Procura estar disponível de forma saudável. Sem jogos de dominação.

2) Perder pouco a pouco a liberdade de ir e vir em troca da tentação de permanecer.

A liberdade de um não castra a liberdade do outro. Ambos escolhem permanecer na relação. Não há espaço para pressões de nenhum dos lados.

3) Perder a hora por mais um minuto de delírio.

A vontade de explorar cada ângulo do outro não cessa facilmente. Se entregar sem culpas ou restrições. Um diálogo travado sem palavras.

4) Perder “a carta na manga” que lhe daria razão em uma discussão.

Quem quer ter razão quando é bem melhor se entregar aos efeitos narcóticos da paixão? Quem se sente bem ao ver o ser amado ser derrotado em um debate sem chance de defesa? Só alguém que quer ser infeliz.

5) Perder a própria vontade de ter razão.

Pelos mesmos motivos do item anterior.

6) Perder o medo paralisante de ser rejeitado.

Arriscar ter o orgulho ferido faz parte das grandes conquistas. Quem se fecha para novas experiências não vive uma paixão a perder de vista. Fica limitado ao que está a sua frente. Perde a magia do desconhecido.

7) Perder as histórias passadas com outras pessoas.

É fundamental não se entreter com os amores do passado. Que sirvam como experiência do que não deu certo. Dê espaço para a entrada de algo novo em sua vida, sem idealizar a situação.

8) Perder quem se foi uma dia antes de conhecer essa pessoa.

Você já não é a mesma pessoa de antes. Já viveu experiências transformadoras. Sabe o que quer e o que precisa melhorar em si. Repetir as mesmas situações que se mostraram frustrantes no passado não trarão novos resultados.

9) Perder as crenças limitantes que impediam o fluxo natural dos fatos.

Acreditar no poder do amor. Ter fé em si mesmo. Se bastar em qualquer circunstância. Permitir ao outro escolher estar ao seu lado.

10) Perder, sem apresentar resistência, o controle da situação.

Saber que um dia essa paixão (mesmo que a perder de vista) pode acabar. Ter maturidade para aceitar a impermanência dos sentimentos. Não exigir garantias. Manter uma postura onde haja respeito pelo outro e por si mesmo.

Perceber a existência de cada um dos dez sinais descritos acima não garante que o relacionamento dê certo. Apenas ajuda a identificar quais os desafios que se terá pela frente. Desnudar os receios mais profundos da alma ao mesmo tempo em que se resgata a coragem para recomeçar. Apaixonar-se a perder de vista sem se perder no outro. Esse é o objetivo.

“Temos que ensinar nossas crianças a ter empatia pelos outros e pelo mundo”

“Temos que ensinar nossas crianças a ter empatia pelos outros e pelo mundo”

Estudos mostram que nossa mente divaga cerca de 50% do tempo. De acordo com a neurociência, os circuitos cerebrais para desenvolvemos a autocontrole e a empatia são desenvolvidos ao longo da infância e da adolescência. Por essa razão, o psicólogo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional e pesquisador de Harvard, e o professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Peter Senge, se uniram para escrever Foco Triplo: uma nova abordagem para a educação (editora Objetiva).

Nele, defendem que a escola e a sociedade devem ajudar as crianças e os jovens a desenvolverem o foco em diferentes esferas para que elas estejam aptas a viver bem no mundo moderno e a tomar decisões que ajudem a preservar esse mundo. Daniel Goleman conversou com ÉPOCA sobre o novo livro.

ÉPOCA – O senhor tem um trabalho consolidado no mundo do trabalho e de carreira. Por que o senhor decidiu escrever agora sobre educação para crianças e adolescentes?

Daniel Goleman – Alguém com menos de 18 anos provavelmente nunca conheceu um mundo sem internet. Crianças de até 10 anos nunca viveram num mundo sem aparelhos portáteis por perto. Essas crianças e jovens crescem um mundo diferente, que continuará a mudar à medida que a tecnologia evolui. Escrevemos esse livro – eu e o Peter Senge – pensando em falar das habilidades que temos de ensinar para essa nova geração para ajudá-la a viver bem nesse mundo.

ÉPOCA – O que são os três tipos de foco?

Goleman – São o foco em si mesmo, o foco nos outros e o foco no mundo.

ÉPOCA – O senhor pode explicá-los?

Goleman – O foco interno trata de prestar atenção a si mesmo, em seu mundo interior para nos conectarmos com nossas aspirações e propositivos. O segundo tipo de foco trata-se da importância de sintonizarmos com outras pessoas, de termos empatia e sermos capazes de compreender a realidade alheia e de nos relacionar com essas realidades sob a perspectiva do outro. Peter Senge fez um trabalho incrível explicando o foco externo. É ele que dará para a criança a habilidade de perceber os sistemas e como eles se relacionam entre si, seja dentro da família, da escola, de uma empresa e do mundo como um todo. É muito mais do que levá-los a perceber o modo simplista “A causa B”, mas levá-los gradativamente a perceber que muitas vezes não há uma resposta certa ou errada.

ÉPOCA – De que forma a educação pode ajudar crianças e jovens a ter foco?

Goleman – Há uma variedade ampla de conceitos, ferramentas e estratégias pedagógicas para desenvolver e aperfeiçoar essas habilidades nas crianças. O problema é que na maioria das escolas que visitamos as crianças não tinham acesso a esse tipo de ensino.

ÉPOCA – O senhor pode dar exemplos de como ensinar ou treinar o foco nas crianças?

Goleman – Há exercícios muito simples que se mostraram altamente eficazes nessa tarefa. Um deles, adotado há anos numa escola primária de New Haven, consiste em organizar as crianças numa roda de conversa no início da aula e dar espaço para cada criança dizer como se sente naquele dia. Essa simples atitude faz com que os alunos criem o hábito de autoconsciência. Nomear as emoções com precisão ajuda as crianças a ter mais clareza acerca do que ocorre em seu íntimo. Esse é um fator essencial tanto para se tomar decisões lúcidas como para administrar as decisões ao longo da vida.

Um outro exercício que se mostrou muito eficaz foi o “amiguinhos da respiração”. Nele, cada criança de segundo ano (entre 7 e 8 anos de idade) leva um bichinho de estimação para a classe, deita-se no chão e coloca o boneco em cima da barriga. A tarefa é respirar e observar o bichinho enquanto conta de 1 a 4. Depois, expira e observa o animal enquanto volta a contar de 1 a 4. É um exercício simples de foco que mobiliza a atenção das crianças daquela faixa etária de maneira eficiente. Ficou comprovado que o número de conflitos e a bagunça aumentou no dias em que a seção de respiração não ocorria. Esses são dois exemplos que mostram que não é preciso dinheiro extra, tecnologia nem um conhecimento extraordinário para educar nesse sentido.

ÉPOCA –É possível ensinar as crianças a ter empatia?

Goleman – Sim, a escola pode ensinar a criança a cultivar carinho e compaixão. Não se trata apenas de fazer o exercício mental de se colocar no lugar do outro. Diz respeito a de fato estar pronto para ajudar. Há experimentos que mostram que expor as crianças e jovens a conteúdos que enfatizem a importância disso já surtem efeitos.

Num estudo feito em Princeton, estudantes de teologia receberam a missão de dar um sermão, pelo qual seriam avaliados. Metade deles se preparou para dar o sermão do Bom Samaritano, que conta a história de um homem que parava para a ajudar um estrangeiro na beira da estrada. Depois de um tempo de preparação, cada um dos estudantes se dirigia a um prédio diferente para dar o sermão. No caminho, passavam por um homem curvado e gemendo. Os pesquisadores queriam saber se o estudante pararia para ajudar, mesmo estando sob a pressão do tempo (tinham de chegar no horário) e da avaliação iminente.
Entre aqueles que estudaram o Bom Samaritano, o número de estudantes que se ofereceu a ajudar o homem foi 50% maior do que entre os que receberam sermões aleatórios.

ÉPOCA – O senhor fala da importância de ensinar empatia às crianças na era do Dilema do Antropoceno. Pode explicar?

Goleman – O “Dilema do Antropoceno” é a forma como os antropólogos falam da nossa era, em que um espécie – no caso, nós mesmos – são hoje parte de como todo o sistema da Terra funciona.

O dilema é o seguinte: nossos cérebros foram desenhados para sobreviver em eras geológicas mais antigas, não na nova realidade do Antropoceno. O alarme do nosso cérebro nos desperta quando reconhece ameaças imediatas. Ocorre que as mudanças atuais de nosso planeta são críticas, mas são microscópicas demais para nossos sistemas perceptivos.

Como não percebemos imediatamente as consequências negativas de nossos hábitos diários em maior escala, é fácil ignorá-las ou simplesmente fingir que não ocorrem. Para tomar decisões melhores, e é urgente que as novas gerações o façam, precisamos aprender a pensar sobre esses sistemas. Isso tem relação direta com nossa capacidade de desenvolver a empatia e o foco no mundo.

Pesquisa aponta que passar quatro dias na natureza sem tecnologias aumenta a criatividade em 50%

Pesquisa aponta que passar quatro dias na natureza sem tecnologias aumenta a criatividade em 50%

Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade do Utah e da Universidade do Kansas aponta que o contato humano com a natureza é produtivo e pode aumentar a criatividade em até 50%,

“Enterrar-se em frente a um computador 24 horas por dia, sete dias por semana, tem custos que podem ser remediados com um passeio na natureza. Isto mostra que a interação com a natureza tem benefícios reais e mensuráveis para a resolução criativa de problemas que ainda não tinham sido demonstrados”, afirmou um dos autores da pesquisas.

O estudo, publicado na revista científica Plos One, da Public Library of Science, em 2012, é resultado de uma análise realizada com 56 pessoas – 30 homens e 26 mulheres -, com uma média de 28 anos. Todos passaram de quatro a seis dias no meio da natureza, nos estados do Alasca, Colorado, Maine e Washington. Detalhe: O uso de aparelhos eletrônicos foi banido.

Dos 56, 24 fizeram um teste de criatividade com dez perguntas antes de iniciarem o passeio e os outros 32 realizaram o mesmo teste na manhã do quarto dia de passeio.

Os resultados foram claros: as pessoas que já estavam há quatro dias na natureza tiveram uma média de 6,08 perguntas certas, enquanto os outros tiveram apenas 4,14.

  • Leia aqui a pesquisa completa.

Crianças

Um documento divulgado pela Children & Nature Network em 2009 mostra pesquisas do mundo que revelam dados como a diminuição do tempo que as crianças brincam fora de casa e o aumento do tempo dedicado às mídias eletrônicas. Dentre os estudos, um aponta o Brasil entre os três países cujas as crianças exploram a natureza com menos frequência.

O documento também traz os benefícios das experiências com a natureza em que as crianças têm a oportunidade de serem livres e brincarem com materiais não estruturados. As crianças desenvolvem-se psicológica, cognitiva e criativamente, além de serem espertas, resolverem problemas com facilidade, são mais cooperativas, felizes e saudáveis.

“Ninguém é Insubstituível”

“Ninguém é Insubstituível”

– Você concorda?

Conheço a frase do título deste texto há muito tempo. Mas, também há tempo me questiono, ou melhor, discordo dela.- Me desculpe a fonte de sua autoria.

Existem pessoas que para mim são insubstituíveis.
Ninguém jamais ocupará o lugar delas em meu coração, na minha vida diária – afetiva e efetivamente.

Mãe, por exemplo, é e será sempre insubstituível para mim e acredito para cada um de nós, assim como um bom pai; filhos…
E o que dizer daquele ou daquela amiga, que entre vários, é o que nos entende perfeitamente, aceita nossos defeitos, nos dá “aquela força” para continuarmos a luta diária desta vida louca?
Num momento muito dolorido, sua presença amiga, seu abraço, mesmo silencioso, nos dá um conforto que nenhum outro daria. E aquele artista – da música, das composições perfeitas, da teledramaturgia; aquele escritor ou escritora, que ao ler seus livros, parece-nos que escreveu para nós; ou então, ao ler seus escritos, nos sentimos em paz conosco, com Deus e com o mundo? Entre vários livros em sua, em minha estante ou biblioteca, lá está ele: o preferido!

Já sentiu saudades daquele comediante que após um dia cansativo, depois do banho e do jantar, somente ele conseguia arrancar de você aquela gargalhada gostosa – que desobstrui o fígado?

Sabe o que acabei de pensar:
– uma mãe tem 4 ou 7 filhos. Cada um com suas diferenças, com temperamentos próprios…para aquela mãe, nenhum filho irá substituir o outro.

Claro, vamos nos amoldando aos novos, aos que ficam… “a gente se acostuma com tudo”, quando necessário.

Mas, os INSUBSTITUÍVEIS … Ah! Esses estarão conosco, agora e em nossas lembranças enquanto vivermos.

Assim, dizem que “Ninguém é Insubstituível” ,
Mas para mim, vários nunca serão!

Quem tudo quer, tudo perde

Quem tudo quer, tudo perde

É um esforço gigantesco querer tudo, ser o primeiro em tudo, ganhar a maior fatia, ter a preferência, todas as medalhas de ouro, troféus, amores, a vez, o melhor presente, a vida mais perfeita.

Quem tudo quer, mostra claramente que não há espaço para o outro que não seja na sombra dos seus triunfos. Ninguém jamais estará ao lado. Se estiver na frente, é alvo. Atrás, seguidor.

O vencedor de tudo é solitário, encarcerado em suas glórias, ostentando status de um assento somente. Ninguém senta ao seu lado. Ninguém o olha nos olhos.

Quem tudo quer, abre mão da generosidade em prol de um acúmulo de bens, moedas, pertences, coleções, poder, solidão.

O conquistador absoluto quer por querer, para que o outro queira e não tenha, para passar a vida contando, recontando e escondendo.

Quem tudo quer, quer para ter, não para ser. Quem tudo quer, entende que o excesso alimentará todos os seus vazios, a sobra esconderá todas as faltas.

Quem tudo quer, perde a vida para um gincana insana, acumula além das conquistas, fadiga, desafetos, mágoas, distâncias.

Quem quer toda a razão, distorce o senso de justiça.

Quem quer toda a atenção, lança mão de apelos patéticos.

Quem quer todo o poder, luta contra a igualdade.

Quem tudo quer, atropela sonhos alheios, afetos mais delicados, relações familiares, derruba árvores para construir muros, explode anseios, ignora o bom senso, manipula a ética.

Quando tudo quer, se perde, se desintegra, se transforma em alguém que seria seu pior inimigo ou seu maior desgosto.

Quem tudo quer, tudo perde, e o mais triste é não perceber que a mesma ambição que motivou por tanto tempo, se fosse um tanto mais comedida e andasse de mãos dadas com outras ambições, lado a lado, se transformaria num grande e valioso ganho.

TRECHOS DO ÚLTIMO DISCURSO DO FILME: O Grande Ditador – Charles Chaplin

TRECHOS DO ÚLTIMO DISCURSO DO FILME: O Grande Ditador – Charles Chaplin

Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja.

Gostaria de ajudar – se possível.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros.

Os seres humanos são assim.

Desejamos viver para a felicidade do próximo –

não para o seu infortúnio.

Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros?

Neste mundo há espaço para todos.

A terra, que é boa e rica,

pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma do homem …

levantou no mundo as muralhas do ódio …

e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.

A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que máquinas, precisamos de humanidade.

Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Sem essas duas virtudes,

a vida será de violência e tudo será perdido.

A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem … um apelo à fraternidade universal … à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora … milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.

Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia … da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano.

Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo.

Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas!

O poder de criar felicidade!

Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… fazê-la uma aventura maravilhosa.

Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.

Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade.  A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança.

Erga os olhos!

Dia de lavar a alma!

Dia de lavar a alma!

Há quem acredite que quando nos sentimos muito bagunçados por dentro, costumamos ser acometidos por um desejo quase irresistível de arrumar as coisas do lado de fora. Até que faz sentido. De qualquer forma, é inegável o fato de que quando tiramos o dia para colocar algumas coisas em ordem, externamente, acabamos nos deparando com coisas muito significativas para nós, internamente.

Limpar, revirar, arrumar, trocar de lugar, livrar-se. Qualquer um desses verbos cabe perfeitamente, tanto em situações concretas quanto abstratas, a depender da nossa disponibilidade e nível de desapego para o momento. Quem de nós já não encontrou caixas de cartas, ou fotos antigas, enquanto limpava um armário ou uma gaveta. O simples encontro casual com registros afetivos, abre portas de ressignificação dentro de nós. Dificilmente, conseguiremos dar prosseguimento à faxina externa, sem antes nos permitirmos dar uma boa visitada nas lembranças. E, de repente, bem ali num dos cantos guardados e esquecidos do guarda-roupas ou de uma gaveta qualquer, dormia uma versão antiga de nós que amou alguém que não ama mais, que usou uma roupa que já não serve mais, que tinha um olhar que ficou para trás.

Revirar a vida é altamente terapêutico, nem que seja uma revirada aparentemente sem grandes proporções. Basta ousar um pouquinho e colocar de ponta cabeça algumas velhas convicções. Tomar um banho frio, quando se está acostumado à moleza que proporcionam os banhos quentes. Mudar o cabelo de lado, usar um batom vermelho, experimentar uma fruta exótica, dançar no chuveiro, sorrir para o espelho. Conversar com um estranho na rua, ir a pé para o trabalho, escrever uma poesia, bater um papo com a lua.

E, depois de revirar, arrume. Arrume tempo para ver os amigos ao vivo; olhá-los nos olhos, abraçá-los sem pressa, rir de lembranças tolas, se perder em tolas conversas. Arrume um jeito de ajudar alguém; pode ser o vizinho com as sacolas do mercado, pode ser o porteiro com um sorriso mais caprichado e um bom dia mais bem cuidado; pode ser a moça do cafezinho, com um sincero e iluminado “muito obrigado”. Arrume uma forma de ouvir-se, sentir-se, reencontrar-se. Às vezes não temos mesmo nada para dar, pelo simples fato de que nem sabemos por onde começar. Mas isso não importa! Mesmo que o que se tenha a oferecer seja quase nada, quase nada já é alguma coisa, qualquer coisa que possa trazer ao dia de alguém uma surpresa, uma delicadeza que não é esperada.

Aproveite a onda de entusiasmo e troque tudo de lugar. Troque a preguiça, por vontade; troque o mau-humor por leveza; ponha alegria no lugar da tristeza; troque toda a frieza por bondade. Troque uma vida previsível por algum sonho que ficou perdido; troque a comodidade da rotina pelo risco de um talento novo, desconhecido. Troque a certeza que aprisiona pela pergunta que liberta; a mágoa que azeda a alma pelo perdão que alforria; a expectativa que impede de enxergar outra possibilidade, uma nova perspectiva uma outra vida.

E já que a vida que se tem agora é sempre provisória, livre-se de tudo aquilo que te resume e aniquila. Jogue fora velhos costumes, cuja razão você nunca conheceu. Descortine as janelas e os olhos, deixe o ar parado fluir, encante-se com outras paisagens, outras paragens, outros lugares. Abra espaço, abra os braços, deixe a vida acontecer. Pare de querer ter o controle de tudo, a cada momento, a cada instante. Permita-se respirar, acolher-se, relaxar. Hoje é dia de brincar na chuva! Dia de perfumar os cabelos e levar a alma para passear. Dia de mergulhar em águas desconhecidas, de subir montanhas coloridas. Dia de se perder para se encontrar!

Quando um amor faz mal, o melhor remédio é uma boa separação.

Quando um amor faz mal, o melhor remédio é uma boa separação.

Todo amor dá certo. Não interessa o tempo. Não importa quando nem quanto. Em qualquer quantidade, amor é amor. O que vale é a qualidade. Uns duram pouquinho, chama de fósforo, fogo de palha. Outros passam a vida inteira queimando, ardendo, alastrando seu calor na vizinhança. Esses vão longe, chamuscam quem passa perto, multiplicam seu incêndio em um milhão de labaredas assanhadas. Mas é tudo amor. Dure muito ou quase nada, é tudo amor.

“Ah, que pena que não deu certo…”, lamenta a pessoa desavisada ao saber do divórcio da vizinha. Mal sabe ela o quanto essa vizinha anda mais leve. Não adianta explicar. Tem coisas que só uma boa separação há de fazer pelo amor que se presta a fazer mal. Primeiro porque amor que faz mal é um escandaloso contrassenso. Amor tem de fazer bem ou não é amor. É dependência, perversão, crueldade, patologia, choramingação. Qualquer coisa ruim, com um nome ruim. Menos amor.

Depois, porque é muito injusto e dolorido assistir a um sentimento que um dia foi tudo se tornar nada. Por fim, porque às vezes não se pode mesmo restaurar o amor, como quem cola a asa de uma xícara quebrada. Acontece. Respeito a opinião de quem afirma tão seguro e inflamado: “se acabou é porque não era amor de verdade!”, mas eu prefiro a calma da minha impressão de que tudo acaba, sim. Até o amor. E acho que isso não o torna pior do que nada.

Vez em quando, penso assim comigo que quem tanto lamenta o fim do amor não aprendeu a agradecer o seu início e não há de celebrar o fato de ele simplesmente ter existido. Se existiu, é porque deu certo. Um dia, um mês, um ano. Uma vida. Não importa. Todo amor dá certo. Sobretudo quando acaba no tempo devido. Ô, gente que só reclama!

Quando ouço um queixume, desses que tentam azedar o leite, sabotar a festa, roubar-nos o sono, eu sonho aqui dentro, sozinho, que tem um lugar por aí, cravado entre a lembrança de tanto ontem e a esperança de todo amanhã, onde vivem os amores que dão certo.

Estão todos lá. As pessoas mais lindas do mundo, as juras de amor para sempre, os sonhos realizados, as horas eternas de elevação, os instantes de saudade, os segundos de ouro dos primeiros encontros. Tudo.

É para lá que vão os amores que dão certo. Todos eles dão, sim, mas uma hora, por qualquer motivo, também dão de acabar. Lá, nesse canto suspenso, eles se escondem das lamúrias de quem os acusa de fracasso e se abrem para a festa de um dia terem sido o que puderam ser. Lá vivem as lembranças dos casamentos bem sucedidos, os namoros de infância perdidos no tempo, os encontros desencontrados, os noivados não evoluídos e todo encanto das possibilidades. Vivem todos juntos, perto um do outro, bem longe da sanha dos queixosos afoitos. Felizes em suas nostalgias, embriagados de sua eternidade. Deitados na grama verde dos instantes inesquecíveis. Certos de que, não importa seu prazo de existência, o amor é como a vida. Sempre um estalo, um sopro, um sonho.

Ali, um anjo encarnado num cantor de bar, tocando noite inteira as canções que nos ressoam no fundo do coração, nos lembra de que quando a festa acaba a vida recomeça, como a música que a gente ouve mil vezes, uma depois da outra.

Cantando, diz o anjo que quando o amor agoniza é sempre tempo de escolher: ou a gente vira o disco e segue em frente, cada um para o seu lado, ou põe nossas canções para tocar de novo. Porque o amor existe para além das medidas convencionais, dure o quanto durar. Em qualquer tempo, de qualquer sorte, o amor é sempre “para sempre”. Para além de qualquer engano, acima de qualquer erro, no começo, no meio ou no fim, todo amor sempre dá certo.

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