A gente aprende quase tudo é com os amores que dão em nada.

A gente aprende quase tudo é com os amores que dão em nada.

Acertar é bom. Dá um alívio, um contentamento, uma satisfação. A gente mira direito e acerta de jeito, no alvo. Coisa boa! Sensação adocicada de conquista. Pena que não acontece sempre. No mais das vezes a gente erra mesmo. Erra no trabalho, no jogo, na vida, no amor. Se há um consolo, é que o erro fica menos feio quando a gente aprende com ele.

Eu acredito na felicidade conjugal, no amor de um dia depois do outro, na construção das histórias simples de ternura e afeto e no trabalho que tudo isso dá. Acredito, sim. Por duas vezes, em dois casamentos diferentes, fui feliz e sinto hoje uma alegria tranquila de saber que, em algum momento, de alguma sorte, trabalhei para a felicidade de alguém e nós acertamos juntos. Em meio a tantos erros, nossa meia dúzia de acertos valeu a pena e isso nos fez bem.

Mas aqui entre nós eu acho francamente que a gente aprende mesmo é com os amores errados, os desencontros, os escorregões, as decisões equivocadas. Quanto mais a gente quebra a cara, mais aprende.

Com os amores que dão em nada é que a gente se descobre profundamente. Nas expectativas frustradas, esperas inúteis, decepções prematuras e desencontros anunciados todo amante se encontra e se enxerga de perto, inteiro em seu desengano. Honesto em sua dor.

Tem coisa que a gente não escolhe. Acontece assim e pronto. Não há o que fazer senão aceitar. A gente chora, reclama, esperneia um pouquinho e depois vai em frente. Vai com uma nova história no currículo, vai sabendo que aprendeu mais uma. Vai pronto para acertar na próxima.

Eu agradeço, sim. Agradeço por cada fracasso amoroso que uma hora ou outra bagunçou a minha vida. Sou grato por todo engano que vira e mexe aparece no caminho. Sofro mas aprendo. Na vida a gente precisa aprender de tudo, inclusive com os amores que não dão em nada.

Viramos a nossa própria droga e nós estamos viciados

Viramos a nossa própria droga e nós estamos viciados

Vivemos cercados por círculos viciosos. E não é só de substâncias como nicotina e álcool que eu estou falando.

O descaso, o desprezo, o medo e a falta de alteridade acabaram por dominar grande parte da vida cotidiana. Primeiro, porque nos falta empatia para enxergar o outro, para reconhecermos o outro como nosso igual e semelhante. Segundo, porque passamos a nos enaltecer demais. Nossas virtudes, nossas manias, nossos gostos. Viramos a nossa própria droga e nós estamos viciados.

Não é uma questão de ter ou não autoestima. Isso é diferente. Autoestima pressupõe avaliar a si mesmo subjetivamente e descobrir aspectos positivos e negativos. Ter uma boa autoestima não é e nunca foi sinônimo de exclusão.

Sua roupa ou seu status social não deveria fazer o outro desaparecer. O que você tem e o que você acredita ser não são ingredientes de uma fórmula de invisibilidade que faz com que as pessoas ao redor automaticamente desapareçam da vista.

Aristóteles definiu a natureza do homem como a de um Zoon Politikon (Animal Político). No seu tratado sobre a política, o filósofo de Estagira escreveu: “O homem é um animal social. O homem que por si só se basta, não é homem”. Pois é, meu amigo. Quer você queira ou não, nascemos para viver em sociedade. O problema é que cada vez mais temos esquecido o Politikon, e isso tem nos tornado simples animais pela falta de capacidade de se comunicar racionalmente com outros de nossa espécie.

Foi utilizando essa base aristotélica que o poeta inglês John Donne escreveu o célebre poema onde diz: “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente […] a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram também por ti”.

Talvez seja necessária uma reabilitação; talvez só precisemos olhar mais para o lado, ao invés do próprio umbigo. Quem sabe? A misantropia anda em alta e todo mundo quer ser cult e descolado, aderindo à moda. A gente só esquece que gostar de si mesmo não é odiar quem quer que seja. Não é preciso abrir mão da individualidade para viver bem com o outro. No entanto, é preciso reconhecer que ele existe, o que não deveria configurar nenhuma dificuldade.

Existir não é um privilégio apenas seu e daqueles de quem você gosta. Lembre-se disso.

Por trás de toda depressão, existe uma vontade enorme de ser feliz

Por trás de toda depressão, existe uma vontade enorme de ser feliz

De repente você não tem ânimo para nada. Não quer sair do quarto, que, a propósito está uma bagunça sem fim; não tem vontade de ver o mundo; não possui força sequer para fazer atividades que faziam/fazem parte do seu cotidiano.

Você se enxerga no fundo do poço, sem qualquer recurso ou sinal que faça recuperar a esperança. A vida nesse limiar de tristeza torna-se ainda mais frágil e por que não dizer insignificante, já que afundada em uma depressão, ela perde a sua razão de ser.

A depressão não é do jeito que descrevi, ela é muito pior e o mais importante: não é coisa de gente “fresca”. Depressão é coisa de gente, porque todos nós estamos sujeitos a queda, a dor e ao sofrimento. A única diferença direciona-se ao modo como cada um se comporta diante da pedra no meio do caminho. Entretanto, julgar algo precipitadamente ou achar que uma doença tão terrível é simplesmente “frescura” é ser despido totalmente do mínimo de sensibilidade.

Bauman assevera que não há como medir a dor que alguém sente, pois: “Cada angústia fere e atormenta no seu próprio tempo”. Dessa maneira, há de se considerar que todos nós possuímos nossos monstros e que eles nos assustam de maneira distinta. Ou seja, aquilo que aflige e esmaga o meu peito não necessariamente será a mesma dor que o outro sente, de modo que cada um sofre de acordo com as suas idiossincrasias e dores únicas.

Isso implica o entendimento de que a pluralidade só existe em função da singularidade que cada um possui e, assim, por mais que o problema do outro pareça aos meus olhos algo bobo, devemos buscar compreender que cada dor tem seu tempo e lugar, pois, como diz a letra da música: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Sendo assim, deve-se ter empatia para que possamos imaginar o sofrimento que existe em relação às particularidades de cada um.
Apesar de a empatia ser fundamental para que as pessoas que estão ao redor de quem sofre de depressão possam compreendê-la e ajudá-la, é necessário que a pessoa que sofre do problema busque analisar a raiz do seu sofrimento e de que modo ela tem contribuindo para a perpetuação deste.

Não estou dizendo que o indivíduo não deve chorar, ficar aflito ou angustiado em função de determinada situação, e sim, que deve, por meio de uma introspecção, tentar perceber em que momento a mágoa deixou de machucar por si só e passou a ser uma rememoração desencadeada pela própria cabeça.

Isto é, quantas vezes nós ficamos remoendo dores do passado, remexendo em feridas já cicatrizadas e fazendo-as tornar a sangrar? A depressão nunca é culpa de quem a possui, mas se martirizar por algo que não pode ser consertado não ajuda em nada, afinal, não se pode voltar no tempo e, mesmo que pudéssemos, outras coisas nos incomodariam e outras pedras existiriam, de maneira que teríamos que lidar com outros problemas, pois como é dito no filme “Questão de Tempo” – “Ninguém pode te preparar para o amor e para o medo”.

Eu sei que falar é muito mais fácil do que colocar em prática, tanto para quem tem depressão, quanto para quem está ao lado, porque lidar com o problema de modo que possa resolvê-lo depende de empatia, de perdão, de auto perdão, de resiliência, de esperança, de humor.

Depende de um olhar doce para um mundo que tanto nos faz chorar, já que só assim conseguimos fazer das lágrimas uma aquarela de cores para pintar um arco-íris, uma jiboia engolindo um elefante, uma árvore que dá pipoca, um dragão que cospe sorvete (que bom seria, hein?) ou qualquer coisa que quisermos.

Quando não conseguimos ter essa doçura no olhar, a depressão torna-se um casulo que transforma borboletas em lagartas e isso é triste, porque a beleza daquelas está na sua capacidade de se transformar, demonstrando que por trás de todo casulo há uma borboleta e que de toda depressão existe uma vontade enorme de ser feliz, cabe a nós escolher o que sai do casulo.

Ninguém é ansioso porque quer

Ninguém é ansioso porque quer

Ninguém diz “você é míope demais” para uma pessoa que não enxerga bem, diz? Ninguém diz “você é diabético demais”, para uma pessoa que tem diabetes, certo?

Por esse motivo fico extremamente irritada quando alguém me diz: “você é ansiosa demais”.

Assim como ninguém é míope ou diabético porque quer, ninguém é ansioso porque quer. Eu daria toda a coca-cola zero da minha geladeira para não ser uma pessoa ansiosa. Luto com unhas e dentes contra essa fera: pratico meditação, yôga, faço terapia e quando o bicho pega tomo florais e homeopatia.

Todavia, tem épocas (ou situações) em que nada disso resolve.

Eis as frases mais ouvidas por um ansioso: “Você não sabe esperar”, “você precisa aprender a ter paciência”, “pare de fazer tempestade em copo d’água”, “você é controlador”, “você é impaciente”, “nem tudo é do jeito que você quer”, “aprenda a respeitar o tempo do outro”, “por que você sempre imagina o pior?”, “você é muito extremista”, “você quer tudo para ontem”, “você é pessimista”, “por que você não fez isso ou aquilo ainda?”, etc.

Diante dessa chuva de observações pejorativas a única coisa que o ansioso consegue é ficar ainda mais ansioso: ansioso por conter sua ansiedade para não perder o afeto e a admiração dos que o cercam.

O mais curioso disso tudo é que, em geral, as pessoas que criticam os ansiosos também são ansiosas, mas não percebem isso (ou disfarçam melhor).

Os transtornos de ansiedade pouco têm a ver com impaciência. Eles estão mais relacionados ao funcionamento da psique – e eventualmente a alguma disfunção fisiológica – do que a qualquer outra coisa.

Nem todo mundo sabe, mas a depressão, por exemplo, pode ser um sintoma de ansiedade. Ansiedade não necessariamente tem a ver com agitação e impaciência. A ansiedade pode, inclusive, paralisar uma pessoa, embotar suas emoções.

A mente de uma pessoa ansiosa nunca pára e está sempre criando cenários e possibilidades, na maioria das vezes, desfavoráveis. Não, um ansioso não é um pessimista, um nuvem negra, um controlador, ele é apenas ansioso!

Tentar controlar um ambiente, uma situação, uma pessoa; tentar resolver as coisas a seu modo – são, na verdade, tentativas ilusórias de evitar que o pior aconteça e de afastar os pensamentos catastróficos.

Assim como a diabetes, ansiedade não tem cura, mas pode ser controlada.

Portanto, caro coleguinha que se julga super equilibrado emocionalmente, pense duas vezes antes de dizer “você é ansioso demais” para uma pessoa ansiosa, pois ninguém é ansioso porque quer e agindo assim você vai apenas contribuir para que a ansiedade do outro aumente, uma vez que ele se sente impotente diante do transtorno que apresenta.

Ok, pessoas ansiosas que às vezes enchem o saco e passam dos limites devem, sim, aprender a lidar com sua ansiedade e necessidade de controle, mas isso não lhe dá o direito de tratá-las como se fossem infantis, imaturas ou, pior, portadoras de doenças contagiosas. De mais a mais, se você não consegue lidar com a ansiedade de alguém é porque no fundo pode estar jogando sua própria ansiedade para debaixo do tapete – em geral, o que mais nos irrita no outro é o que nos incomoda em nós mesmos e não queremos olhar nem admitir.

Que tal, ao invés de julgarmos, exercitarmos a empatia?

À moça de olhos tristes

À moça de olhos tristes

Há alguns dias você chegou e quebrou a minha rotina tranquila. Como se eu vivesse com plumas nos pés, seguia minha vida distraído, até ter minha leveza umedecida pelas nuvens da sua presença. Não é tempestuosa, nem intensa, mas como os dias mornos que lamentam a chuva finda em seu leito, lentamente deixando subir o vapor do passado, denso e embriagado de sol encoberto. Desde a primeira vez em que te vi, você parecia fugir de casa. Parece fugir de casa todos os dias, dia após dia, uma vida de fugas frustradas e retornos vãos.

Eu sei onde você começa a sua jornada, mas não sei onde termina. Seus olhos castanhos profundos estão sempre rodeados pelo azul opaco das noites mal dormidas. O pó com o qual você tenta velar os traços e as cores da solidão se recusa a cumprir sua função, por uma questão de ética, deixa exposta, ainda que coberta por um delicado véu de artifícios, a tristeza que guarda, a tristeza que cresce e já não pode ser escondida. Ele a condena silenciosamente, para que, talvez, alguém a salve. Todos nós precisamos, às vezes, de alguém que nos salve.

Como quem desconhece a invenção dos óculos escuros, você transforma seus próprios olhos em armações, vidrados eles entram e persistem como lentes intransigentes. Não permite que ninguém penetre ou seja penetrado. A distância elétrica da sua resistência passa pela roleta e buscando uma janela para a qual se vira inflexível. Ingênuos os que pensam que você busca pelas paisagens batidas e desgrenhadas da estética urbana. Eu sei que deseja apenas evitar os outros passageiros. Eu te observo discretamente, com ternura e medo, pensando, quem sabe, um dia me aproximar.

Mas seu corpo todo repele qualquer presença, como se todos os abraços fossem feitos de espinho. Quem pode julgar, sem saber, quantos espinhos suportou pela vida? Quantos espinhos te torturam ainda a alma? A lembrança, o trauma. Eu não sei, mas eu sinto, apesar da sua distância, sinto suas nuvens, encharcando minhas penas. Todos os dias eu sei onde você começa a sua jornada, você, talvez, saiba onde a minha termina. Eu desço levando suas essências perturbadas e doloridas, um perfume doce e despretensioso de quem se conformou com o vazio.

Hoje, como por vezes a vida faz graça para interromper o mormaço monótono da rotina, quando eu desci, o transito estava parado. Pude te ver de fora. Seus olhos vidrados não me viam. Não estavam longe, não estavam atentos, pareciam completamente voltados por dentro, absorvidos pela introspecção. Quase não piscavam, como temessem assim liberar as lágrimas. Os lábios não estavam curvos em qualquer direção. Comprimiam-se em linha como quem segurasse o choro, aprisionando-o na tensão de todos os músculos da face. As sobrancelhas pareciam ignorar todos os sentimentos que no rosto se exibiam, como quem se cansou de se pressionar tanto.

Não era rude, era leve, toda a sua tensão, todo o seu descaso com os próprios afetos, vivendo os seus dias, um atrás do outro, fugindo de casa, ignorando as dores, ignorando a todos, ignorando a tudo, voltada para dentro. Levava nos ouvidos a música singular. Eu já percebia, mas hoje pude ver, nos seus olhos, eu vi as notas que chegavam egoístas apenas aos seus ouvidos. Ao contrário do motivo que, suponho, cole o seu rosto à janela antes que qualquer olhar possa encontrar o seu, a música poderia ser apenas para ocultar os ruídos externos, mas você realmente ouvia. Ou ouvia a si mesma como uma canção? Não importa tanto, desde que haja música, há esperança.

Eu sigo meu rumo, todos os dias, dia após dia, desde de o dia em que as suas nuvens pesaram minhas penas, e levo seu olhar descaradamente triste como um novo olhar rondando o meu. Quando chego ao trabalho e vejo os rostos sorridentes, os cumprimentos automáticos, as conversas de sempre, alguma polidez e alguma estupidez trocando farpas, disputando a atenção, eu busco em todos os olhos a verdade que os seus revelam sem pudor. Não é que todos carreguem uma tristeza como a sua, talvez não carreguem sequer tristeza alguma. Mas destes olhos seus, emoldurados do azul das noites mal dormidas, eu os vejo tão simplesmente sinceros, como quem cansou de fingir, e assumiu fugir de casa todos os dias. A sua fuga é o inevitável batente. É certo, não podemos parar sem maiores consequências. Estamos perdidos e seus olhos condenam essa perdição.

Então eu busco, um tanto cuidadoso para não ser descoberto em meu crime, busco os sentimentos mais profundos escondidos por trás de todos os olhos. Percebo que os olhos não são feitos apenas de íris e pupilas. Cada textura, cor, traço e expressão da pele que os cortinam, tudo diz respeito aos olhos. Mas, e os olhos, ao que dizem respeito? Nos olhos vivem caoticamente a verdade e a mentira de cada um. O inevitável do que se tenta evitar. Prestar atenção aos olhos alheios é desnudar ao outro sem permissão. Essa vulgaridade de conhecer sem pedir licença. O meu crime. Eu tenho mudado desde então.

Já não creio tão fácil no superficial que me apresentam. Suas nuvens pesando minhas penas me forçaram a fortalecer meus ossos ocos e finos para poder movimentar-me. Convivo com o desconforto de olhar nos olhos e perceber o quanto escondem. Há dores lá moça, há dores como a sua, muito mais bem protegidas. Há dores diversas. Há perversões e escuridão. Os sentimentos mais mesquinhos. Mas o que realmente me assusta é que há amor, há gentileza, há compaixão, há ternura. Tudo muito bem escondido também. Não importa o que escondam, escondem. As emoções bem guardadas, os desejos acorrentados. Quando se manifestam? Será que eles permitem vir o sono à noite, quando o silêncio profundo viabiliza os ruídos atormentados desses prisioneiros?

E então, como hoje eu te visse de frente pela primeira vez, através do vidro, sua fronte exposta em destaque com todos os demais em plano de fundo, como o ônibus fosse um quadro feito para destacar sua singularidade diante das sombras de perfil e costas ou rostos que mesmo de frente eram sombras, eu percebi, em débil reflexo, minha própria sombra. Quando encontrei um tempo para roubar da minha própria reserva, encarei o espelho. Tentei chegar nos meus próprios olhos. Tentei descobrir o que eles escondiam, ou se eram sinceros. Busquei desesperadamente ver. Eu me encarava angustiado, devorando todos os traços, texturas, cores e formas. Entrei em choque. Eu olhava e não via. No vidro do espelho o que eu via eram os seus olhos. Toda a sua face. A sua imagem e lembrança. As suas nuvens. A sua fuga.

Dessa interação unilateral que temos, eu levo seu olhar comigo. Não como uma bagagem, mas como um vírus. Algo que tomou parte e conta do meu corpo, da minha mente, me transforma cotidianamente. Transforma o meu próprio, antes que eu pudesse conhecê-lo, o meu olhar. É apenas o inevitável, pois se antes eu não via como eu vejo, não buscaria nunca os meus olhos como agora. Não teria os seus me impulsionando nessa busca.

Eu mentiria se dissesse que não sinto o desejo de aproximação e mentiria se dissesse que sinto. Estou tão completamente tolhido da compreensão do que desejo que me limito apenas a ver e sentir, o que seja, como é. De tudo isso que disse, dessa angústia sua permeando meu ser, espero apenas, desejo, isso eu sei, que um dia você possa dar descanso aos seus olhos. Fecha-los em definitivo para o peso que carregam e, então, abri-los novos para tudo o que há por vir, alguma leveza, e que assim, eles possam manifestar densamente, intensamente talvez, tantos outros afetos, com a mesma beleza com que hoje manifestam a tristeza.
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Eduardo escreveu essa carta no horário de trabalho para dar vazão ao insuportável dos pensamentos que lhe vieram desde que essa moça, dos olhos tristes, passou cotidianamente a embarcar no mesmo ônibus que o levava em seu trajeto. Cuidou em tecer manuscrita e legível cada palavra, dobrou o papel cuidadosamente e endereçou à moça da melhor forma que podia: “À moça dos olhos tristes, deste ponto de embarque”. Ele precisava especificar, porque sabia que haviam muitas moças de olhos tristes por aí. Mas ele queria que chegasse àquela.

Das intenções que o levavam a isso, poderiam ser um pouco egoístas, ou quem sabe, apenas nobres. Ele não queria violentar a tristeza da moça com frases fúteis de motivação. Nem a oferecer ajuda sem que ela pedisse, talvez sequer precisasse. Ele aceitava que a tristeza pudesse existir, como tantos outros afetos, apenas não deveria ser o único afeto… Uma questão de sobrevivência. De viver. Quis dizer isso a ela sem tentar mudar o que lhe ocorria sem a sua permissão. Respeitava o que via e admirava. Apenas. Respeito ou covardia?

Assombrado por seus dilemas, sem saber o que fazer, fez apenas o que dava conta. Escreveu as palavras e jogou o bilhete pela janela do ônibus quando retornava para a casa, no ponto em que a moça sempre embarcava. Esperava que ela encontrasse. Temia que ela encontrasse. É contraditório como somos, por tão descostumados com as iniciativas improváveis, que se a tomamos, não sabemos bem se gostaríamos que dessem certo por medo da reação, por medos das consequências. Confortava-o apenas a certeza de que aquilo que admirava nos olhos da moça não era a tristeza, mas a sinceridade com que se manifestavam.

E se não houver outra vida, essa você viveu?

E se não houver outra vida, essa você viveu?
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Ontem conheci um cara de Londres. Ele nunca tinha saído da Inglaterra, e tinha saído de Londres pouquíssimas vezes, todas a trabalho.

Nunca tinha viajado por prazer, muito menos sozinho.

Sete meses atrás ele se demitiu da sua empresa.

“Quando você está há sete anos no mesmo ramo você já não aprende mais nada – disse ele – e por que eu deveria continuar num trabalho que não está me ensinando nada?”.

Ele então saiu de Londres com o intuito de conhecer cada uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.

Já tinha passado pelas Pirâmides do Egito, pelo Taj Mahal, Muralha da China, Petra, Coliseo, Chichén Itzá e ontem o conheci em Machu Picchu. O próximo destino era o Rio.

Tudo isso sem nunca ter saído antes de seu país.

E sozinho.

Ele me contou que levou uma picada de mosquito pela primeira vez na vida. Me contou que não sabia que o vento podia ser quente, me disse: “Então eu tava numa praia do México e começou a ventar. Mas era um vento quente. Eu não sabia que existia vento quente, pra mim o vento sempre foi frio”. Me falou que viu o mar pela primeira vez, e se apaixonou.

Sim, era um inglês, que mora em um país desenvolvido muito longe de ser parecido com o nosso, que muito provavelmente teve todos os privilégios enquanto cresceu e, por isso, hoje ele consegue viajar por um ano sem se preocupar muito com o dinheiro.

Mas o meu ponto é: Quantas coisas existem lá fora que a gente nem imagina que existam? E se você nasceu pra ser campeão de surf e não sabe porque nunca tentou? E se a sua comida preferida é um comida típica do Zimbabwe mas você não sabe porque nunca provou? E se a sua razão de viver é trabalhar num santuário de elefantes, mas você não sabe porque nunca conheceu um?

Quantas coisas você não sabe que ama, porque acha que tudo o que existe é o que você vê?
Quantas vezes você já sentiu que não era bom em nada, porque tudo o que te ensinaram que precisa ser bom é em ganhar dinheiro?

A vida é muito mais do que a gente pensa que ela é.
Não tem problema não ter se descoberto ainda, eu também ainda não me descobri e não me vejo fazendo isso tão cedo.
O problema é desistir de continuar tentando se descobrir. O problema é achar que a vida é só isso que a gente vê. O problema é se contentar com o que tem, e nunca ir em busca de coisas novas.

E se não houver outra vida, essa você viveu?

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12 filmes sobre ícones da música

12 filmes sobre ícones da música

Muitos deles foram amados, outros tantos incompreendidos. Muitos eram rebeldes, alguns transtornados, mas sempre polêmicos. Uns souberam lidar com a fama, outros foram destruídos por ela. Uns usaram suas canções para falar do amor, do prazer da vida e da felicidade, outros para expor suas dores e traumas. Alguns foram valentes e levantaram suas vozes contra a segregação, o preconceito e as injustiças sociais, outros não. Mas todos, sem exceção, tiveram uma coisa em comum: um talento extraordinário.

Os 12 filmes abaixo nos contam um pouco sobre vida desses ícones da música. Quando entendemos o homem por trás da fama, entendemos melhor a sua obra.

Não estão em ordem cronológica, nem de preferência. E, sim, caberiam muitos outros filmes nesta lista.

PIAF, UM HINO AO AMOR

O filme conta a sofrida vida de Edith Piaf (Marion Cottilard). Logo cedo, foi abandonada pela mãe, criada pela avó num bordel e acometida por uma cegueira dos 3 aos 7 anos de idade (recuperou-se milagrosamente). Na adolescência cantava nas ruas de Paris. Ainda jovem é descoberta por um dono de boate e grava seu primeiro disco. Logo, o seu enorme talento é coroado com o sucesso internacional, mas até isso tem seu preço.

JOHNNY & JUNE

O filme conta a história do cantor Johnny Cash (Joaquin Phoenix), sua infância em uma fazenda até o início do seu sucesso onde cantou com Elvis Presley, Johnny Lee Lewis e Carl Perkins. O temperamento difícil, a personalidade dita como marginal, os traumas da infância e um difícil relacionamento com o pai, fazem com que Johnny entre em um caminho bastante destrutivo. Porém, seu grande amor por June Carter (Reese Whiterspoon) acaba por ser o início da sua redenção.

WHAT HAPPENED, MISS SIMONE?

Esse espetacular documentário conta a vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003). Usando gravações inéditas, imagens raras, diários, cartas e entrevistas com pessoas próximas a ela, o documentário faz um retrato de uma das artistas mais incompreendidas de todos os tempos.

RAY

O filme conta a vida do lendário Ray Charles (maravilhosamente interpretado por Jamie Foxx) que perde a visão aos 07 anos de idade, um pouco depois de testemunhar a morte do seu irmão mais jovem. Motivado por uma mãe rigorosa e forte ele cresce com  independência, apesar da sua limitação. Ray se torna um grande ícone da musica mundial, mas é obrigado a lutar contra a segregação racial e contra os seus próprios fantasmas pessoais.

AMY

O documentário sobre Amy foi realizado através de uma rica pesquisa com fotos, depoimentos de pessoas próximas, apresentações na televisão, vídeos caseiros e de bastidores. Nele podemos ter uma ideia de tudo aquilo que a consumiu e destruiu. Emocionante e triste.

AMADEUS

O filme não conta exatamente a vida de Mozart, mas vale a pena. Após tentar se suicidar, Salieri (F. Murray Abraham) confessa a um padre que foi o responsável pela morte de Mozart (Tom Hulce) e narra como conheceu o jovem compositor irreverente e genial.

BUENA VISTA SOCIAL CLUB

Trata-se de um documentário que mostra as histórias de vida de um grupo de talentosos músicos cubanos da década de 50.  No ostracismo, muitos deles ficaram sem tocar em público por mais de 10 anos. Na década de 90, o produtor musical Ry Cooder viajou até Havana para encontrar esses artistas. Assim, foi realizado o famoso disco Buena Vista Social Club, premiado com um Grammy, cujo nome é uma referência a uma casa de shows cubana que havia deixado de existir por volta dos anos 50.

TIM MAIA

O filme conta a história de Tim Maia, baseada no livro “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”. O filme percorre desde a sua juventude no Rio de Janeiro até a sua morte aos 55 anos de idade, incluindo seus amores, problemas e, até mesmo, a passagem pelos Estados Unidos onde o cantor descobre novos estilos musicais e é preso por roubo e posse de drogas.

MINHA AMADA IMORTAL

Quando Ludwig Von Beethoven (Gary Oldman) morre, um grande amigo do compositor, Anton Felix Schindler (Jeroen Krabbé), decide cumprir o último desejo do maestro, que deixava em testamento tudo para a “Amada Imortal”, sem citar o nome desta mulher.

SOMOS TÃO JOVENS

O filme conta a história de Renato Russo (Thiago Mendonça), desde quando sofreu de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou por um tempo numa cadeira de rodas na adolescência até o surgimento da banda Legião Urbana.

RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO

O documentário conta um pouco da trajetória do conhecido cantor e compositor, polêmico, ícone e criador da “sociedade alternativa” ao lado do seu parceiro inseparável Paulo Coelho. O documentário junta um enorme arquivo do astro do rock brasileiro, através de documentos, depoimentos de familiares, amigos, músicos e compositores.

A MÚSICA SEGUNDO TOM JOBIM

Documentário sobre um dos maiores nomes da música brasileira, Antônio Carlos Jobim. Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e por Dora Jobim, o filme mostra a trajetória musical do compositor e aborda também a sua parceria com Vinicius de Moraes, bem como a influência da música clássica em sua obra.

Viver requer um pouco de tudo, principalmente de você

Viver requer um pouco de tudo, principalmente de você

Não adianta reclamar, esperar e realizar preces para um amanhã mais ameno. A vida começa quando você, despido de pequenos trajes sentimentais, começa a dar passos de coragem e intensidade para o que te faz feliz. Ou, pelo menos, para as coisas e pessoas que imagina serem caminhos sinceros e partes integrantes disso.

Por vezes, o medo bate na porta. Na janela, a ansiedade acena. E o amor, quase sempre, acaba perdido em algum outro cômodo. Você não consegue mais sair, sorrir e reconhecer a vida. Sobram poucos espaços para sentimentos e quase nenhum resquício de vontade própria sobrevive. Ontem, chorou pelo amor perdido. Anteontem, teve raiva da oportunidade não concedida. Inúmeras situações e realidades que, aos poucos, fizeram do seu coração algo mais rochoso, espesso e inerte. Os planos deixados de lado, os sonhos interrompidos por pensamentos utópicos e, como se não bastasse, sem sobreaviso, adeus lhe foram dados. Fica difícil jogar com tanto azar. Você, que nem acreditava nessas sandices, agora percebe um mundo regido pela sorte ou pelos astros mapeados. Não que sejam estudos diminutos, mas bater o martelo nesses caminhos traçados é praticamente assumir uma inexistência da escolha.

Felicidade não é para qualquer amar. Às vezes, pouco é muito. Dar valor para os momentos de serenidades e recolhimentos, ajuda. Nenhum tropeço é tão ruim que não possa encontrar resiliência debaixo do travesseiro. Temos belezas das quais, por mais características em comum, raramente assemelham-se. Corações são distintos. Saber amar envolve você para depois repousar num outro alguém.

A vida é um salto de coragem. Não desistir daquilo que te move e faz o seu espírito sentir-se vivo, sempre será o melhor trajeto. Apreciar instantes transforma um pouco de tudo. E viver requer um pouco de tudo, principalmente de você. Então, mesmo que o amor tenha cambaleado, o medo forçada entrada e, a ansiedade debruçado-se nos ombros, resista. Pouco é muito, mas amor é de tudo um pouco.

É muito estranho quando alguém vai embora sem avisar

É muito estranho quando alguém vai embora sem avisar

É estranho quando alguém vai embora sem avisar. As coisas ficam tão quietas como se esperassem uma explicação. E a gente não tem o que falar porque ainda não entendeu nada. Não tem nem coragem de trancar a porta porque aquela pessoa tinha hora certa pra chegar. Depois de um tempo, a gente quer mudar a cama de lugar, colocar uma cortina rendada e alterar a cor da fachada, mas o dia é sempre cinza quando a gente anoitece por dentro. É muito estranha essa sensação de ficar sem lugar dentro da própria casa porque nosso aconchego era no peito de uma pessoa que não mora mais ali. E a gente se dá conta que está desabrigado, empunhando uma saudade que não passa, aguentando um silêncio que não se quebra com a cor da voz daquela pessoa. A ausência ocupa muito espaço. E a tristeza resvala nas coisas que a gente lembra, e a gente se sente tão ferido sem saber qual é a parte que dói mais. A gente tira as coisas do lugar pra ver se as coisas mudam, mas elas continuam gritando o nome daquela pessoa que foi embora. E a gente chora, quer ir embora também pra ver se encontra na rua àquela pessoa, que sempre esteve tão do lado de dentro e agora é como se a gente montasse guarda pra ver se acha algum vestígio, alguma partícula que tenha o cheiro e a voz, que aos poucos vai se dispersando na poeira dos dias. É muito estranho quando alguém vai embora sem avisar e a gente olha aquela roupa mais estimada e pensa que ali dentro vivia uma pessoa feliz. E a gente veste aquela roupa pra tentar se aproximar do cheiro daquela pele, mas é só uma camada de pano cheia de linhas soltas, é só o invólucro da ausência que a gente tenta abraçar pra ver se pega de novo aqueles traços, aquele jeito de olhar, aquelas manias que a gente reclamava e que agora sente saudade até mesmo da toalha molhada em cima da cama, mas, a gente não tem mais aquela toalha. É muito estranho quando alguém “joga a toalha” e vai embora sem avisar porque a gente sempre espera resolver tudo numa conversa antes de deitar e planeja fazer alguma surpresa para o jantar pra ver se fica tudo bem, mas, de repente, aparece essa argola de angústia rodeando o pescoço porque não se sabe se a pessoa perdeu mesmo o rumo de casa ou não quer mais voltar. Mas é estranho porque talvez ela tenha avisado num gesto qualquer, que a gente não tenha interpretado como um sinal de despedida, mas era a última vez, e aí, a gente rebobina as cenas, e chora de novo como se fizesse um “remake” de um filme que já acabou. É estranho… é muito estranho.

O amor não é um ônibus pra você esperar o próximo. Embarque logo, criatura!

O amor não é um ônibus pra você esperar o próximo. Embarque logo, criatura!

Lá vem ele. Vem reduzindo a marcha, sinalizando, aproximando-se, abrindo a porta, esperando você entrar. Mas você olha e pensa: será? Tá muito cheio, tá muito vazio, tá muito cedo. Então decide esperar o próximo e o vê partir sem você. Acontece. Como também acontece de o próximo não chegar tão cedo, de chegar mais cheio que o outro, de ser muito tarde. Aí você perde a hora e pensa: “puxa, vida! Eu devia ter embarcado no primeiro ônibus”.

Guardadas todas as proporções, a maior diferença entre os ônibus e o amor é: ainda que demore, o próximo ônibus sempre vem. O amor, ninguém sabe. Esse negócio de esperar “a hora certa” para sentir amor, sei não.

Tem tanta gente esperando no ponto! Debaixo de chuva ou ardendo no sol, tremendo no frio ou suando calor, de dia ou de noite, tem sempre uma multidão apinhada, à espera. É sempre hora do rush. O ônibus não tem lugar pra todo mundo. Já o amor, ahh… no amor cabe o mundo todo.

O ônibus segue um itinerário padrão, passa pelas mesmas ruas, dobra as mesmas esquinas. O amor toma seu próprio rumo.

Quem vai de ônibus depende da boa vontade do motorista. Quem embarca no sentimento amoroso dispensa até a companhia se assim quiser. A gente pode amar sozinho mesmo. Se vier alguém, que embarque conosco porque o espaço é amplo, o coração é generoso e o caminho é livre.

Amar é coisa que a gente se permite, sabe? A gente sente ou não sente. Embarca de uma vez, não fica aguardando no ponto. E se não der certo a gente desce, ué!

Se o amor, em seu rumo próprio, enveredar por caminhos estranhos e rotas indesejadas, se ele correr demais ou se arrastar feito lesma, se não soubermos mais para onde estamos indo, é só saltar. A gente salta, sozinha ou acompanhada, e segue para onde sentir o coração apontando.

Sentir amor reside em nós. Depende de ninguém mais. Por nós mesmos ou pelo outro, a gente embarca quando ele chega. Não espera o próximo, não. Porque pode ser que o próximo não venha. Ninguém sabe. Mas ninguém prova o contrário. Lá vem ele. Vai embarcar ou vai esperar?

Antes nós temíamos a solidão, hoje temos medo de companhias reais.

Antes nós temíamos a solidão, hoje temos medo de companhias reais.

Estamos cada vez mais solitários na multidão. Antes nós temíamos a solidão, hoje temos medo de companhias reais. É que é mais cômodo o trato à distância. Receber o desabafo de um amigo via Wi-Fi é mais prático, menos desgastante. Não precisamos olhar, opinar ou mesmo se posicionar. Basta uma curtida ou um emoji e está tudo resolvido.

Cada vez mais, a amizade se dilui em contingências e burocracias. Não se pode mais tocar a campainha sem antes ligar e não é permitido ligar após o horário comercial. Se você fizer isso, pode ser tratado como um mal educado inconveniente ou como um pária que atirou pedra na cruz.

Viramos instituições com hora para abrir e fechar e nos esquecemos que um dos grandes atrativos da amizade é justamente a possibilidade do improviso.

Culpar apenas a tecnologia por essas transformações é uma desculpa para encobrir certa preguiça existencial. Não estou falando de baladas, de porres e de farra. Eu falo de contato, de olhar, da capacidade de conceder abraço, palavra ou silêncio confortador – sim, até mesmo o silêncio de um amigo presente pode representar tanto conforto quanto uma palavra. É a presença que conta, não só a física, mas aquela que se faz notar em um telefonema para perguntar sobre a vida, sobre um projeto ou sobre como anda a paixonite aguda por alguém. Estes exercícios de atenção são essenciais para a manutenção de nossa própria humanidade. Não somos máquinas ou pelo menos não deveríamos ser.

Vivemos de solidão a dois, a três, a quatro… Permanecemos distantes, mesmo quando estamos a míseros dois metros de distância. Tão perto e tão longe. O pensamento dominante não é o de que é melhor estar só do que mal acompanhado, é o de que é melhor estar só, fingindo estar acompanhado.

Cuidar de um amigo é cuidar da memória. Através dele nos também nos desdobramos. Se você não for do tipo altruísta e prefere uma posição mais egoísta frente à vida que escolheu levar, ao menos essa justificativa deveria valer para você: a amizade nos leva à posterioridade.

No quadro atual, o terapeuta é uma extensão da amizade que não conseguimos cultivar ou que não demos água e luz suficientes para florescer. Pessoas perdem a mesa onde se sentavam para discutir o futebol e acabam tendo que recorrer ao divã. O psicólogo é hoje a personificação da amizade pós-moderna: com dia e horário marcados para visitas que devem ser rigidamente seguidos.

Felizes daqueles que ainda possuem amigos ao estilo antigo e ultrapassado, que não se deixaram levar pelas tendências de desapego que defendem a comodidade da comunicação à distância.

Felizes daqueles que são fora de moda e que ainda recebem pessoas em casa sem ligações ou mensagens prévias para uma cerveja ou uma conversa informal.

Feliz de quem não agenda o próprio afeto.

Livro infantil sobre medos ajuda crianças a lidarem com suas dificuldades

Livro infantil sobre medos ajuda crianças a lidarem com suas dificuldades

O medo faz parte da vida e existe para nos proteger de perigos que podem colocar nossa existência em risco. Quando ele chega, a criança fica assustada, chora, não dorme e tem muita dificuldade para compreender qualquer explicação racional.

Para ajudar pais e crianças a lidarem com os medos, a Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita pela Universidade de São Paulo, Ana Macarini escreveu o livro “O Medo de ter Medo”, pela editora PerSe.

“A criança precisa sentir que tem permissão para sentir-se assustada e amedrontada, diante do que não consegue compreender ou ainda não é capaz de racionalizar. Quando tem seus medos acolhidos pelos adultos, a criança consegue evoluir em suas interpretações do mundo e estabelece comportamento afetivo, baseado na confiança.” – comenta a autora.

Segue a Sinopse:

contioutra.com - Livro infantil sobre medos ajuda crianças a lidarem com suas dificuldades“Dizem por aí que todo mundo tem medo de alguma coisa. Dizem também que tem gente que vive fingindo coragem porque tem medo de admitir que tem medo. Sofia Catarina é uma menininha danada de esperta que foi surpreendida certa manhã por uma “voz do além” que vinha de dentro do armário de seu quarto. E foi por causa desse enorme susto que ela acabou descobrindo um jeito de enfrentar o seu pior medo: O MEDO DE TER MEDO! Isso sem contar o monstro que vivia debaixo da cama, o fantasma da cadeira de roupas e… Ahhhh, nem te conto! Ou será que conto?! Mas, e você? Tem medo de quê?”

 

Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita pela Universidade de São Paulo. Escreve crônicas e artigos de opinião para a revista eletrônica CONTI Outra. Apaixonada por crianças e histórias, acredita que as palavras têm vida própria e que, exatamente por isso, têm essa propriedade mágica de se dissolver no papel e renascer por meio dos olhos de quem as lê.

O livro pode ser encontrado no site da editora Perse e possui preços bastante acessíveis.

E se amor der na árvore, você floresta ou desmata?

E se amor der na árvore, você floresta ou desmata?

A gente, muito engajado, começa uma baita discussão socio-ambiental. Bla bla bla. Horas de argumentos, pontos de vista e refutações. Depois beijamos, abraçamos e raramente pensamos no quanto mudanças globais estão afetando nossas vidas íntimas. Nossa percepção nos engana e nos julgamos observadores distantes do mundo.

Pense em 1900. Não havia internet, celular. Quantas relações jamais existiriam hoje se não fossem essas formas de interação? Não é fácil perceber o quanto avanços tecnológicos transformam nossas vidas afetivas. Mas experimente passar dois anos sem falar com as pessoas por mensagem. Qualquer coisa assim simples já escancara o quanto estamos imersos no contato virtual.

Nada contra, nem a favor. É apenas um meio, cada um utiliza como achar melhor. Tem gente que gosta mais, outros menos e assim vai. Porém, há um porém. Muitas pessoas pensam que amor dá no aplicativo. Que ano que vem, todo ano que vem, vai sair uma atualização.

contioutra.com - E se amor der na árvore, você floresta ou desmata?

Queremos que o amor rode bem, sem travar, dê informações precisas e tenha um layout, uma aparência agradável e funcional. Mas as coisas da natureza são indomáveis. 

Mas esse danado não é prático como o Google, nem é um Uber que você chama e em alguns minutos chega.

Essa lógica de uma vida cada vez mais prática é muito boa quando não transferimos para relações humanas. Tem gente que não vai te amar e nem adianta ficar atualizando sua versão. Tem gente que te ama, mas nem todo dia está com sinal disponível. Tem gente que te ama muito, mas não deixou de ser um humano e possui limitações.

Por isso, o amor é mais como uma árvore, bem grande. Dá coisas que um aplicativo jamais dará; como uma manga grande suculenta de sujar a cara toda e uma sombra acolhedora.

Cabe a você desmatá-lo exigindo que ele se reduza a um aplicativo para servir a todos os seus caprichos, ou floreste sabendo que em troca ele lhe dará um ar mais puro.

E ainda bem que amor não dá no aplicativo, imagine, vai que algum juiz  tira do ar?

Taxi driver – a solidão como condição pós moderna

Taxi driver – a solidão como condição pós moderna

Bauman em um dos seus pensamentos diz: “Estamos todos em uma multidão e em uma solidão ao mesmo tempo”. Frase paradoxal, típica de tempos pós-modernos, em que não se tem certeza de muita coisa.

Contraditória é também a história de TravisBickle (Robert De Niro), um homem perturbado psicologicamente, imerso em sua solidão, paranoia e decadência, buscando algo sólido para apoiar a sua existência frágil.

Taxi Driver, talvez a maior obra-prima do gênio Martin Scorsese, nos apresenta Travis (em uma atuação espetacular de De Niro) um jovem que aparentemente serviu no Vietnã e não consegue se enquadrar na sociedade. Sofrendo de insônia, ele decide arrumar um emprego de motorista de táxi, a fim de que possa, ao menos, lidar de maneira menos desgastante com o seu problema.

No entanto, Travis é um indivíduo imerso em um inferno tão quente quanto o vietnamita. Movido por uma autoanálise perene, ele sente e percebe toda a degradação que existe nas ruas, ao seu redor, em cada pessoa e dentro de si. A degradação que existe na vida e que nos torna tão distantes uns dos outros e solitários, com vidas mergulhadas em depressões profundas, em que temos apenas o nosso próprio eu como companheiro.

O comportamento esquisito e a degradação psicológica sofridas pelo personagem se constroem de forma verossímil (o que é acentuado pela trilha sonora de Bernard Herrmann) já que Travis é um reflexo da própria degradação apresentada nas ruas e da própria solidão que apavora cada um. Não à toa, a obra é uma história urbana, uma vez que são nos grandes centros urbanos que a paradoxalidade apresentada por Bauman faz mais sentido.

Nas metrópoles, como Nova Iorque, embora exista uma maior concentração de pessoas, estas estão submetidas a rotinas desgastantes, vivendo sempre com pressa, resolvendo os seus problemas e lutando contra os seus demônios, obviamente (ou contraditoriamente?), sozinhas.

Isto é, saímos de casa, vamos, voltamos, tornamos a ir e não enxergamos nada, não nos enxergam, somos invisíveis atormentados pelo medo, asfixiados pelo nada que as nossas vidas seguem, esmagados pela sujeira nas ruas, que parece ser a única existência concreta no mundo, completando a nossa solidão.

“A solidão me perseguiu a vida toda. Em todo lugar. Em bares, carros, calçadas, lojas, em todo lugar. Não há escapatória. Sou um homem solitário de Deus.”

Diante do vazio que o permeia, das suas incertezas e do seu desencanto, Travis busca refúgio no seu diário, a fim de que possa afastar-se de toda aquela sujeira que ele tanto repugna, muita coisa, inclusive, fruto do seu preconceito e conservadorismo.

Entretanto, o seu sonho sempre esbarra em si mesmo, porque sabe que o ódio que nutre pela “escória” das ruas, é apenas um reflexo da sua própria exclusão e desenquadramento, da sua esquisitice inapropriada e inaceitável pelo lado “bonito” da cidade, de modo que não há como a chuva limpar as ruas, sem que ele também seja levado para os esgotos.

“À noite, saem animais de todos os tipos: prostitutas, cafetões, corruptos, drogados, traficantes e esquisitos de todo tipo. Um dia uma grande e verdadeira chuva vai limpar as ruas de toda essa escória.”

Mesmo sabendo de toda a sua decadência e do mundo, Travis nutre o desejo de fuga do inferno no qual está submetido. Esse desejo é almejado em Betsy, que representa o contraponto de toda a miséria pronunciada pelo protagonista. A rejeição, todavia, por parte de Betsy, de um romance sequer iniciado, acentua para Travis, a incapacidade de salvação, posto que o seu portal de salvação revelou-se somente mais uma passagem para o inferno.
“Agora eu percebo como ela é como os outros… fria e distante. Muitos são.”

Talvez o que Travis precisasse, antes de sucumbir à loucura total, fosse de alguém com que pudesse sair, conversar, fazer alguma coisa. Alguém que pudesse ajudá-lo a tirar umas coisas ruins da cabeça, algo que ele tenta expor, mas sem resultado, a um colega taxista. O que Travis precisava, era o que todos nós precisamos em algum momento da vida: alguém que nos ajude a respirar e sair do mar de lama que estamos mergulhados.

Ele não encontrou essa ajuda, nós, na maioria das vezes, também não encontramos e, assim, quando todas as portas se fecham, a loucura se anuncia como a única saída possível. Para o nosso herói foi dessa maneira.

Após o seu ato de loucura ser praticado materialmente, Travis é condecorado por uma sociedade que antes o excluía. Pior, pelos motivos errados. Nada que fizesse substancialmente diferença para ele, já que o final do filme, assim como o começo, demonstra o mesmo olhar refletido no retrovisor.

O olhar de um homem que sabe que não é herói, que não acredita em heróis, cheio de vazio e solidão, buscando apenas um sentido para a sua vida, embora saiba ao olhar pela porta do carro que: “Os dias passam monotonamente um após o outro, nenhum deles difere do anterior ou do próximo, são como elos de uma longa cadeia, até que de repente surge a mudança.” E, sobretudo, que ao olhar-se no espelho não enxerga nada além de si mesmo, ainda que as duas imagens representem a mesma coisa.

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