É possível viver uma vida a dois sem deixar de ser um

É possível viver uma vida a dois sem deixar de ser um

“Somos diferentes demais, acho que não vai dar certo.”

Quantas vezes eu e você não escutamos isso de alguém? Acredito que ser diferente não é de fato um problema, mas sim não aceitar essas diferenças. Não vejo problema em ter sonhos diferentes, o problema reside em não incluir o outro nesse sonho.

Sinceramente, não acredito que ser diferente seja um impasse para um relacionamento. Em um mundo de tantas cópias, manter a nossa autenticidade é importante e é isso que nos distingue entre tanta gente que existe por aí. O problema é que nós – principalmente meninas- desde pequenas crescemos ouvindo a ideia de que o príncipe encantado existe e que o amor é um mar de perfeição e finais felizes.

De fato estamos acomodados com a mesmice, com o igual e sair da zona de conforto é um exercício que dói, incomoda e exige de nós muito esforço. Não é fácil ter que aprender a lidar com as diferenças é por isso que, na maioria das vezes, é mais fácil terminar e usar disso como justificativa.

É natural que você queira viajar pelo mundo e ele talvez queira terminar sua tese de mestrado. É normal que você queira casar aos 25 e talvez ele pense em se casar aos 30. Ele pode gostar de aventuras e parques de diversões enquanto você detesta e evita a todo custo. Talvez você goste de sair para jantar e ele nem ache isso tão importante assim. Pode ser que você odeie receber flores enquanto ele ache bonito.

Acredito que se relacionar vai muito além das teorias do amor, essa singularidade que se mostra nas diferenças e que torna a convivência bonita e respeitosa. É aí que conseguimos enxergar o quanto o outro nos admira e nos quer bem, o quanto ele está disposto a ceder, a conversar e fazer dar certo o relacionamento.

Relacionamento, a meu ver, exige reciprocidade, e depois de um tempo, você começa a pensar a dois, vai ao mercado e pode não gostar de queijo, mas se lembra que o outro adora cheddar e decide incluir esse item na compra como quem quer fazer um agrado.

Antes de conhecer alguém alimentamos sonhos, fazemos planos, mas é natural que depois de conhecer alguém especial, amar esse alguém, você começa a pensar no outro assim como descobri-lo. Com o tempo, os defeitos aparecem, as diferenças começam a ficar mais evidentes e se o casal não souber lidar com isso, as diferenças tornam-se conflitantes e o que era para ser positivo torna-se um fardo.

Isso não significa em hipótese alguma, abrir mão do que você quer, do que você gosta e sempre quis, mas de se reinventar, de incluir o outro na sua vida e nos seus projetos. O amor é um acordo, ninguém fica ninguém permanece, se o outro não quiser. Não peça para o outro desistir do seu sonho, fortaleça esse sonho incentivando-o. Aprenda a abrir mão de alguma coisa em prol do outro, usem e abusem do diálogo para chegarem a acordos. É possível viver uma vida a dois sem deixar de ser um.

Se você gosta de comida mexicana e ele japonesa, não deixe de acompanhá-lo, vá com ele e peça um suco de laranja e ouse experimentar aquele Hot Filadélfia que ele tanto fala. Desfrute desse universo novo e não diga o quanto está sendo difícil ficar ali, o quanto gostaria de estar em outro lugar como quem deseja provar o “sacrifício” que está fazendo em prol do outro. Fique ali, converse, e depois vão ver um filme. Aproveitem para rir desses momentos e conversar sobre como foi a semana.

Inclua o outro nos seus sonhos, leve o outro para conhecer o seu mundo e se permita para conhecer o mundo do outro. O novo é mágico e não assustador como parece. Se em um relacionamento os dois se amam e querem fazer dar certo, não existe nada que fale mais alto que isso. Nem as diferenças, nem os gostos diferentes, os sonhos que se divergem. Nada. Se você se relaciona e não faz nada pelo outro, você não o ama você apenas desfruta das coisas boas que o outro faz para você.

Quem ama pensa no outro, se importa e sempre dá um jeitinho. Relacionamento saudável não consiste em aprisionar o outro no nosso mundo e impedi-lo de viver o seu, mas sim em se aventurar no mundo do outro e convidá-lo a conhecer o nosso. Em um relacionamento não existem pessoas certas, existem pessoas que lutam pra dar certo. E se os dois querem fazer dar certo, não tem erro.

Quero você, quero nós dois

Quero você, quero nós dois

Quero você, quero nós dois. Um amor sem calendário e sem o precipício conhecido por aqueles que não mantiveram os cafunés em dia. E dentro de todos os beijos e entrelaçares de pernas, o gosto do inteiro. Quero nós dois no sentido mais simplificado e ao mesmo tempo mais amplo.

Quero você de hoje em diante até os versos ganharem novas entrelinhas. Um amor sem empecilhos e sem esse desfazer frequente conhecido por aqueles que não insistiram no respeito constante. E dentro de todos os sorrisos e trocas de olhares, o sabor intenso. Quero nós dois no sentido mais excitante e ao mesmo tempo mais sereno.

Porque você é fogos de artifício em dias nublados. Porque você não pesa, ultrapassa ou tira, em qualquer dia, esse querer onírico e ao mesmo tempo crível postado, compartilhado e existencial entre nós. Enrustido, apetitoso, cristalizado, quente. Tudo isso poderia ser inexplicável, ou, na mais absurda das hipóteses, impensável. Mas não você. É uma sede que não cessa, é um viver que não se esvai. Tento, muitas vezes, encontrar caminhos que nos cruzem. Que tragam algo ainda mais novo, jovial e inquietante. Porque não dá para ser nada menos com você, para você e por nós.

Desconheço acasos, ignoro previsões e, tampouco, dou ouvidos para os possíveis destinos traçados por um outro alguém. Mas devido ao nosso encontro, parece que todas esses caminhos, de alguma forma, acertarem em cheio esse amar sem juízo. Inexplicável e, no entanto, vivenciável.

Quero você, quero nós dois. Um amor sem passado presente e sem o futuro do pretérito lamentado por aqueles que não souberam como continuar. E dentro de todas essas palavras e linhas soltas, o amor real. Quero nós dois no sentido de não haver sentido. Quero você ao mesmo tempo que me quero, seu.

Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade

Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade

Por Valéria Amado

Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade. O mundo já está muito cheio de mentes pequenas que só falam dos outros sem pensar, cheio também de pessoas que falam muito e fazem pouco. Sendo assim, caminhemos contra a corrente sendo mais sábios, cautelosos e livres de mentes quadradas.

Mas se há algo realmente complicado, é sermos mais flexíveis nos nossos métodos de pensamento. De fato, um dos aspectos mais interessantes que as correntes cognitivo-comportamentais nos explicam é que os nossos problemas não surgem propriamente por causa de situações complicadas. O tipo de pensamento que utilizamos e a forma como interpretamos a nossa realidade podem ser inquestionavelmente nossos aliados, ou então os nossos piores inimigos.

“Sejamos fortes, mas não inflexíveis. Sejamos meigos, mas não fracos. Aja com humildade, mas sem ser indigno.”
-Alejandro Jodorowsky-

Todos os dias tomamos várias decisões e nos arrependemos de muitas delas. No mesmo instante nos perguntamos por que fizemos aquilo, por que não pensamos um pouco mais. A mesma coisa acontece com muitas das nossas verbalizações. Às vezes falamos sem pensar e permitimos que seja a raiva, o medo e o desrespeito a colocar voz nas nossas emoções.

São aspectos que todos nós já vivemos e que nos fazem perguntar a nós mesmos por que isso ocorre. Por que somos tão “falíveis” quando mais precisamos. Longe de ficarmos obcecados pelo “autocontrole“, devemos construir uma nova perspectiva onde reine a calma, a inteligência emocional, a razão e a responsabilidade emocional.

contioutra.com - Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade

Pare e sinta, pense e tome consciência

“Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade”. Isso quer dizer que devemos meditar ao máximo cada uma das nossas decisões e falar o mínimo? Na verdade, não se trata de passarmos a vida racionalizando cada ato, cada emoção ou desejo em silêncio absoluto. Em vez disso, se trata de propiciar uma sequência de ação extremamente simples:

Aprenda a escutar a si mesmo —> Aja em sintonia com seus pensamentos e emoções —> Fale o que for justo e o que estiver em consonância com as suas essências.

Por outro lado, algo que todos sabemos é que há quem se deixa levar pelos pensamentos automáticos na hora de agir. Suas decisões estão condicionadas muitas vezes por abordagens distorcidas e emoções enviesadas. Estas atitudes limitantes lhes fazem perder uma infinidade de oportunidades. É, então, quando aparece a frustração e o sofrimento.

contioutra.com - Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade

Não nos damos conta, mas de certa forma todos nós nos deixamos levar com frequência pelos mesmos mecanismos acima mencionados. Eles têm sua raiz em um inconsciente cheio de preconceitos. “Melhor evitar essa pessoa porque ele/a se parece com meu ex-namorado/a”, “é melhor dizer não a este projeto porque se antes deu errado, agora vai ser ainda pior”. Elaboramos juízos de valor de forma arbitrária sem passar nenhum filtro prévio. Sem tomar consciência. Isso não é correto.

Cada coisa que acontece na nossa vida diária pode ser interpretada a partir de vários pontos de vista. É necessário que encontremos aquela que mais se ajuste a nós de uma forma saudável, de forma construtiva, sem nenhum viés. Sem nos limitarmos, sem fecharmos portas e sem chegarmos a nos transformar nos nossos próprios inimigos.

A seguir damos algumas dicas de como conseguir isso.

Pense bem, decida melhor
Respire, pense, sinta, decida, aja. É uma sequência simples que deveríamos colocar em prática todos os dias. No entanto, o problema essencial é que “nunca temos tempo para nós mesmos”. A vida e as nossas obrigações nos arrastam em seu trem de alta velocidade, permitindo que seja o piloto automático a decidir.

Não é lógico, porque se não temos tempo de pensar para falar melhor… o que nos tornamos? Precisamos ter estratégias adequadas para que isso mude. Explicamos como a seguir.

contioutra.com - Pense o triplo, faça o dobro e fale a metade

Estratégias para pensar e decidir melhor

Certamente você conhece mais de uma pessoa que fala sem pensar. São personalidades que agem sem levar em conta as consequências dos seus atos. Agir sem ferir e pensar para decidir melhor é uma estratégia de responsabilidade e de respeito, para nós mesmos e para os outros.

  • Deixe de lado os “deveres” obsessivos (deveria ter feito isso, dito aquilo, deveria ser mais esperto, mais decidido…). Deixe de usar estes tempos verbais, chega de lamentações. O melhor momento para melhorar é sempre AGORA.
  • Desative o ego. Não acredite que você é infalível, pense, aja e fale com humildade.
    Não basta simplesmente “pensar antes de agir”. Temos que aprender a sentir, a escutar com calma as nossas emoções e sentimentos.
  • Seja intuitivo na hora de perceber seus próprios preconceitos. Todos acumulamos pensamentos irracionais que devemos demonstrar e racionalizar.
  • Conecte seu interior com o exterior para que a decisão que você tomar, mesmo que arriscada, esteja em sintonia com sua personalidade e necessidades.

Lembre-se de que não existem decisões melhores ou piores. Trata-se apenas de agir de acordo com os nossos valores, as nossas raízes. Algo que só iremos conseguir se soubermos escutar a nós mesmos, amar-nos e respeitar-nos um pouco mais.

Como morre o amor

Como morre o amor

A morte do amor nunca é súbita
Ela é lenta e dolorosa
Suave e, ao mesmo tempo, cruel
Começa num dia qualquer, nem se percebe direito
E, recebendo continuamente brandas – ou intensas – doses de antídoto,
Ele vai se esvaindo por entre as distrações do dia a dia…

Pode começar quando se pensa que ele está consolidado
Foi conquistado e pronto, o trabalho acabou
Quando se começa a imaginar que, enfim, se pode dar atenção apenas a outros (tantos) aspectos da vida
E deixa-se de alimentar suficientemente o sentimento
Tanto o seu pelo outro, quanto o dele por si…

Também induz à morte do amor o “acostumamento”
Acostuma-se com a presença do outro
E passa-se a entender que não há descobertas e serem feitas, qualidades – e defeitos – a desvendar, um mistério a se decifrar
Ocorre que todos sempre são incógnitas – inclusive para si próprios -, uma vez que seres em constante transformação…

Continua-se extinguindo o amor quando se deixa de olhar para as necessidades do outro
Quando apenas as suas próprias vontades é que têm relevância
Quando não se compreende que ele é um ser completamente distinto de si, e as todas as suas peculiaridades, desejos e trejeitos precisam ser conhecidos e considerados.

Também é fulminante para o amor ser esquecido no meio da rotina frenética em que se vive
Quando o trabalho, os filhos e as contas – talvez até a atual conjuntura política do país – são muito mais considerados que o relacionamento em si
Quando aquele olhar profundo dentro do olho do outro e aquele sorriso cúmplice não acontecem mais
Quando se perde a polidez das palavras direcionadas

Quando estar mal humorado ou totalmente desajeitado não são mais motivo de atenção
Quando se perde a última gota daquela inocência juvenil, que acreditava que “amar e ser amado” era a coisa mais fantástica do mundo…
Quando o “eu te amo” começa a vir sozinho e completamente mecanizado
Desacompanhado de sentimentalismo e intenção
E, até mesmo, de “provas” que o reafirmem…

Quando não se investe para que o encontro íntimo seja original, verdadeiramente desejado e gratificante
Quando não mais se intenciona, com o cruzamento dos corpos, a fusão das almas
Quando vira apenas um modo de descarregar tensões, um ato de prazer egoístico
Ou o simples cumprimento de uma “obrigação”…

O amor se perde também nos afagos poupados
Nos agrados que se extinguiram
No olhar perdido que traduz distância
E no silêncio que começa a incomodar…

Mas a maior incidência da morte do amor ocorre na indiferença
Quando começa a predominar o “tanto faz”, o “tudo bem, depois dou um jeito”, ou o “não é tão importante assim”
Quando se deixa cegar pelo cotidiano
Quando tudo, ou qualquer outra coisa, tem sobre ele prioridade
Quando se deixa-o para o fim da lista de afazeres
Quando se permite que a preguiça e a comodidade prevaleçam
Quando se autoriza que o cansaço vença qualquer possibilidade de dedicação…

Quando não mais importa se o outro está desejando outras pessoas
Ou se é efetivamente desejado por alguém
Quando se aceita que não esteja presente em algum acontecimento importante
Quando não se compartilham mais os sonhos, as visões de mundo e os desejos para o futuro
E quando se torna irrelevante que ele também cresça, se expanda e evolua com a vida…

Contudo, enquanto houver uma gota de amor, ele ainda pode ser ressuscitado
Se restar uma brasa que seja, o fogo pode ser reacendido
Basta um dos dois se dar conta a tempo, levar o amor para a emergência e tratá-lo
Enquanto ainda houver um suspiro de vida nele, é possível sim…

Todavia, quando a vontade minguar e descaso prevalecer mesmo diante da agoniação
A morte – implacável e irreversível – vencerá a batalha e deixará como herança apenas a dor e o arrependimento por não se ter tentado salvá-lo enquanto ainda era tempo.

O mal de muita gente é pensar que é insubstituível

O mal de muita gente é pensar que é insubstituível

Lógico que ninguém é igual a você. Lógico que você é único e especial. Porém, sempre existirá quem possa ocupar o seu lugar.

Precisamos ter autoestima elevada, para que possamos nos dar o devido valor e para que os outros nos enxerguem em tudo o que somos e podemos oferecer, bem como em tudo o que de fato merecemos. No entanto, algumas pessoas simplesmente extrapolam o conceito que possuem de si mesmas, achando-se muito mais do que são, querendo receber além do que oferecem, sentindo-se imprescindíveis, alguém cuja ausência seria insuportável. Ledo engano.

Embora sejamos únicos e especiais, ainda que ninguém possa vir a ser igual a nós, sempre haverá quem possa ocupar o nosso lugar em todos os setores da vida, no emprego, nos círculos sociais, ou até mesmo no coração de alguém. O mundo continua a girar, com ou sem a gente, exatamente porque a vida tem que continuar, as pessoas têm de seguir, tudo deve tomar os rumos adiante, estejamos ou não presentes. Possivelmente, muito não será como antes, mas será.

Por essa razão é que não existe propósito no comportamento de muitos por aí que se preocupam excessivamente com a aparência física, com a aquisição de bens materiais, com a obtenção de destaque social. Prendem-se tão somente à estética e ao materialismo, juntando dinheiro de forma usurária, negando-se a compartilhar conhecimento, tornando-se seres mesquinhos e fechados. Muitos deles acabam morrendo e levando junto muita coisa que poderia ter sido desfrutada em vida.

Da mesma forma, existem aqueles que não se permitem dividir ninguém com o mundo, como nos casos de ciúmes extremos, clausura forçada aos filhos, sentimento de posse em relação aos amigos. Não interagem com ninguém mais do que com a família e os poucos e seletos amigos, inclusive cerceando os passos de todos eles, querendo que se confinem ao seu mundinho, como se sua companhia já bastasse a todos. Não percebem que aqueles que sobreviverem a eles certamente buscarão novas amizades, novos companheiros, novas pessoas, enfim.

Não existe vazio que não possa ser preenchido, não existe coração que não possa ser revivido, ninguém mantém buracos abertos por muito tempo sem se sentir incomodado. Faz parte do movimento da vida ressignificar-se, retomar os passos, preenchendo-se os recantos em que há ausências, reerguendo-se dos abismos à procura de mãos que puxem de volta ao caminho da vida. Bobo de quem se acha a última bolacha do pacote, pois elas costumam quebrar ou murchar. É isso.

Será mesmo que o amor sumiu das grandes cidades?

Será mesmo que o amor sumiu das grandes cidades?

Sim, existe amor em SP! E em Paris, Piracicaba, Minas Gerais, Madri, Cruz das Almas. O amor não deu no pé. O que eclipsa sua presença são as expectativas, as convenções sociais, a necessidade de uma bússola ou de uma tábua de salvação.

O amor pode sobreviver ao mau humor matinal, à depilação por fazer, ao futebol de domingo, às cutucadas suspeitas no Facebook. Mas nenhum amor sobrevive ao peso da obrigação de ter que dar sentido à vida de alguém.

Porém o destino é um menino travesso que teima em nos enviar um par justamente quando estamos ao avesso.

Como ser par sem antes ter conseguido ser ímpar? Ignoramos esta pergunta. Quem precisa ser ímpar quando se pode ser par?

Afinal o amor dá jeito nas coisas, não dá? Não foi isso o que nos ensinaram? Que o amor supera tudo?! E se o amor supera tudo, claro que vai nos desvirar do avesso, nos botar no prumo e nos fazer sentir conforto em nossa própria pele. É questão de tempo.

O tempo! Ah, o tempo! Pobre rapaz… O tempo se zanga com a troça do destino e, para provar que nada tem a ver com isso, corta o mal pela raiz: provoca a ruptura.

Daí por diante começa o desatino: lágrimas, injúrias, fúria, raiva, melancolia, sentimento de menos valia, solidão.

De quem foi a culpa, afinal? Alguém precisa levar a culpa!

Sobra para quem? Para o amor. É tudo culpa do amor! Esse monstro que por puro egoísmo fugiu das grandes cidades e deixou as metades das laranjas partidas desencontradas e perdidas.

Coitado do amor! Ele tem implorado por atenção, mas ninguém o ouve. Quem consegue ouvir os apelos do amor estando anestesiado de medo? Amor, que amor? Estamos mais ocupados em saber se é por aqui que se vai para lá. Estamos mais preocupados em saber se seremos aceitos, bem sucedidos e bonitos na foto do que qualquer outra coisa.

Não conseguimos nos amar, nos aceitar, nos admirar, nos respeitar. Como é que conseguiremos amar, aceitar, admirar e respeitar o outro?

Se acaso precisamos que um amor ratifique que somos bons, capazes, especiais e únicos, ele simplesmente morre. O amor não tolera esse tipo de exigência. O amor não tolera expectativas desleais.

Nada nem ninguém, nem mesmo o amor, o sentimento mais poderoso e cobiçado da face da terra, poderá nos oferecer identidade, segurança e conforto. E nosso desconforto anda tão grande, tão imenso, que para não olharmos para os nossos abismos dizemos que “não existe amor em SP” ou em parte alguma. Pior, dizemos que os amores se tornaram líquidos – como se algum dia ele tivesse sido outra coisa que não fluidez.

Bobagem! Nós é que precisamos nos desfazer de certas bagagens inúteis e de um bocado de coragem para convidar um velho amigo para uma xícara de chá: o amor-próprio.

O amor não fugiu das grandes cidades. Ele não foi a lugar algum. Ele continua onde sempre esteve.  É que ele só visita quem convida seu irmão gêmeo para uma xícara de chá.

FALANDO NISSO

Escrevi o texto acima após assistir ao filme Amores Urbanos, de Vera Egito. O filme narra as desventuras amorosas e conflitos existências de três amigos de trinta e poucos anos na cidade de São Paulo. Vale a pena conferir.

Mudar é doer

Mudar é doer

Decisões importantes e grandes mudanças, aquelas que nos chutam para fora da zona de conforto e nos impulsionam em direção à vida plena que desejamos e merecemos, vêm, quase sempre, acompanhadas de dor.

Quando dobramos os joelhos pedindo aos céus que mexa com nossa estrutura, imaginamos que um poder superior vá chegar consertando as coisas quebradas e fechando feridas. Mas se você parar para pensar, quase toda grande mudança, aquela boa, vem acompanhada do oposto.

Sim, grandes mudanças abrem feridas e colocam tudo de pernas para o ar, promovendo, num primeiro momento, caos, desconforto e insegurança. Grandes mudanças vão abrir sua conchinha à força, arrancá-lo daquele espaço conhecido, onde vivia encolhido sem nunca notar o incômodo de não poder esticar as pernas e vão arremessá-lo na grandeza e frescor do mar da vida. E lá, naquele mar medonho e lindo, quantas serão as possibilidades…

Não, não há como evitar a dor. Quando se dá a luz a uma pessoa, antes de ver uma vida se materializar diante de si, sente-se dor. Quando se deseja um corpo sarado, encara-se a dor da acadêmia. Quando se deseja dinheiro, enfrenta-se a dor do trabalho duro ou o perigo de tirá-lo de alguém. Quando se deseja cessar um ciclo de abuso em casa, no trabalho ou na vida, encara-se a dor da ruptura e da incerteza.

Mudar é doer, mas encarar essa dor é ter a oportunidade de sorrir diante do resultado.

No primeiro momento, sente-se na boca aquele amargo-doce, aquela borboleta no estômago e a clara sensação de que parece que o mundo vai desabar sobre sua cabeça, lhe ordenam que faça o caminho de volta ao intolerável. Mas se tiver coragem de enfrentar esse estado de coisas; de dor insuportável, mas necessária, verá o incrível milagre da vida acontecer diante dos seus olhos. O milagre que você é e não sabia.

Toma, o amor é seu

Toma, o amor é seu

Não posso pegar na mão um coração machucado pelo meu não.

Toma, ele é todo seu, não fui eu quem inventou, quem bombeou, quem insistiu em sentir.

Não sou eu que vou te curar com a minha não vontade de amar, a compaixão que eu poderia ter só te faria ainda mais sofrer.

É seu esse coração machucado, esse amor órfão, solto, belo… É todo seu.

Aqui em mim ele é um assunto que não me toca os olhos, é um filme que não me interessa, é um livro que não me despertou os sentidos, eu nem abri, é uma estrela que não acendeu no meu céu.

Eu não quero receber, como poderia tratar, cuidar, ajudar? Eu, que se escrevo estas palavras, gastando linhas explicando o inexplicável. Dando atenção para alguém que quer toda a atenção do mundo.

Culpar o ser amado, encontrar uma razão para odiar, me fazer falar qualquer coisa para me incriminar nesse ato que não quero participar.

Aceite que em mim mora a indiferença, aceite que o que é enorme em você em mim não faz cócegas, aceite que eu não vou segurar com cuidado o seu coração, acalmá-lo e devolvê-lo renovado, embrulhada para presente. Eu lavo minhas mãos, não faço o bem nem o mal.

Eu sei sim o que é se sentir assim, mas vai por mim: você ficou na mão com seu coração.

Se deixá-lo aqui, ele vai ficar perdido em alguma das gavetas que eu não abro. Eu não criei nada, seu coração viu em mim estradas (que são belezas suas!) e o amor nasceu por partenogênese.

Não se desespere também, não precisa matar nada, ame o vento, o ar, a árvore, ame a vida!

Gaste seu amor, se apaixone pela própria beleza das ilusões erva daninhas, insistentes em crescer bonitas nos cantos mais absurdos. Deixe que cresça em você uma trepadeira, primavere-se desse amor.

É pra isso que ele veio acima de tudo, eu sou só o pretexto.

Toma, o amor é seu

Algumas despedidas devastam a gente

Algumas despedidas devastam a gente

Despedir-me de minha mãe foi a mais dura lição que a vida me deu até hoje. Ninguém está preparado para a morte, para viver de repente sem a presença de alguém que tanto amamos. Seja aos poucos, seja repentinamente, o adeus com gosto de demora sem fim antecipa toda a dor que esse enfrentamento carrega e nos coloca diante do imutável, do indelével, do que não se pode mais mudar. E como dói.

Minha mãe foi minha maior e mais bela referência de vida, de mundo, de ternura. Minhas primeiras lembranças já são comigo amando-a sem medida e foi assim até o dia em que ela partiu – é assim até hoje, aliás. Ela foi minha procura nas noites de pesadelo, meu consolo nos momentos de desespero, meu conforto sempre que a vida dizia não. Foi meu norte, meu sul, meu leste-oeste, lá fora e dentro de mim.

Eu adorava repousar minha cabeça em seu colo, em frente à TV, enquanto ela me contava dos atores de sua época. Eu ficava ao lado do fogão, enquanto ela cozinhava, ouvindo-a contar sobre os enredos dos romances que tinha lido, sobre as pessoas que tinha conhecido, sobre sua infância, seu namoro com meu pai, seu amor pelo meu avô. Ela amava a família, amava as festas, amava viver. Herdei dela – e por ela – meu gosto por filmes e livros, meus anos aprendendo piano, minha teimosia em sorrir, apesar de tudo e de todos.

Minha vida é rodeada por minha mãe, tudo a tem, seu cheiro, os sabores de seus cafés da tarde, as cores do Natal, a missa, o carnaval. Ela era minha mais fervorosa fã, acreditava em mim, torcia verdadeiramente por mim. E eu consegui voltar de meus descaminhos porque não me permitia magoá-la. Fazia por mim e por ela, éramos eu e ela sempre. Ah, e como aquela mulher também sabia ser ácida, com palavras que doíam fundo, quando necessário, porém, tudo era amor e saber isso me bastava.

Deixá-la ir foi a mais dolorida atitude que pude tomar. Nos seus últimos momentos de consciência, antes que a morfina lhe roubasse a lucidez, passei a noite junto com ela. Naquela madrugada sem fim, no hospital, ela apontava suas bochechas pálidas, pedindo-me que a beijasse várias vezes. Ela queria me dizer, com esse gesto, que me amava, que eu deveria ser forte, que eu nunca a decepcionara, que eu era e sempre tinha sido um filho querido. Ela se eternizava dentro de mim desde sempre e foi indo, enquanto eu abraçava aquela fortaleza que me sustentara até então, dizendo-lhe que ela já poderia descansar, que ela já tinha resistido muito além de suas forças, que criara seis filhos de forma exemplar, doando-se além de si mesma.

Creio que nenhum adeus é tranquilo, indolor, mesmo quando nos despedimos do que nem tanto bem nos faz. A saudade é muito peculiar, porque ela já se instala assim que o outro se vai, nem dá tempo de a gente pensar sobre a ausência – vem automaticamente. E a gente continua, porque é isso que quem partiu espera de nós, que prossigamos a nossa jornada sendo quem somos, junto a quem ainda caminha conosco, amando-nos e precisando de nós.

E, como a gente nunca sabe quando será a última vez, ainda que não tenhamos tempo de nos despedir de quem parte – algumas partidas são ainda mais injustas, visto que repentinas -, a força do amor faz com que somente fique tudo de bom em quem vai e em quem fica. O adeus está presente nos momentos mais especiais que passamos junto com as pessoas, vai sendo construído na forma do afeto que se vale dos gestos, olhares, palavras, no cotidiano do amor. E é o amor que se leva. E é o amor que nos mantém vivos na certeza do reencontro, na fé que sustenta essa distância forçada que a vida nos empurra.

Viver sem a presença de alguém que amamos é possível, sim, mas parece que nada mais fica igual, nada permanece o mesmo, lá fora e aqui dentro. O tempo diminui aos poucos a dor e a gente se reergue, mas fica lá no fundo da alma um pedacinho em aberto, um espaço vazio, porque as pessoas morrem, mas a saudade não. E as lembranças gostosas acalentam os nossos dias, consolam quando a tristeza quer crescer, ajudam quando a vida derruba, acalmam quando o sol se vai. Porque perder minha mãe sobretudo me tornou ainda mais convicto de que a força do amor é mais forte do que tudo, até mesmo do que a dor da morte. E, parafraseando Chico Xavier, não duvidemos: o reencontro com nossos amados arrebentará as portas do céu.

Não me leve a mal, mas eu preciso dizer o quanto você me faz bem.

Não me leve a mal, mas eu preciso dizer o quanto você me faz bem.

Eu sei. Há coisas mais profundas por discutir. Questões de primeira ordem, perguntas importantes, assuntos urgentes. Mas lá fora um ventinho manso me convida a olhar o céu e procurar você entre as Três Marias. Aí é covardia. Eu já escolhi.

Essa gente toda entrando em detalhes só me dá vontade de sair com você por aí. Deus me livre de precisar defender a teoria geral das coisas, pregar verdades definitivas, postular perfeição. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

Que nos perdoem a crise, o dólar, a política, o êxodo rural, o caos nas cidades. Urgente agora é pegar sua mão e dar no pé. Bater perna, cair no mundo. Tem coisa que a gente precisa fazer agora. Antes que o meteoro venha, que o segundo passe, que o mundo acabe.

Olha só a cara desse povo, tão preocupado em durar para sempre, tão incapaz de ocupar seu instante. Aí vem o segundo seguinte, leva tudo e lá se foi a vida inteira. Eu, hein! Quero mais é nadar com você nessa água toda. A gente nunca sabe. Melhor viver logo e depois se vê o que faz.

Faz um segundo que você chegou e eu já conheço seu rosto há tanto tempo! Pareço com você. Vai explicar… não liga, não. Eu só preciso repetir o quanto você me faz feliz.

Tem coisa que a gente já nasce sabendo. Já vem ao mundo fazendo. Ninguém ensina. Lá pelas tantas esquece e só vai lembrar mais tarde. Estou me dando conta do que você me lembrou agorinha: que o amor já nasceu comigo. Estava aqui desde o seio materno, transpirando ternura por minha mãe. Hoje transpiro amor pelas palmas da mão, caminhando ao seu lado por aí.

Ando achando que o amor não chega para ninguém. Ele já está em todo mundo. Sempre esteve. Esquecido no fundo de uma gaveta, perdido no vão do sofá entre botões e moedas, guardado com velhos papéis em um envelope puído, dormindo em cavernas como um urso imenso, solitário, o amor está lá. À espera.

Então acontece de alguém chegar, alguém partir, e o amor desperta na gente. Em mim, acordou faminto como quem dormiu a vida inteira. Levantou, lavou-se com tempo, assaltou a geladeira, escovou os dentes e ganhou a rua.

Um ventinho manso o convidou a olhar o céu. E bem ali ele viu você, papeando com as Três Marias, sorrindo, sorrindo. Você não me leve a mal. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

Quando não é recíproco, não vale o esforço

Quando não é recíproco, não vale o esforço

A não ser que você seja um grande fã de Platão e das obras de Shakespeare, as paixões platônicas não são uma boa opção de relacionamentos. Elas fogem da normalidade, machucam e tiram a paz de quem as sentem.

O conselho é clichê, mas é uma das maiores verdades que há: não existe amor sem reciprocidade. Você pode ler todos os artigos sobre “como conquistar alguém”, pode ser a pessoa mais encantadora do mundo e pode ter viajado o mundo todo, mas não serão essas as atitudes que farão alguém gostar de você. E o motivo é simples: as pessoas são livres para amarem quem quiserem.

Por comodismo ou medo, as pessoas permanecem em relacionamentos frios e predestinados a fracassar. Insistem até o último momento porque o rótulo de “relacionamento sério” é o que mais importa. A sociedade está acostumada a um amor de novelas, aos turbilhões de sentimentos e ao frio na barriga na escala fahrenheit. Dão mais valor ao “eu te amo” do que as atitudes que comprovem a frase.

A verdade é que as pessoas deixam se iludir por situações conveniente a elas. Acreditam no “não ligou porque perdeu meu telefone” ou “é só medo de se entregar”, porque acreditam ser menos doloroso do que enfrentar a realidade.

Algumas pessoas, simplesmente, não valem o esforço. Não valem as noites mal dormidas, os encontros cancelados, nem as indiretas no facebook. Quando há interesse é quase automático o ato de “fazer acontecer”. Quem quer, dá um jeito de ter. Quem se importa, volta para se desculpar. Quem ama demonstra.

Então, meça suas ações e verifique se a oferta não está maior que a procura. Não insista quando perceber que você não é prioridade, nem arrume desculpas para o desinteresse alheio. Há pessoas que simplesmente não valem a música que você dedicou a ela.

Dias atrás li um texto do Carpinejar que me fez refletir sobre isso: “A indiferença é uma doença muito mais grave. Alguém que não está aí para o que faz ou não faz, para onde vai e quando volta. De solidão, chega a do ventre que durou nove meses.”

Seja recíproco: dê o que você espera receber do outro, mas não insista no que não é dado de forma espontânea. Algumas coisas não valem o esforço que fazemos.

Loucos somos nós !

Loucos somos nós !

“Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na sua loucura, acabará sábio.”
(Raul Seixas)

Quem já não ouviu a expressão “loucos não são eles, somos nós”, se referindo às pessoas que se encontravam nos (hoje extintos) manicômios, fazendo alusão ao fato de que qualquer pessoa “certa das ideias” não acharia normal viver na sociedade tal como ela se apresenta.

Referia-se que, em uma sociedade doente, permeada por desajustes de toda sorte, com injustiças para todos os lados, corrupção escancarada, falta do mínimo necessário à grande parte da população e escassez de controle emocional, os seres humanos não conseguiriam passar ilesos.

Seriam, de alguma forma, atingidos pelo descompasso generalizado e ficariam desajustados em algum grau. Concluía-se, então, que quem vivesse plenamente bem nesse mundo torto, não estava em seu juízo perfeito.

Na minha opinião, esse raciocínio tem um pouco de sentido.
Vejamos: muitos de nós vivem correndo atrás do tempo, sempre tendo mil coisas pendentes, não dando conta de todas as obrigações que acredita ter, sem tirar muito tempo para se preocupar com cuidar da sua saúde psíquica e emocional, reclamando, sem buscar crescimento (não estou falando em material/financeiro), não se indignando com a inflação, as propinas envolvendo os nossos representantes e a corrupção nos mais diversos escalões, compartilhando o consumismo desenfreado e insaciável, convivendo ao lado de crianças com fome de comida e de amor, com animais carentes de cuidados mínimos, com pessoas sem-teto e sem esperanças, enfim. E o pior: ACHANDO ISSO TUDO NORMAL.

Temos que estar um pouco loucos, não é possível!
Se pararmos para analisar, talvez veremos que nunca nos demos ao trabalho de questionar se todas essas atividades “pendentes” na nossa vida são realmente necessárias, a ponto de nos angustiar. Se as milhares de tarefas do nosso dia – que necessitaria ter muito mais de 24 horas – tem alguma utilidade efetiva. Por que razão reclamos tanto (do tempo feio, da vizinha barulhenta, do trabalho desmotivador, do filho complicado, da falta de perspectiva) se a reclamação – por si só – não altera nada, e pouco nos atemos a falar sobre coisas bacanas.

O que foi que incutiram na nossa mente sem percebermos que nos fez começar a pensar que roubalheira e politicagem são inerentes, que tudo bem a inflação estar só subindo, que “faz parte” do sistema a propina e que as leis – notadamente a Constituição Federal – existem para serem cumpridas apenas no mundo das ideias? Em que momento da escala evolutiva da humanidade se passou a entender que o certo é não nos afetarmos com os problemas alheios (inclusive os mais graves, aqueles que colocam em risco a saúde, a dignidade e o futuro dos nossos semelhantes)?

Aonde foi, pois, que perdemos parte da nossa razão? Por onde anda nossa sensibilidade?

É claro que resiliência, tolerância e compreensão grandes virtudes. Todavia, elas não podem ser deturpadas. Definitivamente, elas não devem traduzir conformismo, indiferença, mecanicidade, desencanto, desistência. Tudo tem um limite. Talvez não estejamos sendo razoáveis. Talvez não estejamos sendo humanos.

Quando foi a última vez que nos emocionamos com uma história inspiradora, que nos tocamos com uma música cheia de sentido, que nos extasiamos com um exemplo de superação, que nos deixamos deslumbrar por um final feliz de um desconhecido, que ficamos encantados com uma cena de amor, que tivemos esperança em um futuro melhor para a humanidade?

Quando foi a última vez que paramos para pensar na nossa saúde emocional, no nosso equilíbrio psíquico, na nossa evolução como pessoa, em “coisas da alma”? Com que frequência procuramos a leveza, não levamos a vida tão a sério, tentamos focar na alegria ou buscamos ser inspiração?

Afinal, ainda nos importamos em melhorar o mundo de alguma forma (nem que seja o nosso próprio mundinho interior)? Nos sentimos parte de uma grande família – a raça humana – na qual, como em todas as famílias, deve haver cooperação? Temos consciência do real potencial que possuímos, em todos os sentidos (de abrir a mente e o coração, dar uma “puxada no freio de mão” da rotina frenética, fazer a diferença de alguma forma)?

Passamos o tempo inteiro correndo atrás (do quê mesmo?), muitas vezes sem nem saber aonde queremos chegar. Andamos esgotados, e temos a impressão de que fazemos muito pouco do que gostaríamos. Nos acomodamos, muitas vezes, numa vida medíocre, sem grandes pretensões, sem muito entusiasmo, com muito cansaço.

Não podemos desistir do essencial. Não podemos viver num mundo à parte. Não podemos não nos importar. Não podemos, definitivamente, desencantar. Isso, sim, seria loucura…

Ninguém é obrigado a ficar

Ninguém é obrigado a ficar

Precisamos entender que os relacionamentos não podem ser encarados como prisões. Não existe isso de quem gosta ou ama de verdade, precisa, independentemente de qualquer coisa, ficar. O amor não é um contrato e somos os que mais sofremos quando encaramos essas expectativas e colocamos a culpa no outro.

As relações hoje são, de fato, muito mais abrangentes e tomadas por escolhas a todo o momento. Faz parte do mundo líquido descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman, onde sob o manto da liberdade, dispomos de um poder de escolha perante quem nos relacionamos. Mas ainda que isso desperte descontentamentos e poucos laços afetivos, por outro lado, devemos reconhecer que de nada adianta nutrir um elo com alguém que não quer ficar. Querer isso é um egoísmo sem sentido e, para quem imagina ser uma legitimação do amor, uma pergunta: quantas vezes você não foi partida logo depois da chegada? Será mesmo justo mensurar a validade dos amores pela perspectiva individual?

Não há nada mais recíproco do que um amor que goste de ficar. E por mais que saibamos de relações pautadas em medos e condições abusivas, criar um juízo de valor a partir disso pode soar complexo. Mas isso é uma outra discussão, para um outro texto. Aqui, linhas sobre essas pontes emocionais criadas, com o intuito de aproximação, mas que acabam afastando o outro. Tudo é uma escolha. Muitas vezes, uma escolha de amor-próprio. É diferente do egoísmo barato e raso. Porque, para saber reconhecer o outro, faz-se necessário atribuir a si uma responsabilidade igualmente proporcional dos relacionamentos.

A questão é, mesmo envoltos nessa chama desejosa de amores por todos os lados, estamos perdendo a capacidade de amar e, de compreender a serenidade que isso acarreta. Sentimentos sempre podem ser passíveis de interpretações, mas a vontade de estar com alguém é nua. Ela não precisa de endereço, mas voz. Ninguém é obrigado a ficar e ninguém é obrigado a chegar. Por um amar mais consciente e tranquilo, e menos autoritário e prepotente.

Covarde é quem usa o poder para diminuir o outro

Covarde é quem usa o poder para diminuir o outro

Patroas que destratam faxineiras, chefes que gritam com os subordinados, políticos que desrespeitam o cidadão comum, são inúmeros os exemplos de pessoas que se sentem acima do bem e do mal simplesmente porque subiram um mísero degrau social.

Todos conhecemos alguém que vive humilhando quem se encontra ao redor, especialmente quem se encontra em uma posição inferior, seja no trabalho, em casa, na escola, seja na rua. São pessoas que confundem hierarquia com autoritarismo, autoridade com subserviência, geralmente dando a si mesmo um importância muito maior do que a verdadeira.

Patroas que destratam faxineiras, chefes que gritam com os subordinados, políticos que desrespeitam o cidadão comum, são inúmeros os exemplos de pessoas que se sentem acima do bem e do mal simplesmente porque subiram um mísero degrau social. E, assim, usam do que acreditam ser um poder, para maltratar quem comandam e tiranizar o ambiente no qual se sentem o cabeça.

Na verdade, a hierarquia deve servir para que haja uma liderança, que comanda, ordena, distribui tarefas, no sentido de que o líder seja alguém respeitado pelas suas qualidades profissionais e humanas, alguém que caminha junto, pois faz parte do corpo coletivo. Infelizmente, há quem use a liderança como instrumento de autoridade tirana e antidemocrática, pisando aqueles que julga inferiores.

Nesse contexto, muitos de nós nos sentiremos rebaixados, humilhados e feridos por nossos superiores, em vários momentos de nossas vidas, porque sempre existirão pessoas covardes que, além de abusar do poder que tomam para si, descontam sua raiva justamente em quem não tem nada a ver com ela. Covardes, porque, em vez de enfrentarem a pessoa que lhes desagrada, engolem sapos e vêm estourar para cima de quem depende daquele emprego para sobreviver, de quem, muitas vezes, não teria como se defender.

Uma das regras básicas de convivência é o respeito com quem quer que seja, qualquer que seja sua posição, mesmo que o outro pense de forma diversa, ainda que a presença alheia seja insuportável. Todos temos a capacidade de nos posicionarmos e de nos fazermos respeitar, sem que precisemos humilhar e espalhar o temor ao nosso redor. Respeito é algo que se constrói ao longo da convivência, a partir da confiança mútua e não da tirania unilateral. A tirania é um ato covarde, simplesmente porque passa por cima de qualquer resquício de afetividade que sempre deverá permear os relacionamentos humanos. Sempre.

INDICADOS