Ninguém é obrigado a ficar

Guilherme Moreira Jr.

Precisamos entender que os relacionamentos não podem ser encarados como prisões. Não existe isso de quem gosta ou ama de verdade, precisa, independentemente de qualquer coisa, ficar. O amor não é um contrato e somos os que mais sofremos quando encaramos essas expectativas e colocamos a culpa no outro.

As relações hoje são, de fato, muito mais abrangentes e tomadas por escolhas a todo o momento. Faz parte do mundo líquido descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman, onde sob o manto da liberdade, dispomos de um poder de escolha perante quem nos relacionamos. Mas ainda que isso desperte descontentamentos e poucos laços afetivos, por outro lado, devemos reconhecer que de nada adianta nutrir um elo com alguém que não quer ficar. Querer isso é um egoísmo sem sentido e, para quem imagina ser uma legitimação do amor, uma pergunta: quantas vezes você não foi partida logo depois da chegada? Será mesmo justo mensurar a validade dos amores pela perspectiva individual?

Não há nada mais recíproco do que um amor que goste de ficar. E por mais que saibamos de relações pautadas em medos e condições abusivas, criar um juízo de valor a partir disso pode soar complexo. Mas isso é uma outra discussão, para um outro texto. Aqui, linhas sobre essas pontes emocionais criadas, com o intuito de aproximação, mas que acabam afastando o outro. Tudo é uma escolha. Muitas vezes, uma escolha de amor-próprio. É diferente do egoísmo barato e raso. Porque, para saber reconhecer o outro, faz-se necessário atribuir a si uma responsabilidade igualmente proporcional dos relacionamentos.

A questão é, mesmo envoltos nessa chama desejosa de amores por todos os lados, estamos perdendo a capacidade de amar e, de compreender a serenidade que isso acarreta. Sentimentos sempre podem ser passíveis de interpretações, mas a vontade de estar com alguém é nua. Ela não precisa de endereço, mas voz. Ninguém é obrigado a ficar e ninguém é obrigado a chegar. Por um amar mais consciente e tranquilo, e menos autoritário e prepotente.

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Guilherme Moreira Jr.
"Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro"