Não me leve a mal, mas eu preciso dizer o quanto você me faz bem.

André J. Gomes

Eu sei. Há coisas mais profundas por discutir. Questões de primeira ordem, perguntas importantes, assuntos urgentes. Mas lá fora um ventinho manso me convida a olhar o céu e procurar você entre as Três Marias. Aí é covardia. Eu já escolhi.

Essa gente toda entrando em detalhes só me dá vontade de sair com você por aí. Deus me livre de precisar defender a teoria geral das coisas, pregar verdades definitivas, postular perfeição. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

Que nos perdoem a crise, o dólar, a política, o êxodo rural, o caos nas cidades. Urgente agora é pegar sua mão e dar no pé. Bater perna, cair no mundo. Tem coisa que a gente precisa fazer agora. Antes que o meteoro venha, que o segundo passe, que o mundo acabe.

Olha só a cara desse povo, tão preocupado em durar para sempre, tão incapaz de ocupar seu instante. Aí vem o segundo seguinte, leva tudo e lá se foi a vida inteira. Eu, hein! Quero mais é nadar com você nessa água toda. A gente nunca sabe. Melhor viver logo e depois se vê o que faz.

Faz um segundo que você chegou e eu já conheço seu rosto há tanto tempo! Pareço com você. Vai explicar… não liga, não. Eu só preciso repetir o quanto você me faz feliz.

Tem coisa que a gente já nasce sabendo. Já vem ao mundo fazendo. Ninguém ensina. Lá pelas tantas esquece e só vai lembrar mais tarde. Estou me dando conta do que você me lembrou agorinha: que o amor já nasceu comigo. Estava aqui desde o seio materno, transpirando ternura por minha mãe. Hoje transpiro amor pelas palmas da mão, caminhando ao seu lado por aí.

Ando achando que o amor não chega para ninguém. Ele já está em todo mundo. Sempre esteve. Esquecido no fundo de uma gaveta, perdido no vão do sofá entre botões e moedas, guardado com velhos papéis em um envelope puído, dormindo em cavernas como um urso imenso, solitário, o amor está lá. À espera.

Então acontece de alguém chegar, alguém partir, e o amor desperta na gente. Em mim, acordou faminto como quem dormiu a vida inteira. Levantou, lavou-se com tempo, assaltou a geladeira, escovou os dentes e ganhou a rua.

Um ventinho manso o convidou a olhar o céu. E bem ali ele viu você, papeando com as Três Marias, sorrindo, sorrindo. Você não me leve a mal. Eu só preciso dizer o quanto você me faz feliz.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.