Como deve ser o amor?

Como deve ser o amor?

O amor há que ser forte o bastante pra resistir aos revezes do tempo.
O amor há que ser doce o bastante pra diluir os amargos da vida.
O amor há que ser grande o bastante pra que caiba nele todos os abracos apertados, os beijos dados e roubados e os olhares apaixonados.
O amor há que ser barulhento o bastante pra que todos saibam que ele existe e que se tem orgulho de se amar assim.
O amor há que ser corajoso o bastante pra enfrentar os dias mais nublados em que tudo fica meio cinza.
O amor há que ser empatico o bastante pra que se possa se colocar no lugar do outro, sem ter medo de se perder, mas sabendo que é la o melhor lugar pra estar.
O amor há que ser resistente o bastante pra suportar as adversidades que o atravessam e, ainda assim, acreditar que vale a pena.
O amor nao há que ser para sempre, visto que mesmo tudo o que é para sempre, sempre tem um fim, mas ha que permanencer vivo e intenso, dure ele uma vida toda ou apenas pouco tempo.
O amor há que ser inconfundivel o bastante, pra que ao se deparar com ele, voce nao tenha duvidas e prontamente o reconheca, como a velha e boa sensacao de deja vu, como aquele sentimento de ja ter estado ali.
O amor há que ser grato o bastante, nao pra que vc agradeca a alguem por te amar, mas para que seja grato simplesmente por sentir.

Sinta-se a vontade pra continuar…

Imagem de capa: Kiselev Andrey Valerevich/shutterstock

E quando você estiver desistindo do amor, vai vir alguém e fazer você acreditar de novo.

E quando você estiver desistindo do amor, vai vir alguém e fazer você acreditar de novo.

Eu não estou falando de enganos. De mentiras e de falsas promessas. Estou falando de alguém que virá para te mostrar como é bom se sentir amada(o). Aquela sensação de alguém te querer por inteiro e achar linda a sua risada. Eu sei que você quase desistiu do amor e talvez tenha até desistido. Pode ser que você tenha se ferido muito e acreditado que o tal amor não é pra você. Mas quando estamos cansados de conhecer pessoas, famílias e de achar que “agora é pra valer” vem alguém e doma os nossos medos e nos faz acreditar que vale a pena tentar de novo, mesmo com medo, mesmo recuando e dando desculpas esse alguém sabe exatamente o que quer: você. E sabe? por querer tanto você esse alguém não  irá desistir no primeiro impasse, mas as dribla suas desculpas e faz de tudo pra ficar ao seu lado.

Quando menos se espera vem alguém e muda os nossos rumos, faz com que a gente queira sonhar novamente e nos mostra que a vida é muito mais do que amores frustrados. Alguém que faz você perder a noção de tempo, que faz a madrugada virar rotina de conversa e mesmo você sendo tão sonolenta nunca pega no sono quando o assunto é esse alguém. E mesmo depois de tanto choro e de tanta dor, mesmo você quase desistindo do amor esse alguém virá não com espinhos, mas com flor, pra te mostrar que a beleza dessa vida não faz sentido se não houver amor.  Esse alguém virá pra te mostrar que carinho é sempre bom e que você não merece nada menos do que alguém inteiro.

Você irá entender o porque de tantos erros e de tantos tombos nesse tal do amor. Porque quando você estiver desistindo virá alguém para abalar com toda a sua rigidez. Alguém que fará seu corpo balançar apenas com um toque. Quando menos se espera alguém aparece e nos mostra que nunca fomos amados da maneira que merecíamos.

Imagem de capa: IraBagmet/shutterstock

Demoramos muito para perceber a beleza de um amor maduro

Demoramos muito para perceber a beleza de um amor maduro

Quando somos mais jovens amamos sofrer. Amamos a angústia, a dor, os vai e vens da vida. É engraçado como nos deliciamos com essas histórias que parecem aquelas que vemos na TV. Não sei se é ingenuidade ou falta de vivência, mas a verdade é que demoramos para perceber a beleza de um amor sadio. A beleza da tranquilidade, do abraço sincero e da paz. De um relacionamento sem brigas, sem discussões desnecessárias e que faz a gente ter a certeza de que o outro sempre estará lá por nós. Uma certeza boa daquelas que faz a gente sentir que ganhou na loteria.

Demoramos muito para ver a beleza da transparência, da afinidade e de alguém que seja nosso porto seguro. Descarto assim os amores egoístas cheios de “eu” e pouco de “nós”. Amores rasos de pessoas vazias que tentam encher a si mesmos esvaziando ao outro. Isso dói, machuca. E a gente, por ingenuidade ou por falta de vivência, acaba aceitando doar mesmo sem receber. Acaba aceitando se esvaziar e permanecer na mornidão de um amor raso, imaturo.

É uma pena que levamos tanto tempo para assumirmos para nos mesmos que não aceitamos mais qualquer coisa. Qualquer abraço, qualquer beijo, qualquer afeto e qualquer relacionamento. É uma pena que tenhamos que nos ferir tanto, chegar ao nosso limite para contemplar e reconhecer a beleza de um amor maduro.

Depois de muito tempo entendemos que viver chorando não é sinônimo de amar demais. Que insistir em ficar quando o outro quer partir é um ato contra o nosso amor próprio. É uma pena ver que precisamos primeiro nos despedaçar para só então nos conhecermos de fato. Que precisamos aceitar tão pouco para vermos que aquilo não nos bastava. Depois de se achar problema, de tentar fazer dar certo inúmeras vezes, de insistir, de implorar para que o outro fique, a gente cansa. Desmorona. Mas se recompõe. E é ai que entendemos a beleza da parceria, da cumplicidade e do amor. Aquele amor bonito que a gente não sofre por amar. Aquele amor vivido e sentido a dois. Ah, como é bom transbordar. Como é saudável viver um amor sem medo, sem cobranças, sem jogos de desinteresse e sem insistência para o outro ficar. Como é bom ver o outro nos escolher todos os dias mesmo a gente não merecendo às vezes, como é bonito a serenidade de um amor tranquilo.

Demoramos muito tempo para reconhecer o que é amor. E pode ser que você lendo esse texto não tenha vivido o amor ainda. Sofre, chora, sente e insiste: é amor. E sabe, eu te entendo. Demoramos muito para reconhecer a beleza da paz. A beleza de um amor maduro e que não nos faça mal. Levamos muito tempo para distinguir amor de apego. Amor de comodismo. Levamos tempo para reconhecer que rotina não é relacionamento e que estar junto não é necessariamente se relacionar. Depois de um tempo entendemos a beleza dos filmes, das séries e dos jantares a dois. Entendemos que cumplicidade vai além de estar ao lado fisicamente e que mesmo depois de tanto tempo o amor só aumenta e jamais diminui e que não existe essa de “não ser mais novidade.” Demoramos. Mas aprendemos e é essa a beleza da vida: reconhecer e recomeçar.

Texto inspirado na declaração de Tatá Werneck para o seu namorado Rafa Vitti.

Imagem de capa: wavebreakmedia/shutterstock

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”

Confesso que tenho uma certa preguiça do jargão “Eu decidi esperar”,  muito comum nas redes sociais. Como assim? Não seria mais coerente a pessoa entrar em ação em busca do que deseja? Sabe, isso tem cheiro  de comodismo  temperado com falta de senso de realidade.  É a típica passividade de quem não tem coragem de arregaçar as mangas e lutar pelos próprios objetivos. Então, prefere esperar que algo caia do céu ou que Deus ou o Universo  entregue de mãos  beijadas  aquilo que ela deseja.

Ah, isso também se aplica aos relacionamentos amorosos, viu? Eu compreendo que  não é possível planejar um relacionamento amoroso como quem planeja a compra de um carro. Entretanto,  a pessoa precisa fazer o mínimo para facilitar esse processo. Alguém    que investe em si próprio, é uma pessoa  interessante, mesmo que não tenha uma  aparência de arrancar suspiros. Quem tem vida própria e orgulho da própria existência, é alguém que desperta atração e fascínio no outro. É que, lamentavelmente, existem pessoas cuja motivação para viver resume-se em encontrar alguém para se relacionar. Diante disso, nada fazem de interessante por si mesmas, aí complica, não é?

Nada acontece sem ação. Não podemos confundir paciência com comodismo. Ter paciência é entender que existe um tempo certo para cada coisa acontecer. É compreender que existe um  lapso temporal entre o plantio e a colheita. Contudo, entre essas duas fases existem várias ações que envolvem: regar,  podar, retirar  as ervas daninhas, proteger a planta de determinados insetos peçonhentos, etc. Em contrapartida, o comodismo está relacionado à inércia quase que absoluta. A pessoa não faz nada em prol do que deseja e acredita, que,  num passe de mágica, ela será agraciada, simplesmente,  porque ela é merecedora.

A Bíblia diz que a fé sem obras é morta. Em minha crença pessoal,   acredito que Deus se alegra quando decidimos participar das dinâmicas dos milagres que tanto pedimos. Não porque Ele precisa de nossa ajuda, e sim para percebermos que, muitas vezes, consideramos impossível algo que está ao nosso alcance e que não percebemos porque o medo embaça  a nossa visão.

Dar um pequeno passo, ainda que vacilante, em busca daquilo que tanto desejamos é o início de um  empoderamento que cresce a cada vez que optamos por não recuar.  E as portas vão se abrindo e os nossos medos vão ficando cada vez mais tímidos. Não é possível evolução sem enfrentamento, sem esforço, sem suor, sem foco e sem disciplina. Isso não é frase clichê, é uma realidade inquestionável.

A vida é para quem corre atrás, não de quem, passivamente, espera.

Se, quando éramos bebês, tivéssemos desistido de andar na nossa primeira queda, estaríamos até hoje engatinhando pelo chão. Entretanto, como não nos importávamos com os julgamentos de quem quer que seja, insistimos. Alguns evoluíram ao ponto de correrem maratonas internacionais. Nós carregamos as sementes de muitos dos  milagres que queremos, elas estão dentro de nós, no entanto, muitas vezes, preferimos buscar fora, subjugando a nossa força e menosprezando a nossa capacidade.

Outra coisa, aquilo que é conquistado por nosso mérito é infinitamente mais gratificante do que aquilo que recebemos de mãos beijadas. É como se receber algo sem fazer por onde nos lembrasse do quão folgados somos. Soa como favor imerecido. Não estou fazendo apologia ao orgulho ou à arrogância. Lógico que é muito bom receber presentes, refiro-me àquilo que poderíamos fazer, mas, nem sequer tentamos, daí, o outro que não é, em nada, mais qualificado que nós, vai e faz por nós.

Como, lindamente, canta Geraldo Vandré: Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Imagem de capa: lzf/shutterstock

Dias traiçoeiros

Dias traiçoeiros

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.” (Chico Buarque)

Sabe aqueles dias em que não deveríamos ter saído da cama? Sabe aqueles momentos em que desejamos sumir? Sabe aquelas situações em que nos encontramos aparentemente sem saída, sem respiração, coração saindo pela boca? Nada disso é gratuito; muito pelo contrário.

Nossas vidas são pontuadas por momentos preciosos e outros nem tanto – e há aqueles dias de lágrimas e tristeza sem fim. É inevitável termos de passar por isso, por esses reveses que machucam, esgarçam nossa alma, atropelam nossos sentidos. Parece que, por não conseguirmos conter dentro de nós tanta coisa boa que acontece, as rasteiras e os imprevistos vêm aparar isso tudo, como uma poda de sobrevivência. A alegria ininterrupta acabaria por descaracterizar a si própria, neutralizando-se e tornando-nos toleráveis à sensação de ganho e plenitude. Perderíamos, assim, a capacidade de deslumbramento frente ao contentamento e à beleza, uma vez que seria algo fácil, excedente, trivial. E o comum não nos provoca nada, não nos chacoalha os sentidos, não nos impele a agir.

Instalada de vez em nossas vidas, a felicidade não seria mais o objetivo de ninguém e, se não lutamos por ganhos, perdemos todos. Quando agimos em busca do bem, da felicidade, nossas ações atingem a várias pessoas, pois o raio das boas e das más ações é infinito. Atingindo-se o fim por inteiro, então o percurso finda e nada mais se alcança. Porque a vida é aquilo que acontece enquanto se vive. A felicidade, da mesma forma, é aquilo que se experimenta e se dissemina enquanto se procura. À medida que corremos atrás dela, vamos deixando pessoas felizes pelo caminho e nos fortalecendo, tornando-nos mais humanos, mais gente. Essa busca constante é mágica e imprescindível. Tanto nós mesmos quanto os indivíduos à nossa volta dela dependem. Afinal, não estamos sozinhos e as conseqüências de nossas atitudes atingem a muitas pessoas, seja positiva ou negativamente.

Nosso primeiro impulso, em meio às tempestades da vida, é querer que essa dor fira a tudo e a todos, pois nosso egoísmo, da mesma forma como nos provoca a inveja da felicidade alheia, não aceita que nós soframos sozinhos. Muitas vezes, em meio a essa escuridão, tentamos puxar para dentro dela quem se encontra à nossa volta, ofendendo, agredindo, violentando e culpando o outro pelos resultados de nossas próprias escolhas. Creio que muitos relacionamentos desmoronam por conta das cicatrizes que esses dias imprimem, pois o entendimento não consegue adentrar tanta dor e ressentimento e o amor vai morrendo aos poucos sob as violências verbais, os gritos, as ofensas e toda escuridão que transborda e inunda as vidas envolvidas. E, embora a dor fira, ela também ensina, incita à reflexão, à ponderação, obrigando-nos a rever nossos atos e a tentar aprimorá-los – a vida muitas vezes está nos dando a chance de recomeçar, embora seja quase impossível enxergarmos algo no calor de nossas emoções. Não há dúvidas de que sofrer nos fortalece, mas é preciso muita coragem e força de vontade para não nos deixarmos sucumbir, para não ruirmos por dentro e destruirmos nossos laços com quem caminha conosco diariamente.

Embora pareça injusto comparar uma dor à outra, existem ventanias que passam e nos retiram nossas maiores referências, o chão que nos sustenta, revestindo-se de tragédias avassaladoras, como a perda de um filho, de um braço ou de uma perna, das faculdades mentais, de nossa alma gêmea. Intensas demais, ou de menos, nossas perdas e frustrações nos clamam por nos despirmos de todo e qualquer fingimento, para que desçamos às profundezas mais recônditas de nossa escuridão solitária, sintamos essa dor dilacerante em toda sua crueldade, em todo o desespero e impotência que ela carrega, para que renasçamos, retirando força do que nos sobrou em nós mesmos e das presenças que insistem ficar ao nosso lado – pois há quem nunca desiste da gente -, para que nos impulsionemos de volta à vida, cujas cores e tonalidades aos poucos se descarregam do cinza, cujo ar então se torna menos rarefeito, menos sufocante. O enfrentamento corajoso daquilo que nos aniquila é uma viagem só nossa, por isso atrair os outros aos nossos vazios e pesadelos emocionais é covarde e injusto.

Os sobrevivente às intempéries físicas e sentimentais estão à nossa volta, ao nosso redor, ali na mesa do bar, no carro ao lado, nas manchetes dos jornais, no seio de nossa família. A mãe que visita o túmulo do filho, o jovem que se adapta ao braço mecânico, o moço que brada no pronto-socorro pelo atendimento à esposa deitada no chão frio, o catador de lixo que passa em concurso público, enfim, os exemplos de luta, enfrentamento e superação convivem conosco, mostrando-nos que nossa lida não é mais nem menos penosa e que deve ser combatida em tudo o que nos entristece, enfraquece e aniquila. E, assim como colhemos de acordo com a qualidade de nossas sementes, teremos uma ou mais mãos amigas e fortes nos amparando e nos resgatando de nossas misérias emocionais, de acordo com a forma como cultivamos nossos relacionamentos diários. Infelizmente, os invernos emocionais são recorrentes em nosso caminhar. Felizmente, eles haverão de passar, para que a dinâmica da vida prossiga mais forte, mais lúcida, acolhendo-nos, nesse ciclo, cada vez mais confiantes e prontos para amarmos e sermos felizes de novo – pelo menos até a próxima estação…

imagem de capa: Abel Halasz/shutterstock

Passional, racional, emocional. Respeitadas as proporções, a mistura fica sensacional!

Passional, racional, emocional. Respeitadas as proporções, a mistura fica sensacional!

Num mundo onde todo mundo anseia por respostas, os rótulos e carimbos são praticamente impossíveis de dispensar. Nós nomeamos e somos nomeados o tempo inteiro. Para explicar uma decepção, geralmente fazemos uma longa lista de características de quem nos decepcionou. E isso explica tudo… Na verdade não explica coisa alguma, mas, de certa forma nos dá suporte para aceitarmos e explicarmos ao mundo que pede respostas incessantemente.

Certa vez assisti a uma discussão boba, mas que me vem à cabeça até hoje, pois foram usadas três denominações numa mesma conversa e, naquela hora, enquanto a coisa esquentava, eu pensava: Adoraria saber que proporção dessas características torna uma pessoa mais interessante. O motivo, como eu disse, era tolo, e, em algum momento alguém disse: – Você é muito passional, estamos falando de negócios, você precisa ter auto controle! No que outro alguém respondeu, já em lágrimas: – E você é tão racional que não consegue enxergar o quanto eu sou emocional, o quanto me magoa e me faz sofrer!  E por aí foi, até que os ânimos se aquietaram e passional, racional e emocional se calaram e, ao final, se entenderam e desculparam.

Quem de nós afinal, carrega somente uma dessas características? Quais delas estão escondidas, guardadas, esperando o momento (in)certo para vir à tona?

De fato, somos uma mistura esquisita, inconstante e instigante disso tudo.

Há épocas da vida em que simplesmente estamos mais para um dos lados, por vontade, necessidade ou apenas por questões de sobrevivência. Logo em seguida podemos mudar, agregar outro, apresentar o terceiro, ou tantos mais. O que realmente importa é o nosso esforço para mantermos a proporção que nos parece mais interessante, que nos deixa mais despertos para a vida, mais confortáveis para lidar com os traços passionais, racionais e emocionais alheios. E eu arriscaria dizer que essa mistura, dos nossos com os alheios, é que torna tudo mais encantador! Só precisamos aprender a dar tempo e espaço para as diferenças.

Imagem de capa: Master1305/shutterstock

A verdade não está à venda. Nossa opinião não é a única que vale.

A verdade não está à venda. Nossa opinião não é a única que vale.

Dia desses, uma alma raivosa, irascível, portando todos os indícios de que carrega em seu lá dentro um feijão no lugar do cérebro, me acusou de “superficial”, “racista” e “homofóbico”. A todas essas conclusões, o inquilino da verdade impoluta chegou a partir da interpretação de uma crônica que escrevi com o título “Deixe o outro ser o outro. Se lhe faz mal, afaste-se”.

O que para mim era uma simples reflexão sobre a liberdade de escolha em nossas relações pessoais, uma conversa à toa a respeito do nosso direito de deixar quem quer que seja falando sozinho quando nos sentirmos agredidos, virou aos olhos da tal pessoa uma apologia a tudo o que de mal existe no mundo, uma vez que, a partir do meu raciocínio “permissivo”, eu estaria dando ao outro o direito a qualquer tipo de escrotidão e canalhice. Inclusive o racismo e a homofobia.

Naturalmente, não foi o que eu disse. Minha juíza da verdade misturou alhos e bugalhos, mudou contextos e disse o que bem quis só para cumprir com a única tarefa de agredir alguém que, aparentemente, pensa diferente dela. Pura desonestidade intelectual.

Eu podia dormir sem essa. Mas o fato é que a tal pessoa de “gênio forte” tem o inalienável direito a se expressar como quiser. Pena é que tanta gente confunda “liberdade de expressão” com “libertinagem e agressão”. Mas essa é outra história, e para esses casos existe a lei. Tem coisas que não se podem negociar. Por exemplo, tudo aquilo que o bom senso e a inteligência identificarem como crimes.

No entanto, tirando esses casos, a verdade é que “a verdade” não está à venda. Não se pode ser dono dela. Porque simplesmente ela não existe! Cada um tem a sua. Cada qual vive como quer, faz o que quer. E para os que desrespeitarem as regras básicas da vida civilizada, que se cumpram as leis. O resto é só questão de opinião. É tão, mas tão simples!

Minha juíza do bem e do mal vai dizer que eu não tenho “escuta”, que não sei ouvir e essas coisas. Ela só terá esquecido um detalhe: “ter escuta” não quer dizer “concordar” com tudo o que ouvimos. Cada um de nós pode muito bem “saber ouvir” e compreender claramente o que diz o outro. Mas daí a aceitar sem ressalvas o que ouvimos é outra história. Há uma diferença enorme entre “não aceitar opiniões alheias” e discordar do que elas contêm.

Pois não faltam por aí almas irascíveis trocando alhos por bugalhos e afirmando aos berros, o sangue estourando nos olhos, que não suportamos “críticas” e “não sabemos ouvir”. Só porque não concordamos com elas.

São os famosos proprietários da verdade. Merecedores legítimos de uma frase dita sem rodeios: “não, a sua opinião não é a única que vale.” Quem sabe se a repetirmos feito um mantra e na hora certa às almas que a mereçam, ajudemos a cozinhar o feijão que elas carregam no lugar do cérebro. Quem sabe.

Imagem de capa: iofoto/shutterstock

Poucos merecem ver nossas lágrimas

Poucos merecem ver nossas lágrimas

Um dos melhores conselhos que nossos pais nos transmitem, quando somos pequenos, e que deveríamos carregar pelo resto de nossas vidas é: “engole esse choro!”. Embora, na época, eles pudessem visar a outros objetivos, em contextos específicos, ao nos mandar parar de chorar, mesmo assim já estavam nos preparando para que nos tornássemos pessoas mais fortes, seguras, capazes de enfrentar as rasteiras que a vida não cansaria de nos dar desde então, sem sucumbirmos às frustrações e perdas, sem nos tornarmos vulneráveis diante de quem está à espreita, esperando para usar nossas fraquezas contra nós e em proveito próprio.

Somos humanos, sim, e sensíveis, suscetíveis a momentos de fraqueza emocional e tristeza, melancolia. Chorar é preciso, pois as lágrimas recobram as energias, minimizam o mal estar, aliviam o sufoco, limpam as impurezas da alma, desafogam o coração. Mas, ao mesmo tempo, as lágrimas expõem nosso lado mais vulnerável, nossa tão característica carência humana, e por isso mesmo podem ser vistas como fraqueza por quem, naquele momento, não quer – nem nunca será capaz de – ajudar ou, pior ainda, por quem usará aquilo contra nós mesmos, oportunamente. Então, dependendo de onde e com quem estiver, engole esse choro!

Ao ouvir “eu não te amo mais”, “estou partindo”, enquanto o outro arruma as malas para sair de casa. Nesse momento, ele já decidiu viver a própria vida longe de nós, já decidiu que tudo o que oferecíamos não bastava, não foi suficiente. Provavelmente já encontrou quem aparentemente ofereça o que ele esteja querendo e está forte o suficiente, visto ter tomado uma decisão. Assim, nossa fraqueza, se exposta, somente irá aumentar, enquanto o outro se fortalece ainda mais, bem ali na nossa frente. Engole esse choro!

Quando o chefe, um colega de trabalho ou um cliente elevam a voz, são deseducados, ríspidos e aparentemente injustos. Às vezes explodimos mesmo, justamente com quem não merece, além de existirem pessoas que não sabem agir de outra forma que não esbravejando indelicadamente, pois parecem desconhecer mínimas regras de convivência. Por serem incapazes de se colocar no lugar do outro, não entenderão nossos sentimentos, tampouco mudarão seu jeito de ser. Poderemos nos colocar no momento certo e deixar claro que aquela atitude nos desagrada, demonstrando firmeza – sempre com ar seguro, nunca com voz trêmula, jamais diminuídos em nossa dignidade. Engole esse choro!

Se for surpreendido por uma atitude que nunca esperaria do amigo em quem tanto confiava, sentindo-se traído, exposto, aquebrantado, humilhado. Você foi iludido e usado, mas não foi ingenuidade sua e sim antiética alheia. Distancie-se, o mais longe possível; por mais que doa ter que tirar de nossas vidas alguém de quem tanto gostávamos, é necessário fazê-lo, sem hesitação, sem titubear – sofrer, só se bem longe dele. Engole esse choro!

Escutando o que jamais esperava dos filhos, decepcionando-se com as atitudes e comportamento deles, percebendo que não parecem se sentir bem perto de você. No calor das emoções, eles dizem que nos odeiam, que somos os piores pais do mundo. Irão, em certo momento, se envergonhar de nós na frente dos amigos, irão querer que não apareçamos em seus quartos e não compartilharão nada de suas vidas conosco. Tudo isso passará e retornarão ao nosso abraço que tanto os conforta, desde pequeninos. Porque já fomos e sempre seremos seu porto-seguro, o alento revigorante quando precisarem – não esmoreçamos. Engole esse choro!

Enquanto segura as mãos de quem ama e está doente, sofrendo dores, passando por tempestades da alma, enfrentando algum revés aparentemente sem solução. Quem sofre quer nada mais do que alguém que o entenda e mantenha-se forte, porque as próprias forças esvaíram-se e a segurança alheia então é tudo a que se pode agarrar, para não ruir definitivamente por dentro. Mantenhamos as mãos firmes, as palavras serenas e os olhos secos, mas cheios de esperança. Engole esse choro!

No momento em que se despede do filho que vai procurar o seu próprio lugar no mundo. É preciso deixá-los ir, aconselhando-os a não olhar para trás, a não titubear. Todo mundo merece se encontrar a seu jeito, experimentando novos lugares, novas companhias, novos amores. É preciso ajudar a fazer as as malas e a abrir as perspectivas de vida dos filhos, incentivando-os ao descobrimento de si mesmos, não importa se do outro lado do globo. Temos que acenar firmes e altivos durante a despedida, pois é disso que eles precisarão enquanto se desprendem da zona de conforto tão nociva ao aprimorar-se contínuo a que todos temos direito. Engole esse choro!

Ao contrário do que possa parecer, não se trata, aqui, de se tornar insensível, de endurecer o coração, tampouco de abafar ou enganar os próprios sentimentos. Somos sujeitos a momentos de tristeza e escuridão, em que as lágrimas são sempre bem vindas. No entanto, poucos merecem partilhá-las e nos verem perdidos em nossas fraquezas, pois em nada ajudarão, nem ao menos tentarão nos estender as mãos. Ninguém merece desnudar-se física e emocionalmente em frente a quem não se entregará de volta verdadeiramente. Ninguém haverá de ser menosprezado enquanto junta seus cacos emocionais. Da mesma forma, ninguém haverá de receber lágrimas quando estiver pedindo força e motivação. Portanto, tranque as portas e feche as janelas antes de chorar.

Sempre será necessário cair ao chão de nossas tristezas e fracassos, gritar a revolta da incompreensão e maldade alheias, encarar as colheitas de nossas escolhas equivocadas, atravessar a escuridão da saudade por quem não mais voltará. Mas é preciso que quem esteja ao nosso lado, nesses momentos, mostre-se sinceramente disposto a nos resgatar de volta com vida e fortalecidos. Alguém que conhece e tem certeza de que somos muito mais do que pensamos ser, que venha correndo quando precisarmos e não saia de nosso lado enquanto não secarem nossas lágrimas. São poucos os que merecem assistir ao nosso pranto, sem fazer mau uso disso tudo. Ademais, no fim da vida, muito provavelmente estaremos contando somente com nós mesmos e então saberemos lidar com nossas dores sem precisar de ninguém mais. Enfim, lembremos sempre aquele conselho ouvido em nossa infância, porque, em certos lugares e diante de certas pessoas, ou engolimos o choro, ou o mundo nos engole.

Imagem de capa: Lena Pan/shutterstock

Somos o que queremos ser, mas também somos as nossas próprias limitações

Somos o que queremos ser, mas também somos as nossas próprias limitações

Todo mundo sabe, mas parece que muitas vezes a gente se esquece que não somos feitos de ferro.

Somos seres orgânicos, estruturas complexas, somos feitos de carne, osso, sangue, sentimentos, vibrações, vontades físicas e psíquicas, consciente e inconsciente. Temos no corpo e no pensamento movimentos voluntários e involuntários.

Somos o que queremos ser, mas também somos as nossas próprias limitações.

Gosto de dizer que uma pessoa é uma comunidade em si mesma. Cada um de nós é um microcosmo, e cada ‘cidadão’ que nos habita tem sua função e importância, tem que ter sua voz e sua vez. Cada um de nós é um microcosmo democrático, ou pelo menos deveria ser.

Somos como uma orquestra, compostos de tantos ritmos e sons diferentes, o coração batendo, mantendo a base para todas as outras harmonias; o maestro cérebro vezes guiando os órgãos, vezes deixando que fluam sozinhos; e o corpo todo num balanço solto porém ritmado.

Acontece de muitas vezes, o senhor maestro cérebro, por conhecer a sua suprema importância e capacidade, inflar demasiadamente o ego, e assim ficar cego e surdo no comando da orquestra. Pode acontecer de o cérebro virar um ditador que só cuida dos próprios interesses e deixa de se preocupar com o bem comum.

O corpo vai no embalo, sem ser ouvido como deveria, segue o guia, muda os ritmos, os acordes descompassam, os instrumentos dão o seu máximo. Às vezes um violino perde uma corda, mas continua tocando, outras vezes uma flauta doce amarga, mas continua no embalo, sem ter tempo para recuperar o fôlego. O corpo fala, mas o maestro está surdo, cego pelo poder.

O maestro quer trabalhar noite adentro, e os instrumentos querem dormir. O maestro quer comer tudo que vê pela frente, e os instrumentos estão sobrecarregados. O maestro quer conter o choro, ofuscar o sorriso, ocultar a libido, e os instrumentos querem transbordar.

O maestro cria hábitos, o corpo se adapta; o maestro cria leis, o corpo se adapta. O maestro se esquece da comunidade até que tudo grite, até que algo desande, até que líquidos endureçam, e emoções explodam ou simplesmente morram.

Mas, nem tudo está perdido, se voltarmos a ser uma sociedade mais humana, uma democracia social, se soubermos fazer acordos entre vontades e necessidades. Se entendermos que ser livre é ser inteiro, é saber respeitar os nossos próprios ciclos e sentir a harmonia entre os ritmos dentro da própria pele.

E para balancear todo esse mecanismo, às vezes é bom tentar manter o que disse Walter Franco ‘a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo’.

Imagem de capa: Dziewul/shutterstock

O metido a culto e bonzinho.

O metido a culto e bonzinho.

Parei pra analisar algumas ofensas recorrentes. Essa duas se repetiram muito ao longo dos meus quase 24 anos. Confesso, fiquei magoado e me travei algumas vezes. Culto, inteligente, até “poeta” na minha cabeça foram atributos negativos.

Não foram poucas as vezes que tentei ser mais raso. Me limitar a concordar ou reproduzir o que já estava pronto. Tantos dias, meses, em que fiquei sem expressar minha visão das coisas porque queria outro rótulo. Gente normal, quem sabe?

O de bonzinho, ou mole, ou covarde, ganhei por não querer odiar gratuitamente. Lá em casa, eu é quem apanhava do meu irmão mais novo. Nem doía. Era irritante. Mas bastava ele aceitar jogar bola comigo, ou preparar o feijão, eu já o perdoava.

Sentir ódio? Senti muitas vezes. Raiva de muitas pessoas por aí. O negócio é que raiva me faz mal. Nunca fiquei feliz por estar ofendido, magoado. E, talvez de maneira egoísta?, prefiro cuidar do que sinto. Reservo meu ódio às questões mais profundas; não encoste o dedo nas pessoas que amo. Odiar só porque X ou Y é de certa forma, tenho preguiça.

Óbvio. Eu tentei pagar de malzão diversas vezes pra me encaixar. Com certeza já peguei o bonde e falei mal de algumas pessoas de graça. Sem nada em troca. Depois, remoí o sentimento de culpa sozinho. Por fora, eu só não queria ser a mosca morta.

Aqui, eu poderia dizer que é tudo culpa das pessoas e dessa sociedade má. Talvez. Mas prefiro, diria, outra abordagem.

Normalmente, me chamaram de “metido a culto” quando na verdade queriam ou falar do meu ego ou me chamar de burro. É simples. Eu dou minha visão e a pessoa, por alguma razão, esquece do argumento e me ataca pessoalmente. É a forma de quem não vai com minha cara me calar. Eu já tive estratégia semelhante em alguns momentos da minha vida. É quase involuntário. A gente, quando mal percebe, está falando da pessoa e não do que ela argumenta.

Repare nos dois exemplos

– Cara, eu votei no candidato tal.
– Sério? Ele é um pilantra.

Neste primeiro exemplo o alvo é exclarecer quem é o candidato. Desta forma, é possível conscientizar do voto, discutir outras possibilidades.

– Cara, eu votei no candidato tal.
– Sério? Você é muito burro.

Neste segundo exemplo, desvia-se o assunto em questão ( votar no candidato) pra um possível aspecto da pessoa (ser muito burro). É fácil entender que na primeira, o nível de esclarecimento pode ser muito maior. Enquanto na segunda, a ofensa só serve para afastar a pessoa do entendimento acerca do político.

Quase o mesmo acontece quanto ao “bonzinho”. Mas neste caso, é a adjetivação de uma ação se sobressaindo. É mais ou menos como quando eu chamo certo jogador de perna de pau por ele não ser o jogador que eu queria.

Decidi deixar me chamarem de o metido a culto, o “bonzinho”, às vezes ter minha educação confundida com falsidade e ser chamado de todas essas coisas por aí.

Entendi que sou mais do que os adjetivos que me dão. Minhas falhas, sim, irei tentar enfrentá-las. Me comunicar melhor. Buscar ser assertivo. Porém, abandonar minha forma de estar no mundo, porque esse ou aquele irá se incomodar…

Desculpe-nos. Nós, os metidos a bonzinhos e cultos, não somos tão cultos e bonzinhos assim.

Não exagera.

Imagem de capa: 4Max/shutterstock

O nosso estranho medo de amar

O nosso estranho medo de amar

Por que há, em nós, um desejo imenso de amar e um medo maior ainda de viver o amor? Por que sentimos vontade de ter um amor que nos arrebate, mas não queremos correr o risco de nos machucar? É estranho como o ser humano é tão paradoxal ou, quem sabe, tão medroso ou preguiçoso, afinal, querer colher os frutos sem nenhum esforço, ou correr o risco de ter alguns frutos estragados, parece-me contraditório à própria colheita, isto é, ao amor.

Sabe como é, quem não arrisca não petisca, diz o ditado popular. Não querer correr o risco de se machucar é inconciliável com o amor. Amar é estar disposto a cair, pois sabemos que nem sempre as pessoas são o que aparentam. Mas não há como saber sem arriscar. Então, se verdadeiramente queres viver um amor, desprende-te do medo que te impede de vivê-lo.

Abrir-se para alguém a ponto de tornar-se completamente vulnerável sempre trará o risco de esse alguém nos machucar. Sendo assim, porque existe um risco inerente, devo evitar todo tipo de contato mais íntimo, de abrir o coração e mostrar os recantos mais longínquos, as tristezas mais escondidas, as angústias mais sombrias? Devo evitar sentir o deleite de um toque suave e profundo na alma? Ah! Se queres um amor, trata de arrancar as muralhas que tornam teu coração inacessível. Ninguém quer se machucar, mas, às vezes, acontece. Como disse Montesquieu, “correndo em busca do prazer, tropeça-se com a dor”.

Deixar de se envolver pelo medo de descobrir que o outro não é tão inteligente quanto imaginamos, que, talvez, durma de um jeito estranho, que não seja talvez a pessoa maravilhosa e encantadora que se mostra agora, é apenas medo. Medo de se apaixonar por todas as idiossincrasias que as formam e são exatamente dessas coisas que têm medo de sentir falta caso acabe, pois saberá que são delas e que não encontrará em outro lugar. Se queres um amor que seja inesquecível, aceita que são as coisas que apenas o ser amado possui que te faz amá-lo. Coisas que os outros chamam de imperfeições, mas você chamará de dádivas.

Achar-se mais forte por ter uma vida que subsiste apenas em si mesmo é uma fraqueza da alma que desnutre o coração. Sai do teu casulo, cheio de proteções. Sai do teu mundo de regras e perfeição, porque não és perfeito, tampouco precisa ser um pedante de coração duro que não se permite guiar pelos sentimentos sinceros de um coração que anseia por um cobertor e por palavras que apaziguem qualquer cólera.

Para que serve um álbum com apenas fotos suas? Por que ter medo de dividir um pedaço de bolo e uma xícara de café? Todos nós já tomamos café sozinhos e, sem dúvida, caso quebremos a cara, saberemos tomá-lo sozinhos novamente. Então, por que o medo? Será que ter alguém, na sua cozinha, lambendo a tampa do iogurte, te aflige tanto? Ou será que é insuportável ver os móveis da sala arrumados de um jeito diferente?

Por que esse nosso estranho medo de amar? O amor torna a vida uma bagunça e um lugar divertido, ao mesmo tempo. É complexo e só aceita desbravadores. Não há espaço para quem não queira se envolver a fundo, de corpo e alma. Não há espaço para quem não tenha paixão e loucura. Se queres um amor, sai do teu esconderijo, onde não sofre, não chora e não fica triste, e vem dançar entre os cravos e as orquídeas, onde há perfume e a vida é bela. Onde se chora até soluçar e o chão é escorregadio.

Não há certezas na vida. Não há certezas no amor. Disseram, certa feita, que o maior pecado de todos é viver a vida inteira sem conhecer o amor. Mais: por vontade própria, por medo de se machucar, decepcionar-se e sofrer. Todos nós podemos e devemos ser felizes sozinhos, mas existem coisas que só podemos sentir com o amor. Assim, deixar de sentir a magia de risos compartilhados com um amor por medo, realmente é um pecado sem perdão. E, como escreveu o poetinha:

“[…] ter medo de amar não faz ninguém feliz.”

***

Imagem de capa: wrangler/shutterstock

A saudade de quem já morreu

A saudade de quem já morreu

Quem sente sabe, a saudade é presença. A saudade permanece. É o que fica quando a dor se vai, a revolta se vai. Saudade não morre.

Saudade maior é de quem já se foi. Mesmo nos que nutrem a fé no reencontro, é visível a dor de ter que seguir longe de quem se queria por perto. A dor de perder quem nos é querido, pela astuta ação da morte deixa em todos nos a marca da saudade.

Quando a morte ocorre, experimentamos a forte dor e a sensação de termos perdido o chão, perdido as raízes e estarmos, então, soltos no mundo. A falta do outro bagunça e desestrutura. Sofremos muito e então vem o luto. O luto é um processo de adaptação após perdermos algo ou alguém que era importante para nós, ou seja, uma perda significativa. Quanto maior o vínculo afetivo, maior será o impacto. O luto é a incapacidade que temos de nos divertir, de estarmos felizes.

Por um tempo é como se funcionássemos no automático e só conseguimos nos ocupar das tarefas cotidianas e daquilo que chamamos de trabalho. Quanto mais repentina é a ação da morte, mais é exigido de nós. Muitos se vão aos poucos, vão adoecendo e partindo lentamente, dando-nos assim tempo de assimilar e digerir a difícil realidade. Na contramão, há situação nas quais somos pegos de surpresa pela partida repentina de quem estava ali ontem, jovem, cheio de vida. A morte exige muito de nós, exige muita coragem.

O que fazer então quando ela nos encontra e leva de nós quem amamos?

Em primeiro lugar devemos entender e aceitar que vamos sofrer e então tentar sofrer o mínimo de tempo possível. Quem sofre mais tempo não significa que vive um luto maior nem tampouco que sua dor e/ou seu afeto por quem se foi é maior. O sofrimento pelo sofrimento não tem nada de digno, nem de profundo ou saudável. O sofrer deve ser superado com resiliência (aquela capacidade de cair e se levantar o mais breve possível) e nunca alimentado. Superar a dor, superar o luto deve ser sempre o nosso objetivo, aprendendo sempre. A dor sempre nos ensina muito e ela é inevitável.

Talvez vocês concordem comigo em afirmar que a maior dor que o ser humano pode vivenciar é a dor da perda de um filho. Acredito que a maior injustiça, que o maior descompasso, que o maior equívoco da natureza é um filho partir antes dos pais, obrigando-os à suportar a dor de uma dilacerante ferida e a depois caminhar com uma cicatriz inescondível. Talvez então vocês estejam agora me perguntando como e onde conseguir motivação, força para superar algo tão penoso assim. Acredito que a ternura e a fé hão de ser ainda maior e que não há nada a fazer a não ser superar e seguir. Negar, agredir, deprimir-se, desistir…, nenhuma dessas alternativas funciona. O fim de tudo é sempre a aceitação e há vários caminhos para se chegar a ela.

Lembro-me de um depoimento bonito de uma paciente que, ao perder repentinamente a filha jovem em decorrência de um acidente de trânsito, um dia me disse:
-Ao ler A Cabana eu achei um caminho para seguir.

E assim, depois de um tempo ela conseguiu abandonar os psicotrópicos.
O caminho pode estar em um livro, na fé, nas relações afetivas, na caridade ou em qualquer lugar. Ele existe e nós o chamamos de motivação. Cabe a cada um descobrir o que lhe motiva, o que lhe faz vivo e lhe dá força, combustível para seguir.

A única pessoa que permanecerá conosco pelo resto de nossas vidas somos nós mesmos. Por isso nós, estudiosos do comportamento e das emoções humanas, insistimos tanto para que, cada um de nós, tenha uma ótima relação consigo mesmo. E importante que nos bastemos e que possamos nos carregar no colo, que possamos jogar no nosso próprio time, que nos amemos a ponto de cuidar de nós mesmos e das nossas feridas.
A saudade é companheira de todos nós.

Imagem de capa: Cait Eire/shutterstock

Lore e a perda dos sentidos

Lore e a perda dos sentidos

Com produção e fotografia impecáveis, narrativa lenta e poética, o filme “Lore” conta a saga de uma garota em busca de abrigo e segurança. No pós- segunda guerra, quando o exército alemão entra em colapso e os aliados ocupam a Alemanha, os pais de Lore são presos e de repente a jovem menina se descobre sozinha com quatro irmãos pequenos. A missão dada à Lore por sua mãe, é seguir viagem e atravessar a Floresta Negra até a casa da avó materna onde eles encontrarão segurança.

O mais intrigante nessa narrativa é a confusão de sentimentos em que Lore se encontra. Lore fica confusa e vai perdendo a capacidade de enxergar os fatos como são e de identificar o que sente ao dar-se conta de que tudo que ela acreditava ser certo e bom era mentira.

Talvez isso esteja ainda mais claro, quando ao longo do caminho, a menina depara-se com um estranho (que se apresenta como Thomas) e que a ajuda a completar tão árdua travessia. Como ela perde a capacidade de confiar no que sente e nos seus sentidos, ela passa a ver maldade em todos os homens e soldados e não consegue enxergar o bem que Thomas faz. Em várias cenas fica nítido o conflito interno de Lore e a confusão de sentimentos que ela vivencia. Uma das cenas em que esse fato é bem evidente é quando Lore, em prantos, confessa a Thomas que enxerga todos os outros homens nele e que todos mentem.

A perda (e a importância da recuperação) da capacidade de identificar o que sentimos e o que necessitamos, é um fenômeno já estudado em algumas linhas da psicologia, como a Gestalt-terapia. Quando o que vemos não é confirmado, quando o que ouvimos, não é validado, quando nossos sentimentos não são reafirmados, aos poucos vamos nos desconectando de nossos sentidos. Lore não consegue ver em Thomas bondade, mesmo gostando dele, mesmo quando os olhos dela enxergam as atitudes dele (que vão de encontro ao que é melhor para ela e seus irmãos), porque ela desaprendeu a acreditar no que vê e no que sente com relação ao que vê.

Talvez a dificuldade de confiar no que sentimos aconteça porque somos condicionados desde muito cedo a não acreditar no que vemos, ouvimos ou sentimos. Muito provavelmente porque os adultos são tão incoerentes para a compreensão de uma criança que seus sentimentos raramente podem ser validados. Fora isso, em um mundo tão cartesiano, é quase como se não fossemos permitidos a sentir aquilo que não conseguimos explicar de maneira racional.

O problema em tudo isso é que tudo que sentimos gera uma necessidade vital em nosso organismo que precisa ser atendida. Assim, quando perdemos a capacidade de identificar o que sentimos, passamos também a não saber mais identificar quais são nossas verdadeiras necessidades com relação ao que sentimos. E ao desconhecermos nossas necessidades autênticas acabamos suprindo-as de maneiras não-autênticas.

Dessa maneira, comemos quando estamos tristes (e talvez só precisamos de um abraço), bebemos quando precisamos chorar, falamos demais quando estamos nervosos. Ou seja, em vão tentamos suprir nossa raiva, tristeza, solidão e outros sentimentos tão genuínos com religião e crenças, remédios, drogas, sexo, vícios. Passamos a anestesiar sentimentos sem saciar, e muitas vezes nem conseguir identificar, nossas mais genuínas necessidades, que uma vez não saciadas, continuarão sempre latentes.

E, como uma bola de neve, quanto mais anestesiados estamos, mais perdemos a capacidade de identificar o que de fato precisamos. Assim surgem as neuroses e transtornos mentais. A raiz do comportamento neurótico surge da perda da capacidade de saber identificar qual é nossa verdadeira necessidade e como supri-la. Para ter (um pouco de) sanidade, é preciso reaprender a ouvir e a confiar no que sentimentos, é preciso alinhar o que vemos e ouvimos com o que sentimos e o que isso demanda de nós, sem anestesias.

No fim da jornada nota-se que Lore encontra amor, mas não consegue amar; encontra segurança, mas não consegue se sentir segura; encontra alegria, mas não consegue alegrar-se. Porque ela não consegue identificar o que necessita, porque teve sentidos e sentimentos invalidados, porque, assim como muitos de nós, ela perdeu a capacidade de confiar no que sente.

*Em agradecimento a psicologa Yara Gualda Carneiro do Instituto de Gestalt de Curitiba, que me recomendou esse belíssimo filme e alguns pontos essa leitura.

Imagem de capa: Reprodução

O amor é tarja preta: cura mas vicia, salva mas tem a saudade como efeito colateral.

O amor é tarja preta: cura mas vicia, salva mas tem a saudade como efeito colateral.

Eu me lembro da gente viajando para a praia. Primeiro você e eu. Depois, você e eu e os nossos. Lembro do nosso jeito de fechar as malas imensas, eu aperto dos lados e você puxa o zíper, da nossa pressa em sair de casa cedo pensando escapar do trânsito, do cansaço bom de chegar ao nosso destino sob um sol generoso e descarregar o carro com pressa, afoitos pela vida.

Lembro da alegria das crianças na praia, do nosso cachorro olhando o mar assustado, respeitoso, encolhido ao nosso lado como quem sente segurança em nossa companhia e não quer incomodar os desconhecidos em volta.

Das nossas conversas de virar a noite eu também me lembro. Lembro do nosso silêncio bom, nossa cumplicidade, nossas conspirações contra os inimigos do mundo. Eu me lembro dos nossos sábados em casa e de nossas leituras de tarde inteira. Lembro das noites com os meninos no hospital, não mais que meia dúzia de vezes, Deus é bom! Tanto quanto era bom passar na farmácia na volta, cuidar deles em casa e assisti-los ficando bons de novo no dia seguinte. Felicidade mesmo é ver os filhos da gente esbanjando saúde. Eu me lembro.

De quando a gente se casou, eu me lembro bem. A festa, a igreja, o padre, a sensação de amor infinito por você, por nós, por tudo e por todos. Lembro de um desejo irracional e bonito de estar ali para sempre.

Não sei você, mas eu me lembro dos nossos feriados prolongados, do sujeito gordo que nos alugava um aparelho de karaokê e entregava em casa, como era mesmo o nome dele? Lembro do almoço no quintal, do churrasco, da cantoria. Do tempo passando rápido. E eu me lembro de no último instante do domingo à noite, um segundo antes de pegar no sono, sentir aqui dentro uma gratidão tão grande pela vida e um desejo bom de trabalhar com empenho a semana inteira. Fazer por merecer o feriado seguinte.

Eu me lembro de segurar a sua mão e descer ao seu lado até o inferno, de onde saímos juntos tantas vezes, chamuscados mas inteiros, íntegros, esforçados, prontos para outra.

É estranho, mas eu também me lembro dos sonhos que esquecemos num canto de sala, dos planos que deixamos lá atrás, de tudo o que sempre quisemos e nunca fizemos. Eu me lembro, eu me lembro de tudo.

Lembro como se fosse agora. Porque no fundo é tudo agora mesmo. O tempo é uma ilusão. Passado e futuro não passam de outros nomes para o presente insuspeitado e inevitável de sempre.

Então eu me lembro da gente neste instante mesmo. Você aí, no seu canto do mundo que eu não sei onde fica, e eu aqui, sonhando com você que ainda não veio. E que eu já nem sei se existe.

Imagem de capa: Andrey Yurlov/shutterstock

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