Dia desses, uma alma raivosa, irascível, portando todos os indícios de que carrega em seu lá dentro um feijão no lugar do cérebro, me acusou de “superficial”, “racista” e “homofóbico”. A todas essas conclusões, o inquilino da verdade impoluta chegou a partir da interpretação de uma crônica que escrevi com o título “Deixe o outro ser o outro. Se lhe faz mal, afaste-se”.

O que para mim era uma simples reflexão sobre a liberdade de escolha em nossas relações pessoais, uma conversa à toa a respeito do nosso direito de deixar quem quer que seja falando sozinho quando nos sentirmos agredidos, virou aos olhos da tal pessoa uma apologia a tudo o que de mal existe no mundo, uma vez que, a partir do meu raciocínio “permissivo”, eu estaria dando ao outro o direito a qualquer tipo de escrotidão e canalhice. Inclusive o racismo e a homofobia.

Naturalmente, não foi o que eu disse. Minha juíza da verdade misturou alhos e bugalhos, mudou contextos e disse o que bem quis só para cumprir com a única tarefa de agredir alguém que, aparentemente, pensa diferente dela. Pura desonestidade intelectual.

Eu podia dormir sem essa. Mas o fato é que a tal pessoa de “gênio forte” tem o inalienável direito a se expressar como quiser. Pena é que tanta gente confunda “liberdade de expressão” com “libertinagem e agressão”. Mas essa é outra história, e para esses casos existe a lei. Tem coisas que não se podem negociar. Por exemplo, tudo aquilo que o bom senso e a inteligência identificarem como crimes.

No entanto, tirando esses casos, a verdade é que “a verdade” não está à venda. Não se pode ser dono dela. Porque simplesmente ela não existe! Cada um tem a sua. Cada qual vive como quer, faz o que quer. E para os que desrespeitarem as regras básicas da vida civilizada, que se cumpram as leis. O resto é só questão de opinião. É tão, mas tão simples!

Minha juíza do bem e do mal vai dizer que eu não tenho “escuta”, que não sei ouvir e essas coisas. Ela só terá esquecido um detalhe: “ter escuta” não quer dizer “concordar” com tudo o que ouvimos. Cada um de nós pode muito bem “saber ouvir” e compreender claramente o que diz o outro. Mas daí a aceitar sem ressalvas o que ouvimos é outra história. Há uma diferença enorme entre “não aceitar opiniões alheias” e discordar do que elas contêm.

Pois não faltam por aí almas irascíveis trocando alhos por bugalhos e afirmando aos berros, o sangue estourando nos olhos, que não suportamos “críticas” e “não sabemos ouvir”. Só porque não concordamos com elas.

São os famosos proprietários da verdade. Merecedores legítimos de uma frase dita sem rodeios: “não, a sua opinião não é a única que vale.” Quem sabe se a repetirmos feito um mantra e na hora certa às almas que a mereçam, ajudemos a cozinhar o feijão que elas carregam no lugar do cérebro. Quem sabe.

Imagem de capa: iofoto/shutterstock

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Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.