Te amo, mas não gosto de você.

Te amo, mas não gosto de você.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa.
– Artur da Távola –

Sei lá onde ouvi isso, sei lá se senti isso. Talvez alguém tenha me contado, não é tão difícil assim ouvir sobre o amor. É mais ou menos assim, senta que lá vem história. História Com h, porque tirar o h pode comprometer certas coisas. Vou contar como me lembro.

Ele tinha umas manias estranhas como apertar o nariz com a mão esquerda na hora de decidir o que pedir no restaurante. Ela sempre detestou isso. Ele gostava muito de contar piadas internas, aquelas que só o narrador acha graça, não que ela detestasse, mas por vezes achava um pouco constrangedor.

A camisa preferida dele tinha um estilo anos oitenta, uma década de estampas que sempre despertou na moça uma certa desconfiança. Ele também gostava de usar diminutivos, isso definitivamente ela odiava.

Outra coisa que incomodava um pouco era o lapso temporal entre respostas e perguntas, e uma pequena arrogância nascida da insegurança.

Sim, ela aprendeu a perceber isso. Ele era assim, diferente dela, no entanto havia alguma coisa que não se via, mas que fazia dele o lugar das certezas. Era possível sentir sua presença mesmo na sua ausência, e seu abraço era o lado mais calmo da vida. Alguma coisa em suas mãos eram suaves como rochas e transmitiam a ela a solidez de caminhos certos.

Quando ligavam a TV em programas que a faziam dormir nos primeiros cinco minutos, ela dormia em paz. Amar é estar em paz. E ela amou; e amou de tal forma que o amor era mais silêncio que barulho e por assim ser morava em seu corpo, sem escândalos, educada e delicadamente presente.

Os defeitos já reconhecidos e conhecidos eram apenas detalhes tal qual flor de tomate em salada de vó. Ela aprendeu a ver chegar suas fragilidades, viu também alguns cabelos brancos, essas coisas que chegam sem se anunciar.

E aprendeu que amar tem a ver também com incompletudes, não as que criam cobranças, mas as que fazem nascer alternativas, porque o amor está para além do óbvio.

Ele sempre gostou dela, do seu jeito, de suas roupas, de seu perfume, de seu sexo, de seu corpo, de sua inteligência. E foi assim que eles nunca mais se viram. Ela despediu-se dele como quem se despede de crenças, com um certo temor. Ele despediu-se dela como quem parte em viagem.

Imagem de capa: Photographee.eu/shutterstock

Nada fica igual após a morte dos pais.

Nada fica igual após a morte dos pais.

Ser pai é ser humano, é falhar, é errar também. É amor que continua, é luz que não se apaga, é eternidade afetiva. Ser pai é, sobretudo, entender o pai que tivemos.

Apesar de ser a única certeza dessa vida, a morte ainda parece ser colocada em recantos onde não possa ser vista, falada e refletida. Porém, ela inevitavelmente chega a nossas vidas e enfrentá-la requer juntar e digerir, dentro da gente, tudo o que ficou oculto, tudo o que evitamos por muito tempo. Perder minha mãe, há oito anos, foi uma jornada extremamente dolorosa. Perder meu pai, recentemente, também foi.

Cada vez mais, a morte vem sendo excluída dos ambientes e da vida das pessoas. Quando eu era criança, a grande maioria das pessoas morria em casa e os corpos eram velados nas casas de família. Hoje, a morte quase que se confina tão somente nos hospitais e clínicas, lá longe de nosso cotidiano, longe das crianças, dos familiares, dos amigos. Longe do curso da vida. Daí ninguém pensa sobre as perdas e tem que lidar com ela de supetão, como algo inconcebível. Com exceção da partida precoce de um filho – essa não há quem entenda -, a morte faz parte do curso natural do ciclo da vida, ou ao menos deveria fazer.

E cá estou eu a refletir novamente diante da partida de meu pai, para a qual, como a maioria das pessoas, eu não estava preparado. Não imaginava que eu sofreria tanto com sua morte, porque nem eu mesmo tinha noção do meu amor por ele. Eu amei minha mãe desde que abri os olhos; todas as minhas lembranças têm o meu amor por ela. Com meu pai foi diferente. Eu não o amei desde o início naturalmente – foi um amor construído, lapidado, suado, maturado, conquistado -, mas, nem por isso, foi menos verdadeiro.

Como ele se foi aos poucos, ao longo deste ano, pude refletir muito sobre nossa relação, que nem sempre foi tranquila. Fui puxando as memórias e assistindo ao filme de minha vida com meu pai, sob meu olhar mais maduro, meu olhar de pai – criar filhos nos traz um entendimento incrível sobre a forma como fomos criados. Eu então me vi agindo com meu filho tal qual meu pai agia comigo; sim, daquele jeito que eu tanto relutava em aceitar. Ouvi a mim dizendo ao meu filho o que meu pai dizia, exatamente o que meu pai me dizia e me deixava irritado.

E fui me lembrando de tanta coisa boa que vivi com ele. Meu pai sambava super bem, dançava com minha mãe, cheios de elegância – amava vê-los dançando -, imitava uns passinhos do Didi dos Trapalhões, cantando “eu fui às touradas de Madri”. Muitas vezes, ele saía de carro comigo e com meu irmão, e, lá pelas tantas, dizia que estava perdido. Parava e perguntava às pessoas como fazia para chegar ao centro e a gente ficava aliviado quando achava o caminho de volta, mesmo, no fundo, sabendo que ele estava blefando – era o modo de ele dizer que nos amava e que jamais nos perderíamos enquanto ele estivesse no comando.

Eu me lembrei de que, na minha infância, sempre que eu estava com febre, eu sentia, madrugada adentro, a mão de meu pai sobre a minha testa, checando se minha temperatura abaixara. E isso me trazia uma segurança imensa. Foi assim que eu cresci tendo a certeza de que, sempre que a vida me derrubasse, eu poderia contar com ele. Meu pai sempre me motivou a publicar meus textos, sempre me falava disso. Revisitar o passado com um olhar maduro nos traz uma compreensão tão clara da importância de algumas pessoas em nossa jornada.

A vida é perfeita e sempre encontra um jeito de nos aliviar a barra, assim como descobri que a morte faz com que a gente se lembre do melhor da pessoa que se foi. Não fica nada de ruim. Nossas lembranças se preenchem dos bons momentos que vivemos juntos, clareando nossa consciência quanto à verdade do que se foi. Hoje, percebo, por exemplo, que, quando meu pai era ríspido comigo, ele estava me preparando para os tombos da vida adulta. Ele me conhecia, percebia que eu era muito sensível e me colocava de frente com a dureza, para que eu me fortalecesse, para que eu não viesse a me machucar quando me tornasse gente grande.

Por isso, é besteira ficar remoendo o que se disse ou não, o que se fez ou não, carregando remorsos inúteis. Se a gente que fica só guarda o que foi bom, o que nos fez bem e nos fez sorrir, é lógico que quem parte leva consigo somente o que foi bom. O amor fica e vai junto, alimentando as memórias que nos fazem reviver todas as cores, os sons, os cheiros e vozes que nos tornaram o que somos – sobreviventes no amor. Amor que sempre está dentro de cada um, embora muitos resistam a enxergá-lo.

Enfim, nada como a maturidade para conseguirmos compreender, aceitar e agradecer tudo o que nossos pais fizeram por nós. Nada como o tempo, para trazer as verdades, apagar as dúvidas, consolidar o que foi bom e teve que acontecer para que chegássemos onde estamos. Eu não seria nem sombra do que sou hoje, sem essa estrutura, esse pilar que meus pais eram, agindo exatamente como agiram. Entender que eles deram o que podiam e foram o que possuíam dentro de si traz compreensão e gratidão. E agora, como pai, transmito toda essa riqueza afetiva que eles me deixaram, para que meu filho continue levando em frente esse sentimento tão essencial, que é o amor – sempre o amor.

Ser pai é amar cada filho exatamente pelo que cada um possui dentro de si. É chorar escondido, para permanecer fortaleza; é dizer não com o coração apertado. Ser pai é ser humano, é falhar, é errar também. É amor que continua, é luz que não se apaga, é eternidade afetiva. Ser pai é, sobretudo, entender o pai que tivemos.

Imagem de capa:  Ruslan Shugushev/shutterstock

Na minha vida tem gambiarras, reciclagens e improvisos

Na minha vida tem gambiarras, reciclagens e improvisos

Na minha casa (e vida) tem tanto improviso. Tem cadeira fazendo papel de criado mudo, tem garrafa de cerveja renascida em vaso de flor, tem poesia servindo de ombro amigo, tem travesseiro de aparador de dor.

Na minha casa tem muita gambiarra. Tem tijolo esticando o pé da mesa, tem caixote de papelão servindo de gaveta, tem quadros coloridos escondendo os ralados das paredes, tem um gato de energia entre minha alma e o seu sorriso.

Aqui em casa tudo é simples e criativo. Tem caixa de madeira virando prateleira de livros, tem vidro de azeitona transformado em castiçal, camiseta velha pra limpar o chão, tem esse espaço pequeno onde cabe um milhão de corações.

Aqui em casa tudo é reciclado, tudo tem dois lados. Do lixo orgânico a gente faz adubo, as sementes de frutas a gente planta nas caixas de suco, com a água da chuva a gente limpa o quintal. Do feijão de ontem a gente faz sopa, do sorriso solto a gente dobra o caldo e com o choro derramado a gente lava a alma.

Na minha casa tudo quer ser cíclico e fazer sentido. O que o mundo me oferece eu retribuo com carinho, eu doo para a terra vizinha o que se farta na minha e aceito de coração a ajuda bem vinda.

Imagem de capa: Photographee.eu/shutterstock

Auto boicote: quem te impede de ser feliz?

Auto boicote: quem te impede de ser feliz?

Sucesso profissional, felicidade ao lado de um companheiro, leveza ao lidar com o dia a dia são coisas desejadas por todos, certo? Nem sempre! A realização de um sonho, seja ele profissional, pessoal ou afetivo, assusta e provoca medo em mais pessoas do que podemos imaginar. Gera mudanças na vida o que, para muitos, é assustador e até paralisante.

Você já percebeu se existe alguma área na sua vida em que os seus comportamentos se repetem e que logo depois vem aquela sensação de que você poderia ter feito algo diferente para ter
um resultado melhor? Podemos citar vários exemplos disso:

Pessoas que quando começam a gostar de alguém fantasiam motivos para brigar e desgastar a relação; ou quando você está prestes a conseguir o emprego desejado, se atrasa para a entrevista; ou quando começa a emagrecer volta a comer muito e a engordar novamente. Será que é sempre falta de sorte ou coincidência? Provavelmente não! Trata-se de auto sabotagem ou auto boicote e são situações bastante comuns e, muitas vezes, difíceis de controlar.

O boicote ocorre quando nos prejudicamos em alguma área da vida, para dificultar ou impedir uma melhoria em nossas vidas. É um processo inconsciente, o que significa que não nos damos conta do que fazemos, apenas repetimos o comportamento de forma automática sem ter nenhum controle sobre nossas atitudes.

Por que isso acontece?

As nossas histórias e o meio em que vivemos, desde muito pequenos, são grandes responsáveis pela formação da nossa personalidade e também dos nossos traumas e medos. Carregamos essas marcas ao longo da vida sem sequer percebermos ou pararmos para refletir.

Alguns aspectos psicológicos podem ser observados naquele que se sabota. Geralmente possui uma forma deturpada de se ver, se considera diminuído frente aos outros, como se não fosse merecedor de ter uma vida melhor. Pode existir uma importante baixa na autoestima que, consequentemente, gera uma insegurança profunda.

O medo de fracassar e de não dar conta das próprias expectativas também costuma ser uma grande armadilha na realização de um sonho. Esse medo se torna tão grande que a pessoa prefere não se arriscar e nem tentar alcançar algum objetivo. Como são processos inconscientes e automáticos, quando a pessoa se dá conta a oportunidade já passou e o sonho não se concretizou.

Como sair desse ciclo?

Um primeiro passo e, muito importante, é parar e se observar. Refletir se há alguma questão que repetidamente não dá certo na sua vida e se você tem alguma responsabilidade nisso.

Uma estratégia interessante é conversar com um bom amigo, ele pode ser a pessoa que vai te sinalizar quando os comportamentos automáticos se repetirem e, dessa forma, te alertar em relação ao auto boicote. Aceite ajuda! Às vezes é somente isso que você precisa para conseguir ultrapassar os próprios obstáculos. É muito importante que, aos poucos, isso se torne consciente e que você consiga perceber se a história que está sendo traçada da sua vida é a realmente desejada.

Em determinadas situações se conscientizar de algo e modificá-lo pode ser muito difícil gerando uma paralisia ou uma ansiedade muito forte. Nesse caso é recomendável procurar um psicólogo para dar início ao processo psicoterapêutico de autoconhecimento, para que juntos você possa se libertar das suas próprias prisões.

Não permita que o medo ou a insegurança te paralise na busca de novos desafios e na realização dos seus sonhos. Viver é correr riscos, é se lançar nas oportunidades, pois somente assim é possível se libertar e ser feliz!

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Vou mostrando como sou e vou sendo como posso*

Vou mostrando como sou e vou sendo como posso*

Por Josie Conti

“Vou mostrando como sou e vou sendo como posso”*

A fresta da janela iluminada indica que o dia invadiu a noite e, mesmo com o quarto escuro, já não é possível negar a existência da luz que vem me dar bom dia.

O mesmo acontece quando nosso mundo mais íntimo e profundo recebe a visita da realidade; e a liberdade dos coloridos de nossas fantasias e máscaras interiores veste-se apressadamente com roupas normais, em busca de alguma adequação em um papel que, mediado entre o que achamos que devemos ser e o que conseguimos alcançar,  vai se mostrando e dando forma ao que apresentamos ao mundo.

“Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto”

E, então,  damos nossos passos e criamos nossos caminhos. Estabelecemos nossos laços e abraços. Nos enamoramos. Encantamo-nos com a vida; família; trabalho; amados e amigos.

Ah, mas as flores que nascem também têm espinhos e são nesses momentos que a ilusão da maturidade valsa num salão onde pensávamos tê-la como eixo inabalável.

Impaciência; intolerância; inseguranças e falta de empatia falam conosco em volume alto. E, num olhar mais atento, vemos que são com esses parceiros que dançamos de fato. A pessoa que se achava segura de si, então, sente ciúmes; o teórico e letrado se mostra analfabeto ao não conseguir articular um raciocínio que não vá de encontro ao seu; o grande escritor sente inveja de um colega cuja obra é também reconhecida e acaba por depreciá-lo sem necessidade; passamos pelas pessoas que sofrem e não lhes dirigimos o olhar.

“E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do “stop”
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu”

Não existe domínio completo e a ideia do domínio é o que mais nos engana, mas também é o que vem nos salvar. Salva-nos de nós mesmos ao nos dar uma ilusão de controle; e, no entanto, nos abandona em uma selva de mistérios onde não conhecer o poder da dúvida pode ser fatal.

A aceitação de nossa instabilidade e constante evolução e involução é a chave mestra que permeia o crescer. Nunca sabemos quando nossas carências e feridas internas serão tocadas. E, nessa jornada, nos tornamos vilões e heróis de nós mesmos. Damos e recebemos. Acertamos e erramos num sem fim de ações mais ou menos reflexivas.

“Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola”

Somos, no fim, o que podemos. Crianças que se tornaram adultos. Adultos que, por vezes, agem como crianças. Seres absolutamente imperfeitos em jornada. E, por que não dizer… Malandros que enganam, mas que também são enganados, pois oscilam entre a malícia e a ingenuidade. Por isso não há lugar para vaidades. Basta reconhecer.

Na versão abaixo Marisa Monte cantando com os Novos Baianos

*O título do texto é um verso da música Mistério do Planeta, composição de Luis Galvão e Moraes Moreira. O texto segue inspirado e agraciado com versos intercalados da canção. No final, uma versão da música gravada por Novos Baianos com participação de Marisa Monte.

Imagem de capa: Zolotarevs/shutterstock

Quando os parentes invadem nossa intimidade

Quando os parentes invadem nossa intimidade

– “Família é pra essas coisas” é um tema perigoso, pois permite que nossa privacidade seja devassada, criando situações embaraçosas e impedindo uma relação mais sadia e madura.

Somos educados para distinguir muito claramente os parentes dos amigos e das pessoas em geral. Desde crianças, aprendemos que a família é composta por criaturas sui generis que terão conosco um nível de relacionamento especial, governado por um código próprio, diferente daquele que empregamos no trato com estranhos. Com esses últimos, temos um relacionamento cordial e mais formal, respeitoso e que pressupõe reciprocidade nas atitudes. Por isso, nos ofendemos rapidamente quando somos invadidos em nossa privacidade.

Detestamos nos sentir explorados e reagimos com veemência frente a intromissões indevidas. A tolerância com desconhecidos é relativa e tendemos a evitar novos contatos com aqueles que não agem adequadamente. Às vezes, chegamos a brigar feio: outras vezes, apenas nos afastamos. Tudo depende do temperamento, da situação e também do tipo de pessoa com a qual nos indispomos. Fomos educados a “não levar desaforo para casa”.

A coisa é completamente diferente quando a gente se relaciona com parentes, especialmente os mais próximos. Pais, avós, irmãos, filhos, primos e tios diretos, todos se sentem à vontade para falar o que pensam a nosso respeito. Fazem isso sem inibições e, pior, sem ser consultados.

A invasão seria absolutamente intolerável se viesse de estranhos ou mesmo de amigos. No entanto, essa devassa à nossa privacidade passa a ser considerada uma “obrigação” do grupo familiar. Ai de nós, se ficarmos ofendidos! Não faltarão recriminações do gênero: “se estou te dizendo essas coisas, é para o seu bem. Sou sua mãe e me sinto com o direito de falar tudo o que eu penso, porque é óbvio que te amo”. Há variantes com igual intenção e significado, mudando apenas o grau de parentesco.

Em primeiro lugar, não é tão óbvio que a emoção predominante entre parentes seja o amor. Penso que, em muitos casos, a rivalidade e a inveja predominam entre irmãos, por exemplo, sentimentos positivos são abafados por uma relação tumultuada e por disputas de todo o tipo.

Até no “começo dos tempos” tivemos problemas: os dois primeiros irmãos foram Caim e Abel e um matou o outro. Rivalidade e inveja também imperam nas ligações entre pais e filhos, entre mães e filhas. Na maioria das vezes, o amor existe, mas não é a única emoção. Portanto, é arbitrário dizer que os laços que unem os parentes sejam sempre positivos e construtivos. Não ousaria afirmar isso nem mesmo em relação à minha mãe ou ao meu filho. Aliás, as mais importantes descobertas de Freud, tem a ver com a descaracterização do mito segundo o qual a família é um santuário das melhores e mais belas emoções.

Mas um aspecto comum entre parentes diz respeito à facilidade com que uns exigem coisas dos outros. Se nos falta dinheiro e temos que pedir emprestada uma certa quantia para um “estranho”, a dificuldade que sentimos é enorme. Agora, se for parente, não experimentamos o mínimo escrúpulo. E se tiver mais dinheiro do que a gente, chegamos a pensar que será “obrigação sua” nos tirar da condição precária na qual nos encontramos. Sim, porque “parente é pra essas coisas”.

É “óbvio” que pais mais ricos deverão ajudar o filho. Quando a situação se inverte, este manterá pais, avós, além de alguma tia solteirona… Não me parece nada tão claro nem tão óbvio. Acredito mesmo que tais regras – diferente das que orientam as relações em geral – foram criadas por pessoas oportunistas e, portanto, fracas e egoístas. Sua finalidade é comover os parentes mais generosos e transformá-los em provedores de tudo o que lhes falta. É mais fácil e, à primeira vista, mais esperto tirar dos outros o que não se conseguiu por esforço próprio.

“Com os parentes não é preciso ter cerimônia.” Também não concordo com essa afirmação. Ofender, brigar e depois fazer as pazes afeta qualquer relação. Deveríamos tratar com cuidados redobrados justamente as criaturas que nos são mais próximas.

Fonte indicada: Flávio Gikovate- página oficial

Imagem de capa: Refat/shutterstock

Efeito Borboleta

Efeito Borboleta

Tem vida que a gente escolhe, e tem vida que escolhe a gente.

Qualquer um já deve ter reparado nisso. De vez em quando pequenas mudanças no curso de um dia, ou minúsculas alterações no trajeto da rotina podem desencadear uma sequência de eventos que modificam tudo, como se a vida tivesse seu próprio roteiro, e você estivesse sendo empurrado por ventos fortes numa direção, escolhido para viver alguma situação.

Ainda não terminei a leitura do livro “O andar do bêbado”, de Leonard Mlodinow, mas corri as páginas, ansiosa por entender como o acaso determina nossas vidas. E me deparei com o chamado “Efeito Borboleta”, assim denominado pela física, que determina o impacto dos eventos aleatórios em nossas vidas. Eventos aparentemente inconsequentes que levam a grandes mudanças. O que se descobriu foi que “ínfimas alterações atmosféricas, como as causadas pelo bater das asas de uma borboleta, poderiam ter um grande efeito nos subsequentes padrões atmosféricos globais. Essa noção pode parecer absurda _ é equivalente à idéia de que a xícara de café que você tomou de manhã poderia levar a alterações profundas em sua vida. No entanto, isso é efetivamente o que acontece _ por exemplo, se o tempo gasto tomando a bebida fizer com que você cruze o caminho de sua futura mulher na estação de metrô, ou evitar que você seja atropelado por um carro que atravessou um sinal vermelho.” (extraído do livro “O andar do bêbado).

Assim, tem coisas que a gente não procura, elas nos acham. E nos surpreendem distraídos, em momentos de pouca expectativa e muita abertura ao acaso.

Foi por acaso que minha casa me achou. Por acaso que me perdi numa rua, três anos antes de morar na dita cuja, voltando do shopping num trajeto conhecido. Por que me perdi? Não sei, assim como não sei explicar que impulso me fez pedir transferência do emprego e esbarrar com meu futuro marido nos corredores do posto de saúde pra onde fui transferida.

O fato é que me perder numa rua num dia comum me levou a ler a placa “vende-se” num condomínio cujos cômodos estavam distantes de um dia fazerem parte da minha vida; mas três anos depois, desejando me mudar pra uma casa, lembrei-me do fato: eu perdida, indo pedir informações, aproveitando a pausa para conhecer a casa à venda, sem imaginar que aquelas paredes estavam me escolhendo muito mais do que eu a elas.

Hoje, morando nessa casa, quando penso na história, vem a ideia de que se não saísse aquele dia para comprar um vestido para o casamento do meu irmão, se não me perdesse na volta, se não decidisse estacionar o carro e entrar no condomínio, talvez estivesse morando em outro lugar neste momento. Em qualquer outro lugar que não seria tão perfeito em mim quanto a casa que me escolheu. A casa cujas escadas subi, sem me dar conta que repetiria aquela ação muitas e muitas outras vezes, com tanta gratidão.

São movimentos mínimos, como o bater das asas de uma borboleta, que determinam os desfechos de nossas vidas. E na maioria das vezes, não percebemos.
Desintegrados da matéria invisível que é feita nossa existência, pensamos calcular nossas ações esperando resultados coerentes, o que nem sempre ocorre. E não ocorre porque muitos outros eventos _ mínimos _ estão se somando ao nosso redor o tempo todo, e são esses eventos mínimos, como o tempo transcorrido entre uma xícara de café e outra, que determinarão grandes rumos. O que quero dizer é que esbarrar no grande amor tem muito mais chances de ocorrer quando você pega um engarrafamento na volta do trabalho, desvia o caminho por uma rua totalmente nova e decide tomar um café numa padaria no meio do trajeto pra aliviar o stress; do que quando contabiliza momentos, chega em casa na hora certa e se arruma toda (com cílios postiços e lingerie nova), esperando e torcendo para que o barzinho da moda lhe traga o grande amor.

Querer engravidar do marido, numa lua de mel programada de acordo com o período fértil e novena pra Santa Rita segue a mesma cartilha, quem nunca ouviu falar?
O fulano que sumiu da sua vida, as frases que você espera dizer quando ele se arrepender, a decisão de bater a porta na cara do bendito… sabe quando ele se arrependerá? Tem ideia?

A casa dos sonhos, o terreno pra construção, o ponto para o negócio… podem estar numa rua desconhecida, distante e aparentemente inatingível, mas se tiver que ser seu, o acaso lhe levará até lá.

De vez em quando é necessário deixar nossos rumos ao sabor do vento. Estar preparados sim, reconhecer as dádivas, também. Mas como os “lírios do campo”, entender que na maioria das vezes, a vida não dança ao sabor único de nossas intenções, e desejar não é o bastante para que a vida que escolhemos escolha a gente também.

Sendo assim, é impossível conhecermos ou controlarmos precisamente as circunstâncias de nossas vidas. Assim como o bater das asas da borboleta, pequenas diferenças levam a alterações imensas no resultado. E no que diz respeito a nossas conquistas particulares _ empregos, amigos, amores ou finanças_ todos devemos muito mais ao acaso do que somos capazes de perceber.

No fundo, a vida é incerta. E essa incerteza é o que dá sentido também, pois se fôssemos capazes de prever e controlar tudo, que graça haveria? Que possamos dar asas à intuição, pois essa sim, ainda que imprecisa, pode nos dar rumos muito além daqueles que supomos determinar ou controlar.

Imagem de capa: Tracy Siermachesky/shutterstock

Quando o ciúme prejudica as relações

Quando o ciúme prejudica as relações

O ciúme é um sentimento natural e está presente na vida de todos. Pode estar direcionado a um cônjuge, irmão, amigo, profissional no ambiente de trabalho. Ou seja, está presente em qualquer tipo de relacionamento. Por agora falaremos do ciúme presente na relação amorosa.

A vida a dois é muito desafiadora. Requer constante investimento, com carinho, confiança, atenção e afeto de ambas as partes. São duas pessoas diferentes, com histórias e experiências diferentes, mas que, por amor, desejo e, tantos outros sentimentos envolvidos, decidem compartilhar uma vida juntos.

Esse processo é delicado e, ao longo da convivência, são inúmeros os obstáculos que surgem e precisam ser superados. Certamente o ciúme é um deles! Trata-se de um sentimento forte que, dependendo da intensidade, pode se tornar destruidor de afetos e de relacionamentos.

É muito comum que o ciúme exagerado seja associado a um excesso de amor, ou até mesmo, como uma prova de amor. Expressões como: “Sinto muito ciúme de você porque eu te amo” são corriqueiras no nosso dia a dia. Mas, será que o ciúme realmente está relacionado com a quantidade de amor que se tem pelo outro? Então, a ausência dele significa falta de amor?

Por que sentimos ciúme exagerado?

O ciúme excessivo é uma emoção que está fortemente associada com a necessidade que uma pessoa tem de sentir-se incluída, ou seja, de pertencer a um relacionamento. Com isso, o medo de ser abandonado e a insegurança em relação ao afeto do outro se tornam reais e devastadores para o ciumento. E, movido por tais sentimentos, passa a controlar os passos do cônjuge com a certeza de que será traído ou desprezado a qualquer momento.

Essa insegurança tão intensa, comumente observada em casos de ciúme muito exagerado, pode ser decorrente de uma baixa autoestima. A pessoa se vê de forma distorcida da realidade. Ou seja, inferior, não merecedora do amor do outro, mais feia ou gorda, ou qualquer outra característica que seja importante para ela. Assim, mesmo que uma pessoa insegura tenha um relacionamento saudável com alguém que ela realmente goste, ela apresentará sérias dificuldades de acreditar que o seu cônjuge a ama de verdade. Com isso, passa a duvidar de tudo o que é dito e de qualquer pessoa que se aproxime dele.

É importante perceber que a possibilidade do abandono ou da exclusão, na maioria das vezes, é mais um fantasma imaginário que estimula a nossa insegurança do que algo real que tem motivos para ocorrer.

Em uma análise superficial da situação podemos pensar que o ciúme está sempre relacionado ao cônjuge, mas se pararmos para refletir mais cuidadosamente perceberemos que na realidade é algo associado quase que exclusivamente ao próprio ciumento, independentemente de quem for o seu cônjuge. O ciumento tende a repetir esse padrão de funcionamento psíquico em todos os seus relacionamentos. O que significa que o ciúme exagerado não está direcionado a uma pessoa em específico, mas sim à forma com que o ciumento tem de lidar com as suas relações afetivas.

A busca por um relacionamento mais saudável

Um pouco de insegurança pode ser considerada normal quando pensamos em um relacionamento conjugal. Afinal, o outro é alguém livre e diferente, capaz de tomar decisões a qualquer momento. Mas, perder o controle desse sentimento e tornar a vida a dois algo difícil e doloroso é gerar um sofrimento enorme e desnecessário na pessoa que você ama, mas principalmente em você mesmo!

Pare e reflita sobre os seus sentimentos e atitudes. Tente avaliar os reais motivos que o levam a exagerar quando se sente ameaçado em relação ao afeto do outro. Se você sentir necessidade de um autoconhecimento maior e mais profundo que o ajude a lidar com essas questões, procure a ajuda profissional de um psicólogo.

Buscar o equilíbrio entre nossas emoções é sempre a chave para que os nossos medos e inseguranças não nos dominem e destruam bonitas relações que poderíamos construir ao longo da vida. Confie em si mesmo e na sua capacidade de viver relacionamentos mais leves e plenos!

Imagem de capa: Daniel M Ernst/shutterstock

O inverso do amor, mais que o ódio, é a indiferença

O inverso do amor, mais que o ódio, é a indiferença

Muito se alerta, hoje, para a necessidade de se combater o ódio, no sentido de que o mundo carece de mais amor, de solidariedade, de olhares compreensivos em relação aos excluídos, aos miseráveis, às minorias. Atos terroristas e, numa proporção menor, atitudes preconceituosas e excludentes no cotidiano das sociedades acabam culminando em violência e tristeza.

No entanto, há que se atentar, da mesma forma, para os danos que a indiferença também traz, tanto no aspecto das relações humanas, quanto no âmbito da convivência como um todo. Embora silenciosamente, o “tanto faz” acaba por se tronar conivente com a ruína das relações interpessoais, com a propagação do ódio e das injustiças que permeiam o tecido social em todos os níveis.

O ódio enfrenta muitas frentes de combate, seja através de preceitos religiosos, de artigos, de campanhas solidárias, seja na escola, em casa, na rua. Frequentemente nos deparamos com filmes, reportagens e músicas, por exemplo, que pregam a necessidade de se prevalecer o amor sobre o ódio. A maioria de nós, inclusive, já extinguiu a expressão “eu odeio” de nosso vocabulário.

Por outro lado, a indiferença raramente é lembrada, mesmo que seja uma das piores atitudes que poderemos ter em relação ao que de ruim nos circunda. Obviamente, sermos indiferentes a quem nos queira atazanar, a quem fofoca, a quem tenta nos maldizer é extremamente benéfico à nossa saúde física e mental. Porém, sermos indiferentes às mazelas que assolam o meio em que vivemos é tão nocivo quanto o ódio.

Da mesma forma, tornarmos invisíveis as pessoas que caminham ao nosso lado, que sempre acreditaram em nós, com devoção sincera e amor de verdade, é por demais cruel, pois a ingratidão afasta de nós exatamente quem deveria caminhar junto, sempre, todos os dias de nossas vidas. Assim, o “tanto faz” nos esvaziará de amor, tanto daquele que brota aqui dentro, quanto daquele que colhemos junto a quem nos quer bem.

O perigo da indiferença, portanto, é fazer com que aquilo que deveria causar revolta, indignação e atitude combativa se torne banal, normal. Além disso, deixar de retornar afetividade a quem nos ama fará com que expulsemos de nossa convivência aqueles capazes de tornar nossa vida melhor e mais digna. A indiferença nos torna imunes à indignação frente ao que deve ser mudado e às trocas de afetividade, à partilha amorosa que tranquiliza a nossa alma.

O ódio pode até ser combatido, alcançado e neutralizado pelo amor, mas a indiferença é por demais vazia, inócua e sem peso, ou seja, nunca chegará a ser tocada pela magnitude curativa de qualquer sentimento amoroso. O amor não chegará perto desse vazio. E isso é o mais perigoso, porque o “tanto faz” é silencioso e silencia as nossas maiores qualidades, dentre elas, a nossa capacidade de compartilhar amor verdadeiro.

Imagem de capa: Andrey Arkusha/shutterstock

Hoje é um belo dia para começar a me fazer feliz

Hoje é um belo dia para começar a me fazer feliz

Cansei de esperar o dia em que a vida vai sorrir na minha direção. Nada acontece se eu não vestir disposição e otimismo. Amores não permanecem, instantes não são aproveitados e, o mais importante, não faço o meu próprio destino. Hoje é um belo dia para começar a me fazer feliz. Vou com tudo no agora. Depois vejo no que dá.

Calma, não perdi a cabeça. Também não acordei enxergando tudo um mar de rosas e pensando que somente coisas boas vão acontecer porque quero. Mas vejo que o meu caminho só mudará se eu mudar. E pra isso é preciso força, autoconhecimento e fé. Força no sentido de continuar perseguindo os meus sonhos. Autoconhecimento para saber lidar com quedas, decepções e partidas. Já a fé, bom, essa é para acreditar no universo de sentimentos que sou capaz de transbordar e transformar, todos os dias, para ser a minha melhor versão. A mais amiga, parceira e cúmplice que tenho vocação para ser.

Estou saindo fora de relacionamentos que não estão em dia com a reciprocidade. Quero pessoas bem-vindas do meu lado. Sim, é pura seletividade. Agora, seleciono e conto no coração os que realmente somam comigo. Os que sinceramente se esforçam para retribuir o carinho e o respeito que entrego. É de gente assim que prefiro estar perto, não adianta. Qualquer um ausente dessas atitudes, desculpe, passo.

Aprendi que o jeito mais simples da minha paz ser alcançada é colocando os pingos nos is dos meus inteiros. A minha plenitude não é negociável. E não adianta marcar datas no calendário, lançar invejas por cima dos ombros e nem fingir momentos quando se aproximar. Comecei o ano com a alma calibrada e pronta para seguir viagem. Hoje foi um belo para começar a me fazer feliz.

Imagem de capa: Pixabay

A vida é muito curta para reprimirmos nossas risadas.

A vida é muito curta para reprimirmos nossas risadas.

Eu me amarro em gente espontânea. É minha fraqueza, assumo. Eu amo aquelas pessoas que chegam na casa da gente e, ao tomarem o primeiro gole de café, dizem em alto e bom tom: “que café maravilhoso!” Eu não sei explicar a origem dessa afinidade com esse tipo de gente. Sei lá, me sinto à vontade, me sinto em casa, me sinto representada. Essas pessoas parecem abraçar a gente de todas as formas. Abraçam com a  forma de sorrir, com a generosidade que transmitem sem nenhum esforço e com olhos vibrantes.  São pessoas que conseguem  quebrar  o gelo em qualquer situação, até mesmo nos velórios.

Seres desprovidos de frescura, que  estão se lixando para essa preocupação doentia com o politicamente correto. São pessoas que não negam a própria essência. Criaturas gostosas,  que transbordam autenticidade. Sorriem daqueles protocolos chatos e que só servem para “engessar” a  gente. São verdadeiros mestres em falar ou agir da forma como a maioria gostaria, mas não tem coragem.  Abrem portas,  marcam,  encantam e,  de quebra,  acabam levando as demais pessoas  a repensarem o modo como encaram a vida. Elas entendem que a vida é curta demais para modular a altura da risada ou para reprimir aquela vontade de falar: “que delícia!”

Há alguns anos, eu estava numa festa e presenciei uma cena marcante. Uma mulher muito bonita e bem vestida, dançando lindamente com seu par. Num dado momento, o sapato dela começou a incomodar. Então, ela parou no meio da dança, arrancou os sapatos dos pés e continuou dançando descalça mesmo. Daí a pouco, muitas outras mulheres fizeram o mesmo. Aquela mulher me inspirou respeito e admiração. Na verdade, ela despertou um encantamento na maioria dos convidados. Fiquei, simplesmente, encantada. Obviamente, criei coragem e retirei os meus saltos e me soltei também…aprendi rapidinho, sou boba não.

Eu  amo gente que usa e abusa das exclamações. Gente que tem, sempre, na ponta da língua, expressões do tipo: “ai que comida maravilhosa!”…”Que lindo(a)!”. Gosto de gente que expressa o que está sentindo. Seja na cama, na mesa, numa loja de calçados, no meio da rua, por onde passar. Gente, já pensou a tragédia que deve ser namorar uma pessoa apática? A criatura não demonstra nada, fica ali controlando até a respiração. Ah, tenha a santa paciência, né? Me poupe! Coisa mais broxante! Você precisa ter um retorno do que você está proporcionando para se motivar ou mudar a estratégia, se é que me entendem…rsrs.

Falando em namoro, penso que, se for para abraçar, que abrace com vontade. Se vai beijar, beije com entrega. Ah, faça o favor de não economizar carinhos e carícias, eles não custam dinheiro. Por fim, a criatividade existe para ser explorada. É desanimadora aquela previsibilidade chata. Ou seja, a pessoa já sabe de cabo a rabo do que vai acontecer quando vai namorar. Ninguém  merece, né?

Imagem de capa: Dubova/shutterstock

Valorize quem te enxerga quando você se sente invisível.

Valorize quem te enxerga quando você se sente invisível.

Um dos melhores conselhos que podemos levar conosco diz respeito à necessidade de cultivarmos as nossas amizades mais especiais, de amarmos de volta quem nos ama verdadeiramente, porque com eles poderemos sempre contar, sem sobra de dúvida. Mesmo assim, muitas vezes acabamos mantendo perto de nós quem não faz a mínima questão de estar ali, quem não soma nada, de quem, na verdade, deveríamos nos afastar.

A vida hoje se constitui, em grande parte, de valores ilusórios, em que as aparências são supervalorizadas, em detrimento da essência, dos sentimentos, prevalecendo o material sobre o espiritual. Com isso, somos atraídos pelo que as pessoas possam oferecer em termos de status, popularidade, conforto material, relegando a segundo plano o que nos é mais caro: a afetividade, o sentimento, a verdade de cada um.

E, assim, muitas vezes nos esquecemos das amizades sinceras, partindo em busca das mais interessantes; não enxergamos quem nos ama com verdade, pois procuramos alguém cuja imagem seja mais condizente com a estética ideal; perdemos grandes oportunidades de nos realizarmos profissionalmente, enquanto ansiamos por empregos rentáveis. Quanto mais nos apegarmos ao externo, mais nos perderemos daquilo que somos de fato, dentro de nós.

Da mesma forma, vamos nos afastando de quem nos faz bem, de quem nos abre sorrisos sinceros, de quem completaria nossa vida em todos os sentidos, na dor, no contentamento, no amor. Já disse Exupéry ser o essencial invisível aos olhos, posto que tudo de que nossa alma precisa não se compra, pois não tem preço. E, sem que alimentemos a nossa essência, permaneceremos vazios e incompletos, ainda que estejamos rodeados de luxo.

Por isso é tão difícil amar. O amor não permanece no que não é verdadeiro, não se sustenta no que é apenas aparente. O amor precisa de essência, daquilo que não se compra, não se comercializa, não se corrompe. O amor não se veste com grifes, tampouco acompanha relacionamentos interesseiros, ou se impressiona com corpos perfeitos. Amor é entrega e reciprocidade, amor vem de dentro e ali se instala, na sinceridade de corações transparentes.

É preciso que consigamos manter junto de nossas vidas gente que faz a diferença, que acredita em nós, dando-nos as mãos para comemorar, para consolar e para nos guiar em direção à luz, ao amanhecer de nossa alma. É preciso que nos acomodemos nos ambientes em que, mais do que conforto, haja sorrisos sinceros e admiração mútua, onde podemos ser e aparentar tudo o que temos dentro de nós e mesmo assim obter aceitação sincera.

Nada nos fará mais falta na vida do que tudo aquilo que pudemos ter sem precisar comprar, porque é isso que nos acalentará durante as duras despedidas que a vida nos obriga a vivenciar. Porque então o amor vencerá tudo, até mesmo a dor da morte.

Imagem de capa: Reprodução

Fale com moderação. A ressaca moral costuma ser implacável.

Fale com moderação. A ressaca moral costuma ser implacável.

Bom senso, educação, cortesia, camaradagem, empatia.

Falar com alguém, sobre alguém, para alguém, tudo isso requer minimamente um código de comunicação bem conhecido de todos, onde há limites que vão se definindo conforme o assunto e os personagens envolvidos.

Não há tema que seja tão livre e tão independente que possa abrir mão dos preceitos básicos de um bom diálogo.

Falar apaixonadamente sobre determinado assunto é empolgante, contudo, há o momento de pausar e conceder a voz à outra parte.

Defender um ponto de vista é dos melhores usos da palavra, mas se a defesa vem acompanhada da tirania, os argumentos empobrecem e perdem o valor.

Contar algo de alguém para outro alguém requer responsabilidade e uma forte resistência aos floreios. Se afrouxar,transforma-se em fofoca.

Falar somente para agradar, puxar saco, tentar vantagens, é fazer uso inconsequente da oportunidade de se posicionar.

Ofender, humilhar, maltratar, caluniar, é a palavra em sua expressão mais vil, quando deixa de ser um elemento de ligação e se transforma em dardo, até mesmo em bala de canhão.

Quem fala nem sempre se dá conta. A necessidade de falar é maior do que o dever de calar, ou mudar o discurso.

Tem gente que ganha no gogó. As palavras assertivas e fortes invadem chutando a porta, sem defesa para os argumentos sensatos.

Tem gente que perde a vez de falar. Não consegue organizar as ideias, passa a vez e permite que outra voz represente seus interesses.

Para todos os usos e abusos da palavra, estão de prontidão as devidas consequências.

Uma noite inebriante de palavras de sentidos e intenções tortos, é seguida de enorme ressaca moral.

Ressaca moral é aquela coisa horrível que eu falei e em seguida me arrependi.

É aquela verdade que eu revelei injustamente, aquele fora que disparei, a saraivada de ofensas que não economizei.

Ressaca moral é o enjôo causado pela insuportável embriaguez de achar que eu posso falar tudo o que bem entender, sobre quem quiser, a quem eu quiser, do jeito que eu quiser.

Ressaca moral é o veneno saindo pelos poros, a vergonha rosnando no espelho, a vontade de ter calado a vontade de falar sem pensar.

Mas, a palavra não volta!

Imagem de capa: Luis Molinero/shutterstock

Nada em demasia faz bem à alma… Nem juízo!

Nada em demasia faz bem à alma… Nem juízo!

Tem aqueles dias que você abre os olhos pela manhã e parece que o vento trouxe boas novas. Você senta na sua cama e uma alegria insuspeita e solta brota em algum lugar lá dentro, fazendo você acreditar que esse será O DIA!

E essas levezas súbitas no peito acontecem assim mesmo, desse jeitinho, sem que as tenhamos planejado, sem que as tenhamos desejado na noite anterior, antes de dormir, sem que seja possível controlá-las.

E quer saber? A gente precisa é perder esse hábito azedo de ficar questionando as coisas boas que tão raramente aparecem assim, de graça, de repente, de surpresa. A gente precisa arranjar algum jeito de passar pelos dias, semanas ou períodos difíceis e escuros, sem fazer deles uma espécie de tatuagem que gruda por dentro, incapacitando a gente de se livrar da dor.

Ahhhh, sim! Tem dias que a gente acorda do avesso mesmo. Ou é o mundo que parece invertido. Todo mundo andando de cabeça para baixo e a gente tentando ver algum sentido na nossa história. E esses dias são igualmente inevitáveis e imprevisíveis. E a gente acaba se apegando a eles, porque é da nossa natureza conceder uma carga maior de memória e laço às dores, tristezas e dificuldades.

Acontece que os dias lindos e os dias tenebrosos têm uma coisa em comum: eles passam! Eles acabam! Eles não duram para sempre! E o que vai determinar o impacto deles na nossa alma, é o espaço que decidirmos conceder às suas incursões. Ambos podem ser admitidos como uma visita breve ou um hóspede permanente. A decisão é nossa!

E sabe, não é privilégio seu, ou meu, errar na dose das coisas. Muitos de nós têm mesmo essa queda para o exagero, os desejos desmedidos, o além da conta. Há quem exagere na arrumação, há quem acumule coisas, há quem gaste mais do que ganha, há quem acredite que pessoas possam ser possuídas como objetos, há quem exagere no chocolate, na bebida, na atividade física (sim, isso existe!).

Cada um de nós é que sabe onde é que dói e onde é que é bom ser tocado. E a todo momento somos bombardeados com padrões de comportamento, aparência física ou pretensa normalidade.

E, de verdade, nada em demasia faz bem à alma… Nem juízo! Porque o juízo além do básico, deixa a gente seco e endurecido. Juízo exagerado tira da gente a capacidade de se encantar com a vida, de aceitar as imperfeições, nossas e do outro. Gente cheia de juízo, é também cheia de razão, de ideias encaixotadas e apegos tolos. Juízo é bom, mas perdê-lo de vez em quando é fundamental!

Imagem de capa: solominviktor/shutterstock

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