Saiba como Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006, descreve seu encontro com a literatura.

Saiba como Orhan Pamuk, Nobel de Literatura em 2006, descreve seu encontro com a literatura.
Orhan Pamuk, escritor turco e Prêmio Nobel de Literatura em 2006, relembra sua trajetória de vida e reflete sobre o momento em que percebe que não poderia ser um típico homem de negócios.
Filho de uma família de engenheiros, Pamuk desperta para si mesmo como alguém que “precisa ficar sozinho em uma sala sonhando”. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2011.

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Para Carl Sagan, nosso planeta de vaidades é apenas um “pálido ponto azul”

Para Carl Sagan, nosso planeta de vaidades é apenas um “pálido ponto azul”

A imagem, mostrada no vídeo, foi enviada à Terra pela sonda Voyager 1, em 1990. Devido a essa foto, o escritor norte-americano Carl Sagan criou o livro “Pálido Ponto Azul” em 1994. Vale a pena ver, um tributo ao eterno Carl Sagan e uma conscientização onde nós estamos:

“A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma ultima olhada em direção de casa.

De saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas maquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul.” Por Carl Sagan.

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OU AMOR OU PAZ OU FELICIDADE, por Fabrício Carpinejar

OU AMOR OU PAZ OU FELICIDADE, por Fabrício Carpinejar

Há sempre uma confusão entre amor, felicidade e paz, como se fossem sinônimos.

Um equívoco é achar que no amor terá paz e felicidade. Ou na paz terá felicidade e amor. Ou na felicidade terá paz e amor.

Esqueça a mania de combos e pacotes.

Eu vejo que são ideais que não estão interligados. Há um contingente treinado para o amor, uma parte para a paz e ainda mais um grupo feito para a felicidade.

A opção surge de condicionamentos, costumes e crenças ao longo da vida, às vezes inconscientes.

Certo é que escolheu um partido sentimental na adolescência, que definirá a natureza de seus relacionamentos dali por diante.

Pode ser a separação dos pais que gera uma obsessão pelo amor ou um temperamento arisco que propicia um apreço pela paz ou a troca constante de residência que cria uma simpatia pela felicidade (improvisar e se aventurar, sem prestar contas).

São fórmulas diferentes de existência, softwares de alma diferentes.

O que provoca o maior confronto no casamento ou namoro.

O casal pode ser formado por aquele que mantém o ideal do amor e aquele que deseja a paz. E eles não percebem o conflito desde a nascente e o desgaste penoso de comunicação.

Enquanto ela – filiada ao amor – não tem nenhum problema em se entregar, em ser dependente, em estar perto e realizar planos conjuntos, ele – ligado à paz – somente aspira à tranquilidade, garantir seu espaço e proteger seus gostos individuais.

A primeira reparte seus mínimos acontecimentos, arruma surpresas e inventa agenda romântica, o segundo é mais quieto e lacônico, pretende permanecer mais na sua rotina, e não entende a costumeira insistência de mais e mais encontros. Por sua vez, a primeira também não compreende a frieza de seu namorado, que prefere se manter distante alguns dias e horários.

Não participam da mesma conversa e entram em choque. Um não é melhor do que o outro, apenas não captaram a essência antagônica.

Presos a um consenso de que se gostam, não identificam os objetivos divergentes. Estão ligados pela convivência, mas separados conceitualmente.

Os ideais de vida são opostos, fazendo com que ambos briguem com frequencia e tenham a sensação de que amam errado (jamais agradando ao seu par).

As vontades, absolutamente naturais e soberanas, em contato com a companhia, assumem contornos problemáticos de exigências.

Quando as reclamações são por mais tempo lado a lado, a pessoa é do time do amor. Quando as reclamações orbitam pelo respeito e maior espaço, a pessoa claramente está vinculada ao time da paz. Quando as reclamações decorrem por mais leveza e menos drama, a pessoa pertence ao time da felicidade.

Um exemplo é quando sua namorada adoece no domingo. Quem é da ala do amor, mesmo que tenha acordado alegre e disposto a passear, vai se solidarizar a ponto de não pensar em mais nada. O abatimento dela influenciará o seu temperamento. Mudará suas pretensões para amparar, confortar e cuidar. Quem é da ala da paz, seguirá com seus planos, o incidente não alterará seu humor, acredita que ela melhorará e se mostrará atento em caso de alguma necessidade. Quem é da ala da felicidade, ainda se sentirá ofendido pelo transtorno, já que ela estará estragando sua possibilidade de aproveitar o final de semana.

Sorte é de quem é do amor e encontra alguém do amor, é da paz e encontra alguém da paz, é da felicidade e encontra alguém da felicidade. Daí, com menos esforço, amor, paz e felicidade são capazes de vir juntos.

Fabrício Carpinejar

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As esculturas surrealistas do artista francês Antoine Jossé

As esculturas surrealistas do artista francês Antoine Jossé

“A arte é para mim um prolongamento da vida; Os artistas são as testemunhas de seu tempo, que eles traduzem através de sua sensibilidade e prática. ” Antoine Jossé

Antoine Jossé é um pintor e escultor surrealista francês.

Antoine Jossé no Facebook

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Uma Arte, poema de Elizabeth Bishop citado no filme “Para sempre Alice”

Uma Arte, poema de Elizabeth Bishop citado no filme “Para sempre Alice”

Num dos momentos mais emocionantes em Still Alice (Para Sempre Alice)*, a protagonista, Dra. Alice Howland, interpretada pela atriz Julianne Moore, faz um discurso contando que está com Alzheimer e cita Uma Arte, poema de de Elizabeth Bishop.

Elizabeth Bishop, Uma Arte

tradução Jorge Pontual

A arte da perda é fácil ter;
por tanta coisa cheia de intenção
de ser perdida não dá pra sofrer.

Perca algo todo dia. Perder
chaves aceite, junto com a aflição.
A arte da perda é fácil ter.

Treine perder muito sem se deter:
lugares e nomes, a comichão
de viajar. Nada fará sofrer.

Perdi jóias da mamãe. E dizer
que perdi casas que amei de paixão!
A arte da perda é fácil ter.

Perdi duas cidades. E o prazer
de um continente na palma da mão.
Sinto falta mas não dá pra sofrer.

– Até perder você (a voz, o ser
que eu amo). Não devia mentir. Não,
a arte da perda se pode ter
embora pareça (diga!) sofrer.

***

Sobre o filme:

Para sempre Alice- Sinopse

A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguística. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia  (Kristen Stewart) se aproximam.

Para Sempre Alice – Trailer Legendado

Veja também nossos outros arquivos sobre Alzheimer.

Indicação da matéria Luiz G. Fragoso

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Cinco músicas que são poemas ou cinco poemas que são músicas

Cinco músicas que são poemas ou cinco poemas que são músicas

Por Alan Lima

Alguns ouvintes mais exigentes reclamam que aos ouvidos de hoje, chegam músicas de letras ruins. Embora seja difícil mensurar a canção ruim, dada a variedade do gosto humano. Certo é. Tem canção que aguça de tanta poesia e estas cinco são algumas delas. É possível que você leia algumas cantando, de tão forte a associação com a melodia. Tendo ou não a presença dos acordes, elas revelam conteúdo bem trabalhado, ora simples, ora complexo,  mas sempre relevante.

Músicas que merecem uma observação atenta aos versos e a harmonia de palavras, textos que explicam desde o universo dos Livros até o valor do Lencinho Branco, aquele objeto guardado de uma história de amor e traição.

Livros, Caetano Veloso.

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas

Envergo mas não quebro, Lenine.

Se por acaso pareço
Que agora já não padeço
De um mau pedaço na vida

Saiba que minha alegria
Como é normal, todavia
Com a dor é dividida

Eu sofro igual todo mundo
Eu apenas não me afundo
Em sofrimento infindo

Eu posso até ir ao fundo
De um poço de dor profundo
Mas volto depois sorrindo

Em tempos de tempestades
Diversas adversidades
Eu me equilibro, e requebro

É que eu sou tal qual a vara
Bamba de bambu-taquara
Eu envergo mas não quebro

Eu envergo mas não quebro

Não é só felicidade
Que tem fim na realidade
A tristeza também tem

Tudo acaba, se inicia
Temporal e calmaria
Noite e dia vai e vem

Quando é má a maré
E quando já não dá pé
Não me revolto ou nem queixo

E tal qual um barco solto
Salvo do alto mar revolto
Volto firme pro meu eixo

E em noite assim como esta
Eu cantando numa festa
Ergo o meu copo e celebro

Os bons momentos da vida
E nos maus tempos da lida
Eu envergo mas não quebro

Eu envergo mas não quebro

O Velho Francisco, Chico Buarque.

Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou

Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor

Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou

Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Freqüentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor

Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou

Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né
Acho que o moço até
Nem me lavou

Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou

Socorro, Arnaldo Antunes

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento
Encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva

Lencinho Branco, Marisa Monte

Guardo o lencinho branco
Que esqueceste ao me abandonar
Manchado assim pelo carmim que
Tirei dos meus lábios quando te beijei

Guardei teu lencinho, para me lembrar
O beijo que nele deixamos ficar
E ao ver os meus lábios
Choro a recordar
Que depois partiste pra não mais voltar

Guardo o lencinho branco
Que esqueceste ao me abandonar
Manchado assim pelo carmim que
Tirei dos meus lábios quando te beijei

Lenço branco que ilusão
Foi aquele louco amor
Tudo agora é solidão, ele já não volta mais

Meu lenço amigo, comigo ficou
Fiel companheiro, não me abandonou
Lencinho querido, que hei de fazer
Se aquele amor não posso esquecer?

A tarde estava fria
Frio também ficou seu coração
E ao compreender que ele partia
No branco lencinho
Chorei sua traição

Escutar é complicado e sutil: Rubem Alves e a escutatória

Escutar é complicado e sutil: Rubem Alves e a escutatória

O primeiro parágrafo do texto “Escutatória” de Rubem Alves é bastante conhecido por ter sido amplamente divulgado nas redes sociais. Entretanto, o conteúdo que segue complementado a linha de raciocínio do autor carrega em si a beleza da arte de observar e de verdadeiramente ouvir ao outro. Preparem-se para a leitura de um texto de extrema delicadeza e sensibilidade. E, se esse texto causar algo dentro de vocês, não é necessário dizer nada, o silêncio será a melhor resposta.

Josie Conti

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ESCUTATÓRIA

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.

Filosofia é um monte de ideias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:

“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as ideias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais.

São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.

E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves

 

As fobias são, precisamente, maneiras de se proteger contra a angústia.

As fobias são, precisamente, maneiras de se proteger contra a angústia.

Vocês já se questionaram qual o motivo de alguns transtornos mentais serem mais presentes em algumas épocas que em outros? O que acontece quando não lidamos com determinadas situações que nos fazem sofrer? Existem maneiras de simplesmente ignorar e não entrar em contado com o que nos angustia?

No texto abaixo, a psicóloga e psicanalista Mariana Anconi discorre sobre algumas das patologias do medo que assolam a contemporaneidade: as fobias. Fala também sobre a maneira como as mesmas podem ser abordadas de maneira apenas parcial em tratamentos que se restringem a farmacologia e de como, através do processo psicanalítico, é possível percorrer o caminho que  permite a transição do estado de angústia para o contato e compreensão do desejo original.

Façam uma boa leitura

Josie Conti

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Sofrimento, ansiedade e angústia: Questões importantes, dilemas atuais

Por Mariana Anconi

A questão das (psico)patologias na contemporaneidade envolve aspectos muito mais complexos que a própria subjetividade humana em si, neste caso, abrange sintomas produzidos socialmente, condizentes com dilemas atuais vividos na sociedade, principalmente relacionados ao corpo e imagem. As subjetividades contemporâneas caracterizam-se pelo apagamento da alteridade, reduzindo o homem à dimensão da imagem.

As formas de padecimento não são inéditas, mas integram e denotam ideais predominantes na contemporaneidade: a exaltação sem medida de si mesmo e da existência como imagem estética. No consultório, é cada vez mais frequente queixas de pacientes relacionadas a dificuldade em atender os padrões exigidos/impostos na sociedade, tendo como efeito crises de ansiedade e/ou angústia, em outros casos, desencadeando a sintomatologia do pânico, por exemplo, considerada uma das expressões do mal estar na atualidade.

Deve-se considerar a estreita relação da angústia com as fobias. Nelas, o sujeito tenta de todas as formas se livrar da angústia ligando-a a uma situação ou objeto específico que passa a ser evitado sempre que possível. As fobias são, precisamente, maneiras de se proteger contra a angústia. Parece algo contraditório, mas para o psiquismo é melhor temer algo que se sabe (medo de altura, por exemplo), para poder evitá-lo, do que não saber e não poder se defender.

O ponto chave dessa questão é: A angústia indica uma forma de medo generalizado, sem um objeto específico, sem nome, indefinido. Assim, desenvolvendo uma fobia, o medo torna-se localizável e é possível ao sujeito tentar evitá-lo afastando-se do objeto temido. Na clínica: pacientes nos procuram angustiados, mas não sabem por qual motivo, não fazem ideia do que os angustia. Quando têm ataques de pânico, não sabem porque motivo ficam assim ou o que desencadeia a crise.

Antes de priorizarmos a importância do trabalho da escuta analítica, há de se cautela para algumas vertentes “biologizantes” do discurso psiquiátrico que não reconhecem essas patologias para dotá-las de uma escuta do sujeito – muito ao contrário, com o apoio crescente da indústria psicofarmacológica – trata-se de tentar apagá-las, ignorando o fato de que a angústia é parte daquilo que faz o homem propriamente humano.

Não se trata aqui de uma crítica a psiquiatria em geral, pois é inegável o benefício dos medicamentos na vida destes pacientes, na medida em que amenizam os sintomas que chegam a ser terríveis, desesperadores e por vezes incapacitantes, como uma pessoa quando não consegue sair de casa para trabalhar por medo; mas é fundamental que o paciente não deposite apenas no remédio a reorganização de sua vida, pois a medicação em si apaga o sintoma, mas não promove transformação do sujeito.

No campo da escuta analítica, a psicanálise é a única que não evita a angústia, ela possibilita ao sujeito uma escuta que tem por efeito dar-lhe a chance de suportar sua angústia para, então, atravessá-la e chegar ao desejo. O atravessamento é diferente do evitamento, ele se dá no processo analítico, o paciente passa a se implicar no seu sofrimento, a se questionar sobre o que acontece com ele, a falar, a procurar dar sentido, a partir da sua história, ao que parece não ter sentido. Procura-se criar com o paciente condições para que ele possa subjetivar a condição de desamparo.

Nota da Conti outra: o texto acima foi publicado com a autorização da autora.

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Mariana Anconi

Psicóloga/Psicanalista (CRP 06/105685) e Acompanhante Terapêutica. Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública (FSP-USP). Mestranda do Instituto do Psicologia da USP (IP-USP). Pesquisadora em intervenção precoce com bebês (Metodologia IRDI). Atende em consultório na cidade de São Paulo e desenvolve trabalho de consultoria em escolas e creches.

Contato: (11) 98400-7849/ [email protected]/ www.marianaanconi.com

Entenda mais sobre as três fases da doença de Alzheimer

Entenda mais sobre as três fases da doença de Alzheimer

A doença de Alzheimer é tipicamente descrita em 3 fases, principalmente para uma melhor compreensão didática do tema.

A ilustração baixo apresenta um resumo da evolução da doença.

Entenda mais sobre ela e compartilhe com pessoas que possam aproveitar o material.

Você também pode acessar nossos arquivos sobre Alzheimer e pesquisar mais sobre o tema.

contioutra.com - Entenda mais sobre as três fases da doença de Alzheimer

(Imagem via Neurociências e aprendizagem)

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Ética no cotidiano, com Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho

Ética no cotidiano, com Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho

Se antes a ética era um campo de conhecimento de estudiosos e especialistas, como filósofos, médicos e advogados, atualmente esta palavra entrou no vocabulário do nosso cotidiano e invadiu os noticiários. Será que as coisas que nos levam à indignação como a corrupção e a violência são mais frequentes nos dias atuais? Ou: elas sempre existiram e nós é que ficamos mais exigentes em relação a boas regras de conduta para uma convivência em sociedade? O significado de ética sempre foi o mesmo ao longo da história? Ela é um conceito universal? Afinal, o que é ética? Estas questões são discutidas pelos filósofos Clóvis de Barros Filho e Mario Sergio Cortella neste café filosófico. Gravado em 29 de maio de 2014.

ética no cotidiano, com mario sergio cortella e clóvis de barros filho from instituto cpfl | cultura on Vimeo.

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“E se Obama fosse africano?”- por Mia Couto

“E se Obama fosse africano?”- por Mia Couto

O texto “E se Obama fosse africano?” foi escrito por ocasião da primeira eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, momento em que diversas lideranças africanas comemoravam a ascensão de um negro a um dos cargos mais cobiçados e mais poderosos do mundo, chamando-o de “irmão”.

Neste contexto, Mia questiona e coloca à mostra a hipocrisia dessa “irmandade” propagada em terras africanas, onde, segundo o autor, existe muitas vezes a incapacidade de enxergar os seus “próprios racismos e xenofobias”.

Para concluir o texto, Mia afirma que a vitória de Obama é mais do que uma real demonstração de fraternidade: é uma convocação à luta.

Nara Rúbia Ribeiro

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E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto.

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

contioutra.com - "E se Obama fosse africano?"- por Mia CoutoNa noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: “E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes.

O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado ‘ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”.

O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder – a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples e os trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos.

Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política.

Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente.

É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Jornal “SAVANA” – 14 de Novembro de 2008

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Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

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Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

O choro é o limite!

O choro é o limite!

Por Gustl Rosenkranz

Ontem observei uma cena que mexeu comigo, não por ter sido nova, pois é algo que vejo muito. A cena mexeu comigo porque ela ocorreu em um momento de reflexão sobre o sofrimento que observo em pessoas adultas, que carregam consigo as pedras de sua infância. E foi isso o que vi: uma mãe colocando uma pedra enorme na mochila de seu filho, um menino travesso e robusto com idade entre dois e três anos. O menino queria continuar ali no chão, brincando, mas a mãe queria ir embora. A mãe chamava, o menino corria. E quando a mãe conseguiu segurar o menino, ele se deixou cair, escorregando nos braços da mãe como se fosse sabão. A mãe, já sem paciência, o puxou severamente mais uma vez para cima, sem que isso adiantasse, pois o menino voltou a escorregar para o chão. E a coisa foi se repetindo até a mãe perder totalmente a postura, dando um berro na criança, uma bronca enorme que fez o menino estremecer. Ele parou de repente com a malcriação, assustado, olhou sério para a mãe e começou a chorar. Até aí tudo bem, e até compreendi a reação da mãe, pois menino teimoso pode realmente torrar a paciência de qualquer um, mas o que veio depois foi algo que, em minha opinião, não poderia ter acontecido: o menino chorava, praticamente se rendendo, dizendo à mãe que a bronca doeu (levar bronca da mãe sempre dói!) e pedia na verdade para ser pego no colo e consolado. Mas, ao invés disso, a mãe prosseguiu dando bronca, cada uma mais severa que a outra. Parecia-me que quanto mais a criança chorava, mas perversa a mãe ficava. Ela chegou até a dizer que a criança merecia mesmo chorar e sofrer, já que havia sido desobediente. E lá continuou essa mãe, tascando mais e mais pancadas verbais no menino…

Confesso que me assustei, por mais compreensível que tenha sido o comportamento da mãe, já que ela é humana e limitada como todos nós. É mais que compreensível que ela tenha perdido a paciência e partido para a bronca, tentando educar seu filho num momento de desespero pedagógico, já que o menino não obedecia de forma alguma, mas percebi que o que ocorreu depois do choro deixou de ser natural. O instinto de mãe (isso vale igualmente para o instinto de pai!) deveria tê-la feito parar com a agressão, pegando a criança no colo e consolando no instante em que ela chorou. É claro que existem crianças “tiranas”, que choram para azucrinar e chantagear os pais, mas esse é outro caso. Normalmente uma criança chora porque está com dor, com medo, assustada ou simplesmente pedindo consolo. No caso acima, tive a impressão de que a criança chorou por ter se assustado e porque a bronca da mãe havia doído.

Recordei-me então de outra cena, que observei entre cachorros e que mostra que um comportamento natural é bem diferente do comportamento da mãe na história acima: vi um cachorro adulto interagindo com dois filhotes seus. Os filhotes eram dois “traquinas”, que pulavam em cima do cachorro adulto e aprontavam o tempo todo, sem que ele (o adulto) perdesse a paciência. Mas, certa hora, um dos cachorros foi longe demais, mordendo a orelha do cão adulto, que não gostou da história, rosnando e alertando o filhote sobre o limite ultrapassado. O filhote se assustou e correu, mas, ao invés de parar, voltou e tentou morder novamente, ignorando ainda algumas “rosnadas”, até que o cachorro adulto resolveu encerrar aquilo, levantando-se, pulando em cima do filhote e segurando-os com as patas dianteiras. Nesse momento, o filhote, assustado e provavelmente com dor, deu um grito, chorando. Isso fez com que o cachorro adulto parasse de imediato com a “bronca” e voltasse para seu lugar, deitando-se novamente.

Não dá para comparar animais com gente completamente e não acho que mãe ou pai deva se comportar como se comportam os cachorros, mas esse exemplo mostra o que quero dizer com comportamento não natural: o cachorro não quis maltratar o filhote. Ele só quis educá-lo e mostrar-lhe o limite. No momento em que o filhote chorou, se rendendo, mostrando que entendeu a bronca, o cão adulto parou imediatamente com a agressão, por saber que o filhote não chora à toa, por saber que ali estaria seu limite de “educador”. Se observamos outros animais na natureza, percebemos: animais às vezes também são duros com seus filhotes, mas nunca mais do que o necessário, buscando educar e não maltratar. E o choro é o limite. Quando o filhote chora, a punição acaba. Já os humanos, pelo menos muitos de nós, agem diferente, prosseguindo com o castigo, com a bronca, com a repreensão, mesmo depois da criança ter chorado, mesmo durante o choro da criança. E tem gente que ainda vai mais longe: apesar de vivermos em pleno século XXI e já sabermos que nada jamais justifica o uso de violência física contra crianças, há quem vá além da bronca verbal e bata nos filhos, continuando a bater mesmo com as lágrimas correndo no rosto da criança.

 

Para mim, tal atitude de uma mãe ou de um pai nada tem a ver com educação. Mesmo que não seja essa sua intenção, esse adulto age com perversidade, projetando na criança seu cansaço, sua frustração e suas limitações. Isso não é justo e só serve para quebrar a alma dessa criança, principalmente quando vira rotina, se repetindo diariamente e marcando a relação entre pais e filhos.

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Não, não se castiga uma criança que chora. Repito: o choro é o limite. Uma criança chorando não precisa de bronca e castigo, mas sim de amparo e de colo. É assim que o pai ou a mãe sinaliza à criança que quer seu bem, que deu a bronca por amor e por querer educar e não para maltratá-la. Mas se a bronca/o castigo continua mesmo depois do choro, isso tem outro significado para a criança: de que não pode confiar no adulto, pois esse não hesitará em pisoteá-la assim que ela mostrar fraqueza, quebrando a confiança entre pais e filho, colocando em sua mochila um peso que essa criança terá que carregar consigo talvez por uma vida inteira. Essa quebra de confiança pode fazer com que a criança se torne um adulto infeliz.

Repito mais uma vez: o choro é o limite! Portanto, tanto faz o que seu filho ou filha aprontou ou deixou de aprontar, na hora em que ele ou ela chorar, pare com a bronca, pare com repreensão e pegue sua criança nos braços, dando amor, carinho econforto. E você verá que isso educa mais que qualquer bronca, por mais bem dada que seja.

Quem matou Odete Roitman?: sobre a vitimização humana

Quem matou Odete Roitman?: sobre a vitimização humana

Por Tatiana Nicz

Se você tem mais de trinta anos deve lembrar-se bem sobre a comoção que a novela “Vale Tudo” causou em torno do mistério da morte de uma das protagonistas a inesquecível vilã Odete Roitman da grande Beatriz Segall. Mesmo sendo televisionados em época de Natal e Ano Novo, os últimos capítulos da novela atingiriam níveis de Ibope nunca vistos. Durante 13 capítulos todo mundo (inclusive os próprios atores) queria saber quem era o assassino, de quem era a culpa.

Acho essa analogia fantástica para entender no comportamento humano um processo muito curioso de vitimização, acho que talvez um pouco mais presente nos brasileiros. Nesse processo, assim como na tal novela, o foco sempre é achar o culpado. Não importa se Odete era vilã, não importa se foi feito justiça, poucos lembram quem a matou e o motivo, mas é importante saber de quem é a culpa. E assim transfere-se toda a responsabilidade e raiva para o culpado.

E ninguém nos ensina que achar o culpado não resolve muita coisa, ou melhor, talvez para um crime desse tamanho até resolva, o culpado deve ir preso, a justiça é feita; mas em uma esfera maior a pessoa continua morta, a dor continua doendo, o luto existe então, a meu ver, não resolve tudo.

E ninguém nos conta que viver à procura do culpado para nossos males e encontrando-o não resolve muita coisa. Aos vivermos à procura de culpados e usando desculpas para nossos atos falhos nos colocamos sempre na posição de coitado. E coitado não resolve problemas. Repare em quantas vezes contamos nossas histórias como se fossemos as únicas vítimas dos fatos, em como somos injustiçados. Dessa maneira a culpa é do governo, o Brasil que é ruim, do fulano que brigou comigo.

Assim gastamos uma vida toda usando desculpas que o nome já diz: des-culpa, aquilo que nos isenta de responsabilidades e justifica nossa posição de vítima. E por fim, ninguém nos ensina que nada de belo germina em campo inundado por pena. As doenças neurológicas, talvez por ser o campo mais “abstrato” da medicina, são um prato cheio de onde brotam as desculpas. Transtornos de personalidades, traumas de infância, nossos pais, nossa família, nossos amores, todos culpados por sermos assim tão quebrados.

Fato é que traumas todos nós temos, dores também. Vou mais além, não existe uma criação cem por cento saudável do ponto de vista da psicologia. Então se quando crianças e adolescentes somos demasiadamente imaturos para entender que podemos aquebrantar qualquer padrão que nos for condicionado; quando adultos deveríamos entender que temos responsabilidade plena e controle sobre nossos atos e sobre como reagimos às pequenas (e grandes) violências da vida.

O papel de vítima é confortável e a sociedade é preparada para te colocar nele todos os dias. Dessa vez, se servir de consolo à alguém, não é (apenas) nossa culpa: não somos instruídos em nenhum momento de nossa vida a construir o outro através de sua dor.

Olhamos para o deficiente como “coitadinho” e o próprio nome já carrega uma conotação totalmente equivocada do que é ser portador de uma necessidade física; olhamos para o miserável como “coitadinho” e novamente o nome traz a condição. Olhamos para o paciente como coitadinho; aquele que deve ficar à espera, à deriva, o pobre coitado.

Olhamos para quem vive a doença ou a morte de um parente ou ente amado com pena, aprendemos a olhar para tudo que nos é diferente como “coitado”. E quanto à nós mesmos: muitas vezes nos sentimos coitados. E enquanto sofremos e nos sentimos injustiçados, assim como na novela, o foco é achar culpados e, quando não conseguimos achá-los entre nós, culpamos um Deus todo poderoso que nos pune.

Colocar-nos e colocar aos outros no papel de vítima não nos engrandece como seres humanos, não nos agrega, apenas nos desconecta. O Universo, ao contrário do que a Igreja diz, não funciona através de sistema de recompensas. Tudo que você quer você precisa buscar e posso ser “a melhor” pessoa do mundo e ainda assim ser assaltada na esquina da minha casa, Deus não vai dizer: ela está se comportando, vamos poupá-la (ou recompensá-la). Pelo menos não da maneira como imaginamos.

Ao analisar os grandes líderes em qualquer área de atuação percebi uma característica em comum: pró-atividade. Não existem lamúrias, não existe processo de vitimização. Um problema não é visto como um obstáculo e sim como oportunidade. Stephen Hawking talvez seja um dos maiores exemplos disso. Suspeito que esses líderes que tanto nos inspiram já nasceram com esse entendimento do que é ser proativo, provavelmente ninguém lhes ensinou porque a sociedade não é preparada para isso, é um talento nato. Conheço gente assim, que não se lamenta, gente que faz. Mas qualquer um pode ser assim, basta querer.

Podemos começar observando e mudando nossos discursos, parando de nos lamentar, de usar desculpas, justificativas, de colocar a culpa no outro. Assumindo a nossa parcela de responsabilidade nos conflitos que vivemos, entendendo que somos menos importantes do que pensamos e que o mundo não está contra nós. Precisamos parar de ser reativo à tudo, esse comportamento é tão recorrente que existem expressões já relacionadas como “empurrar com a barriga” ou “quando a água bate na bunda”. A mudança que queremos ver no mundo depende primeiramente da nossa própria mudança de atitude.

Mas tenha cuidado, pois esse processo pode ser bem doloroso. Ao sair do posto de vítima você terá que entrar em contato com muita coisa que você faz-de-conta que não enxerga, por isso que nos colocamos em lugar de vítima em primeiro lugar. Acredito que é uma defesa nossa. É duro e trabalhoso assumir a nossa parcela de responsabilidade por tudo que acontece em nossas vidas e, principalmente, pelo que fizemos com ela. É muito mais fácil concentrar nossas energias e focar em “quem matou Odete Roitman”.

E esse aprendizado também pode começar colocando nossos dramas em suas devidas proporções. E para isso precisamos de comparativos, que é outro comportamento destrutivo que deveríamos abandonar, mas vamos dar um passo de cada vez. Portanto, enquanto somos treinados para desejar aos outros: alegrias, sucesso, realizações, paz; não contribuímos para seu crescimento como ser humano. A alegria só existe quando sabemos o que é dor; paz, sucesso, realizações são conquistas diárias. E um drama só ganhará proporção quando passamos por situações realmente dolorosas.

Então, você pode me achar meio cruel, mas eu desejo à você leitor e aos demais dor, muita dor. Dramas verdadeiros, daqueles que você deita a cabeça no travesseiro tentando entender como irá vencer o próximo dia, daqueles que você muitas vezes se pergunta como dará conta. Daqueles que já vemos em demasia no mundo, basta olhar com mais atenção. Precisamos aprender a sofrer pelo que é dor de verdade, por nós e pelos outros. Porque o sofrimento puro nos humaniza, nos conecta, nos torna melhores. E para isso primeiramente precisamos saber proporcionar a dor, entender o que é drama “de verdade”. Para mim é o que está relacionado com palavras como morte, doença grave e miséria – de todos os tipos.

Se entendêssemos tudo isso, entenderíamos também como engrandecemos conflitos que na verdade são pequenos, aprenderíamos que um coração partido, uns quilos a mais, a falta de dinheiro para comprar algo que talvez não nos seja tão necessário, a briga com o amigo ou parceiro, tudo isso perde força diante do que realmente nos dói. Aprenderíamos que quando somos proativos e não reativos a vida ganha muito mais valor. Que somos donos de nosso destino e isso é algo realmente grandioso.

Sim, vale tudo, se quisermos seremos sempre Odete, mas ao contrário da personagem ainda estamos vivos e é preciso entender que enquanto vivos podemos escolher com mais cuidado nossas pequenas mortes diárias.

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Jeffrey T. Larson realça a vida e a beleza das “mulheres entre lençóis”

Jeffrey T. Larson realça a vida e a beleza das “mulheres entre lençóis”

“Mulher. Marcas, suores, lençóis amarrotados, vestes ao chão, pele sensível e grande frisson. É tudo que eu tenho a dizer.”  Ana Carolina

Força e delicadeza. Trabalho e sensualidade. O artista americano Jeffrey T. Larson realça a vida e a beleza das “mulheres entre lençóis” e prova que a poesia é o mais rico fruto dos olhos de quem vê, independente do contexto.

 

contioutra.com - Jeffrey T. Larson realça a vida e a beleza das "mulheres entre lençóis"

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Página oficial do artista Jeffrey T. Larson

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