Escolas do Espírito Santo levam meditação e inteligência emocional às salas de aula

Escolas do Espírito Santo levam meditação e inteligência emocional às salas de aula

À medida que crescemos, percebemos quanta coisa a vida nos cobra sem termos aprendido na escola. No dia a dia, raízes quadradas, celomas e mol dificilmente aparecem, mas desafios envolvendo inteligência emocional acontecem o tempo todo. Por que, então, isso não é ensinado às crianças?

No Espírito Santo, um programa chamado MindEduca quer levar para as salas de aula o conhecimento científico que engloba o desenvolvimento humano, com o objetivo de estimular o aperfeiçoamento pessoal. Nesse pacote estão inclusos a melhora da atenção e da aprendizagem, a diminuição do stress e a conscientização de qualidades como a amorosidadee o desapego.

Essa formação abordará a relação da pessoa consigo mesma, com suas ações no mundo e com a vida. Tem, ainda, o propósito de estimular a transformação pessoal de educadores em torno dos seguintes aspectos: emoções, atenção, convivência e processo decisório. Proporcionando, assim, a mudança de comportamento em seus contextos de vida“, afirmou Regina Migliori, consultora em Cultura de Paz da Unesco que está colaborando com o projeto.

Após o sucesso de um piloto realizado em suas escolas do município de Serra, em 2014, o projeto será implementado aos poucos nas escolas das redes estadual e municipais do Espírito Santo, começando por uma etapa 100% dedicada aos educadores.

Fonte indicada: Hypeness, Foto CC Wari Om Yoga

7 coisas que eu prometi nunca dizer quando tivesse uma filha, mas digo todos os dias

7 coisas que eu prometi nunca dizer quando tivesse uma filha, mas digo todos os dias

Por Stael F. Pedrosa Metzger

Toda mulher sabe quais foram as palavras que prometeram nunca dizer às suas filhas. Basta lembrar-se do tempo anterior à chegada delas, quando cada uma de nós era uma filha. Quais eram as palavras ou frases que mais nos irritavam, magoavam, diminuíam ou desestimulavam?

Um dia prometemos que quando tivéssemos uma filha nunca diríamos tais coisas a elas e nos pegamos todos os dias dizendo quase que com as mesmas palavras.

Nem tudo que prometemos jamais dizer é necessariamente ruim a nossas filhas, mas algumas frases sim. Felizmente nunca é tarde para rever nossos atos e decidir quais devemos continuar e quais descontinuar.

Continue a dizer às suas filhas

1. Você não é todo mundo

Quando você era jovem, ficava irritada quando sua mãe lhe dizia isso. Hoje lembrar à sua filha que ela não é todo mundo e não deve fazer algo porque todo mundo faz pode ser bastante benéfico a ela, embora ela odeie ouvir.

2. Vá dormir cedo

O sono é benéfico para o corpo e a mente. Dormir cedo e acordar cedo traz disposição e evita ver o que não vale a pena na TV, nem ficar na internet ociosamente.

3. Não é boa amizade para você

As mães têm uma visão além da face meiga e das palavras doces. Se você sente que determinada pessoa não é boa companhia ou influência para sua filha, diga! Por mais que ela odeie, é necessário ser dito. Talvez você se lembre de quando sua mãe lhe disse isso (e você odiou) e mais tarde se provou que ela estava certa. Então diga logo mais uma vez, antes que você tenha que dizer aquela frase ainda mais odiada: “Eu não avisei?”.

4. Você não vai com essa roupa

Jovens adolescentes podem não compreender o conceito de que a elegância não é mostrar o corpo. A objetificação da mulher é nociva e o conceito de que sua influência no mundo deva passar pela sedução não eleva a mulher, pelo contrário, a torna um ser inferior. É necessário que as mães influenciem suas filhas a valorizarem suas capacidades, talentos e ternura acima dos atributos físicos. Isso certamente contribuirá muito para que um dia elas não se sujeitem a inúmeras cirurgias plásticas ou aplicação de produtos insalubres em seus corpos para agradar a quem não as ama e nem valoriza.

Pare de dizer às suas filhas

1. Isso é coisa para homens

Ainda que suas palavras tenham a intenção de proteger sua filha, elas não devem expressar tal distinção. Atualmente a linha entre o que é “coisa de homens” e “coisa de mulher” é muito tênue e, ao expressar tal conceito, pode estar impedindo sua filha de alçar voos mais altos. Quanto mais ela aprender sobre as coisas de homens e mulheres mais equipada ela estará para sua independência. Mulheres podem pilotar aviões ou lutar boxe sem perder sua feminilidade.

2. Você não faz nada direito

“Aprendi que as pessoas esquecerão o que você disse e esquecerão o que você fez, mas jamais esquecerão como você as fez sentir-se”.

Maya Angelou

Quando você diz tal frase a uma pessoa, especialmente em formação, você pode deformar a maneira em que ela vê a si mesma para sempre. Ela nunca ousará fazer algo novo ou desafiador e nem considerará bom o que fez, pois suas palavras estarão sempre presentes acusando-a de não fazer nada direito.

3. Porque você não é igual a…

Se você prometeu nunca dizer isso à sua filha, é porque sabe o quanto magoa. Jamais a compare com outras garotas. Deixe-a ser o ser único e maravilhoso que ela é. Para uma menina ou adolescente tentando encontrar seu lugar no mundo, qualquer tipo de comparação pode ser uma fonte de frustrações. Seja apenas o exemplo do que você gostaria que sua filha se tornasse.

“Seja sempre a melhor versão de si mesmo e não a cópia de alguém”.

Judy Garland

Fonte indicada: Família

Sobre raízes e asas

Sobre raízes e asas

Por Cristina Souza

Tem gente que não se importa em ficar a vida inteira no mesmo lugar, tem gente que não consegue nem ficar oito horas em uma mesma sala. Tem gente que nasceu com raízes, outros com asas. Você é do tipo que vai ou do que fica?

O mundo está dividido em diversos tipos de pessoas: as que gostam mais do mar, as que preferem campo. As que esperam o inverno, as que aguardam com afinco o verão. E existem também as que ficam e as que vão.

Não é fácil ser do tipo que fica, nem do tipo que vai. Por vezes, quem fica sente vontade de ir, já quem vai, sente uma imensa vontade de ficar. É difícil entender que não há possibilidade de ter asas e raízes ao mesmo tempo, ou então jogar a âncora na areia e içar velas. Você faz ou um ou outro. Algumas raras pessoas conseguem mudar, afinal estamos em eterna mudança, mas é difícil aquietar algo que já vem dentro da gente.

Aqueles que ficam sentem-se bem assim, e abandonar – pessoas, lares, cidades, lembranças, é algo muito difícil. Quando a vida os incita a ir, eles preferem continuar ali. Por vezes, são chamados de acomodados – anos no mesmo emprego, anos com a mesma pessoa, nunca deixou sua cidade. E a vida, e o mundo? Esses questionamentos podem mexer com eles, atiçar algo em seus corações, mas quando olham a sua volta, apenas entendem. Podem ir, desde que a condição seja voltar, rapidamente. Eles querem ficar.

Ah, as pessoas que vão… Deixem-nas ir. Não significa que elas não amem, não sintam saudades, não se importem – apenas o coração delas é grande demais, e elas precisam sempre estar em expansão. Quando enclausuradas, sofrem muito. Não cabem em escritórios, não cabem em ternos, não cabem em si – movimento é a palavra de suas vidas. Alguns acham que esse tipo de pessoa é indecisa, inquieta e até frustrada, pois parecem estar sempre em busca de respostas. Não. Na verdade, pessoas que vão não se importam tanto com as respostas – seu combustível é feito pelas perguntas. Questionam o tempo todo, pensam o tempo todo, observam o tempo todo. Encantam-se pela quantidade de maravilhas que o mundo pode oferecer, seja em uma cidade da moda como Paris ou num boteco abandonado de esquina.

Acontece, por vezes, de pessoas que ficam se apaixonarem por pessoas que vão. Daí a vontade de içar e ancorar, criar raízes e voar, correr e ficar parado. Eu poderia aqui escrever conselhos, poderia dizer fica, vai, espera, aceita. Mas nada posso dizer. O amor é movimento, energia, é vida pulsando dentro e fora de nós, e exatamente por isso é muito pessoal. A única coisa que me arrisco em falar é: Sinta. Se permita. Amplie o sentimento, não guarde para si. E aceite o tipo de pessoa que o outro é também. “É difícil aprisionar os que tem asas”, disse o poeta. Também é difícil arrancar os que são feitos de raízes.

Artigo escrito por Cristina Souza, publicado originalmente aqui.

Este é o país mais próspero do mundo

Este é o país mais próspero do mundo

O Legatum Prosperity Index revelou uma lista com os países do mundo mais prósperos e com melhores condições.

Este é um ranking anual desenvolvido pelo Legatum Institute – uma instituição internacional para a promoção da prosperidade, baseada em Londres – que avalia vários fatores, como: Economia, Empreendedorismo e Oportunidades, Autoridade, Educação, Saúde, Segurança, Liberdade Pessoal e Capital Social.

Estas oito variáveis foram analisadas em 142 países, tentando assim perceber os seguintes aspetos:

Economia – Políticas macroeconómicas, Satisfação e expectativas económicas, base e crescimento económico e eficiência do setor financeiro;

Empreendedorismo e Oportunidades – O ambiente empresarial, o incentivo à inovação e a igualdade de oportunidades;

Autoridade – A existência de um governo eficiente e responsável, eleições e participação política livre e respeito pela lei;

Educação – Acesso, qualidade e capital investido na educação;

Saúde – Existência de cuidados básicos, boas infraestruturas e cuidados de prevenção;

Segurança – Nacional e pessoal;

Liberdade Pessoal – Tolerância entre a população;

Capital Social – Coesão e envolvimento social e redes familiares e entre comunidades.

Portugal ocupa a 62ª posição na parte de Economia, a 31ª no Empreendedorismo e Oportunidade, 32ª na Autoridade, 46ª na Educação, 31ª na Saúde, 18ª na Segurança, 16ª na Liberdade Pessoal e 47ª no Capital Social, colocando o país na 27ª posição no ranking geral.

Já o Brasil  ocupa a 43ª posição na parte de Economia, a 53ª no Empreendedorismo e Oportunidade, 62ª na Autoridade, 84ª na Educação, 53ª na Saúde, 85ª na Segurança, 41ª na Liberdade Pessoal e 75ª no Capital Social, colocando o  país na  54ª posição no ranking geral.

Aqui fica o top 10:

1 – Noruega;

2 – Suíça;

3 – Dinamarca;

4 – Nova Zelândia;

5 – Suécia;

6 – Canadá;

7 – Austrália;

8 – Holanda;

9 – Finlândia;

10 – Irlanda.

Para ver o ranking original, clique aqui.

Você encontrará o Brasil na posição 54. 🙁

Fonte indicada: Sol

Tenho medo de te olhar nos olhos porque devo-te tanto

Tenho medo de te olhar nos olhos porque devo-te tanto

Tenho medo de me olhar nos olhos porque devo-me tanto. Sou ainda aquela menina que sente o peso do mundo nos ombros. Sou aquela menina que sonhava com a igualdade de oportunidades no mundo todo, que almejava talvez mais do que alguma vez poderia alcançar. Sou aquela menina para quem ainda custa acreditar que tanta maldade pode existir num único ser-humano mas que se recusa a acreditar que esse alguém não pode mudar.

Sou a menina que sonha mudar o mundo pela força de um papel e de uma caneta, mas também pela voz e o exemplo. A mulher que hoje vos escreve deve muito a essa menina cheia de sonhos. Deve ao mundo mais entrega, mais empenho, mais esforço e dedicação ainda que seja só para mudar o mundo de alguém.

contioutra.com - Tenho medo de te olhar nos olhos porque devo-te tanto
Quero um dia olhar nos olhos da menina que fui e dizer: Eu cumpri! Fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser uma pessoa melhor e despertar bons sentimentos nos outros. Fui fiel a mim mesma, às minhas convicções e procurei concretizar todos os meus sonhos…

Quero um dia olhar nos olhos da menina que fui e dizer: Eu cumpri! Fiz tudo o que estava ao meu alcance para ser uma pessoa melhor e despertar bons sentimentos nos outros. Fui fiel a mim mesma, às minhas convicções e procurei concretizar todos os meus sonhos…

Devo-te o mundo Marline. Devo-te a tranquilidade e a força necessária para realizares os teus sonhos, a força de vontade, a coragem e a resiliência sem os quais de nada vale sair do sofá. A mulher que sou hoje está a deixar os dias passarem por si com medo de viver, medo de estar, medo de ser e sentir-se tal e qual como é.

Marline menina: ensinaste-me como ser feliz e grata todos os dias e por isso quando a tristeza começou a querer apoderar-se dos meus dias quis voltar ao passado para recuperar-te e voltar a ser o que até então tinha sido: feliz! Não consegui. E pensei, durante muito tempo, que estava a travar uma luta interna para trazer de volta aquela pessoa que fui. Não estava ou melhor, já não estou. Travo uma luta interna sim mas não para ser a Marline de ontem, mas para ser quem sou hoje. A Marline de hoje, de agora, que está ausente de si mesma. Mas sobre isto escreverei noutra oportunidade.

À Marline menina, à Marline mulher e à Marline do futuro quero apenas dizer que tudo farei para não vos desiludir. E não vos desiludir é não esquecer o meu propósito no mundo, o meu sentido de contributo. A minha maior alegria, o meu maior reconhecimento, seria um dia alguém dizer: O mundo hoje está melhor porque tu viveste. E aí sei que tudo terá valido a pena.

Marline Pereira

1 De Novembro de 2015.

 

Cartas de Amor, por Rubem Alves

Cartas de Amor, por Rubem Alves

Leio e releio o poema de Álvaro de Campos. Oscilo. Não sei se devo acreditar ou duvidar. Se acredito, duvido. Duvido porque acredito. Pois foi ele mesmo quem disse – ou melhor, o seu outro, o Fernando Pessoa – que ele era um fingidor. “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas…”

Tenho no meu escritório a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço, Mulher lendo uma carta, de Johannes Vermeer (1632-1675). Uma mulher, de pé, lê uma carta. O seu rosto está iluminado pela luz da janela. Seus olhos lêem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram, a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso. De tão absorta, ela nem se dá conta da cadeira, ao seu lado. Lê de pé. Penso ser capaz de reconstituir os momentos que antecedem este que o pintor fixou. Pancadas na porta interromperam as rotinas domésticas que a ocupavam. Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão. Pela simples leitura do seu nome, no envelope, ela identifica o remetente. Ela toma a carta e, com este gesto, toca uma mão muito distante. Para isto se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas por demais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem, ao tocarem a mesma folha de papel. Barthes cita estas palavras de Goethe:

Por que me vejo novamente compelido a escrever? Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel…

Volto ao Álvaro de Campos. Será esta a razão do ridículo das cartas de amor – o descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente querem fazer? Pois o propósito explícito de uma carta é dar notícias, e é por isto que elas são feitas de palavras. Mas o que elas realmente desejam realizar está sempre antes e depois da palavra escrita: elas querem realizar aquilo que a separação proíbe: o abraço. Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora de lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala do desejo, a dor da ausência, a nostalgia pelo reencontro.

Aquela carta fez tudo parar. A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa apenas, a luz, o lugar onde as palavras ficarão luminosas. Que lhe importa a cadeira? Esqueceu-se de que está grávida. Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que a abraçaram. Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano.

Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que você fique sozinha…”. É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: “Como será ela agora? Existirá ainda?”. Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi… Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio…

“Ainda bem que o telefone existe”, retrucarão os namorados modernos, que não mais têm de viver o amor no espaço das ausências. Engano. Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial: o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. Num telefonema a gente nunca diz aquilo que se diria numa carta. Por exemplo: “Eu ia andando pela rua quando, de repente, vi um ipê-rosa florido que me fez lembrar aquela vez…”. Ou: “Relendo os poemas de Neruda encontrei este que, imagino, você gostará de ler…”.

A diferença entre a carta e o telefone é simples. O telefone é impositivo. A conversa tem de acontecer naquele momento. Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta. E, uma vez terminado, os dois amantes estão de mãos vazias.

Mas a mulher tem nas mãos uma carta. A carta é um objeto. Se não tivesse podido recolher-se à sua solidão, ela poderia tê-la guardado no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefonema não pode esperar. A carta é paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poderá ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta contra o rosto – poderá haver coisa mais terna? Uma carta é mais que uma mensagem. Mesmo antes de ser lida, ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presença sensível de uma felicidade invisível…

Estes pensamentos me vieram depois de ler as cartas de um jovem cientista, Albert Einstein, à sua amada, Mileva Maric’. Foram elas que me fizeram ir ao poema do Álvaro de Campos: ridículas. Todas as cartas de amor são ridículas. Acho que os editores pensaram o mesmo. E como desculpa para o seu gesto indiscreto de tornar público o ridículo que era segredo de dois amantes, escreveram uma longa e erudita introdução que transformou as ridículas cartas de amor em documentos da história da ciência. Valem porque, misturadas ao ridículo de que os amantes se alimentam, se encontram pistas que dão aos historiadores as chaves para a compreensão das “fontes do desenvolvimento emocional e intelectual dos correspondentes”. Não sabendo o que fazer com o amor (ridículo), colocaram-nas na arqueologia da ciência.

Foi então que o quadro de Vermeer me fez ver a cena que as cartas escondem. E a mulher com a carta na mão e uma criança na barriga? Ela bem que poderia ser Mileva, grávida de uma filha ilegítima, que foi dada para adoção, e sobre quem nada se sabe. A criança foi dada. Mas as cartas foram guardadas. E que razões poderia ter uma pessoa para guardar cartas ridículas? O seu rosto absorto e os lábios entreabertos nos dão a resposta: para aqueles que amam as ridículas cartas de amor são sempre sublimes.

Volto ao poema do Álvaro de Campos e encontro lá o que faltava para fechar a cena: “Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor são ridículas”.

Sobre a vida e os arrependimentos que carregamos

Sobre a vida e os arrependimentos que carregamos
 

O amor antigo- Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo- Carlos Drummond de Andrade

Uma homenagem do CONTI outra para Maria Aparecida Cruz Silva, nossa querida leitora.

O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

Fonte indicada:Drummond Memória Viva

A tirania do hábito e a liberdade para as borboletas

A tirania do hábito e a liberdade para as borboletas

É difícil viver à revelia, sem algumas regras, horários, repetições? Sim, extremamente difícil. A gente se perde fácil, se desorganiza, se atropela, esquece prioridades e viaja nas “desnecessariedades”. Isso porque não há um norte, nada para guiar nem contestar nem nos frear.

Todo mundo precisa de um mínimo de orientação para o dia, para a casa, o trabalho, para a vida. E esse mínimo é particular, cada qual sabe do seu.

Pouco adianta levantar as bandeiras da liberdade integral e querer a todo custo se libertar de horários e convenções, porque definitivamente não funciona. E não funciona de cara, naquele momento em que você sai de casa e vai comprar o pão, mas a padaria está fechada porque o padeiro resolveu ter o mesmo direito que o seu, à liberdade de só fazer o que bem entender. Há regras a seguir, melhor que joguemos a favor delas.

Tenho uma amiga que vez por outra tira um dia e o chama de: liberdade para as borboletas. E ela nem telefone atende. É encantadora a maneira como ela cultiva esse dia, curtindo tudo o que quer fazer, passeando, comendo em lugares diferentes, conversando com as pessoas… ela realmente consegue a mágica de se desligar do hábito e entrar no mundo das borboletas. O problema é sair dele, mas isso já é outro assunto.

Já eu, sou escrava do hábito, assumida, chateada por nem poder contestar o título que carrego. Sou totalmente ligada em horários, não atraso nunca, faço o dia render ao máximo e descompenso quando algo me tira da rotina. Bom para mim? Não, bom para o meu trabalho, bom para quem me aguarda pois não os faço esperar, bom para a organização da casa em que vivo, bom para meus gatos que estão sempre bem atendidos, mas… é muito hábito para pouca vida, é muita produção para pouca diversão, muito resultado para pouca paixão.

O hábito é um tirano. Ele pega uma pessoa e a transforma em máquina. Maquina de fazer repetições. O hábito é um bruxo. Ele transforma as tarefas em desafios, o tempo em inimigo, as pausas em culpa, os anseios em frescura.

O hábito coloca a gente dentro da roda de um hamster e continua a dizer: – Faça tudo da mesma maneira, ou a roda parará e você não saberá mais como agir.

Por tempos eu acreditei nisso, mas agora, mais velha, vejo-me apegar um pouquinho mais pela teoria das “borboletas” de minha amiga. Neste momento, estou tentando fazer um acordo com o tirano. Cumpro o necessário e ele me libera para curtir o inesperado!

Os 12 ingredientes fundamentais para o amor maduro – Aaron Beck

Os 12 ingredientes fundamentais para o amor maduro – Aaron Beck

Os sentimentos de ardor substituem a intensidade do fascínio (o pensamento obsessivo sobre o ser amado, a idealização, o intenso desejo de estarem juntos, os altos e baixos, os picos e os vales, o júbilo quando estão juntos e o desespero quando estão separados) com o correr do tempo. Mas, a menos que se rompa, o laço amoroso persiste. Casais casados há mais de quarenta anos me disseram que se sentem tocados emocionalmente quando se veem, como ocorria há décadas.

desvelo é acreditar e deixar que o parceiro saiba que “você é importante para mim. Preocupo-me com o que aconteça a você. Vou zelar por você”. Dois grandes aspectos desse desvelo estão em se preocupar com o bem-estar do companheiro e estar pronto para ajudá-lo ou protegê-lo. Ao contrário da governanta assalariada, que tem um trabalho a fazer, você ajuda o seu companheiro porque gosta dele e porque sente algo especial por ele. Assim, a preocupação e a afeição são essenciais para o desvelo.

Expressões de afeto são formas óbvias de fomentar sentimentos de ardor no companheiro, tão óbvias que discuti-las pareceria supérfluo. Entretanto, com o evoluir do casamento, os gestos de afeto como abraçar, cochichar palavras de amor cada vez mais se limitam ao quarto de dormir. E, nos casamentos em conflito, podem desaparecer por completo.

aceitação tende a ser incondicional no relacionamento amoroso maduro. Você consegue reconhecer as diferenças nas ideias sobre religião, política, e sobre as pessoas sem que se façam críticas ásperas nos pontos de divergência; você consegue aceitar as fraquezas do companheiro sem agir como juiz. Essa aceitação é profundamente tranquilizadora. Dá a cada um uma sensação de aceitação de si mesmos. Se o casal puder se aceitar totalmente – seja o que for – , pode relaxar e baixar a guarda. […] Claro que aceitação não significa fechar os olhos para as falhas do outro, mas, numa atmosfera de aceitação, você consegue elaborar com o seu companheiro tudo o que vem contra e interfere no relacionamento. Note que se o amor for condicionado ao “bom comportamento”, você nunca conseguirá a intimidade que é possível quando o amor é gratuito e o bom comportamento, uma meta elaborada pelos dois juntos.

Empatia é a capacidade de sintonizar com os sentimentos do parceiro – de experimentar, em certa medida, o seu sofrimento ou prazer, a sua dor ou alegria. Quando as pessoas se atormentam com preocupações ou fortes emoções, sejam de tristeza ou de euforia, podem temporariamente perder a faculdade empática.

Sensibilidade às preocupações e aos pontos vulneráveis do parceiro é elemento essencial quando se quer reduzir os sofrimentos desnecessários. Embora algumas pessoas tenham mais sensibilidade do que outras, trata-se de uma qualidade que pode ser cultivada. Se o parceiro reagir de forma exagerada a certas coisas que você faz, por exemplo, em vez de ser crítico ou defensivo, pare para considerar qual o problema que subjaz à reação. Explore com delicadeza os temores e as preocupações mais íntimas dele. Resista à tentação de atribuir a reação exagerada a um traço indesejável de caráter, como impulsividade ou necessidade de controle. Perceba que tais reações são sinais de vulnerabilidades ocultas.

compreensão é semelhante à sensibilidade mas acarreta outra qualidade. Quando o parceiro fala de um problema, ele pode sentir-se compreendido sem ter de especificar todos os pormenores. Além disso, compreender significa ver os episódios com os olhos do outro. […] A compreensão mútua é uma das primeiras vítimas dos conflitos conjugais, manifestando-se pelo lamento: “Simplesmente não entendo porque ele (ela) age dessa forma.” Parte das dificuldades está em que os casais em conflito atuam em desacordo com o seu lado mais amoroso: assumem posturas rígidas ou tentam desprezar as atitudes do outro. Um problema mais sério é que, ao se intensificar o conflito, começam a interpretar mal as ações do outro. Logo os erros de interpretação acumulados liquidam com toda e qualquer compreensão possível.

companheirismo é muito apreciado no início do relacionamento mas parece se dissipar com o passar do tempo. À medida que os dois se preocupam mais com problemas práticos como a renda familiar, o cuidado dos filhos ou a arrumação da casa, tendem a passar menos tempo juntos, e a qualidade do tempo que passam juntos também sofre. […] O companheirismo é componente essencial do bom casamento que se pode aperfeiçoar pelo simples planejamento. Exige que se considerem atividades de que os dois gostem – viajar juntos, decorar a casa, ir ao teatro – e determinar com antecedência os programas. Há também camaradagem na satisfação de estarem juntos durante certos momentos do dia-a-dia. Sentar juntos para ver televisão, fazer passeios, partilhar da rotina doméstica como lavar pratos e limpar a casa juntos são atos que fomentam companheirismo.

intimidade oscila da discussão de pormenores da vida diária, à confidência de sentimentos íntimos que não partilharíamos com mais ninguém, ao relacionamento sexual. Em certo sentido, a intimidade é um subproduto do desvelo, da aceitação, da sensibilidade e da compreensão. Ao mesmo tempo, é debilitada pelos desentendimentos, pelas críticas indiscriminadas e pelas acusações e insensibilidade. Quando os casais resolvem ser críticos, punitivos ou controladores, têm de considerar o que perdem em intimidade. Quando se perde a intimidade por causa de brigas, com ela se perde uma importante força no casamento.

Amizade se refere ao interesse genuíno que você tem no outro como pessoa. Essa qualidade parece tornar-se ora unilateral, ora abafada em muitos, se não na maioria, dos casamentos. Algumas pesquisas demonstram que muitas mulheres não consideram o marido seu melhor amigo, e sim alguma outra mulher é que desempenha esse papel. A maioria dos homens, por outro lado, considera a esposa a sua melhor amiga. Você pode cultivar a amizade concentrando-se no seu companheiro como pessoa. Procure extrair dele ou dela o que interessa mais a ele ou a ela. Muitas vezes, para construirmos a ponte da amizade é necessária muita delicadeza.

As cortesias e os agrados são, por certo, cruciais para um casamento feliz. Mas o prazer deve ser mútuo; não só você pode propiciar satisfação ao seu marido pelo que você faz mas pode também partilhar dela. Às vezes, você tem de se livrar de hábitos há muito cultivados para fazer alguma coisa especial.

apoio mútuo dá um senso de que se é digno de confiança, uma rocha de Gibraltar em que o outro pode se firmar em épocas difíceis. Você talvez subestime o significado simbólico de estimular o parceiro quando ele está sem ânimo, ou de ajudá-lo a classificar e elucidar problemas quando estes parecem tornar-se insuportáveis. Ir em ajuda do outro nesses momentos de necessidade pode ter um significado enorme, demonstrando-lhe que você está sempre prestes a ajudá-lo com este esteio ou apoio. Algumas pessoas, por exemplo, são muito neutras quando o cônjuge quer partir para um novo empreendimento ou assumir uma nova responsabilidade. Sua hesitação em assumir uma postura positiva pode debilitar o senso de iniciativa e de capacidade do parceiro.

Fonte indicada: Flavio Hastenreiter

Chantagem Emocional

Chantagem Emocional

Para começar tenhamos a humildade de assumir: todos nós já cometemos esse deslize.

Como eu escolhi estudar comportamento humano eu peço licença para lhes afirmar: não se deve agir assim. Não pode! É feio! NÃO FUNCIONA!

Lembro-me de um caso que chegou para mim no consultório há dez anos. Um casal. O marido começou me contando que saíra de casa porque estava envolvido em outro relacionamento e que queria a separação. Já conversara com os filhos, explicara que não amava mais a mãe deles, que queria continuar presente na vida deles como pai – e que eles aceitaram essa escolha; porém, a esposa, que estava presente com ele na consulta, ameaçava tirar a própria vida se ele a deixasse. Quando ele terminou esse relato, ela olhou para mim e disse: “É isso mesmo, se ele sair de casa eu vou me matar, e não há nada que a senhora possa fazer, ou ele fica ou eu morro e ele vai carregar essa culpa para o resto da vida”. Eu não tive quase nada a fazer por eles, pois não retornaram depois dessa sessão. Ela não queria ajuda, claramente foi à consulta com ele apenas para que eu fosse mais uma a saber dos seus planos.

Percebam que essa mulher, em meio ao desespero e à dor de estar sendo rejeitada, toma a pior decisão: a de tentar prender o outro pela chantagem. O homem, também desesperado, me disse: “Eu não quero mais ficar casado com ela, mas eu não quero que ela morra.” Esse tipo de amarra, que se imagina conseguir com chantagem, um dia se rompe e não há nenhum benefício emocional em se comportar dessa forma; mais vale enfrentar a própria dor por pior que ela seja. Não se pode, nem se consegue obrigar ninguém a nada.

A chantagem emocional é o ato de provocar sentimento de culpa no outro com objetivos próprios, e às vezes nada dignos. A arma do chantagista é provocar a culpa na tentativa de induzir alguém a fazer algo que não quer e não deve em favor deste. Ao contrário do que se pensa; os que praticam a chantagem emocional não são vítimas, porque não sentem culpa em se comportar assim, mas sabem que muitos a sentem com facilidade e se aproveitam deles sem nenhum pudor. Muitos casos de chantagem emocional ocorrem entre pessoas próximas e com forte vínculo emocional (mãe, filho, parceiro); nesses casos fica ainda mais difícil e doloroso resistir à pressão.

A regra de conduta é dizer não a qualquer tipo de chantagem – por mais difícil que possa parecer – e imediatamente buscar ajuda, como fez o homem que me procurou trazendo a esposa. O chantagista se comporta sem um padrão de conduta adequado. Provavelmente não está nada acostumado à frustração, não tolera o “não” e leva a vida sem bastar-se como gente.

É preciso um cuidado especial com as crianças para que elas não estabeleçam padrões de comportamento chantagistas. Não se deve nunca dar o que elas pedem ao se perceber que estão chantageando para isso.

Em seu livro que carrega o mesmo título deste texto, a psicoterapeuta Susan Forward descreve quatro tipos de chantagem emocional:

-A primeira é a do bullying emocional usado para inibir a outra pessoa.
–A segunda é quando o chantagista se recusa a dar aprovação e amor ao outro até que atinja seu objetivo. (Pais e mães fiquem atentos a isso).
–A terceira chantagem emocional é a que se baseia na própria dor do chantagista para manipular os outros e conseguir simpatia e aceitação. O famoso fazer-se de vítima.
-A quarta é a do sofredor: sua infelicidade é a ameaça maior que ele usa sobre os outros, colocando os chantageados na posição de responsáveis por qualquer consequência negativa de sua vida. Essa foi a que relatei no início do texto.

Seja qualquer uma dessas quatro formas de agir, não é nada bonito chantagear. Na busca por nos tornarmos pessoas melhores, nos livrarmos dessa forma tão egoísta de ver o mundo e os outros indivíduos é um passo importante. Um chantagista sofre de uma grave doença, a de não conseguir amar e de achar-se, bem lá no fundo, uma porcaria de gente, incapaz de atrair as pessoas usando formas mais saudáveis. A chantagem é um erro muito grave no exercício das relações.

Pois que este é nosso destino: amar sem conta- Carlos Drummond de Andrade

Pois que este é nosso destino: amar sem conta-   Carlos Drummond de Andrade
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. 

  Carlos Drummond de Andrade

Fonte indicada: Ou isto ou aquilo

Quem espera uma vida fácil não precisa de um amor. Precisa ganhar na loteria.

Quem espera uma vida fácil não precisa de um amor. Precisa ganhar na loteria.

Cá entre nós, viver nunca foi a coisa mais fácil da vida. Há quem responda “é fácil, sim. A gente é que complica tudo!”. Concordo, mas mesmo tentando não complicar nada, ainda assim viver é coisa delicada. Quase sempre, exige de nós muito mais do que temos a dar no momento. E, vai entender, ainda assim viver é a melhor coisa da vida. A melhor e a mais difícil. Pronto.

Quando o caso é viver com amor, então, põe dificuldade nisso. Quem tem certeza de que o amor não dá trabalho, não requer esforço, que vem de graça e se não “fluir tranquilo” não é amor, como se esse “fluir tranquilo” fosse coisa parecida com um mar de benesses infinitas, uma vida de passeios no sol e carinhos pra lá e pra cá sem nenhuma aporrinhação, estudar matemática com uma criança de oito anos é uma boa chance de repensar essa convicção.

Se essa criança for o seu filho, o sujeito que você mais ama na vida, aí a prova é ainda mais contundente e irrefutável. Amar dá trabalho, sim!

Seu filho, que não gosta nem um pouco de somar, subtrair, multiplicar e dividir, pelo menos não tanto quanto ele adora os videogames, faz birra, corpo mole, resiste, grita, chora. Porque ele não quer estudar matemática no sábado e no domingo, mesmo sabendo que vai ter prova na semana. Cabe a você, que o ama, contornar essa resistência com todo amor do mundo, persistir e dar um jeito, estudar com ele, ficar perto, acompanhá-lo. Mesmo que a sua vontade às vezes, depois da segunda malcriação, seja tirá-lo da escola que custa uma fortuna e empregá-lo numa mina de carvão.

Porque você o ama, você persiste. Mas nem sempre é bom! Nem sempre é tranquilo.

Com os casais deve ser mais ou menos assim. Nem sempre é agradável passar o domingo na casa da sua sogra, ir ao aniversário da tia do seu namorado. Viajar à praia com a família inteira do seu marido. Nem sempre é bom. Mas são concessões que todos os amantes fazem.

Quem não está disposto a conceder, talvez não ame mais, ué. É muito simples. Nesse caso, abandonar o barco é o que de mais sincero se pode fazer. Há muito mais dignidade em deixar o seu parceiro ser amado por alguém com a disposição que você não tem do que infernizar a vida dele para sempre. Por outro lado, é muito mais honesto seguir em frente só do que passar os próprios sentimentos para trás.

Amar dá o maior trabalho. E como qualquer outro ofício, às vezes significa sofrimento, sim! Porque por mais que você adore o que você faz ou com quem você está, sempre há de existir uma chateação ou duas na sua lida de um dia depois do outro. Por mais que um professor idolatre suas próprias aulas, lá pelas tantas ele vai se aborrecer por corrigir tanta prova no fim de semana. E corrigir provas é inevitável para a qualidade do seu trabalho. Médicos, advogados, engenheiros, artistas. Nenhum deles está livre de aborrecimentos. Se quiserem continuar a exercer sua profissão, têm de encarar desgostos obrigatórios. Por mais que amem o que fazem, uma hora seu ofício vai trazer uma dose de sofrimento! Mais para uns, menos para outros. E para levar seu trabalho adiante é preciso empenho, labuta, dedicação. Isso tudo de quando em vez dá um cansaço enorme e uma dor nas costas insuportável.

O tamanho, a qualidade e a força do nosso amor deviam ser medidos, então, pela extensão da nossa boa vontade e da nossa disposição para, uma hora ou outra, sofrer.

Se ninguém é perfeito, logo o amor que nasce de cada um de nós também não há de ser. Essa ilusão da perfeição, da facilidade dos relacionamentos ideais só tem gerado frustração e nos transformado em preguiçosos amorosos, sentimentalóides reclamões e mal amados, sentados sobre a nossa pretensa perfeição inútil, esperando o amor incondicional do parceiro impecável, a família irretocável, o trabalho que só traz alegria e o filho que nunca faz malcriação.

Eu tenho a impressão de que a leveza divina dos nossos amores – seja o amor dos pais por seus filhos, o amor por um ofício, o amor entre casais ou o amor universal pelo próximo – essa leveza só vem acompanhada de muito trabalho pesado.

Amor, esse que chega e só fica quando a gente cuida, dá um trabalhão danado. Sejamos honestos com ele. E vamos ao trabalho, que amanhã tem sempre uma nova prova à espera.

Catadora de lixo é responsável pela beleza da Miss Tailândia 2015.

Catadora de lixo é responsável pela beleza da Miss Tailândia 2015.

Mint, uma jovem de 17 anos, venceu o Miss Tailândia 2015. Um concurso, nos moldes de tantos outros, que premia a beleza de seu país. Desfiles, poses, flashes. Ao final, a moça recebeu uma faixa e uma coroa. Está sendo celebrada e deve ser mais; chegarão os contratos publicitários, as passarelas do mundo estarão abertas para os passos dessa tailandesa.

A história de Mint ganha outro tom quando descobrimos quem é ela  longe dos holofotes. Ao ganhar o concurso, a jovem voltou pra casa,  encontrou sua mãe trabalhando na busca do sustento de todo dia. A cena é de emocionar; Mint, a miss, se ajoelha aos pés de sua mentora, a catadora de lixo.
O gesto é de gratidão. Mint sabe de onde veio e reconhece quem a formou. Embora daqui pra frente deem os créditos ao glamour, o mundo da moda precisará conviver com a ideia de que foi esta catadora de lixo quem modelou sua mais nova miss.

E aqui, os papéis se mexem. Quem é mais importante? Dirão, os imediatistas de nosso tempo, “a modelo é o foco”. Ela quem desfilará, é dela o charme e a desenvoltura capaz de atrair os olhares.  As grifes chamarão pelo seu nome. Dela é o sucesso batendo à porta.

contioutra.com - Catadora de lixo é responsável pela beleza da Miss Tailândia 2015.Esta Miss nos aponta um caminho ao dizer. “O que eu tenho hoje é por causa da minha mãe. Ela e eu ganhamos a vida fazendo um trabalho honesto, então não há nenhuma razão para eu me sentir inferior” A vencedora do Miss Tailândia 2015 não só se assume filha de, também se reconhece como uma catadora de lixo.

Deveria ser habitual, mas esta história nos comove por ser alguém abraçando uma identidade. Dizendo “eu sou a minha história e não me envergonho disso.” Você pode pensar, pela profissão mencionada, que o fantástico está no seu material de trabalho. Porém, basta nos lembrarmos do alto escalão social, políticos, empresários, com seus incapazes de encarnarem na própria história porque são majestosas vergonhas.

Ainda, Mint nos ensina mais; É preciso ter raiz pra ser árvore forte. A vida dela mudará financeiramente, quem sabe um dia desse venha ao Brasil nos agraciar com sua presença.

Por ora, fico com essa imagem. Não existe miss, nem existe catadora de lixo. Existe Mint. Existe algo além de nossas conquistas, existe a coragem de não perder a essência.

Tome cuidado. O resto parece iluminação confiável, mas é só flash, num piscar de olhos passa.

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