Ao longo de mais de um século de vida, Soong Mei-ling atravessou guerras, revoluções e mudanças profundas na China. Foi primeira-dama, diplomata informal, interlocutora de presidentes americanos e uma das figuras chinesas de maior projeção internacional no século XX. Quando morreu, em Nova York, em 2003, tinha 106 anos.
Sua longevidade acabou alimentando uma série de relatos sobre os hábitos que mantinha no dia a dia. Entre eles aparece um alimento bastante comum e barato: o aipo, também conhecido como salsão. O vegetal teria presença frequente em sua alimentação, ao lado de uma rotina marcada por refeições moderadas, horários regulares e atividades como leitura e pintura.
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De estudante nos Estados Unidos a uma das mulheres mais influentes da China
Nascida em Xangai no fim do século XIX, Soong Mei-ling passou parte da juventude nos Estados Unidos e concluiu seus estudos no Wellesley College, em Massachusetts, em 1917. Formou-se em literatura inglesa, estudou filosofia e recebeu uma das principais distinções acadêmicas da instituição.
Em 1927, casou-se com Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista Chinês, o Kuomintang. O casamento colocou Soong Mei-ling no centro da política chinesa, mas seu papel esteve longe de se limitar às funções tradicionais de primeira-dama. Fluente em inglês e familiarizada com a cultura americana, ela se transformou em uma importante ponte entre o governo nacionalista chinês e os Estados Unidos.
Essa capacidade ficou particularmente evidente durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943, Madame Chiang esteve em Washington e discursou diante de políticos americanos na tentativa de ampliar o apoio dos Estados Unidos à China na guerra contra o Japão. Sua passagem pelo Senado naquele período recebeu ampla atenção da imprensa americana, inclusive da revista Time.
Décadas depois, quando os comunistas de Mao Tsé-Tung venceram a Guerra Civil Chinesa e o governo de Chiang Kai-shek se estabeleceu em Taiwan, ela continuou sendo uma das principais vozes internacionais do regime nacionalista.
O aipo ganhou espaço nos relatos sobre sua longevidade
Apesar de sua trajetória política, outro aspecto da vida de Madame Chiang passou a despertar curiosidade com o avanço da idade: sua alimentação.
Relatos publicados sobre sua rotina descrevem uma dieta relativamente controlada, com várias refeições pequenas ao longo do dia e consumo frequente de verduras. Aipo e espinafre aparecem entre os alimentos associados a seus hábitos alimentares. Há também referências a café da manhã com vegetais e a períodos em que ela reduzia o consumo de carne quando percebia aumento de peso.
O aipo acabou sendo apresentado em matérias recentes como um de seus alimentos preferidos. É um vegetal de baixa densidade calórica, contém fibras e fornece diferentes compostos vegetais, incluindo flavonoides como apigenina e luteolina.
Essas substâncias vêm sendo estudadas em laboratório por seus possíveis efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. Estudos experimentais também investigaram sua atuação em mecanismos ligados ao crescimento de células tumorais. Isso, entretanto, está bastante distante de afirmar que comer aipo previne ou trata câncer em seres humanos. Estudos celulares ou realizados em animais não equivalem a evidências clínicas de que um alimento isolado tenha esse efeito.
Portanto, transformar o vegetal no “segredo” dos 106 anos de Soong Mei-ling seria ir além do que a ciência permite afirmar. Sua alimentação pode ter feito parte de um estilo de vida organizado, mas longevidade é influenciada por uma combinação complexa de genética, condições de saúde, ambiente, acesso a atendimento médico e hábitos acumulados durante décadas.
E o diagnóstico de câncer aos 40 anos?
Diversas publicações chinesas e matérias populares afirmam que Soong Mei-ling teve câncer de mama por volta dos 40 anos e foi submetida a tratamento. A informação aparece inclusive em material publicado por um hospital especializado em câncer na China.
Já outras fontes biográficas situam seu diagnóstico de câncer de mama muito mais tarde. Uma biografia amplamente reproduzida informa que ela foi diagnosticada em 1975 e passou por duas mastectomias em Taiwan. O obituário publicado pelo Washington Post confirma que Madame Chiang havia recebido tratamento contra câncer, mas não estabelece que o primeiro diagnóstico tenha ocorrido aos 40 anos.
Uma rotina bastante disciplinada
Outro elemento recorrente nas descrições de seus últimos anos é a regularidade.
Relatos sobre Madame Chiang mencionam o costume de fazer refeições menores, evitar exageros e manter horários relativamente rígidos para dormir e acordar. Também reservava parte do dia para atividades intelectuais e artísticas. A pintura ganhou importância especial em sua vida a partir da década de 1950. O Davis Museum, do Wellesley College, conserva obras produzidas por ela nesse período.
Essa combinação ajuda a explicar por que sua longevidade passou a despertar tanta curiosidade, embora seja impossível separar o efeito individual de cada hábito.
Soong Mei-ling permaneceu ligada à política e à vida cultural por décadas após a morte do marido, em 1975. Nos últimos anos, viveu principalmente nos Estados Unidos. Morreu em seu apartamento em Nova York em outubro de 2003, depois de apresentar sintomas de pneumonia.
O aipo pode ter sido um dos componentes mais simples de sua alimentação. O aspecto realmente incomum de sua biografia, contudo, está no conjunto: uma mulher nascida quando o século XIX ainda não havia terminado chegou ao século XXI depois de ocupar durante décadas uma posição central em alguns dos acontecimentos políticos mais importantes da história moderna da China.
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