Hoje, escolher entre um maiô fechado, um biquíni pequeno ou qualquer outra roupa de praia parece uma decisão banal. Pouco mais de um século atrás, porém, a quantidade de pele que uma mulher podia mostrar diante do mar era assunto para autoridades, policiais e até tribunais.
Houve praias com regras rígidas, fiscalização das roupas e episódios em que mulheres foram retiradas do local por trajes considerados inadequados. A história do biquíni, por isso, passa tanto pela moda quanto pela lenta mudança de quem podia decidir sobre o corpo feminino em espaços públicos.
Quando até nadar exigia muita roupa
No começo do século XX, os trajes femininos de banho estavam bem distantes dos modelos usados atualmente. Muitas mulheres entravam na água com peças pesadas de lã, acompanhadas por saias, calças ou meias. Além de esconder o corpo, essas roupas dificultavam movimentos que deveriam ser simples dentro da água.
Nos Estados Unidos, normas de vestimenta eram levadas bastante a sério em algumas praias. Fiscalizar pernas expostas ou determinar o comprimento considerado aceitável de um traje fazia parte da rotina de certos balneários.
O contraste fica ainda mais curioso quando observado hoje: enquanto nadar começava a ganhar espaço como esporte e lazer, a roupa exigida das mulheres podia atrapalhar justamente aquilo para o qual deveria servir.
Foi nesse cenário que uma nadadora australiana se tornou personagem importante dessa mudança.
Annette Kellerman e o maiô que provocou escândalo
Annette Kellerman era conhecida por suas apresentações aquáticas e pelas tentativas de atravessar o Canal da Mancha. Ela defendia roupas que permitissem às mulheres nadar com mais liberdade e passou a usar um maiô justo de uma peça, semelhante aos trajes masculinos da época, deixando braços e parte das pernas descobertos.
O episódio mais famoso de sua carreira teria ocorrido em 1907, em Revere Beach, Massachusetts, quando Kellerman foi detida por causa de sua roupa de banho.
A história é repetida há décadas e aparece inclusive em instituições como o Smithsonian. Há, entretanto, uma ressalva interessante: os arquivos públicos sobreviventes da antiga Metropolitan Park Commission não contêm um registro policial da prisão. Documentos do governo de Massachusetts apontam que alguns registros daquele período podem ter sido destruídos durante campanhas de reciclagem de papel na Segunda Guerra Mundial. Portanto, há evidências históricas e relatos posteriores sobre o episódio, mas a documentação oficial original não sobreviveu.
De qualquer maneira, a repercussão ajudou a transformar Kellerman em referência para roupas de banho mais funcionais. Ela passou a comercializar seus próprios modelos, conhecidos como “Annette Kellermans”, que contribuíram para popularizar o maiô feminino de uma peça.
Nas décadas seguintes, os trajes foram gradualmente ficando menores e mais ajustados ao corpo. A mudança acompanhava transformações maiores nos hábitos urbanos, no lazer e na participação feminina em atividades esportivas.
Dos maiôs mais curtos ao surgimento do biquíni
Na década de 1920, braços e pernas começaram a aparecer com maior frequência nas praias. Ainda havia limites rígidos sobre aquilo que era considerado aceitável, mas a lógica começava a mudar: uma roupa de banho precisava permitir que alguém realmente nadasse.
Modelos de duas peças surgiram antes do biquíni moderno. Nos anos 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial já existiam trajes separados em parte de cima e de baixo, embora normalmente mantivessem o umbigo coberto.
A ruptura mais famosa veio em Paris, em 1946.
O engenheiro e designer francês Louis Réard criou uma peça muito menor, composta por quatro pequenos triângulos de tecido. Para apresentá-la ao público, enfrentou uma dificuldade bastante reveladora: modelos profissionais teriam recusado vestir algo considerado tão ousado.
Réard então convidou Micheline Bernardini, dançarina do Casino de Paris.
Em 5 de julho de 1946, ela apareceu com o novo traje na Piscine Molitor, em Paris. Pela primeira vez, um modelo comercial de duas peças deixava o umbigo totalmente exposto.
Réard o chamou de “bikini”, referência ao Atol de Bikini, no Pacífico, onde os Estados Unidos haviam realizado um teste nuclear poucos dias antes. A associação era deliberadamente provocativa: o estilista esperava causar uma repercussão comparável a uma explosão.
E conseguiu.
Um traje pequeno demais para muita gente
A reação inicial passou longe de uma aceitação tranquila. Em diferentes países, autoridades e setores religiosos consideraram o biquíni ofensivo ou incompatível com os costumes locais.
Itália e Espanha, por exemplo, chegaram a adotar medidas contra seu uso em praias públicas.
A resistência mostrava que a discussão ultrapassava alguns centímetros de tecido. O que incomodava era também a possibilidade de mulheres aparecerem publicamente com uma roupa que rompia convenções estabelecidas durante décadas.
Uma fotografia frequentemente compartilhada nas redes sociais virou símbolo desse período.
Na imagem em preto e branco, uma jovem de biquíni aparece ao lado de um homem uniformizado em uma praia italiana. Ela costuma circular acompanhada da informação de que um policial estaria multando a mulher simplesmente por usar biquíni em 1957.
A fotografia é verdadeira, mas a legenda não pôde ser comprovada.
Uma investigação do Snopes concluiu que não há evidências suficientes para determinar por que o homem uniformizado abordou a mulher ou sequer confirmar todos os detalhes normalmente associados à cena. A Itália realmente possuía normas sobre roupas de banho consideradas indecentes, o que torna a situação historicamente plausível, mas isso não prova que aquela mulher específica tenha recebido uma multa pelo biquíni.
É justamente essa incerteza que torna a foto interessante: mesmo sem conhecermos o motivo exato daquela abordagem, uma situação desse tipo seria perfeitamente compatível com as discussões morais que cercavam as praias europeias naquele período.
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Quando o cinema transformou escândalo em desejo
A aceitação do biquíni avançou principalmente durante os anos 1950 e 1960, impulsionada por mudanças culturais e pela exposição crescente no cinema.
Brigitte Bardot teve papel decisivo nessa história.
Ainda jovem, a atriz francesa apareceu usando biquínis em filmes e ensaios fotográficos em uma época em que o traje continuava enfrentando resistência. Sua presença em Manina, la fille sans voiles, lançado na França em 1952 e posteriormente conhecido internacionalmente como The Girl in the Bikini, ajudou a associar a peça às praias francesas e a uma geração menos disposta a seguir antigas regras de vestimenta.
Hollywood também começava a mudar, embora lentamente.
Durante décadas, o chamado Hays Code estabeleceu limites rígidos sobre aquilo que poderia aparecer nos filmes americanos. Trajes de duas peças eram possíveis, mas a exposição do umbigo encontrava forte resistência.
A transformação ficou evidente em 1962.
Em 007 contra o Satânico Dr. No, Ursula Andress saiu do mar usando um biquíni branco e carregando uma faca presa ao quadril. A cena entrou para a história do cinema e ajudou a consolidar definitivamente a peça na cultura popular.
Nesse momento, o biquíni já começava a deixar de ser tratado como uma provocação restrita a poucas mulheres.
Dos protestos às praias lotadas
Durante os anos 1960, o crescimento da cultura jovem, as mudanças nos costumes e uma maior liberdade sexual aceleraram sua popularização, inclusive nos Estados Unidos. O que duas décadas antes podia provocar proibições começou a aparecer em filmes, revistas, músicas e campanhas publicitárias.
Nos anos 1970, surgiram versões ainda menores, como o biquíni de amarrar. Cortes mais cavados também se tornaram comuns, e diferentes países desenvolveram estilos próprios.
A ironia histórica é difícil de ignorar. Em poucas décadas, mulheres passaram de roupas de lã que chegavam praticamente aos joelhos para peças formadas por poucos pedaços de tecido.
O ponto central dessa transformação, entretanto, nunca esteve somente no tamanho da roupa.
Cada mudança encontrou mulheres dispostas a aparecer em público vestindo algo que outras pessoas diziam que elas não deveriam vestir.
Annette Kellerman fez isso com um maiô.
Micheline Bernardini fez isso com o primeiro biquíni de Réard.
Atrizes como Brigitte Bardot e Ursula Andress ajudaram a levar essas imagens para milhões de pessoas.
Com o tempo, aquilo que provocava escândalos perdeu parte de seu caráter transgressor simplesmente porque continuou sendo usado.
Hoje, a liberdade também significa poder escolher cobrir o corpo
O resultado dessa história não é uma obrigação de mostrar mais pele.
As roupas de banho atuais caminharam justamente na direção contrária dessa ideia: existem biquínis mínimos, maiôs esportivos, peças de cintura alta, modelos com mangas, burquínis e inúmeras combinações intermediárias.
A diferença fundamental está na possibilidade de escolha.
Durante boa parte do século XX, autoridades discutiam quanto do corpo feminino poderia aparecer em uma praia. Atualmente, em grande parte das sociedades ocidentais, essa decisão pertence principalmente a quem veste a roupa.
O biquíni acabou conquistando seu espaço porque mulheres continuaram usando a peça mesmo quando ela era considerada vulgar, provocativa ou inadequada. E, curiosamente, um dos maiores sinais de sua vitória talvez seja justamente ter deixado de provocar espanto: aquilo que já foi motivo para censura se tornou uma das imagens mais comuns de qualquer verão.
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