Pessoas ansiosas não têm culpa por sua ansiedade

Todos sofrem de um grau de ansiedade, então por que alguns se dizem ansiosos e outros não? Isso depende da intensidade do problema em cada caso particular.

Sêneca, principal representante da escola filosófica do Estoicismo, afirmou:

“Quem sofre antes do necessário sofre mais que o necessário.”

Esta frase diz muito sobre ansiedade. A palavra “necessário” demonstra não só a necessidade de sofrimento, como também sugere que ele deve ser administrado com inteligência, de forma que o sofrer não seja em vão, e sim transformado em conhecimento emocional produtivo.

Sofrer por antecipação é um hábito comum dos ansiosos, que parecem estar sempre carregando consigo um espectro de pessimismo. Diferente de prever o futuro, eles querem viver o futuro antes de ele chegar e, assim, custam em se entregar ao momento presente.

Todos sofrem de um grau de ansiedade, então por que alguns se dizem ansiosos e outros não? Isso depende da intensidade do problema em cada caso particular. Para alguns, a ansiedade é normal, situacional, tem curta duração e não provoca maiores complicações; para outros, é uma bola de demolição que arruína seus relacionamentos em várias esferas da vida. Chega a assustar a quantidade de pessoas que buscam ajuda médica e psicológica por causa da ansiedade, esta que chegou a proporções epidêmicas no século XXI. Os psicólogos têm especulado sobre as possíveis razões para o aumento da ansiedade nos últimos tempos, e suas opiniões parecem ter um fator comum: não só a ansiedade cresceu, como também as pessoas se tornaram mais sensíveis e predispostas a ela.

A enxurrada de informações, o vício em tecnologia e a necessidade de eficiência constante no trabalho fazem com que as pessoas vivam aceleradas, imensamente preocupadas com seus afazeres, talvez mais do que nunca. O frenesi regurgitante dos acontecimentos impede que se possa parar para refletir qualitativamente sequer por um instante. Na década de 1950, Martin Heidegger alertou para a “maré de revolução tecnológica” que viria com a perda do “pensamento meditativo”, algo essencial não só à humanidade, mas também para amenizar a ansiedade.

Encontrar a paz interior nunca foi tão desafiador, em um mundo que parece crescer em agitação e reduzir em tranquilidade. Não há tempo a perder. A vida não espera por ninguém. O sucesso é, muitas vezes, resultado do sacrifício da própria saúde.

Apesar da vida não ter misericórdia com quem não sabe usufrui-la com parcimônia, manter a parcimônia através de um modelo de vida frenético é uma tarefa quase utópica, a ser realizada somente por aqueles que, de tanto sofrer, se sentem urgentemente obrigados a reavaliar sua conduta.

As pessoas precisam de cada vez mais estímulos para desenvolver suas atividades cotidianas. Com isso, aumenta-se o senso de urgência. A quantidade de estímulos a que se está submetida é tamanha que o espaço para o ócio, para um tempo livre, é quase inexistente. Essa vastidão de estímulos prejudica a produtividade no dia a dia, pois, com efeito, torna as pessoas mais distraídas e desconcentradas.

Certas situações exigem comportamentos urgentes, mas o fato é que comportamentos urgentes estão sendo preferencialmente escolhidos mesmo em situações que dão amplo espaço para o livre-arbítrio.

O mundo corre sem parar e as pessoas acham que, se não acompanharem o ritmo, definharão, enquanto estão definhando por adotarem um estilo de vida excessivamente ajustado a esse mundo.

A necessidade premente de reconhecimento e a vontade de estar sempre produzindo mais e melhor são fatores que apontam uma supervalorização do trabalho, que hoje é tanto agregadora de valor quanto causa de esgotamento. Em seu ensaio Elogio ao Ócio, o filósofo Bertrand Russell ilustrou o seguinte:

“Suponha-se que em um dado momento algumas pessoas estejam envolvidas na produção de alfinetes. Elas fazem tantos alfinetes quanto o mundo precisa, trabalhando, digamos, oito horas por dia. Alguém faz uma invenção através da qual o mesmo número de pessoas pode fazer duas vezes o número original de alfinetes. Mas o mundo não precisa de mais alfinetes, e dificilmente algum seria comprado por um preço menor. Em um mundo sensato, todos os envolvidos na fabricação de alfinetes passariam a trabalhar quatro horas ao invés de oito, e tudo continuaria como antes. Mas, no mundo real, isso seria considerado desmoralizante.”

Muito da ansiedade é consequência da sobrecarga de trabalho, do culto da eficiência profissional urgente. A falta de trabalho é vista como prejudicial e, de certa forma, vergonhosa, ao passo que se considera o excesso de trabalho algo enobrecedor. Esse ideal de nobreza, no entanto, produz mentes atabalhoadas para suprir uma carga de demanda que excede o suficiente, na maioria dos casos.

Quando alguns intrometidos – como Russell – sugerem que, para reduzir a ansiedade, deveria se trabalhar menos, em resposta ouvem que “Cabeça vazia é oficina do Diabo”, ou “O ócio é o pai de todos os vícios”, ou “Isso é argumento de vagabundos”. Não se quer dizer aqui que o trabalho gera ansiedade – muitas vezes, a ocupação profissional é um antídoto contra ela. O que não ajuda a ansiedade é o trabalho excessivo.

Quem não sabe manter-se calmo em um mundo globalizado que funciona na base da hipervelocidade é engolido pelo tempo e sente sua saúde psíquica sobrecarregada.

As pessoas sentem-se irritadas quando seus celulares travam, quando colegas de trabalho procrastinam em vez de terminarem logo uma tarefa importante, quando os garçons não as atendem prontamente no restaurante, quando seus amigos demoram demais para responder mensagens de texto, quando o filme não as agrada nos primeiros cinco minutos. Tudo é desejado o mais rápido possível. Vive-se dentro de um liquidificador em funcionamento.

A aceleração contínua do processo de existência é um fenômeno que acontece em metrópoles e também chega em pequenas cidades. Trata-se de um modelo de comportamento disseminado em todos os lugares. As pessoas se acostumaram tanto com isso, que uma diminuição no ritmo de sua rotina chega a ser estranhada.

Uma crise de ansiedade provoca grande sofrimento. Normalmente súbita e incontrolável, surge como um vendaval de pensamentos atordoantes que deturpam a ordem e deixam o ansioso medroso. Medo e ansiedade andam lado a lado. O ansioso pensa que não conseguirá lidar com os acontecimentos que o competem. Torna-se difícil contornar essa situação por meios meramente racionais. Na verdade, quase toda crise de ansiedade é irracional, podendo inclusive desencadear pânico.

A grande maioria das coisas que deixam as pessoas ansiosas não são tão prejudiciais quanto a ansiedade diz que elas são. A autocrítica inflada, nas horas difíceis, costuma dar a impressão de que o caos subverterá todas as reivindicações por paz interior. Mas, quase sempre, essa autocrítica é apenas o medo se manifestando.

Quem sofre antes do necessário sofre mais que o necessário. Essa verdade está sob o entendimento de qualquer ansioso, embora não ajude tanto na resolução de uma crise ansiosa.

O ansioso antecipa eventos que estão fora de seu controle, imagina ocorrências catastróficas e, não raro, se sabota. Essa autossabotagem é uma consequência direta de querer viver algo que ainda não aconteceu. A influência do futuro na vida de um ansioso é tamanha que obscurece sua capacidade de focar no presente: essa é a maior sina que ele tem que aguentar.

A ansiedade, apesar de ser quase sempre negativa, também funciona como um mecanismo de defesa contra possíveis ameaças externas e, portanto, tem uma importante função evolutiva. O problema está em se sentir ansioso mesmo quando não há perigos à volta. Quando tudo parece bem e ainda assim o ansioso sente uma crise, esta é concatenada por um medo irracional, e então ele se sente acuado e sem motivos convincentes para explicar seu problema.

De acordo com Sêneca:

“Os animais selvagens fogem dos perigos que encontram em sua realidade e, depois de terem escapado, deixam de se preocupar. No entanto, somos atormentados pelo passado e pelo que está por vir. Nossa “benção” nos fere, porque a memória nos devolve a agonia do medo, enquanto a previsão a provoca prematuramente.”

A grande maioria dos pensamentos não pode ser controlada, mas o ansioso teima em aceitar isso. O desejo de governar todos os pensamentos em busca de metas específicas dificulta o atingimento dessas metas. Algumas coisas acontecem além da vontade humana, e querer controlar o imprevisível é o mesmo que decepcionar-se com o próprio poder. Uma vez que a força do livre-arbítrio é parcial, qualquer tentativa de ultrapassar os limites dessa liberdade está fadada ao fracasso.

Os ansiosos estão acostumados a tentar ludibriar o destino, inclusive quando este se encontra além de todos os esforços humanos possíveis. Nicolau Maquiavel sugeriu que as pessoas são capazes de controlar, no máximo, metade de seu destino, enquanto a outra metade é governada por forças misteriosas. Essas forças misteriosas – alguns dirão que é Deus – incomodam ansiosos crônicos, pois eles não suportam a ideia de que seu futuro possa estar em cheque e fora do domínio de suas escolhas. Se algumas decisões não produzirão os resultados esperados, independente da forma como sejam tomadas, insistir nelas acaba gerando uma decepção iminente.

O sofrimento por antecipação é, além de inútil, humilhante. A necessidade de predizer o futuro impede que se possa viver o presente em sua plenitude. Os ansiosos desperdiçam grande parte de sua energia com problemas que não existem, exceto em suas mentes.

De todas as complicações emocionais que afetam a qualidade de vida, a ansiedade é, talvez, a mais comum e frequente, hipótese que pode ser facilmente confirmada no mundo atual.

Quando as coisas acontecem contraditoriamente às expectativas, é normal pensar que houve azar. O azar nada mais que é ausência de sorte. Maquiavel dizia que, se um homem depende unicamente da sorte para a concretização de seus objetivos, ele se arruína logo que ela muda.

Os ansiosos se desgraçam antes da desgraça. De tanto projetarem o desastre, atraem-no para si, indo contra seus próprios desejos. Ao pensarem no pior cenário possível, materializam esse cenário, mesmo quando as circunstâncias apontam claramente a seu favor. Assim, os ansiosos travam uma incessante luta interna para superar os pensamentos pessimistas, mas frequentemente caem na armadilha da autossabotagem. Se por acaso as coisas dão certo, eles se surpreendem, para depois se lembrarem de como seu sofrimento anterior foi absurdo.

Quem tem ânimo para lidar com o destino sente-se apto a precaver-se contra ele, mas uma coisa é prever o previsível, outra é antecipar situações que estão fora do campo das possibilidades reais.

Sêneca, um homem que defendia a virtude da paciência como moderadora dos excessos, afirmava:

“Quando receamos algum mal, o próprio fato de o recearmos nos atormenta enquanto o aguardamos: teme-se vir a sofrer alguma coisa e sofre-se com o medo que se sente.”

Esse medo premonitório da desgraça é o mesmo que produz a desgraça. A pessoa se sente insegura. Superar esse medo é algo que exige uma mentalidade de esperança, além de autoconfiança, coragem e certo desprendimento da necessidade de controle.

Grande parte das coisas com as quais os ansiosos se preocupam nunca acontecerão de fato; não passam de imagens feéricas. Todavia, é complicado abdicar dos pensamentos sem sentido quando eles passam a fazer parte do processo comum de raciocínio. Os ansiosos são mestres na arte da preocupação irrelevante.

Predições pessimistas facilmente se tornam profecias autorrealizáveis. Sabendo disso, os ansiosos se desesperam, porque se percebem reféns de si mesmos. O sofrimento pela possibilidade de acontecer coisas ruins maximiza essa possibilidade, enquanto a vontade de acontecer coisas boas está sendo eclipsada. O otimismo é produto de uma habilidade psicológica, uma disposição mental para conceber realidades positivas, um desafio que os ansiosos precisam comprar todos os dias.

O volume de incertezas aumenta conforme as preocupações vão tomando forma. Existe uma diferença entre sofrer por algo catastrófico que ocorreu inevitavelmente, e sofrer por algo catastrófico que ainda não ocorreu, mas, de tanto ser evocado, possivelmente ocorrerá. Esse segundo tipo de sofrimento compreende a ansiedade.

Em uma de suas correspondências para seu amigo Lucílio, Sêneca observou:

“Há mais coisas que podem nos assustar do que nos esmagar; nós sofremos mais frequentemente na imaginação do que na realidade.”

Um conselho dado aos ansiosos é que evitem a infelicidade antes dos maus momentos, porque pode ser que os perigos imaginados nunca se tornem fatídicos. É mais fácil falar do que fazer, mas não deixa de ser verdade que a maior parte dos sofrimentos humanos são fantasiosos, isto é, não encontram respaldo na realidade concreta e, portanto, não devem ser levados a sério.

Viver em função de algo ruim que ainda não aconteceu acaba gerando não só desgaste mental, mas também uma depreciação da própria existência. O ansioso crônico sabe que deveria investir mais de sua energia em projetos de vida saudáveis e construtores de significado, mas, inadequadamente, gasta seu tempo útil com futilidades. Não é fácil se desprender das amarras do tempo, principalmente quando a ansiedade sobrepuja o bom senso.

Se acontecimentos negativos e imaginários se tornam reais, os ansiosos pensam que se trata de uma confirmação daquilo que mais temiam, mas, quase sempre, é uma consequência direta de suas ações.

Descobrir que o mundo raramente funciona da forma como se deseja é um choque de infância com o qual poucos adultos estão dispostos a lidar. Esse choque percorre a espinha dos ansiosos e faz deles prisioneiros de um destino incerto: a alta intolerância à incerteza é uma característica deles.

As pessoas que sofrem de ansiedade podem cair no erro de pensar que, com suas preocupações intermitentes, estão mais perto de chegar a uma solução viável para seus problemas. Mas, efetivamente, ocorre o oposto: os problemas se aproximam mais de sua realidade à medida que suas preocupações vêm à tona. Ao se preocuparem tanto com tudo, acabam não resolvendo nada. E, quando suas crises enfim passam, elas são acometidas por uma sensação de indignação.

Por causa da ansiedade, pessoas recusam convites para sair, desistem de seus sonhos mais audaciosos, sofrem de insônia, perdem a fome, ficam preocupadas que as coisas fujam do espectro de suas decisões conscientes, eventualmente acabam sentindo-se deprimidas. Saber lidar com esse problema é de substancial importância.

A ansiedade também está associada a boas expectativas. Uma pessoa pode se sentir ansiosa antes de viajar para um lugar que sempre quis ir, antes da sua primeira transa, antes que seu time jogue a final do campeonato, antes de fazer uma apresentação de trabalho na faculdade, antes de uma festa de aniversário, antes de pedir ao chefe um aumento salarial. Nesses casos, a ansiedade surge como uma resposta normal ao se esperar por experiências relevantes.

O que pode parecer irracional para alguém que não sofre de ansiedade crônica, é bem real para quem lida com esse problema.

É muito comum que pessoas ansiosas adotem uma personalidade defensiva, em resposta ao medo de prejudicar os outros (e a si mesmos) com suas paranoias e inseguranças. A ansiedade transforma as pessoas em algo que elas não querem ser, mas com o qual são obrigadas a lidar. O grande perigo da preocupação extraviada é que, devido a ela, não é possível satisfazer-se plenamente com a vida.

Na visão do filósofo dinamarquês e existencialista Søren Kierkegaard:

“Porque é possível criar – criar um eu interior, estar disposto a ser você mesmo –, a pessoa sente ansiedade. Ninguém teria ansiedade se não houvesse possibilidade alguma.”

O existencialismo é uma corrente filosófica que estuda o conceito de liberdade enquanto pressuposto de uma vida autêntica. Essa vida, apesar de proporcionar certa autonomia e empoderar a pessoa, coloca-a num estado de permanente vigilância sobre seu futuro. A ansiedade que Kierkegaard se refere é aquela causada pela liberdade que o indivíduo tem para tomar quaisquer decisões, inclusive as mais terríveis: a possibilidade de criar a própria ruína e de aprofundar-se no vazio estabelece um quadro ansioso. O existencialismo é uma boa razão para haver tantas pessoas perturbadas em departamentos de filosofia.

Embora seja fomentada pela liberdade, a ansiedade pode causar inação, privando a liberdade de alguém.

A ansiedade é uma grande máquina de destruição interna, ela incapacita a pessoa. O ansioso preludia a infelicidade, que é o mesmo que sentir-se infeliz atualmente. A dificuldade de se dedicar ao presente sem sentir ansiedade pelo futuro está expressa no que o imperador romano Marco Aurélio disse:

“Mesmo se você vivesse três mil anos, ou até trinta mil, lembre-se de que a única vida que um homem pode perder é aquela que ele está vivendo no momento. Ele não pode ter outra vida além daquela que ele perde. Pois cada minuto que passa é de igual posse de todos os homens, mas o que uma vez passou não é mais nosso.”

Um segundo gasto em preocupações com o futuro será um segundo de arrependimento por não tê-lo aproveitado bem.

A ansiedade é muito recorrente em pessoas que sofrem de estresse pós-traumático. Esse estresse não se limita ao de veteranos de guerra, como mostram muitos filmes, mas tem enumeráveis outras causas. Mesmo um trauma aparentemente pequeno e insignificante pode esconder uma faceta de terror.

No interior da ansiedade, residem vários medos: do fracasso, da solidão, do abandono, da perda. Para lidar com todos esses medos, em determinados casos, os ansiosos procuram ajuda na terapia psicológica, e fazem bem. A terapia não é capaz de eliminar completamente essas fobias, mas é capaz de mudar a pessoa que as carrega, e essa mudança é decisiva, porque, quando a pessoa medrosa enfrenta seus medos, os medos é que se tornam medrosos – e menos eficientes.

A pessoa ansiosa provavelmente já notou como sua percepção do mundo se altera enquanto ela está em crise. Essa alteração é consequência de se sentir alterada. Como dizia Schopenhauer, “todas as pessoas tomam os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo”.

Na ansiedade patológica, o mundo exterior entra em declínio na medida em que o ansioso sente que seu mundo interno está prestes a desmoronar. Em 99% dos casos, não há esse perigo, mas é justamente no 1% que focam os ansiosos mais preocupados. Suas ameaças são supervalorizadas.

Todas as preocupações internalizadas em ansiosos remexem-se entre seus pensamentos, são percebidas de maneira inconveniente, operam como sombras ameaçadoras do bem-estar e da pacificidade.

Muitos tratamentos que foram desenvolvidos para a ansiedade têm um déficit em comum: focam nos efeitos e não nas causas. A supressão dos sintomas (abordagem superficial) é o objetivo comum desses tratamentos, enquanto todo problema psicológico precisa ser combatido em suas raízes. Ao se concentrarem nas manifestações da ansiedade, e não em seus princípios, esses tratamentos acabam sendo paliativos e incompetentes para propiciar a segurança duradoura que os pacientes procuram ao solicitar ajuda.

Uma coisa que atrapalha o bem-estar dos ansiosos é o senso de perfeccionismo, que não passa de uma ilusão de grandeza falida. A busca da perfeição é diferente da busca pelo melhor: a primeira é fonte de frustração e desapontamento; a segunda, de evolução e desenvolvimento. Em geral, os perfeccionistas sabem que vão sofrer pelos seus esforços obsessivos que destoam da realidade vigente, mas eles acham que esses esforços são necessários para se alcançar o sucesso. Quando os ansiosos se prendem a padrões de conquista irreais, tornam-se ainda mais propensos a se sabotar, porque a vontade de que as coisas sejam perfeitas no fundo revela as suas próprias imperfeições.

Os ansiosos querem que tudo aconteça da forma como desejam, mas alguns de seus pensamentos acusam o contrário. Esse choque entre a vontade objetiva de positividade e a manifestação desordenada de sensações negativas cria nessas pessoas uma ideia de ambiguidade mental.

Em seu livro A Sabedoria da Insegurança: Como Sobreviver na Era da Ansiedade, o filósofo Alan Watts argumenta:

“O futuro ainda não está aqui e não pode se tornar uma parte da realidade até que esteja presente. Uma vez que o que sabemos do futuro é constituído de elementos puramente abstratos e lógicos – inferências, suposições, deduções –, não pode ser comido, sentido, cheirado, visto, ouvido ou de outra forma desfrutado. Perseguir isso é perseguir um fantasma em constante recuo e, quanto mais rápido você o persegue, mais rápido ele corre à frente. É por isso que todos os assuntos da civilização são apressados, porque dificilmente alguém gosta do que tem, e está sempre buscando cada vez mais. A felicidade, então, consistirá não em realidades sólidas e substanciais, mas em coisas tão abstratas e superficiais como promessas, esperanças e garantias.”

Se para desfrutar o presente as pessoas precisam ter garantia de um futuro feliz, o máximo que elas têm é uma expectativa otimista, pois se trata de uma questão de probabilidade e não de certeza. Embora certos sofrimentos sejam necessários para a construção de uma felicidade futura, a ansiedade exagerada agride a esperança.

Pessoas cronicamente ansiosas podem cair no erro de achar que a ruminação – repetir os mesmos padrões de pensamento – é uma boa técnica para resolver suas demandas. Mas isso só agrava a ansiedade. Em geral, a interrupção de pensamentos ruminantes acontece quando a pessoa não está focada em fugir deles, e sim distraída com outras atividades.

Ansiedade tem uma forte ligação com a depressão. É bem conhecido que os transtornos ansiosos e depressivos têm uma alta comorbidade. A ansiedade não necessariamente faz com que uma pessoa fique deprimida, nem a depressão ocasiona sempre um estado ansioso, mas uma coisa pode levar à outra, o que na realidade é muitíssimo comum. Em certo sentido, a ansiedade é uma depressão esperando para acontecer, e a depressão é uma anulação da vitalidade existencial. Porque o ser ansioso cria possibilidades de que a vida seja pobre em significado, e a visão pobre da vida caracteriza um ser depressivo, o casamento entre ansiedade e depressão é bastante prolífico.

Apesar das coisas ruins no mundo, isso não significa que o mundo seja propriamente ruim. Uma pessoa segura de sua ansiedade compreende que a ausência de certezas pode ser benéfica: uma vida sem riscos impossibilitaria a existência de virtudes. As oportunidades de cultivar o caráter só são possíveis mediante desafios que testem esse caráter. Uma pessoa não pode ser boa sem conhecer a maldade, nem humilde sem lidar com a arrogância, nem generosa sem evitar a avareza, e por aí vai. Uma pessoa segura de sua ansiedade consegue – não sem algum esforço – transformar fatos e crenças ruins sobre a vida em oportunidades de aperfeiçoamento de caráter e mudança construtiva. Afinal, sem uma perspectiva de imperfeição pessoal, não haveria incentivos para se contribuir com o mundo e ser uma pessoa melhor. Quem acredita já ser bom o bastante não é capaz de evoluir.

Os pensamentos que causam a ansiedade podem não ser tão perigosos quanto os ansiosos julgam. A primeira coisa a se fazer é não inflamar a gravidade dos eventos e, quando a ansiedade vier, apenas deixá-la fluir até que se dissipe, sem dar espaço para ações impensadas. Se há uma justificativa racional para esses pensamentos angustiantes, cabe lembrar que, se nenhum comportamento impulsivo for tomado, uma crise ansiosa tenderá a ser resolvida sem maiores danos. A pessoa pode se sentir cansada de batalhar tanto contra sua ansiedade, mas esse cansaço tem sua recompensa: uma melhor compreensão das causas dos sintomas, o que aumenta as chances de superá-los sempre que ocorrem.

Não há nada que estimule mais a ansiedade do que o desejo de controle absoluto sobre ela. Embora seja complicado e quase impossível não tentar controlá-la, é de fato aceitando-a como parte de si que se começa a sentir uma força positivamente transformadora. Esse problema limita o potencial individual e para conviver socialmente, mas não interfere na liberdade que todos têm para aprender com ele e prosseguir em seu rumo da melhor maneira possível.

Muitos são capazes de lidar com o desconforto da ansiedade por conta própria, e outros acabam pedindo ajuda a amigos, familiares, médicos, psicólogos, etc. Sozinha ou sob orientação externa, é fundamental que a pessoa tenha discernimento de suas habilidades de enfrentamento do problema.

O ansioso não tem culpa por se sentir assim, apesar de muitos se comportarem como se esse problema fosse causado por uma escolha consciente. Frases como “Não seja ansioso”, ou “Você é muito negativo”, ou “Pare de perder seu tempo com besteiras”, ou “Esqueça essas paranoias” são muito ouvidas por ansiosos. Ninguém, em sã consciência, escolhe ter ansiedade; ela tem vida própria, se manifesta por si mesma.

Se a eliminação da ansiedade estivesse dentro do âmbito de poder das pessoas, ela obviamente não existiria. Como existe, e faz parte da natureza humana, é preciso se adaptar a ela de um modo construtivo, utilizando-se de inteligência emocional e resiliência.

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Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.