Tempo real

Tempo real

Refletir os impactos das novas tecnologias sobre o jornalismo é tarefa que se torna a cada dia mais premente. O fazer jornalístico passa por uma metamorfose radical devido ao emprego de novas técnicas que trouxeram mudanças significativas na maneira de confeccionar os jornais impressos.

Este artigo surge num contexto em que ainda são poucos os estudos a respeito da forma como a Internet atua sobre e a partir das notícias divulgadas em tempo real pelas agências noticiosas. Isso acarreta para esta pesquisa dificuldades suplementares, que, contudo, são características desse novo, mas fascinante, campo de estudo das novas tecnologias digitais.

Antes de qualquer outra coisa, é necessário compreender como o serviço noticioso desse novo meio é constituído e como pauta os outros veículos. Para isso, o presente artigo se apoia em uma pesquisa sobre a veiculação de algumas notícias nos principais meios de comunicação, objetivando mostrar que a informação vai, muitas vezes, se distanciando da primeira forma, divulgada em tempo real, para adquirir outras e variadas estruturas, em virtude de uma apuração mais consistente ou, até mesmo, pelo encaminhamento que o veículo que a divulga quer dar. Assim, o receptor recebe várias informações que se afastam, em diferentes graus, do ideal jornalístico de fidelidade aos fatos.

Na instantaneidade da notícia também não é tão nova como prenunciaram os amantes do noticiário online, e sua busca virtual pode remontar as origens das notícias na sua forma falada e televisada. No mundo virtual, no entanto, esse caráter instantâneo foi remodelado. Dos objetivos em relação à notícia nos jornais, e na Internet, Pierre Lévy, um dos intelectuais da cibercultura afirma:

O jornal ou revista, refugos da impressão bem como a biblioteca moderna, são particularmente bem adaptados a uma atitude de atenção flutuante, ou de interesse potencial em relação à informação. Não se trata de caçar ou de perseguir uma informação particular, mas de recolher aqui e ali, sem ter uma ideia preconcebida. (Lévy, 2001: 35)

A velocidade não se relaciona só ao mundo virtual. As metamorfoses da notícia estão presentes já no modo como esta é produzida e recebida pelo público. Essa atenção flutuante, porém, é potencializada ao extremo no universo online. A chamada “atenção flutuante” para com a informação realmente radicalizou-se com o impacto das tecnologias digitais.

Várias dúvidas e questões sobre o caminho da informação na mídia digital, bem como o impacto das novas tecnologias sobre o jornalismo, têm sido levantadas em congressos, mas ao pensar no título que esse trabalho apresenta pode-se imaginar que essas mudanças não cessarão tão cedo. Sendo assim, um recorte que aproxime de uma reflexão teórica o fazer jornalístico e muitas de suas nuances nos dias de hoje, pode ser a saída para a compreensão de uma série de temas que definem o objeto dessa análise.

A fragmentação das informações, denunciada por muitos teóricos como característica da cultura midiática contemporânea, relaciona-se com o problema do imediatismo. O advento das mídias eletrônicas precipitou essa mutação temporal em um cenário onde, até então, o jornalismo impresso reinava absoluto. Se o século XIX foi livresco e guiado pela palavra escrita, o mundo contemporâneo passeia pelas mídias da velocidade máxima, redimensionando a produção de notícias, os reflexos no imaginário e atestando algumas ideias de Marshall McLuhan sobre os meios de comunicação como extensões do homem. McLuhan preconizava no seu livro O meio é a mensagem, em termos de linguagem e consciência, a extensão digital do homem.

Nossa nova tecnologia elétrica que projeta sentidos e nervos num amplexo global tem grandes implicações em relação ao futuro da linguagem. A tecnologia elétrica necessita tão pouco de palavras como o computador digital necessita de números. A eletricidade indica o caminho para a extensão do próprio processo de consciência (…) Em suma, o computador, pela tecnologia, anuncia o advento de uma condição pentecostal de compreensão e unidade universais. ( McLuhan, 1971: 98)

A rede mundial de computadores pode ser tida como expoente máximo dessa metamorfose. E como já foi aqui ressaltado, essa mudança incide tanto na emissão quanto na recepção. Talvez nesse momento a ideia de consciência estendida proposta por McLuhan possa ser pensada. A noção de que não se pode mais falar em um receptor passivo pode ter na Internet sua confirmação, devendo-se notar que o caráter condicional de sentença anterior evidencia ainda muitas dúvidas a respeito dessa capacidade ativa virtual.

É inegável que termos como interatividade e rede soam de forma positiva, mas, mesmo nesse caso é preciso lembrar que o veículo jornalístico, seja ele qual for, pressupõe ou mesmo, como creem alguns teóricos mais apocalípticos, um processo de monitoramento da recepção da notícia. Para a metamorfose da notícia o olhar de quem observa o fato é determinante; diante do fato, a tentativa de monitorar é, sem dúvida, uma boa imagem de como se processam as notícias em tempo real.

É na reflexão sobre o silêncio que a metamorfose na notícia encontra uma de suas principais questões. Se o excesso de velocidade pode conduzir ao vazio, à perda da informação ou ao “silêncio” de Eco, fica claro que um problema fundamental para nós será a análise desse imperativo “dromocrático” (para usar o termo de Virilio) e suas consequências na estrutura do jornalismo online. Para Virilio, (1996) a dromocracia, do grego dromos = corrida, marcha, é a necessidade de uma existência marcada pela velocidade e mutação constante, é uma característica da cultura contemporânea. O jornalismo que pode ser calado devido aos excessos provenientes da própria atividade passa por uma metamorfose devido à nova técnica que o dirige.

No mundo da velocidade/virtualidade as informações de rápida e fácil assimilação não atingem somente o discurso, mas a própria tentativa de informar com isenção aqueles que possuem ou não, acesso à rede mundial de computadores. Se mencionamos os “excluídos digitais” é porque, inclusive, aqueles que não estão conectados ao ciberespaço e não compartilham a cibercultura, são, de algum modo, afetados por esse novo sistema informacional. Tal fato colabora para alguns exageros dos defensores da virtualidade como mecanismo de combate a algumas mazelas sociais (como, por exemplo, Pierre Lévy).

Não se deve, no entanto, reduzir a questão, somente nos mesmos termos que a cultura de massa foi pensada por Umberto Eco em sua obra Apocalípticos e Integrados, apesar de nos utilizarmos de diversos dos seus conceitos. Os meios de comunicação dirigem-se a um público incônscio de si mesmo como grupo social. Contudo, há no pensamento estruturalista de Eco, uma abordagem essencial da visão dos mass media submetidos à lei da oferta e da procura, dando ao público o que segue as leis de uma economia baseada no consumo e sustentada pela ação persuasiva da publicidade, ao sugerir ao público o que ele deve desejar. ( Eco, 1970: 40)

Segundo Eco, o público não pode manifestar exigências nos confrontos com a cultura de massa, tem que conviver com as propostas vindas da mídia, uma vez que os mass media tendem a secundar o gosto existente sem promover renovações de sensibilidade. Os mass media tendem a provocar emoções vivas e não mediatas. Eles não simbolizam a ação, apenas provocam-na. Típico neste sentido, é o papel da imaginação em relação ao conceito.

As notícias são mescladas, sem nenhum nivelamento e também, encorajam uma visão passiva e acrítica do mundo. Os mass media encorajam uma imensa informação sobre o presente, reduzindo aos limites de uma crônica atual sobre o presente até as eventuais exumações do passado, entorpecendo a consciência.

Por outro lado, os mass media tendem a impor símbolos e mitos pela fácil universalidade, criando tipos prontamente reconhecíveis e reduzindo ao mínimo a individualidade e o caráter concreto não só de nossas experiências como de nossas imagens, através das quais devemos realizar experiências.
Todos os jornais e outros mass media desenvolvem sempre uma ação conservadora. A metamorfose da notícia favorece projeções e modelos oficiais, uma vez que se adapta ao discurso oficial, ainda que este não seja verdadeiro, ou melhor responda a um discurso supostamente verdadeiro.

Como controle de massas, a notícia desenvolve uma função ideológica Mascaram, contudo, esta função ideológica ao manifestarem-se sob o aspecto positivo da cultura de uma sociedade do bem-estar onde todos hipoteticamente têm as mesmas ocasiões da cultura, em condições de igualdade, o que constitui uma falácia. Os mass media propõem vários elementos de informação, nos quais não se distingue o dado válido discriminação, mas daquele de pura curiosidade.

Enfim, os mass media, e, entre estes, o jornal, oferecem um acervo de informação e dados sobre o universo sem sugerir critérios de sempre procurando emocionar e sensibilizar, como em um espetáculo, o homem contemporâneo.

A vida é uma viagem! O destino…quem sabe?

A vida é uma viagem! O destino…quem sabe?

Às vezes, a vida vem em flashes na cabeça. Retalhos. Sonhos que se realizaram. Ou não. Objetivos que alcançamos. Ou não. Amores correspondidos. Pessoas que amamos em silêncio. Gente que nos fez levantar depois de uma queda. Gente que nos fez cair. Frutos que deixamos. Sementes que plantamos. Palavras que nunca deveríamos ter dito. Outras que calamos por pensarmos demais. Aventuras. Riscos. Medos. Coragens. Viagens. Amigos. Tropeços. Erros. Acertos.

Um mundo de pequenos cacos de espelhos que refletem quem somos. Um dia, tudo isso passará. Deixaremos a Terra para voltar à casa verdadeira, como creem uns; ou para evaporar para sempre, como creem outros. Todos nós partiremos daqui um dia! Uns mais cedo, outros mais tarde.

Então, já que estamos aqui de passagem, mas, não por acaso, façamos a nossa estadia valer a pena. Vamos tentar ser luz nesse mundo onde ainda existe tanta escuridão. Assim, quando partirmos daqui, algo de nós permanecerá vibrando e brilhando dentro da alma e do coração daqueles que conseguirmos tocar com a nossa melhor parte.

Cada uma de nossas menores ações encerram em si mesmas, escolhas, motivações e consequências. Ainda que não sejamos muito dados a grandes reflexões, nossas escolhas afetam diretamente aqueles que cruzam o nosso caminho. Nunca saberemos de verdade o tamanho da batalha que está sendo travada pelo outro no exato momento em que nossas vidas se esbarram. E, a julgar pela maneira como temos evoluído para uma raça que evita contatos e compromissos, é quase certo que deixaremos como herança uma cultura excessivamente desenvolvida no plano individual e perigosamente pobre na esfera coletiva.

Uma coisa é certa, nenhum de nós escapa de falhar. O erro é prerrogativa de outras conquistas de estirpe mais nobre, como a maturidade, o sucesso e a estabilidade. No entanto, enquanto não tivermos alguma afinidade com os tombos inevitáveis e os equívocos de percurso, jamais estaremos maduros para compreender o quanto é efêmero o sucesso e o quanto é ilusória a estabilidade.

Viver em busca de uma vida estável, protegida das intempéries do acaso é quase tão emocionante quanto abrir um pacote de figurinhas repetidas. A vida cujo maior objetivo é a estabilidade é exatamente isso: abrir um pacote de figurinhas repetidas, dia após dia. Nenhuma surpresa. Nenhuma perda. Nenhum ganho. Nada.

E não importa o tempo que durar, 20, 50 ou 100 anos, se todo o nosso propósito for encher gavetas de planos de felicidade para quando tivermos tempo, as gavetas ficarão abarrotadas e nossas vidas serão vazias. Por isso, sejamos um pouco menos previsíveis ou um muito mais atrevidos diante das escolhas que realmente valem a pena.

O fato é que quando já tivermos colecionado alguns anos de vida, o que nos dará prazer verdadeiro serão os momentos que nos desestabilizaram; o inesperado de um beijo roubado, uma nota baixa para nos livrar do comodismo, um desafeto que virou amigo, um estado ridículo de paixão explícita, a reviravolta num jogo supostamente ganho, a coragem renascida por vencer um desafio aparentemente intransponível.

O que tem de mais bonito nessa viagem maravilhosa que é a vida é que o bilhete não tem destino certo. Vamos colecionando olhares, registrando paisagens, experimentando sabores estranhos até que entendemos, por fim, que uma grande jornada se faz com pequenas e profundas incursões para dentro de nós. Então, que a sabedoria nos alcance antes de nos tornarmos excessivamente sérios, a ponto de não sermos capazes de compreender que quase nada está sob controle. Ainda bem… Ainda bem!

O Apartheid do Arame Farpado: Bauman e os Guetos Urbanos

O Apartheid do Arame Farpado: Bauman e os Guetos Urbanos

Cada vez mais, vivemos em grandes cidades, cheias de pessoas, de carros, de casas, de lixo etc. A formação das metrópoles é um fenômeno global, sobretudo com a “globalização”, que, ao diminuir os espaços, propiciou o acúmulo de diferentes culturas, povos e classes em um mesmo espaço urbano.

Sendo assim, os centros urbanos contemporâneos são extremamente polifônicos, ao mesmo tempo em que cultivam problemas típicos da sua estrutura. Ao analisar esse fenômeno, Zygmunt Bauman nos oferece algumas considerações interessantes e imprescindíveis para um entendimento maior da problemática.

Os espaços urbanos grandes, superlotados e complexos, criam problemas típicos de grandes cidades, como, por exemplo, a violência e, consequentemente, o medo. Este é acentuado, inclusive, pelo comportamento individualista e egoísta que temos, de modo que achamos que o outro é sempre uma ameaça, já que não há motivo para que o outro também não seja uma pessoa que só pensa em si mesma. Sendo assim, temos o primeiro grande problema das cidades, para Bauman, qual seja, o de que “[…] as cidades são espaços em que estranhos ficam e se movimentam em estreita proximidade uns dos outros”.

Ou seja, contrariamente ao que se espera, não há conectividade entre as pessoas, de tal modo que cada uma é uma ilha afetiva isolada da outra, que permanece inexplorável e, por conseguinte, estranha. Dividir os espaços com esses “estranhos”, como acentua o sociólogo, é algo indesejado e incômodo, do qual se busca escapar ou, na impossibilidade da fuga total, no mínimo criar “[…] um formato que torne palatável o convívio com eles e tolerável a sua companhia”.

Dessa maneira, os indivíduos buscam aproximar-se de quem parece ser menos estranho e, portanto, adequado ao convívio. A formação dos grupos propícios e adequados ao convívio, no entanto, acontece de forma bem distinta, segundo Bauman. De um lado, temos os moradores da camada superior que formam seus guetos de modo voluntário e estruturado. De outro, observamos os moradores da camada inferior formando os seus guetos de forma involuntária e desestruturada.

Os guetos voluntários formados pela camada superior são encontrados nos condomínios fechados construídos em áreas nobres da cidade ou, como é a tendência, organizados em áreas distantes do caos encontrado dentro da cidade. Por outra via, os guetos involuntários formados pela camada inferior não são planejados, estruturados, muito menos afastados do caos urbano.

São “construídos” dentro do próprio caos urbano, leia-se, são os centros de todos os problemas ou pelo menos são considerados assim pela camada superior, de tal modo que se torna imprescindível para a segurança e a qualidade de vida da camada superior ter os seus guetos protegidos do caos produzido pela camada inferior. Em outras palavras, viver em um condomínio planejado significa estar fisicamente dentro da cidade, mas espiritualmente fora dela.

“O traço mais proeminente do condomínio é seu isolamento e distância da cidade. Isolamento significa a separação daqueles considerados socialmente inferiores e, como insistem os construtores e agentes imobiliários, o fator-chave para garantir isso é a segurança. Isso quer dizer cercas e muros ao redor do condomínio, guardas de serviço 24 horas por dia controlando as entradas e um conjunto de instalações e serviços para manter os outros do lado de fora.”

“Os outros” são os moradores da camada inferior, os quais também são chamados de favelados, produtores dos problemas urbanos e desmerecedores, assim, de inclusão e de integração social. Diante das cercas e muros que separam o lado A do lado B, observamos a formação de um verdadeiro apartheid social, em que os problemas urbanos produzidos por todos que ocupam a cidade são atribuídos a apenas um grupo, o qual, além de culpado, deve, obviamente, cumprir sua pena, vivendo em ruas miseráveis e esquálidas de que a camada superior tenta, sem economizar esforços, escapar.

“A cerca separa o ‘gueto voluntário’ dos ricos e poderosos dos muitos guetos forçados dos pobres e excluídos. Para os integrantes do gueto voluntário, os outros guetos são espaços aos quais ‘nós não vamos’. Para integrantes dos guetos involuntários, a área na qual estão confinados (por serem excluídos de outras) é o espaço ‘do qual não temos permissão de sair’.”

Assim sendo, há uma definição do papel social que cada um deve ocupar, bem como o jugo que a camada inferior deve carregar, uma vez que é a causadora dos problemas urbanos. Alheia a isso, já que não contribuiu com nenhum dos problemas presentes na cidade, a camada superior vive “[…] fora da vida da cidade, desconcertante, confusa, vagamente ameaçadora, tumultuada e difícil, e ‘dentro’ de um oásis de calma e proteção”, do qual nenhum “estranho” pode adentrar.

Esse fenômeno de segregação culmina no que o polonês chama de “mixofobia urbana”, isto é, o medo de se misturar a indivíduos estranhos ao seu lugar comum, levando à formação dos supracitados guetos voluntários, ou melhor, “[…] ilhas de similaridade e semelhança em meio a um oceano de variedade e diferença”. O apartheid do arame farpado parece, no mínimo, contraditório, em um mundo que se diz globalizado, a não ser que a globalização exista apenas como fábula, para lembrar Milton Santos.

O que esse fenômeno demonstra é a insistente incapacidade que o ser humano parece querer ter em não conseguir perceber-se como parte dos problemas produzidos socialmente, no melhor estilo “o inferno são os outros”. Do mesmo modo, fica claro o preconceito e a intolerância diante do “estranho”, do “bárbaro”, do “selvagem”, que é visto como sendo incapaz de ser incluído socialmente. Além, é claro, de uma estratificação excludente, que, por meio do dinheiro, privatiza soluções, ao mesmo tempo em que uma massa sofre com os problemas que os privilegiados também ajudaram a construir.

Em um mundo que se diz conectado, globalizado, interligado, observar fenômenos de segregação e isolamento é paradoxal, o que é comum em um mundo confusamente percebido, lembrando Milton mais uma vez. Obviamente, a culpa dos problemas urbanos não está tão somente no fato de o indivíduo optar em morar em um condomínio fechado, mas encarar isso como a solução plena e definitiva, assim como enxergar no “estranho” da camada inferior a raiz para tais problemas, é sim fonte de outros problemas, como o ódio, a intolerância, o preconceito e o descaso com pessoas menos afortunadas.

Como diz Bauman, os guetos voluntários promovem algum conforto espiritual, de maneira a tornar a convivência mais fácil com aqueles com os quais se pode ter uma vida social superficial, sem a demanda do esforço necessário para compreender, negociar e se comprometer com outras pessoas diferentes, criando, assim, hiatos discursivos separados por grades, muros e arame farpado.

“Uma vez que esqueceram ou não se preocuparam em adquirir as habilidades necessárias para uma vida satisfatória em meio à diferença, não é de estranhar que os indivíduos que buscam e praticam a terapia da fuga encarem com horror cada vez maior a perspectiva de se confrontarem cara a cara com estranhos. Estes tendem a parecer mais e mais assustadores à medida que se tornam cada vez mais exóticos, desconhecidos e incompreensíveis, e conforme o diálogo e a interação que poderiam acabar assimilando sua ‘alteridade’ ao mundo de alguém se desvanecem, ou sequer conseguem ter início.”

Lindas fotos de crianças interagindo com animais

Lindas fotos de crianças interagindo com animais

Lindas fotos de crianças interagindo com animais foram publicadas em um famoso concurso de fotografia chamado Child Photo Competitions. Trata-se de uma comunidade internacional dedicada à descoberta e promoção dos mais talentosos fotógrafos de crianças do mundo inteiro.

O concurso é realizado mensalmente. Na edição de novembro de 2015, o tema foi “Crianças e Animais”. Cerca de 1.000 fotógrafos de 44 países participaram do evento.

Nas fotos, há uma forte sincronia entre crianças e animais; ambos dividem as mesmas experiências com muito carinho e afeto.

Alguns fotógrafos do concurso fizeram fotos com crianças e seus animais de estimação no seio de suas famílias. Outros entraram em contato com amigos e conhecidos para agendar um encontro e produzir o material.

Os cenários foram escolhidos de acordo com a disponibilidade de cada fotógrafo. Cabe dizer que os ambientes são de muito bom gosto e apropriados para esse tipo de ensaio.

Nesta sessão de imagens do Child Photo Competitions, animais e crianças participam juntos de atividades simples, mas significativas. Tomam banho na banheira, caminham por florestas e campos verdejantes, observam a chuva cair, trocam gestos, comem e dormem. Simplesmente apreciam a companhia uns dos outros.

Confira a seleção de fotos vencedoras, com o nome dos fotógrafos e seu país de origem:

Justyna Garczyk, Polônia

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Amy Pisco, Estados Unidos

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Sarah Jane Van Heerden, África do Sul

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Jennifer Kapala, Canadá

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Jessica Pugliese, Estados Unidos

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Eva Stawarczyková, República Tcheca

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Katarzyna Staniewicz, Polônia

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Jen Maunder, Austrália

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Holger McCormick, Alemanha

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Rhiannon Logsdon, Estados Unidos

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Alicja Yusupova, Polônia

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Dana Disalvo, Estados Unidos

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Dana Marshall, Estados Unidos

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Marta Everest, Espanha

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Jody D’Angelo, Canadá

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Lidia Madura, Polônia

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Sara Hadenfeldt, Estados Unidos

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Carta de um perdão pendente

Carta de um perdão pendente

 

Dia desses eu te vi com olhos de sal. Aperto no peito, foi tudo o que senti, clichê sentimento, tudo o que resta? Não sei, mas percebi que não consigo te perdoar ainda, embora compadeça das suas rugas, desse sal que tomou suas águas, depois de tudo, não foi bem erro, seu ou meu, de quem? É só a vida que caminha entre amores e mágoas. É só a vida… cheia de perdões por tecer com o tempo. A vida cheia de reviravoltas que enjoam os que tem consciência e não beneficia ninguém. A vida cheia de voltas que nos fazem encontrar quem deixamos rindo enlouquecidamente perdida curtida em águas salgadas.

Você delirava, falava de lagos azuis que lhe convidavam, de olhos de água, de futuros ornados, de mares de rosas e espinhos emborrachados. Falava da vida como se ela fosse as ficções que lia e assistia. Não se enxergou na realidade sombria em que se afogava. Por pouco não foi Bovary. Pensava ser Julieta. Querida, eu tentava avisar, no mundo não havia impedimentos de qualquer natureza, o que não se realizava era só porque não era recíproco. Você estava se envenenando sozinha contra um mundo que, se te afastava do amor era por ampla cultura hostil e não por figuras específicas.

Sua paranoia desenvolvida diante de cada pequena frustração te afastou da minha influência. Desconfiada de todos, desconfiada mesmo de mim que nunca lhe faltei assistência mesmo quando sua inocência me lançava em rasteiras, acabou por isolar-se e destruir uma por uma de suas pequenas construções, recomeçadas há tão pouco. Pareciam tão certas, tanto trabalho, tanto esforço. Eu realmente não consegui entender. Um desespero egoísta tomou suas mãos construtoras. Me pergunto ainda se em algum momento você se pegou refletindo sobre quantos sonhos alheios, sobre quantas apostas distintas você carregou com a sua decisão. Perdeu a crença.

Desmantelou a crença que te depositaram. Acusou quem acusava. Pode ser que em algum ponto você estivesse certa, entre tantas vírgulas que a vida fecunda. Você poderia ser sem ponto, mas poesia moderna em linhas renascentistas… – faltou malícia, faltou encontro, faltou assumir-se em vez de se entregar ao abismo. Foi se afundando no vazio a cada esperança rompida. Eu tentei te proteger, algum equilíbrio, poderia ser com o tempo ou nunca, mas você insistia que fosse logo e que fosse de qualquer forma. Havia alguma verdade que você enxergava que poderia até ser, mas, querida, que verdade nesse mundo? Dizer isso às alturas, denunciar as belezas escondidas no alheio, querer impor aceitação a quem se esconde? Perdeu os limites entre a sabedoria e a loucura. De todos os segredos que lhe revelei e você tentou gritar aos quatro ventos, achando que tudo se resolveria, encontrou apenas humilhação. E quantos carregou consigo? Eu, certamente. Perdão, eu consigo?

Assumo que sempre tive certa condescendência com os seus excessos egoístas. Tivemos momentos de paz como nunca nos últimos tempos, pensei até que tivesse amadurecido, penso mesmo, nesta altura, que amadureceu às duras. Agora te vejo em ressaca de águas salgadas, o sal na pele, o sal nos olhos, o sal nas feridas, o sal que não lhe permite mais pensar em lagos de água doce que te convidam. Seu nome está fora das listas. Talvez nas listas de espera… Eu poderia, fosse outra que não eu, confundir minha empatia com perdão, confundir-me pela compreensão e correr logo ao seu encontro. Mas, houve tanto. Eu te observo de longe e tento anteceder seus passos. Tenho receio, mas é inevitável que viremos a nos encontrar, na verdade, nunca deixamos de nos cruzar por aí. Eu tenho te evitado a esmo, mas a vida sem você é vazia. Essa maluquinha que dá cor e poesia às “pequenices” cotidianas.

Eu gostaria que o perdão em mim fosse mais eloquente que metódico, que pudesse simplesmente esquecer e te abraçar. Mas não sou feita dessa matéria, e você mesma a mim é meio arredia. Assim, aguardo pacientemente o momento de nossa reconciliação e espero, por bem, que do zero no qual novamente nos encontramos e por todas as batalhas que juntas enfrentamos, possamos unidas nos reerguer e seguir por novos caminhos. Pois sei inequivocamente, com a minha crueza de natureza, que é difícil caminhar quando não sentimos os pés com o coração. Eu não consigo continuar sozinha – ser Razão sem Emoção.

Do problema das comparações

Do problema das comparações

Sou muito mais do que me reduzo. Não sei com que olhos me vejo, apenas sei que estão desajustados. Olho-me pequena. Pequena para cair e levantar, pequena para saltar, correr e tropeçar, pequena para voar para fora da gaiola dos meus medos. Mas não sou pequena e tenho de saber disso. Tenho de saber que já caí muitas vezes e estou aqui… tenho de me recordar que já escalei sem saber muito bem onde colocar os pés e onde poderia me agarrar…mas estou aqui.

Somos tão mais do que achamos. Somos únicos, caramba! E perdemos tempo a comparar o que não tem comparação possível. Devíamos orgulhar-nos da nossa individualidade, da nossa imperfeição, falhas, acertos e de tudo aquilo que faz de nós seres absoluta e inequivocamente especiais.

Hoje escrevia sobre o facto de ter um percurso incoerente, confuso e até mesmo irresponsável, “castigando-me” por isso. Para quê? Foi esse mesmo percurso que me permitiu ficar a olhar as estrelas em Chã das Caldeiras (Cabo Verde) um dia antes de subir o vulcão do Fogo… foi esse percurso que me permitiu fazer uma viagem extraordinária a Marrocos e estar de noite no deserto do Sahara com amigas maravilhosas!

Estive em muitos lugares, conheci pessoas para as quais meras palavras não bastam para descrever e por isso rotular o meu percurso de forma negativa seria diminuir tudo o que sou e tudo o que essas pessoas representaram na minha vida.

Sou mais do que privilegiada. E, por tantos motivos que disse e outros tantos que ficarão por dizer, tenho de reajustar a minha visão: não posso ver-me pequena. Mereço mais.

 

Porque eu leio

Porque eu leio

por Fernanda Pompeu

imagem: Régine Ferrandis

Vou pular a discussão de quem é o melhor: livro de papel ou eletrônico? É claro que essa questão é interessante. Até inteligente. Mas prefiro falar da leitura independentemente do seu suporte. Então narro algumas graças que a leitura me deu por toda a vida. Também já escrevi em postagens anteriores, e não me furto a escrever novamente, que o prazer de ler nada tem a ver com se preparar para o vestibular, ou prestar concurso para  emprego. Ler literatura não garante ascensão para ninguém. Fosse verdade que a leitura ajudasse, escritores, redatores, jornalistas, revisores, editores, professores estariam magnificamente valorizados no mercado de trabalho.

Nunca li literatura acreditando que ela seria um caminho para o dinheiro. Li por desfrute. Li para conhecer novas paisagens, culturas diferentes, modos de vida do passado, fantasias de futuro. Também para sonhar e me emocionar. Leio porque aprendo com a amizade entre um esquimó e seu cachorro cego. Aprendo com uma personagem da remota Moscou do século XIX, do mesmo jeito que aprendo com a trama de um romance ambientado na Los Angeles de 2014. A leitura literária ensina com profundidade e – muito importante – de forma lúdica. Quer abrir a cabeça? Procure pela literatura.

A memória da leitura me socorreu em momentos duríssimos da vida. Logo que perdi meu pai, passei dias mastigando algumas linhas do Carlos Drummond: Do lado esquerdo carrego meus mortos. / Por isso caminho um pouco de banda. Em outra ocasião quando senti ter sido injustiçada em uma situação de trabalho, foi Mario Quintana quem veio correndo: Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão. / Eu passarinho! A literatura também consola. E como!

Mas o melhor da leitura literária é nos sensibilizar para o outro. Personagens de papel ou de e-book capturam nossa atenção para suas particularidades e diferenças. Você entra na pele de um prisioneiro em Alcatraz, no destino de uma heroína, no coração de um perdedor.

É fato que sempre haverá quem diga: “Ler me dá sono. Só faço obrigado”. É um direito! Mas que pena! Para mim, e talvez para você, a leitura é companheira perfeita. Ela nunca se nega a afagar nossos sentidos. Faz mais ainda: desperta o sexto sentido. Aquele que não cabe na lógica dura, nos cálculos pragmáticos. Ler é a cadeira de balanço da alma.

Zero açúcar e felicidade

Zero açúcar e felicidade

Paraíso, segundo longa-metragem da diretora mexicana, Mariana Chenillo, produzido por Gael Garcia Bernal, aborda a questão da obesidade para falar de relacionamentos, da cruel exigência de belezas padronizas e da perda de nossos códigos de felicidade. Um filme delicado. Na tela o que se pode observar é a angústia dos nossos dias.

O filme conta a história do casal Alfredo (Andrés Almeida) e Carmen (Daniela Rincón), um casal feliz que saboreia a relação: beijam-se, transam, comem sem culpa; são felizes. Após o surgimento de uma proposta de trabalho para Alfredo, o casal se muda para o barulhento Distrito Federal, na Cidade do México. Em uma festa da empresa do marido, Carmen, sente-se humilhada por causa de seu sobrepeso e decide começar uma severa dieta. Fica obcecada por seu peso e mergulha na ansiedade e na culpa. O filme é delicioso e leve, mas o mais importante: aborda a questão da padronização estética.

contioutra.com - Zero açúcar e felicidade

Outro dia assisti em um seriado de TV uma personagem perguntar para outra: Você vai para praia? Com este corpo? E os apelidos tidos como engraçados deram sequência a piadas desnecessárias.

Em uma época onde adolescentes desaproveitam dos prazeres da juventude em nome de corpos perfeitos, o que dizer aos que simplesmente jamais serão galgazes? O que significa estar fora dos padrões de beleza idealizados? Para muitos significa sentir-se deslocado, castrado, limitado. Muitos jovens têm vergonha do corpo, deixam de ir a praia, deixam de ser livres. E assim é, porque fiscais da beleza apontam por todos os cantos.

O cuidado com a saúde é bem diferente da padronização estética e da função de agradar olhares críticos e, por vezes, cruéis.

Há pessoas de músculos perfeitos e fígado nem tanto; outras de músculos e fígado perfeitos; outras que nem sabem mais o que é sentar-se a mesa com prazer. Em nome dessa padronização e de um peso dito ideal, arrogante e muitas vezes inalcançável, muitos praticam um exercício cruel de autoflagelação.

contioutra.com - Zero açúcar e felicidade

Não suporto mais ouvir e ler sobre glúten, lactose, como perder a barriga em três dias ou como trazer o músculo amado e perfeito em três dias. Tenho pavor de piadas sobre gordos e seus respectivos apelidos; pavor dos egoístas padrões de beleza da sociedade moderna que nem tão moderna é, contrário fosse já teria aprendido a respeitar todas as formas de amor, de corpos e de prazer.

Nise da Silveira e as imagens do inconsciente

Nise da Silveira e as imagens do inconsciente

O filme Nise- O Coração da Loucura dirigido por  Roberto Berliner e interpretado com beleza por Gloria Pires nos remete à história da psiquiatra alagoana, Nise da Silveira que depois de sair da prisão por motivos políticos, assume a direção da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação em meados de 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional.

Nise da Silveira é a pioneira do estudo da psicologia analítica no Brasil. Desde o período de formação na Faculdade de Medicina da Bahia, a psiquiatra alagoana procurou a psicanálise freudiana e finalmente a psicologia analítica de Carl Gustav Jung sua base teórica. Ela começa seu trabalho à frente da Seção de Terapêutica Ocupacional no Hospital de Engenho de Dentro em 1946. As noções de catarse e sublimação vieram ajudar a compreender e curar os internos esquizofrênicos dando um basta aos choques elétricos anteriores. Em poucos meses de trabalho, os doentes se expressaram através da pintura para construírem uma ponte para dentro, uma vez que estavam afásicos, sem nenhuma conexão com sua realidade psíquica. A esquizofrenia faz com que o indivíduo se desligue do mundo exterior e viva sem mais um elo de comunicação, o que o torna demente e alienado de si próprio..

As pinturas começaram a ser expostas e se destacaram tanto pela qualidade artística quanto pelos problemas científicos levantados nos trabalhos. Havia um material muito rico a ser pesquisado e analisado pela doutora Nise. Críticos de arte e terapeutas passaram a debater acerca da importância do trabalho de Nise pois as imagens rompiam com dogmas estabelecidos tanto no campo da arte quanto nos cânones psiquiátricos.

Na exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, Nise fala sobre três noções psicanalíticas: o sonho como meio de realização de um desejo, sublimação e estranheza inquietante.  As explicações são dadas com embasamento na teoria de Carl G Jung principalmente no que concerne as mandalas em forma circular, como símbolos que mostram uma tentativa de reordenação psíquica. As mandalas com suas estruturas concêntricas remetem às imagens primordiais da totalidade psíquica e Nise viu neste método uma psicoterapia não verbal em pacientes esquizofrênicos, como se estivessem estabelecendo uma ponte para o inconsciente coletivo tão explorado por Jung.

Nise da Silveira em seu experimento, conseguiu  explicar que as imagens plasmadas tinham um efeito catártico e a sublimação dos desejos inconscientes que anteriormente apareciam deformados como sintomas. Nise da Silveira entrou em contato com Jung através de cartas e lhe enviou mandalas dos pacientes. Na resposta, Jung aprova e admira o trabalho de cura da psiquiatra brasileira e a psicologia junguiana foi um instrumento produtivo para seu trabalho terapêutico.

Nise da Silveira consolidou uma das mais fecundas obras no campo de saúde mental e as concepções de Jung foram divulgadas pelas mãos firmes de uma das maiores pesquisadoras do Brasil, criadora de uma obra viva que ainda dará muito frutos.

Amor a dois não é para corações pessimistas

Amor a dois não é para corações pessimistas

“Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.”  Vladmir Maiakóvski

Amor a dois não é para corações pessimistas. Amor a dois é para dispostos a construir um elo que fica. Amor a dois não fica em cima do muro. Amor a dois desconstrói qualquer possibilidade de impedimento do encontro. Amor a dois é confiança. Amor a dois não sente medo. Amor a dois não vai embora. Amor a dois fica.

Que vá para bem longe no caso do amor ser só um, porque não existe situação mais desleal que permitir alguém que não quer ficar, entrar assim, espalhando afeto entre tantos beijos e depois partindo como quem não se preocupa em cuidar por estar cicatrizando de feridas anteriores. Não é responsabilidade de quem chega fazer o peito arder para o novo. Tivesse escolhido recomeçar, agora nenhum sorriso viraria lágrima.

Mas engraçada essa coisa de amor a dois. Você nunca sabe quando ele surgirá até que acontece. E aí, sem tomar conhecimento da sua influência, você quer amar como se não houvesse amanhã. Esquece que para o amor a dois acontecer, ele realmente precisa ser a dois. Quando o outro coração segue numa velocidade diferente, o amor rompe, machuca e deixa outra pegada difícil de diferenciar entre tantas outras já marcadas pelo caminho. A nós, figura o desejo de prosseguir quando atingidos por essas tristezas do tempo passado. Basta coragem em olhar o presente e reconhecer que o futuro acolhe os ativos.

Amor a dois é para corações otimistas. Amor a dois é causa. Amor a dois não acontece em consequência. Amor a dois é para os indivíduos que se negam a acreditar na passividade do outro. Amor a dois é para quem, de fato, quer amor. Amor a dois não é desculpa. Amor a dois vive. Sem lamentos.

A coragem de estar à deriva

A coragem de estar à deriva

Sentir-se à deriva na vida exige coragem, fé e desapego ao medo. Não espere não sentir medo para soltar as cordinhas que te prendem ao cais. Aceite que o medo está ali como um mecanismo de defesa muito antigo e enraizado. Entenda de onde vem seu medo. Respire e sinta-o agindo sobre você.

Normalmente, o medo vem da mente, que não é capaz de suportar o vazio da insegurança. A mente não suporta nem mesmo a falta de um plano B, quem dirá de um plano A. Mas, o que ela não sabe é que toda e qualquer segurança é pura ilusão. E não adianta tentar convencê-la do contrário.

A verdade é que, por mais seguro você pense estar, por mais bem amarradas que estejam suas cordas, quando se faz necessária a hora da mudança, com um simples sopro a vida te empurra e te muda completamente de direção. Não há corda e talvez não haja nem mesmo barco que possa impedi-la.

Seria a vida, então, cruel? Talvez, no primeiro susto, seja esta a sensação. Mas, cruel seria se ela nos poupasse de todo aprendizado inerente à mudança. A vida não nos surpreende para que soframos. Ela espera que possamos aprender algo com isso para sermos mais fortes, para liberarmos o que não nos serve mais, coisa que, às vezes, é tão difícil de ser percebida. Por mais seguro que o cais seja, nem sempre ele é abrigo da sua felicidade. A hora de partir chega quando a dor do vazio torna-se maior do que o medo do novo. 

E como saber se um desejo de mergulhar no desconhecido é puro impulso, fuga da realidade ou uma necessidade real da alma? Primeiro, é preciso garantir que, caso você decida ficar à deriva, poderá assumir e arcar com os riscos dessa mudança. Isto se chama maturidade. Claro que, se você tem o apoio voluntário daqueles que o ama, ótimo. Mas nunca solte suas cordinhas esperando ser salvo caso afogue-se. Se você estiver preparado conscientemente para lidar com qualquer consequência da sua escolha (o que não significa ausência de medo) e sentir que esse risco ainda vale mais a pena do que o vazio das suas cordinhas seguras, provavelmente trata-se de uma necessidade real.

E, finalmente, quando você se solta e vai, a dor que surge pela falta do concreto transforma-se, aos poucos, em liberdade e autodescoberta. Haverá momentos de escuridão, em que nem mesmo a lua se fará presente. Estes momentos poderão ser sombrios ou perfeitos para repousar a alma e se preparar para o dia que vem. Haverá tempestades e lindos pores-do-sol. E, então, você perceberá que tudo isso já existia antes, lá naquele cais, onde você tinha a ilusão de estar protegido. A diferença é que agora você não sabe onde e quando irá atracar seu barco outra vez. Talvez você nem queira mais deixar o mar. Enquanto isso, aproveite a viagem. Quem sabe nos cruzamos por ai.

“DOLCE FAR NIENTE”: a doçura de não fazer nada

“DOLCE FAR NIENTE”: a doçura de não fazer nada

É preciso, mesmo que por breves instantes ao longo do dia, parar, demorar-se, sentir o prazer de nada fazer, nada ter que fazer, nada a se cobrar, sem pressa, sem olhar o relógio a cada minuto, sem culpa por estender-se na cama. É preciso dar um tempo a nós mesmos, pois temos o direito, sim, de estar com preguiça vez ou outra.

Nossa sociedade vive cansada, estressada, de mau humor, correndo contra o relógio e com a impressão de que não vai dar tempo de fazer nada do que planejara. Desde crianças, somos levados a valorizar o trabalho, o movimento, o não ficar parado, pois, como diz o ditado, Deus ajuda quem cedo madruga – demorar-se na cama é sacrilégio!

Nesse contexto, acabamos por evitar a parada, a quietude, afinal, tempo é dinheiro e não deve ser jogado fora com nada que não seja produtivo. É preciso trabalhar até a exaustão, se possível pulando as refeições ou encurtando o horário de almoço, sem essa de ficar sentado conversando trivialidades à mesa, pois o serviço está urgindo à nossa espera.

E essa sistemática encontra terreno propício para que se fortaleça na atual cultura do status, em que as posses materiais é que determinam o quanto vencemos na vida. Não dá mais para trabalhar oito horas diárias, é necessário preencher os três períodos com trabalho, porque é assim – dizem – que ganhamos dinheiro, porque quem é rico trabalhou e trabalha muito.

No entanto, toda essa pressa atarefada acaba nos adoecendo, senão o físico, a alma, afastando-nos de nossa essência, da construção de sonhos e de ideais que só são possíveis na calmaria, na lentidão silenciosa de nosso respirar. Sem estacionarmos os nossos sentidos por veredas distantes da correria e do burburinho cotidiano, não conseguimos nos reequilibrar emocionalmente.

É preciso parar, demorar-se, sentir o prazer de nada fazer, nada ter que fazer, nada a se cobrar, mesmo que por breves instantes ao longo do dia, mergulhando os pensamentos no vazio das ideias aparentemente inúteis. É preciso não ter pressa, não olhar o relógio a cada minuto, não sentir culpa por se estender demoradamente na cama, após ter tocado o despertador. É preciso dar um tempo a nós mesmos, pois podemos, sim, estar com preguiça vez ou outra.

Ainda mais importante do que presentearmos a nós mesmos com esses instantes de ócio, é fazermos tudo isso sem nenhum sentimento de culpa, sem medo de sermos punidos pela vida por conta desses momentos de ócio. Teremos que estar cientes das benesses que o não fazer também nos traz, pois é desse modo que reconciliamos nossa energia mental ao restante de nosso corpo.

É assim que conseguiremos, mesmo cansados, ao fim do dia, todos os dias, abraçar quem caminha ali ao nosso lado, com ternura renovada e sincera, porque então ainda nos restarão forças para cultivar o amor que deverá sempre nos guiar a vida.

Felicidade é…

Felicidade é…

Quando o assunto é relacionamento amoroso, muitos desconfiam dos “felizes” que não são seguidos do “para sempre”, condicionam a felicidade a pré-requisitos e contratos e se esquecem de que ela é privilégio dos distraídos e não obedece à muitas regras: reside na singularidade ou na soma de momentos delicadamente arrebatadores.

Felicidade é o primeiro abrir de olhos num dia em que eles sabem que se fecharão refletidos nos teus.

Felicidade é sentir meu desejo se confirmar e renovar através da saudade que minha pele grita da tua no decorrer dos dias em que não a visita.

Felicidade é a coreografia de borboletas há muito tempo adormecidas em meu estômago que acontece a cada vez que, nos momentos mais inesperados, teus lábios se demoram nas minhas mãos.

Felicidade é a beleza acrescida aos meus dias pela simples certeza de que ainda há muito de você a ser descoberto.

Felicidade é sentir a intimidade lentamente descalçar os meus pés e desvestir a minha alma, fazendo com que o teu peito me seja descanso.

Felicidade é, enfim, o caminhar de mãos dadas no hoje em trajetos desenhados pela possibilidade de uma coleção bonita de amanhãs.

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