Façam suas vidas extraordinárias

Façam suas vidas extraordinárias

Make your lives extraordinary – façam suas vidas extraordinárias (Sociedade dos Poetas Mortos; 1989 – Dir. Peter Weir)

Embriague-se com fervor. Dispa-se daquilo que te impede de seguir. Refaça verbos. Construa novos adjetivos. Permita-se ser algo além de um simples nome. Embriague-se. Seja tolo. Abrace a ingenuidade como quem acredita nos sonhos intangíveis e sorria diante disso. Não ligue em ser excluído, julgado e maltratado pelos sóbrios que, constantemente afogados nas próprias certezas, estão impedidos de adentrarem no mundo subversivo da embriaguez.

Embriague-se. Consuma cores, frases, formas e toques. Assimile os sintomas. Caia doente e levante novamente. Corra descalço, fale um palavrão bem alto, namore a nudez. E se depois, no caso do efeito ainda não ter lhe deixado embriagado, tome novas providências. Loucure-se. Desligue os cabos, mas não deixe o volume abaixar. Tenha prudência, mas não perca a eloquência. Embriague-se, vamos. Embriague-se!

Descontrole, incerteza, medo, culpa e incapacidade. Embriague-se. Expulse os demônios internos e coloque-os nos seus devidos lugares. Ainda não está não convencido? Inicie todo o processo novamente, mas embriague-se de verdade. Queira. Deseje.

Embriague-se!

Embriague-se, principalmente, de poesia. Ela não deixa ressaca, mas faz elevar o coração. Embriague-se. Com carinho.

Servidão Voluntária: Fahrenheit 451 e o uso da ignorância como forma de condicionamento

Servidão Voluntária: Fahrenheit 451 e o uso da ignorância como forma de condicionamento

Há bem pouco tempo, o cineasta Alejandro González Iñárritu nos apresentou o filme Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância, no qual questiona, entre outras coisas, o que é a felicidade e qual o papel da ignorância nesta. Ao longo do pensamento humano, essa discussão já obteve várias interpretações, mas, de fato, a ignorância parece ser um elemento que contribui para a felicidade do indivíduo ou, no mínimo, para a sua não infelicidade. Isto é, parece haver uma relação em que, quanto menos o indivíduo busca livrar-se do seu não saber (ignorância), mais propenso à felicidade estará, pois terá menos motivos para desconfiar ou questionar aquilo que lhe é apresentado.

Essa questão é suscitada no livro distópico de Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Na sociedade aqui retratada, os livros são proibidos, uma vez que são vistos como fonte de infelicidade. Sendo assim, qualquer obra literária, quando descoberta, deve ser queimada e essa prerrogativa pertence aos bombeiros, que, ao contrário do que conhecemos, põem fogo nos livros e nos locais onde estes são encontrados. Um desses bombeiros é Guy Montag, protagonista da história, um sujeito típico daquela sociedade, mas com algumas inquietações existenciais.

As inquietações de Montag vão ganhando espaço, na medida em que se relaciona com uma jovem chamada Clarisse, sua vizinha, que é totalmente diferente das pessoas que conhece e habitam aquele mundo. A grande virada, no entanto, acontece apenas quando Montag presencia uma situação na qual uma mulher é queimada junto com seus livros. Esse fato faz Montag rever todos os seus conceitos e despertar da prisão que vivia. Desse modo, Montag percebe que a verdadeira razão para que os livros fossem proibidos era impedir a libertação das pessoas, já que, sem o poder do questionamento, todos viviam sob o mesmo condicionamento, resultando em uma massa de iguais, muito mais fácil de controlar.

“Devemos ser todos parecidos uns com os outros. Ninguém nasce livre e igual aos outros, como diz a Constituição, mas cada um é modelado conforme os outros; todo o homem é a imagem do seu semelhante e, assim, toda a gente fica satisfeita.”

Esse condicionamento é o mesmo que se aplica à realidade em que vivemos, já que, para o controle e manutenção do status quo, é muito mais fácil tolher as peculiaridades e idiossincrasias que formam as pessoas e convertê-las em autômatos que fazem todos exatamente a mesma coisa. A publicidade cria modelos de “sucesso” e “felicidade” que devem ser seguidos por todos aqueles que se julgam sãos, de modo que todo aquele que não segue a manada é visto como antissocial ou simplesmente um doente que precisa ser curado. Esse fato acaba sendo facilitado, tanto no mundo distópico de Bradbury, como no nosso, pela educação tecnicista, burocrática e programadora que se propaga, a qual se preocupa exclusivamente com os “comos”, excluindo os “porquês” que, consequentemente, levam a questionamentos sobre a realidade que o indivíduo habita.

“As aulas tornam-se mais curtas, a disciplina é relaxada, a Filosofia, a História, as línguas abandonadas, o inglês e a sua pronúncia abastardados pouco a pouco e, finalmente, quase ignorados. Vive-se no imediato. Apenas conta o trabalho e, após o trabalho, a dificuldade da escolha de uma distração. Para quê aprender qualquer coisa, além de carregar botões, ligar comutadores, enroscar parafusos e porcas?”

Ou seja, busca-se criar um exército de pessoas completamente iguais e, por isso, a educação não deve conter questionamentos, deve-se tão somente aceitar o que é passado, com obediência cega e total. Assim, não há espaço para os livros, visto que estes levam aos porquês da vida, tirando o indivíduo do seu ponto de conforto, do seu padrão, da sua”felicidade”. A inquietação que o indivíduo pode sentir ao entrar em contato com fontes de conhecimento, como livros, é altamente arriscada para os que detêm o monopólio da força, pois, ao questionar, o indivíduo se distancia de todas as fantasias e sedativos que lhes são dados e toma conhecimento da prisão que habita.

Na nossa sociedade, embora os livros não sejam proibidos, ainda há muito pouco interesse em desbravá-los, bem como outras fontes de conhecimento, e isso se deve, em grande parte, à educação tecnicista e aprisionadora que recebemos, aos tentáculos lançados pelo mercado, mas também à própria vontade de permanecer voluntariamente servo do sistema, uma vez que, ao quebrarmos a barreira da ignorância, damos conta da nossa individualidade, assim como da precariedade e perversidade que cercam a existência humana, de tal modo que ser idêntico aos outros ou estar feliz o tempo inteiro torna-se insustentável.

“Compreende agora de onde vem o ódio, o terror aos livros? Eles mostram os poros do rosto da vida.”

Sendo assim, preferimos viver condicionados, aceitando obedientemente tudo que é passado pelos nossos senhores, divertindo-nos com todos os jogos que são postos nas nossas gaiolas, a possuir uma subjetividade que proporcione a reflexão do que somos e da realidade que vivemos. Preferimos estar presos a entorpecentes, apenas para não enxergar a miséria e as angústias. Preferimos o bom e velho pão e circo a nos livrar das amarras fantasiadas de felicidade que nos são colocadas.

“A gente interroga-se sobre o porquê das coisas e, se se insiste, podemo-nos tornar muito infelizes.”

No livro, todas as pessoas que passam (querem) a enxergar a realidade são vistas como antissociais, quando não criminosas e, portanto, inimigas do Estado e da sociedade. É isso que acontece a Clarisse, Faber, Montag e a todos que não se deixam dominar. O mesmo que acontece no mundo de Fahrenheit acontece aqui, já que os bons indivíduos são aqueles que voluntariamente servem a um sistema opressor, que fantasia um mundo de maravilhas sem qualquer tipo de incômodo.

Um lugar onde a ignorância é completa e todos podem fingir ser felizes. Um mundo perfeito de dominação. Um mundo em que as pessoas apenas “Citam marcas de automóveis, de fato, moradas de piscinas e, sobretudo, dizem: Oh! Que bom! Mas dizem todos as mesmas coisas e ninguém tem nunca uma opinião diferente”. Um mundo de indivíduos que se contentam em meter as respostas na cabeça. Um mundo de homens irrisórios e vazios. Um mundo de iguais desconhecidos. E, acima de tudo, um mundo de servidão voluntária, que queima, a 451º Fahrenheit, livros, questionamentos, libertação, amor e poesia e se reconstrói num mundo de cinzas feliz e obscuro.

Quando o frio apertar, abrace apertado quem está ao seu lado.

Quando o frio apertar, abrace apertado quem está ao seu lado.

Hoje fez frio. Veio como havia muito não vinha. Gelou o ar, esfriou o sofá da sala, resgatou meias, casacos e dores do fundo de uma gaveta que emperra como não quisesse abrir. Chegou sabe-se lá de onde, do pacífico, dos polos congelados, do sul do país. Não importa. Aqui faz frio.

Em seu sopro fresco e úmido, esse frio há de aquecer os ímpetos de alguém. Há de animar as almas boas que se reúnem no calor de suas mesas, em volta de suas histórias contadas na fumaça perfumada das panelas bafejando decência. A mim, o frio me reencontra desprevenido e ridículo. Como visita inesperada, entra pelas frestas das horas suspensas e me congela a alma. Vem com o medo da solidão e da dor, com a frieza do dia a dia que me atropela em seus afazeres obrigatórios, com a incerteza de meus caminhos e a angústia que os corta na chuva fina.

Mas o frio também traz uma alegria mansa e um sentimento tímido, frágil, de que alguém em algum lugar deste mundo treme as mesmas dúvidas que eu. Nos quatro cômodos da casa fechada, o vento penetra impertinente e me sopra sons e cheiros de algum lugar onde alguém, como eu, também espera.

Abro a janela, a brisa cruel me bate na cara e me enche de esperança: alguém por aí me aguarda no frio da chuva, me imagina nas horas vazias. E essa presença é tão certa que me dá vontade de lhe escrever uma carta, um bilhete, um alô ou qualquer sinal que dê a esse alguém a impressão de que eu também espero. Um pedido para que não desista, porque mais dia, menos dia nos encontramos. Enquanto isso, o vento frio nos mantém juntos na distância.

Em minha carta, conto das tantas vezes em que ganhei o mundo buscando quem me espera. Refaço rotas, retomo caminhos, relembro instantes exatos em que me perguntei “então é você?” Em cada encontro, há sempre uma certeza calorosa. É você. Depois nos separamos sem mais, amarrados a dois caminhões que se cruzam e depois viajam em direções opostas. O frio volta a ventar suas questões. E não era mais você.

Escrevo como louco o que me nasce na cabeça, cresce no coração e parte pelos dedos. Envio as cartas pelo vento, dizendo baixinho cada palavra na fresta da janela. Quem sabe alguém ouça. Quem sabe seja você. E você vai notar que ali, escondido entre vírgulas e adjetivos, há um sujeito que sofre porque tem medo e tem amor. Alguém que se viciou em saudade e solidão. Que chora olhando o céu e assiste quieto à dança de suas lembranças quando o vento canta, anunciando o outono que chega e derruba as folhas, e desperta uma vontade dolorida de sabe-se lá o quê.

Quem sabe alguém leia. Quem sabe seja você. Quem sabe também me mande uma cartinha e me salve o dia. Afinal, é para isso mesmo que servem os seres humanos, não é? Para se salvarem uns aos outros. De si mesmos. Do frio que está fazendo hoje. Das paredes geladas de uma casa nos primeiros dias do outono.

Algumas palavras sobre o estupro

Algumas palavras sobre o estupro

O estupro vem da objetificação da mulher.

O estupro vem de uma cultura em que vídeos pornôs propagam um pinto sem face comendo mulheres acrobáticas, performáticas e sempre prontas para mais.

O estupro vem de um moralismo hipócrita social, vem de um machismo velado mais ao mesmo tempo explícito, vem de uma imposição de poder.

O estupro é a inflamação de uma virilidade antiga, de uma educação que divide comedores e putas, detentores do poder e vadias sujas, proprietários e propriedades.

O estupro vem de uma cultura de posse, vem da mitificação da bunda e dos mamilos femininos, vem da over sexualização das partes do corpo da mulher, vem das punições, dos julgamentos, das estereotipações, das castrações e dos medos.

O estupro vem do desrespeito milenar, da síndrome de superioridade, dos abortos das falas e das vontades da mulher, da falta de empatia com o outro sexo, com o outro ser humano.

O estupro vem de uma cultura em que o corpo da mulher pertence a todos, (homens, mídia, governo, religiões…) menos a ela mesma.

6 maneiras de treinar a mente para acelerar seu aprendizado

6 maneiras de treinar a mente para acelerar seu aprendizado

Veja 6 maneiras de turbinar seu cérebro para aprender mais rápido.

Aprender um novo idioma, assim como aprender qualquer conteúdo para ser aplicado na área profissional, requer uma boa dose de esforços, além de ser algo que atingirá seu pico, em geral, a longo prazo. O problema é que muita gente vai levando com a barriga e leva anos ou até décadas para poder entender algo em sua total plenitude. Enquanto isso, outros estudam diferentes coisas em paralelo e sentem a necessidade de tornar o estudo mais produtivo para poder aprender e, ao mesmo tempo, desfrutar de outros estudos em paralelo.

O fato é que o aprendizado não depende só da didática e do professor. Quem tem pensamentos mais claros e consegue garantir um melhor desempenho nos estudos tende a economizar tempo e aprender o conteúdo muito mais rapidamente, mas nem todos nascem com o cérebro turbinado e, para essa finalidade, já existem várias técnicas que o aluno pode utilizar para turbinar seu cérebro. Quer saber como? Veja as dicas que separamos a seguir.

Antes de pular para as dicas, uma ótima alternativa para turbinar o cérebro é estudar idiomas, o que já pode ser feito pela internet (https://preply.com/pt/), através das plataformas online, que oferecem aulas de inglês para São Paulo, Rio de Janeiro e demais estados.

  1. Aprenda coisas novas

Aprender coisas novas ajuda você a conhecer, reconhecer, lembrar e exercitar o que já aprendeu. Esse ciclo cria estímulos positivos para o cérebro e estimula a desenvolver novos interesses. Você pode, por exemplo, aprender a tocar instrumentos musicais, aprender uma nova língua – ou uma terceira língua – e mergulhar em jogos de raciocínio, como o xadrez.

  1. Exercite-se físico e mentalmente

A pessoa que vive de forma sedentária estimula o cérebro a viver da mesma forma e esse é um processo natural. E isso não é nenhuma novidade. O corpo precisa trabalhar em conjunto com o cérebro e vice-versa e, por isso, exercícios são importantes para manter o corpo saudável e as células nervosas ativas, o que influencia na concentração e no próprio humor.

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  1. Alimente-se de forma saudável

Se você se alimenta de coisas hipercalóricas e está acima do peso, sua respiração é afetada e, com ela, sua concentração vai parar em Marte. Além disso, se o corpo não recebe todos os nutrientes de uma alimentação saudável, seus órgãos não funcionam bem e você não ajuda o cérebro a produzir substâncias benéficas que contribuirão para um bom raciocínio.

  1. Faça algo repetidamente

Quando fazemos algo várias vezes, nosso cérebro começa a criar mecanismos para realizar essa tarefa de forma mais prática. Lembre-se de quando você ainda era um bebê e estava aprendendo a comer usando o garfo? Você só conseguiu desenvolver a capacidade de segurar o garfo e manuseá-lo com perícia graças à repetição constante da ação.

  1. Estimule sua memória

É extremamente importante criar desafios para si mesmo se você quiser desenvolver sua memória e isso pode ser feito através de jogos de memória, testes ou conversando com uma outra pessoa e abordando diferentes tópicos. Forçar a mente a guardar detalhes também ajuda no processo de aprendizagem e facilita a absorção visual de todo o conteúdo.

  1. Faça pausas para esquecer-se de tudo

Estudar e preparar-se para uma vida profissional é importante, mas mais importante do que isso é dedicar-se a si mesmo e a quem você ama ou gosta. Quem passa o dia todo estudando e não dá uma pausa para sair com quem gosta ou fazer o que lhe deixa feliz, tende, cedo ou tarde, a ter recaídas. O cérebro não aguenta ficar 24 horas estudando e há momentos em que é necessário esquecer-se de tudo e deixar o cérebro repousar para recarregar as energias.

O poder das asas que nem sabíamos possuir

O poder das asas que nem sabíamos possuir

A maior parte do que realmente importa para nos manter conectados à essência de nós mesmos, do outro e do mundo, não tem lógica alguma e nenhuma garantia. É do caos que nascem as ideias geniais. É dos conflitos que brotam as intersecções e os questionamentos necessários para nos tirar da paralisia emocional. É da incoerência que nascem as inquietações exatas para nos fazer questionamentos precisos sobre nossas supostas verdades, crenças e certezas.

Um dia você se dá conta que fez algumas escolhas estranhas, outras previsíveis, outras excessivamente planejadas. Fica parado um instante para contemplar-se e permanece ali, matutando sobre quem é, o que é que tem feito de extraordinário ou de ordinário, no que é que acredita e o que refuta, no que te move ou te anestesia. E, a depender das respostas que for capaz de se devolver, ficará satisfeito, insatisfeito, orgulhoso ou envergonhado sobre sua própria trajetória.

O problema maior, nem é descobrir que essa vida que anda levando não é nada daquilo que você sonhou. O problema maior é descobrir que você se acostumou a abrir mão do sonho, que você virou uma pessoa para a qual “tanto faz”, que a rotina conseguiu matar dentro de você o desejo pelo desconhecido.

O desconhecido é aquele motivo além do óbvio que faz a gente ser curioso, atrevido e saudavelmente irresponsável. Triste de quem evita o amor por medo de um dia sofrer a perda. Triste daquele que abre mão da travessia por medo da instabilidade do barco. Triste daquele que se habitua à solidão por medo dos desafios do convívio.

O convívio é oportunidade de descobrir dentro de nós alguém que é capaz de ouvir, enfrentar a própria urgência em detrimento da urgência do outro, entregar em outras mãos o nosso fardo para que ele tenha um significado de aprendizagem, além do peso.

E, tudo bem se você for meio desastrado e tiver uma alma volúvel que se apaixona facilmente. As paixões são excelentes professoras da arte de se conhecer. É por meio delas que vamos nos reinventando a cada vez que uma fogueira se apaga e deixa uma brasa remanescente para fazer surgir uma nova chama.

Paixões são gatilhos de alegria; e devem morar nas pequenas e nas grandes coisas. Devem ser reveladas numa casquinha de sorvete partilhada no fim da tarde, num toque de mãos que se entrelaçam, na descoberta de um novo talento, numa excitação interior que brota por nada. Estar apaixonado, por algo ou por alguém, faz a gente compreender que absolutamente todas as nossas experiências nos constituem e transformam.

No fim das contas, o que nos interessa mesmo não é ter nenhum poder; é quantidade de vezes que perdemos o fôlego, seja pelo riso que afrouxa as cordas da tensão de existir, seja pelo arrebatamento de uma forma bonita de afeto que nunca se havia experimentado, seja pelo enfrentamento de algum risco que tenhamos passado a vida inteira a evitar.

É na hora do salto que perdemos o chão para descobrirmos que nossas asas não ficam nas costas. Elas ficam dentro de nós, guardadas em nossa infinita capacidade de voar além dos medos, das limitações e das ilusórias garantias de segurança.

 

 

Eu não vim nessa terra pra não morrer de amor

Eu não vim nessa terra pra não morrer de amor

Já falei de metades, bradei sobre instantes e saí nas ruas dançando amor. Mas esqueci de rabiscar no asfalto e pintar nos muros a indagação que deixa qualquer amante sedento de palavras; se não vim nessa terra pra não morrer de amor, por que vim? É tempo de colocar os pingos nos is e fazer valer o coração que nos comporta e nos move por dias a fio, cambaleante, mas afinco, disposto sempre ao impossível de formas possíveis.

“Enquanto me reconheço, quanto mais vivo, menos esqueço”. (Helio Flanders)

A mensagem é clara e nua: vamos abraçar os clichês. Vamos reconhecer as nossas próprias pernas e mãos desmedidamente compondo um afresco desse nosso amor que não é castrado e controlado pelos ditos ritos sociais. Vamos perder as estribeiras e mergulharmos fundo na poesia sufocante da ausência de métricas trajando versos aleatórios, mas munidos de tanta vontade que não existirá ar, somente uma enchente de sorrisos.

Não quero mais medir o tempo das coisas já vividas. Quero e, espero que também queira que criemos o nosso próprio espaço emocional e físico, onde possamos despejar litros e mais litros de admiração, confiança, respeito e companheirismo. Porque presos nas mazelas do egoísmo barato, o amor é o primeiro da fila no abismo.

Quero cantarolar na mesa de bar, bebendo descontraidamente, a felicidade carnavalesca do amar nós dois. Mas sem fazer qualquer tipo de pose ou discursos de inveja para ganhar público de amigos e desconhecidos, pois no nosso palco, o show é intimista e artístico num ponto que não cabe plateia.

Por que eu não vim nessa terra pra não morrer de amor? Porque é com o amor que me visto e saio porta afora. Sem ele, a vida seria um paraíso desnudo do qual não poderia fazer parte.

“E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como se não ouvia mais”. (Chico Buarque)

Paisagens deslumbrantes criadas com comida

Paisagens deslumbrantes criadas com comida

O fotógrafo inglês Carl Warner usa porções de comida como base para criar paisagens deslumbrantes (e deliciosas), que fazem parte de seu projeto chamado Foodscapes. Essas obras de arte engenhosas são criadas a partir de alimentos frescos como pão, carnes, frutas, legumes e doces.

Warner trabalha como fotógrafo no setor de publicidade há mais de 30 anos. Ele tem vasta experiência desenvolvendo fotos para anúncios, e seu projeto Foodscapes chamou a atenção da mídia internacional.

A inspiração do projeto surgiu em 1999, mas a ideia só começou a ser executada bem mais tarde, em 2008. Em entrevista para o Huffington Post, Warner disse: “Eu estava caminhando pelo supermercado em um dia qualquer, e vi uns cogumelos Portobello muito bonitos. Eles pareciam árvores exóticas, então eu pensei em levá-los ao meu estúdio. Eu percebi que precisava de algum plano, então eu voltei ao mercado e comprei um pouco de arroz e feijão para construir um set de trabalho. Funcionou. Eu nunca havia visto nada parecido com isso”.

Desde então ele aprimora sua ideia original, usando seus conhecimentos de iluminação artificial para criar novas paisagens. O segredo, diz Warner, é iludir as pessoas, fazendo-as acreditar que as cenas são reais, embora não passem de projeções artísticas fantásticas.

Ao planejar cada imagem, Warner decide quais ingredientes serão usados e, em seguida, um estilista alimentar e uma máquina de modelar ajudam-no na execução. Todo o processo pode durar semanas. Muitas vezes, as cenas são montadas em partes, minuciosamente.

As imagens criadas por Warner são instigantes e surreais. Sua arte com alimentos inclui navios rumo ao horizonte, barcos que desafiam mares tempestuosos, florestas, desertos, pradarias, praias, montanhas, sempre em representações lúdicas.

Todos os alimentos foram consumidos por Warner e seus assistentes, ou então doados para abrigos. Não houve desperdícios.

Veja então algumas das paisagens deliciosas criadas por Carl Warner:

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Os relacionamentos de hoje em dia

Os relacionamentos de hoje em dia

Paramos de nos esforçar. Afinal de contas, por que se esforçar pelo amor de apenas uma pessoa quando o que a sociedade quer que a gente pense é que o mar está cheio de peixes? Não vale a pena sofrer por apenas uma pessoa quando tantas outras estão a um simples passo: no celular, nas redes sociais, nos sites de relacionamento e em muitas outras alternativas. O difícil, hoje em dia, é escolher, entre tantas opções, a que julgamos melhor. Um celular dá muito menos trabalho do que uma pessoa. Temos a impressão de que um «Bom dia» pelo Whatsapp substitui o abraço da manhã. Dizemos para nós mesmos que o romance morreu, e talvez tenhamos razão, mas por que não redescobri-lo? Talvez o romance de hoje só comece quando deixarmos o celular na bolsa na hora do jantar. Talvez a única forma de viver um romance na sua plenitude seja olhando na cara da pessoa que está sentada na nossa frente.

Quando achamos uma pessoa legal, nosso olhar não para quieto, fica numa busca frenética por outras opções em volta, porque sempre existe a opção da escolha, e é essa escolha que nos anula. Sempre somos levados a pensar que quanto mais oportunidades, melhor. Mas nunca devemos esquecer o provérbio «quem muito abarca pouco aperta»; ou seja: nunca ficaremos satisfeitos. Sequer entendemos o que significa estar satisfeito, desconhecemos este conceito porque sempre estamos aqui e lá ao mesmo tempo, pensamos nas opções escondidas atrás da porta, sempre mais e mais e mais…

Sabemos ficar tranquilos e sabemos nos divertir, mas, se não temos coragem para encarar nossos demônios, como vamos amar outra pessoa? Sempre nos rendemos e abandonamos o barco. É possível que nenhuma geração anterior tenha visto o mundo de forma tão frívola. Podemos entrar na Internet, ver a foto de um lugar bacana, pegar o cartão de crédito e comprar o voo na hora. Podemos, mas não fazemos. Ou seja, ainda que tenhamos essa capacidade, preferimos ficar em casa acompanhando a vida dos outros no Instagram, talvez uma vida que também poderíamos ter. Vemos lugares onde nunca estivemos e gente que não conhecemos, nos deixamos bombardear por estímulos sensoriais e nos perguntamos «por que somos tão infelizes?». A resposta é simples: não temos ideia do que é a nossa vida, mas sabemos exatamente o que ela não é.

Se, finalmente, encontramos alguém que nos ame e que nós amamos, queremos rapidamente revelar a novidade publicamente, contamos para todo mundo que estamos em uma relação, mudamos o nosso status no Facebook e colocamos uma foto no Instragram. Deixamos de ser uma pessoa e passamos a ser ’nós dois’, e sempre devemos aparecer publicamente bem e sorridentes, felizes e em harmonia. Não falamos nada quando brigamos, nada de foto de olhos chorosos e lençóis encharcados de lágrimas. Tampouco escrevemos 140 símbolos no Twitter para avisar o mundo que a relação está a ponto de acabar. Não, essas coisas não são reveladas porque são pessoais. E os momentos de alegria a dois, não são? Sempre mostramos a relação como algo ideal e fugimos do que ela realmente é.

Até que vemos outros casais felizes e começamos a nos comparar com eles. Nos transformamos na geração da comparação, uma geração que funciona na base das curtidas«. Sempre queremos mais e mais. Bastam apenas algumas curtidas (ou a falta delas) para pensarmos que somos melhores ou piores que os outros. Nunca seremos suficientemente felizes porque os padrões de comparação não são reais. A vida que criamos é irreal, assim como as nossas relações. E, infelizmente, não podemos — ou melhor: não estamos prontos para — entender isso.

Finalmente, decidimos terminar as relações, porque não somos suficientemente bons e porque nossas relações não são como manda o ideal. Então, mais uma vez, decidimos mudar, entramos em vários perfis na Internet, pedimos — ou cutucamos — outra pessoa como se pede uma pizza e tudo começa de novo: emoticons, sexo, a mensagem de «bom dia», uma selfie, etc. Outro casal superficialmente feliz. Comparações, comparações, comparações. De repente, sem perceber, aparece uma onda de insatisfação, brigas, «há algo de errado conosco», «isso não está dando certo», «eu quero outra coisa», e terminamos de novo, outro amor que se desfaz sem nunca ter, verdadeiramente, acontecido.

A próxima vez, a mesma coisa, outro sucesso passageiro, outra tentativa de encaixar a complexidade de uma relação em 140 símbolos, em imagens estáticas e cheias de filtro, em 4 idas ao cinema. Nos preocupamos tanto em passar a impressão de felicidade que somos o oposto dela. Qual é o nosso ideal? Alguém sabe? Ninguém.

Acontece que esse ’algo a mais’ que sempre buscamos é sempre a mesma mentira. O que é natural, e o que realmente queremos é conversar um pouco, queremos ver a cara do nosso amor ao vivo e não em uma tela de celular, queremos que tudo aconteça progressivamente. Na verdade, a simplicidade é o caminho. Não precisamos de uma vida de ’curtidas’, seguidores e comentários. Infelizmente, ainda não percebemos isso. Queremos uma conexão profunda e verdadeira, um amor construído com verdades, queremos toque, queremos ter certeza de que aproveitamos a vida de forma inteira. É disso que precisamos, e é isso que não sabemos.

Até agora, não vivemos. Não amamos…

Autor: Jamie Varon
Tradução e Adaptação: Incrível.club
Foto da portada: Veronica Caycedo

Somos loucos, entendeu?

Somos loucos, entendeu?

Antes de prosseguirmos, algumas regras precisam ser informadas. São três. Ainda estamos em construção e toda sugestão é bem vinda, mas desses três princípios não abrimos mão; 1. Fale sobre suas loucuras. 2. Continue falando sobre suas loucuras. 3. Dê um abraço na pessoa mais próxima no momento. Completada todas as regras citadas, seja bem vindo (a) ao clube. Também somos conhecidos, carinhosamente, pelo nome Clube dos Loucos. O grupo não é grande, mas transborda amor com facilidade.

Em tempos de intolerâncias, preconceitos e uma espécie de sanidade orquestrada para o fechar do coração, convoco todos os espíritos deslocados para sonharmos juntos. Essa conversa de ingenuidade por acreditar num mundo melhor não passa de pessimismo daqueles que desistiram de acreditar. Realidade é perspectiva e não condição. Enquanto existir fôlego para pessoas como nós – que insistem, tudo será possível. Não ligue das suas manias serem estranhas ou engraçadas sob o olhar dos outros. Ignore se praticar o certo e o gentil fará de você um pobre coitado, ou, no discurso pejorativo – “bonzinho só se fode”. Nada disso. Tampouco pincele felicidade. Quem gosta de ser feliz em parcelas é o banco. Gargalhe como se não houvesse amanhã. Beije de língua, mas sem pensar no movimento seguinte. Faça sexo por tesão e não para trapacear o relógio. Cante alto sua música favorita, mesmo na rua. Sorria mesmo sem ter ouvido o possível aceno de alguém. Assista inúmeras vezes o filme que deixa o coração em êxtase. Pequenas loucuras despercebidas pela maioria, mas tão fundamentais quanto escolher levantar da cama dia após dia.

Somos loucos, entendeu? Aprendemos diariamente com essa sintonia que grita forte por esse amor sadio, cúmplice e que não nega mais. Por quê? Corações inteiros não precisam responder porquês.

Assim como Sherazade, guardamos mil histórias dentro de nós

Assim como Sherazade,  guardamos mil histórias dentro de nós

Começo este texto relembrando resumidamente a história da Sherazade e às mil e uma noites:

Conta a lenda que um Rei mergulhado no rancor e na amargura devido à traição de sua esposa, decidiu vingar-se contra o feminino, casando-se a cada noite com uma nova esposa, à qual ordenaria invariavelmente a sua morte. Mas eis que um dia chega a vez de Sherazade, que provida de um plano arriscado e engenhoso, muda o desenrolar da história.

A cada noite a nova rainha conta uma história encantadora ao Rei, deixando-a interminada ao raiar do dia. Ele, ávido em querer conhecer do desfecho, polpa a vida de Sherazade dia após dia. Passam-se mil e uma noites e Sherazade diz que não tem mais histórias para contar.

Apresenta ao Rei os filhos gerados nesse tempo, os quais ele não conhecia pois estava inebriado pelas histórias da rainha. Neste momento, o rei percebe que não há mais rancor ou desejo de vingança em seu coração e que não poderia mais viver sem Sherazade.

Assim, como o Rei desta história, muitos de nós passamos por momento difíceis de digerir. Traumas, traições, enganos, decepções, ilusões, lutos… uma enormidade de situações pode fazer com que, em algum ou em muitos momentos, nos sintamos dominados por fortes emoções e sentimentos que nos impedem a ação racional ou a elaboração de um sofrimento existencial.

No caso de Rei, a traição de sua mulher despertou nele uma força destrutiva generalizada em relação ao feminino, projetada não somente sobre as futuras esposas destinadas à morte, mas também direcionada aos aspectos femininos de sua própria personalidade inconsciente. A atitude agressiva do Rei impedia qualquer contato com sua própria sensibilidade e com suas emoções, as quais trariam os recursos curativos ao seu coração desapontado. Ao contrário, tal atitude o mantinha destinado a uma ação compulsiva e insaciável de vingança, destruindo também sua própria personalidade.

Mas, ei que surge Sherazade, personalizando as forças criativas do feminino e por esta via, torna-se capaz de transpor as defesas e a unilateralidade do Rei. Através das suas histórias, conduzidas de maneira tão extasiantes e atrativas,ela fazia com que o Rei esquecesse da sua intenção provisoriamente, passando a vivenciar novos interesses e sensações.

As histórias têm o poder de nos transformar. Despertam nossa atenção, nossa capacidade imaginativa, e através delas, nossa disposição para a elaboração simbólica. Elas nos atingem justamente no lugar onde moram nossos sentimentos e nos ajudam na abertura emocional para transpormos nossas dificuldades existenciais.

Se notarmos bem, toda história possui um início que se dirige para um conflito e para o potencial para resolução do mesmo. Geralmente há um clímax, que nos mostra a necessidade de um nível máximo de tensão para a transformação ocorra e o desfecho da história possa ser positivo. Não podemos ficar com histórias sem final, pois não há como deixar em aberto este espaço em nossas mentes. Além disso, toda história tem um herói ou um ato heroico essencial para a resolução do conflito inicial. Ele é o símbolo da nossa capacidade de superação e amadurecimento para lidar criativamente com os múltiplos aspectos da vida.

As mil e uma histórias e a força criativa de Sherazade transformam o Rei e com isso mudam o curso do destino de ambos. Não há mais desejo de vingança, não há mais a morte e a destruição. Há somente o casamento, símbolo da união dos opostos (feminino e masculino) e os frutos, representados pelos filhos.
Alimentados pela saga de Sherazade, nós também podemos encontrar um caminho criativo para lidarmos com nossa própria história, especialmente com nossos lados destrutivos, compulsivos e estagnados.

Toda vida tem uma história, uma bibliografia que lhe traduz os fatos vividos na direção de onde os sentimentos se impuseram na jornada existencial. Tendemos a acreditar que essa história, devido a realidade dos fatos torna-se única e imutável, pois afinal, o que passou já passou, já está escrito, não tem volta.

Mas, se começarmos a fazer o exercício de contarmos e recontarmos nossa história, permitindo que novos enredos (nossos e de outras pessoas) nos reguem a alma, é possível que em algum momento nossa própria história se transforme em outra, não somente com um novo desfecho, mas também com um novo olhar sobre toda a trajetória.

A verdade é que nossa história se modifica e se enriquece a cada dia. A cada fato novo, o passado também se reconstrói. A linha do tempo se alimenta para os dois lados, ligando o que passou ao que virá.

Toda história é uma jornada heroica. É um caminho humano em direção a toda nossa potência criativa e existencial. Ela se modifica a cada passo em direção a maturidade, a cada encontro que nos transforma, a cada ideia nova que confronta as anteriores.

Poder reconstruir e recontar nossa história a cada dia nos anima e nos consola. Nos mostra que as feridas que hoje ainda fazem sagrar e chorar, serão um dia cicatrizes que representarão a força e capacidade de se recuperar e seguir a diante.

Por isso, busquemos todos os dias a Sherazade que habita nosso ser. E se guardamos mil histórias dentro de nós, que elas nos levem a nossa versão final, aprimorada, amadurecida e feliz.

SOMOS ETERNOS RASCUNHOS

SOMOS ETERNOS RASCUNHOS
Young woman having fun and blowing bubbles outdoors

O que parecia ser um definitivo fim do caminho era um beco sinuoso e úmido. Sedutor. Iluminação difusa, aérea. Uma dessas esquinas caprichosamente desenhadas nas amplas, monótonas e previsíveis alamedas da vida. Parece, de fato, que nada é exatamente o que parece ser. Somos salvos de virar estátuas de sal graças à nossa maravilhosa transitoriedade.

Um alívio imenso poder respirar fundo, como se respira depois do gozo. Encher o peito de ares novos e bem-vindos. Deixar que o sangue renovado flua, escorra seus caminhos num caminho engenhoso e belo por dentro de nós.

Um presente inesperado poder dançar fora do ritmo, como deusas celtas a se confundir com a terra, numa noite de solstício de verão. Passos brincalhões a nos misturar com a música que vem de lembranças boas e escapa dos lábios em canções queridas, ungidas, murmuradas.

Uma inundação de sentimento de liberdade, compreender que absolutamente tudo é provisório, solto, imprevisível. Entregar-se ao balanço de um abraço de si mesmo. Encontrar-se. Perder-se. Reencontrar-se na descoberta de um amor que chegou de mansinho, foi tomando tudo de sua bondade e desencavando lá de dentro sonhos esquecidos, guardados, adormecidos.

Um banho de chuva depois de uma longa e intempestiva jornada no deserto. Deixar a água bendita, escorrer pelos cabelos, contornar o rosto, o colo. Absorver o sal dos lábios há muito calados, no resignado entendimento de que talvez as melhores coisas venham depois. Mais tarde.

Enfiar os dedos dos pés na areia e acolher o mar que se dissolve em espuma, ao desmaiar languidamente na praia. Deixar que o arrepio do encontro suba pelas pernas, encontre a espinha e inunde o coração. Entrega. Prazer. Rendição.

Sentir o abraço morno do sol que se despede no fim da tarde. Parte com a tranquilidade das almas solúveis que não temem o fim, porque compreenderam que o término de qualquer coisa não passa de uma ilusão, à qual nos apegamos apenas para poder acreditar que os pontos finais da vida moram na ponta dos nossos dedos.

Encontrar a noite, suas sombras e luzes a desenhar histórias que se perderam no tempo, que nos preenchem do agora e que nos despertam a excitação do que ainda está por vir. Dissolver-se na certeza de que as incertezas são tão bonitas quanto um floco de neve. Temporais. Frágeis. Fluidas.

Envolver-se no manto de estrelas dessa noite e adormecer na serenidade de ter finalmente compreendido que somos eternos rascunhos de nós mesmos. Amanhã, outra versão de nós virá nos despertar para outros sonhos, outros desejos, outros encontros. Uma vida novinha em folha caberá na palma da mão, na curva de um sorriso, no calor de um amor tranquilo. Paz. Acolhimento. Redenção.

 

 

 

 

 

Para você que enxerga o amor nas prateleiras de supermercado

Para você que enxerga o amor nas prateleiras de supermercado

“Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar.” (Chico Buarque)

O amor não está à venda, mas o desejo está. Para alguns, a vontade de ter alguém é motivo suficiente para uma mudança no status de relacionamento. Trata-se de quando não é capaz de manter a própria solidão e precisa dividi-la com o outro. Mas a sensação momentânea do carinho passa e, com ela, surge uma nova necessidade. É quase um vício, mas longe de ser amor. Relacionamentos volúveis conduzidos por abstinência. Há quem jure de pé junto estar amando naquele momento. Que a vida sorriu e trouxe a sorte para o encontro. Semanas depois, a partida. Culpa o adeus sob a justificativa do amor ter trapaceado. Foi injusto. Não merecia.

O amor não está à venda, mas o ego está. Para outros, o querer alguém é tanto que nubla os próprios sentidos. Quando imerso numa relação, resolve que o amor só é amor quando os seus pressupostos são atendidos e o seu ego alvo de carícias. Mas nem sempre a sua vontade é lei e, com ela, surge o desrespeito. É mais um vício. Este, bem mais longe de ser amor. Relacionamentos nocivos compostos por desigualdades. Há quem jure de pé junto estar querendo o bem do amor. Porque quem ama quer o bem e não faz nada menos que o certo para esse amar. Meses depois, a partida. Culpa o adeus sob a justificativa do amor ter trapaceado. Era tudo mentira. Não merecia.

O amor não está à venda, mas a cumplicidade está. Para poucos, o amor nunca foi motivo, mas escolha. Não existe dúvida, quando, dividindo afeto com alguém, a única preocupação é sobre estar entregue, aberto e transparente. Mas nem sempre o amor deparado faz poesia. Algumas vezes, em linhas tortas, o medo acena para o fim. Há quem jure de pé junto não temer. Afinal, o amar fez morada e não pretende procurar um novo lar. Anos depois, a partida. Culpa o tempo sob a justificativa do amor ter trapaceado. Ingratidão. Não merecia.

O amor não está à venda. Não imagino o amar como um produto cuidadosamente embalado e exposto em diversos tamanhos e formas. Tampouco me interessa a busca a todo custo da sua sensação. Procuro o sorriso nos pensamentos, a coreografia ideal nas falas e um senso de equilíbrio nos gestos. Se, a partir disso, nascer algo parecido com o amor, seja bem vindo. Nem preciso jurar de pé junto. Passados alguns minutos, o silêncio. O amor é de graça. Eu mereço.

Você pode ser o antidepressivo de alguém.

Você pode ser o antidepressivo de alguém.

Não sei bem como são os medicamentos antidepressivos e aqui não estou falando contra, nem recomendando que alguém interrompa a medicação receitada pelo psiquiatra. Não é sobre usar ou não medicamentos, mas sobre lugares da vida em que substâncias químicas jamais serão suficientes.

Eu gostaria de algo pra tomar e pronto, todas as minhas questões fossem resolvidas. Gostaria muito de ser uma pessoa bem resolvida, eu sou como você. Cheio de problemas feito livro de aritmética e de dúvidas feito barrar de pesquisar do Google.

Você já leu a bula de um Prozac? Elas não ensinam nada sobre caso a gente ter alma sensível às coisas mais bobas da vida, desconsideram veementes o sentimento de quando surge a vontade de engolir as nuvens do céu. O Prozac não vai me dizer se devo insistir ou desistir de algumas amizades, nem me explicar qual é a relação amorosa mais apropriada.

Para viver além da medicação é preciso deitar no chão. Tirar os sapatos, cantar mesmo sem dom suas músicas favoritas, desenhar essa realidade paralela de quem não tem dom de representar fielmente os objetos. Fazer de conta ser qualquer coisa.

Você também necessitará ter dois dois olhos capazes de chorar com ou sem motivo. Tudo bem se borrar a maquiagem que acabara de preparar ou sua cara inchar como um panda alucinado. Tudo bem mesmo! Pandas são até desenhos animados que salvam seus amigos lutando karatê, parecer um panda é melhor que engolir o choro e viver entalado de tristeza.

Chame seus amigos e vá pra algum lugar. Se eles não quiserem ir, se você acha já ter irritado tanto o mundo que agora está sozinho, tudo bem, tudo bem também. Aproveite-se. Escolha o seu lugar. Talvez dê pra dançar. Talvez seja o momento de viajar. Com certeza há milhares de “talvez” para achar conversando consigo mesmo. Falar sozinho não existe se você está acompanhado de si.

Eu sei, você  esquecerá estas palavras nas horas de agonia, eu mesmo esqueço, tudo bem. Também, se precisar tomar algo além do receitado pelo médico , por favor, tome algumas horas deixando doer. Não há nada de errado em sentir um dia ficar mais pesado e entortar os ombros. Se é o fim? É sim. Mas também é sempre o recomeço, todo dia, passo a passo.

Para viver com menos comprimidos é preciso aceitar determinadas doses de loucura. Nem tudo em você é mesmo uma coisa normal, mas como ser normal é fruto de comparações com outras pessoas, mais uma vez, tudo okay. Você pode ser o louco delas assim como muitas vezes elas são as loucas para ti.

E se puder, quando puder, a hora que puder. Estenda as suas mãos, saia um pouco do seu mundo e suas estrelas, tente tocar em outra pessoa com suas galáxias todas. Os seus ouvidos podem ser o barquinho que ajudará um marinheiro que caiu do naufrágio a chegar em terra firme. O “tudo bem, eu te entendo” sincero e empático pode se transformar numa bússola a mostrar uma nova rota. É só se deixar ser.

Seus braços têm a capacidade de enrolar um corpo dando a poderosa substância mística e ao mesmo tempo científica, denominada aqui de abraçaço. Não é o abraço comum de dois empresários que fecharam um negócio lucrativo. Mas o abraçaço de uma criança que encontrou outra criança há dois minutos atrás, e já quer que ela seja uma criatura espalhafatosa de tão feliz.

Você pode achar e relutar que não, você não. Mas há alguém por aí com uma receita psiquiátrica imaginária com seu nome. Recomendando que sejam utilizadas várias doses da sua companhia e do seu afeto. Pode ser alguém de perto, de longe, de mais ou menos perto e longe. É alguém que mais cedo ou mais tarde aparece, muitas vezes sem saber o porquê, precisando de uma cápsula da sua presença.

Mesmo que nunca diga explicitamente, quem sabe um sorriso de alívio, um aperto no dedo mindinho, algo nele dirá; – Você é o antidepressivo que eu tomei sem receita.

A mágica é que nessa hora, essa pessoa será seu antidepressivo também, e vocês parecerão duas belas caixas sorridentes de medicação sem bula e sem contra-indicações.

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