Os sonhadores devem permanecer juntos

Os sonhadores devem permanecer juntos

“São tempos difíceis para os sonhadores”. (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain)

O mundo não anda estranho, não. Ele está de volta ao primitivo, sabe? E o mais irônico, todos nós reparamos. Nos cantos, gritos. Já nas janelas, silêncios. Não adianta dizer que é culpa de algum ismo. Aliás, paremos de distribuir culpas. Que prazer compulsivo é esse de apontar o dedo? Olha, não há força divina que explique tamanha vertigem.

Desesperos, carências e ilusões. A luta diária por um ganha-pão, por algo que não seja um efeito paliativo para uma sobrevida, mas se tratando da atual, sobram uns poucos trocados de risos. No quesito amarguras, os bolsos estão cheios. Somos ditos loucos no caso de discordarmos das necessidades triviais que alimentam o ego.

Ah, assim não dá. É tanta hipocrisia, tanta falta de empatia. A sociedade em desigual, caminhando em marcha lenta a cada nova notícia. Porrada dali, porrada de cá. Reviram os olhos, tapam os ouvidos, cruzam os braços. Altas patentes de conformismos e reclamações. Mas quando convêm, felicidades compartilhadas.

São tempos difíceis para os sonhadores. E é exatamente por isso que os sonhadores devem permanecer juntos. Façamos os devidos reparos. Propúnhamos soluções. Poesias desmedidas para a cura da nossa loucura.

Vínculos

Vínculos

Guarda compartilhada, alienação parental, abandono afetivo.
All we need is love

Grande parte das separações deixa cicatrizes, por mais elaboradas que sejam as partes envolvidas há sempre um sentimento de rejeição, de falha, ainda que não seja verdade.

É preciso distinguir a verdade do real. Real é tudo o que acontece, e distingue-se da verdade. A verdade talvez não possa durar, mas pode permanecer. Por exemplo, o fato de ter recebido flores, de viver, de amar alguém, é real. Quando as flores murcharem, quando eu morrer, quando eu deixar de amar, já não será real. Mas continuará sendo verdade que tudo isto existiu. Portanto há que se compreender que uma separação não se aproxima de um sentimento menor, mas sim da constatação da real condição da vida e de sua impermanência, bem como da constatação da verdade de um amor vivido.

Quando o luto pelo fim do relacionamento não é vivenciado de forma adequada e respeitosa, tem início um processo amargo de descrédito do ex-companheiro e, infelizmente, muitas vezes o filho torna-se o projétil da arma.Tornam-se instrumentos de um agressividade direcionada. O filho é levado a afastar-se de quem o ama, em uma destruição lenta e perniciosa do vínculo afetivo.

A dissolução dos vínculos afetivos e o rompimento da vida conjugal dos pais não deve comprometer a continuidade dos vínculos parentais. É imprescindível manter os laços de afetividade, diminuindo os efeitos que a separação acarreta nos filhos.

A guarda compartilhada, que não deve ser confundida com a convivência alternada, pode demonstrar aos filhos, na prática, a máxima: “seu pai/mãe separou-se de mim não de você.” A guarda compartilhada elimina a figura da visitação. Pai ou mãe não é e não pode ser visita. E mais, o direito de visita não encontra limites entre pais e filhos.

A criança e o adolescente merecem conviver com todos os que fazem parte de sua história. O menor precisa ser enriquecido de referências e experiências. Padrinhos, tios, irmãos, avós não podem desaparecer quando um casamento acaba. Uma relação afetiva verdadeira não termina porque foi modificada. Laços afetivos não podem e não devem ser desatados apenas porque algumas coisas mudaram. Separação não é sinônimo de abandono afetivo; abandono afetivo é desprezo e desprezo é sempre injusto.

” Nossa vida é tão vã, que não é senão um reflexo de nossa memória”, dizia Chateaubriand.

Que nossa vaidade seja menor que nosso amor. Que nosso julgamento seja menor que nossa compreensão. Que nosso amor seja maior que nossas mágoas. Que nossos filhos possam ter todas as memórias que lhes são de direito.

Imagem de capa: Where the Wild Things Are

Retornos

Retornos

 

por Fernanda Pompeu

imagem Régine Ferrandis 

quem diga que o melhor da ida é a volta. Que aquele que se aventura pelo mundo guarda no coração o endereço de casa. Eu acho que depende.

Tem brasileiro que vai morar no estrangeiro e pensa inimaginável o retorno. O estupendo cronista Ivan Lessa trocou o Rio de Janeiro por Londres, onde morreu depois de trinta quatro anos. A graça é que Ivan nunca quis voltar ao Brasil, nem a passeio.

minha amiga Ana Sampaio, morando faz décadas no Québec canadense, sempre sonha com a volta. Vez por outra, ela cantarola Sabiá do Tom Jobim e Chico Buarque: Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para o meu lugar / Foi lá e é ainda lá / Que eu hei de ouvir cantar / Uma sabiá. Chico, como centenas de outros patrícios, viveu a dureza do exílio na época da ditadura militar.

A comunista, feminista  e cearense Ana Montenegro (1915-2006) amargou quinze anos de exílio. Viveu no México, Cuba, Alemanha. É dela a reflexão: “O exílio é um espaço vazio, o exilado não o pode povoar nem de pedras, nem de casas, nem de céu, porque é um espaço vazio de lembranças”. Acredito que Ana acertou na mosca ao mencionar as lembranças. Porque muita gente volta a um lugar por conta delas.

Régine Ferrandis, amiga e parceira de trabalho,  resolveu o ir e vir de maneira original. Ela reside seis meses em Sampa, seis meses em Paris. Assim nunca está definitivamente aqui ou lá. Ela está no caminho, morando no itinerário. O que – convenhamos – dá uma liberdade tremenda.

Mas, algumas vezes, a volta não é para um lugar físico, casa ou país. Ela pode ser um retorno a algo que já fomos. Meu amado pai, nos seus últimos dias, chamava pela mãe. Sendo que minha avó Affonsina morreu em 1971. Portanto, meu pai chamava por alguém ausente há mais de quarenta anos.

Hoje penso que talvez ele quisesse retornar ao menino que um dia foi. Voltar à criança que talvez nunca o tenha deixado. Ou, ao menos, à criança que nunca o tenha esquecido.

Loucura mesmo é não ter coragem de perder a razão.

Loucura mesmo é não ter coragem de perder a razão.

Enlouqueça, sim! Você pode. Quem disse que não? Grite. Chore. Esperneie. Desequilibre-se. Jogue os pratos no chão. Desligue o telefone. Cancele seus compromissos. Suma dos olhos do mundo. Por favor, só não machuque ninguém nem atente contra a própria segurança! O resto pode. Está tudo certo. Você tem o direito de enlouquecer.

Quem nunca perdeu a razão na vida não é exatamente uma pessoa sã. É uma pessoa difícil de encontrar por aí. A maioria de nós já enlouqueceu, enlouquece e há de enlouquecer quando precisar. No entanto, mesmo nestes tempos insanos nos convidando a enlouquecer, os loucos não são bem-vindos.

Tanta pressão por perfeição nos obriga a fingir sanidade quando estamos à beira de um ataque de nervos e nem todo mundo é capaz de fazer uma loucura. Nem todos têm coragem de rasgar a roupa, tocar fogo na alma, mandar às favas pessoas intragáveis, espetar pontos finais no chão e escancarar o que já não pode mais sufocar lá dentro. Então a gente engole as próprias reações, suporta o insuportável, estica nossos limites em nome de uma falsa impressão de sobriedade e vai assim até não aguentar mais.

Definitivamente, é preciso perder a razão!

Vê quanta gente cheia de lucidez por aí? Vê quantos donos da verdade empurrando, batendo, insultando? Quantos seres perfeitos berrando sua visão pessoal e estreita das coisas, levando no grito, impondo sua vontade, sua força, sua versão dos fatos! Estão todos tão certos de sua sanidade mental, da perfeição de suas intenções, da infalibilidade de seus métodos que nem percebem o quanto parecem perfeitos idiotas.

Todos tão impecáveis! Tão crentes de que a única saída é aquela que eles já escolheram. Tão definitivos em acreditar naquilo que elegeram como verdade. Tão seguros em julgar a loucura do outro e defender sua absoluta sanidade.

Atacam com a fúria de um lobo cego, mentem, roubam, mascaram, manipulam. E o louco é sempre “o outro”. Afinal, enlouquecer é para poucos. A maioria prefere julgar os loucos fingindo que é sã.

Vê essa gente toda surtando de ódio e, ao mesmo tempo, reprovando os excêntricos, criticando os desequilibrados, julgando quem tiver a ousadia de pensar diferente? Estão todos sãos. Absolutamente sensatos, lúcidos, racionais. Explodindo consciência, babando entendimento dos problemas do mundo.

Você sabe. Há sempre uma multidão de equilibrados senhores sagazes apontando os dedos para meia dúzia de loucos inconsequentes. Já percebeu? Tudo quanto dá errado no mundo é culpa de um “maluco”. O que dá certo, por sua vez, é sempre consequência do trabalho sério, lúcido e ajuizado de circunspectos homens de negócios e pensadores intocáveis mergulhados em seriedade.

Na concepção pequena dos irrepreensíveis donos da razão, enlouquecer é coisa de gente irresponsável e leviana. Como se eles tivessem comprado o direito supremo e sagrado a todo bom senso que há no mundo. Assim, o louco é sempre o outro. E isso, você há de concordar, é de fazer qualquer santo perder a razão. Deixemos de coisa, então. Se precisar, aperte o botão e enlouqueça!

Remédio adesivo para Parkinson chega ao Brasil

Remédio adesivo para Parkinson chega ao Brasil

Boa notícia para pacientes com a doença de Parkinson, doença que afeta o sistema motor e provoca rigidez e tremores.

Chegou ao Brasil um medicamento em forma de adesivo, o primeiro tratamento transdérmico para doença.

Aplicado sobre a pele, o Neupro libera a medicação de forma estável e contínua durante de 24 horas.

As vantagens são que ele evita que o paciente esqueça de tomar o medicamento na hora certa e substitui até 8 comprimidos que os doentes mais graves são obrigados a tomar.

Por ser adesivo, o remédio entra direto pela pele, sem passar pelo trato gastro-intestinal, o que poderia causar náuseas.

Efeito

O medicamento é um agonista dopaminérgico, o que significa que age diretamente nos receptores de dopamina, um neurotransmissor responsável pelos movimentos. Assim, é eficaz no controle dos distúrbios motores.

Mais de 190 mil pacientes já são tratados com Neupro em todo o mundo.

Ele está disponível em 40 países e é produzido pelo laboratório UCB, de Bruxelas, na Bélgica.

Como aplicar

O paciente tem que aplicar o adesivo sobre a pele limpa, seca e saudável nas áreas dos ombros, braços ou abdômen e deixá-lo por 24 horas no mesmo local.

Ao substituir por outro adesivo, deve aplicá-lo em um local diferente.

O Neupro pode ser utilizado tanto na fase inicial, quanto nas mais avançadas da doença de Parkinson.

Quanto antes o paciente for diagnosticado e começar o tratamento, melhores serão os resultados.

O valor do medicamento não foi divulgado.

Com informações do  JornalDiaDia

A raiva bate na porta. Você abre?

A raiva bate na porta. Você abre?

Não abre? Mas que bobagem! Ela entra assim mesmo, mete o pé na porta e entra, forte, grosseira, insana. Melhor seria se tivesse sido convidada a entrar.

A raiva não sabe ser bem recebida. Ela quer briga, quer enfrentamento. Quer a razão, mesmo sem nenhuma razão. A raiva é de todos, frequenta todas as casas, algumas com uma frequência inacreditável.

Ela nasce de uma contrariedade, de uma topada, de uma negativa, uma esnobada, um objeto invejado. Ou ela nasce forte, explosiva, tempestuosa, ou tímida, sonsa, vingativa.

Todo mundo sente raiva. Mentira quem diz que não sente. Covardia de quem prefere se dizer superior. A raiva vem. Ela entra, ela se apossa, ela invade os melhores pensamentos e tira do sério as mais doces virtudes.

É normal sentir raiva. Como é normal sentir fome.

Não é normal cultivar a raiva. Nem segurar a raiva. Nem abrigar, fazer ninho, trancafiar, alimentar, engordar a raiva.
Ela chega, entra, bem-vinda ou não, e vai-se, depois de cumprido seu ciclo.

Tão natural como sentir sono e dormir. Não deixar a raiva ir quando ela já está passando, é como se recusar a dormir quando o corpo está implorando por descanso. É autoflagelo .

A raiva obrigada a ficar vira neurose. Fica compulsiva. Já não consegue mais escutar os argumentos e as explicações da vida.

A raiva liberada sem traumas vai embora silenciosa. Muitas vezes deixa um pedido de desculpas pelos excessos. Em outras, promete demorar a voltar. Oferece seu lugar à tolerância.

A raiva prisioneira se transforma em capataz dos sentimentos. Não deixa mais nenhuma virtude entrar. Mergulha a criatura em vinagre, chacoalha bem, diária e demoradamente.

Quando for inevitável, quando ela chegar e começar a se esparramar, vale tentar um truque que costuma dar muito certo: Abra a porta! Quanto mais bem recebida e mais compreendida, quanto mais aceita como normal e até necessária em alguns casos, mais breve será a visita, e mais comedida será a reação.

Afinal, educação e cordialidade deixam até os rosnados mais suaves.

O amor não precisa ser justificado

O amor não precisa ser justificado

 

“A medida de amar é amar sem medida”, entoou Gessinger, e, nessa medida que não se mensura, muitas vezes busca-se encontrar uma justificativa para o amor. Acontece que o amor não é um argumento concebido para ser justificado. Basta sê-lo. Quando almejamos detalhes para explicar o emocional no seu mais alto sentido, o próprio se perde nas vaidades e expectativas, antes ignoradas no início deste pulsante sentir.

Para o bem ou para mal, o amor não pode ser encarado como prerrogativa de atos falhos para essa necessidade presente do ser de querer explicar os porquês dos seus gestos e falas. O amor é um estado de consciência sem controle. Mas a ausência de um manual pouco vislumbra caminhos certeiros para dar vazão. Pelo contrário, o amor livre dos preconceitos vividos conduz rumo ao aprendizado. Escutar sem o ímpeto de estar certo. Dizer sem a arrogância de desrespeitar. Transbordar afeto por sentir demais e não por querer de menos. A possessão impregnada do manipular o amor fere, subjuga, corrompe. Injustificável é o amor. Compartilhar todo o sentimento vai além do trivial. O romantismo contido no silêncio, a admiração crescente no pensar e o respeito construído nas diferenças são a chave mestra da relação entre corações corajosos.

Dizer “eu te amo” não torna o amor realidade. Não justifica, de tempos em tempos, adentrar num embate selvagem para defender pontos de vista. Imaginar superações de obstáculos postos por vaidades não legitima o querer bem do outro. É só o coração imaturo fazendo pirraça. Mas tratar o sentimento birrento mais afasta do que aproxima.

O amor, por bem, por todas as coisas ouvidas e lidas durante um tempo de vida, floresce a partir da humildade. Saudável é o amor que repousa devagar e urgentemente numa dança de muitos ritmos. Algumas vezes o tom desafina, mas o soar não chega a ser estridente. Um deslize por esquecer a letra acontece, mas nunca na melodia. O amor não precisa ser justificado. O amor apenas é.

Felicidades certas

Felicidades certas

É necessário ir à Nova York ou Paris para ser feliz, ou basta conseguir levantar, arrumar seus lençóis e ir trabalhar?

Pequenas felicidades certas é para quem está atento às coisas simples que vivem silenciosamente perto da gente; que não fazem alarde e não custam caro.

Por exemplo: o cheiro de um bolo saindo do forno, testemunhar os primeiros passos de um bebê, ouvir o canto das cigarras ao cair da tarde e tantas outras coisas simples que podem nos fazer felizes.

Porém, nem sempre conseguimos perceber que nessas amenidades há felicidade. Acreditamos em que somente uma grande aventura, ou possuir algo muito caro, ou quem sabe num futuro distante é que está o achadouro da felicidade…

Cecília Meireles dizia, poeticamente, que as felicidades certas estão diante de nossas janelas, todavia é preciso saber olhar para encontrá-las.

No entanto, como é difícil… A comparação frequente com o outro, a inveja, os desejos insaciáveis, medos, inquietações do cotidiano são ingredientes que nos cegam e nos tornam cada vez mais insensíveis, deixando um rastro de descontentamento generalizado em todos e em tudo.

Peninha, por meio de sua música, Casinha branca, expressa o que nos faz realmente felizes e, ao ouvi-la, há um misto de alegria e tristeza, pois traduz sentimentos profundos além de expressar o estrago desse viver tão equivocado. Ele inicia retratando nossa alma:

Eu tenho andado tão sozinho,
Ultimamente, que nem vejo à minha frente,
Nada que me dê prazer.

Esse afastamento contínuo e persistente da nossa essência tem suas consequências:

Sinto cada vez mais longe a felicidade,
Vendo em minha mocidade,
Tanto sonho perecer.

Sabemos que pegamos o caminho errado; temos consciência de que nos afastamos do que é bom e do que precisamos, mas a força do consumismo é muito forte, não conseguimos ter coragem para romper com todos os grilhões e ai…

Eu queria ter na vida,
Simplesmente,
Um lugar de mato verde
Para plantar e para colher.
Ter uma casinha branca de varanda,
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer.

Não é isso que desejamos no mais profundo de nosso ser: Viver mais simplesmente? Porém a incerteza de um futuro seguro para nós e nossos filhos, nos conduz para a direção oposta.

Tomamos um caminho que não tem fim, que cada vez fica mais árduo, complexo, dificultoso, triste…

Às vezes, saio a caminhar
Pela cidade
À procura de amizades,
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando
Em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão.

Vamos seguindo a multidão, caminhando sozinhos, trabalhando freneticamente e uma casinha branca de varanda é o nosso impossível chão.

10 andares e apartamentos idênticos, mas cada morador possui sua personalidade única

10 andares e apartamentos idênticos, mas cada morador possui sua personalidade única

Por Conti outra

Todo mundo que mora em prédios já parou para imaginar como é o apartamento do vizinho. Sempre que surge uma oportunidade de ver um local onde existe uma estrutura  idêntica, podemos perceber como o estilo de vida e personalidade de seus moradores deixam suas marcas e definem totalmente o espaço.

Certamente o fotógrafo Bogdan Gîrbovan  não pensava diferente. E, para mostrar como tudo pode ser igual e ao mesmo tempo totalmente diferente, solicitou a autorização para fotografar o lar de moradores de um bloco de apartamentos de Bucareste, na Romênia.

Os resultados de suas imagens você vai gostar de ver:

1o.  ANDAR

contioutra.com - 10 andares e apartamentos idênticos, mas cada morador possui sua personalidade única

2o. ANDAR

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3o. ANDAR

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4o. ANDAR

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5o. ANDAR

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6o. ANDAR

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7o. ANDAR

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8o. ANDAR

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9o. ANDAR

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10o. ANDAR

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A bolsa de valores do Amor Líquido

A bolsa de valores do Amor Líquido

Sabe, o problema não é com você. É comigo. Quem nunca ouviu esse clichê? Entretanto, o que a maioria das pessoas não percebe é o real sentido dessa frase, ou seja, a problematização do amor em relação ao objeto. Trocando em miúdos, isso significa que o entendimento geral é de que o problema do amor relaciona-se ao objeto amado, de modo que o real sentido da frase seria: o problema é com você que não preenche os meus requisitos.

Obviamente, todos nós temos nossas predileções, sejam elas físicas e/ou afetivas, entretanto, a objetificação do amor transfere todo o problema de um relacionamento para o outro indivíduo, o qual foi incapaz de se adequar ao meu padrão de consumo. Dessa forma, abstenho-me de qualquer responsabilidade pelo fracasso do relacionamento, o que é a maneira sempre mais fácil de lidar com a situação.

Sendo assim, cria-se a ideia narcísica de perfeição, pelo indivíduo, que é incapaz de refletir e rever seus próprios atos, a fim de que possa, inclusive, melhorar em um relacionamento futuro. Para ele, o amor é algo fácil e sobre o qual tem pleno domínio. O problema, portanto, não está em amar, mas sim em encontrar o indivíduo (objeto) correto a se amar.

“Pensa-se que amar é simples, mas que é difícil encontrar o objeto certo a se amar – ou pelo qual ser amado.”

Essa ideia reforça-se na sociedade de consumo, em que todos são vistos como objeto. Dessa maneira, o problema nunca é meu, mas do outro, que não atende às minhas demandas. Buscam-se, assim, objetos com bom valor de mercado, os quais representem bons investimentos e que, por conseguinte, alavanquem o meu valor de mercado. Isto é, indivíduos:

“Com um bom fardo de qualidades que sejam populares e muito procurados no mercado da personalidade.”

O amor, nesse prisma, torna-se um artigo do mercado e os seres humanos, vetores do amor, consequentemente, seguem a mesma sorte. Desse modo, as relações são baseadas em trocas de conveniências e oportunidades, em que estamos sempre à procura de melhores aquisições. A pessoa humana, assim, é despersonalizada e coisificada pelos interesses do mercado.

“Assim, duas pessoas se apaixonam quando sentem haver encontrado o melhor objeto disponível no mercado, considerando as limitações de seus próprios valores cambiais.”

As pessoas transformaram-se em ações da bolsa de valores do amor, como diz Bauman, em que devem buscar valorizar-se a todo instante. No entanto, essa valorização não se coaduna ao que o indivíduo é ou entende como correto para si, mas em relação ao que o mercado entende como interessante e lucrável. Há, então, uma série de ditames e regras que tornam o indivíduo valorizado no mercado da personalidade e aos quais se deve obedecer, caso não se queira ser um artigo desprezível.

As pessoas, além de tornarem-se objetos, alienaram-se de si mesmas, dos seus semelhantes e dos seus valores. O único sentido na vida é poder consumir e valorizar-se perante a sociedade, ampliando a espetacularização da vida. O outro não passa de mais um objeto entre tantos, o qual eu julgo pelo rótulo e pela marca. Não passa de um meio pelo qual possa me dar bem. E, quando a minha ação não é valorizada, troco, afinal, o problema é sempre do outro/objeto.

Todavia, se vejo o outro tão somente como um objeto, um meio para se chegar a um fim, como pode haver amor? Há, na verdade, uma via de mão única, de que busco tirar proveito próprio, sem me preocupar minimamente em oferecer nada em troca. Aliás, torna-se inviável enxergar o outro como um indivíduo como eu, preocupando-se apenas com um “bom fardo de qualidades do mercado da personalidade”.

A objetificação do amor deturpa o sentido do que é importante e não é. Escondendo-se por trás de um discurso plural, apresenta uma prisão, em que as pessoas deixam de sentir e de agir por si mesmas para serem objetos. Com isso, deixa-se de valorizar o amor e o outro pelo seu real sentido, para valorizar estatísticas e status social. Como se estivessem em uma bolsa de valores, buscam desesperadamente ações com maiores perspectivas de lucro no mercado da personalidade, já que:

“Numa cultura em que prevalece a orientação mercantil, e em que o sucesso material é o valor predominante, pouca razão há para surpresa no fato de seguirem as relações do amor humano os mesmos padrões de troca que governam os mercados de utilidade e de trabalho.”

Carta aberta para minha mãe que é mais do que minha mãe.

Carta aberta para minha mãe que é mais do que minha mãe.

 

Oi, mãe.

Mais cedo a senhora ligou e eu disfarcei as preocupações da minha vida adulta, já estou bem parecido contigo. Lembra de quando você segurava a barra do mundo quieta, mantendo o otimismo e nos livrando de todas as preocupações que uma mãe solteira e pobre tem? De repente, me vejo sendo exatamente como você, sem tirar, nem por.

É isso que me dá esperança, mãe. Porque se a forma de encarar as minhas dores é igual a sua, logo minha resistência e coragem pra continuar será a mesma. O brilho dos teus olhos  ainda acende minha vida. É por você que eu enfrento cada hora complicada, sua presença se faz tão grande que minha solidão é sempre acompanhada pela tua graça.

E longe disso, eu não quero te desejar feliz dia das mães. Você é mais do que isso. Tenho em ti, nas tuas palavras, no teu “tudo bem”. Se você não fosse minha mãe, certamente seria minha amiga. Não é o nosso DNA que nos une, são os teus exemplos de vida e de humanidade.

Obrigado por ensinar  que é preciso lutar pelo que se deseja, e por não me abandonar quando eu merecia ou quando era fácil me abandonar.

Para você que é mais do que minha mãe, hoje e sempre, que eu seja mais do que teu filho. Que além dos registros e laços genéticos, eu possa sempre encontrar em você e você encontrar em mim, o que sempre encontrei; bons litros de amor potável pra beber e banhar a alma.

Olá, Dona Tristeza! Não sabia que viria hoje…

Olá, Dona Tristeza! Não sabia que viria hoje…

Olá, Dona Tristeza! Talvez seja mesmo da sua natureza, aparecer assim, sem avisar. Se eu soubesse que viria, teria colocado um vestido florido, um batom colorido, um perfume de flor. Mas, como chegou de repente, apenas posso lhe oferecer um aceno breve, um carinho leve como prova de amor. Fique à vontade. Sente-se na varanda para ver o pôr-do-sol. Escolha um livro da estante e aproveite a viagem da história. Encante-se com as minhas orquídeas, brinque um pouquinho com os gatos. Quem sabe não fique tocada pelo amor que vive nessa casa, esqueça de ser tão séria e deixe escapar um sorriso.

Mas, se depois de ter a chance de conhecer meus cantos e os encantos desse lar, ainda quiser ficar… Espero que me perdoe a falta de atenção. Acabo de colocar um bolo no forno, tenho gavetas a arrumar, fotos a visitar, histórias a escrever e uma vida para viver. Como pode ver, há tantas coisas a quem dar a minha doce atenção. Não posso me sentar com você na sala e dar ouvidos eternos às suas mágoas antigas.

Assim, se tiver que chorar, que seja um deságue bendito. Que jorre do seu peito, todos de uma vez: o medo, a dor e a raiva. Deixe que escorram por aí, soltos, aceitos e libertos. Hei de achar um vaso bonito para guardar suas lágrimas e transformá-las em algo fecundo, no alimento de alguma flor.

E, depois de chorar, descanse um pouquinho. Aproveite a moleza que brota por todas partes do corpo, depois que a gente deságua. Deite sua cabecinha prateada de sonhos esquecidos no travesseiro cheiroso de camomila. Esqueça um pouco de doer. Feche os olhos, de um jeito manso e entregue. Aproveite a quietude que vem depois da tempestade.

E, se quando acordar, ainda quiser conversar comigo… Venha desarmada. Diga, sem rodeios, o que quer. Não me prenda em suas rendas incertas, de uma melancolia preguiçosa, que nem germina, nem floresce. Abra seu coração comigo. Somos amigas de longa data.

Hei de entender seus motivos, sua falta de jeito, sua persistência. Hei de ouvir seus gemidos e fazer poesia de seus segredos. Por fim, faça a gentileza de partir de mansinho. Feche a porta devagarinho, não olhe para trás, nem pise nas flores do caminho. Uma parte pequenina de mim, parte com você. E espera, com todo fogo redentor daqueles que creem que sonhos nunca são impossíveis, que você se dissolva numa nuvem. E volte, apenas quando for capaz de transformar em chuva mansa, o que um dia foi tormenta.

Querer tudo só vai nos levar a nada. A gente precisa é se querer bem.

Querer tudo só vai nos levar a nada. A gente precisa é se querer bem.

Eu acredito em milagres. Não precisa ser coisa grande, monumental e imponente como a abertura do mar vermelho. Nem carece ser fantástico como a transformação da água em vinho, a mudança brusca do dia para noite, a proliferação dos peixes e essas coisas. Nada disso.

Basta ser simples e grandioso como a inesperada delicadeza de alguém que cede o seu assento no ônibus, que dá passagem no trânsito, que diz “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e que responde quando alguém lhe dirige um cumprimento assim.

Milagre suficiente hoje em dia é alguém se lembrar de que agradecer é um gesto tão bonito e tão esquecido. Que dividir é muito melhor do que possuir. Que aceitar a opinião do outro não significa concordar com ela e que discordar de alguém nem sempre é motivo para odiá-lo.

Imagina que milagre seria nos darmos conta de que, neste mundo em que todos querem tudo, está faltando é nos querermos bem?

Desse milagre em diante, todo ataque e toda ofensa previsíveis seriam trocados por bondades urgentes e gentilezas gratuitas.

Todo ímpeto de falar mal do vizinho seria substituído por uma vontade franca de melhorar a nós mesmos.

Cada gesto mesquinho seria abatido por uma crise de consciência e seguido por uma atitude nobre.

Aqueles de nós com talento para ganhar rios de dinheiro doariam tudo quanto fosse necessário para que ninguém mais passasse necessidade.

E toda manhã, em todo canto, pularíamos da cama de alma renovada, contente e ativa, prontos para enfrentar o que vier com trabalho, empenho, honestidade e amor. Querendo bem a nós mesmos e ao outro sempre.

Sem nem percebermos, tudo na vida seria motivo para a prática dessa nossa imensa e inexplorada capacidade de operar milagres.

Não, nós não somos santos. Erramos todos, tantas vezes. Em todo canto, derrapamos francamente porque somos gente e gente erra. Mas tem aqueles de nós que depois do engano respiram fundo, repensam, voltam e procuram um jeito de consertar o que fizeram. Eu tenho a impressão de que isso só acontece quando a gente quer bem um ao outro. E este seria hoje o mais poderoso milagre capaz de transformar este mundo.

Eu acredito, sim. Acredito nos pequenos milagres porque deles há de vir algo maior, incrível e redentor como a multiplicação do pão, a redenção dos nossos pecados e a chance de fazermos deste mundo, cada um de seu jeito, um lugar melhor, mais justo, mais decente e mais amoroso para todos. Sim, eu acredito nesse milagre.

E atitude, cadê?

E atitude, cadê?

Sim, nem tudo são flores, eu sei. Sempre haverá, aqui e acolá, um ou outro paralelepípedo mal colocado que pode nos fazer tropeçar e até cair; mas a escolha de levantar, essa vai ser sempre sua. Eu mesmo , por muitas vezes, perdi no carteado da vida prendas valiosas, tipo um amor ou dois e até as calças de vez em quando. O importante mesmo é o que a gente faz com isso, é a lição que tiramos de cada tapa e de cada beijo que atinge a nossa face.

Hoje, por exemplo, tenho sempre cuidado redobrado ao escolher a cueca que vou usar fora de casa (vai que numa dessas eu acabo, assim, do nada, perdendo as calças de novo). O seguro morreu de velho, já dizia a minha avó.

Não foram poucas as vezes que achei que fugir era a melhor resposta pra tudo. Até do amor eu já fugi e, só pra não perder a rima, me fodi. É que ser covarde é sempre mais fácil, ninguém espera muito de um bundão.

É bom pensar que, pra começo de conversa, assim como nada se fez de um simples fiat lux (não, não é o carro), problemas não resolvem assim, como que por um passe de mágica. É você, isso mesmo, você quem deve chamar a responsa pra si. O que separa os homens dos moleques e as mulheres das moçoilas é uma coisa chamada atitude.

Não vou perder meu tempo falando aqui da raiz dessa palavra e tal e coisa e coisa e tal. Se você for um daqueles engomadinhos metidos a intelectual que às vezes pintam por aqui e quiser saber dessas coisas só pra se masturbar mentalmente, faz o seguinte: pega a porra de um dicionário etimológico e não me torra.

Em minha concepção nada correta e pouco sóbria, atitude pode muito bem ser aquilo que nos faz meter o pé na porta e um soco na cara de quem merece, como também pode ser o que nos faz dar flores, abraços, carinho e apoio sincero para alguém. No fundo, são as ações que contam, não as intenções – ouvi dizer que essas últimas são péssimas em matemática (é, eu sei que essa talvez tenha sido a piada mais infame que eu já tenha feito por aqui, mas Foda-se).

Algo que não se compra. Ou você tem ou você não tem, e nem dá pra pegar emprestado pra devolver depois. Atitude é a capacidade de tomar suas próprias decisões, de quebrar regras e arcar com as consequências disso.

Para aqueles que só reclamam e que vivem por aí enchendo os ouvidos dos amigos de ladainhas por conta de ex, de grana, de trabalho, de vida amorosa (ou da falta de uma) e afins, eu só tenho uma pergunta a fazer: e a atitude, cadê?

Por acaso ainda não falaram pra vocês que soluções não costumam cair do céu? Vocês não são Newton, caralho! Levanta essa bunda da porra do sofá e vai atrás do que te faz feliz.

Ter atitude é correr atrás de tudo aquilo que você acredita, mesmo quando o mundo inteiro estiver correndo atrás de você pra roubar suas calças.

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