O amor não é um jogo

O amor não é um jogo

“Errei pela primeira vez quando me pediu a palavra amor, e eu neguei. Mentindo e blefando no jogo de não conceder poderes excessivos, quando o único jogo acertado seria não jogar: neguei e errei. Todo atento para não errar, errava cada vez mais. ” – Caio Fernando Abreu

Eu tinha 25 anos, ele, 21. Isso já era o suficiente para me fazer não esperar nada daquilo. Nós nos conhecemos no carnaval, isso só reforçava a minha crença de que não passaria dali. Eu fiquei apenas um dia naquele carnaval de 2013, fui embora na segunda, sem avisá-lo, não trocamos telefones e muito menos endereço mas nada disso impediu que na terça ele estivesse batendo na porta da minha casa com um lanche na mão, dizendo que tinha trazido torta de palmito porque sabia que eu não cozinhava.

Eu não queria deixar que ele entrasse em minha casa mas ele simplesmente não aceitou “não” como resposta. Observou tantas grades nas janelas e portas, todas fechadas, e disse que eu me fechava em meu mundo assim como fazia o Batman. Disse também que eu era do tipo que gostava de romances e esperava que um romance caísse do céu em minha vida e que eu não fazia nada para acontecer. Ele estava certo, ele estava certo em tudo o que disse.

Eu estava solteira há alguns meses e vivia a melhor fase da minha vida até então, uma fase em que eu descobria que a felicidade estava em mim e não em uma outra pessoa. Eu estava tão bem que a partir do momento que as coisas entre nós começaram a envolver sentimentos, eu tive medo de perder toda a felicidade que eu havia conquistado até então. Em um ato egoísta e em uma mistura de medo e jogo, eu disse: “Olha, é melhor você desencanar porque eu não quero me apegar a ninguém”. E foi exatamente isso que aconteceu, ele se vestiu suas armaduras e saiu da minha vida. Eu estava convicta de que havia tomado a decisão certa, mas a medida em que os dias se passaram e eu vi que ele não iria voltar, a minha ficha caiu: eu quis evitar sofrimento mas era exatamente isso que estava acontecendo agora: eu estava sofrendo. Sofri porque, devido ao medo, eu desisti de algo que estava me fazendo bem, eu desisti de algo que eu estava sentindo…

Não sabia como consertar o meu ato falho mas um tempo depois eu tentei: pedi que me encontrasse, que eu queria conversar sobre tudo. Mas já era tarde, ele fugia de mim. Tempos depois ele me explicou: “Fiquei com medo de conversar com você, fiquei com medo de pegar as minhas coisas na sua casa…”. E eu o questionei: “Medo? Você nunca teve medo”. Sua resposta mudou a minha vida: “Nat, a partir do momento que você demonstrou ter medo de se envolver, eu passei a ter muito medo de me envolver com você”.

Ele, em seus 21 anos, me mostrou o seguinte: se você tiver medo, o outro vai ter medo também, se você jogar, o outro vai jogar também até porque ninguém joga sozinho.  Eu estava bem e me apaixonei, então para tentar me proteger eu joguei do início ao fim. Joguei tanto e tão bem que o resultado não poderia ser outro: eu ganhei aquele jogo, mas ficou uma certeza: eu perdi algo maior. Eu perdi alguém que estava me fazendo bem.
Mas eu aprendi que onde se encontra uma perda, sempre há também um ganho. E o que eu ganhei foi a lição de saber que, quando se gosta de alguém a melhor coisa a se fazer é ser honesto com os nossos sentimentos. Gostar de alguém é como estar em um barco: nós sabemos que aquele barco pode afundar a qualquer momento e se ele afundar nós temos que ter boias e saber nadar. Mas se o barco não possui buracos e está inteiro, por que pular fora antes da hora? Não permita que o medo de sofrer faça com que você se sabote. É como se você mesmo virasse o barco só porque acha que ele pode afundar um dia…
Se fazer de difícil, ignorar, dizer que é descolado somente para fazer o outro se interessar pode até dar certo inicialmente, mas isso não terá sustentação. Jogo é apenas disfarce. No fundo, o que você realmente sente estará gritando dentro de você. Talvez os outros não ouçam, mas você ouvirá. E o principal: não se colhe amor plantando indiferença. O cara pode até ir atrás porque você o esnobou, mas o que está o atraindo não é você em si, e sim a sua aparente indiferença.

Relacionamento nunca foi e nunca será um jogo. Relacionamento é troca, é companheirismo. Se for pra jogar, vocês devem jogar no mesmo time, um cobrindo o outro quando necessário. O goleiro e o atacante têm funções diferentes dentro do time mas o objetivo é o mesmo: ganhar. Agora, se for pra estarem em times ou torcidas diferentes que seja no jogo Galo x Cruzeiro, na Arena Independência de preferência. Porque em se tratando de amor, a gente precisa é de um companheiro e não de um adversário.

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.” 

Um amigo querido pediu que eu escrevesse um texto falando sobre a temática das projeções, do ponto de vista psicanalítico, mas em uma linguagem simples e acessível ao público geral. O que eu consegui fazer encontra-se abaixo:

Projeções, constituem os comportamento e pensamentos que são atribuídos ao outro, mas que, na verdade, são formulações nossas, das quais não gostamos ou as quais não aceitamos. Logo, é mais fácil  pensar que o outro pensa e faz algo pouco correto ou ético, do que admitirmos que nós mesmos estamos preenchidos com aquele pensamento, desejo ou comportamento em si. Ou seja, quando o comportamento aparece no outro, nós nos permitimos falar sobre ele e criticá-lo, muitas vezes até ferozmente.

Um exemplo clássico seria o caso das pessoas excessivamente ciumentas que atribuem ao parceiro o risco da traição, sendo que o desejo de trair ou mesmo o ato em si pode estar sendo cometido por elas próprias. No caso, os próprios pensamentos e atos tornam-se motivo de terror quando se imagina que o parceiro pensa ou age da mesma forma; pois, no fundo, a pessoa identifica seu comportamento “inaceitável” no outro. Logo, um mecanismo de defesa age quando o indivíduo não vê o seu comportamento ou pensamento como inaceitável, mas atribui ao outro o inaceitável: “Ele deve estar fazendo algo de errado!”

Outro exemplo são pessoas – isso acontece muito comigo – que copiam conteúdos e ideias de outras páginas na internet, mas falam de si mesmas como plagiadas pelos outros. É possível observar, ainda, pessoas que só veem maldade nos atos dos outros. Contudo, se pensarmos bem, onde estaria toda aquela maldade afinal? Nesse caso, a sabedoria popular oferece uma resposta, pois dita que “nós só falamos daquilo que está repleto o nosso coração”.

As eternas vítimas também utilizam-se muito da projeção, pois elas sempre supervalorizarão o que o outro fez “contra” elas, em vez de assumir a sua parcela de responsabilidade nas coisas que acontecem.  Um exemplo seria aquela pessoa que reiteradamente falha em seus compromissos, palavras e ações, mas que quando é demitida ou deixada de lado, conta sobre a injustiça que sofreu, até mesmo com lágrimas nos olhos. O interessante é que a vítima, nesses casos, não consegue se responsabilizar pelo que fez porque fixa-se no que chama de injustiça. Mais uma vez, os mecanismos de defesa entram em ação ao protegê-la da realidade total e “projetar” uma realidade parcial, mas que a deixa na posição de coitadinha.

É claro que vítimas reais existem. No entanto, não é difícil detectar quando o que está falando mais alto são esses mecanismos projetivos que fazem com que a pessoa afirme,  caso após caso, sobre como foi seriamente injustiçada. Quem participou ou presenciou o ocorrido, entretanto, sabe que a descrição se prende a uma realidade parcial, sobre a qual se cria até mesmo uma identidade de “pessoa injustiçada”. Esse mecanismo pode, inclusive, ser utilizado para obter ganhos secundários como atenção, solidariedade e pena dos que estão ao redor e que, muitas vezes, creem nessas afirmativas por muito tempo. Afinal, como não crer nessa fala uma vez que o próprio narrador acredita piamente nela?

Outra forma da projeção se manifestar é através do que chamamos de “idealização projetiva”. A idealização projetiva é o ato de admirarmos um comportamento do outro, mas que nós não seríamos capazes de realizar porque nossa consciência impede.

Tenho a impressão que o grande sucesso de séries como Mad Man e Breaking Bad é relacionado a isso. Em ambas vemos um protagonista amoral que faz o que quer e sem peso na consciência para atingir os objetivos almejados.  Enquanto em Mad Man, o publicitário galã abandona a família, vive na riqueza, bebe, não vai ao trabalho e troca de mulheres (descartando as anteriores), sem nenhum escrúpulo; em Breaking Bad, Walter, o protagonista, cria um laboratório de metanfetamina para conseguir dinheiro rapidamente e prover a família antes que morra de uma doença grave que o aflige e que, teoricamente, justifica seus atos. Embora em ambos os casos haja algumas cenas de aparente consciência parcial, elas são sempre infinitamente menos relevantes que a busca do prazer imediato e realização dos desejos. Quem segue Breaking Bad, por exemplo, percebe o prazer que o professor sente ao assumir o poder, ao ter sua fórmula reconhecida pela qualidade e ao “dar as cartas” em tudo o que segue fazendo.

Ao assistir cenas de séries assim, o espectador projeta em seus personagens a possibilidade de fazer o que bem quer  e sair-se bem ao mesmo tempo em que não tem que lidar com a consciência de usar pessoas ou mesmo sentir culpa. Afinal, em algum momento vimos Walter sentir real remorso por fornecer drogas e destruir vidas com isso?

Quem nunca se questionou como seria a vida se pudesse fazer o que quisesse e não precisasse se preocupar realmente com as consequências? Muito do charme dos sociopatas, por exemplo,  é proveniente disso. Um certo grau de admiração por políticos corruptos, mas que ficam milionários, não seria o mesmo?

No fim, a projeção está relacionada com a não admissão ou aceitação de sentimentos  e comportamentos tidos como “menores” em si mesmo, sejam eles egoísmo, ciúme, traições, ambição, indiferença ao próximo. Sendo assim, ou eu culpabilizo ou admiro um outro pelos desejos que na verdade existem dentro de mim.

A maturidade consiste na caminhada que todos fazemos ao identificarmos nossas  responsabilidades de maneira global. Aceitar que dentro de nós existem desejos que nem sempre são “bonitos” do ponto de vista social imaginado, mas que fazem parte e compõem o nosso ser e influenciam nossas escolhas. Uma vez que reconhecemos esses desejos podemos escolher com sabedoria se queremos realizar e assumir as responsabilidade pelos nossos atos no lugar de falar mal dos outros ou nos colocarmos no papel de vítimas do destino.

Felicidade é o novo preto

Felicidade é o novo preto

Veste o teu melhor sorriso e vem me ver. Não se preocupe com a roupa ou com o penteado, o que vale pra mim é o que vestem os teus olhos e a tua boca, e não estou falando de rímel ou batom. Falo daquele brilho especial e daquela curvatura singular que se desenha nos seus lábios toda vez que você sorri.

Também não há roupa que se iguale à elegância, ao charme desengonçado de quando você tropeça em suas próprias pernas ou de quando derruba a bebida de alguém sem querer com seu apaixonante jeito estabanado de ser.

Bermuda desbotada, chinelos e aquela camisa surrada dos domingos: o que para uns é um verdadeiro desastre, pra mim é poema visual quando estão no seu corpo. Não importa a combinação, desde que seja o seu olhar que eu encontre acima dela. A autenticidade não é encontrada no símbolo de uma grife, tampouco está nos olhos de quem vê, como dizem por aí. Ela está no constante exercício de existir, dia após dia, sendo quem quisermos ser.

Não vou mentir, eu sempre vou te preferir nua, envolta nos lençóis da minha cama ou na calma de um abraço meu. E se for pra vestir algo, que seja essa luz cintilante que só o teu sorriso tem.

Às vezes passo horas observando o céu azul todo salpicado de nuvens, e chego à conclusão de que é quase a mesma coisa que ver você dormir. As belezas do mundo só fazem sentido quando comparadas a você. Simples assim. A gente é que complica demais as coisas. O que a gente precisa mesmo é desfazer o nó dos dias, não o nós de uma vida toda. Ficar abraçadinhos em noites frias, com cobertor, chocolate quente e um filme qualquer – pra não precisarmos prestar atenção em nada que não seja você e eu.

As coisas do mundo podem tentar te assustar, como acontece com uma criança em noite de tempestade, mas acredite em mim, quando você estremecer, eu farei qualquer coisa pra vê-la sorrir (todas as minhas piadas são ruins, eu sei, mas dá pra tentar resolver te mostrando a minha dança super secreta que batizei de “arrocha flamejante”).

Olhe bem à nossa volta, muitas pessoas tentam correr atrás do que já passou enquanto o amanhã praticamente se esfrega nos olhos delas. Não sejamos como elas. Vamos fazer diferente, caminhando na direção um do outro, até milhões de abraços se completarem. Vamos exagerar! No número de beijos, de abraços e de declarações acaloradas. O mundo anda econômico demais em riso e amor – uma verdadeira inflação de seriedade e solidão.

Vem morar comigo no meu desejo de um mundo mais simples, um lugar com mais “rárárá” e menos “mimimi”. Vamos nos mudar um para o peito do outro.

Ouvi dizer que felicidade é a última moda em Paris, que tal aderirmos a essa tendência?

Benditos aqueles que fazem uma mulher sorrir.

Benditos aqueles que fazem uma mulher sorrir.

Lá está. Viu? Atrás daquele monte de compromissos, ao lado das caixas de expectativas não atendidas, bem ali! Em frente à prateleira das desculpas, perto do armário dos medos e suas gavetas de culpas, isso, achou! Bem ali, bem ali tem uma mulher sorrindo.

Ao lado do grande arquivo de grosserias e deselegâncias. De cara com a sala das reuniões intolerantes. Apesar da tempestade de baixarias que assola a vida. A despeito da intolerância, da cegueira política, do descaso com o outro, da ignorância, da empáfia, dos chatíssimos donos da verdade. Apesar de tudo isso, a moça está sorrindo.

Brequem essa roda desenfreada que atropela tudo! Levantem as pontes! Baixem as cancelas! Tem uma mulher sorrindo. Contra tudo, contra todos, ela sorri!

Você há de se perguntar por quê. Por que mesmo essa pessoa está sorrindo? É compreensível. Hoje em dia quase nada é de graça e um sorriso também não vai fugir à regra. Correto. Mas depois de vê-la sorrir de perto, quando você se der conta de que ela está sorrindo de fato, saber por que ela o faz não vai fazer a menor diferença. Qualquer motivo é menos interessante que o sorriso dela em si. Sem causa nenhuma, sem motivo aparente. A moça simplesmente sorri.

E assim, de repente, um sentimento simples se espalha pela vida complicada de todo dia.

Ali mesmo tem uma mulher sorrindo. Abra os olhos de ferro e cimento e fumaça, universo! E guarde o sorriso dela em suas curvas, em suas idas e vindas, em seus abismos de mistérios. Ela vai fechar esse sorriso daqui a pouco. Alguém vai jogar areia nos olhos dela. Por maldade, por pura maldade, alguém vai barrar-lhe o riso.

Ela vai se recolher na labuta, dedicada, trabalhadora. E vai esperar a hora de sorrir de novo. Vai sonhar com a possibilidade de um milhão de pessoas perderem uma moeda em frente à casa de quem precisa de dinheiro. Vai rezar por quem está triste, pedir por quem não vê razão para seguir em frente. Ela vai adotar crianças, animais e causas impossíveis. E vai sorrir de amor para um mundo cheio de ódio.

Bem ali, entre um problema e outro, atrás do tiroteio e da agitação, intocada e verdadeira, tem uma mulher sorrindo. Repara. Repara como ela sorri bonito.

Sobre a Ciência e o Inconsciente

Sobre a Ciência e o Inconsciente

O inconsciente concebido do ponto de vista da bioquímica dos processos cerebrais não pode, como aliás se tem mostrado óbvio, dar conta do campo da significação (assim como das suas falhas e lacunas), abrangido pelo inconsciente psicanalítico. Apenas um deficitário conhecimento deste segundo campo, pode permitir formular a hipótese contrária.

Estará a querer enganar o mundo, quem afirmar que conhece o cérebro, aquela insondável nebulosa (na qual, na verdade, estamos ainda muito perdidos), ao ponto de poder compreender a complexidade dos processos em questão, pois o conhecimento existente sobre os processos cerebrais não dá para sondar nem de muito longe, o campo mental da significação inconsciente, explorado pela psicanálise.

Na verdade estamos mesmo a “anos luz” de distância de uma tal integração do conhecimento. Parece-me muito bem que continuemos a tentar reduzir cada vez mais essa distância, mas o que a ciência não pode é dizer que já lá chegou, nem que está lá perto, pois para tal afirmar, como saberão, teria que atropelar os seus próprios princípios, rígidos e rigorosos, de verificabilidade metódica experimental.

Afinal de contas é nesta ótica da verificabilidade experimental que a ciência sempre excluiu do campo dos seus objetos de estudo, o inconsciente psicanalítico; e até à data não se encontra em condições de fazer outra coisa, pois essa outra coisa exigiria reformulações epistemológicas que são contra a sua própria natureza fazer.

Neste estado de coisas, a tentativa de assimilar o inconsciente à bioquímica dos processos cerebrais – um inconsciente cerebral geneticamente transmitido, alojado num cérebro sem mente –, corresponde precisamente à tentativa de aplicar à psicanálise, da qual o inconsciente é o principal pilar, um derradeiro golpe de graça, concedendo-lhe um lugar no qual tombará destituída de si mesma, vendo radicalmente perdida a sua especificidade e a sua identidade própria, para sucumbir subordinada à ditadura do conhecimento advogada pelo método único, vislumbrando-se então mais de perto, no horizonte desimpedido de obstáculos, aquele distópico “Admirável Mundo Novo”.

Neste sentido, se bem me faço entender, a neuropsicologia e a neuropsicanálise, que a tantos psicólogos e psicanalistas fascinam, podem ser efetivamente mobilizadas como ardilosas armadilhas (e digo podem, não que o sejam necessariamente).

Perante isto, encarando de frente as tendências dos nossos tempos, resta-nos o alívio de saber que, dada a sua natureza inexorável, o conhecimento jamais se deixará subordinar a um continente restrito (um método único), que lhe imponha limites que não lhe cabem; e estamos cá para o lembrar, tantas vezes quantas forem necessárias.

13 dicas para os pais com crianças hospitalizadas:

13 dicas para os pais com crianças hospitalizadas:

Escrevo esse artigo ainda no hospital, 9 dias e 8 noites sem dormir ou comer adequadamente, e, possivelmente, os dizeres desse singelo artigo, não fiquem tão concatenados como eu gostaria, entretanto, tenho pressa em escrever e compartilhá-lo com outras mães e pais que possam necessitar dessas orientações.

Nesse tempo, li alguns textos e refleti muito sobre a situação de mães/pais que acompanham seus filhos nas internações. Se uma dor de barriga ou febre do filho causa angústia, acompanhar um filho durante uma internação hospitalar, é algo extremamente difícil para os pais.

As crianças captam facilmente as emoções dos seus pais, ou seja, a criança senti o quê os pais sentem, portanto, dentro do possível, faz-se importante que os pais mantenham-se calmos e confiantes em seu tratamento e recuperação.

Crianças emocionalmente saudáveis e com boa auto-estima conseguem se recuperar mais rapidamente, dessa forma, seguem algumas dicas para atravessar esse período de hospitalização:

  1. Explique para a criança onde vocês estão e o que é um hospital;
  2. Facilite a relação da criança com a equipe que cuidará dela nesse período, por exemplo, pode dizer que esses profissionais estão trabalhando para deixá-la melhor;
  3. Fale sobre os motivos que levaram à internação, ou seja, explique de forma simples e na linguagem da criança, a doença que apresenta nesse momento;
  4. Sobre os procedimentos: informe-se com a equipe que acompanha seu filho sobre como será o tratamento. Às vezes eles necessitarão coletar material para exames tais como: sangue, fezes, urina. Pergunte sobre as medicações e sobre como elas serão administradas, se por via oral ou endovenosa. Essas informações são importantes passar para a criança, mesmo para os bebês que já compreendem que algo não vai bem, pois se as crianças que não sabem como acontecerá o tratamento podem ficar ansiosas;
  5. Diante das medicações endovenosas, coleta de sangue e outros procedimentos mais invasivos, nunca diga que não vai doer, explique que vai doer um pouco, mas é necessário. A criança fica assustada diante de pessoas desconhecidas que precisam mexer em seu corpo para examinar e fazer procedimentos que, às vezes, são dolorosos, portanto, se você disser a verdade, ela não ficará tensa o tempo todo e isso facilitá aos profissionais a realização das avaliações físicas;
  6. Fale das suas emoções para seu filho, pois a mãe/pai são os espelhos da criança. Certamente ela não consegue compreender muitas das suas emoções nesse momento e ouvir como os pais se sentem, o ajudará a nomear e entender os seus sentimentos;
  7. Fortaleça o emocional do seu filho; pode dizer que confia nele e em sua recuperação e que passarão juntos por esse processo;
  8. Informe-se, caso seu filho tenha uma doença crônica, síndrome ou doença congênita, pois é importante saber sobre os seus sintomas, evolução e prognóstico, muitas vezes sabendo e reconhecendo os sinais iniciais da patologia, pode-se tratar antes do agravamento, evitando uma nova internação;
  9. Apóie-se:  há grupos muito interessantes no Facebook que são compostos por mães e pais que estão disponíveis para acolher e compartilhar as experiências que tiveram com a doença/síndrome, internações e tratamentos;
  10. Caso necessário, procure um psicólogo para conseguir se organizar mentalmente e, indiretamente, organizar as emoções do filho que está doente nesse momento;
  11. Pergunte para seu filho como está se sentindo, caso ainda não tenha muitos recursos com a linguagem, peça para desenhar a internação/doença e explicar o desenho, isso poderá ajudar a compreender a situação e organizar-se psicologicamente;
  12. Sobre a alta: diga quando vão sair da internação somente quando tiver certeza da data;
  13. Faça planos juntos para realizar depois da alta e cumpra-os, ensine o seu filho a valorizar a saúde e a celebrar a vida.

Agradeço à equipe da pediatria do hospital Santa Casa Anna Cintra em Amparo-SP que nos acolheu e encaminhou para o tratamento especializado que meu filho necessitava.

Esse texto, como gratidão, dedico á equipe da UTI pediátrica e ao setor de pediatria do Hospital Vera Cruz de Campinas – SP. Equipe que pude confiar que e que cuidou do meu filho com competência e profissionalismo. Enxerguei nos olhos de cada profissional o amor em exercer a profissão e cuidado que direcionam aos seus pequenos pacientes. Muito obrigada!

Vamos olhar as coisas de uma forma diferente?

Vamos olhar as coisas de uma forma diferente?

Quando eu era pequena, nunca me vesti com aquela roupa rosa, nunca usei lacinhos, nem gostava de brincar de casinha ou maquiagem, nunca segui a risca aquele estereótipo que se espera de uma menina. Gostava mais da companhia dos meninos, brincava de pique, bolinha de gude e bola. Sim, tudo o que tivesse uma bola envolvida eu gostava de brincar: basquete, vôlei, futebol e queimado.

Quase não tinha bonecas e nem gostava tanto desse tipo de brinquedo ou brincadeiras. Gostava de me vestir com roupas que me deixassem a vontade para correr, para brincar, para me sujar, porque as crianças não tem medo de cair e se divertir. Então, usava muitas roupas largas, como shorts e camisas, tudo que me permitisse ser eu mesma.

Isso nunca foi algo pensado, premeditado, por isso nunca foi uma questão para mim. Eu sempre fui assim, sempre gostei dessas coisas, eu sempre fui desse jeito. E o que me deixa muito triste e preocupada com a infância das crianças, é que isso hoje em dia, é visto como um problema pelas pessoas sejam os próprios pais ou educadores.

Uma vez, ouvi um comentário sobre uma menina, uma criança dos seus sete anos que se comportava como eu quando era pequena. Os parentes mais próximos estavam alertando os pais que esse jeito de ser, deveria ser corrigido, porque senão quem sabe o que ela ia se tornar? Eu achei um absurdo, mas percebi não só o tom de julgamento dos parentes como também a preocupação iminente no olhar dos pais.

Parece bobagem ou algo isolado, mas não é bem assim. Infelizmente, esse tipo de comentário maldoso e esse tipo de mentalidade é muito comum e amplamente disseminada na nossa sociedade como um todo. Não é a exceção, ainda. Apesar, que esse tipo de comentário tem sido mais combatido nos dias de hoje e tem cada vez menos adeptos a esse binômio masculino/ feminino de ver as coisas. Acho sim que de forma geral, as coisas estão caminhando, mesmo que seja lentamente.

Por isso, precisamos sim falar sobre isso, falar por que ainda atribuímos características e comportamentos baseados no gênero: se é menina tem que ser assim, se é um menino tem que ser assado. Tentar abrir os olhos e ver como aprisionamos as crianças ainda pequenas numa caixa, em um estereótipo, em uma cartilha invisível de como as meninas e meninos devem agir e interagir no mundo a sua volta, o que é e não é permitido.

Como eu disse, para mim quando eu era criança, nunca foi uma questão ser diferente das outras meninas. Mas, conforme fui crescendo comecei a me dar conta do preconceito que existia nas pessoas, algumas brincadeiras e piadas pelo meu jeito de ser e até pela minha forma de andar.

Eu não posso falar pelos meus pais e como eles pensavam. Não sei se isso foi visto como um problema ou não, se chegou a ser algo conversado entre eles. Mas meus pais nunca criticaram, sugeriram ou disseram como eu devia ser ou me vestir. Eu sempre tive a oportunidade de ser eu mesma, ter os amiguinhos que eu queria, brincar do que eu quisesse e me vestir com aquilo que eu gostava de usar. E eu sei que infelizmente, isso ainda é um privilégio.

Há uma sexualização precoce das crianças e daí vem a demonização do que não é considerado “normal”, seja para as meninas ou meninos que não se encaixem em um padrão de comportamento esperado. Ou seja, não é visto com bons olhos se uma menina gosta exclusivamente de brincar de bola, jogar vídeo game ou esportes. Da mesma forma, se um menino gosta mais de brincar de casinha, passar roupa ou de boneca é visto com estranheza e piadinhas maliciosas.

Não se engane, para os meninos a pressão é ainda maior. Em uma sociedade patriarcal e machista, onde mariquinha ou fresco são usados como ferramenta de insultos, como algo pejorativo e considerado um xingamento por quem o diz com o objetivo de desqualificar quem escuta, não é nada fácil ser aquele menino que tem a voz mais fina do grupo, que não gosta de jogar bola ou prefere a companhia das meninas nas brincadeiras.

Eles são sim, discriminados pelas pessoas que deveriam aceitá-los como são, seus próprios amigos. É assustador como as crianças podem ser cruéis, segregar e excluir quem elas acham que não se enquadra no grupinho seja por qualquer motivo for.

Isso é sim muito grave. Bullying é coisa séria e não uma simples chacota e brincadeira inofensiva. Ser discriminado por ser quem se é, dói, machuca. E o que mais me preocupa é a covardia do ato porque a criança que é atacada, ainda não tem as ferramentas necessárias para se defender sobre isso.

Eu realmente espero e desejo que o futuro seja diferente com as crianças que estão por vir. Cada vez mais esse tipo de preconceito seja combatido a tal ponto que não seja mais a mentalidade coletiva. Com mais informação, com mais diálogo, com mais compreensão, as coisas começam a mudar, as pessoas começam a pensar diferente e a sociedade então muda.

Não importa o tempo que isso leve, mas as coisas mudam sim. O que é considerado como “normal” sempre muda, sempre se adapta, sempre sofre metamorfose e não podia ser diferente. Afinal, não é algo absoluto ou da natureza como gostam de falar. É criado, inventado, propagado, é o inconsciente coletivo. E isso sempre muda. Graças a Deus.

Ninguém poderá realmente te ferir no dia em que você verdadeiramente se amar

Ninguém poderá realmente te ferir no dia em que você verdadeiramente se amar

Por Sílvia Marques

Achamos que nos amamos. Achamos porque desejamos coisas boas para nós. Desejamos um bom emprego, uma vida social animada, uma casa confortável, alguém para amar e nos amar.

Porém, se alguém nos rejeita, nos ofende injustamente ou ignora a nossa presença, sentimos a atitude desagradável penetrar a nossa carne como a lâmina muito fina e muito fria de um punhal mortal. Por quê? Porque lá no fundo, em uma parte escondidinha do nosso coração, acreditamos que por alguma razão a ofensa tem o seu fundo de verdade e demos lá os nossos motivos para sermos rejeitados ou ignorados.

Concordo que às vezes realmente pisamos na bola e recebemos o troco. Não me refiro a este tipo de situação. Me refiro a um tipo de contexto em que você é educado, gentil, prestativo e leva torta na cara sem saber o porquê.

Nunca entenderemos realmente as reais motivações das pessoas. Cada um de nós é um universo complexo e vasto, cheio de obscuridades, muitas vezes, para nós mesmos. Se em muitos casos não compreendemos nem os nossos sentimentos, como poderemos entender com clareza os alheios?

O mais importante é não se subjugar porque o outro não nos aplaudiu, virou a cara quando sorrimos e não respondeu ao nosso bom dia. O mais importante é não se recriminar porque o outro não simpatiza com a gente, não concorda com o nosso jeito de ser e prefere conversar com outras pessoas. O mais importante é não se culpar porque quem amamos não nos amou. Você não é sem graça só porque quem você amou não viu encanto algum em você. Você não é a última das mulheres ou o último dos homens só porque quem você amou, preferiu namorar alguém que você considera um/uma idiota ou até mesmo preferiu ficar sozinho/sozinha.

No dia em que você se amar mesmo, para valer, a opinião de ninguém contará tanto assim porque lá no fundo o que importa mesmo é como nos vemos e como nos acolhemos.

As 25 melhores fotos de noivado

As 25 melhores fotos de noivado

Fotógrafos de 35 países diferentes apresentaram as suas mais incríveis fotos de noivado para o Junebug Weddings, uma comunidade virtual dedicada a ajudar seus integrantes a planejar casamentos.

As fotografias dessa coleção foram escolhidas por sua qualidade, beleza, excelência, técnica e personalidade distinta. Não só por esses fatores, mas também pela conotação extremamente emocionante das fotos, os fotógrafos responsáveis foram magistrais.

Deparar-se com essas fotos é, para casais e pessoas solteiras, uma verdadeira inspiração. Das imagens são suscitadas diversas sensações e emoções, incluindo empatia, paixão e graciosidade.

Nestas fotografias melódicas, casais interagem entre si através de uma conexão emocional sólida, demonstrando, tanto o homem quanto a mulher, a potência de sua união afetiva.

Em pessoas mais sensitivas, principalmente, essas fotos irão surtir um efeito caloroso, passional e abrasante.

A gratidão é visível no semblante das pessoas que participaram desse ensaio fotográfico.

Os fotógrafos identificaram o momento certeiro para registrar esses 25 casais: quando eles parecem estar no ápice de seus relacionamentos.

Os casais são tão bem figurados nessas fotos que parecem estar contracenando em um filme. Mas a diferença é que as cenas são reais.

Esta série fotográfica promovida pela Junebug Weddings desmantela a vergonha de ser feliz, e nos mostra um pouco da virtude que é compartilhar momentos de alegria genuína. Veja as fotos:

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*Mais informações

Não é não

Não é não

“A violência contra mulheres é uma construção social, resultado da desigualdade de forças nas relações de poder entre homens e mulheres. É criada nas relações sociais e reproduzida pela sociedade.” Nadine Gasman, porta-voz da ONU Mulheres no Brasil.

A cada 11 minutos surge um caso, em média, de estupro no Brasil. No mundo, segundo a ONU, 7 a cada 10 mulheres já foram ou serão violentadas em algum momento da vida. Mesmo com esses dados chocantes, ainda há quem defenda que a violência contra a mulher não pode ser associada à cultura do estupro. Usar o termo cultura para ações tão abomináveis é desleal, eles dizem. De acordo com a Sociologia, a cultura possui tanto aspectos tangíveis – sejam eles objetos e símbolos que estão dentro de um contexto, como também podem ser intangíveis – ideias e normas que regulam o comportamento de um grupo de indivíduos. Indo além, tais valores e características podem ser medidas como desejáveis e indesejáveis. O que isso quer dizer? Significa que certos conceitos e costumes de uma determinada cultura, algumas vezes são benéficos e outras nocivos. Logo, nem toda forma de cultura implica, necessariamente, numa evolução da sociedade. Por isso, usar e reafirmar a existência preocupante da cultura do estupro é tão fundamental para ser debatido e combatido. Não somente pelas autoridades, mas também por todos os cidadãos. Questionar a vítima do estupro é salientar e expandir o desejo e o desrespeito da sociedade machista em que vivemos. Emile Durkheim (sociólogo, psicólogo social e filósofo francês; 1858 – 1917) acreditava que os fenômenos sociais têm necessariamente uma dimensão cultural pois são também fenômenos simbólicos.

O caso da jovem, violentada por 33 homens que, independente dos fatores antecedentes da vítima, mostra mais uma vez esse descaso e sensação de impotência de quem sofre violência. Cruel, suja, assustadora. O triste é que isso se tornou rotineiro, tornando difícil alguns aceitaram, ou, sequer protestarem contra. Mas veja bem, a discussão e a constante luta contra a cultura do estupro não começou no mês passado no Rio de Janeiro. Ela faz parte desde o princípio da história datada do homem. No cinema, o assunto também já fora abordado, em especial, na produção The Accused (Acusados, 1988), estrelado por Jodie Foster, com roteiro de Tom Topor e dirigido por Jonathan Kaplan. Na trama, Sarah Tobias (Foster) foi para um bar. Usava roupas provocantes. Bebeu. Fumou maconha. Flertou. Foi estuprada por 3 homens enquanto outros 3 aplaudiam e incitavam. Ela disse não. Não bastou. A narrativa que, mostra apenas como tudo aconteceu no último ato da produção, discute, seriamente, justamente essa base cultural e machista acerca do estupro. O sistema judicial questiona. Outros personagens questionam. Até mesmo a advogada de Sarah, questiona. Até quando? Inerente às circunstâncias, ela disse não. Tantas outras mulheres já disseram não. Mas continua. Permanece. Fere.

O não por si só é a prova incontestável. O legítimo argumento. Mas há quem continue a ficar incomodado com o uso da cultura no estupro. Estão errados. Ainda que consentido no primeiro beijo e na primeira carícia se, em algum momento, o não surgir, acabou. É estupro. Estejam presentes um, dois, três ou quantos homens primitivos e caóticos praticarem o ato de fato. A tecla do estupro deve sim ficar sendo repetida, dia após dia. Nas casas, nas ruas, nas escolas e nos veículos de comunicação. Estupro não é política. Estupro não é sobre gosto. Estupro não é sobre fé. Todos esses outros assuntos podem ser conversados e cabíveis de possíveis divergências. Menos o estupro. A violência contra não só mulheres, mas também contra crianças, jamais pode cair no discurso de “a minha opinião é que não houve”, “a minha opinião é que ela procurou”, “a minha opinião é que ela se ela não tivesse feito isso ou aquilo”. Jamais. É para ser fixado. Tesão é respeito. Desejo é respeito. Amor é respeito. Quando a curva inclina para qualquer objetivo diferente estamos aplaudindo, incitando e sorrindo a favor da cultura do estupro. A mulher não é posse. Nenhum ser humano é posse. Seja para atender vontades ou expectativas.  Que termine aqui o virar os olhos para um novo caso de estupro e violência. Que termine aqui a pequenice de querer estar certo sobre como o outro deve se comportar diante de qualquer pessoa. Que termine aqui a inércia da sociedade. Não é não. Nunca talvez e muito menos sim.

 

Livro sobre o Azheimer: Ausência, de Flávia Cristina Simonelli

Livro sobre o Azheimer: Ausência, de Flávia Cristina Simonelli

 

Ausência, romance da escritora Flávia Cristina Simonelli, é um livro que apresenta o leitor ao dia a dia de uma pessoa afetada pelo Alzheimer.

Reconhecido e indicado pela ABRAZ- Associação Brasileira de Alzheimer, o livro descreve o percurso de Ervin de Apolinário, um renomado professor que começa a apresentar os sintomas da doença, e segue mostrando como a sintomatologia repleta de lapsos, esquecimentos, negação e até agressividade afeta sua relação consigo mesmo e com todos os que estão ao seu redor.

Daniel, médico que trata do paciente, é mais uma figura envolta na trama de maneira significativa quando não consegue se desvencilhar de reflexões acerca do caso. Nele, vemos mais uma pessoa invadida por questões existenciais de extrema relevância e que seguirão um rumo próprio dentro da história.

contioutra.com - Livro sobre o Azheimer: Ausência, de Flávia Cristina SimonelliNo Brasil, Ausência é um livro relançado pelo selo Via Leitura, da Edipro, e já está em sua terceira edição. O romance foi publicado também na Itália com o patrocínio da Fundação Biblioteca Nacional.

Através de suas 256 páginas, permite a todas as pessoas que estão envolvidas com a temática do Alzheimer, ou mesmo que possuem interesse pelo assunto, uma relação mais próxima e empática com o que acontece com quem vivencia a doença, suas perdas reais e reconstruções possíveis.

“Ao escrever Ausência, eu quis tentar transpor um limiar como escritora que me levasse a novos ângulos de percepção entre mim e o mundo; um livro é um universo criado, que ao mesmo tempo em que não pode abarcar, em ficção, todas as realidades da vida, é completamente coerente e inteiro em si mesmo, capaz de permitir a vivência de novos pontos de vista. O ponto de vista de Ervin, um homem que sabe que está perdendo a si mesmo; e o ponto de vista de outro homem, Daniel, que vê ruir todas as estruturas que constituíram sua vida até então…” Flávia Cristina Simonelli
Uma leitura que dá vida e transmite realidade ao mesmo tempo em que apresenta a essência da vida de quem lida com os sintomas do Alzheimer. Afinal, o livro nos obriga a pensar: “O que é um homem sem memória?”

contioutra.com - Livro sobre o Azheimer: Ausência, de Flávia Cristina SimonelliFlavia Cristina Simonelli graduou-se em Letras e Administração pela Universidade de São Paulo.

É escritora e aconselhadora biográfica, e tem seus textos publicados no site:
www.aconselhamentobiografico.org

Um olhar sobre a velhice

Um olhar sobre a velhice

Durante muitos anos o atendimento mais comum para o idoso foi o asilo, um recurso reconhecido pela necessidade de abrigo e proteção por abandono ou inexistência do grupo familiar.

A partir dos anos 70, com a aceleração do processo de envelhecimento no país, vão sendo criados recursos para atender às necessidades e anseios manifestados pelo número crescente de idosos.

Tanto os recursos institucionais, como os comunitários se dirigem à integração do idoso na sociedade. A partir do momento em que o idoso fica dentro de casa, ele perde a iniciativa, a capacidade de fazer novas relações, a criatividade desaparece e eles passam a produzir várias doenças físicas e psicológicas.

Para atender esta crescente população idosa, com a promoção da saúde, surgiram aos poucos programas e atividade física e serviços para a terceira idade. Estes grupos têm origem na comunidade e proporciona a ressocialização e o exercício da mobilidade, com opções para que os idosos se sintam independentes e tome suas iniciativas próprias. Abordar-se-á a atividade física no capítulo III.

A família sofreu transformações do ponto de vista sócio-econômico, mas ainda se constitui em um núcleo de apoio e atende às funções de socialização, cuidado, proteção e ajuda econômica para com os idosos.

Quando a idade avança, as condições do idoso o submetem à fragilização e atingido este quadro, os membros da família devem estimular sua independência, valorizando a capacidade física e intelectual que ele ainda possui.

Até meados do século XX, os psicólogos deram pouca ou nenhuma atenção ao desenvolvimento do adulto na segunda metade da vida.
Grande parte dos estudos da psicologia se concentrava na juventude, baseados na ideia de Sigmund Freud de que a personalidade se forma na infância e permanece relativamente idêntica durante a idade adulta.

Carl G. Jung lançou os alicerces de uma psicologia analítica voltada para a idade adulta ao defender a ideia de individuação, processo que se dá ao longo de toda a vida – e pelo qual nos tornamos os seres humanos completos que estamos destinados a ser. Pois, dizia ele, que nenhum de nós vem ao mundo por acaso, tendo a vida um uma finalidade única.

Ao considerarmos que o envelhecimento não ocorre baseado em um plano-mestre, mas sim como resultado de eventos ao longo da história de cada um, destacamos estas Teorias Biológicas do Envelhecimento. ( HAYFLICK, 1994:225. )

-Alteração na aparência e nas capacidades das pessoas que envelhecem

1-A pele frequentemente torna-se enrugada, seca e seborréica e aparece ceratose actinica;
2-O cabelo torna-se grisalho e mais fino; a calvície acentua-se;
3-A deterioração dos dentes provoca sua queda;
4-A altura e o peso tendem a diminuir;
5-As cavidades toráxicas e abdominal aumentam;
6-As orelhas alongam-se e o nariz alarga-se;
7-As células adiposas invadem a musculatura e a força
muscular diminui;
8-A postura e altura são afetadas por alterações músculo-esqueléticas;
9-A densidade óssea diminui, influenciada por sexo e raça;
10-Há alteração na absorção, distribuição, excreção e na cinética de ligação de drogas
11-Há perda de células insubstituíveis, principalmente no cérebro, coração e músculos;
12-A musculatura esfriada diminui aproximadamente pela metade aos 80 anos;
13-Há declínio de neurotransmissores como dopamina, noradrelina, serotonina, hidroxilase e acetilcolina; aumento de monoaminoxidase (MAO).

– Alterações na personalidade do idoso

1-Redução da capacidade de controle dos afetos;
2-Irritabilidade;
3-Depressão;
4-Desconfiança;
5-Susceptibilidade;
6-Autoritarismo;
7-Rigidez;
8-Apego ao passado, tendência a idealizá-lo;
9-Misoneísmo (aversão ao novo);
10-Propensão ao isolamento;
11-Misantropia (aversão à sociedade, a outras pessoas e à convivência);
12-Preocupação excessiva com a propriedade e a segurança;
13-Dificuldade de adaptação a situações novas;
14-Conflito habitual com as gerações jovens;
15-Consciência de dificuldades aumentadas na aquisição de conhecimentos;
16-Redução dos interesses;
17-Tendência a ocupar-se repetidamente dos mesmos temas;
18-Recusa em aceitar o envelhecimento e em reduzir seu estilo de vida e suas possibilidades.

Ao considerarmos que o envelhecimento não ocorre baseado em um plano-mestre mas sim como resultado de eventos ao longo da história de cada um, destacamos estas Teorias Biológicas do Envelhecimento. ( HAYFLICK, 1994:225. )

1-Teoria da Exaustão – o corpo contém uma quantidade fixa de energia que é gradualmente dissipada, desenrolada como uma corda de relógio.
2-Teoria da Acumulação – o material deletério que se acumula dentro das células acaba por matá-las com o correr do tempo (ex: lipofuccina ou corpos de hirano). Desenvolve-se tardiamente na vida.
3-Teoria da Programação Biológica – as células são geneticamente programadas para viver por um período específico de tempo, morrendo inevitavelmente após o término desse tempo.
4-Teoria do Erro – com a senescência, alterações ocorrem na estrutura da molécula do DNA (ácido desoxirribonucléico). Quando os erros são transmitidos para o RNA (ácido ribonucléico) mensageiro há um grande desenvolvimento de enzimas de defesa que levam, finalmente, à morte da célula e do organismo.
5-Teoria da Eversão (ligação cruzada) – há uma mudança nas ligações que unem as cadeias de polipeptídeos do colágeno, assim tornando-o menos permeável e elástico e, portanto, menos capaz de manter a vida normal.
6-Teoria Imunológica – com o tempo, há uma redução nos mecanismos protetores do sistema imune, que podem se tornar autoagressivos, levando à destruição dos tecidos corporais.
7-Teoria do “Relógio do Envelhecimento” – diz-se que este “relógio” reside no hipotálamo. O hipotálamo é fundamental para uma variedade de funções endócrinas e cerebrais e a perda de células neste local tem um papel particularmente importante no declínio dos mecanismos homeostáticos com a idade.
8-Teoria dos Radicais Livres – os radicais livres podem causar danos ao DNA. A ligação cruzada do colágeno e o acúmulo de pigmentos da idade são causados por radicais livres (moléculas com elétrons ímpares que existem normalmente no corpo, bem como produzidos por radiação ionizante, ozônio e toxinas químicas.

Recentemente, o cientista Giusepe Attardi do Instituto de Tecnologia da Califórnia e outros pesquisadores na Itália, em artigo na Science, informam ter encontrado um tipo de mutação genética relacionado com o envelhecimento em geral. Esta descoberta poderá comprovar que, pelo menos em termos, a velhice é resultado de mutação no DNA, que acreditam possam ser atribuídas à ação dos radicais livres ou a um cansaço do sistema de auto-reparação das próprias células. (23.10.1999:12.Ciência.JB).

É difícil determinar o início do período final da vida, quer sob o ponto vista médico, quer sob o ponto de vista social.

Se para uns a idade da aposentadoria marca o seu começo, para outros ela é arbitrariamente fixado aos 75 anos. Para outros, ainda, o aparecimento dos primeiros sinais de dependência é que evidencia a entrada definitiva neste tempo de declínio.

Dentre os mitos médicos sobre o envelhecimento há o que diz que a velhice começa aos 65 anos de idade. Esta é a ideia que poderia ser chamada de ‘envelhecimento burocrático’. Com a necessidade de estabelecer um limite exato para a concessão de benefícios e aposentadorias, para a estratificação de dados populacionais e outros é que surgiram os números ‘mágicos’ de 60 e 65 anos de idade para limitar as faixas etárias de adultos e idosos. Por que não 61, 63?

Os maiores efeitos do estabelecimento de uma idade delimitadora parece ser a “comodidade burocrática” e a considerável carga psicológica colocada sobre os indivíduos ao serem rotulados de ‘velhos’ ou ‘idosos’, com todas as consequências pessoais, sociais e culturais que advém disso. (JACKBEL NETO 1996:15)

Ao se desvincular da vida pública para mergulhar num mundo particular e privado, o idoso se vê excluído do espaço mais amplo em que se movia até então. Marginalizado, confinado aos estreitos limites para onde a sociedade o expulsa, vai perdendo socialmente uma identidade conhecida para mergulhar numa espécie de limbo.

Agora é um aposentado e deve se retirar para a quietude de seus aposentos, se deixar ver o menos possível e criar à sua volta um silêncio respeitoso seguindo a mesma trilha de todos os outros velhos excluídos. Pode parecer exagerada a afirmação, mas não há qualquer dúvida quanto à realidade: a sociedade rejeita aquele que não mais produz e já não gera riqueza.

É nossa cultura que despreza e agride homens e mulheres envelhecidos, sua memória e conhecimento para aceitar apenas o velho que ainda contribui de alguma forma para o crescimento.
Assim são aceitos políticos, artistas e criadores em geral, porque eles continuam como força atuante e modificadora.

Na velhice, a diminuição do poder aquisitivo, a solidão, a perda de identidade, o não acolhimento da singularidade e da diferença deste tempo de vida, tudo contribui para enfraquecer ainda mais o idoso, já destituído de seus papéis sociais. Na própria família, ele é segregado desde que não seja mais útil e produtivo. Esta violência contra o idoso tem crescido com o pensamento da atualidade, onde só é aceito quem é belo, atraente e rico.

Cada pessoa, ao longo de sua trajetória existencial, vive de modo singular suas mudanças biológicas, psicológicas, intelectuais e espirituais, compondo assim o seu ciclo de vida. E é esta composição que poderá garantir a experiência de envelhecer sem a fragmentação consequente das transformações internas e externas que ocorrem em cada ser, mais acentuadamente, à medida que envelhecem. Durante nossa vida, o corpo vai gradativamente se desgastando, mas a mente tem a capacidade de tornar-se cada dia mais viva e ativa.

O envelhecimento exprime ao mesmo tempo uma ideia de perda e outra de aquisição. Nossa sociedade reserva à juventude o benefício e à velhice o déficit.

Um dos aspectos do envelhecimento, a aquisição, concerne a história de vida do indivíduo, enquanto a perda, – outro elemento que é citado com mais frequência – se refere ao que é mais visível, e surge da dificuldade em discernir o limite entre o envelhecimento normal, o patológico e o patogênico.

O envelhecimento, como processo normal, é a expressão da temporalidade da pessoa, adere à história de sua vida. Envelhecemos como vivemos, nem melhor, nem pior. Trata-se de uma questão de equilíbrio entre aquisição/perda. (JACK DE MESSY,1992:16).

A capacidade do homem de reconhecer a limitação de sua existência e agir em conformidade com essa descoberta pode ser sua maior conquista psicológica. A aceitação da transitoriedade é efetuada pelo ego, que realiza o trabalho emocional que precede, acompanha e segue as separações. Sem esses esforços não se poderia alcançar uma concepção válida do tempo, dos limites e da inconstância das catexias.

Mas a vida, como dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, “está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso”. (FERREIRA, 1997 :360.)

A natureza faz lentamente o seu caminho e o corpo vai pouco a pouco se adaptando às limitações inerentes ao tempo vivido. Do velho não se exige a força física e as leis e costumes o dispensam dos encargos que pedem mais vigor. Perdidos os prazeres da boa mesa e do perfeito desempenho sexual, restam possibilidades de substituição por outros prazeres em tempos de urgência e fazeres atropelados.O cuidado com o físico é primordial para a sensação de segurança e bem-estar.

Sendo a vida o solo nutriente da alma, não podemos perder o contato com o contínuo vir-a-ser no estar vivos. Quem fracassar em acompanhar o processo de vida, ficará suspenso, tenso e rígido, olhando para o passado como se fosse a única razão de engajamento. Assim, as pessoas se retiram ou são retiradas do processo vital, fixando-se em recordações com um medo secreto da morte.

Mas a velhice longe de ser passiva e inerte pode ser sempre atarefada e fervilhante, ocupada em atividades relacionadas com o gosto de cada um. Pois a vida não é uma operação passiva e um organismo tem de se abrir e sair em busca daquilo que precisa – tornando a vida um exercício de busca e exploração de todos os possíveis.

Para Alexander Lowen, (1975:50)
“uma pessoa é a soma de suas experiências da vida, cada uma das quais é registrada na sua personalidade e estruturada em seu corpo”.

A leitura do nosso corpo é uma leitura infinita. O registro corporal é, sem dúvida, aquele que fornece as características da pessoa de idade avançada: cabelos brancos, ou calvície, rugas, reflexos menos rápidos, compressão da coluna vertebral, enrijecimento.

E como ninguém existe fora do corpo vivo, é através dele que nos expressamos e nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Se somos nosso corpo e nosso corpo somos nós, ele poderá expressar quem somos e dizer de nossa forma de estar no mundo. O corpo é um sistema energético e a energia está envolvida no movimento de todas as coisas, tanto vivas quanto inertes.

Eu nunca quis você pra mim, eu só queria você por perto

Eu nunca quis você pra mim, eu só queria você por perto

Por Léo Luz

Eu nunca quis te prender. Nunca quis você em casa vinte e quatro horas por dia, a salvo das intempéries do mundo e longe de todas as outras pessoas. Eu nunca te quis submissa ou passiva, muito menos te quis dependente de mim. Nunca foi a minha vontade te afastar dos seus estudos, do seu trabalho, dos seus amigos. Eu nunca quis ser uma sombra assustadora sobre a sua liberdade e sobre a sua independência. Apesar de eu querer você na minha vida, eu não quero você só na minha vida. Nunca passou pela minha cabeça competir com as coisas que você gosta, eu só queria ser mais uma delas. Você ia continuar conhecendo pessoas, fazendo suas coisas, suas atividades, porque eu nunca quis você para mim, eu só queria você comigo.

Enquanto eu dizia que queria compartilhar a minha vida com você, você ouvia que eu queria a sua vida para mim. Eu queria alguém para dividir as coisas ruins e somar as coisas boas, e você achava que eu queria te poupar de tudo, tentar tomar conta da sua vida e resolver todos os problemas do mundo. A minha vontade é essa mesmo, e se eu pudesse, eu te pouparia de todos os perigos e sofrimentos do mundo. Mas eu não posso e não faria isso. Se eu fizesse, você deixaria de ser você. Mas é porque temos opiniões diferentes sobre o que é liberdade.

Para você, liberdade é poder fazer o que quiser, sem ter que dar satisfação ou se preocupar com ninguém. Para mim, não. Para mim, liberdade é saber que, mesmo tendo que dar satisfação ou me preocupar, eu posso fazer o que eu quiser. Assim como a coragem não é a ausência de medo, e sim o controle do medo, a liberdade não é não se prender a ninguém e poder fazer o que quiser. Liberdade é ter a coragem e a maturidade de, sim, abrir mão de fazer alguma coisa para ficar em casa vendo um filme, se você quiser. Liberdade não é a obrigação de fazer qualquer coisa, e sim saber que você poderia fazer qualquer coisa, se quisesse.

Eu queria pegar o carro e fugir pra qualquer lugar com você por dois dias, mas você só achava que eu queria te roubar do seu mundo. Eu queria que você passasse trinta horas na minha casa, e você só se preocupava que havia faltado a algum compromisso e que isso te fazia mal. Eu me propus a encontrar um meio termo — mesmo eu não sendo uma pessoa de meios termos, eu estava disposto a fazer isso. Mas você preferiu não correr o risco. Eu prefiro ter alguém para me ajudar a suportar as coisas ruins, você prefere ficar sozinha e não correr o risco de ver seu perfeito e alinhado trem do planejamento sair dos trilhos por alguns segundos. Mesmo sabendo que as vezes em que eu tirei seu trem dos trilhos foram os nossos melhores momentos juntos. Eu prefiro aumentar os trilhos, você prefere me jogar pra fora do trem.

Eu te propus tratarmos a nossa dor no joelho com analgésicos, e sermos felizes nos momentos sem dor e tentarmos superar juntos os momentos de dor. Você preferiu amputar a perna, se livrando de vez da dor, mas abrindo mão também do lado bom. Eu tentava ver o lado bom das nossas brigas — estávamos nos ajustando. Você sempre via o lado ruim da coisas boas, como quando você me dizia que sentiu saudades, que seus sentimentos com relação a mim eram ambíguos ou quando eu percebia nitidamente uma centelha de paixão por mim nos seus olhos. E a centelha estava lá. Mas você fechava a janela pro vento não aumentar as chamas. Nós poderíamos ter sido tudo o que eu dizia que nós seríamos, porque você nunca entendeu o que eu queria e, assim sendo, recusou a minha proposta de o que você pensava que eu queria. Você teve medo de me oferecer algo que eu nunca quis, você se negou a ser o que eu nunca quis que você fosse. Será que um dia você vai entender o que eu queria e me deixar não ser a sua vida, mas somente estar na sua vida.

Por que algumas pessoas não conseguem ficar sozinhas

Por que algumas pessoas não conseguem ficar sozinhas

por Nathalí Macedo

A solidão é uma droga. Essa primeira frase, sozinha, responderia a pergunta aí em cima. Mas, calma, eu juro que esse texto fará algum sentido, nem que seja te mostrar que pode haver textos sem sentido algum, mas que você lerá até a última linha. Vai entender.

É impossível ser feliz sozinho, já dizia o Vinícius, e quem sou eu para discordar? Nada melhor que um corpo quente em noite fria, um brinde com cerveja gelada em domingo de praia, com bons amigos e um bem-querer ao lado, já que ninguém é de ferro.

Eu só não poderia escrever um texto apenas pra te dizer que a solidão é ruim. Preciso, afinal, aprender a fugir do clichê. Acontece que algumas pessoas simplesmente não conseguem ficar sozinhas nunca. Elas precisam de companhia para fazer as refeições, para ir ao cinema, passar os feriados e até pra fazer o número dois – acredite você ou não.

Essas pessoas se recusam à própria companhia. Querem tanto conhecer outras pessoas e outros mundos, que esquecem de olhar o seu próprio mundo. E aí, adeus autoconhecimento.

Mas desfrutar da própria companhia é igualmente necessário – e maravilhoso. Aquela taça de vinho acompanhada da sua música predileta não necessariamente precisa de um brinde. Se você quer ir ao seu restaurante predileto e ninguém quer ir junto, você não precisa comer miojo ou recorrer ao delivery. Vá consigo mesmo. Parece filosofia barata de um forever alone que passa as noites de sexta escrevendo sobre um assunto qualquer, e pode até ser que sim.

Eu gosto da solidão para coisas rasas ou profundas. Gosto de estar sozinha para pensar sobre o sentido da vida ou simplesmente desmanchar as pontas duplas do meu cabelo. Para escutar minha música predileta a todo volume sem fones de ouvido. Pra falar sozinha, andar pelada pela casa, dançar de um jeito que eu nunca dancei em pista nenhuma, a não ser de pijama em cima da cama.

E é por toda essa liberdade solitária que eu não compreendo pessoas que dependem tanto do outro. Que mal saíram de um relacionamento e já estampam letreiros luminosos de “procura-se”, sem sequer se dar o direito de digerir os próprios sentimentos. Vão se atropelando, se apoiando em quem quer que seja, porque, na verdade, não conseguem se valer sozinhos. É triste ver pessoas que simplesmente não sabem lidar consigo mesmas, não conseguem passar um sábado sequer em casa vendo TV e comendo pipoca – sozinhos. Só de vez em quando, pra se descobrir, se conhecer e, acima de tudo, se amar. Depois, volta-se para os amigos e os amores, naturalmente.

Nascemos sozinhos e assim morreremos, disso ninguém duvida. Construir relações bonitas no decorrer da vida é o que há de mais lindo, mas depender delas é o início de uma catástrofe pessoal.

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