O oposto de depressão não é felicidade, mas vitalidade

O oposto de depressão não é felicidade, mas vitalidade

O escritor americano Andrew Solomon está certo ao afirmar que “o oposto de depressão não é felicidade, mas vitalidade”.

Em palestra para o TED, datada de outubro de 2013, o autor compartilhou algumas experiências pessoais da época em que ele sofreu do mal dos séculos: a depressão.

Solomon relata que, no ano de 1991, sua mãe morreu, e um namoro que mantinha há anos terminou abruptamente. Mas ele passou incólume por essas experiências traumáticas.

Em 1994, no entanto, Solomon viveu o pior ano de sua vida. Por nenhuma razão aparente, ele se viu desinteressado por tudo. Nada do que fazia antes lhe proporcionava satisfação e prazer. As coisas perderam total sentido. Sua vitalidade desapareceu. E o pior: ele não sabia o por quê.

No decorrer daquela época de profunda depressão, Solomon até melhorava por um tempo, mas depois tinha recaídas, como um viciado em ciclicidade constante. Enfim, chegou um ponto em que ele permaneceu estável psicologicamente. Ganhou mais confiança e autonomia. Recuperou sua autoestima e vitalidade. Hoje, ele sente apenas gratidão por estar bem, apesar de saber que a depressão, após ser manifesta pela primeira vez, se torna uma característica imutável.

Depressão: um segredo que compartilhamos

Para muitas pessoas que sofrem dessa doença espectralmente tortuosa, é quase impossível explicar, de todo, o que acontece. “Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção se torna evidente”, ressalta Solomon.

A depressão é um chacal ocioso que habita a mente de todos nós. A diferença está na disposição: uns dormem mais do que outros.

As pessoas acometidas pela depressão se encontram em estado de nulidade. As emoções ficam congeladas. O ânimo se esvai, restando apenas apatia.

De acordo com Solomon, há três coisas que as pessoas costumam confundir: depressão, mágoa e tristeza.

“Mágoa é explicitamente reativa. Se perdemos alguém e nos sentimos muito infelizes, e seis meses mais tarde, ainda estamos tristes, mas começamos a reagir um pouco melhor, provavelmente é mágoa, e ela acaba por passar sozinha, seja como for. Se sofremos uma perda catastrófica e nos sentimos mal, e seis meses depois não conseguimos reagir nem fazer nada, provavelmente é uma depressão, causada pelas circunstâncias catastróficas. A trajetória do caso nos diz muito.”

As pessoas pensam que depressão é apenas sentir-se triste, magoado, chateado. É a mais escrota banalização possível. A depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo. As pessoas morrem por isso mais do que por qualquer outra coisa.

O deprimido se sente ridicularizado, pormenorizado, insignificante e, principalmente, vitimizado. Pensa que o mundo inteiro está contra ele, quando, na verdade, o mundo segue adiante, sem esperar por ninguém.

Algumas pessoas, ao se depararem com alguém deprimido, oferecem amor, mas elas se esquecem de que a depressão eclipsa a capacidade de reciprocidade afetiva. Ocorre uma espécie de subtração emocional. Faz-se cada vez menos, pensa-se cada vez menos, sente-se cada vez menos.

O senso comum diz que a pessoa depressiva “enxerga as coisas em preto e branco”. Porém, Solomon explica que não é exatamente assim:

“Numa depressão, não pensamos que colocamos um véu cinzento e estamos a ver o mundo através da neblina de um mau humor. Achamos que retiraram o véu. É mais fácil lidar com esquizofrênicos, que acham que há algo de errado com eles, do que com depressivos, que acreditam estar vendo a verdade. Mas a verdade mente.”

Ao longo de sua carreira como escritor, Solomon entrevistou uma série de pessoas que sofrem de depressão, e pôde aprender muito ouvindo as experiências alheias. Ele percebeu que, em geral, as pessoas depressivas têm muitas percepções delirantes. Acham que não são amadas, e que não valem nada. São pessimistas e, através do olho da mente, enxergam imagens terríveis, fantasiando finais trágicos e consequências desoladoras.

“Na maior parte das vezes, o que elas exprimem não é uma doença, mas uma visão.”

O indivíduo depressivo é como alguém que se vê completamente perdido em alto mar durante uma severa tempestade. Atormentado, até enxerga uma possibilidade de salvação, mas sucessivas ondas de medo o engolem. Quando, enfim, ressurge à superfície, ouve, aterrorizado, os relâmpagos de seu próprio desespero. Como descreve Solomon:

“É a sensação de ter medo o tempo todo, sem sequer saber o que se teme.”

Depressão tem cura mas, muitas vezes, essa cura é mais filosófica do que química. Terapia, medicamentos e outros métodos da medicina moderna podem ajudar, e certamente ajudam, mas não são a solução definitiva. Essa doença é um componente da personalidade dos depressivos; os depressivos não são a doença.

Na opinião de Solomon:

“Os tratamentos que temos para a depressão são terríveis. Não são muito eficazes. São extremamente caros. Têm inumeráveis efeitos secundários. São um desastre. Mas sinto-me muito grato de viver hoje, e não há 50 anos, quando não havia quase nada a fazer.”

Hoje em dia, diz Solomon, há um falso imperativo moral que diz que o tratamento da depressão, a medicação e todo o resto são um artifício, e que não é natural.

Realmente, muitas pessoas são temerosas acerca dos tratamentos disponíveis para a depressão. Elas têm medo de que medicamentos, por exemplo, alterem a forma como se age e pensa, e receiam que tais remédios as transformem em um ser desconhecido. Contudo, a maioria dessas mesmas pessoas se automedica regularmente contra todo um azar de dores e problemas; usam drogas lícitas ou ilícitas e não se preocupam com os efeitos colaterais. Trata-se de uma contradição.

Segundo Solomon, embora não previna contra a depressão, o amor é o que tranquiliza a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam.

Para o autor, ter a capacidade de estar triste e de ter medo, de estar alegre e de ter prazer, e de todos os outros sentimentos que temos, é incrivelmente valioso. Uma grande depressão acontece quando esse sistema emocional se avaria, portanto, trata-se de uma deficiência de adaptação.

Bem, como podemos viver melhor com a depressão?

Solomon lembra que as pessoas que desejam esquecer sua depressão e obliterar seus episódios depressivos são aquelas que mais se sentem aprisionadas por esse mal. Ele recomenda que as pessoas aceitem a depressão como parte de si mesmas:

“Valorizar a nossa depressão não impede uma recaída, mas pode alertar para uma recaída, e até mesmo tornar a recaída em si mais fácil de tolerar. Eu aprendi com a minha depressão o quão grande pode ser uma emoção, e descobri que aquela experiência me permitiu experimentar emoções positivas de uma forma mais intensa e focada. Acho que, apesar de odiar ter estado deprimido, encontrei uma forma de gostar da minha depressão. Gosto dela porque me obrigou a encontrar e agarrar-me à alegria.”


Para saber mais sobre as experiências de Andrew Solomon com a depressão, leia seu livro intitulado O Demônio do Meio-Dia, eleito um dos cem melhores livros da década de 2000 pelo jornal The Times, vencedor do National Book Award e finalista do Pulitzer.

Leia também: Andrew Solomon e as revoluções por identidade.

Assista a palestra de Andrew Solomon:

Imagem de capa: Reprodução

Não esqueça que ter amor próprio envolve ir embora

Não esqueça que ter amor próprio envolve ir embora

Por Raquel Brito

Em alguns momentos nos esforçamos para permanecer, ainda que isso não seja o melhor a fazer. Há ocasiões em que ficar é ir longe demais. Por isso dizemos que fechar algumas portas é necessário quando se tem amor próprio. Ir embora de alguns lugares é cuidar de si. Afastar-se de algumas pessoas também é se proteger.

Não são frases feitas, mas sim a realidade que em algum momento da vida todo mundo vai enfrentar, e algumas vezes a realidade por ser bastante dolorosa. Assim, ir embora e fechar as portas de nossa vida a alguém que não nos acrescenta nada de bom é positivo e saudável para nós. Com amor próprio conseguimos ver isso.

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Ir embora e encerrar círculos viciosos

Diz-se que temos que evitar cair em três acidentes geométricos: círculos viciosos, triângulos amorosos e mentes quadradas. Esta máxima pode ser muito útil na hora de cuidar da nossa saúde emocional. Quando decidimos caminhar, pode ser que tenhamos que ir contra nossos desejos. Daríamos qualquer coisa para ter motivos para manter as portas abertas mas, algumas vezes, não há outro remédio que não seja colocar um ponto final onde até então vínhamos deixando apenas vírgulas.

A questão é frear uma dor que pode ser evitada. Falamos de um relacionamento amoroso, de uma amizade ou de qualquer outro tipo de relação. Às vezes é preciso colocar fim na desilusão e no desencanto porque não há mais o que fazer.

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Como em outras ocasiões, faremos uso aqui de um texto magnífico; e nesse caso é uma passagem de um romance do escrito Paulo Coelho que nos ajuda a valorizar a importância de ter amor próprio, saber encerrar etapas e deixar ir.

Sempre é preciso saber quando uma etapa de nossa vida acabou. Se insiste em permanecer nela mais tempo do que é necessário, perde a alegria e o sentido de todo o resto. Temos sempre que fechar círculos, ou fechar portas, ou terminar capítulos, como quiser chamar. O importante é pode fechá-los, e deixar ir momentos da vida que acabam nos prendendo.

Não podemos estar no presente ansiando pelo passado. Nem mesmo nos perguntando o porquê. O que aconteceu já aconteceu e devemos deixar ir, devemos nos desprender. Não podemos ser crianças eternas, nem adolescentes tardios, nem empregados de empresas inexistentes, nem ter vínculos com quem não quer estar vinculado a nós. Tudo passa e temos que deixar ir!

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Mudar de pele, dizer adeus com a mão no peito

De tempos em tempos as serpentes mudam de pele. Para desfazer-se da pele velha, uma serpente escolhe transitar por duas pedras tão próximas que apertem seu corpo, raspando e ajudando a eliminar essa capa que já não quer mais. Mesmo sendo natural, essa transição não é agradável, e de fato provoca até dor, mas essa ação ajuda a cobra a se desprender do que já está desgastado, dando lugar ao novo.

Podemos extrapolar isso para a realidade em que nos encontramos quando chega a hora de dizer adeus. Esse processo final supõe um novo começo e, ainda que nos dê muita angústia, nos oferece um espaço para renascer. 

Essa tomada de consciência e esse passo nos ajuda a crescer e amadurecer, a conhecer mais sobre como construir relações saudáveis e significativas com as pessoas e com nosso círculo social. É inevitável o sofrimento quando chega a hora de fechar algumas portas, mas fazer isso é sinônimo de ter amor próprio.

Ao fim, é uma questão de visualizar nossa vida de maneira diferente, de sermos valentes e de mudar o que conhecemos. Porque no final o que conta é só isso, saber crescer, nos permitir um pouco de instabilidade e nos adequar às necessidades que surgem.

Uma vez que tenha feito isso, não pense mais no que foi perdido, e sim em tudo que pode ganhar.

Qual a importância do amor? – Flávio Gikovate

Qual a importância do amor? – Flávio Gikovate

O amor é um “prazer negativo” porque serve como remédio para a sensação de desamparo que nos acompanha desde o nascimento. Quando acoplado à amizade e à intimidade erótica, o amor se torna um “prazer positivo”; essa mistura é praticamente imbatível para aqueles que sonham com relacionamentos de boa qualidade.

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
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Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Esse blog possui a autorização de Flávio Gikovate para reprodução deste material.

O frio mata. A indiferença, também.

O frio mata. A indiferença, também.

As temperaturas despencaram em várias cidades do nosso país. Em pleno outono, fomos surpreendidos por ventos que arrasaram cidades, chuvas que aniquilaram outras tantas, neve nas partes mais altas da Região Sul, geadas em áreas rurais, destruindo o fruto de meses de trabalho de inúmeros produtores agrícolas.

A natureza pode ser cruel em sua instabilidade e imprevisibilidade. Instabilidade gerada, em grande parte, por nossa maneira irresponsável de explorar seus recursos. O fato é que conseguimos ser ainda mais devastadores do que tufões, terremotos ou coisa que o valha, quando nos isolamos em nossa individualidade e passamos a tratar como “normais” as situações de risco e abandono a que são submetidos alguns de nós, mais desvalidos e menos favorecidos.

As baixas temperaturas, nos levam à imediata reação de buscar em nossos armários aqueles casacos mais grossos, os cobertores mais quentinhos, acolchoados, gorros, luvas e cachecóis. Simples, não é? Basta abrir uma gaveta ou uma porta e encontrar o alívio para o desconforto provocado pelo frio.

Como seria bonito se esse desconforto fosse o suficiente para acender dentro de nós um alerta para a dura realidade: ALGUNS DE NÓS MORREM DE FRIO! Assim, ao abrirmos nossas gavetas e portas de armário, podíamos também abrir nossos corações e tomarmos a iniciativa de dividir o muito que temos com aqueles que, muitas vezes, não têm absolutamente nada.

Em dias frios como esses que temos vivido, podíamos adotar o hábito de sair de casa com uma sacolinha contendo uma blusa, algumas meias, uma mantinha, um cachecol, um par de sapatos.

Afinal, temos muito mais do que somos capazes de usar. Aquelas peças de roupa esquecidas e desprezadas nos cantos de nossas casas podem, literalmente, salvar a vida de alguém; aquele alguém que cruzar o nosso caminho e estiver sofrendo com o frio.

Felizmente, alguns de nós olham mais para o entorno do que para os próprios umbigos. Alguns de nós, incomodam-se com o sofrimento dos próximos e dos distantes e se dispõem a fazer de suas vidas uma missão para honrar o título de “ser humano”.

A Associação Beneficente Benedito Pacheco (Reintegra Turma da Sopa), organização sem fins lucrativos e atuante no Terceiro Setor, surgiu em 1992 com a iniciativa de dois amigos que se sensibilizaram com a morte de pessoas em situação de rua causada pelo intenso frio de São Paulo. Nesta fase inicial, eram distribuídos cobertores e sopa às pessoas em situação de risco, mas logo se percebeu a necessidade de algo mais. A partir daí, criou-se uma estrutura e metodologia que trabalhasse o indivíduo, promovendo a sua saída da situação de rua e reinserindo-o na sociedade. A Associação em seus 23 anos de existência, conta com cerca de 70 voluntários ativos. Já reintegrou à sociedade mais de 1.076 pessoas em situação de rua, por meio de ações que envolvem cursos profissionalizantes, encaminhamentos para frente de trabalho, tratamento para dependentes químicos, emissão de documentos pessoais, tratamento dentário e oftalmológico, transporte e retorno à terra natal para o retorno ao convívio familiar, entre outros.

A Associação desenvolve o trabalho de reintegrar o indivíduo em situação de rua e ou dependência química à sociedade. A partir de colaboradores e doações, todos os dias trabalha para ajudar a quem precisa, devolvendo a esses indivíduos a sua autoestima, a crença na sua transformação e na possibilidade de traçar um novo trajeto.

O projeto Meias do Bem é uma iniciativa sem fins lucrativos da marca Puket que começou em 2013. A campanha une solidariedade e sustentabilidade em duas atitudes simples: a doação e a reciclagem de meias. A Puket convida todos para doarem aquelas meias usadas, rasgadas, manchadas ou sem pares. Essas meias que permanecem inúteis em nossas casas, podem ser entregues nas lojas da Puket. O interessante é que as meias recebidas passam por um processo de reciclagem e são transformadas em cobertores. São necessários 40 pares de meias para produzir um cobertor e a cada 40 pares doados, a Puket ainda doará um par de meia novinho a alguém que precisa se aquecer.

A ideia de trazer alívio a quem sofre é tão simples que pode nos escapar. Perdidos em nossas rotinas e focados em nossas próprias mazelas ou necessidades, acabamos por ignorar os outros. Mas, sempre dá tempo de criar coragem e buscar lá no fundo aquela capacidade de tratar a dor alheia como algo que dói dentro de nós também. Façamos a nossa parte, sem julgar ninguém e sem esperar que alguém nos aplauda. O mundo agradece!

O que será do amanhã?

O que será do amanhã?

Aquela voz tirou-me de meus pensamentos e do planejamento que estava a fazer sobre os próximos dias, chegando a assustar-me por um momento .

“Oi! moça bonita, deixa eu ler a tua mão ? ” Olhei e vi uma mulher aproximando-se. Era morena, tinha cabelos pretos amarrados com um lenço vermelho, e um vestido longo todo colorido. Uma cigana!

Novamente, pediu-me para ver a palma de minha mão e eu, mais do que depressa, respondi com uma negativa, fui distanciando-me. Agora, meus pensamentos eram outros, mudaram totalmente de direção.

O futuro, os dias que estavam por vir perderam a força de sedução que tinham uns minutos antes em minha mente.

Olhei para a palma de minhas mãos procurando encontrar alguma pista, algum sinal do que me aconteceria. Comecei, então, a sorrir, do absurdo que estava pensando e temendo.

Lembrei-me de que, quando criança , tinha muito medo de ciganos, pois diziam-nos que podíamos ser por eles raptados. Agora, passadas algumas horas, posso refletir sobre essa experiência e perguntar-me se gostaria mesmo de saber sobre o futuro. Não tenho dúvida: NÃO.

Não apreciaria saber que logo ali na próxima esquina haveria um acontecimento muito bom esperando-me para ser vivido, pois perderia toda riqueza da novidade, da surpresa, do espanto.

Também, não gostaria de saber sobre um acontecimento negativo, pois perderia imediatamente a tranquilidade do momento presente e já começaria a viver a angústia do que poderia estar a algumas léguas de distância.

“O futuro a Deus pertence”, é preceito antigo, e é assim que acredito, e é assim que quero viver. Um dia de cada vez, um passo depois do outro.

Que graça teria assistir a um jogo sabendo o resultado final?
Que valor teria se soubéssemos que nossas decisões não contam, que nossas escolhas não interferem em nada, pois tudo estaria traçado sem a nossa participação?

Como manter ardendo a chama da paixão pela vida, o arrebatamento e a rebelião necessários para as mudanças?

O que adiantaria lutar pelos nossos sonhos e ideais se tudo já estivesse predestinado?

Não, não seria possível a vida nestas condições. Só o mistério e a imprevisibilidade é que fazem a vida ter essa tessitura tão delicada e , portanto , tão preciosa a todos nós.

Da arte da adivinhação fico com a mágica que nos incita a curiosidade e o espanto, e nos distrai por alguns momentos.

O ódio não cria asa quando o amor manda na casa

O ódio não cria asa quando o amor manda na casa

Por favor, não negue. Aí dentro de você, em algum lugar, escondidinho ou escancarado, mora uma porção de ódio. Sejam caminhões carregados de fúria em movimento arrastado, entupindo as ruas, vazando rastros de ira e areia pelo caminho, sejam raivas penduradas feito jacas pesadas, ameaçando despencar a qualquer momento e espatifar no chão do mundo, todos nós sentimos ódio.

É ódio de alguém, de algo, de uma lembrança, ódio de um sentimento indesejado, de comportamentos irritantes, de situações ruins que se repetem, ódio do que não aceitamos, ódio de nossa incapacidade de mudar velhos hábitos, ódio de nosso medo do fracasso, ódio do que pensamos que alguém vá pensar de nós quando perdemos ou ganhamos, ódio dos outros e de nós mesmos. Ódio! Ódio! Ódio!

Odiar existe e faz parte de nós. Alguém invade a sua casa e lhe rouba tudo o que você suou para comprar. Em meio a outros sentimentos, pavor, tristeza, pesar, impotência, em alguma medida você vai sentir ódio. Negá-lo é decepar uma parte legítima de nós mesmos. É sufocar um sentimento vivo, pulsante, legítimo! E só pode nos fazer mal. Amor e ódio moram juntos. Mas quem manda na casa é você.

Você acha mesmo que Vincent Van Gogh adorava ser arrastado ao manicômio feito um animal selvagem? Acha? É claro que não! Ele odiava! Van Gogh sentia dor. A dor de sua própria doença, a dor de não compreender o que passava, a dor do ódio que machuca fundo. Ele detestava aquilo tudo. Mas então, misteriosamente, em dias de dor e de raiva ele pintava e transformava sua ira em uma beleza arrebatadora e colossal. Por isso é um dos artistas mais fascinantes da história humana e um dos homens mais incríveis que já viveram e sofreram entre nós. Em algum lugar lá dentro dele, o amor pela arte foi mais forte que o ódio e a dor.

Negar a presença do ódio em nós mesmos é engolir uma bomba acesa. Se ninguém apagar o pavio, uma hora vai explodir. É preciso tirar a bomba de lá, de algum jeito. Dá trabalho, mas é o que se deve fazer. Ignorar que sentimos ódio é uma grande e pavorosa falta de amor.

Logo, o maior inimigo do amor não é o ódio, ué. É a negação de que você odeia. Se não há o que odiar, o amor perde o emprego, a utilidade. Torna-se um amor fraquinho, raquítico, inútil. Amor bom é amor ativo, atento, vigilante. Amor em exercício contra o ódio à espreita. Amor aos outros e a nós mesmos. Amor! Amor! Amor!

O ódio existe, sim. Mas ele não suporta a presença do amor. Onde vive um amor potente, seguro, cultivado com ternuras e bondades, o ódio acende e logo apaga. Perde a força. Sai de perto.

O sujeito toma uma fechada violenta no trânsito e percebe a atitude maldosa do motorista do outro carro. Está armada a cena. Se aquele que tomou a fechada tiver mais ódio que amor, ele vai descer do carro e chamar a atenção do outro. O outro, já tomado de fúria, vai partir para a briga. E só Deus sabe o que vai acontecer depois. Agora, se no coração do homem que levou a fechada o amor for maior do que o ódio, ele vai gritar um palavrão na hora, porque ninguém é de ferro, e vai deixar o provocador irascível seguir adiante. Vai respirar fundo e deixar pra lá.

Dentro de nós tem amor e tem ódio sempre. Eles moram juntos. Mas é você quem escolhe quem manda na casa. Não adianta varrer poeira para debaixo do tapete. A gente tem de limpar o chão, esfregar a craca, lavar a sujeira e tirar o lixo para fora. Está aí um maravilhoso exercício de amor. E não há ódio que resista a gente que ama com força. Não há ódio que crie asa quando o amor é quem manda na casa!

Nota: A imagem de capa é da artista plástica sorocabana Daiane Oliveira, conhecida no meio artístico como Dah Fiore.

Perca a razão, recupere os sentidos

Perca a razão, recupere os sentidos

“A vida não é violino e rosas” essa frase constantemente repetida no curso de formação em Gestalt-terapia martela em minha cabeça e decido usá-la como uma espécie de mantra para lembrar que nem tudo que existe é belo ou justo, que nem tudo faz sentido. Justiça é um conceito inventado, criado, produzido e reproduzido pelo homem e para aquilo que não conseguimos explicar, um Deus. Mas, para aqueles que já viveram o suficiente e sofreram, para todas as perdas e todos os ganhos sabemos: a vida não é justa.

Game of Thrones me fascina, pois traz muito dos conceitos da Gestalt-terapia. A verdade é mostrada sem piedade, como ela é. Cada episódio nos lembra da máxima gestáltica citada acima: a vida não é violino e rosas. A justiça é cega, é falha, é unilateral, é relativa, é humana, é desumana. Ninguém é  mocinho nem vilão.

Game of Thrones é a verdade jogada na cara, sem rodeios ou floreios, nos lembrando que a verdade sempre é amoral, antiética, visceral. A cada episódio erramos ao tentar fazer sentido do que não faz sentido, aguardando fechamentos que talvez nunca venham a surgir, pois não são eles que importam, o que importa é a jornada.

E nossa tragédia em vida real não é diferente da que vivem os personagens da série: reféns da própria racionalidade, tentamos em vão buscar um sentido para tudo que vivemos ou fechar um ciclo que não tem fim.

O que importa é a jornada.

No cerne de tudo que não faz sentido existe nosso cérebro dando “loops” infinitos, incansavelmente tentando fazer conexões dos acontecimentos, dar sentido aos fatos, querendo completar o que falta. Sim, biologicamente ele é programado para isso. É preciso um esforço para deixar de lado a razão. Perca a razão.

A vida não é violino e rosas.

A falta faz parte da jornada e não tem Deus que nos console, não há amor, dinheiro, sucesso que preencha esse vazio existencial que é parte essencial do que somos. O encantamento da série vem justamente daí, ela repete na ficção a tragédia da vida real: uma jornada torta, bruta, esse vazio dilacerante dos ciclos que não fecham, do sentido que não encontramos, de tudo aquilo que não conseguimos nomear, que sentimos e não conseguimos validar, necessidades não atendidas ou mal atendidas, os jogos de ego, em vão buscamos refúgio na razão. A vida não nos devolve com razão ou sentido, ela é apenas feita de escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas que levam a escolhas. E na falta do sentido transborda o melhor de nós: nossas sensações e sentimentos. Recupere os sentidos.

O título do sétimo episódio da sexta temporada, “O homem quebrado”, nos convida a lembrar exatamente do que somos, quebrados. Nas escolhas feitas por Arya que a deixam ferida, na força do ódio que mantém Santor Clegane vivo, no castigo divino que não vem, na justiça que falha. “Não busque justiça, busque vingança” é o conselho que a irmã de Theon Greyjoy lhe dá.  Não busque justiça, não busque a razão; busque vingança, busque sentir. A vida existe para ser sentida, não para fazer sentido.

A vida não é violino e rosas e o sentido dela é algo tão pessoal que não deve ser compartilhado muito menos julgado. Mas, para aqueles que o buscam um sentido, para aqueles que querem senti-la, um conselho: é preciso estar disposto a desconstruir crenças e mitos e entender que as coisas são apenas como elas são, nem tudo faz sentido, nem sempre há razão. O que importa é a jornada. Finalizando esse texto, repito as palavras de Fritz Perls, o grande intuitivo da Gestalt-terapia: “perca a razão, recupere os sentidos”.

12 segredos das pessoas realmente persuasivas

12 segredos das pessoas realmente persuasivas

A persuasão é uma das estratégias mais antigas e poderosas de comunicação. Trata-se de uma habilidade que certas pessoas têm de convencer alguém ou um público a adotar suas ideias, regras e opiniões.

Pessoas altamente persuasivas são objetivas, costumam saber exatamente aquilo que querem. Suas atitudes são firmes, coesas e espontâneas; seu comportamento é, em geral, eloquente, perspicaz e incisivo.

É importante frisar que persuasão não é manipulação, como muitos associam. Manipular é coagir; forçar alguém a agir contra sua vontade. Persuadir é convencer uma pessoa a fazer algo que, anteriormente, não era de seu interesse.

Persuasão não é apenas ciência, mas também uma arte e, como tal, pode ser ensinada, mas nem sempre executada.

Algumas pessoas altamente persuasivas nem se dão conta de que têm essa incrível habilidade e, por isso, não a ensinam aos outros.

Indivíduos altamente persuasivos costumam ser oradores eficazes. Mas falar bem em público não é uma habilidade permanente que se aprende uma vez para nunca mais esquecer. A influência do ambiente, as condições físicas e emocionais do orador e a pressão do público são fatores que variam, e muito. Alguém pode se mostrar extremamente confiante e seguro em uma palestra, por exemplo, ou em qualquer apresentação para um grande número de pessoas, mas, em outra oportunidade, pode cair em desespero e se perder completamente. Claro, existem muitas pessoas que dominam a arte da persuasão por décadas e décadas a fio: isso é resultado de muita prática.

Pessoas persuasivas usam de seu poder de argumentação e sua fluência comunicativa para chamar a atenção e conquistar o respeito de uma audiência. Essas pessoas sabem empregar palavras-chave impactantes e frases de efeito que expressam um conteúdo relevante, coerente e fácil de entender.

É fascinante a maneira como indivíduos persuasivos usam de seu carisma para fazer com que os outros sigam suas orientações, e é igualmente fascinante como as pessoas estão dispostas a fazer o que eles pedem, como se a própria persuasão fosse um favor que tivessem de retribuir.

A seguir, saiba quais são os 12 segredos compartilhados por pessoas realmente persuasivas:

1. Elas conhecem seu público

Pessoas persuasivas conhecem muito bem o seu público, e usam desse conhecimento para falar na linguagem do povo. Elas personalizam a mensagem, e estudam as preferências daqueles para com quem estão falando. Quer se trate de enfraquecer sua assertividade quando é um público mais tímido, quer use de veemência para responder a uma audiência mais enérgica, as pessoas persuasivas sabem que cada indivíduo é diferente um do outro, e por isso elas se adaptam rapidamente a essas diferenças de comportamento para poder apresentar um ponto de vista que seja bem compreendido por todos.

2. Elas passam uma boa primeira impressão

As pessoas realmente persuasivas sabem que passar uma boa primeira impressão é crucial e decisivo, uma vez que os outros farão um julgamento sobre elas dentro de alguns segundos após conhecê-las. Ver é tão ou mais impactante do que ouvir. Em geral, as pessoas persuasivas se vestem adequadamente, motivam-se frequentemente e trabalham cuidadosamente sua autoimagem para mostrar o seu melhor em cada encontro.

3. Elas criam conexões

É necessário haver uma conexão emocional, ou, no mínimo, um vínculo de reconhecimento para que uma pessoa acredite em suas ideias e considerações. Mais importante do que uma opinião é a pessoa que está por trás dela. Independentemente do poder e da validez dos seus argumentos, e por mais convincentes que possam parecer, as pessoas realmente persuasivas sabem que, antes de mais nada, é essencial criar algum senso de identificação com o outro, nem que seja à distância.

4. Elas têm uma forte linguagem corporal

O corpo é uma ferramenta de comunicação complexa e, para efeitos de persuasão, serve como força motriz na transmissão de uma informação significativa. Pessoas altamente persuasivas parecem decentes, usam um tom de voz entusiasmado, descruzam os braços, mantêm contato visual e, vez ou outra, articulam seus braços e pernas de forma teatral. Dessa forma, elas são vistas como confiantes, vigorosas e seguras não só de si mesmas, mas também daquilo que falam.

5. Elas ouvem

Assim como escritores devem ler para escrever, pessoas persuasivas precisam antes ouvir para poder falar. E da mesma forma que um texto relativamente longo cansa os leitores, um falatório interminável perturba a paciência dos ouvintes. Pessoas persuasivas não forçam a barra; elas sabem exatamente quando podem se posicionar para falar, e o mais importante, quando devem ficar em silêncio para ouvir.

 

6. Elas não são insistentes

Pessoas persuasivas transmitem suas ideias com sensatez, dinamismo e confiança, sem serem agressivas ou insistentes durante o processo. Seus argumentos costumam ser lógicos, ordenados e arregimentados de sentido. Essas pessoas não exigem complexidade de raciocínio por parte dos outros; elas apenas pensam no que falam antes de falar, e acabam sendo facilmente compreendidas.

7. Elas desenvolvem sua inteligência emocional

As pessoas realmente persuasivas sabem como controlar suas emoções, na maioria das vezes. Elas mantêm a calma e não se envolvem no drama quando as coisas não acontecem como o esperado. Elas tentam permanecer firmes e estáveis, inclusive naquelas situações em que ocorrem invasões imprevisíveis de sentimentos aflitivos ou estressantes. Assim, essas pessoas se mostram sempre mais confiantes e pacíficas do que seu verdadeiro estado emocional lhes indica.

8. Elas são curiosas e inquisitivas

Pessoas persuasivas não chegam com todas as respostas, mas estão preparadas para fazer todas as perguntas. O dom de ser curioso é que se pode aprender mais do que já sabe. Conhecimento é poder.

9. Elas sabem contar uma boa história

Normalmente, estamos mais dispostos a comprar uma ideia se tivermos uma visão convincente do que está sendo vendido, e se houver um contexto histórico envolvente. As pessoas realmente persuasivas trabalham seu senso de imaginação e inventividade para construir boas histórias: elas sabem criar narrativas poderosas e desenvolver personagens icônicos que cativam seu público de interesse.

10. Elas chamam os outros pelo nome

As pessoas persuasivas fazem questão de chamar os outros diretamente pelo nome. Elas se esforçam para lembrar disso e, caso se esqueçam, não hesitam em perguntar uma segunda vez. O nome é uma parte fundamental da identidade de alguém, razão pela qual todos gostam de ser lembrados dessa forma.

11. Elas sorriem

Pessoas persuasivas sorriem com frequência, pois elas têm convicção genuína e entusiasmo para com suas ideias. Com um belo sorriso, elas irradiam confiança, alegria e solenidade. Enquanto tentam convencer ou apenas transmitir sua mensagem, as pessoas persuasivas buscam fazer os outros se sentirem melhor. E são consideradas por isso.

12. Elas promovem satisfação alheia

Mais do que persuadir alguém, pessoas persuasivas fazem sacrifícios em prol dos outros. Em geral, elas promovem satisfação alheia, porque sabem que solidariedade e generosidade conquistam as pessoas em longo prazo. Essas pessoas acreditam que é melhor ser admirado do que estar certo.

Veja também: Os 6 Princípios da Persuasão

As sombras que carregamos do Malleus Maleficarum

As sombras que carregamos do Malleus Maleficarum

“Todas as malignidades são pouca coisa em comparação com a de uma mulher (…). São Mateus, XIX: Que outra coisa é uma mulher, senão um inimigo da amizade, um castigo inevitável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um deleitável detrimento, um mal da natureza pintado com alegres cores!

Portanto, se é um pecado divorciar-se dela quando deveria mantê-la, é na verdade uma tortura necessária. Pois ou bem cometemos adultério ao nos divorciar, ou devemos suportar uma luta quotidiana. Em seu segundo livro A Retórica, Cícero diz: “Os muitos apetites dos homens levam-no a um pecado, mas o único apetite das mulheres as conduz a todos os pecados, pois a raiz de todos os vícios femininos é a avareza”.

E Séneca diz em suas Tragédias: “Uma mulher ama ou odeia; não há uma terceira alternativa. E as lágrimas de uma mulher é um engano, pois podem brotar de uma pena verdadeira, ou ser uma armadilha. Quando uma mulher pensa sozinha, pensa o mal”.” – KRAMER & SPRENGER (MalleusMaleficarum)

Antes que o terror das grandes guerras molestasse a toda a humanidade, foram as mulheres o principal alvo de uma guerra que poderia dizer-se mundial, mas completamente covarde. Seus inimigos tinham armas, seus inimigos tinham exércitos, seus inimigos tinham a lei e a fidelidade conquistada a ferro e fogo de todos os cidadãos. Literalmente a ferro e fogo, pois houveram tempos nos quais, explicitamente, aos discordantes era o ferro e o fogo que eram destinados na formado de torturas e sentenças de morte.

Elas (as condenadas bruxas, ou mulheres), o que tinham? Pactos com demônios? Poderes mágicos? Que mal tão grande e poderoso era esse incapaz de reagir a pobres mortais?

Eu diria que uma vez a razão perdeu para o delírio violento dos homens, se não fosse capaz de enxergar que a razão continua a lutar e a perder para o delírio violento dos homens, ainda, em pleno século XXI. Eu poderia dizer que a Idade das Trevas foi um passado longínquo, se não fosse capaz de enxergar as trevas por traz das lâmpadas de led, dos faróis dos carros, das telas coloridas em HD.

Eu poderia dizer que estamos avançando, que estamos evoluindo, se assistisse mais a TV do que conversasse com a realidade. O que posso dizer, apesar de todo o silêncio, é que podemos, e devemos evoluir, mas sem negar o horror que nos circunda, sem deixar-nos enganar pelo circo que nos distrai, sem deixar de ter consciência de que os supostos direitos conquistados andam na corda bamba, principalmente quando se trata de efetivá-los.

O Malleus Maleficarum foi a base erudita utilizada para legitimar inúmeros atos de crueldade contra as supostas inimigas, e alguns poucos inimigos, do deus católico. Quanta massa cinzenta jogada ao lixo para elaboração de um instrumento que, em termos de construção escrita e potencial de convencimento pode ser considerado genial, mas em termos humanos e pelos seus desdobramentos é uma mancha negra na história da humanidade.

O terror e a violência sofrida pelas pessoas que estavam na mira desse instrumento de extermínio e opressão está registrado em livros de história e na ficção como páginas antigas de um momento vivido. No entanto, as sobras desse extremo da humanidade deixaram rastros pegajosos nos quais ainda escorregamos e nos acidentamos diariamente.

Para o Malleus Maleficarum, todas as mulheres eram bruxas em potencial, com exceção daquelas que apresentavam determinadas características de santidade (tipo “bela, recatada e do lar”). Em uma visão ingênua, este poderia ser considerado apenas um instrumento em favor de uma religião poderosa em um momento específico da história.

Mas, não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, religião e política eram lados de uma mesma moeda, isso de uma forma assumida e legitimada. Ainda temos em algumas sociedades essa conexão institucionalizada entre estas diferentes esferas, e em outras sociedades temos a conexão veladas entre essas mesmas esferas. Mudam-se os personagens, mudam-se as crenças, mas as vítimas e as atrocidades oriundas dessa aliança preservam traços da mesma natureza.

No Brasil de hoje a caça às bruxas tem ares de guerra fria. Está nas propostas legislativas absurdas que tentam retroceder com os direitos adquiridos pelas mulheres. Está na insegurança de poder andar, se expressar e vivenciar as experiências cotidianas mais banais sem sentir medo. Está na dificuldade em conseguir confiar em uma pessoa do sexo oposto pelo receio da violência que deste pode advir. Está na precariedade de efetivação dos direitos que figuram na constituição e nas leis mais como contos de fadas do que como realidade concreta. Está na hipocrisia de milhões de pessoas que se vestem da fantasia de defensores dos direitos da mulher, mas que diante de uma situação concreta se acovardam em se posicionar, em ajudar, em reagir, pelo medo de serem retalhados junto àquela que foi vítima de uma situação. Não nos enganemos sobre uma suposta evolução do país. O que temos em termos de evolução está mais nos discursos do que na realidade concreta.

A palavra de uma mulher em relação a um crime cometido contra si, inclusive de natureza sexual, não vale nada. O crime acontecido entre quatro paredes, de um homem contra uma mulher, ou em qualquer ambiente isolado, na lei tem garantia de proteção e defesa à vítima, na prática exige testemunhas.

Então, precisaremos voltar a ser bruxas para fazer as paredes, os postes, os objetos falarem sobre o crime que contra nós é cometido, para que a justiça cumpra o seu papel. Ou, melhor, poderíamos voltar a ser bruxas para em um lance de mágica fazer a justiça existir para nós e para todos os outros que dela precisarem.

A situação só piora quando se tratam de crimes de natureza subjetiva, de natureza verbal e psicológica.Precisaremos ainda educar as paredes e estes mesmos objetos para que sejam capazes de explicar à ignorância humana porque aquela situação X é criminosa para que estes seres sejam capazes de cumprir ao texto sobre o qual se baseiam os seus trabalhos públicos remunerados a partir dos nossos muitos impostos.

A qualquer um que deseje enxergar essa realidade, basta considerar o quanto é mais difícil efetivar uma denúncia dessa natureza do que qualquer outra denúncia. Por acaso, quando alguém registra um crime de furto ou roubo, lhe é solicitado algum documento comprovando que o objeto que ele relata ter sido roubado existia? Pedem-se testemunhas que presenciaram o acontecido? É necessário comprovar que o objeto lhe pertencia?

Ele é questionado sobre a relação com o ladrão, sobre a roupa que estava usando, sobre ter facilitado o crime, sobre porque estava passando naquela rua, naquele horário, devendo saber que passar por qualquer rua, em qualquer horário, portando objetos de valor é fator facilitador para ser vítima de um crime de roubo? O que é colocado em dúvida neste caso? A sociedade irá lhe julgar por ter sido vítima de roubo caso este exponha sua indignação publicamente? O autor do roubo, caso identificado, receberá alguma acolhida social por ter problemas mentais ou por não conseguir controlar seus impulsos, porque isso é da sua natureza?

Os crimes cometidos contra as mulheres conquistaram uma lei, conquistaram um texto, conquistaram um status penal, mas não conquistaram as condições para sua efetivação, compreensão e aceitação social dessas situações enquanto criminosas. Isso é verdade particularmente quando esse tipo de crime é de natureza institucional, isto é, envolvendo elementos relacionados aos ambientes de trabalho e educação. Temos ainda a religião continuando a interferir nas decisões políticas, o que apenas faz crescer as dificuldades para que essas conquistas saiam do papel, ou até mesmo para que permaneçam no papel.

Aos que passam a conhecer a realidade de uma situação de violência dessa natureza resta o medo, a desconfiança, a impossibilidade de acreditar que aquilo que uma pessoa do sexo oposto demonstra ser seja de fato o que ela é. As relações mais básicas e naturais que podem se estabelecer entre seres humanos civilizados enfrenta a barreira da dúvida sobre a idoneidade do outro, pois somos obrigados a lidar com uma cultura em que “a ocasião faz o ladrão”.

Cultura que compreende a hipocrisia do silêncio diante da realidade em contraste com a manifestação histérica de supostas atitudes nas redes sociais e conversas informais. Cultura de cultuar atitudes que somos incapazes de colocar em prática. Cultura nenhuma, isso não é cultura, é uma doença social. Uma espécie de paralisia. Aos amigos e simpatizantes das bruxas, cabe se manifestarem discretamente para não serem arrastados e queimados na fogueira junto a elas. E quem poderia culpa-los por isso? Quem deveria pagar de herói para ter sua vida, sua carreira, o seu futuro comprometido por uma atitude correta ou pela luta por conseguir fazer efetivar um direito supostamente garantido?

De obstáculos dessa natureza sofrem todas as minorias. Todas as minorias são bruxos e bruxas sendo caçados sorrateiramente pela esquizofrênica estrutura social e moral que predomina, mesmo que esta não possua uma maioria de adeptos no íntimo: muitos apenas temem a fogueira. Apesar dessa realidade gritante, querem nos convencer de que está tudo bem, de que estamos no caminho, de que as coisas estão melhores.

Não, uma suposta evolução precária não deve nos confortar. Nós apenas não enxergamos com clareza o que está ao nosso redor, pelo excesso de informações conflitantes, pelo excesso de leis que nos convencem por seu texto, mas não nos convencem por sua atuação – mas quem tem conhecimento sobre a sua atuação? -, pelo desconhecimento oriundo do silêncio imposto, das censuras que condenam à exposição e ao isolamento aqueles que se manifestam.

Posso parecer pessimista ao expor dessa forma a situação, mas não é uma questão de pessimismo. Assumir uma realidade ruim, por pior que ela seja, é melhor do que se iludir. Apenas se conseguirmos enxergar o quanto algo está deteriorado temos a chance de saber por onde podemos começar a recuperá-lo, a encaminhá-lo para uma evolução de fato. Nada evolui em um estado de podridão, de doença avançada e progressiva. Nós não evoluímos de fato, a sujeira está embaixo dos tapetes. O que precisamos é começar a expor essa sujeira, a tomar atitude, a mudar de postura, a parar de “postar” e começar a tomar decisões mais coerentes nas situações cotidianas.

Não é preciso fazer parte de um grupo, de um coletivo, ou de uma associação para fazer a diferença. Basta agir de forma consistente a cada pequena situação que nos apareça, que nos exija uma postura, uma decisão. Basta fazer isso com um pouco mais de razão, e com menos hipocrisia. É claro que precisamos nos preservar, é claro que precisamos pensar bem antes de agir. Mas precisamos agir e assumir as nossas dificuldades diante dessas ações: para superá-las.

É irônico, mas é como é, que por vezes tentar fazer efetivar um direito, inclusive no que se refere aos direitos das mulheres, é se expor-se a riscos diversos. É correr o risco de ficar manchado. É correr o risco de tornar-se alvo. Não é simples, não é fácil, não é seguro. Cabe a cada um questionar se quer fazer parte daqueles que assumem uma postura coerente com seus pensamentos e posicionamentos, ou se querem se calar e conviver com a própria hipocrisia.

Se você pudesse jantar com qualquer pessoa, viva ou morta, quem escolheria?

Se você pudesse jantar com qualquer pessoa, viva ou morta, quem escolheria?

Se você pudesse escolher qualquer pessoa, viva ou morta, com quem pudesse jantar, quem escolheria para dividir a mesa com você?

Pais e filhos responderam a essa pergunta nesse vídeo emocionante.

Depois de um minuto e meio de vídeo você vai inevitavelmente refletir sobre sua resposta!

https://www.youtube.com/watch?v=pLMJ0De1m50

Fonte e legenda: Best Of Web

Texto de Vanelli Doratioto – Alcova Moderna

Fotógrafo retrata casais gays ao redor do mundo

Fotógrafo retrata casais gays ao redor do mundo

Relacionamentos homossexuais ainda são um tabu na grande maioria dos países, senão em todos eles. Seja por intolerância, ignorância, preconceito ou ódio, as comunidades LGBT, em geral, sofrem represálias recorrentes de pessoas heterossexuais, em sua maioria, que se consideram fora do desvio da normalidade. Isso não tem cabimento.

Achar-se superior a alguém ou considerar o outro inferior por uma escolha sexual é assinar um tratado de estupidez. De fato, a hipocrisia que acompanha uma atitude de discriminação em reação a gays e lésbicas é tão factual quanto deplorável.

Embora muitas pessoas não assumam a verdade do ódio que sentem por indivíduos homossexuais, no fundo, elas sabem que sua raiva é autoperpetuada.

Mesmo aqueles que aceitam a diversidade sexual como um importante passo para uma vida mais civilizada, ao menos uma vez já duvidaram, ou suspeitaram, desse respeito. Entretanto, há de se concordar que um certo nível de preconceito é praticado por todos nós, independentemente do senso de humanidade e entendimento da sexualidade que se possa ter. Ninguém está totalmente imune à discriminação, seja ela qual for.

Muitas vezes, heterossexuais se sentem desrespeitados ou invadidos quando são abordados por homossexuais, como se tal abordagem, inocente ou não, fosse uma afronta à sua própria sexualidade. Na verdade, os heterossexuais temem ser tratados da mesma forma que costumam tratar as mulheres, em outra dimensão.

Projeto All Love Is Equal

O confronto entre homossexuais e heterossexuais é antigo, e sempre será tema de discussões ferrenhas. Por outro lado, esse é um assunto que incentiva a criação de inúmeros projetos sociais, como, por exemplo, o do fotógrafo americano Braden Summers, que viajou ao redor do mundo para produzir uma bela série de fotos, as quais representam cenas românticas exclusivamente de casais homossexuais.

Esse projeto é intitulado All Love Is Equal (‘Todo Amor é Igual’), e mostra ao público um retrato não estereotipado de casais gays em situações românticas emblemáticas.

As fotografias foram feitas durante um período de seis semanas, em seis países diferentes: EUA, Brasil, França, Inglaterra, Índia e Líbano.

Quando pensamos na imagem de um romance icônico, dificilmente vêm à mente algo que não esteja mostrando um casal heterossexual. Em contrariedade a esta associação evidente, Braden Summers, um gay assumido, montou este projeto fotográfico elogiável. De acordo com ele:

“Uma grande força motriz por trás da criação desta série foi menos sobre afetar a comunidade gay diretamente, e mais sobre dar a população em geral uma forma de se relacionar com o imaginário gay que é desprovido de sexo, vitimização e banalidade: temas que impedem algumas pessoas de se conectarem.”

Segundo o fotógrafo, essas fotos não são documentações, mas sim ilustrações de sonhos e expressões abertas de amor em diferentes culturas, as quais poderão ser, futuramente, mais fáceis de aceitar.

Modelos personalizados da cada país foram retratados nas fotografias, na maioria dos casos, apenas para garantir a segurança dos membros LGBT reais.

Summers está ansioso para continuar o projeto, e viajar ao redor do mundo a fim de expandir nossa compreensão da beleza e da diversidade do amor.

Felizmente, esse trabalho de Summers serve para promover uma perspectiva mais íntima e humana sobre uma questão que tem adeptos irritados e apaixonados de ambos os lados, no mundo todo.

O projeto All Love Is Equal nos lembra que devemos amar o próximo, independentemente de estarmos de acordo com suas escolhas sexuais. Veja então:

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A carta que eu nunca mandei.

A carta que eu nunca mandei.

Tem dias que você é tão presente em mim… São dias bem difíceis, doloridos e largos. Dias como hoje. E sempre que isso acontece eu penso em te escrever. Penso em tudo que gostaria de te dizer, em tudo aquilo que ficou pra ser dito num dia que não chegou. Ou chegou e deixei passar.

Mas não escrevo. Você não iria querer saber tudo que existe aqui. Você nunca teve vocação pra ouvir coisas que mexem e doem em você mesmo. E você, me conhecendo tão bem, sabe como respeito as escolhas alheias.

Mas eu queria muito que você soubesse que meu amor ainda é seu. Sempre foi.

Que meu jeito de amar é meio errado, meio torto e um tanto quanto confuso. Que meto os pés pelas mãos e faço tudo errado, mas que apesar de tudo, sempre te ofereci o que de melhor existia aqui dentro.

Queria que soubesse que sinto muito pelos meus erros. Hoje no futuro, sei onde errei, e sei também como a maturidade ou a falta dela interferiu entre nós.

Eu nunca te disse, mas ainda não me desfiz de tudo seu que ainda existe aqui… Seja lembranças ou alianças, seu sorriso ou seus chinelos, seu perfume ou moletom, e tudo mais que você deixou aqui e em mim… Tudo tão presente quanto você.

Preciso me desfazer de tudo isso, sei bem, mas sempre que me disponho e pego cada uma dessas coisas eu volto a colocá-las no lugar de onde tirei, porque joga-las fora seria perder uma parte de você que ainda existe aqui. E não estou disposta a isso, pelo menos agora. É que nunca gostei de alguém assim. Você despertou o melhor em mim, e sem saber, me fez mais mulher que nunca.

Queria que soubesse que sei o quanto fui covarde cada vez que nos reencontramos. Cada vez que me calei com tantas coisas que eu queria e precisava te dizer. Cada vez que te procurava e emudecia quando precisava falar e falava quando o silêncio era essencial.

Queria que soubesse que tudo que fiz quando nos deixamos, foi pra chamar sua atenção de uma vez por todas e te fazer ter medo de me perder. Mas você não teve. Ou teve e não disse nada. E eu então segui, ou pelo menos tentei. E falhei.

Queria que soubesse como qualquer pessoa que convivi não se compara a você, e que todas as vezes que disse amar alguém era pra me fazer acreditar nesse confusão toda. Menti pra mim mesmo esse tempo todo, afinal, não se tapa o sol com peneira. Hoje, depois de muito queimar, aprendi isso.

Como eu queria que soubesse o quanto eu desejei que ficássemos juntos e continuássemos nossa história… Porque dentro de nós ela ainda existe e é tão presente quanto as memórias.

O grande problema é que somos iguais demais, orgulhosos demais, complicados demais. Perdemos tempo, muito tempo fazendo coisas pequenas, se tornarem enormes. Temos a mania de complicar quando podemos simplificar.

Perdemos tempo afirmando não dar certo, mesmo sem nunca tentar. Achamos mais fácil assim… E seguimos. Cada um como pode, cada qual como consegue. Eu sigo com uma asa só, a outra ficou com você. Por isso estamos sempre perto, mesmo longe.

Seguimos sabendo que não existirá mais ninguém capaz de preencher o lugar do outro, sabendo que não seremos felizes com mais ninguém depois de ter sido tão felizes juntos, sabendo que lá na frente olharemos pra trás e sentiremos que algo ficou. Uma parte de nós ficou. Sempre ficará.

Então volta. Puxa a cadeira e senta sem pressa. Abre o coração, acalma a mente e vamos conversar.

Não posso te garantir que dê tudo certo porque a vida não é feita de garantias, alias, nada é garantido por aqui. O que posso te dar é a certeza do amor que existe em mim, a certeza da sua falta todos os dias, a certeza de que o pior nós já vivemos e que tentarei, enfim, ser o melhor que puder pra que a gente se ajeite.

O teste final já foi feito, o martelo foi batido. O sentimento resistiu ao tempo, às angustias e decepções. Ameniza quando longe, mas basta o reencontro pra que tudo volte.

Eu nunca entendi esse medo todo de nós dois, mas espero que esse tempo longe nos amadureça cada vez mais, e seja, na melhor das hipóteses, uma forma que a vida arrumou de nos mostrar o quanto nos fazemos falta. Por que foi nesse tempo que me dei conta de como amo voce.

Espero que nossa história dure bem mais que isso, e que essa parte seja só uma tempestade que iremos lembrar e rir entre um gole e outro de cerveja juntos, enquanto nossos filhos brincam pela casa.

Eu aceito o seu não, respeito seu direito. Se é essa a sua decisão.

Mas me diz, se isso não é amor o que é então. Me diz. E, sendo assim, te deixo ir. Pra sempre.

Mexa-se! A vida não tolera inércia!

Mexa-se! A vida não tolera inércia!

Espere sentado para não cansar! Quantas vezes já ouvimos essa expressão, ou a dissemos, na intenção de afirmar que nada iria mudar.

E é desse jeito a vida. Esperar sentado não leva ninguém a lugar algum. A vida só responde a ações! De outra forma, ela deixa claro que nada vai mudar, que a única alternativa é sentar e aceitar.

Ação! Se a gente quer a vida tome outra direção, se quer mudar, virar do avesso, contrariar o que se costuma chamar de azar, a resposta está em cada movimento que fazemos na direção desejada. Pequenos, gigantes, rápidos, homeopáticos, agressivos, tímidos… Sejam quais e como forem, são os movimentos que fazem a roda girar.

Mudar de calçada, corte do cabelo, mensagem pessoal, respostas habituais… Tudo é ação e em seguida, virão as reações.

Se o tédio invade a vida e tudo torna-se mais do mesmo, somente uma guinada no ritmo monocórdio será capaz de alterar esse cenário.

Aquele telefonema que era para ser feito há tempos atrás, a pendência de uma promessa ainda não cumprida nem justificada, o conserto da fechadura, os tecidos novos para cortinas… Se a gente não faz, não tem resultado. A inércia paralisa, empoeira e mofa nossas determinações.

Em sentido contrário e em alta velocidade desfilam as respostas da vida a quem se propõe tentar, arriscar, errar, retomar, perguntar, se virar.

A vida gosta de quem anda com ela, sem preguiça, sem medo, sem hesitação. Ou até, ainda com tudo isso, mas sem se entregar à paralisia.

Um cumprimento recebe outro de volta.
Uma tentativa, a resposta possível.
Uma aventura, as emoções correspondentes.
Uma aproximação, o calor do momento.

A vida não deixa quem se mexe sem resposta.
Ainda que não seja a resposta sonhada, num próximo movimento será possível entender o porquê, e assim por diante, numa dança de ritmo individual e contínuo.

Faça o amor viver mais. Morra de rir com quem você ama.

Faça o amor viver mais. Morra de rir com quem você ama.

Sabe o que é? De repente o mundo fica sisudo demais. Carrancudo, sombrio, taciturno, macambúzio. Mergulha numa escuridão danada. Não é sem razão, não. Cada coisa que acontece! Tanta maldade que ninguém aguenta. É mau humor em todo canto. Agora mesmo as coisas andam assim. A gente entende, aceita.

Mas ainda agorinha, do nada, ouvi aqui perto alguém rindo gostoso que só. Imagine uma gargalhada incontrolável, imperiosa, irresistível. Dessas que rasgam o silêncio da noite e acendem uma coisa aqui dentro da gente. Risada franca, absoluta. E não veio de uma pessoa só. Foi risada de duas bocas, alegria de duas almas juntas. Não posso garantir, mas tenho uma quase certeza mansa que me faz bem: isso é um casal morrendo de rir juntos!

Fico aqui imaginando o que foi que fez essa gente cair assim no riso. Foi uma piada? Não pode ser. Piadas provocam um tipo previsível de reação. A gente já sabe que vem um chiste e vai ensaiando uma risada. Ela sai tranquila, estável. Não foi o caso. O que eu ouvi foi uma explosão de graça! Um estouro de alegria a dois. Nem a piada mais engraçada do mundo seria capaz de provocar esse efeito. Eu não tenho mais dúvida! Foi um casal rachando o bico um com o outro. Cúmplices, aliados, parceiros implicados numa traquinagem qualquer.

Será que assistiam juntos a uma série na TV e o protagonista foi capaz de um momento luminoso, uma frase perfeita, um gesto imprevisto, uma sacada que pegou a audiência de surpresa e quase os matou de rir?

Teria um dos dois disparado um comentário maldoso sobre um desafeto do casal e provocado a risada do outro.

Talvez o estrado da cama tenha quebrado na hora mais tórrida do amor e o orgasmo tenha sido uma descarga incomparável de gozo e riso!

Nada disso. Foi uma lembrança! Sim, uma recordação antiga e engraçada da vida em comum que mexeu com eles lá dentro, provocou associações com seus dias de hoje e arrancou de suas tripas uma risada colossal. Será que foi isso mesmo?

Talvez tenha uma terceira pessoa na cena. Um bebê que começa a fazer gracinhas, morder o próprio pé, imitar motor de carro com a boca. Quem sabe essa criança, na hora do jantar, cuspiu a comida, atirou a colherzinha longe e ela acertou a cara do cachorro que passou a lamber o focinho, desesperado com o sabor diferente, os bigodes lambuzados de papinha. Afogueado, o cão disparou a correr pela casa, bagunçou o tapete, provocou no bebê uma vontade louca de virar a papinha sobre a própria cabeça. Tudo assim, tão inesperado e tão bonito, que os pais da criança caíram na gargalhada.

Ou quem sabe seja um casal sem filhos, sem grandes perspectivas, discutindo a relação. De repente, um deles levanta mal humorado e escorrega de bunda no chão. O outro gargalha mais de nervoso que de graça. E os dois deslizam juntos numa risada enlouquecida de perder o fôlego. Até que um pergunta ao outro: “do que é que a gente falava mesmo?”, e os dois decidem fazer pipoca e assistir a um filme bobo no sofá, até dormirem cansados da lida, restabelecidos, reatados. Amantes, amados. Felizes.

Tudo isso eu imagino aqui comigo, a risada desses desconhecidos ecoando dentro de mim, fazendo feliz também este homem sozinho do sexto andar. Sabe Deus por que motivo eles riram de repente, riram com força e com graça. Por quê?

Verdade é que isso não faz a menor diferença. Mas eu torço por eles, com eles, para eles. Torço para que seja o riso de um casal que se ama, que tem problemas como qualquer pessoa mas que faz de tudo um pouco para resolvê-los. Um casal que se quer, se respeita, se ajuda, se estima. Um casal que vive bem. E que assim, do nada, de vez em quando, morre de rir juntos e faz o amor viver mais.

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