Cuide do seu jardim de amor e ilusão com as próprias mãos.

Cuide do seu jardim de amor e ilusão com as próprias mãos.

Quem nunca sofreu por se encantar com alguém, por alimentar expectativas, cultivar sonhos, alimentar uma estória que coloca mais sentido nos dias e então perceber que esse olhar de encantamento é unilateral?

Acho que todos já sofremos, pelo menos uma vez na vida, por uma paixão não recíproca. Deixamos nosso sentimento voar longe, se perder de vista, e de repente, lá das alturas, abrimos um pouco os olhos e nos damos conta que estamos sozinhos: voando com as próprias pernas, dando asas a nossa própria imaginação.

A gente pode não perceber, mas se o amor nasceu é porque havia vontade, ímpeto, terra fértil nos terrenos do coração. Era tão fértil a vontade de amar que as sementes todas brotaram mal caíram em terra, mal passaram pelos pensamentos. Era primavera dentro de nós e ela crescia independente, sem perguntar se o objeto de nosso encantamento estava também na mesma estação, se também iria entrar na dança.

Para a primavera, um olhar de soslaio é como chuva farta, uma meia conversa é sol acolhedor, cheio de luz boa, um gesto de amizade é o pipocar de flores coloridas nas árvores verdes.

Mas acontece, por vezes, da gente perceber que o ser-objeto de nosso encantamento não vai mergulhar no nosso jardim. Que ele está lá com seu olhar de inverno, com seus passos e sonhos em outras direções, com o coração já cheio ou num momento infértil e com os pensamentos morando longe.

E a gente não entende, como pode?! Como pode ele/ela não participar dessa festa de cores, aromas e sabores, se foi justo de seu sorriso que germinou uma semente? Se dele nasceu-me um mundo?

E a gente fica triste porque a gente quer compartilhar nossa florada, nossos arranjos, nossos buquês.

A gente se frustra e fica bravo e culpa o outro e se sente desperdiçado e desperdiçando belezas e a gente começa a pensar que o ser amado é um bruxo, irresponsável, mal, insensível, mentiroso, inconsequente, cego, etc, etc…

Aí a nossa razão nos diz para sermos menos ridículos e matarmos logo esse jardim proibido, tascarmos fogo nos doces pensamentos, abortarmos as sementes de esperança e ignorarmos os desejos maduros.

Afinal, amar sem cumprir expectativas é suicídio, não é mesmo?

Não, não acho!

Acho que se estou assim amando, solitária, voando em meus próprios sonhos, eu posso também escolher me responsabilizar por eles, eu posso escolher manter a minha primavera, regar as minhas próprias flores, deixar que me povoem e que cresçam selvagens e fortes até onde quiserem e puderem.

Eu posso perceber que o amor é todo meu e agradecer ao mundo. Eu posso sentir a serenidade bela do meu próprio jardim de ilusões. Afinal, ele é todo meu, nasceu e cresceu aqui.

Que ele fique enquanto houver sol e que acabe quando sentir que mudaram as estações.

Pode demorar, mas quando eu digo chega, é para nunca mais

Pode demorar, mas quando eu digo chega, é para nunca mais

Por mais que amemos, por mais que nos dediquemos e alimentemos esperanças em relação aos nossos relacionamentos, por mais que queiramos, nem sempre o outro está disposto a oferecer retorno. Ou tentamos então manter uma relação unilateral, que pende somente sobre nossas cabeças, ou tomamos fôlego e percebemos que chega de sermos tontos.

Não é fácil termos a noção exata de quando estamos embarcando em um barco furado, quando já fizemos tudo o que estava a nosso alcance, sem resultados consistentes. Da mesma forma, podemos nos enganar quanto às reais intenções do parceiro, caso sejamos o tipo de pessoa que espera demais, além da conta, sem prestar atenção no que o outro tem para dar.

Muitas vezes, idealizamos um romance açucarado, esperamos que o outro corresponda àquilo que queremos, da forma como desejamos. No entanto, cada um tem a sua maneira própria de se expressar e de se importar, ou seja, muitas vezes o parceiro não corresponderá de forma fidedigna às expectativas que criamos e nem sempre isso quer dizer que ele não nos ama.

No entanto, quando prestamos a atenção devida e refletimos com sobriedade acerca da forma como o nosso relacionamento vem sendo construído, teremos, sim, a resposta aos nossos questionamentos, por mais dolorosa que seja. No fundo, sabemos bem se estamos recebendo amor verdadeiro, se estamos vivendo a troca, a partilha, a soma de que se devem constituir as trocas amorosas.

Infelizmente, muitas pessoas mal percebem que o parceiro está se despedindo a pouco e pouco, que os olhares deixaram de se cruzar, que as mãos pararam de se procurar, que o coração arrefeceu o ritmo e a intensidade de suas batidas, que o adeus há muito já se instalou. Então, quando se dão conta, o outro já nem estava mais ali ao lado e tomou a decisão de partir, em busca de ares menos densos onde pudesse respirar tranquilo, onde não fosse invisível.

É assim que muitas pessoas se perdem umas das outras, após o sofrimento calado e solitário da única parte que se entregou por inteiro, em vão, por dias, meses, anos. E, quando tomamos a decisão de sair dali, de nos libertarmos daquele vazio que suga e achata a nossa essência, nada mais importará, nada mais nos fará tentar de novo, porque o cansaço então terá varrido qualquer afetividade de dentro de nós. Já não estaremos mais por ali, nem junto, nem perto de fato, apenas distantes o bastante para sobrevivermos longe do terreno arenoso da entrega inútil.

Felizmente, seguiremos prontos para recomeçar, pois estaremos levando conosco a nossa capacidade de amar com verdade, com entrega, de corpo e alma. Ah, o amor então virá, melhor e mais feliz. Amor com volta, que é o amor para uma vida toda.

 

Luto pelo amor que acabou antes de começar

Luto pelo amor que acabou antes de começar

Algum lugar do mundo, 04 de setembro de 2016

Sinto sua falta e está doendo.

Sinto falta do que houve, do que poderia ter sido, sinto mais falta ainda do que não tivemos.

Sinto falta dos cafés que tomamos, das horas que passamos conversando, de como tudo fluía tão bem. Era fácil sorrir ao seu lado.

Sinto falta do seu carinho, do seu abraço e de como me esquecia de tudo quando estava nos seus braços. Sinto mais falta ainda daquele último que nunca me foi dado.

Sinto falta do seu cheiro e da sua segurança, quase arrogante, de quem tinha um medo profundo de ser ferido. Do seu sorriso no canto da boca enquanto falava ao seu ouvido.

Sinto falta de quando me ouvia tocar violão encantado. E a tudo gravava, como se o concerto fosse digno de reconhecimento. Como seria bonita a música que nunca te fiz e cantaria no nosso aniversário e, depois, quem sabe, no nosso casamento.

Sinto falta daquele dia quando me disse que já não saberia mais como viver sem mim. E, sua mão, seu olhar e seu coração transbordavam gratidão e amor. Quando me disse que de seu passado nada sobrara e só tinha olhos para o presente. Entretanto, nunca curou-se daquela dor.

Sinto falta do café da manhã que me levou na cama com um bilhete carinhoso e uma flor. E da massagem que ganhei nas costas, despretensiosamente, naquele sábado qualquer. Com cheiro de chuva, bolo e sua pele. Não houve um só dia assim sequer.

Sinto falta das noites em que me ouvia chorando e, pacientemente, esperava que toda a tempestade passasse enquanto alisava meu cabelo dizendo que tudo tinha jeito. E, então, dormíamos abraçados e trocava o sufoco das lágrimas pelo seu peito. Restou-me apenas o travesseiro.

Sinto falta dos nossos planos de viagem, nossa família, nossos filhos e cachorros. Poderia discorrer em infinitos parágrafos como era feliz e linda a história que nunca tivemos. Poderia falar dos desafios que nunca superamos juntos e dos sonhos que nunca vivemos.

Aqui jaz um amor que acabou antes de começar. Aqui jaz a planta que morreu antes de nascer. Aqui enterro somente expectativas. Que descansem em paz. Mas que os sonhos sejam eternos, porém. Pois sonhos são sementes aguardando um terreno fértil que as queira bem.

Nadar para cima

Nadar para cima

Em menos de três meses, Regina viu falirem seu casamento de oito anos, e a empresa onde trabalhou por quase uma década. Encaixotando as coisas que lhe restaram, mesmo sem saber ao certo seu novo endereço, encontrou um livro deixado pelo ex-marido. Encostou-se na janela e começou a pincelar os olhos na história da rainha Himiko.

Com a guerra perdida e a iminência de sua morte pelas mãos dos inimigos, Himiko foi consultada por seus servos sobre o que gostaria de fazer. Himiko pediu que lhe fizessem o cabelo e o adornassem com sua presilha de esmeraldas – Majestade, porque se preocupar com isso agora? Eles vão invadir o palácio! – desesperou-se Yume – É o mais próximo da honra que podemos chegar agora – respondeu a rainha soltando os longos cabelos negros.

“O mais próximo da honra”, repetiu Regina. O que é honra em meio a tanto sofrimento e humilhação? Honra, descobriu Regina, é a sua joia rara que não pode ser ofuscada nem mesmo pela lama. Honra é a verdade silenciosa que vive dentro do seu espírito. Honra é o melhor que a vida lhe ensinou, seu livro sagrado mais íntimo, a verdade sobre quem você é, apesar da dor.

Nade para cima. Enquanto não surge um emprego melhor, coloque flores na sua mesa. Durante a noite silenciosa de insônia, aproveite para organizar os sapatos. Se estiver se sentindo só, bata na porta do vizinho e pergunte que música incrível é aquela que ele está ouvindo. Pergunte-se a cada quinze minutos, “O que eu posso fazer agora para me aproximar da minha própria honra?”. Pergunte-se e responda com um passo elegante, adiante.

Se não há dinheiro para malhar, corra, roube aquela bicicleta que a sua irmã encostou na lavanderia, marque aulas experimentais em quatorze diferentes academias. Se não pode viajar para longe, vá conhecer seu próprio bairro, vá tirar fotos nos prédios mais antigos, seja turista da sua própria cidade. Entre uma foto e outra, pergunte-se, pergunte-se. Quando estiver doendo, quando não conseguir pensar direito, quando você não se lembrar mais quem verdadeiramente é, pergunte-se como pode chegar bem pertinho da sua própria honra. E a resposta será sussurrada no seu coração: “Vivendo…vivendo, Regina”.

Eu só vou gostar de quem gosta de mim

Eu só vou gostar de quem gosta de mim
Scott Pilgrim (MICHAEL CERA) and Ramona Flowers (MARY ELIZABETH WINSTEAD) in the amazing story of one romantic slacker?s quest to power up with love: the action-comedy "Scott Pilgrim vs. the World".

Antes que isso pareça algum discurso construído para separar o joio do trigo, esclareço não ser bem assim. Não é como se tivesse decidido que seria dessa forma sempre. Mas quanto mais se toma conhecimento das friezas e vontades de alguns em impor pontos de vista e sentimentos, fica claro que o melhor caminho a ser trilhado é o da reciprocidade. Não dá mais para estender a mão para quem só quer o corpo inteiro. Não é justo adentrar nas gentilezas de um alguém e, depois, sem mais nem menos, sugar toda a sua entrega e carinho. Já passamos da fase do egoísmo fazer morada quando bem entender. E o papo clichê de “é preciso se colocar no lugar da outra pessoa”, também tem limites.

O respeito é composto por diálogo, paciência e uma troca mútua de sentimentos. Quando essas características são ignoradas por um tipo de joguete primitivo, nada pode ser feito que não seja cortar laços. Em qualquer grau de relacionamento atravessado, o mais importante é ser recebido de braços abertos, e não com o sorriso trincado por conveniência. Ninguém é obrigado a conviver com metades, ou, tampouco, estar rodeado de indivíduos capazes das maiores babaquices usando a desculpa da sinceridade. Gostar não implica um trem desgovernado que colide no primeiro coração encontrado. Ser envolvido por esse sentimento significa, acima de tudo, nutrir felicidade. Ainda que certos momentos de discordâncias ocorram, quem gosta entende não se tratar de uma bobeira desconhecida. É o princípio das relações realmente importantes. É o que antecede aquilo que, lá na frente, fará a diferença entre amar ou não.

Por isso, eu só vou gostar de quem gosta de mim. Só vou perder o sono por quem em algum instante, colocou-se inteira (o) para um abraço, uma conversa ou um sorriso fora de hora. Por quem esteve quando o coração andava meio cambaleante e por quem me incentivou nos dias mais longos. O mundo é repleto de pessoas interessadas num aconchego, mas a verdade é que muitas não estão dispostas a cederem espaço, no caso de precisarem mover uma palha. Para essas, deixo apenas um aceno.

Levei um tombo e uma lição

Levei um tombo e uma lição

O chão é duro de pisar, mais duro ainda de cair, mas acontece sem aviso, preparação, modos ou cabimento. Basta um segundo para a perspectiva ser outra, a mais rasteira possível.

Quando minha filha era pequena e caía, eu costumava bater tantas palmas e exclamar sorrindo, que ela chegava a provocar novos tombos, para repetir as comemorações. Mas, até aí, funcionava bem a coisa de evitar as lágrimas e a mágoa de se expor dessa maneira tão patética. Tanto a bundinha de fralda quanto o abraço da mamãe confortavam a queda e os raladinhos.

Mas a gente cresce e endurece. E cada tombo vai deixando uma marca, uma lembrança, uma cicatriz, um receio. Eu já levei tantos e de tantas formas que nem vergonha sinto mais. Mas dor ainda sinto.

Um tombo pode tirar a gente da concentração, do sério, do prumo, da bobeira. Um tombo pode dar sérios problemas, um leve susto, um gesso, uns dias de folga, um motivo para pensar…

Anteontem levei um tombo e, refazendo a cena, não há dúvidas: Foi literalmente um desabamento. As pernas não aguentaram o peso do coração. Eu vinha jurando que estava ótima e que nada no mundo me abalaria, mas, uma depressãozinha no asfalto, um pé que bambeou, e lá fui eu para o chão, deixando minha dor marcada no piso e carimbada no joelho.

Uma queda rápida e um choro sentido, magoado, saudoso, desamparado. Chorei de dar dó. Mais do que o joelho sangrando, chorei pela distração de não prestar a devida atenção aos sentimentos que me rondavam.

Chorei por ter que aprender mais uma vez que saudade não se reprime, que solidão não se ignora, que tristeza só vai embora quando pode entrar e ficar pelo tempo que precisa para se transformar. Chorei um luto que ainda não havia chorado. O tombo me ensinou!

A dor já se foi, levando com ela toda aquela agonia que estava represada. E, como se agora eu fosse a filha, e de fato sou, ouvi aquela voz dizendo: Passou! Valeu, mãe, agora eu entendi.

A gente se apaixona pela forma que nos tratam

A gente se apaixona pela forma que nos tratam

Num primeiro momento, somos atraídos pela pessoa, em vista de sua aparência, da harmonia entre seus traços, seus gestos, seu sorriso. O belo chama a atenção, em todos os setores de nossas vidas, sejam momentos, sejam objetos, lugares ou pessoas. No entanto, ponto pacífico, a beleza por si só não se sustenta, caso não se acompanhe de essência, daquilo que não vemos, mas é essencial.

Na verdade, o tempo somente deixa que fique em nós aquilo que nos toca o coração e a alma, de uma forma única e especial, e isso não tem nada a ver com roupas de grife, móveis vitorianos ou olhos azuis. Tanto é que, não raro, acabamos achando bonitas, com o passar do tempo, muitas pessoas que de início não nos chamaram a atenção por sua aparência.

Isso porque o amor é uma coisa de dentro, algo que atravessa o que há lá fora, adentrando por entre os poros, instalando-se dentro de nós, sem avisar, sem ser visto a olho nu. Nosso íntimo é assim mesmo, depende de atitudes, daquilo que sentimos, do que nos fazem sentir, para muito além dos olhos. O que nos toca fundo não é manipulado com os dedos, mas com o envolvimento afetivo que paira além das aparências.

O mais importante, nisso tudo, é sabermos com segurança aquilo que procuramos, bem como o que não queremos para nós. Se estivermos conscientes de que não poderemos receber menos do que merecemos, de que temos muito a compartilhar, a dividir, a somar, dificilmente traremos para junto de nós quem só suga, quem mente, quem não retorna nada. É preciso ver além do que os olhos enxergam, para perceber o que o outro tem a oferecer, em termos de verdade, de vontade de ser junto.

Precisamos levar sempre em conta a passagem do tempo, dos anos, que leva embora a rigidez dos músculos, a firmeza da pele, a força da coluna, além de muitos dos sonhos que acabam não se realizando. Porém, e isso não há de se negar, aquilo que for verdadeiro, os sentimentos profundos, a amizade, a cumplicidade e a ternura, isso ninguém nos rouba, nem o tempo, nem a morte.

O amor recíproco e intenso, sustentado além das aparências, resiste e persiste, tornando-nos para sempre vivos nos corações que se uniram com devoção transparente e felicidade sincera. É assim que o amor fica e é assim que nos tornamos eternos.

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Imagem de capa: Shutterstock/Photographee.eu

Texto originalmente publicado em Prof Marcel Camargo

Ela é o caos

Ela é o caos

Ela é o caos. Ela é a tempestade disfarçada de calmaria. Ela é a dúvida disfarçada de certeza. Ela é tristeza no carnaval, ela é alegria nos dias de chuva. Ela se perde em multidões e ela se encontra ouvindo Los Hermanos. Ela gosta de silêncio porque sua mente a ensurdece. Ela aparenta ser gelada porque não quer que todos saibam dos vulcões que habitam sua alma. Ela é estranha. Ela entende os outros e muitas vezes não se entende. Ela é impulsiva, ela faz planos mas geralmente é o acaso que a guia.

Sua vida nunca foi cor-de-rosa, ela nunca foi chamada de meiga e nunca ficou calada ao ouvir absurdos. Ela é, ela ri, ela chora, ela briga e ela transborda. Ela não conhece o meio-termo. Ela é dos extremos opostos, ela é da corda bamba. Ela não troca o preto pelo rosa. Ela odeia e ela ama. Ela é açúcar e ela é sal. Parece ter coragens inesperadas mas seus medos existem e estão guardados a sete chaves. Ela prefere a determinação da segunda-feira ao tédio de um domingo. Ela prefere a dor da certeza ao incômodo do talvez. Ela é sim e ela é não. Ela tem as perguntas e ela tem as respostas. Ela possui mente forte e coração mole. Ela parece ser durona mas por dentro ela não é.

Ela sabe ser companhia mas ela também sabe ser solidão. Ela gosta da paz do seu quarto mas ela também ama a fúria do mar. Ela valoriza começos mas sabe que alguns fins são necessários. Ela se diverte muito mais em casa ou na sala de aula do que indo a festas.Ela fala muito e se arrepende. Ela se cala e se arrepende mais. Ela é coragem quando desgosta de alguém, ela é o medo quando gosta.

Ela não se ajusta ao comum e não atende às expectativas alheias. Ela chora quando esperam que ela sorria. Ela reage quando a dão por vencida. Ela revida após o último golpe. Ela se torna cinzas pra renascer depois. Ela vai ao inferno das emoções e volta ainda mais forte e brilhante.

Quando ela cala, sua mente fala e ela joga tudo em um papel. Ela é inverno e ela é verão. A estação das flores não é pra ela. Ela prefere a beleza do cacto, tão rústico e resistente. Ela é tudo ou nada. O meio-termo a desconcerta, terremotos a reconstroem. Ela até parece ser calmaria mas no fundo ela é o caos.

Uma mãe não é uma melhor amiga: é uma mãe

Uma mãe não é uma melhor amiga: é uma mãe

Por Edith Casal

Existem pessoas que consideram que o melhor relacionamento que pode existir entre uma mãe e sua filha é o de “melhores amigas”. Contudo, esta situação pode acabar favorecendo a aparição de uma rivalidade mútua, a perda do respeito, a confusão de papéis, e inclusive a invasão da privacidade.

Os filhos precisam de um adulto que lhes dê o exemplo, que seja uma referência de autoridade e de respeito. Que os orientem e lhes deem proteção e apoio, para que estejam em posição de manifestar essa estabilidade emocional e a saúde mental que tanto requerem e que outorga uma ordem à sua existência.

O problema desse tipo de relacionamento esbarra no fato de que o limite saudável desaparece no relacionamento mãe-filha. A princípio este vínculo precisa ser de acompanhamento e educacional, mas uma aparente amizade pode transformá-lo em um elemento controlador e superprotetor. Isto faz com que não se possa construir um modelo de respeito e autoridade, porque a mãe é percebida como um par.

Neste tipo de relacionamento, insana e confusa, cria-se uma elevado nível de insegurança na filha,pois as decisões dela ficam sujeitas ao conhecimento e à aprovação da sua progenitora, que do contrário se sente decepcionada. Este sinal de superproteção tem um resultado nefasto no desenvolvimento da personalidade da filha, pois gera uma dependência nociva entre as duas.

As diferentes formas de ser mãe

Quando a figura de autoridade não é entendida com clareza pela filha, ela terá uma sensação de falta de proteção. A autoconfiança será abalada. Ela duvidará quando tiver que tomar decisões e isso comprometerá a sua aspiração de independência.

Que o relacionamento mãe-filha não seja de amigas em nenhum momento significa que não possa ser próximo e enriquecedor para ambas. Mas uma coisa é serem amigas, e outra muito diferente é serem mãe e filha. Sem dúvida, uma boa mãe sempre procura o melhor para a sua filha. Contudo, isto não lhe dá o direito de invadir a sua privacidade, com a desculpa de se aproximar da sua filha como uma amiga.

É fundamental compreender a origem desse fenômeno. Na maioria dos casos, este comportamento por parte da mãe evidencia conflitos emocionais relacionados à dependência. E em alguns casos, esses conflitos vêm acompanhados de depressão e temor de que a filha repita os seus mesmos erros. Neste sentido, a mãe é obrigada a resolver tais conflitos por conta própria ou com a ajuda de um profissional.

Como melhorar esse relacionamento?

As filhas sabem que não necessariamente precisam obedecer suas amigas. Por esse motivo uma mãe precisa ser amorosa, mas ao mesmo tempo firme. Além disso, uma filha não tem por que saber de todos os problemas íntimos da sua mãe. Isto acarretará temores infundados, tristeza e confusão com respeito à relação dos seus pais.

O melhor é que este tipo de relacionamento seja transparente. É importante construir a confiança de forma espontânea, e não como uma imposição. Do contrário, cria-se um estado de angústia e desconfiança permanente, que resultará em um desgaste emocional inútil que pode ser evitado.

Por outro lado, tanto mãe quanto filha, se detectam possíveis problemas uma na outra, devem manifestá-lo. Não é saudável calar o que pode estar incomodando. É preciso expressá-lo, sempre com um clima de sinceridade e respeito. Desta forma o relacionamento será saudável e livre.

O que ambas precisam aprender

A filha precisa entender, especialmente se for menor de idade, que haverá decisões sobre a sua vida que a sua mãe deverá tomar. Imagine a fúria que despertaria o fato de que essas decisões fossem tomadas por uma amiga. O que pode ser perdoado de uma mãe, talvez não se possa perdoar de uma amiga.

Os mal-entendidos entre mães e filhas sempre podem ser remediados. É fundamental saber escolher o momento para fazê-lo. Ao afeto e a confiança correspondidas só é necessário acrescentar um pouco de bom senso para resolver as diferenças ou possíveis desgostos que tenham surgido entre as duas.

É importante que a filha aprenda a solucionar os seus problemas e assim ganhe independência. Que saiba que a mãe estará sempre ali, para apoiá-la e aconselhá-la, como só uma mãe sabe fazer. A filha também precisa entender que existem aspectos da sua vida que pode guardar para si mesma. Que não é bom adentrar demais na intimidade, porque cada uma tem a sua própria história e o seu próprio caminho a percorrer.

TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

O tabu da monogamia

O tabu da monogamia

Em uma entrevista para o portal Uol, a psicanalista Regina Navarro  propõe a seguinte reflexão acerca da monogamia ao falar sobre seu “O livro do amor” (Editora Best Seller):

“A exclusividade …é a grande preocupação de homens e mulheres… Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: Sinto-me amado(a)? Sinto-me desejado(a)? Se a resposta for ‘sim’ para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Sem dúvida as pessoas viveriam bem mais satisfeitas”.

Trata-se de um pensamento bastante lúcido. Uma pena não termos, ainda, aparato emocional para vivenciarmos o amor de maneira livre, natural e espontânea como ela sugere.

Fato: não temos como controlar o desejo do outro! E caso nosso parceiro sinta desejo por outra pessoa isso não quer dizer necessariamente que ele não nos ame.

Quem foi que associou o amor à exclusividade?

A História dá conta de que a monogamia foi inventada por questões patrimoniais: os homens precisavam ter a certeza de que seus filhos eram herdeiros legítimos. A Igreja Católica apenas consolidou, tempos depois, essa necessidade social, associando a não exclusividade matrimonial ao pecado.

Na teoria é fácil, né? Porém, na prática, não resolve muita coisa ter esse tipo de informação.

Na realidade não suportamos nem mesmo a ideia de que o nosso par possa olhar para o lado quando estamos num restaurante, que dirá que tenha outro parceiro.

Mas de onde vem isso?

Imagino que seja do medo do abandono! O amor nada tem a ver com isso.

Nem mesmo Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, casal mais conhecido por manter  “um relacionamento aberto” numa época extremamente conservadora, conseguiram viver essa experiência sem sofrimento. Beauvoir era uma escritora autobiográfica e em seu livro “A mulher desiludida”, por exemplo, fica exposta toda a angústia que ela sentia quando Sartre (no livro, André) se enroscava com outra pessoa.

Pesquisas apontam que nunca se traiu tanto. Homens e mulheres. Isso não quer dizer que não traíssem antes, quer dizer apenas que antes não confessavam.  No entanto, a culpa é quase sempre um elemento presente, são raras as pessoas que traem sem sentir que estão cometendo algum delito.

Às vezes uma relação leal é muito mais satisfatória que uma relação fiel. Muitos casais fiéis são desleais: agridem uns aos outros, não se ajudam mutuamente, só pensam nas próprias necessidades, ridicularizam-se em público. Ao passo que alguns casais infiéis (como Sartre e a Simone) são extremamente leais e companheiros até o fim.

Segundo Regina Navarro “na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sex0 bem melhor do que vivem hoje”.

O medo de ser trocado, abandonado, o medo de a cara-metade encontrar alguém mais interessante e saltar de banda ainda parece ser o motor da monogamia nos dias de hoje, pois a monogamia nos oferece a falsa ilusão de que estamos protegidos, seguros e que não seremos abandonados. Ela não está relacionada ao amor. Até porque o amor pode acabar e se acabar seremos abandonados da mesma forma.

A gasolina desse motor? Ao que tudo indica, é o desejo de ser único e absoluto.

Ora, se a vida às vezes não colabora; se não conseguimos a posição que desejamos no mercado de trabalho, se não conseguimos ser os queridinhos da família, se nos deparamos com nossas falhas o tempo todo, o amor do outro surge para nos redimir, nos tornar únicos, especiais, essenciais. O amor do outro acaba se transformando numa ilha onde aportamos os pés cansados de caminhar na dura realidade.

Mas quem é que pode assegurar, com a régua da certeza em punho, que não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

Há alguns anos, o cineasta João Jardim apresentou uma série interessantíssima no canal GNT (disponível no NET NOW), chamada “Amores Livres”, onde discute o tema. Trata-se do registro (e de depoimentos) de pessoas que vivem o amor de maneira espontânea, libertária, pessoas que experimentam o Poliamor. Quem poderá assegurar que não se trata de amor verdadeiro o que eles experimentam? Eu, particularmente, ao assistir a série, pensei: “Que galera mais evoluída”!

Ocorre que, quando a farinha é pouca o nosso pirão vem primeiro. Padecemos de uma carência de afeto e de uma necessidade de amor primordial que não nos permite sequer sonhar com a possibilidade de dividir nossa farinha, digo, parceiro-que-nos-ama com outra pessoa.

Já vi inúmeros casais que se amavam profundamente destruídos porque uma das partes descobriu “a traição” do outro. Pessoas que se davam bem, divertiam-se juntas, eram companheiras. Pessoas que deram cartão vermelho para seus pares e depois passaram praticamente uma vida inteira chorando e lamentando a perda.

Se ambos queriam continuar juntos, se ambos se amavam, por que não?

Claro que não estou me referindo aos safados e safadas de plantão – que são comprometidos (as), porém agem como se não fossem; que espalham sorrisos e cantadas para qualquer maldito (a) e se deitam com o primeiro peixe que cai na rede. Estes (as), talvez, não amem nem eles (as) mesmos (as), quanto mais uma ou duas pessoas ao mesmo tempo.

Em sua entrevista, Navarro também propõe outra reflexão interessante:

 “A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso, pois prega a fusão de duas pessoas. Ele então começa a deixar de ser atraente. Ao sair de cena está levando sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a ideia de encontrar alguém que te complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de amar mais de uma pessoa de cada vez”.

Talvez os nossos netos e bisnetos consigam vivenciar o amor de maneira mais natural e com menos sofrimento. Nós (ou será que estou falando de mim?) infelizmente ainda estamos encharcados dos códigos sociais que nos foram impostos e dificilmente quebraremos esse paradigma; não sem sofrimento. Mas isso, claro, não nos impede de refletir sobre o assunto sem temê-lo.

Torço para que um dia consigamos, finalmente, morder a maçã de Raul Seixas; para que entendamos de uma vez por todas que “o amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade”…

Imagem de capa: nelen/shutterstock

Sociedade dos poetas mortos: Carpe Diem

Sociedade dos poetas mortos: Carpe Diem

Sempre me pego pensando na fragilidade humana, na fugacidade da vida. Tudo passa tão depressa. É como se estivéssemos travando uma luta constante contra as areias da ampulheta, buscando um modo de não deixá-la passar. A brevidade da nossa existência é algo que assusta, mas, ao mesmo tempo, é essa finitude que confere valor à vida. É por ter um fim que a vida é tão importante e, logo, ela deve ser vivida, muito embora, a maior parte das pessoas insista em apenas existir.

Essa reflexão aparece no filme “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weir. Na obra, conhecemos por meio do professor John Keating (Robin Williams) a expressão “Carpe Diem”, uma expressão no latim, que traduzida literalmente significaria algo como aproveitar o dia. No entanto, esse conceito é muito mais abrangente como explica o professor. Ele significa que devemos buscar viver de modo pleno, sugando a essência da vida. Sendo assim, somos induzidos à busca interior, pois, somente com o autoconhecimento (conhece-te a ti mesmo) conseguimos saber o que somos, o que queremos e, portanto, estaremos aptos a “aproveitar o dia”.

Essa ideia de autoconhecimento é bem trabalhada na obra ao utilizar um cenário de um colégio interno, em que jovens garotos estão descobrindo o que são. O maior exemplo é representado por Neil (Robert Sean Leonard), um garoto que descobre a sua paixão por atuar, encontrando o que quer fazer da vida. Entretanto, a escolha de Neil é totalmente desrespeitada pela sua família que o quer exercendo uma profissão “bem vista” socialmente. Assim como a família de Neil, o colégio também tinha métodos de ensinos pragmáticos, de modo que o único objetivo da educação era tornar os jovens aptos a entrar nas melhores faculdades do país.

Esse comportamento é repetido pela sociedade contemporânea, em que as pessoas devem se adequar a padrões comportamentais, preocupando-se apenas com escolhas que lhe proporcionem retornos econômicos. A subjetividade do indivíduo, bem como, o lado humanístico da educação são destroçados e substituídos por um tecnicismo burocrático e uma privação total da liberdade de ser do indivíduo, demonstrando a pseudo-liberdade na qual vivemos.

Dessa maneira, como o indivíduo pode sugar a essência da vida sendo desprovido de liberdade? Como pode viver de forma plena quando a subjetividade é tolhida? Ao querer converter homens em máquinas, que só se preocupam em fazer somas, como disse Exupéry, os homens deixam de ser homens e passam a ser cogumelos e, assim, deixa-se de viver para apenas existir, lembrando Oscar Wilde.

Estamos transformando a vida em uma grande linha de produção, em que cada um tem uma função determinada, da qual não pode se afastar. Vivemos sempre com pressa e só enxergamos valor naquilo que é determinado pela sociedade. Não temos outra preocupação que não seja consumir, além de não possuirmos interesse algum por algo que não possa ser rotulado com uma embalagem.

E quanto ao amor, à poesia, à arte? Onde ficam essas coisas? Como podemos aproveitar o dia sem elas? A educação deve servir apenas para entrar em uma boa faculdade? Empregos devem servir apenas para ter bons salários? Viver é somente consumir e seguir o protocolo social? E quanto ao que você é? Os seus sonhos? A sua beleza? Devemos deixar tudo isso de lado por fama, sucesso, dinheiro, reconhecimento social? Mas qual o valor do reconhecimento de uma sociedade doente?

É preciso estar acordado e não se deixar levar por ondas perigosas que destroem o que somos, pois ao deixarmos o nosso “ser” ser destruído, consequentemente, deixaremos de sentir a vida em sua plenitude e poder sugar a sua essência. Esta não está em manuais que determinam fórmulas para viver, e sim, no interior de cada um de nós, no silêncio oculto da alma, em cada compasso marcado pelas batidas do coração.

Para aproveitar o dia é necessário coragem para tomar caminhos que provavelmente não sejam os mais escolhidos. É preciso estar disposto a não ser aceito, ser visto como inadequado ou estranho. Todavia, ser fiel às próprias crenças, possuindo um eu forte, é o que permite ter a seiva da vida dentro de nós.

“Garotos, vocês devem se esforçar para encontrar suas próprias vozes. Porque quanto mais vocês esperarem para começar, menos provável que vocês possam encontrá-la.”

Sabemos que seguir a estrada mais percorrida é sempre mais fácil, entretanto, seguir a estrada mais percorrida é permitir ser transformado em um estranho de si mesmo, pois como nos ensina Keating: “Duas estradas se divergiam na floresta e eu, eu tomei o caminho menos percorrido, e isso fez toda a diferença”.

Ao nos acostumarmos com a nossa vida tecnicista, burocratizada e hedonista, fomos pouco a pouco matando as nossas singularidades e, assim, a beleza da vida. Somos estranhos mergulhados em um mundo de indiferença. Estamos aprisionados entre réguas e compassos que querem medir o que sentimos. Vivemos em meio a conversar vazias e vidas sem sentido. Dizem que estamos no caminho certo e insistimos em repetir que somos homens vivendo vidas felizes. Mas estamos apenas presos a vidas medíocres, calados, atormentados por um silencioso desespero.

A vida passa depressa e por isso é tão importante aproveitá-la. No entanto, para aproveitá-la é preciso estar disposto a fazer como John Keating, seguir o seu próprio caminho, buscando o seu eu, quebrando regras que só servem para tirar a liberdade do homem e subindo em cima da mesa para olhar as coisas com os seus próprios olhos.

É preciso acreditar no que somos e no poder das palavras. É preciso lembrar que vamos além de somas e números, que estamos cheios de paixão. E o mais importante: acreditar que somos livres e viver a liberdade do que somos, pois, somente assim, conseguiremos “aproveitar o dia”. Sendo mais do que cogumelos como lembrou Exupéry, fazendo mais do que existindo como disse Wilde e tendo a certeza de Thoreau, de que chegada a hora da morte, sugamos toda a essência da vida.

Seja humilde. Não seja capacho!

Seja humilde. Não seja capacho!

Você sabe como é. Um sujeito diz o que pensa, o outro discorda, os dois discutem, se elevam, se exaltam, se zangam. Na melhor hipótese se dão as costas e tomam cada um o seu rumo esbravejando baixinho: “fulano é um arrogante, sicrano é um metido”. Acontece o tempo todo.

Pena. Um e outro perderam a chance de tornar este mundo melhor. Era só aceitar que cada um tem o direito de pensar o que quer, do jeito que bem entender, e que discordar não é um problema. É só mais uma prova de que as pessoas ainda são livres para ser quem são. E quem não gostou que vá procurar a “sua turma”: aqueles com quem queremos estar. Cá entre nós, eu acho que as coisas bem podiam ser assim. Mais simples. Cada um seria o que é e pronto.

Acontece que bater o pé e insistir em ser você mesmo quase sempre vai ser visto por aí como “falta de humildade”. Faz o teste. Discorde de alguém convencido de que a verdade é uma só: ele vai dizer que você não é pessoa humilde. Que não sabe “ouvir”. É que na cabeça dele, lá dentro, “saber ouvir” e “concordar” são exatamente a mesma coisa. Se você não aprovar sem ressalvas o que ele diz, é porque você “não sabe ouvir”.

Nestes tempos de valores invertidos, humilde é só quem aceita se dobrar ao argumento alheio, quem engole a vontade dos outros, concorda com tudo que lhe dizem, faz o que lhe mandam e cala a boca. O resto é afetado, pretensioso, convencido, prepotente, esnobe, pedante e essas coisas. Gente que padece de “falta de humildade”.

Olha, eu engulo sapos de toda sorte. De todos os tipos e todas as cores. Pequenos, médios e grandes. Sapos de texturas e temperaturas diversas escorregam pela minha traqueia e mergulham no meu estômago faz tempo. Faz parte. Mas esse eu não engulo, não. Prefiro viver sozinho a aceitar o que não me agrada. E isso não me torna menos humilde. Só faz de mim um sujeito mais livre.

Humildade não é servilismo. É qualidade de gente simples. E ser simples não é ser simplório. Simplicidade, entre outras definições, é ausência de complicação. Falta de frescura, sem-cerimônia, franqueza. Coisa de quem tem mais o que fazer, que discorda ou concorda quando quer e não tem medo de cara feia. Sejamos quem somos! Humildes, sim. Jamais capachos!

Imagem de capa: Sarolta Bán

Sobre essa gente que ama a noite…

Sobre essa gente que ama a noite…

Ahhhh é bem verdade que há inúmeros distúrbios do sono, catalogados, identificados e sendo pesquisados. Também é bem verdade que tem gente que sofre um absurdo por não conseguir dormir, fica namorando o visor do relógio, sem conseguir pregar o olho; e, quando o sono chega, é sempre naquela hora maldita em que falta um tiquinho de nada de tempo para o despertador tocar. Sofrer de insônia é um verdadeiro pesadelo, vivido ao vivo, de carne e osso e com os olhos arregalados.

E, não sei se é só aqui na minha terra; mas aqui tem um passarinho, um tal de sabiá que tem por hábito acasalar-se nos meses de julho e agosto. Até aí, beleza! Tudo bem o passarinho querer namorar e tal. Quem sou eu para dar “pitaco” na vida sexual e amorosa do bichinho? O único problema é que o infeliz do passarinho resolve fazer a sua “cantoria de acasalamento” por volta das 4 horas da manhã. E quem já sofreu de insônia, como eu, há de concordar que a sinfonia romântica do sabiá é um bocado ruidosa e inoportuna para quem tem um cérebro que não reconhece o escuro da noite como hora de descansar.

O fato é que nem sempre o nosso relógio biológico vive um caso de amor com o relógio cronológico do tempo da maioria das pessoas, aquelas que costumam viver durante o dia e dormir durante a noite. Há quem tenha os ponteirinhos internos meio rebeldes e teime em subverter a ordem estabelecida, há quem ame a noite e afirme que tem as mais geniais ideias e o mais legítimo prazer em estar vivo na calada da noite.

Os notívagos têm absoluta certeza, por exemplo, que a noite tem um cheiro próprio, especial. Que o clima da noite é mais interessante para criar, imaginar, namorar. Que dormir é gastar tempo da vida num estado de quase morte. Há, ainda, aqueles que de tão apaixonados pela escuridão, arranjam um jeito de fazer das horas escuras do dia o seu modelo pessoal de vida e de produção pessoal e profissional.

Como uma amante antiga da noite, pois desde muito pequena amava o silêncio da casa depois que todos iam dormir (apesar de ter medo do escuro… vai entender!), tenho cá minhas defesas incontestes para argumentar a meu favor: nenhuma operadora de telefonia celular, banco, ou empresa de telemarketing liga para ninguém de madrugada, o tempo das horas escuras parece escoar mais devagar, a noite é dos animais silenciosos, dos gatos, das corujas e dos morcegos, a noite termina sempre com o espetáculo de um novo dia.

E, antes que alguém resolva protestar sobre o quanto é sério o problema da insônia e o quanto o Brasil é o maior consumidor de Rivotril do mundo, e que a falta de sono afeta a memória, e que quem dorme mal, engorda e tal… peço aqui uma licença poética! Hoje tirei o dia para reverenciar a noite em sua beleza. Essa mocinha de olhos negros pontilhados de estrelas que exerce sobre mim a mais absoluta sedução é minha amiga querida, minha parceira, minha confidente. Hoje peço licença para confessar que é enquanto todo mundo – ou quase todo mundo – dorme, que a minha alma desperta e acolhe as inúmeras lições que a luz do dia me trouxe de presente. É nessa hora que entro em comunhão comigo mesma e que me sinto absolutamente em paz!

A lenda budista sobre os gatos

A lenda budista sobre os gatos

Por Valéria Amado

Para o budismo, os gatos representam a espiritualidade. São seres iluminados que transmitem calma e harmonia e, por isso, costuma-se dizer que quem não se relaciona bem com seu inconsciente nunca chega a se conectar por completo com um gato, nem tampouco entenderá seus mistérios.

A verdade é que ninguém se surpreende ao saber que a figura desses animais está unida ao budismo. Tanto é assim que na Tailândia existe uma lenda sagrada que transcendeu o tempo para converter os gatos em seres únicos de paz e íntima união, havendo vários em muitos templos dos países asiáticos. É por isso que é tão comum ver tantos gatos dormindo e enrolados nos braços das múltiplas estátuas sagradas de Buda e outros temas que enfeitam os jardins dos santuários.

Os gatos veem muito além de nossos sentidos. Entre suas horas de sonecas e seus momentos de brincadeiras e exploração, olham nossas almas com seu olfato refinado. Aliviam tristezas e nos preenchem com seus nobres e reluzentes olhares.

Frequentemente costuma-se dizer que ter um cachorro é ter o companheiro mais fiel que pode existir. Isso é totalmente certo. Mesmo assim, quem conhece o caráter de um gato sente que a conexão é mais íntima e profunda, e por isso diversos monges budistas como o mestre Hsing Yun falam do poder curativo desse animal. Convidamos você a descobrir-lo conosco.

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Uma lenda budista sobre os gatos originária da Tailândia

Em primeiro lugar temos que saber algo muito importante. O budismo não está organizado em uma hierarquia vertical, como já sabemos. A autoridade religiosa descansa sobre os textos sagrados, mas, por sua vez, existe uma grande flexibilidade em seus próprios enfoques. A lenda que vamos mostrar tem suas raízes em uma escola específica: a do budismo theravada, ou o budismo da linhagem dos antigos.

Foi na Tailândia e dentro desse contexto que foi escrito “O livro dos poemas do gato”, ou o Tamra Maew, conservado hoje em dia na biblioteca Nacional de Bangkok como um autêntico tesouro que deve ser preservado. Em seus antigos papiros se pode ler uma encantadora história que conta que quando uma pessoa havia alcançado os níveis mais altos de espiritualidade e falecia, sua alma se unia placidamente ao corpo de um gato.

A vida poderia ser então muito curta, ou o quanto a longevidade felina permitisse, mas quando chegava o fim essa alma sabia que subiria para um plano iluminado. O povo tailandês daquela época, conhecendo essa crença, mantinha também outra curiosa prática…

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Quando um familiar falecia, enterrava-se a pessoa em uma cripta junto com um gato vivo. A cripta tinha sempre um espaço por onde o animal poderia sair, e quando o fizesse tinham por certo que a alma do ser amado já estava no interior daquele nobre gato… Deste modo, alcançava a liberdade e esse lugar de calma e espiritualidade capaz de preparar a alma para o caminho posterior, o caminho de ascensão.

Os gatos e a espiritualidade

Dizem que os gatos são como pequenos monges capazes de trazer a harmonia a qualquer lugar. Para a ordem budista de Fo Guang Shan, por exemplo, são como pessoas que já alcançaram a iluminação.

– Os gatos são seres livres que bebem quando têm sede, que comem quando têm fome, que dormem quando sentem sono e que fazem o que deve ser feito a cada momento sem necessidade de agradar ninguém.
– Não se deixam levar pelo ego, e algo especial desses animais segundo esse ramo do budismo é que os gatos aprenderam a sentir o que vem do homem desde eras muito antigas na história do tempo. No entanto, as pessoas ainda não aprenderam a sentir o gato no presente.
– São leais, fiéis e afetuosos, e suas demonstrações de carinho são íntimas e sutis e, ainda assim, tremendamente profundas. Só aqueles que sabem olhar para o seu interior com respeito e dedicação entenderão o seu amor inquebrável, mas as pessoas que são desequilibradas ou que frequentemente elevam sua voz para gritar jamais serão do agrado dos gatos.

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Para concluir, sabemos que não é preciso recorrer aos textos budistas para entender que os gatos são especiais, que seus olhares nos transportam para universos introspectivos, que com suas estranhas posturas nos convidam a praticar a ioga, que são um exemplo de elegância e equilíbrio… Queremos o bem desses animais e até os veneramos e, ainda que eles mesmos se acreditem autênticos deuses lembrando quem sabe de seus dias no Antigo Egito, permitimos que eles sejam orgulhosos.
Todos temos nossas próprias histórias com esses animais, momento inesquecíveis que nos permitiram aproveitar pequenos instantes cheios de magia e autenticidade. Esses que seguramente serviram de inspiração para criar essa charmosa lenda budista que ficou impressa em tinta, papel e misticismo. A mesma que hoje nós queríamos contar e compartilhamos em nosso espaço com você.

“O tempo passado com gatos nunca é um tempo perdido.”
-Sigmund Freud-

Fonte indicada: A mente é Maravilhosa

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