Romper com os padrões é, para dizer o mínimo, um sinal de inteligência

Romper com os padrões é, para dizer o mínimo, um sinal de inteligência

Se a gente não toma cuidado, acaba virando uma versão humana daqueles hamsters criados em gaiolas, correndo indefinidamente naquelas rodinhas sem saída. Mais um pouco de distração, e já nem identificamos mais ao certo as coisas que gostamos genuinamente. Um tantinho a mais de anestesia, e nos transformamos na cópia de alguma celebridade instantânea ou humanamente inviável do ponto de vista orgânico.

Há quem deixe de ir à praia por estar acima do peso. Há quem torre o cabelo naquelas geringonças metálicas a fim de forjar uma cabeleira sem nenhuma ondulação, por acreditar – de verdade – que isso é absolutamente normal, ou pior, necessário. Há quem pague uma pequena fortuna para ficar com um par de sobrancelhas parecendo símbolos da Nike em cima dos olhos. Vai entender!

Isso sem mencionar as dietas restritivas, reduzidas a 500 calorias diárias, contadas a peso de ouro por clínicas sofisticadas de emagrecimento. Mais os milagres prometidos pelas revistas femininas que vendem imagens de uma beleza perfeita, além de fórmulas infalíveis para que sejamos jovens para sempre.

Confesso que me causa arrepios, ver meninas de trinta anos parecendo que já tem quarenta, por que paralisam seus rostos para parecer que têm vinte. Confesso que já cheguei a perder o sono porque vejo evidentes perturbações de autoimagem em garotas de menos de quinze anos, obcecadas por modelos de corpos que lembram sílfides anoréxicas. Confesso que me recuso a compactuar com isso, e por esse motivo proponho uma insurgência.

Sejamos insurgentes! Procuremos nos conceder algum mínimo grau de fidelidade a quem realmente somos. Busquemos em algum lugar lá bem no fundo, qual é a nossa verdadeira imagem. Sejamos o nosso desenho original, e não uma estampa de imitação, uma réplica daquilo que convencionamos chamar de modelo de beleza.

Numa era marcada pela padronização, romper com os padrões é, para dizer o mínimo, um sinal de inteligência. Porque é preciso ser capaz de pensar com a própria cabeça para interromper a rodinha da gaiola. É preciso acreditar que há uma mulher linda por trás de um corpo com algumas curvas além da média. É preciso honrar as linhas do sorriso, as sardas espalhadas pelos ombros, o brilho dos olhos que só aparece quando eles são capazes de sorrir junto com a boca.

E depois de fazer parar a rodinha, tenhamos a dignidade de dar um definitivo adeus à gaiola. Porque para ser linda, linda mesmo, é preciso ser livre. É preciso pôr um fim ao hábito de se submeter sem questionar. E nunca, nunca mais permitir que um espelho seja o maior responsável por determinar o quanto a nossa beleza é adequada ou descabida. Porque entre ser limitada e ilimitável, eu prefiro mesmo é descaber!

“Faça valer a pena. Alguém amaria estar no seu lugar”

“Faça valer a pena. Alguém amaria estar no seu lugar”

Li a frase título em alguma publicação na internet e fui fisgada. Parei pra pensar onde me encontro hoje e no quanto sou grata por estar exatamente onde estou.

Somos tão apressados, vivemos tão no automático, que muitas vezes deixamos que a gratidão evapore por nossos poros e que o reconhecimento de nossas dádivas escoe por nossa superfície.

É preciso amar nossos lugares no mundo e dentro das pessoas. Reconhecer que somos privilegiados pela bagagem que carregamos e pela estrada que trilhamos.

É preciso fazer valer a pena. Fazer valer a pena cada talento que recebemos de Deus; fazer valer a pena os abraços que damos e recebemos; fazer valer a pena os lugares que ocupamos, as refeições que partilhamos, as vidas que tocamos, as pessoas que amamos.

Cada um de nós tem um dom. Pode ser cantar, falar línguas, escrever, pintar, cozinhar, acalmar. Pode ser praticar um esporte, saber ouvir com atenção, fazer florescer um jardim, amar sem restrições. O importante é usar esses talentos. O importante é fazer valer a pena cada dom recebido e aí, quem sabe, multiplicar esse dom.

O lugar em que você se encontra diz muito sobre você. Pode ser que você ainda esteja de passagem, melhorando sua bagagem enquanto atravessa suas pontes. E me recordo de quando eu estava neste ponto de transição e travessia. É um lugar cheio de sonhos e possibilidades, e é exatamente onde tudo pode acontecer e valer a pena. Aproveite, arrisque, ouse!

Pode ser que você ache que já chegou onde queria e descobriu que ainda não reconhece essa tal felicidade. Quem sabe seja a vida lhe dando a chance de ser grato pelo fim de uma história que se desenrolou pequena diante do tamanho de seus sonhos. Pode ser que descubra que nada está concluído ainda. É hora de resgatar seus dons e fazer valer a pena cada instante vivido no lugar que você escolheu estar.

Não cobice o lugar do outro. Tenha, antes, a sabedoria de olhar para o lugar que você ocupa e ser grato pelo que foi feito e desfeito em sua vida.

Alguém amaria estar no seu lugar. Alguém amaria ter as oportunidades que você teve e receber os dons que você recebeu.

Alguém amaria sentar à sua mesa e comer sua refeição. Alguém amaria ter o sol e as estrelas que iluminam o seu céu e seria grato pela chuva que respinga na sua vidraça.

Alguém amaria encontrar tantos afetos quanto você encontrou, e saberia valorizar cada sorriso que você recusou.

Alguém amaria ter o despertador chamando pra mais uma segunda feira de trabalho. Alguém amaria a cozinha cheirando a café recém passado anunciando mais um dia ensolarado.

Alguém amaria ter os finais que você teve. O jeito certo que aquela história encerrou e as oportunidades que surgiram depois que sua página virou.

Temos que ser gratos por nem sempre alcançarmos o que desejamos. Gratos pelos nós desfeitos e pelas intenções contrariadas. Acreditando que estamos onde deveríamos estar, e que isso é benção também.

Ninguém consegue ocupar por muito tempo um lugar que não é seu. Por isso, dê valor ao seu jardim, e plante sementes de otimismo e gratidão no solo que lhe pertence. Ame sua história e seja gentil com o tempo das despedidas.

Lembre-se que a vida nos dá os ingredientes, mas quem determina a receita e faz o bolo ficar saboroso somos nós. Então não fique olhando para o lado e cuidando do que não lhe cabe. Nem sempre temos tantos ingredientes à disposição, mas o importante é conseguirmos fazer o melhor que pudermos com o pouco que nos foi dado.

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Quanto maior a insistência, menor o amor próprio

Quanto maior a insistência, menor o amor próprio

É muito difícil termos a exata noção do quanto estaremos mantendo nossa integridade enquanto nos dedicamos ao parceiro, ao amigo, ainda mais quando parecemos doar muito mais do que recebemos em troca. Nem sempre a reciprocidade estará equilibrada nas relações que sustentamos, pois o outro tem a própria maneira de agir e de devolver o que recebe. Não nos esgotarmos em vão será, então, a nossa meta.

Nenhum relacionamento caminha com tranquilidade duradoura, pois lidamos com seres humanos, que pensam e sentem o mundo de uma forma peculiar. Da mesma forma, cada um entende e vive o amor como consegue, de acordo com o que possui dentro de si. Nesse sentido, não adianta querermos mudar as pessoas por completo, uma vez que se comportam conforme aquilo que acreditam e são.

Mesmo assim, para que mantenhamos relacionamentos saudáveis ao longo de nossa jornada, inevitavelmente teremos que nos moldar às diferentes situações que nos ocorrem, ou não conseguiremos conviver com quase ninguém. Ficar junto requer também abrir mão de algumas coisas, em favor de quem amamos. Infelizmente, muitos não conseguem abdicar de nada por ninguém, centrados que se encontram no próprio eu, nas próprias vontades, em estado de egoísmo puro.

Caberá a nós refletir e analisar o quanto temos de insistir para que o parceiro nos enxergue, para que o amigo nos chame para sair, para que o patrão nos dê um pingo de atenção. Quanto mais tivermos que insistir para que sejamos vistos, menos estaremos nos fortalecendo enquanto pessoa, enquanto alguém capaz de fazer por merecer pelo que é tão somente. Quem nos valoriza não precisa que sua atenção seja por nós chamada a todo momento.

Caso estejamos nos sentindo invisíveis, é chegada a hora de sair dali, para que possamos chegar a novos lugares onde o reconhecimento de tudo o que somos se dará tranquila e naturalmente. Nada cai em nossos colos do nada, ou seja, precisaremos nos esforçar para alcançarmos os nossos objetivos, porém, forçar situações apenas esgotará as nossas forças e, na maior parte das vezes, inutilmente. Lutar com dignidade, sim; insistir com mendicância, jamais.

É preciso coragem para ser solteiro hoje em dia- Wandy Luz

É preciso coragem para ser solteiro hoje em dia- Wandy Luz

Por Wandy Luz

É preciso coragem para ser solteiro hoje em dia, especialmente em uma sociedade que nos cobra e impõe tanto. Às vezes pode ser muito frustrante, mas a menos que você conheça alguém muito especial, não permita que o desespero conduza a situação e te faça aceitar o primeiro que aparecer somente para evitar a solidão.

Ser solteiro não é esse bicho de sete cabeças que pintam por aí

Eu diria até que a solidão é uma grande amiga, que pode te ensinar muito sobre o mundo, sobre a vida, sobre você.

Quem pula de um relacionamento para o outro num piscar de olhos e não dedica um tempo para se conhecer, para refletir sobre suas prioridades, nunca vai ter certeza sobre o que quer da vida, ou o que procura em um relacionamento.

Quem não sabe o que procura não dá valor ao que encontra, e se você não souber para onde está indo, a caminhada será frustrante. O que eu quero dizer é que, se você não consegue ser feliz sozinho, você não vai ser feliz com outra pessoa também.

Seja leal aos seus ideais, sua essência, e não se sinta na obrigação de ter ou estar com alguém somente para que os outros vejam. Para amar outra pessoa você precisa amar a si mesmo em primeiro lugar. E uma pessoa com amor próprio não vai se atirar nos braços de alguém que não tenha certeza de que merece estar ao seu lado.

Proteja-se, conheça o seu valor, seja feliz, e que essa felicidade venha de dentro e não dependa de ninguém mais para acontecer.

contioutra.com - É preciso coragem para ser solteiro hoje em dia- Wandy LuzWandy Luz
Jornalista, colunista, sonhadora e amante da liberdade. Um ser humano que se encanta a cada dia mais com os mistérios da vida e suas dimensões. Espírito livre e alma plena, esse è meu desejo, essa è a minha missão. Acesse seu site: https://www.wandy-luz.com/

Por que é tão importante a avó materna para uma criança

Por que é tão importante a avó materna para uma criança

Por Estefanía Esteban

Os avós cumprem uma função essencial na família. Mas, dentre todos existe um cuja influência sobressai: a avó materna.

Pode ser que o seu filho se dê melhor ou pior com sua avó materna. Que a veja menos ou mais. Que sinta mais ou menos afinidade a ela. Mas, o que talvez você não saiba é a importante carga genética que deixa aos seus netos. A gente te explica a teoria ensaísta do chileno Alejandro Jodorowsky.

Por que a avó materna é a mais importante

A avó materna é a encarregada de transferir a maior parte da carga genética dentre todos os avós. E a genética pula uma geração. Por isso, muitas crianças não se parecem com seus pais, mas sim com seus avós. E, ainda que fisicamente o seu filho não se pareça à sua avó materna, nunca poderá negar que lhe deixou em herança muitas outras coisas, como determinado problema com os ossos, um tic, um sinal, esse timbre de voz…

Segundo Jodorosky, a explicação é bem simples: quando uma mulher engravida de uma menina, a menina já tem formados desde antes de nascer os ovócitos de onde sairão milhares e milhares de óvulos ao longo da sua vida adulta. Esses ovócitos, por sua vez, têm grande carga genética da sua mãe, e da sua avó!

Os meninos também herdam no seu DNA as vivências emocionais da avó materna

O ensaísta chileno vai mais além ainda e assegura que no DNA que as avós maternas transferem aos seus netos, não apenas encontram traços físicos, alguma possível doença hereditária ou os gestos, mas também o temperamento ou inclusive as vivências que teve quando estava grávida de sua filha. Ou seja, que se a avó materna tenha passado por uma situação difícil na sua gravidez, ou tenha sofrido uma depressão durante a gestação isso pode influenciar nos filhos de sua filha.
Leve em conta que os óvulos aportam além da carga genética, a informação mitocondrial (enquanto que o espermatozóide carece dela). Essa informação só se herda das mães (ou avós), e implica num ‘plus’ de carga genética.

Contra essa teoria de Alejandro Jodorowsky estão, no entanto, os estudos mais recentes, que asseguram que a carga genética que o homem transfere, ainda que seja menor, ela tem mais peso e determinação, sobretudo no caso de determinadas doenças hereditárias como o diabetes tipo 2, a obesidade ou a esquizofrenia.

A genética no final das contas não deixará de ser um emaranhado, uma loteria, uma série de cartas à mercê da sorte.

A arte de cozinhar momentos para extrair o melhor da vida

A arte de cozinhar momentos para extrair o melhor da vida

Eu acho que tantas vezes, da forma que a gente vive e é impulsionado a viver, a gente degusta os momentos da vida como um alimento insosso, como uma massa amorfa e funcional, que completa nossos dias, mas não nutre nossa alma.

Nossos sentidos devoram os dias como um prato cru e frio, as horas passam por nós nos atropelando ou não fazendo sentido, as coisas nos atravessam e não ficam. Escaneamos textos e informações, gostamos do que é curto, rápido, condensado, descartável. Queremos o gozo rápido, engolir mensagens, pessoas, aprendizados, dar conta de ser pessoas multifacetadas, que sabem um pouco de tudo, e do nosso profundo, quase nada.

Será que a gente não percebe mais que se a gente cede tempo para emoções e pensamentos, se a gente cozinha devagar os momentos, se a gente mergulha por inteiro, se a gente tem paciência, acredita que o olhar pode mudar com o tempo, que tudo se transforma, amadurece, cresce dentro da gente, a gente alimenta a nossa beleza de dentro? E tudo fica mais colorido, perfumado, apetitoso…

Afinal, para uma massa virar um belo bolo, ela precisa ficar quietinha no forno por uns bons 45 minutos. Para um vinho liberar seus mais finos aromas precisa passar por um longo repouso. Para um bom texto entrar na gente, ele precisa ficar dialogando com o que nos habita no íntimo. Para uma pessoa nos revelar, sem querer querendo, o seu melhor, seu mais humano, a gente precisa deixar que ela seja livre no tempo, nos deveres e sentimentos e encontre-se ou não à vontade perto da gente. Para um sentimento fazer sentido, não importando se na realidade externa ou interna, ele precisa vir à tona no nosso olhar e pensamento e inundar a nossa alma e então se dissipar ou crescer, antes que a gente racionalmente decida cortar suas raízes. Para um momento ter gosto e presença, a gente precisa aprender a extrair, com vontade e paciência, o seu melhor extrato, os seus mais finos segredos.

E acho que isso se faz com mãos delicadas, olhos intuitivos, sentidos despertos, deixando-se um pouco entregue as leis harmônicas do vento, e sabendo que um botão de rosas pode se tornar, em sua plenitude, uma linda rosa desabrochada, mas nunca poderá ser um crisântemo ou uma borboleta.

E, assim, a gente degusta a vida como um apaixonado, porque aprendemos a cozinhá-la devagar e com cuidado, colhendo o melhor tempero que cada momento e pessoa pode oferecer, do leve e sutil ao forte e apimentado.

Às vezes, temos que nos fingir de bobos para ver até onde chega a falsidade alheia

Às vezes, temos que nos fingir de bobos para ver até onde chega a falsidade alheia

Certas pessoas subestimam a nossa inteligência, agindo como se não fôssemos capazes de perceber o quanto estão sendo maldosas, o quanto são fingidas, o quanto não são nossas amigas de fato. Teremos que conviver com quem não gostaríamos, em algumas situações que nos forçarão a isso, porém, caberá a nós não sermos sugados para dentro de suas tempestades.

Em todos os setores da vida, existirão indivíduos que não gostam de ninguém, tampouco de si mesmos, que vivem insatisfeitos com tudo, de olho nas vidas alheias, para envenenar tudo o que tocarem com sua maledicência, com a maldade que domina seus corações. Eles são infelizes e pretendem disseminar sua infelicidade, pois não suportam ver ninguém alegre – a luz lhes ofusca os olhos.

Infelizmente, a vida real é recheada de vilões, tais como aqueles das novelas, filmes e livros, e nos depararemos com eles, uma hora ou outra. Teremos que nos manter equilibrados e fortes, pois a miséria emocional costuma contagiar ambientes e pessoas, ou seja, quanto mais seguros estivermos quanto a tudo o que nos faz felizes e ao que somos de fato, nada nos distanciará de nossa essência.

Muitas vezes, teremos que nos fingir de bobos mesmo, como se nada percebêssemos, como se não soubéssemos das más intenções da falsidade que se aproxima. Precisaremos ouvir as fofocas, assistir às dissimulações, fingindo acreditarmos nas fantasias maldosas do colega. Iniciar embates com quem mente o tempo todo é furada, pois ele está acostumado a sustentar inverdades e não largará mão disso. Provavelmente, nós é que esgotaremos nossas forças inutilmente.

O melhor que temos a fazer, nesses casos, é manter o nosso equilíbrio, exercitando a calma e a paciência, observando, como meros espectadores, ao desenrolar dos fatos. Mais cedo ou mais tarde, sem dúvidas, tudo se esclarece, pois a verdade vem à tona, sempre, ninguém foge às consequências do que se faz, do que se é. E então a pessoa sucumbirá ao peso de toda maldade que plantou em seus jardins.

Às vezes, até seremos nós que desmascaremos quem finge e dissimula, sim, pois poderemos estar sendo alvo direto dessa maldade. Mesmo assim, a paciência é que determinará o momento certo de agir. O exercício da tolerância, da calma e da paciência, como se vê, será essencial para que sobrevivamos com saúde a tudo de desagradável que encontraremos pela frente. Assim é que poderemos sempre, ao final do dia, voltar e nos fortalecer junto a quem nos ama de verdade, sem fingimento. É isso que faz a vida valer a pena.

Não é só pelo corpo que nos tratam como objeto

Não é só pelo corpo que nos tratam como objeto

Quando os nossos corpos são assediados pelos olhares invasivos, pelas falas chulas, pelas observações impertinentes, pelos assobios e cantadas baratas, temos muito claro que estamos sendo tratadas como objeto.

Quando os olhos da outra pessoa brilham diante do seu status ou da sua conta bancária, também não resta dúvidas que ali jaz um “amor” pelo objeto, pelo usufruto, pelo status, pela exibição.

Essas atitudes um tanto quanto clichês, de tão difundidas, parecem ser as únicas que denunciam quando uma relação se estabelece pelo afeto ou quando ela é fruto de um interesse superficial.

Mas há um outro lado dessa cultura que nos objetifica, que nos torna mercadoria para o consumo do outro, que não é assim tão explícito. Uma cultura que cultua o “bom comportamento”, baseado em estereótipos comportamentais adequados à cada gênero.

E dessa ideologia que de tão enraizada por vezes não percebemos, somos ditados e ditadores. Somos réu e algoz. Endossada por discursos bonitinhos, politicamente corretos e pseudo racionais para justificar as infelizes escolhas que se pautam em algo supostamente sólido, mas que é de fato tão mutável quanto o tempo, instaura-se a ilusão de que diante desse manual prático de como ter uma “boa relação” estamos fazendo escolhas maduras, quando na realidade estamos fazendo escolhas hipócritas.

Afeta particularmente às mulheres, embora não apenas, esses ideias de como alguém deve ser para que valha uma relação. Deve ser “sexy sem ser vulgar”; não deve falar palavrões; não deve aumentar o tom de voz em uma discussão; não deve demonstrar ter bons argumentos nem rebater o macho alfa em uma discussão intelectual, independentemente da sua inteligência ou conhecimento, independentemente de que sua oratória esteja de fato revelando as brechas no discurso do outro; não deve ter opiniões fortes; não pode ter atos humanos como coceira, assoar o nariz ou coisas afins; não deve demonstrar nenhum sinal de autonomia, nem viver por si mesma;não deve falar abertamente de assuntos polêmicos, principalmente de cunho sexual; não deve… não deve mesmo. Não devemos nada a ninguém.

Aquelas que tem sonhos e objetivos próprios, que se aventura, que se mostram inteiramente como são, que vivem de forma livre e, principalmente, escolhem, não se tratam de boas presas para uma relação sólida. Afinal, essa relação que muitos almejam não passa de uma bengala para susterem suas próprias faltas diante da incompetência que carregam em desenvolverem-se internamente, em trabalhar suas próprias imaturidades, orgulhos bestas, dificuldade em lidar com as diferenças – inclusive de opiniões, em sentirem-se menos viris ao assumir que não estão sempre certos, em serem ofuscados pelo brilho da outra pessoa em vez e brilhar com ela. Não querem, de fato, uma relação, querem um remédio para sua vida.

Querem alguém que cumpra funções dentro do seu mundinho para lhe aliviar os pesos, que esteja ali disponível e domesticada para obedecer à lógica de um e não a de dois.

Essa realidade, acompanhada de tantos outros estereótipos que cada um, por si, poderá lembrar, não está necessariamente incutida nas personalidades assumidamente radicais, machistas, etc. Essa polaridade que enevoa a nossa crítica acaba por nos fazer pautar julgamentos em aspectos superficiais. Mas é muito fundo o abismo que se interpõe entre os discursos e as atitudes.

Na retaguarda desses preconceitos e dessas ideologias pouco honestas que orientam e determinam as escolhas de muitos está o melzinho romântico, poético, quase bonito no caso daqueles que têm habilidade para fazê-lo, ou cheios de termos desgastados e fabricados para as conquistas baratas. Estão os frequentes pedidos de desculpas e mentiras que fluem tão naturalmente que parecem fazer parte da pessoa, tão naturais que se deixa passar. Estão os discursos políticos de igualdade, de revolução e até de feminismo, que apimentam as conversas de boteco mas se desmantelam ante a hipocrisia desnudada nas ações.

Lembro do conto da Cinderela, aquela pobre infeliz que é escolhida pelo sapato por um príncipe que, apesar de dançar e conversar com ela, não lembra do seu rosto, do seu olhar, da sua voz, do seu tato, do seu cheiro, do seu jeito, dos seus gestos, do seu modo de pensar e falar. É o encaixe do sapato que a faz escolhida – o objeto que carregava e não a mulher que era.

Todo o afeto substituído pelo encaixe do sapato é o que definiu seu rumo, que seguiu com alegria e sem crítica. Exatamente como uma mulher deve ser, temo, para a maioria dos homens. Esses, não menos submissos a essa cultura de leilões comportamentais, devem ser bem-sucedidos, devem ter controle das suas presas, devem impor respeito e blábláblá.

Cada qual com a sua pressão, usando um ao outro com a mesma responsabilidade, com a mesma consideração, ou menos, com que escolhem as peças do seu guarda-roupa. Somos tratados como objeto, também, quando as pessoas determinam o lugar que devemos ocupar na vida delas a partir de nossos comportamentos e características superficiais. Quando querem nos exibir como uma conquista e nos usar para suprir seus buracos interiores.

Quando desconsideram que no cotidiano todos têm defeitos, mais cedo ou mais tarde, tudo há de desmoronar diante da realidade de que apenas os afetos são capazes de resistir à mudança, que fazem parte dela, que se intensificam com ela. Assumir que os afetos são importantes na relação não é uma questão de ser romântico, é uma questão de ser humano e empático o suficiente para não comprometer a vida alheia com os próprios egoísmos e ideias.

É saber que a transformação faz parte da vida, e que só vale a pena ter um relacionamento de fato se formos capazes de permanecer interessados e conectados com alguém apesar e até mesmo por essas transformações. É ver defeitos segundo o nosso ponto de vista como oportunidade para aprender a lidar com as diferenças, a enxergar os defeitos próprios e, de fato, construir algo junto com o outro e não em cima dele.

É também uma questão de sincronia, o que não abre espaço para justificar que relações abusivas se sustentem pelo afeto. Não há hierarquia possível quando duas pessoas estão no mesmo lugar, no mesmo caminho, com o mesmo desejo de seguir com.

Observe com cuidado se alguém te escolhe pelos sapatos, e se for, dispense – ande com os pés descalços, sinta a terra e a extensão dos próprios pés, o sangue que corre neles e permite que eles te levem para onde você quiser. Deixe os sapatos de presente para o outro e siga seu caminho, pois nele certamente existem os raros que te acompanharão pelo gosto de estar com a pessoa inteira que você é.

Essas figuras raras que preferem caminhar ao lado de alguém do que lhe montar nas costas com todas as suas expectativas. Essas figuras raras que são difíceis de encontrar, mas que existem, e estão por aí, talvez tão perdidas quanto você nessa ditadura de escolhas forçadas e falsas, vindas mais de fora do que de dentro. Permita-se se perder, pois é só quando estamos perdidos que abrimos espaço aos encontros verdadeiros.

Status: Em manutenção

Status: Em manutenção

Tudo o que se usa, gasta. Não necessariamente acaba, mas gasta, desgasta, consome, enferruja. É necessária uma manutenção e, em muitos casos, reposição.

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Coisas são fáceis de substituir, máquinas são passíveis de manutenções programadas, o alimento é reposto nas dispensas. Já as relações…

Essas desgastam, cansam, tornam-se obsoletas. Não são de fácil e barata manutenção.

Não tem essa de preservar uma relação fresquinha e viçosa sem que se faça um mínimo esforço para mantê-la. Isso não existe, como não resistem as convicções de que se é querido e admirado somente pelo fato de existir.

Manutenção do próprio ânimo, dos planos e desejos, da energia necessária para levantar todos os dias e encarar a vida!

Manutenção das amizades, das importantes e necessárias lembranças de afeto e saudades, carinho e dedicação.

Manutenção das relações familiares, ainda que complexas e sem novidades, cansativas e muitas vezes desgastantes.

Manutenção do amor, através da própria crença em sua existência, ainda que sem correspondência ou direção.

Manutenção da saúde, da própria vida, em sinal de respeito e auto-consideração.

Manutenção enfim, de tudo o que desejamos ardentemente preservar, do que faz verdadeira e válida a vida.

Se não há manutenção, haverá perda. Mais futuramente, haverá desgaste irreparável, inconsolável.

Como um elevador que trabalha sem interrupções, a vida tem seus altos e baixos, suas paradas e retomadas. A rotina é ligeira e quase nos faz esquecer das paradas programadas, das verificações de engrenagens, detecção de cansaço e desgastes.

Mas, para preservar e manter o bom funcionamento, antes que um defeito ou mesmo uma parada total aconteça, é sempre recomendável fazer aquela pausa, desacelerar, repensar, entrar no modo de segurança e fazer os devidos ajustes.

Afinal, é pelo nosso elevador privativo que andam os nossos afetos.
Para afastar qualquer arrependimento ou culpa, antes que seja tarde, é recomendável pendurar a plaquinha: EM MANUTENÇÃO.

Identificar o essencial

Identificar o essencial

Levar uma vida calma, serena, descansada, sem estresses, sem ansiedade, é um sonho de muitos de nós. Mas dar aquele primeiro passo é muito complicado para muita gente. A desculpa está sempre na ponta da língua – não tenho tempo. Às vezes também digo que não tenho tempo, mas na verdade o que quero dizer é que certa coisa não é prioritária para mim – ter tempo, tenho, mas não o quero ocupar com aquilo.

O problema não é falta de tempo. O problema é termos demasiadas coisas para fazer, muitas das quais, na verdade, não nos interessam. Como é que o minimalismo pode ajudar? Identificando o essencial e eliminando o resto!

Esta máxima do minimalismo não se aplica só nas coisas materiais. Aplica-se também nas nossas responsabilidades e compromissos.

> Começa por escrever numa folha todas as áreas da tua vida – todas as responsabilidades, compromissos, papéis que desempenhas.

> Olha friamente para essa lista – há alguma coisa que gostarias de eliminar? Alguma coisa com a qual não queres mais perder tempo? Não te prendas ao facto de os outros estarem à espera de certas coisas de ti. Neste momento, pensa só em ti.

> Rodeia agora as responsabilidades que são mais importantes para ti. Não há um número certo – podem ser mais ou menos que 4 ou 5.

> A partir deste momento, tenta ocupar a maioria do teu tempo nestas atividades e responsabilidades que são importantes; tenta eliminar ou reduzir ao máximo as outras.

Quando fiz este exercício pela primeira vez, eliminei muita coisa da minha vida, desde coisas grandes como responsabilidades num partido político, até coisas pequenas como o uso de várias redes sociais.

O que fiz daí para a frente, e faço regularmente, é estar consciente do que é essencial e do que é acessório. Ainda há dias tive que olhar friamente para as coisas e decidir se uma dada atividade física, à qual fiquei com muita vontade de voltar, era mesmo importante para mim. Apesar de ser uma coisa que já me deu muito prazer e que adoro, não tenho agora espaço nem tempo para ela.
Também recebi, há poucas semanas, uma proposta de um editora para escrever um livro. Isso, eu adorava mesmo fazer, mas os prazos que me deram não eram compatíveis com o resto da minha vida. Olhando friamente para as coisas, vi que o mais importante são as minhas responsabilidades do momento, e não posso nem quero prejudicá-las com coisas que até são giras e interessantes, mas não são, pelo menos neste momento, essenciais.

Há tempo para tudo – mas não tudo ao mesmo tempo.

Fonte: Busy Woman Stripy Cat

O nosso câncer

O nosso câncer

Quando recebi meu diagnóstico de câncer, estava sozinha no consultório médico. Tinha ido até lá apenas para conseguir medicamentos para a dor, já que pretendia trabalhar no dia seguinte.

Porém, quis o destino que o resultado da biópsia chegasse ao consultório minutos antes de mim e mudasse o rumo da minha conversa com o doutor (e também da minha vida). Ninguém estava esperando o resultado para aquele dia, muito menos para aquele momento.

Teoricamente, a resposta viria somente dois dias depois. Mas, enfim, estávamos ali meu médico, o exame e eu. O doutor sabia que o tempo, àquela altura do campeonato, era precioso e não teve dúvida: me deixou saber de tudo.

Depois do baque, tentei administrar a sensação de vazio dentro de mim. Queria que alguém me dissesse que tudo não passava de um pesadelo. Queria alguém da família comigo para que eu não lidasse com aquela dor sozinha. Queria alguém que estivesse sentindo o mesmo que eu para que pudéssemos nos confortar em um abraço. E o abraço veio, mas foi o próprio médico quem me ofertou.

Muito sensibilizado e, visivelmente, chateado com minha situação, ele me ofereceu seus braços, suas orientações e uma carona. Aceitei só os dois primeiros. Voltei para casa sozinha. Precisava de um tempo comigo mesma, mas, ao mesmo tempo, não via a hora de me jogar no colo de alguém.

Felizmente, daquele dia em diante, todos à minha volta se empenhavam em fazer com que eu me sentisse bem. Minha família se uniu ainda mais, cada um fazendo sua parte para me deixar confiante. Era tanto amor, tanto envolvimento, tanta doação…

Senti que aquela doença era nossa, apesar de estar em mim. E, assim, compartilhado, o problema parecia menor e menos pior. Encarei o medo das sequelas da cirurgia de frente, pois sabia que eu continuaria sendo amada, independente do que acontecesse com minha fala. Entrei no bloco cirúrgico levando um pouco de cada um que me queria bem. Havia tanta gente falando de mim para Deus, tantas pessoas me conectando a Ele…

Confesso que esse carinho todo que foi constantemente demonstrado, dito, gritado, fez com que eu tivesse forças para ir adiante. O fato de ver meu sofrimento estampado em outros olhos me mostrou o valor que tenho. Eu estava frágil demais para aceitar que o tumor que tentava me consumir era problema meu.

Precisava muito de companhia. Precisava dividir a carga que a vida acabava de largar em meus ombros. Só assim teria condições psicológicas para enfrentar o que estava por vir. Se minha mente não trabalhasse a favor do corpo, o tratamento poderia ser em vão.

Boa parte do sucesso depende da maneira que o paciente escolhe encarar as coisas. Eu escolhi me unir a boas vibrações, a pessoas queridas e seguir as orientações dos especialistas. E foi assim que minha família, meus amigos, meus conhecidos, meus médicos, Deus e eu derrotamos o câncer. Acho que sozinha, eu não teria conseguido.

Não conseguiremos nos curar machucando os outros

Não conseguiremos nos curar machucando os outros

Todos temos nossos fantasmas, nossas lutas diárias, todos necessitamos enfrentar a nós mesmos, afogando o nosso pior lado, para que o bem vença dentro de nós. Diariamente, sem trégua. Viver é lutar pelo que se quer, pelo que não se quer, por quem amamos, por quem nos ama de volta. Infelizmente, nem sempre a vida dá certo, nem sempre a gente ganha, nem sempre o sorriso encontra morada em nós.

E então ocorrem os momentos de dor, de revolta, de culpa, de querer ficar sozinho, de querer morrer, sumir, desaparecer. Machucados por dentro, sem forças e sem motivos para acreditar em nada e em ninguém, acabamos externando nosso descontentamento aqui fora, na forma de agressividade, raiva, violência no falar, no agir, no não mais se importar.

E é exatamente nessas ocasiões que cometeremos injustiças, que escolheremos o erro, que seremos maldosos, frios e indiferentes justamente com as pessoas ao nosso redor que sempre acreditaram em tudo o que somos e podemos. Falamos o que não deveríamos, fazemos o que não poderíamos, agredimos quem desconhece qualquer motivo para agirmos assim. Afastamos de nós quem deveria ficar junto.

Infelizmente, nem todo mundo perdoa, nem todos entendem, poucos conseguirão perceber que ali, naquele momento, não era o nosso verdadeiro eu que estava agindo, mas um eu machucado e ferido. Com isso, cada vez mais estaremos sujeitos a ter de enfrentar sozinhos as escuridões perigosas que, inevitavelmente, vez ou outra adentram em nosso caminhar, porque tratamos mal aqueles que poderiam nos resgatar das nossas quedas.

É simples: ninguém pode sair do que dói fazendo com que alguém também sinta dor. O que nos afastará da ausência de luz será tudo o que traga luz, serão todos que confortam e acomodam os nossos medos com afeto sincero e recíproco. Ninguém sai do buraco cavando mais fundo, ou seja, deve-se olhar para cima, buscando aproximação junto à serenidade curativa do amor sincero que sempre estará nos rodeando.

Cultivar as pessoas que nos amam é o que nos salvará de nossas próprias misérias, sempre que escorregarmos nos escombros das tempestades recorrentes de nossas vidas.

Complexo de Cinderela

Complexo de Cinderela

Uma mulher que batalha por seus sonhos, se vira em mil e uma para dar conta da casa, dos filhos, do marido, do chefe; que tem uma vida sexual ativa e satisfatória, que paga suas contas e compra um vibrador com a mesma facilidade com que compra absorvente, simplesmente vai achar que a psicóloga Colette Dowling está louca ao afirmar em seu livro Complexo de Cinderela (Editora Melhoramentos) que “no fundo toda mulher quer ser cuidada e salva”.

Avançar as primeiras 40 páginas do seu livro é quase um suplício. Nada parece fazer muito sentido, entre outras coisas porque ela está falando de mulheres americanas (aparentemente conservadoras) que em plena década de 80 acreditavam, em seus íntimos, que somente um casamento podia ser a salvação de suas lavouras arcaicas.

Além disso, a narrativa é meio chatinha – muitos depoimentos, dados de pesquisa.

Todavia, à medida que respiramos fundo e avançamos na leitura é como se uma cortina se abrisse ante nossos olhos para um espetáculo que não queremos assistir: o medo da autonomia.

Uma mulher pode pilotar aviões, ganhar mais que seu parceiro, transar com quem quiser; ter amantes, comprar sapatos caros, chefiar empresas, porém isso não quer dizer necessariamente que ela tenha autonomia.

Ter autonomia significa dar sentido ao que de fato é importante para nós. É escolher com base nos nossos desejos e não com base no que o mundo espera de nós. E, claro, correr riscos! Aceitar responsabilidades e possíveis fracassos.

Segundo Dowling, nossa cultura não educa as mulheres para a autonomia, para encarar desafios e correr riscos. Espera-se sempre que as meninas sejam boazinhas, educadas, elegantes. A autora afirma que desde criança as meninas são mais protegidas que os meninos – enquanto as meninas são pegas no colo quando caem e recebem toda atenção e carinho, os meninos ouvem “não foi nada, só ralou o joelho, levante-se e vá brincar”. Nas palavras de Dowling:

“As meninas se convencem de que precisam ter proteção, sob pena de não sobreviverem (…) Esta primitiva indicação de ansiedade por parte da mãe – por alguns pesquisadores denominada supersolicitude apreensiva – leva a criança a duvidar de sua competência (…) Se para os meninos tarefas difíceis representam desafios, as meninas geralmente tentam evitá-las”.

Para a escritora americana, se antes o “Complexo de Cinderela” acometia somente as adolescentes que temiam abandonar o ninho, agora atinge mulheres adultas e bem sucedidas:

“Ele [o complexo] tende a atacar as mulheres já com curso superior, após terem experimentado o gosto do mundo. Quando as primeiras sensações inebriantes da liberdade se dissolvem, a ansiedade toma-lhes o lugar, as mulheres começam a se sentir incomodadas pelo velho anseio de segurança: o desejo de serem salvas (…) Obter sucesso, para muitas mulheres, gera pânico, porque traz ‘a ansiedade do desenvolvimento’, do desafio, do confronto”.

E conclui:

“A tendência feminina de apavorar-se de tal forma com a mera possibilidade de obter êxito causa o estrangulamento do próprio desejo”.

Sobre o casamento, Dowling  sugere que a maioria das mulheres que abandonam seus empregos após contrair matrimônio o faz por uma necessidade inconsciente de simbiose:

“O fato é que, aparentemente, o casamento ainda oferece a muitas de nós uma válvula de escape – um refúgio da autonomia, selado com a aprovação social. Externamente podemos dar a impressão de ser mais libertadas, mas o profundo medo experimentado pelas mulheres empurra-as para uma existência simbiótica”.

Em diversos trechos do livro a autora afirma que o desejo da mulher de ser cuidada emerge do medo de não conseguir sobreviver sozinha.

Ela também aponta algumas arbitrariedades do feminismo e explica que muitas vezes o movimento consolidou, de maneira indireta, a ideia de dependência nas mulheres:

 “O movimento feminista estava apenas começando na época, mas não enfatizava a noção de que às mulheres cabia assumir maiores responsabilidades por si mesmas. Pelo contrário: parecia sugerir que elas precisavam que se lhes dessem determinadas coisas – coisas que, tradicionalmente, lhes haviam sido sempre negadas: profissões, salários igualitários, direito de opinar a respeito de suas vidas… A ironia é que, ao passo que começamos a almejar mais, continuamos dependendo de outrem (de homens, em particular) para consegui-lo; queríamos liberdade, mas ainda não desejávamos a responsabilidade que segue”.

O livro Complexo de Cinderela apresenta dados estatísticos assustadores e fala bastante sobre medos, pânico, fobias, autossabotagem e dependência emocional. Mas, para além do desejo de ser cuidada – segundo a autora, intrínseco a toda mulher -, a questão que parece estar na base do problema é a autoconfiança e a ignorância para com a própria voz, os próprios desejos, ou seja, a autonomia.

O desafio seria nos tornarmos quem somos e não o que esperam que sejamos (ou nos ensinaram a ser) e não sentir culpa ou medo do fracasso quando não seguimos o modelo esperado pelos outros.

Uma leitura bastante indigesta, porém elucidativa.

(foto: Dina Goldstein)

Se o mundo tira você do sério, nem sempre o problema é você. Pode ser o mundo mesmo.

Se o mundo tira você do sério, nem sempre o problema é você. Pode ser o mundo mesmo.

Ahh… por favor, donas frases prontas! Deem um tempo, tá? Por gentileza, senhoras verdades absolutas, cavalheiros chavões, doutores clichês, tenham a bondade de tomar o caminho da rua. Esta alma aqui não sabe ler manual de instrução, não.

Aqui não cabem receitas, raciocínios-padrão, fórmulas mágicas. Não se aceitam conselhos vazios matraqueados em tom professoral. “Precisamos disso, devemos aquilo, somos assim, somos assado…”. Coisa mais chata! Não, aqui não, obrigado.

Que história é essa agora de remédio fácil para todos os males? Quem foi que inventou essa moda? Que negócio é esse de receitar tratamento sem olhar o paciente? De catalogar a problemática universal em meia dúzia de mandamentos furados, batidos, roubados de todo canto em completo descaramento?

Olhe em volta. Tem sempre alguém por aí, do alto de sua cara de pau, exibindo a verdade de todas as coisas, clamando a quem passa: “se não deu certo ainda é porque não chegou ao fim, porque você não se adaptou ao mundo, porque o mundo não muda, porque é você quem precisa se adaptar…”. E dá-lhe abobrinha. Dá-lhe blá-blá-blá.

Será mesmo? Será que “dar certo” não é uma coisa pessoal demais para ser reduzida a impressões e ensinamentos do primeiro charlatão posando de pensador?

Será que tanto discurso simplório não serve mesmo é para viciar as pessoas em alívios passageiros como drogas sintéticas? Será que não passa de pura covardia o velho expediente de dizer a todas as almas apenas o que elas querem ouvir?

Será que esse mundo de verborragia analgésica, conselhos irresponsáveis e poções mágicas oferecidos como em uma feira não tem feito mais mal do que bem? Será que essa enxurrada de conselhos pasteurizados, listas edificantes e lições universais não arrasta uma multidão perdida para conclusões de aluguel em vez de fazê-la pensar?

Concordo. Pensar dói. Sentir dor, então, é pior. Por mais necessária que seja, a dor de um sentimento rasga a carne da gente, né? Concordo que é mais fácil pular essa parte e se acomodar logo numa sensação confortável de bem-estar. Saltar depressa a um canto onde tudo é bonito e agradável mas, perdoem-me as madames verdades prontas e os cavalheiros jargões, é tudo falso. Descaradamente ilusório e mentiroso.

Ninguém quer sentir a carne rasgando. É melhor a anestesia de uma frase feita, um sentimento de encomenda, um chavão emocional, uma receita fácil. “Devemos isso, precisamos daquilo…”. Essas mentiras que nos contam em tom professoral. Esses cantos de sereias falsas que o desespero da gente aceita.

Não quero, não. Eu ainda tenho vergonha na cara. Não embarco nessa. A quem se interessar, ofereço o meu lugar na janela. Eu prefiro o caminho mais longo, a pé. Prefiro deixar a dor doer que encher a cara de drogas baratas, remédios genéricos e autoajuda paliativa. Prefiro falar sozinho a fazer coro com uma multidão de zumbis, famintos por sentimentos inventados, verdades alheias e resoluções definitivas.

E quando o mundo me tirar do sério, vou me permitir sem culpa cogitar que talvez o mundo é que esteja equivocado. Por que não?

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