Meu caso de amor é comigo mesmo. Mas de quando em vez eu pulo a cerca.

Meu caso de amor é comigo mesmo. Mas de quando em vez eu pulo a cerca.

Ser alguém que caminha sozinho é bom. Pouca coisa na vida é melhor. Nada nos dá sensação de poder tão grande quanto aceitar nossa condição de seres sós, autônomos, emancipados, livres.

Que privilégio maravilhoso é o sentimento de não depender de ninguém para nada. Que alegria é me dar conta de que não preciso de aprovação nenhuma para fazer o que quero, inclusive fazer nada. Ser só é um presente e eu agradeço todos os dias por isso. Mas confesso: de quando em vez eu saio em busca de outros amores. Tenho comigo mesmo uma relação aberta.

É sempre assim. Por mais longe e mais alto que seja o meu voo em companhia alheia, eu sempre volto para mim mesmo. Eu me pertenço. Não tenho ciúme, não fico inseguro. Não faço cena. Permito-me tomar outros rumos, dormir noutras camas, sonhar outros sonhos, sofrer outras dores.

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Sou livre para trazer amores novos à minha casa, apresentá-los a mim mesmo, um de cada vez, em encontros alegres de corações felizes. Por serem livres como eu, partem quando queiram, sem culpa, sem mais. E se esquecerem uma saudade aqui e outra ali, serão bem-vindas nas lembranças que celebro comigo mesmo de tardinha, quando o sol já se escorrega e a lua se insinua encantadora, linda, sozinha como nós.

Ao meu lado, sou alguém com quem adoro fazer a feira, jogar na loteria, jantar o que há na geladeira. Alguém com quem esperar o atendimento na fila do pronto-socorro, fazer contas, viajar junto revezando a direção do carro.

Sou alguém que tem amor por si mesmo. E que não se importa de dividi-lo com quem vier numa conversinha embriagada, um filme bobo, uma pia cheia de louça, um passeio no sol do parque ou no ar-condicionado da livraria. Essas coisas todas que, normalmente, faço comigo. Mas que às vezes também é bom fazer na companhia de quem vive do lado de fora de mim.

Ternura e um pouco de sacanagem

Ternura e um pouco de sacanagem

Imagem de capa:  nd3000/shutterstock

E foi crescendo, a cada toque e sabor, uma tempestade. Os lençóis arremessados, as roupas caoticamente distribuídas pelo chão e, como se não bastasse, melodias distintas podiam ser identificadas além das paredes. Fora feito um templo dionisíaco, onde, no mais tardar das horas, eclodiria a síntese daquilo que chamamos de amor. Mas era tesão, também. Porque sem esse tremor do lado de fora, o que fica dentro não aquece.

Digam o que quiserem, mas entre quartos silenciosos e janelas acinzentadas, existe tanta vida para dois corpos do que numa multidão eufórica à luz do dia. Trata-se da intimidade no seu mais puro consentimento. Não é para qualquer um, certamente. Construir essa aproximação excitante demanda, não apenas tempo, mas uma entrega desgovernada. Começa com carinhos amenos. Mãos sobrepostas, respirações tranquilas e olhares serenos. Conforme os sentidos ganham intensidade, lábios são tocados, odores reconhecidos e, não muito depois, paladares expostos.

Relacionamentos regidos por doses desmedidas de desprendimentos. Não há tabus, receios e possíveis morais para o transcorrer do acontecimento. Apenas sinestesia que não desafina, impede ou amedronta. Descrevo sobre confiança. É a cumplicidade pedindo passagem e carregando a sinceridade no colo, com ternura e um pouco de sacanagem.

Após intensos goles de prazer, o êxtase natural. Ofegantes, exalaram satisfação pela metamorfose ocorrida. Saúdam ambos. Com as pernas trocadas, os braços confundidos e os dedos desenhando na superfície da pele, curvam-se aos céus – e nem precisariam. Afinal, a libido dançou a noite inteira vestida de amor.

10 filmes Para Refletir Sobre a Complexidade das Relações

10 filmes Para Refletir Sobre a Complexidade das Relações

Todos nós passamos por momentos delicados em nossas relações. Seja pela falta de diálogo, pela insegurança que nos assalta hora sim hora não ou pela dificuldade de decifrar o que realmente se passa dentro da gente. Às vezes não estamos usando as ferramentas certas, os óculos certos, o microscópio ou telescópio certos e não conseguimos enxergar bem o que o outro quer ou mesmo o que nós queremos.

Ainda bem que existe a arte para nos ajudar nisso, para transmitirmos e para recebermos aquilo que não conseguimos dizer nem explicar. Seja literatura, pintura, teatro e por aí vai, a arte nos fornece equipamentos de ponta para a interpretação daquilo que já de mais profundo.

O cinema faz parte desse conjunto e o que apresento aqui é uma lista de filmes que colocam em xeque tudo o que acreditarmos saber sobre o relacionamento afetivo e amor romântico. Confira:

Cenas de Um Casamento (1974)

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Lançado originalmente como uma minissérie para a TV sueca, o filme trabalha bem os aspectos da aparência social e externa do relacionamento – neste caso, do casamento entre Johan e Marianne. Ambos aparentam ser o exemplo de casal feliz, bem resolvido e bem sucedido, até que a visita de outro casal de amigos em crise expõe as rachaduras que Johan e Marianne fingiam não existir.

Este longa-metragem possui a densidade característica de Bergman e é um mergulho profundo nas águas do ressentimento e das intenções ocultas.

Amor Pleno (2012)

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O diretor americano Terrence Malick pode ser considerado descendente direto de Andrei Tarkovsky. Quase sem diálogos e filmado inteiramente com luz natural, o filme segue a proposta de construir narrativas por fluxo de consciência, iniciado em “O Novo Mundo” e aprimorado em “A Árvore da Vida”. Intercalando imagens da natureza, que funciona como espécie de dramaturgia paralela, “Amor Pleno” ensaia um olhar demorado na relação de um homem do interior dos Estados Unidos que leva a namorada francesa e a filha dela para morarem com ele. A partir daí, acompanhamos os lapsos de afeto, decepção, solidão e questionamento existencial que cerca cada um de nós.

A todo momento, somos impelidos a questionar intimamente os aspectos que caracterizam o amor romântico. Além disso, há também na história um padre que passa a questionar outro tipo de amor, convidando-nos a assistir sua discussão particular com o divino.

Latitudes (2014)

 

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Olívia e José são pessoas profissionalmente realizadas, viajando de uma parte para o outro do mundo, sempre a negócios. Depois de um primeiro encontro em Paris, eles passam a se encontrar sempre em um país diferente e aos poucos vamos conhecendo aspectos de suas vidas que voluntariamente omitem um do outro. O Filme foi lançado primeiro com uma websérie com oito capítulos, cada um com um destino diferente. Depois foi compilado e lançado em um único filme. Em cada um desses capítulos somos apresentados também à vida individual de cada um, decifrando melhor suas personalidades. O capítulo sete, de longe o melhor, é uma aula de roteiro que proporciona o momento mais significativo e catártico da trama.

Infiel (2000)

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Um filme arrebatador! Com grandes doses autobiográficas do explosivo e genial diretor sueco Igmar Bergman– que deixou o roteiro aos cuidados de sua discípula Liv Ullmann, responsável pela direção do mesmo depois da morte de Ingmar. O filme retrata o trágico caso entre Marianne, uma atriz bem sucedida e com um ótimo casamento, e David, o melhor amigo do também bem sucedido maestro Markus, marido de Marianne (sim, Markus e Marianne se amam e sim, eles são felizes no casamento).

Expondo de maneira dolorosa e angustiante afetos como desejo e culpa, o longa é uma verdadeira lição sobre a natureza trágica do amor romântico e também sobre a insuficiência da nossa condição humana.

Transylvania (2007)

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Este drama francês é sobre uma garota italiana que viaja com sua melhor amiga para a Transilvânia em busca daquele que ela acredita ser o amor da sua vida. Acompanhamos sua jornada e somos presenteados com imagens estonteantes de festas e lugares culturalmente ricos. Apesar de algumas surpresas ruins, a moça acaba por descobrir que pode estar no lugar certo e na hora certa. Afinal, o acaso também faz parte das relações.

Hiroshima, Meu Amor (1959)

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Atingindo o limite entre literatura e cinema, o filme precursor do movimento Nouvelle Vague conta a história de um caso amoroso entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês em plena Hiroshima dos anos 50. Primeiro filme a usar cenas de flashbacks, a produção é também uma profunda reflexão sobre o tempo e sobre a memória.

Dois grandes riscos aos assistir o “Hiroshima, Meu amor”: amar Nevers incondicionalmente e, se você for escritor ou roteirista, ser contaminado por um longo tempo pelo conjunto de relações formais do filme dirigido por Alain Resnais e com roteiro da escritora Marguerite Duras,  que mais tarde viria a ser laureada com o Prêmio Goncourt.

Closer (2004)

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“Closer” mostra a instabilidade emocional de quatro personagens. É um tapa na cara em muitos momentos, pois evidencia muitas das neuras, inseguranças e questionamentos que nós temos e que não somos capazes de expor ou admitir em nossos próprios relacionamentos. Muitos dos nossos próprios medos e desejos são eviscerados fria e calculadamente neste ótimo drama.

Annie Hall (1977)

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Embora tenha sofrido com uma tradução quase dantesca de tão ruim (o título foi traduzido e lançado no Brasil como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”), este talvez seja o retrato mais divertido e ainda assim sincero de uma relação amorosa de que se tem notícias. O curioso é que Woody Allen nunca quis fazer humor com o filme. Nele, acompanhamos o comediante neurótico Alvy, que começa a refletir sobre sua vida depois de terminar com Annie, ao mesmo tempo em que se envolve com uma garota muito mais jovem que ele.

Separações (2002)

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A comédia romântica de Domingos de Oliveira é outro exemplo de profundidade e bom humor. Cabral e Glorinha (nomes pra lá de rodrigueanos) resolvem dar um tempo do casamento, mas Cabral não cabe em si de revolta e ciúmes quando descobre que Glorinha se apaixonou por outra pessoa. Arrependido, ele faz de tudo para ter a esposa de volta e envolve em sua trama uma gama de outros personagens curiosos e interessantes. A questão aqui é: é realmente melhor se arrepender de ter feito algo do que de não ter feito?

Ela (2013)

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Sei que é lugar comum colocar este filme em listas deste tipo, mas creio ser necessário assim mesmo. É que não são todas as pessoas que conseguem captar a imensa solidão que permeia toda obra. Não é apenas sobre um homem que se apaixona e se relaciona por seu sistema operacional, é também sobre como estamos cada vez mais solitários no meio da multidão, sobre o desespero que silenciosamente toma conta de nós. Mesmo a tecnologia – com a qual nos relacionamos constantemente ou da qual fazemos uso para nos relacionarmos com outra pessoa que pode estar a quilômetros ou a metros de distância – pode agravar o isolamento antes de nos abandonar. Antes temíamos a solidão, hoje temos medo de companhias reais.

Cuide da sua vida que da minha cuido eu

Cuide da sua vida que da minha cuido eu

A maneira como lidamos com as críticas que recebemos diz muito sobre como somos. Não para quem nos observa através da crítica, mas para nós mesmos.

Se nos incomodamos profundamente com uma crítica, se sentimos raiva e desconforto é porque talvez, em nosso íntimo, concordemos com a crítica, mas não gostamos de admitir.

Quem está plenamente seguro de suas habilidades, potencialidades, personalidade, aparência e escolhas, ou seja, quem está com a consciência tranquila não costuma se abalar ao ouvir algo que não seja compatível com o que pensa de si mesmo e com o que faz. Simplesmente ignora o que ouviu, não sente necessidade nem de argumentar. Não sente necessidade de se explicar. E em alguns casos, até ri.

Ao passo que quem se incomoda com a crítica que recebe e tende a discutir, brigar, argumentar, chorar, pensar obsessivamente no que ouviu e/ou reproduzir a conversa para outros amigos – buscando apoio em sua causa! – demonstra temer que a crítica tenha algum fundamento.

Aprendemos com o senso comum que existem críticas construtivas e críticas negativas. Eu, particularmente, não acredito nisso. Acredito que toda crítica é construtiva quando feita por pessoas próximas, que nos amam e querem o nosso bem.

A diferença está na maneira de falar, no jeito de dizer, na abordagem e na capacidade de sentir empatia.

Se somos cuidadosos e elegantes com nossas palavras em todos os momentos de nossas vidas, se demonstramos (sentimos) empatia com o problema do outro, saberemos criticar com carinho. Mas se formos afeitos à violência, à deselegância, à total falta de empatia, o que teremos para oferecer será violência verbal.

Muitas pessoas confundem crítica com violência verbal. A violência verbal, sim, é negativa, pois visa denegrir, agredir, machucar, ferir. A crítica, não! Se usarmos a crítica a nosso favor – e ignorá-la, muitas vezes, é uma forma de usá-la a nosso favor, uma vez que reforça, ratifica o que pensamos sobre nós mesmos e nossas escolhas – poderemos extrair dela bastante aprendizado e crescimento.

No dicionário, uma das definições de crítica é “arte de criticar ou censurar”.

E quem é que gosta de ser censurado? A censura, de cara, sugere que estamos errados, não? Daí o desconforto! Errar não faz parte do nosso plano original (ser perfeito).

Ao sentirmos raiva de um amigo, irmão, namorado (a), tia, mãe, pai, papagaio ou chefe por uma crítica recebida, muitas vezes estamos sentindo raiva de nós mesmos, raiva por não termos sido suficientemente bons para ocultar o erro que eles teimam em esfregar em nossas fuças.

O mais proveitoso seria refletir, pensar nos motivos que despertaram o nosso incômodo, mas o que fazemos? Adotamos a filosofia do “mate o mensageiro”. Afinal, é muito mais fácil dizer (pensar) que o outro é injusto, grosseiro, perverso e invejoso, se afastar dele (ou travar uma batalha), reclamar do outro para os amigos, do que mergulhar no nosso medo de estar errado – quando mergulhamos nesse medo somos obrigados a repensar nossas escolhas, repensar nossa responsabilidade e, quem sabe, até, a mudar de atitude.

É preciso, sim, passar uma peneira em tudo o que ouvimos a nosso respeito, ao nosso estilo de vida, às nossas escolhas. Mas é preciso, também, saber ouvir o que (aparentemente) não nos convém – inclusive para ter a certeza se não nos convém mesmo ou não.

Quem se magoa, se decepciona, se frustra e se enraivece em demasia com uma crítica, não percebe que está reforçando para o outro e para si mesmo que existe fundamento na crítica. Matar o mensageiro não vai resolver o problema. Observar, avaliar, refletir, aceitar, enfrentar o medo e mudar, talvez.

Os cães ladram e a caravana passa, certo? Certíssimo! Mas para a caravana passar ela precisa estar com as carroças em dia, rodas fortes, e ter um bom condutor de cavalos segurando as rédeas: você.  Portanto, para não se abalar com possíveis latidos é bom mandar a carroça emocional para a revisão e ajustar as rodas da autoestima (autoimagem) antes de colocar o pé na estrada.

E para aqueles com quem não temos intimidade e não conhecem a nossa história de vida, nossas motivações, dores e alegrias, porém mesmo assim insistem em meter o bedelho onde não foram chamados, que tal sorrir e apenas dizer: “Você não está credenciado para falar sobre esse assunto”?…

Sou senhor do meu destino

Sou senhor do meu destino

“Todos nós morreremos um dia. Não podemos escolher como ou quando, mas podemos decidir como vamos viver. Então faça, decida, escolha. É esta a vida que você quer viver? É esta a pessoa que quer amar? É este o melhor que consegue ser? Você pode ser mais forte? Mais gentil? Mais compassivo? Decida. Inspire. Respire. E decida.” Meredith Grey

Nunca antes na história tivemos tanta opção e liberdade para escolher. Em um universo de inúmeras possibilidades e oportunidades escolher muitas vezes é complexo, e é comum que sejamos inundados e até paralisados pelas dúvidas. Acredito que isso acontece porque racionalizamos demais nossas escolhas. Talvez então a razão nem sempre seja a melhor ferramenta na hora de escolher.

O peso de nossas escolhas e nossa maneira de escolher muda muito conforme vamos amadurecendo. As crianças dominam a arte de escolher com o coração. Quando crescemos passamos a racionalizar toda e qualquer escolha, a pesar as consequências, a ter muitas dúvidas, a sentir culpa e remorso. Claro, não é uma boa ideia escolher sempre tão impulsivamente como uma criança, a maturidade é de fato um acervo valioso, mas é preciso sim aprender a equilibrar melhor essa balança.

A palavra coragem vem do latim “coraticum”, que literalmente significa “a ação do coração”. Muitas vezes coragem é aprender a escutar nossos desejos mais profundos, aquilo que nos faz bem mesmo que não tenha lógica alguma, ter coragem é aprender a escolher com o coração. Geralmente as escolhas mais autênticas são aquelas feitas pelo coração.

Todos os dias fazemos pequenas ou grandes escolhas que aos poucos vão escrevendo nossa história “a vida é ligar os pontos, mas só conseguimos ligá-los olhando para trás” disse Steve Jobs. Nesse processo, precisamos acreditar em nossos instintos, desenvolver segurança e confiança de que sabemos o que é bom para nós e escolher. Precisamos também conhecer nossas prioridades, segurança, amor, reconhecimento, dinheiro. Escolha a sua.

Para a psicologia, a chave para escolhas saudáveis está em ampliar nosso mapa mental. Temos que incluir nele um leque maior de possibilidades, para que exista mais flexibilidade na hora de decidir. Quanto mais “estreito” o mapa mental de uma pessoa, menos possibilidades caberão nas suas escolhas e mais limitadas elas serão.

Outro fato comum é acharmos que porque algo nos aconteceu no passado como consequência de uma escolha, todas as vezes que escolhermos parecido sofreremos as mesmas consequências. Tudo isso parece fácil de resolver na teoria, o problema é que temos “amarras” em nossos mapas mentais que nem sempre são conscientes. O esforço vem em desconstruir crenças engessadas e aumentar o campo de visão. Para fazer escolhas mais completas e saudáveis é preciso ampliar o mapa mental e aprender a analisar os fatos como eles se apresentam, com os recursos que existem no momento da escolha.

Conta a história que Thomas Edison falhou inúmeras vezes antes de inventar a lâmpada elétrica, quando questionado como se sentia por ter errado tantas vezes, ele respondeu “Eu não falhei, apenas encontrei 10 mil maneiras de como não se fazer uma lâmpada”. Por mais parecida que seja, nehuma escolha é exatamente a mesma, nenhum erro ou aprendizado são iguais. Cada situação, pessoa, cada escolha é única.

E na hora de escolher temos que levar em conta que não existem escolhas que tragam apenas boas consequências, tampouco existe uma escolha ideal ou perfeita. Aliás, o perfeccionismo pode ser muito prejudicial na hora de escolher. Escolher, na maioria das vezes nada mais é do que um ato de coragem, do que um grande jogo de sorte ou azar.

Escolher é abrir uma porta e fechar muitas outras, é ganhar oportunidades e perder tantas outras, é arriscar e apostar as fichas em algo que pode ser muito bom, ou não. Mas, de qualquer forma só existe uma maneira de saber. A sabedoria na hora de escolher vem ao lembrarmos que nada na vida é estático, permanente, e que podemos sim mudar de ideia, a qualquer momento; tomar novos caminhos, escolher diferente, melhor, pior. Arriscar. Errar. Acertar.

Liberdade para mim tem muito a ver com a proatividade ao escolher, pois se você não escolher, alguém fará suas escolhas por você. Quem não escolhe, é escolhido. Assim, caminhará pela vida passivamente, e me parece um desperdício de energia vital deixar que nosso destino seja traçado pelos outros. O poema “Invictus” termina com um trecho que levo como mantra e que me convida a fazer minhas próprias escolhas: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o comandante da minha alma”.

Sejamos todos senhores e senhoras de nossos destinos e comandantes de nossas almas.

Decida. Inspire. Respire. Escolha.

Por um mundo com menos reclamação e mais gratidão

Por um mundo com menos reclamação e mais gratidão

Se te perguntarem como você está, mesmo com tanta coisa indo mal, diga que está bem, sinta que está tudo bem até que o céu fique azul, até que a simplicidade do olhar dissolva seus problemas.

Quando te perguntarem como vai o amor, a saúde, os planos, as finanças, não pense no seu bolso, nos seus desenganos, nos seus medos. Apenas diga e sinta que está tudo bem, sorria antes dos pensamentos virem vomitar os dilemas da vida. Acredite ou não, isso é uma revolução!

Acho que reclamar demais faz mal à saúde e contamina tudo em volta.

Reclamar demais pode ser um ato comodista e nada político. Prefiro aquelas pessoas que sempre sorriem e dizem que está tudo bem, apesar de todas as mazelas que as circundam. Eu acho que ver o peso e as sombras da vida cotidianamente, reclamando e empurrando os dias com a barriga, sem fazer nada para mudar é uma atitude que gera energias negativas no mundo. Reclamar demais corrompe nossas mentes, nos tornamos seres rabugentos, sem cor, cansados, andando pela vida como se ela fosse um fardo.

Acho que reclamar um pouco de vez em quando é bom, desabafar é importante para desacumular o que ficou preso no corpo, sem possibilidade de expressão, chorar e xingar pode ser ótimo para acalmar o coração.

Mas reclamar demais, todos os dias, é um comodismo, é um vício de alguém que não quer vasculhar o profundo de si mesmo, não está a fim de empreender grandes mudanças internas, fica nessa de regurgitar nos ouvidos alheios as mesmas chatices, as mesmas frases e histórias , fica nesse enredo manjado de falar mal da vida, de colocar a culpa em tudo e em todos. São pessoas que inventaram essa lente cinza de ver o mundo, e têm mania de nunca estarem satisfeitas, mas também não ousam fazer nada para mudar.

É mais fácil reclamar, falar dos problemas do que encontrar e colocar em prática soluções. É mais fácil despejar nos outros as culpas e ficar na posição de vítima. É mais fácil dizer que a vida não tem sentido do que tentar mudar a estrutura do próprio pensamento e encontrar por aí belezas acessíveis. É mais fácil se adaptar a uma realidade, se ajustar aos roteiros predestinados, do que ter criatividade e coragem para trilhar outros caminhos.

Falta gratidão, flexibilidade e deslocamento no olhar! A gente tende a cuspir no prato que comeu ou a fazer descaso com a vida, sem perceber os tantos presentes que recebemos, os aprendizados, as sabedorias. Focamos nossa atenção na dor, na falta, no que ainda não veio, no que ainda não somos e não temos. Esquecemos de perceber que a vida não precisa ser um caminhar sem sentido, esquecemos de perceber que não são os grandes acontecimentos que colorem nossos dias, esquecemos de olhar nossas tristezas com carinho, e as nossas realizações com ritos e festas, esquecemos de dizer bom dia para o vizinho e agradecer os encontros inusitados, o motorista do ônibus, a flor que nasceu no asfalto…

Eu acho que falta gratidão, falta paixão, falta amor. Não necessariamente você precisa sair nas ruas e mostrar sua voz e seus descontentamentos. Manifestação começa por dentro. Acho que a gente pode fazer grandes revoluções internas que vão inundar e atingir as pessoas à nossa volta. Eu acho que a gente pode escolher ser feliz agora, sorrir, gostar mais de si mesmo, cuidar do corpo e da mente.

Acho que a gente pode escolher tratar uns aos outros com carinho e não com raiva e frustração. Acho que a gente pode assumir a responsabilidade do nosso próprio estar no mundo. A gente pode dizer ‘não’ para os excessos no trabalho, para os abusos nos relacionamentos, para estilos de vida que acabam com os nossos bons sentimentos.

A gente pode escolher dançar a própria dança, aquela que vem da alma e que foge do que os olhos dos outros vão dizer.

A gente pode escolher ser mais feliz, ser menos julgado, mandar um foda-se para o recalque alheio.

E assim, a gente pode viver mais sereno, pleno e consequentemente fazer mudanças na nossa alma e no nosso mundo. É isso que eu chamo de micropolítica: o autoconhecimento em prol de uma sociedade mais harmoniosa.

Espero que a gente aprenda a reclamar menos e a agradecer mais, pois a vida está aí para ser degustada pelos sentidos de quem sabe apreciá-la.

Nossa vida não é um livro aberto. Tem coisa que ninguém precisa saber.

Nossa vida não é um livro aberto. Tem coisa que ninguém precisa saber.

Ahh… eu tenho tanta inveja de quem se envaidece de não ter o que esconder. Gente que bate no peito e declara: “minha vida é um livro aberto”, como um salvo conduto para alardear o que faz de certo e o que não faz de errado. Eu tenho muita inveja dessa gente impecável.

Quem dera minha vida fosse um conjunto de fatos louváveis, perfeitos, exemplares. Gestos lapidares comentados com admiração em todo canto. Mas não é, não. Eu tenho muito o que não mostrar. Meus preconceitos e intransigências, minhas ranhetices e mediocridades. Minhas pequenezas inevitáveis, minhas vergonhas e meus pecados.Tem coisa que só interessa a mim. No máximo, a uma ou outra alma disposta a folhear minhas páginas e depois fechar o livro de novo, com fastio ou com repulsa.

Ainda que a perfeição me fosse franca, Deus me livre de exibi-la por aí como quem busca um prêmio. Contar pra quê? Guardo comigo. Bem diziam a minha avó e a sua: em boca fechada não entra mosca. E de lá também não sai o que não tem de sair.

O universo que me perdoe, mas gente autorreferente e cabotina, sempre afeita a repetir elogios a si mesma, me dá náusea. Vão me desculpar os falastrões, mas quem divulga de graça o que faz de bom, quem se orgulha de uma canalhice e quem começa uma frase dizendo “eu costumo dizer que…” não merecem um pingo de confiança. Dão em mim uma vontade imensa de sair correndo até bem longe, para fora do alcance de quem se acredita tão importante a ponto de citar a si mesmo e a relevância do que “costuma dizer” por aí.

Nossa vida não é um livro aberto, não. Tem coisa que ninguém precisa saber. Contar em todo canto o que ninguém perguntou, para agradar ou atacar, é nada senão uma medonha chatice. Diferente do que pensa sobre si mesmo, um linguarudo não é alguém interessante e admirável. É uma criatura antipática e enfadonha. Um livro que, embora escancarado, ninguém quer saber de ler.

Por uma vida com mais motivos para achar graça e perder o fôlego

Por uma vida com mais motivos para achar graça e perder o fôlego

A rotina em excesso pode configurar uma droga lícita com altos poderes viciantes e até letais. Tudo em nome de uma tal de “excelência”. Mas que porcaria é essa, afinal?
Vivemos sendo assediados por “métodos para melhorar a performance”; “coaching para turbinar a vida financeira”; “bônus para bater as metas no final do mês”; “treino de crossfit para derreter todas as gorduras do corpo”; sem falar naqueles “métodos infalíveis para ser popular, desejável e exercer seu magnetismo pessoal”.

Ufa! Não há quem aguente um bombardeio desses, sem sair com alguns pedaços – físicos, mentais, e espirituais – perdidos por aí, enquanto se tenta infrutiferamente ganhar o prêmio de: o maior, o mais rápido, o mais bem-sucedido, o mais forte, o mais bonito, o mais foda.

Tem, por exemplo, o caso daquele cara que se matou de trabalhar para ter uma casa chique com piscina naquele bairro super classe alta da cidade, onde o metro quadrado é mais caro que uma viagem à praia (ah, sim essa comparação procede). Acontece que o cara comprou a tal casa. Mora lá há dez anos, e nunca, NUNCA deu um único mergulho na maldita piscina. Por quê? Porque não tem tempo nem de se coçar, imagine de nadar.

Se o cara obcecado pela casa com piscina tivesse dado a si mesmo o direito a alguns fins de semana na praia, numa pousadinha despretensiosa mesmo, muito provavelmente não teria conseguido adquirir a citada propriedade, mas também, muito provavelmente, seria mais feliz.

Sim, é claro que algum tipo de rotina é indispensável, ou inevitável. A maior parte de nós, responde pelo próprio sustento. Alguns de nós, responde, além do próprio, pelo sustento de outros. E, é bem verdade, que quase tudo nessa vida custa dinheiro. E também é bem verdade que dinheiro ainda não dá em árvore. Logo, temos hora para acordar, horas a trabalhar, temos que comer, dormir, tomar banho, atender necessidades físicas inadiáveis. Só aí, já se vai quase o nosso dia inteiro, percebe?

Portanto, seria no mínimo algo a se considerar, trabalhar em algo que nos trouxesse alguma coisa além de apenas dinheiro; que a gente pudesse acordar tendo o prazer de um “bom dia” amoroso e gentil; que a gente tivesse a delicadeza de levar à boca algo que seja mais do que alguma “gororoba pronta e processada”; que ao dormir, tivéssemos a leveza psíquica necessária para sonhar e deixar vir à tona, nossas inúmeras vontades reprimidas; que o banho fosse um momento de lavar o corpo e o peso invisível das cobranças e obrigações; e que as nossas necessidades físicas fossem atendidas, porque tem gente que – PASME! –, segura o cocô e o xixi, porque não teve tempo de ir ao banheiro! Como assim?!

Mas, de verdade, tudo isso pode ser revisto, revisitado e transformado. Se no meio de toda essa pressão, a gente achar um jeito de viver, apenas viver. Isso já é alguma coisa. E viver, passa por permitir-se aquelas coisas lindas que fazem a gente achar graça em estar vivo.

Sim! Rir ainda é um dos remédios mais milagrosos deste mundo. E além de um sorriso no rosto, quem sabe a gente não arranje coragem para uma extravagância, algo que nos tire o fôlego… tipo um beijo dado na curva da orelha, sem nenhuma pressa, sabe?

Ahhhh… você sabe! Você sabe. E eu também sei. Que a vida que a gente leva, é a vida que a gente acredita merecer. E, sim haverá momentos difíceis. E crises. E alguma doença que nos tire o sono. Não há como evitar as dificuldades e as más surpresas. Mas, é nosso dever e direito, cuidar para que nossa vida não se resuma a isso. Viver é maior! É mais bonito, quando esperamos da vida o presente que mais secretamente desejamos, e acreditamos que somos merecedores de recebê-lo!

Não consegue superar um problema? Parar de falar sobre ele pode ajudar

Não consegue superar um problema? Parar de falar sobre ele pode ajudar

“Eu devia fazer isso”. “Eu devia fazer aquilo”. “Preciso parar de pensar nisso”. “Preciso parar de lembrar daquilo”. “Não quero mais pensar nisso”. “Durmo e acordo pensando nisso”. “Preciso encontrar uma forma de resolver isso e quanto mais eu penso menos encontro a solução”.

“Por que, simplesmente por que, não consigo parar de pensar nisso”?

Simples: porque sua mente está tentando proteger você.

Toda neurose, toda ideia obsessiva, é um mecanismo de proteção.

Nos apegamos a dramas, dores e problemas corriqueiros para não fazermos contato com o que mais tememos, com emoções e situações que nos parecem ameaçadoras.

É natural ficarmos tristes após o rompimento de uma relação. É natural nos preocuparmos com a nossa saúde. É natural temermos perder o emprego em tempos de crise, assim como é natural temer a perda de um ente querido.

No entanto, quando permitimos que esses receios tomem conta do nosso dia e se repitam a cada pausa que fazemos para o café, durante o banho, durante as refeições, no trânsito – fazendo com que nossas noites sejam mal dormidas – nos tornamos reféns de nossas ideias obsessivas.

Existe um ditado popular que diz: “Se não consegue superar um problema, ao menos deixe de falar sobre ele”.

O psicanalista Contardo Calligaris escreveu sobre este assunto no artigo “Palavras de amor”:

“Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias generalizadas (quem sabe fatais). Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida: a gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre que se coçar não é um alívio, mas um prazer autônomo em si. (…)  Basta se calar um pouco, assim como é suficiente não se coçar para que as picadas de mosquito parem de incomodar”.

Lembrando que sentimentos podem se tornar pensamentos e pensamentos podem se tornar palavras ou ações como, por exemplo, escolher ouvir todos os dias aquela maldita música de cortar os pulsos somente para coçar a ferida de algum abandono.

Mas nós não procuramos sarnas para nos coçar porque queremos e sim porque ao nos distrair com a coceira, deixamos de pensar no que realmente nos angustia.

É muito melhor sofrer por um amor perdido, por exemplo, do que pela sensação incômoda de não estar conseguindo atingir os próprios objetivos e sonhos traçados. A dor de amor é conhecida, todos nós já a experimentamos e, por mais que estejamos no fundo do poço, sabemos que ela passa. Já encarar o medo do fracasso nos olhos e ser obrigado a assumir a responsabilidade pelo caos que está a nossa vida, aí são outros quinhentos.

Quanto mais uma ideia se torna repetitiva, obsessiva, quanto mais você pensa sobre um determinado assunto, mais isso quer dizer que você está fugindo de algo maior e que teme não ter estrutura para lidar com determinada realidade.

Os pensamentos obsessivos tendem a nos paralisar, pois em geral são filhos do medo –  de ser abandonado, de fracassar, de ser rejeitado, de não dar conta, de não ser aceito, de não merecer, de perder – e não existe nada mais paralisante nessa vida do que o medo.

Tais pensamentos podem até nos proteger num primeiro momento, mas depois se tornam um transtorno, um estorvo, nos impedindo de progredir, crescer, evoluir, conquistar, realizar.

Que tal parar para pensar nas sarnas que você anda coçando? O que você perderia, de fato, se abrisse mão dessa coceira?

Que dívida é essa que a gente insiste em cobrar da vida?

Que dívida é essa que a gente insiste em cobrar da vida?

Gratidão é palavra do momento, especialmente quando as coisas dão certo e estão perfeitas aos nossos olhos, julgamentos e anseios. Então divulgamos a dádiva a plenos pulmões, compartilhamos o êxito e vibramos com o merecimento.

O que era para ser um um gesto natural, obrigatório para as consciências conectadas com o fluxo da vida, anda um tanto exacerbado. De todas as formas, melhor a gratidão ruidosa do que a sua gêmea má que nada agradece.

Mas, como nem tudo são flores e gratidões, nem vitórias, nem conquistas, difícil mesmo é ser grato às frustrações pelas oportunidades de enxergar um outro caminho, uma nova perspectiva.

Nessa hora a gente pega a fatura vencida e apresenta para a vida, como o filho mimado que corre chorando para dentro de casa com o brinquedo quebrado, exigindo a compra de outro, como se não fosse sua escolha levá-lo para brincar na rua.

A maioria de nós ainda age assim. Cobra da vida uma dívida que ela não tem conosco. Ataca a sorte, responsabiliza as circunstâncias, amaldiçoa o acaso, exige garantia infinita contra perdas, danos, terceiros e eventualmente, si próprio.

A gratidão se recolhe no meio da fatura tão grande e impagável emitida contra a vida dos que julgam possuir o passe exclusivo, a chave da sala vip onde nenhuma contrariedade é permitida.

Mas, assim como o tempo, a vida não dá bola para nossas tolas lamentações, e, frustrados e mimados que somos, como não conseguimos atingir a verdadeira culpada, vamos para outras direções, e então distribuímos sem economia o nosso mal humor, pessimismo, irritação, impaciência, raiva e todos os derivados e agregados que engrossam o time das frustrações.

Quando a gente aprende que a vida não nos deve nada e as escolhas são passíveis de fracasso, as contas são perdoadas, as dívidas caducam, as culpas se eximem e se transformam em gratidão consciente e libertadora.

Não há nada mais erótico do que uma boa conversa

Não há nada mais erótico do que uma boa conversa

“Não há nada mais erótico do que uma boa conversa.” E isso pode soar estranho, porque estamos saturados de conversas rasas, com pessoas rasas, falando sempre as mesmas coisas, sem o menor interesse e chegando a lugar nenhum.

Mas, uma boa conversa, uma diálogo de verdade, é o que há de mais erótico em uma relação, porque são as palavras que mostram os poros do rosto da vida e isso é muito mais belo e excitante do que enxergar o tempo inteiro maquiagens em rostos que transpiram falsidade.

Uma boa conversa é aquela em que não temos medo de dizer nada. Tudo pode ser dito, colocado na mesa, debatido, rebatido, formulado, reformulado. As palavras são lançadas como o fluxo do nosso pensamento, mostrando o que realmente pensamos sobre as coisas, sem hipocrisia ou fingimento; a nossa bagunça interior representada por palavras que sempre querem dizer alguma coisa, mas nem sempre encontram a organização semântica necessária; mostrando a alma despida e escancarada, pronta para ser tocada.

E porque a alma está escancarada, fala-se sobre tudo, desde os assuntos mais triviais aos mais existencialistas. Conversa-se sobre a preguiça que sentimos ao acordar cedo, a quantidade de açúcar que gostamos no café, sobre música, cinema e política, sobre o pé na bunda mais engraçado que já levamos, o momento de maior constrangimento, o primeiro amor, discute-se a existência de deus, a felicidade, o amor, para que lugar se vai após a morte, sobre o que queremos da vida e o que já estamos de saco cheio.

As frustrações, os medos, as angústias, as imperfeições, os pecados silenciosos, deixados em oculto. Ou seja, uma boa conversa é aquela em que as almas encostam-se e beijam-se, procurando não separar-se e encontrar pontos que as tornem mais conectadas e apaixonadas.

Por estarmos imersos em relacionamentos tão superficiais, talvez seja difícil acreditar que existam relacionamentos humanos em que a conversa exerce o enlace erótico entre as pessoas, de modo a torná-las insistentemente desejosas por mais do outro. Entretanto, é justamente pela falta de comunicação que estamos carentes de pessoas interessantes, capazes de nos “prender” por horas, como se fossem minutos, tão somente pela troca de palavras que imergem em todos os cantos do nosso ser.

Na maior parte dos relacionamentos, sejam entre amantes, amigos, familiares, etc., o que vai afastando as pessoas e, consequentemente, permitindo desabar a ponte que as une e no seu lugar fazendo emergir barreiras, reside na maneira como lidamos com o mundo que forma o outro. Ou seja, é preciso viajar no mundo deste, comprar a sua loucura, a sua dor, os seus sonhos, para que deixemos de pensar apenas em nós mesmos, para que possamos sair do nosso mundo e interagir com o mundo do outro, e, assim, compreendê-lo.

Sendo assim, a comunicação é imprescindível para que duas almas se mantenham juntas e apaixonadas, já que, quando deixamos de ter interesse no universo que compreende uma alma distinta da nossa, tornamo-la pequena e, então, o outro se fecha para nós, bem como, a paixão se esvai, porque já não existe eroticidade nas palavras, as quais, não raras vezes, deixam, inclusive, de ser ditas.

Se há algo de divino no mundo, sem dúvida alguma se manifesta no espaço colocado entre duas almas que anseiam para se tocar e isso só é possível quando permitimos que estas dialoguem com verdade e beleza, pois somente, dessa forma, tem-se a eroticidade necessária para transformar duas almas distintas vagando pelo nada em duas almas conectadas, compartilhando a vida em suas grandiosas imperfeições e nos seus pequenos milagres, já que mesmo depois do gozo do corpo, as palavras sempre permitem a continuidade do gozo na alma.

O amor é abrigo em uma feroz tempestade. O amor é paz no meio de uma guerra

O amor é abrigo em uma feroz tempestade. O amor é paz no meio de uma guerra

Hoje é aquele dia típico em que eu gostaria de olhar em teus olhos e dizer que vai ficar tudo bem. Segurar em tuas mãos e dizer que a tempestade vai passar e que eu estarei aqui com você. Hoje seria o dia em que eu desejaria te surpreender com uma passagem para um lugar qualquer desse mundão, como quem arranca um sorriso teu com a calmaria de um lugar tranquilo.

Hoje é o dia em que eu desejaria o teu abraço forte como quem sufoca e quebra todos os meus medos. Aquele calor de duas almas que se encontram num abraço de saudade.

Hoje eu queria poder te dizer que as coisas vão dar certo e, por mais complicado que seja, tudo se ajeita aos poucos e volta ao seu devido lugar. E cá estou eu, no melhor lugar que eu poderia estar depois de tantas voltas. Estacionei ao seu lado como quem quer avançar nessa caminhada com você.

Hoje eu queria encostar no teu peito e sentir a melodia das batidas do teu coração sem precisar de palavra alguma para preencher esse momento. Hoje eu queria poder te contar uma notícia boa, alegrar o teu coração com a minha alegria. Mas hoje, eu decido acalentar as tuas dores, acolher o teu choro e deixar o riso para depois.

Hoje eu quero ser teu abrigo, te abraçar e fazer você sentir todo o meu amor. Por hoje eu dispenso as palavras e fico com o carinho, eu dispenso um jantar a dois e fico com a gente aqui, sentados no sofá, tentando escolher a qual filme assistir.

No final eu sei que vamos pegar no sono e deixar o filme para depois, porque hoje, tudo o que você precisava era de uma companhia leve, forte o suficiente para não dar as costas para as suas angústias. Por hoje prometo não ligar para o seu humor, eu prometo não implicar com coisas bobas.

Eu sei que hoje você não irá rir das minhas piadas mesmo eu tentando fazer graça às vezes, mas eu sei que o seu coração sorri quando te abraço e aquele teu suspiro fundo como quem não aguenta mais as pancadas da vida mostram a mulher forte que você é.

Hoje eu queria poder resolver todos os seus problemas, te surpreender com algo material e sei lá me virar do avesso para te ver bem. Mas eu sei que hoje isso não é possível, e então te ofereço o meu riso leve, o meu carinho e um café quentinho. Hoje eu te faço um bolo de cenoura com chocolate e deixo você raspar a panela.

Hoje eu deixo você escolher o filme e prometo não dizer que ele é chato. Hoje eu te ofereço companhia sem tentar entender os teus porquês e prometo não tentar te convencer que cebola na comida é muito bom.

Hoje a massagem nos pés é por minha conta e o cafuné a gente negocia, pode ser? Hoje eu vou aí não como quem espera que as coisas mudem de repente, mas como quem deseja ser companhia quando o tempo fecha e o sol decide não aparecer.

Como quem ama demais para ser orgulhoso, como quem ama demais para ser egoísta e se fechar no seu mundo e aparecer apenas quando o outro estiver com todos os seus problemas resolvidos. Eu quero estar com você nos vendavais, eu quero estar com você quando a música parar de tocar e eu quero continuar dançando, criando a nossa própria melodia e nos reinventando.

Eu quero estar com você mesmo quando o riso estiver camuflado pela dor, mesmo quando o colorido da vida passa a ser preto e branco e a gente não vê saída para os nossos problemas. Eu quero ser companhia, quero ser calmaria. Eu quero ser o teu amor leve, aquele amor que faça o teu coração sorrir sem medo.

Hoje eu quero ouvir a tua voz, mesmo ela estando em tom de choro, hoje eu preciso te encontrar mesmo você estando com o seu pijama velho, aliás, você fica linda com ele. Como eu amo a tua simplicidade. Hoje eu preciso te desejar boa noite como quem pensou em você o dia inteiro, como quem sente saudade do teu cheiro e que sorri ao lembrar-se do teu sorriso.

Precisamos cuidar do nosso amor

Precisamos cuidar do nosso amor

Desde já, e para sempre
Antes que seja tarde
Enquanto ainda vale a pena
Enquanto ele ainda está aqui.

Precisamos voltar a nos olhar como sempre nos olhamos
Com ternura, com admiração, com sentimento
Como no tempo em que, mesmo que achássemos, não tínhamos grandes preocupações
O tempo em que não éramos responsáveis pelo nosso sustento, nossa estabilidade, por “dar certo na vida”
Em que não nos era exigida uma postura de “gente grande”…

Precisamos voltar a nos tratar como namorados em êxtase
Como naquela época em que éramos dois descobridores, explorando um ao outro
Desvendando anseios, modos de ser, trejeitos, manias, defeitos
Como quando buscávamos nos agradar o tempo inteiro
Com as mais singelas ou as mais elaboradas atitudes.

Precisamos voltar a sentir a necessidade de investir na relação
Como naquele tempo em que ainda não nos considerávamos conquistados,
Em que precisávamos mostrar o melhor de nós
Conter nossas imperfeições, nossos desgostos com a vida
E separar os problemas que possuíamos, para não “misturar as coisas”.

Precisamos parar de deixar para amanhã nos dedicarmos com mais afinco à nossa relação
Deixar de adiar a atenção que o relacionamento sempre merece
De fazer de conta que o amor supera tudo, e sempre se mantém intacto
E que alguns momentos de “lua de mel”, uma ou duas vezes por ano, tudo resolve
Pois sabemos, no fundo, que não é bem assim…

Precisamos, e antes que o sentimento atrofie, antes que fique em segundo plano
Antes que a rotina definitivamente camufle o que é realmente importante
E o cansaço termine de consumir a pouca energia que nos resta

Precisamos não deixar o nosso amor, de fato, adoecer…
E necessitamos de atitudes concretas, não apenas do reconhecimento do problema

Precisamos ser diligentes um com o outro, prestar atenção, agir
Como no tempo em que o aniversário das coisas mais simples (como o do primeiro beijo) era comemorado como um grande acontecimento
Como no tempo em que nos surpreendíamos com declarações sem motivo específico
E em que fazíamos questão de demonstrar o amor que sentíamos das mais diversas formas.

Precisamos voltar a apoiar as maluquices um do outro
A encorajar os sonhos e os desejos mais impossíveis ou improváveis
A incentivar nosso crescimento e nossa realização
A não levar a vida tão a sério
Precisamos, acima de tudo, resgatar a leveza, sempre tão essencial.
Precisamos

Para que não aconteça o que já vimos acontecer com tantos casais bacanas que possuíam um relacionamento promissor
Para vermos que os nossos sonhos adolescentes não estavam errados
Para congratular todos os momentos lindos que já vivemos
E todos ainda mais maravilhosos que, se assim quisermos, virão.

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