Sejamos nós o presente mais valioso!

Sejamos nós o presente mais valioso!

Imagem de capa: Eugenio Marongiu, Shutterstock

Minha mais nova mania agora é costurar. Dei para costurar coisinhas para as pessoas que me são caras. Coisinhas à toa mesmo, nada demais; estojinhos, tapetinhos de caneca, relicários, marcadores de livro…

Trabalhar com as mãos sempre foi um prazer querido para mim. As horas voam enquanto eu trabalho, e eu gosto de pensar que cada coisinha feita com as minhas mãos vai morar pertinho daqueles que recebem esses singelos presentes.

Amo cozinhar! Vira e mexe faço um bolo para dar a alguém. Outras tantas vezes junto gente querida em minha casa e lá vou eu para a cozinha inventar alguma novidade. Ou fazer comidinhas simples mesmo; modéstia à parte, faço um arroz com feijão que é de comer rezando.

Muitos dos meus amigos e familiares dormem quentinhos sob cobertores de tricô e crochê que eu me aventurei a fazer. E não, os pontos não saem perfeitos, às vezes fica meio tortinho, até. Mas em cada pontinho vai um carinho meu.

Neste final de ano foi assim, fiz todos os presentes. A casa está perfumada com aroma de canela dos deliciosos bolos de maçã com nozes. Meu quarto de trabalho está repleto de retalhos, fitinhas, florzinhas e linhas de todas as cores.

Esse ano, cada uma das pessoas que ganhar um presentinho meu, ganha junto a minha energia amorosa, o meu tempo e a minha verdadeira disposição em ver no rosto das pessoas queridas um sorriso de afeto, ao desembrulhar o presente.

A vida pode ser bem menos complicada quando a gente descobre que não é preciso ter nenhum talento excepcional para fazer algo bonito. Todo mundo é capaz de produzir algo com suas próprias, seja um pão, uma geleia, uma dobradura, um arranjo de flores… qualquer coisa.

Ahhh… mas digamos que você tenha realmente “duas mãos esquerdas” como dizem por aí. Nenhuma habilidade manual. Nesse caso, não se acanhe, compre o presente pronto mesmo, tudo bem. Mas não se esqueça de escrever um cartão. Escolha um trecho bonito de algum livro, um poema, uma letra de música… desde que seja algo que tenha significado para você e quem vai receber o presente. Escreva de próprio punho. E não tem nenhuma importância se a sua letra não for lá essas coisas.

O que na verdade, eu estou tentando dizer desde a primeira letra deste texto é que a gente precisa lembrar de uma coisa: o melhor presente que a gente pode dar é a nossa presença. Abrace sem pressa. Olhe nos olhos quando for conversar. Ofereça seu colo, seu ombro, sua atenção.

O que vale nessa vida é a doçura de uma amizade que não precisa de grandes eventos ou de datas importantes para se manifestar. Amor não custa dinheiro. E não há nesse mundo nenhum presente, por mais caro que seja, que possa substituir o contato amoroso entre as pessoas.

Que nossas casas e nossos corações estejam sempre abertos para receber aqueles que se dispuserem a estar ou ficar conosco, seja pelo tempo que for. Sejamos nós o presente mais valioso!

Agradeça ao ex, por ter lhe ensinado o que não é o amor

Agradeça ao ex, por ter lhe ensinado o que não é o amor

De início, lembremos aquele famigerado senso comum que nos diz para termos a consciência de que, muitas vezes, quem perde está ganhando. Costumamos enxergar tudo no calor do momento, tendo o imediatismo do que nos acontece como a única forma possível de as coisas acontecerem. No entanto, isso é uma inverdade, porque o tempo acaba por nos mostrar que muita coisa era o oposto do que imaginávamos.

É assim com tudo, é assim também com o amor. Quantos de nós não nos prendemos a um relacionamento sufocante, desgastante, com alguém que parecia ser um grande amigo, um parceiro perfeito, como se não pudéssemos encontrar nada melhor, como se viver sem aquela pessoa nos fosse inimaginável. E, passado um tempo sem aquela presença, percebemos que nossa vida ficou melhor, que perdíamos tempo à toa.

Tudo tem uma razão de ser, o que nos acontece, o que nos fazem, o quanto sofremos, sorrimos, o tanto que lutamos, é tudo parte de nosso aprendizado, para que nos tornemos pessoas melhores e mais certas quanto ao que queremos ou não para nós. O que é bom nos aponta a certeza do que e de quem teremos de manter junto. O que é ruim, por outro lado, serve como lição – embora dolorida – de tudo e de todos que deveremos evitar, que teremos de manter afastados, lá longe.

Por isso é que, muitas vezes, embora inevitável, sofrer por quem não nos quer mais, por quem já usou e abusou de nosso melhor, de quem nos teve e nos dispensou feito objetos em desuso, inevitavelmente se tornará algo de que acabaremos nos arrependendo. A passagem do tempo irá nos acalmar e nos fazer perceber com clareza que aquela pessoa passava longe de ser quem nos merecia, quem nos acrescentaria, quem nos seria vital. Elas foram importantes somente para nos mostrar o que não podemos aceitar como amor.

Não conseguiremos passar incólumes pelos términos de relacionamento que enfrentaremos, uma vez que, quando estamos ali dentro de tudo, de muito perto, é difícil enxergar com firmeza todos os vazios e machucados em que estamos inseridos. No entanto, com o passar dos dias, conseguiremos nos libertar de quem já nem está junto, dando-lhe a devida importância: nenhuma. É assim que sobrevivemos, que nos fortalecemos e nos preparamos para o encontro arrebatador com o verdadeiro amor de nossas vidas.

Imagem de capa: Antonio Guillem, Shutterstock

O perdão dela não significa que ela voltou atrás, mas, sim, que ela seguiu em frente

O perdão dela não significa que ela voltou atrás, mas, sim, que ela seguiu em frente

O telefone tocou algumas vezes naquele dia. Ela resolveu, custosamente, atender e do outro lado uma voz sussurrou: Por favor, perdoa-me. Perdoa-me por tudo que eu te fiz.

Ela tentou explicar que não guardava rancor, que tinha aprendido com o tempo que rancor é uma coisa ruim que come a gente por dentro.

A pessoa insistiu e perguntou de novo: Perdoa-me?

Ela disse que não estava ressentida ou com raiva, mas que ela perdoaria o ligante se isso fosse aliviar o peso da consciência dele.

A pessoa agradeceu e desligou o telefone. Prometendo mudar. Prometendo fazer tudo diferente. Mas ela sabia que a mudança era um processo e não um evento. Que as palavras muitas vezes se antecipam, precipitadamente, às ações. Que só o tempo diria da mudança.

E ela ficou pensando em como as coisas tinham chegado naquele ponto. Em como aquela pessoa parecia não estar bem, mas também em como ela parecia precisar do seu perdão como uma pomada calmante para aliviar a dor de uma queimadura de sol. Como se o seu perdão fosse algum tipo de alívio momentâneo que não garantiria, necessariamente, alguma mudança efetiva contra futuras insolações.

Depois disso, andando pelas ruas, as pessoas passaram a pará-la e a dizer, com tapas em suas costas, que tinha sido ótimo ela ter mudado de ideia. Que era muito bom ela ter voltado atrás.

Ela percebeu então que muita gente confunde perdão com aprovação. Ela nunca aprovara o que a pessoa da ligação fizera. O seu perdão foi apenas um sinal de que ela havia superado aquilo. Seguido em frente. Feito sua vida. Curado com amor todas as suas feridas. Não um sinal de que ela tinha de alguma forma aplaudido o que aconteceu no passado ou que ela pretendia colocar aquela pessoa de volta em sua vida, assim como antes.

Ela não carregava em si qualquer tipo de arrependimento. Não tinha se curvado às coisas erradas. Não tinha se equivocado ao se afastar. Não foi precipitada em proteger-se confiando em pessoas verdadeiras e leais.

Não, ela não tinha voltado atrás com aquele perdão. Ela tinha dado passos à frente.

Em sua cabeça, perdoar era como desatar nós. O perdão que ela havia concedido desatou o último nó que a ligava àqueles tortuosos dias. Agora a maturidade lhe dava a certeza de que, apesar de ter sido julgada de forma leviana no passado, por quem observava tudo de fora, tinha seguido, acertadamente, a sua verdade e protegido zelosa a sua integridade.

Agora o que ela merecia era paz. Não queria comprar brigas, postular hipóteses, comprovar teses. Queria continuar sendo ela mesma, caminhando com os próprios pés e construindo seu caminho. Seguindo em frente, sempre em frente, perdoando sim, mas sem pensar em voltar atrás.

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Atribuição da imagem: Pexels – pixabay.com – CC0 Public Domain.

O peso das coisas

O peso das coisas

Imagem de capa: Svitlana Sokolova, Shutterstock

A gente tem o mau hábito ou insegurança de ouvir os outros o tempo todo. Pra tudo. Das bobagens até as coisas mais sérias. Sempre precisamos da opinião do outro, da validação do olhar externo sobre as nossas vidas. Queremos ser constantemente reassegurados se a nossa intuição, nossa opinião, nosso posicionamento está certo, se não há algo de errado que merece correção.

E mesmo quando não perguntamos, sempre tem gente se sentindo no direito divino de expressar sua opinião a qualquer custo. Em qualquer lugar, seja no ônibus, na fila do banco, no shopping, até no consultório médico. Temos dois grandes males: pessoas que precisam do olhar do outro para movimentar a própria vida e pessoas que tem a necessidade de se meter e dar pitaco na vida dos outros.

No primeiro caso, uma boa dose de confiança e nada que um up na autoestima não resolva pra ser dona do próprio nariz. A gente acha que precisa do passe livre, da autorização dos outros para sermos livres, para sermos emancipados. Nós não precisamos dessa validação para sermos donos da nossa história, sermos protagonistas das nossas vidas.

Não estou dizendo que chegar nesse lugar onde a liberdade predomina é tarefa fácil, mas apenas nós mesmos podemos dar o primeiro passo nessa direção de crescimento pessoal e amadurecimento. Acho que o que dificulta isso na maioria dos casos é que nos tornamos jovens e adultos muito infantilizados.

Talvez pela nossa cultura, onde demoramos muito para cortar o cordão umbilical dos nossos pais e apenas nos mudamos quando casamos e isso vai pra lá dos 25 anos. Vivemos quase trinta anos das nossas vidas morando na casa dos nossos pais e submetidos de certa forma a vontade e opinião deles sobre nossas próprias vidas.

Não adianta, por mais maduro e independente, nos olhos dos nossos pais somos apenas crianças que não sabem de nada, que erram mais do que acertam, que não fazem nada muito direito e precisam de conselhos e direção. Isso só muda o CEP, pois os pais têm sempre essa postura protetora em relação a nós e só querem ajudar com a experiência de vida que eles tiveram até aqui.

E isso é ótimo, mas de certa forma atrapalha nessa transição difícil de jovem para adulto. Mesmo estando com as melhores intenções em mente, acaba se tornando um desserviço. Com essa confusão, somos adultos não emancipados e tratados como jovens pelos nossos pais e acabamos nos sentindo assim, de certa forma, infantilizados.

Com isso, entramos cada vez mais tarde na vida adulta de fato e de certa maneira carregamos essa postura infantil para outros aspectos da nossa vida. Nos vemos, sem poder evitar, trazendo com a gente aquele monstro que ficava dentro do armário ou debaixo da cama, nosso baú de mágoas e neuras. Carregamos de forma inconsciente a sensação de que o mundo e as pessoas nos devem alguma coisa, que precisam ser compreensivas, pacientes, nos mostrarem o caminho e nos dar conselhos de vez em quando.

Procuramos no mundo pais substitutos, irmãos substitutos e buscamos sim validação, a certeza de alguém que tudo vai dar certo, que essa é a melhor decisão a ser tomada, que esse é o caminho certo a seguir. Todos nós de forma inconsciente ou não, buscamos uma aceitação do que somos no outro e um olhar amoroso nesse processo de busca, de auto descobrimento.

E isso é normal também. Mas essa necessidade deve ser dosada, controlada a doses homeopáticas, de conta-gotas. É como uma leve massagem no ego que nos tira da inércia que a dúvida traz para tomar decisões de forma mais assertiva e confiante. Porque quando finalmente nos damos conta que somos mais do que capazes de lidar com as situações que a vida oferece, que já temos conosco todas as ferramentas e todas as respostas, essa sensação de autossuficiência é transformadora.

Porque liberta a gente do lugar de pessoas que aguardam algo passivamente e não tomam as rédeas da situação quando ela se apresenta e fica apenas aguardando alguém resolver para elas, alguém para tentar solucionar o seu problema. O importante é nos darmos conta, sermos honestos com nós mesmos, perceber que agimos assim e tentar entender o porquê disso, o que motivou esse comportamento de achar que temos todos os direitos do mundo.

Agora, o que faremos para lidar, conviver com pessoas invasivas que se sentem no direito de dizer tudo o que passa na cabeça com a prerrogativa de estarem sendo apenas sinceros e francos?

Quanto à segunda hipótese, é mais difícil, porque não temos como controlar o outro e supor como ele irá agir. Mas podemos sim, controlar as nossas atitudes, o nosso modo de ser e não dar abertura para opiniões desavisadas de estranhos. Não se engane, mesmo que a gente não esteja receptivo, certas pessoas não têm bom senso e irão sim importunar com comentários maldosos ou perguntas invasivas.

Pessoas que são assim sentem prazer em ser desagradáveis, em se fazerem de desentendidas e que não falaram nada demais para ficarmos chateados ou ofendidos. Parece um problema, sem solução não é? A única coisa que podemos fazer e a mais sensata é aprender a lidar, a administrar de uma maneira melhor, mais saudável, as coisas que ouvimos por aí.

Talvez por insegurança ou baixa autoestima, temos a tendência de só nos lembrarmos das críticas que nos são feitas e nos esquecermos dos elogios. Ficamos magoados, nos sentimos ofendidos e atacados no nosso orgulho, nos sentimos pequenos diante de um ataque maldoso a nossa personalidade. Isso é mais do que natural, afinal somos humanos e às vezes não podemos evitar nos sentirmos assim.

Mas entende que a permissão é nossa? Só machuca a gente quem a gente deixa, de uma forma ou de outra. Costumo dizer que as pessoas têm boca pra falar e olha como elas falam! Mas podemos deixar que as palavras sejam apenas isso e não darmos mais força além. Uma piadinha, um comentário, uma alfinetada pode ficar só nisso, se não nos ofendermos são apenas palavras que não tem valor ou significado nenhum na nossa vida.

Nós nos ofendemos por duas razões: ou pela crítica em si ou pela pessoa que a fez. Quando a crítica nos machuca é porque em algum nível, seja consciente ou não, concordamos com ela, é de alguma forma, nosso ponto fraco, nosso calcanhar de Aquiles, aquele defeito que nós temos e por algum motivo não conseguimos mudar. Por isso incomoda, machuca tanto quando alguém esfrega na nossa cara os nossos erros.

E quando alguém que amamos, alguém que a gente gosta e admira nos critica, aí também dói, incomoda de verdade ser julgado. E quando juntam as duas coisas, é batata para nos sentirmos feridos, nada pior do que ter seu defeito usado como arma para te ferir por alguém que deveria nos amar e gostar da gente como nós somos.

Mas aprendi com o tempo também que quando a gente se conhece realmente, quando procuramos aceitar cada pedacinho da gente, mesmo aqueles que não gostamos tanto e buscamos mudar, fica mais fácil se sentir à vontade na própria pele. Quando a gente dá um passo em se conhecer melhor, se amar por inteiro, a gente se empodera, estamos no controle da situação.

E quando isso acontece, nós não saímos do eixo, não nos abalamos com tanta facilidade, não vai ser um comentário ou uma pessoa que irá nos perturbar porque a gente se conhece, se respeita e nos aceitamos do jeito que somos. E isso ninguém nos tira e não tem sensação melhor no mundo do que se sentir à vontade sendo quem somos.

Eu só queria um amor…

Eu só queria um amor…

Imagem capa: Jacob Lund, Shutterstock

Amor verdadeiro, verdadeiro amor
Eu só te queria sincero, intocável e crescente
Leal, sereno e excitante
Te queria puro, leve e intenso
Tudo ao mesmo tempo, e mais, muito mais…

Eu só queria um amor verdadeiro
Que fosse sincero, intenso, intocável
Que pudesse ser vivido com liberdade e suavidade,
Com a certeza de que, poderia o mundo virar de ponta cabeça,
Ele permaneceria o mesmo.

Mas, por favor, um amor que não fosse desses de novela,
Pois não gosto de meninas oferecidas, mocinhos do mal, bruxas ou tragédias para deixar a história “mais emocionante”
Também não gosto que as coisas deem certo apenas no final…

Queria, na minha vida, alguém que não pronunciasse “eu te amo” à toa, mas tão somente quando o sentimento fosse equivalentemente grandioso
Queria constância, solidez, intensidade e leveza.

Eu gostaria de alguém com quem pudesse ficar à vontade, ser eu mesma, em tempo integral
Que não precisasse me preocupar se eventualmente estou de cara lavada ou com uma roupa velha e sem graça

Queria alguém que me desejasse mesmo de pijamas e de cabelo molhado numa tarde de domingo…
Queria alguém que comprasse, verdadeiramente, os meus devaneios
Que se interessasse nos meus sonhos e ajudasse a torná-los realidade
Que risse dos meus defeitos, e se divertisse com a minha “desastrice”…

Queria alguém que confiasse em mim plenamente, que não ficasse me investigando
Alguém, sobretudo, que eu não precisasse vigiar,
Pois, mesmo que olhasse para os lados, eu saberia que o seu coração (e o seu corpo) seriam sempre exclusiva e totalmente meus…

Queria alguém que não necessariamente me garantisse fidelidade perene
Mas que comigo firmasse um pacto eterno de lealdade
Em quem eu pudesse confiar de todo o meu coração
Pois teria absoluta certeza de que jamais iria machucá-lo.

Eu queria tanto um amor que não me trouxesse angústia
Que não me fizesse ficar pensando em formas de garanti-lo
Que não me gerasse dúvidas constantes da sua integridade
E que me permitisse um mergulho destemido em suas profundezas…

Queria alguém tranquilo, sereno e sensato
Mas, às vezes, entusiasmado, doidinho e arrebatador
Para contrabalançar minhas mudanças de humor…

Queria, afinal, alguém que verdadeiramente se importasse com o nosso amor
Para quem não houvesse mau tempo, crise econômica ou problemas no trabalho que preponderassem sobre a alegria constante de termos um ao outro
Alguém que sempre estivesse disponível quando eu precisasse de apoio
E que ficasse sempre do meu lado, me defendendo do mundo, ainda quando precisasse me dar “puxões de orelha”…

Eu só queria alguém que fosse, de verdade e ao mesmo tempo, amigo, amante e irmão
A minha luz, o meu porto seguro, a minha certeza
Um ser afeto a detalhes, preocupado em surpreender
Alguém que, até mesmo, me puxasse de volta, para encostar os pés no chão, quando eu estivesse “voando” demais
Apesar de, na maior parte do tempo, me fazer crer estar nas nuvens…

Gostaria de alguém que não se entregasse às acomodações que o tempo costuma trazer
E que despertasse, cotidianamente, o melhor que há em mim.
Queria, acima de tudo, um amor que despertasse em mim a vontade de ser assim, bem desta forma, para ele também…

A gente avisa, avisa e avisa de novo; daí a gente cansa…

A gente avisa, avisa e avisa de novo; daí a gente cansa…

Imagem capa:  View Apart, Shutterstock

Um dos males que minam os relacionamentos vem a ser o costume, quando nos acostumamos demais com a pessoa e passamos a banalizar aquilo que ela possui de mais verdadeiro. Com isso, paramos de prestar atenção ao que ela diz ou demonstra, como se nada mais pudesse ser capaz de abalar os sentimentos dela para conosco. É como se, uma vez instalada a afeição, o amor e o comprometimento, tudo isso duraria para sempre. Não, não é tão simples assim.

Não podemos achar que somente a conquista de alguém já é garantia de que estaremos juntos dali em diante. Assim como tudo o que há, aquilo que não for cuidado, regado, alimentado e revivido, acaba arrefecendo, murchando, secando, morrendo enfim. É assim com as pessoas, com os sentimentos, com os objetos, é assim também com o amor. Nada é para sempre, a não ser o que for verdadeiro, o que ficar dentro de nós, o que nos fizerem, os sorrisos, as mãos dadas, cada “bom dia” e “boa noite”.

E a gente tenta sempre fazer dar certo, porque a gente quer que dê certo, quer amar e ser amado para sempre, com tudo, apesar de tudo, mas sobretudo quer. E os dias começam a se arrastar e a gente vai avisando, vai alertando, chamando, como que implorando por atenção, por ser alguém de novo na vida do outro, que está seguindo sem nós. A gente avisa, avisa, a gente avisa de novo e de novo. E chega o dia em que a gente cansa, cansa de vez, cansa de uma vez por todas.

E o mais interessante é que, geralmente, o outro parece somente cair em si quando nós já não temos mais forças para tentar, quando esvaziamos por completo qualquer traço de afetividade de dentro de nós, quando já decidimos, já resolvemos, quando nossa dignidade não mais nos permite continuar ali. Dias, meses, anos de alerta, de sofrimento, de conversas, discussões, tudo em vão. Então, quando a pessoa nos vê de malas prontas, só assim percebe que não viverá sem nós. Sinto muito, já era.

Ninguém consegue suportar fazer o papel de um nada por muito tempo, porque não há força capaz de ser mais forte do que a dor do vazio, do retorno que nunca chega, da reciprocidade que nunca é sentida, expressa, falada, explícita. E a gente simplesmente se cansa e, quando isso acontece, nada poderá nos convencer a ficar, pois então já será tarde demais.

Não tenha medo, tenha fé, as coisas vão dar certo.

Não tenha medo, tenha fé, as coisas vão dar certo.

Imagem de capa: Yuliya Evstratenko, Shutterstock

A vida da gente oscila de uma forma assustadora: um dia, estamos sorrindo, comemorando alguma conquista e, no outro, choramos ao nos depararmos com alguém que amamos no hospital.

Rimos no final de semana com os amigos e enfrentamos um problema no trabalho na segunda, tecemos inúmeros planos e nos frustramos com a maioria.

Chega um momento, em nossas vidas, em que desanimamos tanto, que nos questionamos se tudo não passa de ilusão. Nossa fé começa a falhar e o medo tenta adentrar nossa casa a todo custo. No meio da tempestade nos perguntamos se Deus está mesmo nos ouvindo. Porque tudo tem dado tão errado ultimamente e, olha, parece que as coisas ruins vêm à tona de uma vez só, até parece que combinam.

Eu não sei se o que tem tomado o seu coração é o medo da solidão, se ele precisa de amor próprio ou se você tem se sentido ultimamente um lixo, diante de tantos fracassos. Eu não sei se o seu problema reside na família, no trabalho ou nos relacionamentos.

Pode ser que todas essas áreas da sua vida estejam bagunçadas e você não vê saída para nenhuma delas, não sabe como recomeçar. Mas eu gostaria de lhe lembrar, caso o tenha esquecido por um descuido qualquer, que você não é um colecionador de derrotas, é um colecionador de histórias, de aprendizados, não importa quantos nãos você receber, quantas despedidas, fins e adeuses. Nunca se esqueça de que você é capaz de recomeçar. Não perca de vista as possibilidades tão lindas, não permita que a dor seja maior.

Às vezes, quando a tempestade vem, os ventos são fortes demais e então a gente teme que tudo será destruído e que não iremos nos “salvar”. Mas Deus está nos dizendo: Tenha fé, eu estou agindo. Por mais que a as coisas fujam ao nosso controle, elas continuam rigorosamente sobre o controle de Deus. Ele sabe o momento certo de acalmar a tempestade, Ele é calmaria. Deus sabe o momento certo de agir, Ele é sabedoria. Deus sabe o momento certo de mudar os rumos da sua vida, Ele é o senhor do tempo. Um tempo perfeito.

Não permita que a ansiedade, o medo e as dúvidas abalem a sua paz interior. Não deixe que tempestade alguma leve embora a sua coragem e, quando não souber para onde ir, lembre-se de que, nos braços do Pai, você encontra proteção. Que ali, toda dor transforma-se em amor e toda ferida é restaurada. Lembre-se de que ali é o melhor lugar para se abrigar.

Não estamos livres das tempestades, mas também não estamos sozinhos. Nos momentos mais difíceis de sua vida, pode até parecer que esteja só, mas Deus cuida de cada detalhe, Ele está com você, sempre.

A tempestade pode ser o momento ideal para lapidar a nossa paciência, para nos dar uma fé inabalável. Pode ser o momento ideal para as oportunidades, para nos transformar e nos fazer enxergar coisas que antes não víamos, devido ao comodismo, ao hábito, à rotina. A tempestade passa, ela vem e vai, mas o Mestre se mantém ao nosso lado todo o tempo. As coisas vão dar certo, não tenha medo, tenha fé. Confie.

Quantos “adeus” você disse querendo ficar?

Quantos “adeus” você disse querendo ficar?

Imagem de capa:  fizkes, Shutterstock

Todo término é difícil. Difícil mesmo! Indiferente da história vivida sempre ficará aquele sentimento de “eu poderia ter tentado mais” ou “onde foi que eu errei?”. Temos a mania de culpar-nos de todo erro, como se estivesse apenas em nossas mãos o sucesso ou o fracasso do relacionamento.

Sabe, algumas histórias não nasceram para dar certo. São complicadas, pesadas, tóxicas e, por mais que você tente, elas nascem com tempo determinado para acabar. A boa notícia é que você sobreviverá. Desapegar-se de sentimentos, pessoas e atitudes que não cabem mais em nossas vidas é caminhar sem bagagens pesadas e permitir ser feliz mesmo que só.

O grande problema do “adeus” é que, nem sempre, ele é dito com sinceridade. Há mais vontade de ficar do que partir quando se diz essa dolorosa palavra. Admita, que não foram poucas às vezes em que você usou o adeus longe do seu sentido literal. Usou na tentativa do outro entender a sua importância e na esperança de ouvir um “eu vou ficar, porque amo você”.

Atrás de um adeus tem mais significados do que o dicionário seria capaz de traduzir: tem um “não aguento mais”, um “tente mais um pouco mesmo que eu diga não” e um “fique aqui e conserte tudo!”. Adeus nem sempre é despedida, às vezes, é um pedido de socorro para salvar o relacionamento.

É difícil ter que desistir quando o sentimento ainda é forte. É difícil ter que desistir quando o que mais você queria era continuar lutando. Mas, algumas vezes, é necessário. Dizer adeus a um amor não é sinônimo de fracasso. Pelo contrário, é um ato de coragem em favor da própria felicidade. É entender que você precisa tirar da sua vida (e de dentro do coração) alguém que não faz questão de ficar.

É difícil partir quando a vontade é ficar. É difícil, mas é preciso, para que você não se perca nos próprios sonhos.É provável que você sofra alguns dias e que a ilusão da zona de conforto te afronte. Mas, nesses momentos, olhe para dentro de si e questione se sua história não estava sendo vivida apenas por um. Se esse sentimento é, realmente, tudo aquilo que você sonhou e se vale a pena abrir mão do melhor que está por vir.

Dizer adeus é dizer sim ao recomeço. Herman Hesse escreveu que “ a cada chamado da vida o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias, aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver.”

Ninguém sofre para sempre. Um dia a dor passa, a saudade ameniza e o sentimento apaga. Não queria ouvir um “vamos tentar de novo” de quem não deu valor na primeira tentativa. Diga adeus querendo, realmente, despedir-se. Deixe ir o que não te faz bem. Sua vida, sua alma e sua história são importantes demais para que se aloje sentimentos superficiais.

Dizer adeus a quem quebrou sua confiança, seu coração e sua alma é dizer sim para si mesmo. Acredite, é melhor desistir de um relacionamento frio, do que esfriar seu coração e não acreditar mais no amor.

Não tem como amar sem admirar. Não mesmo!

Não tem como amar sem admirar. Não mesmo!

Imagem de capa:  Mikhail_Kayl, Shutterstock

Um grande e recorrente contra senso é a gente achar que ama uma pessoa que a gente nunca admirou ou não admira mais. Como poderia? Como acreditar que o amor pode ser tão incoerente que permanece em um lugar onde não se sente confortável e alimentado?

Claro que há milhões de relações onde a admiração mútua há muito já partiu, mas nesse caso, ao menos nas minha crenças, já não é mais o amor que habita a casa. Pode ser a preguiça, o conformismo, a fragilidade, o cansaço, todos juntos ou só alguns, mas jamais o amor. Esse, se foi.

O que abre as portas para o amor entrar é a admiração. A gente ama o que admira. E admira com orgulho o que ama!

Sem admiração, só sobra a indiferença. E indiferença é um sentimento congelante, que engessa e paralisa a parte boa das relações.

Longe de ser uma crítica às relações ditas acostumadas, eu creio fortemente no amor que acorda todos os dias e busca seus motivos de admiração. Acredito no amor que levanta e se enfeita para ser também o objeto de admiração de alguém. Me desanima a ideia de compartilhar a companhia sem uma faísca de admiração.

E, quando a gente vê a admiração se distanciando, a realidade mostrando outra face onde a gente só enxergava a perfeição, o amor que pretendia se instalar, dá meia volta e sai, para tornar mais suave o processo de desapego.

Pena que muitas vezes a gente não ouve a batida da porta e permanece ali, tentando encontrar a menor pista, o mais fraco sinal de admiração, para reaver a presença do amor.

Mas, se ele der mais uma chance, é bom apressar a admiração, buscar na parceria um motivo para valer à pena.

Afinal, admirar, antes de tudo, é ter uma certeza lá dentro, de que o prazer e o interesse pela companhia, serão sempre sinais confiáveis.

Aprendi a amar o som dos meus passos quando me afasto de tudo que me faz mal

Aprendi a amar o som dos meus passos quando me afasto de tudo que me faz mal

Não é fácil tomar a atitude de deixar para trás coisas e pessoas que já fazem parte de nossas vidas, uma vez que podemos não ter muita certeza se conseguiremos seguir sem eles. Somos, infelizmente, inseguros frente ao desconhecido e, muitas vezes, em vez de abraçar com disposição o que vem com ares oxigenados, prendemo-nos ao que está aqui com a gente, mesmo que em detrimento de nossa felicidade.

A gente acha que não vai conseguir respirar direito sem aquele amor, embora já se tenha tornado tudo o que seja oposto ao amor em si. A gente acha que não conseguirá sobreviver sem aquela amizade, mesmo que amizade de verdade ali nunca tenha existido. A gente acha que não encontrará outro emprego, ainda que nossa atual ocupação seja aviltante, desumana e mal remunerada. A gente se esquece de que existem tantos outros lugares, outras pessoas, outros momentos por aí.

O pior é que muitos de nós ainda nos sentimos na obrigação idiota de ter que dar satisfações a gente que não passa mais do que alguns minutos ao nosso lado e, mesmo assim, não se cansam de nos cobrar um parceiro, um casamento, um filho, uma carreira. Ainda sufocamos o tanto que temos dentro de nós sob as cobranças ultrapassadas de quem viveu conforme tudo o que lhe impuseram, menos de acordo com os próprios sonhos.

Quando tomamos a coragem de viver o que transborda de nossos corações, livrando-nos do que e de quem nos intoxica a alma, ainda que doa, mesmo que nos condenem, embora sintamos o temor do tatear-se no escuro, o gosto saboroso da libertação e do encontro com si mesmo compensará as caras feias e as acusações maldosas que teremos pela frente. Pois então o nosso sorriso espaçoso e verdadeiro nos desviará e nos distanciará de tudo o que for vazio, doloroso e falso.

Viver nem sempre será calmaria e tranquilidade, muito pelo contrário, os dias nos trarão muita decepção, muita dor e muitos obstáculos, tirando de nós inclusive o que nos era essencial, levando embora quem fazia o nosso sol brilhar. Daí a necessidade de não temermos levantar e seguir adiante, de mãos dadas com quem nos ama de volta, sozinhos que seja, mas sempre adiante, ao som harmonioso dos nossos passos nos levando a lugares melhores, a momentos mais preciosos, a encontros arrebatadores, longe de tudo e de todos que são âncoras emocionais. Delícia o som desses passos!

Imagem de capa: Kuba Barzycki, Shutterstock

Felicidade embalada à vácuo

Felicidade embalada à vácuo

Imagem de capa: Copyright paultarasenko/Shutterstock

Não se preocupe em resolver seus problemas, superar suas dores ou aprender empiricamente. A solução para tudo que lhe causa dano vem embalada à vácuo, com nomes estranhos e vendidas em todas as farmácias do mundo. O importante é ser feliz ou, pelo menos, aparentar ser.

Está deprimido? Tome um comprimido da caixa azul. Hiperativo? O da caixa vermelha! Está nervoso? Tome o comprimido que a amiga da vizinha da sua tia está tomando. O que importa é você ser mais feliz que as famílias dos comerciais de margarina.

Atualmente, pensar em ser feliz, sem comprimidos, está fora de cogitação. O medo de sofrer e de enfrentar os próprios monstros permite que os comprimidos substituam o autocontrole e isso é tão preocupante como incômodo. O remédio deixou de ser uma necessidade fisiológica para ser um escudo contra a tristeza.

Claro que não estamos colocando em pauta as pessoas que, realmente, precisam de medicação ou que possuem alguma patologia séria, estamos falando de pessoas que não suportam a própria tristeza e acreditam que a solução de todos os problemas está embalada à vácuo.

Buscam remédios para a instabilidade emocional, para neutralizar a ressaca e para hibernar até o problema acabar, esquecendo que essas atitudes são desenvolvidas através do autocontrole e não vendidos em prateleiras de farmácias.

Uma das experiências mais incríveis da vida se chama: conhecimento empírico. Aprendemos com as experiências, com os erros, com os acertos… esse é o curso natural da vida. Mas as pessoas perderam a noção do que realmente é necessário e do que é ilusão.

Não entendem a diferença entre “estar” triste e estar depressivo, não entendem que a falta de sono nem sempre é insônia e que TOC não é o mesmo que hábitos diários normais.

É realmente preocupante o que essa geração está fazendo com o próprio corpo. Buscam a cura para seus males e não percebem que estão acabando com a própria vida.

Rodeados de informações rápidas e sites de buscas que substituem os médicos, eles se automedicam acreditando que a solução para tudo está ali. É só pesquisar a doença, dar o próprio diagnóstico e se automedicar. Simples assim!

E olha, que a propaganda nem precisa ser boa, é só dizer que o remédio “é bom para tudo” que, em dois dias, esgotam os frascos das prateleiras comerciais.

Engordou? Toma remédio. Emagreceu? Tome vitaminas. Está ansioso? Tome, para o resto da vida, o comprimido da caixinha vermelha. A eficiência da ciência, aliada à facilidade de acesso e à propaganda indiscriminada, leva milhares de pessoas a tomarem remédios desnecessários e permitindo que, essa geração, adoeça sem perceber.

Aos fãs da famosa frase “para tudo tem remédio, menos para a morte”, sinto informar que isso é uma inverdade: bom senso e coerência não são encontrados em cápsulas.

A gente descobre que cresceu quando…

A gente descobre que cresceu quando…

A gente descobre que cresceu quando na nossa agenda telefônica os nomes mudam de Juju, Alê, e Malu para Juliana Brandão, Alexandre Montenegro, Maria Luiza Pereira.

Quando liga para os pais somente para dizer que “chegou bem”.

Quando lava a louça sem ninguém precisar pedir.

Quando abaixa o som para não incomodar o vizinho e marca um café para prosear ao invés de passar horas a fio ao telefone.
Quando aprende a fazer omelete.

Quando não espera que ninguém faça nada por nós – nem mesmo ovos mexidos.

A gente descobre que cresceu quando vê alguém muito jovem – e muito petulante – cagando regra e pensa: “meu Deus, será que já fui assim”?

Quando abre mão de uma balada chata para passar o fim de semana lendo na cama.

Quando entende que pai e mãe são apenas seres humanos como qualquer outra pessoa.

Quando pede desculpas mesmo sem estar errado; troca uma comédia romântica por um filme clássico, corta o açúcar e o carboidrato depois das dez; deixa de comprar sapatos para pagar as contas.

Quando faz o que acha certo sem esperar nada em retribuição e consegue usar a imaginação para construir pontes e não apenas castelos de areia.

Quando faz o que tem que ser feito. Quando aceita os próprios defeitos.

Mas a gente só cresce, mesmo, quando alcança tudo isso e continua mantendo a meninice dos olhos.

O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

Há no homem um desejo imenso pela liberdade, mas um medo ainda maior de vivê-la. Algo parecido disse Dostoiévski, ou talvez eu esteja dizendo algo parecido com o dito pelo escritor russo.

No entanto, como seres significantes que somos, analisamos as coisas sempre a partir de uma determinada perspectiva e, assim, passamos a atribuir-lhes valor. Dessa maneira, até conceitos completamente opostos, como liberdade e escravidão, podem se confundir ou de acordo com o prisma de quem analisa, tornarem-se expressões sinônimas, como acontece no mundo distópico de George Orwell, 1984, em que um dos lemas do partido – “Escravidão é Liberdade” – é repetido à exaustão.

Não à toa, as boas distopias têm como grande valor predizer o futuro. E em todas elas – 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica – há um ponto em comum: a liberdade dos indivíduos é tolhida e, consequentemente, convertida em escravidão. No entanto, através de mecanismos sócio-políticos a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos entendem gozarem plenamente desta.

Nas histórias supracitadas, embora a maior parte da população esteja acomodada e aceite com enorme facilidade absurdos, existem indivíduos que se permitem compreender as suas reais situações e ousam lutar contra a ordem estabelecida. Esse processo é, todavia, extremamente doloroso, uma vez que é muito mais fácil se acomodar a enfrentar a realidade e todas as consequências dolorosas que enfrentamos invariavelmente quando decidimos sair da caverna, para lembrar Platão.

Posto isso, há de se considerar que ser verdadeiramente livre requer a responsabilidade de encarar o mundo sem fantasias, ou seja, tal como ele é. Dessa forma, existe no homem grande suscetibilidade a aceitar o irreal como real, a fantasia como verdade, a Matrix como o mundo real. Sim, Matrix é um grande exemplo do medo que possuímos de encarar a realidade.

No personagem de Cypher (Joe Pantoliano) encontramos o maior expoente desse comodismo, já que sendo a realidade um mundo destruído, um caos constante, é muito melhor viver na Matrix, onde ele “pode ser o que quiser”, ainda que não passe de uma grande mentira.

Em outras palavras, Cypher representa a ideia de que sendo a realidade algo tão assustador, a ignorância é uma benção, pois sendo ignorante, pode-se comprar mentiras como verdades facilmente, bem como, aceitar a Matrix como realidade e a escravidão como liberdade.

As realidades apresentadas no mundo das artes (ficções, que ironia), refletem a nossa própria realidade, em que, assim como Cypher, temos preferido viver vidas fantasiosas, cercadas de superficialidade e aparências, determinadas pelo hedonismo da sociedade de consumo e, consequentemente, o nosso egoísmo ganancioso buscando galopantemente realizar todos os desejos que impedem de acordarmos de um sonho ridículo.

Apesar de tudo isso, pode-se considerar que de fato é melhor ser um escravo feliz do que um ser livre, triste, inconformado e amedrontado. No entanto, a problemática ganha corpo na medida em que se entende que há coisas que só podem ser feitas sendo o sujeito livre, uma vez que a gaiola é sempre limitadora, sobretudo, aos desejos mais intrínsecos e, portanto, mais latentes e verdadeiros no ser.

Assim, por mais que a escravidão seja ressignificada, fantasiada e “transformada” em liberdade, sempre haverá pontos em que o indivíduo sentirá necessidade de alçar voos mais altos, os quais, obviamente, não poderão ser realizados, haja vista a limitação das gaiolas, o que implica a insatisfação, ainda que tardia, da condição escrava em que o indivíduo se encontra.

Sendo assim, constatamos que “O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo”*, posto que para gozar a liberdade é preciso coragem para se arriscar no terreno das incertezas e da luta. E, assim, temos preferido permanecer na caverna, orgulhosos das nossas sombras, já que lembrando outra vez Dostoiévski – “As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Entretanto, como disse, mais hora, menos hora, nos enxergamos e percebemos que o que nos circunda é falso, de tal maneira que desejamos sair, correr, voar, ser livres.

O grande problema nisso é que quando se acostuma a viver em uma gaiola, quando se é livre perde-se a capacidade de voar, pois as correntes que nos prendem são criadas pelas nossas mentes, de forma que mesmo fora da caverna, continuamos prisioneiros de uma mente que se acostumou a ser covarde e preferiu acreditar na contradição de que ser escravo era o maior ato de liberdade.

*A frase que dá título ao texto é de autoria desconhecida. Se alguém souber a real autoria, por favor, avise-nos.

O seu lado sombrio

O seu lado sombrio

Imagem : Copyright Alexander Trinitatov/Shutterstock

Todos temos um lado sombrio, que pode ser cheio de medos, mágoas, ressentimentos, sapos engolidos, invejas, pensamentos e sentimentos ruins. Reconhecer e explorar a parte não positiva da nossa personalidade possibilita nos libertarmos do que não nos faz bem, sermos menos limitados e perfeccionistas, compreendermos melhor as pessoas e evoluirmos como seres humanos.

Todos temos um lado sombrio. Ele pode ser cheio de medos, de mágoas e ressentimentos, de sapos engolidos que foram se acumulando, de invejas e de pensamentos ou sentimentos ruins.

Para alguns, ele é grande e assombroso, para outros, pequeno e facilmente administrável. Todavia, ele precisa ser visto, reconhecido, explorado e constantemente trabalhado.

Ignorá-lo significa conviver conosco sem nos conhecermos por completo, sem conseguirmos nos compreender efetivamente e coordenar de modo eficiente nossas ações, até mesmo sem saber do que somos capazes em momentos adversos.

Necessitamos, primeiramente, aceitar que temos uma sombra. Após, precisamos olhá-la de frente e desvendar suas nuances. Examinar cada detalhe, cada razão, cada efeito. Provavelmente, esta não é uma tarefa rápida, nem simples, por isso precisamos estar dispostos a nos autoconhecer verdadeiramente.

Carecemos nos dedicar a nós mesmos e olhar efetiva e amorosamente para dentro. Não para nos julgamos ou punirmos, mas para nos compreendermos e crescermos.

Especialistas garantem que a simples ciência da situação já possui um efeito terapêutico considerável. Melhor ainda se conseguirmos ir liberando, aos poucos, os excessos do nosso lado sombrio. Para isso, há diversos meios que podem ser adotados, tanto sozinhos como com o auxílio de terapeutas.

Conseguir nomear nossos sentimentos e tomar conhecimento da natureza da nossa sombra nos ajudará, indubitavelmente, a nos tornarmos seres melhores. Poderemos perceber, por exemplo, que a nossa implicância com aquela determina pessoa, na verdade, é uma bela invejinha. Que uma mágoa boba do passado com um familiar, esquecida mas não superada, impede que com ele nos relacionemos de modo harmonioso.

Constatar que certos pensamentos obsessivos e medos sem fundamento só nos fazem sofrer, possibilita que procuremos nos libertar deles. Assim, vamos nos trabalhando para mudar a perspectiva sobre o que não nos faz bem.

Assumir e explorar a parte não positiva da nossa personalidade pode significar, afinal, rendição. Reconheceremos que não somos perfeitos e que precisamos, diuturnamente, buscar meios de nos autodescobrir e, consequentemente, nos aperfeiçoar.

Além de permitir nossa evolução, a assunção do nosso lado sombrio faz com que sejamos seres menos limitados, que compreendem, também, o lado sombrio dos outros.

Sem ser tão perfeccionistas, pois, seremos pessoas mais livres e iluminadas.

“A próxima fronteira não está somente à sua frente, ela está dentro de você.”
(Robert K. Cooper)

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