As caixas de brinquedos das nossas vidas

As caixas de brinquedos das nossas vidas

Rubem Alves, após mastigar, ruminar e digerir Santo Agostinho, disse que possuímos duas caixas: a de ferramentas e a de brinquedos. Nossa caixa de ferramentas, segundo ele, seria aquela que abriga as coisas úteis, os instrumentos, tudo aquilo que é necessário para a sobrevivência; enquanto na caixa de brinquedos encontraríamos o empinar de uma pipa e o rodar de um peão, a leitura de um conto e uma dança de salão: inutilidades, coisas que pertencem à ordem do amor.

Ao me deparar com esta feliz metáfora, me pego refletindo sobre como temos administrado nossas caixas. Consigo pensar em várias pessoas do meu convívio que, por excesso de obrigações – que a sobrevivência impõe ou que elas mesmas criam -, devem estar com suas caixas de brinquedo empoeiradas pelo abandono.

Focados na concretização de objetivos diários, sejam eles maiores, como passar em uma prova, ou menores, como a garantia da limpeza corporal, recorremos, constantemente, a leituras técnicas e sabonetes, e negligenciamos – ou brincamos com eles acompanhados de culpa – os brinquedos que nos presenteiam com o prazer singular que reside nas coisas que não são meios, mas amadas por si só.

Tempos atrás, indiquei a um amigo um seriado do qual gostava muito e ele confessou que preferia não começar a assistir pois poderia se interessar e aquilo seria perda de tempo, não o levaria a lugar nenhum. Já eu, vez ou outra, faço questão de não ir a lugar nenhum: sento no chão e esparramo os brinquedos da minha caixa, afinal, como disse Rubem Alves, “quem está brincando já chegou”.

Ainda que a felicidade também more na caixa de ferramentas e, com um punhado de sorte e escolhas bem feitas, a inutilidade daquilo que fazemos apenas por prazer possa se transformar em instrumento, acredito que, em um mundo que gira em torno do “útil’, que supervaloriza agendas lotadas de afazeres, é importante que possamos preservar aquilo que não nos dá nada além de descanso

Não confunda meu bom humor com imaturidade

Não confunda meu bom humor com imaturidade

As pessoas confundem muita coisa, rotulando as pessoas de acordo com conceitos estanques, que não condizem com a realidade. Embora existam certos ambientes que requerem tranquilidade e seriedade, para que se possa fazer o que é preciso, silêncio demorado e cara fechada o tempo todo adoecem qualquer ser humano. Não dá para passar horas seguidas apenas com foco e concentração extrema, sem que a alma se inquiete. O sorriso precisa de ar.

Muitos acham que todo ambiente de trabalho deve ser um túmulo silencioso, que adultos não ficam achando graça nas coisas, que Facebook só é lugar de postagem séria, que Whatsapp tem que ser usado apenas para assuntos importantes, que adulto não faz palhaçada, como se a maturidade correspondesse à capacidade de não demonstrar felicidade. Isso mesmo, como se silêncio correspondesse a responsabilidade, como se incapacidade de rir fosse sinal de maturidade. E ainda se sentem no direito de querer impor aos outros o que pensam ser o mais adequado.

Inadequado é achar que risada é infantilidade, que adulto é sempre sério, que trabalho não combina com nenhum tipo de diversão, que silêncio e cara fechada são sinônimos de responsabilidade. Inadequado é a pessoa achar tudo isso e ainda querer que todo mundo aja dessa forma, para que não caia nas garras de seus julgamentos e de suas acusações. Responsabilidade e maturidade podem muito bem condizer com alto astral e alegria de viver, com risadas, com bom humor.

Da mesma forma que ficar rindo o tempo todo, com tudo, pode denotar algum tipo de insegurança, não se permitir, de forma alguma, um momento de descontração, seja no trabalho, seja na vida, pode significar qualquer coisa que não seja maturidade digna de um adulto. Nada em excesso faz bem, avida pede equilíbrio, inconstância, alternância. E mais, quem se sente bem como é não tem que impor a quem quer que seja o seu modo de vida como o mais correto, como exemplo a ser seguido. Isso é tirania.

Felizmente, quem possui bom humor e alegria de vida, quem é feliz e bem resolvido, não cuida da vida de ninguém, pois se importa mesmo é com os momentos que valem a pena, junto a pessoas alegres e bem amadas. Por isso mesmo, enquanto os infelizes perdem tempo fazendo cara feia e maldizendo quem é feliz, os bem humorados ganham tempo sendo felizes e amados por gente sincera. Vida que segue.

Paparazzi de nós mesmos

Paparazzi de nós mesmos

Tem gente que cisma em fazer biquinho ou franzir a testa para todas as fotos que tira.

Tem gente que pisca um olho, abre a boca para sorrir; tem gente que não sorri nunca, que sorri sempre, que está sempre de óculos escuros ou de perfil. Mas nem sempre foi assim!

Dia desses revisitei alguns álbuns antigos de fotografias impressas, da época da minha adolescência, quando não havia ainda rede social e as máquinas não eram digitais.

Bateu uma saudade daquele tempo em que eu chegava de uma viagem e ficava louca para ver as fotos! Buscar as fotos na Kodak e sentar num café para organizar o álbum era quase como que viajar de novo.

Adorava selecionar as mais bonitas para serem as primeiras do álbum e depois marcar encontrinhos com as amigas para partilhar os cliques das férias. Todas nós levávamos nossos álbuns nesses encontrinhos e de fato só via nossas fotos quem a gente convidava.

Não sou nostálgica de carteirinha, não! Não tenho como mantra de vida a frase “antigamente as coisas eram melhores”. Pelo contrário, adoro as novas tecnologias e as redes sociais apesar dos seus defeitos colaterais.

Ocorre que, olhando as fotos dos álbuns antiguinhos, por exemplo, percebi que ninguém, absolutamente ninguém, estava preocupado em estar bonito na foto – nem eu, ó céus!

As pessoas se abraçavam de verdade, se jogavam na situação. Se estavam bêbadas pareciam bêbadas, se estavam dançando pareciam que estavam dançando, se estavam rolando no chão de rir estavam rolando no chão de rir. O nome disso seria espontaneidade? Não sei…

Garrafas de coca-cola, restos de comida em pratos, copos feiosos, guardanapos amassados, toalhas manchadas de molho: ninguém se ocupava em preparar o cenário mais bonito depois de um almoço entre amigos antes de disparar o flash.

Ok, hoje estamos mais bonitos nas fotos e nossos cenários mais caprichados, porém fico pensando: será que as fotos não deixaram de cumprir sua função: registrar, eternizar momentos? Afinal, todo mundo se sente (e se comporta como!) meio diretor de arte, fotógrafo, modelo ou artista e altera “o momento” para que ele fique melhor e “mais apresentável”.

A ironia disso tudo é que acabamos nos tornando paparazzi de nós mesmos e de certa forma nos obrigamos a estar bonitos, finos, criativos, descolados, elegantes (com a pele e o cabelo OK!) até quando vamos à padaria! – vai que lá tem um doce diferente, maravilhoso e colorido, e a gente invente de fazer uma foto dando uma mordida para o Instagram!!?? Nham…

Certa vez a poeta portuguesa Sofia de Mello Breyner, do alto dos seus 80 anos, ao olhar uma foto de sua juventude, comentou: “como o tempo nos muda”.

Se fosse da minha geração, talvez ela dissesse: “como as novas tecnologias nos mudam”.

Sobre nossa necessidade de postar tudo o que vivemos, falei no texto Posto, logo existo.

Tenho medo de quem fala mal dos outros e pavor de quem elogia demais a si mesmo.

Tenho medo de quem fala mal dos outros e pavor de quem elogia demais a si mesmo.

Deus nos livre de gente autorreferente. Eu, hein! Não gosto, não. Assumo. Desconfio de quem começa uma frase com a máxima “eu costumo dizer que…”, como quem tenta atribuir um valor enciclopédico a ideias repetidas, banais, verdades prontas e cansativas tungadas de todo canto. Não dá! Tal como os alérgicos a camarão e lactose, eu tenho alergia a pessoas afeitas a falar bem de si mesmas.

Gente que não perde uma oportunidade de anunciar o quanto se preocupa com o outro, o quanto paga seus impostos corretamente, o quanto defende a liberdade, a igualdade e a fraternidade me dá coceira e me dá medo. Quem faz o que acha certo não precisa dizer o que faz. É só fazer e pronto! Quem diz maravilhas demais sobre si próprio me dá mais pavor do que quem fala horrores sobre os outros. Fujo de um tanto quanto do outro.

Não, eu não estou defendendo a autoesculhambação sem medida. Não acho que todos os seres capazes de falar mal de si mesmos sejam poços de virtudes. Eu só tenho a impressão de que o autoelogio é um péssimo hábito. Puro e simples cabotinismo, jeito rasteiro de chamar a atenção: puxando o próprio saco. Quem se presta a elogiar os próprios feitos tenta provar a seus interlocutores que eles estão diante de um dos melhores exemplares da espécie humana. E isso, cá entre nós, é masturbação com plateia. Patético!

Não é por nada, não. A liberdade de expressão garante a qualquer um o direito de exaltar suas próprias maravilhas. Mas eu acho que gente boa de verdade prefere investir o seu tempo em coisas boas de verdade. Não em tagarelar por aí o quanto é especial. Amor próprio é bonito. Autopropaganda é exagero.

Ninguém devia falar bem de si mesmo para provar isso ou aquilo. Se o sujeito é pessoa boa, basta ser o que é, uma pessoa boa, e deixar os outros concluírem o que quiserem. O que há de difícil nisso?

E como cansa essa ladainha do “ó, eu acredito num mundo melhor… ó, eu choro quando vejo uma injustiça… ó, eu divido tudo o que tenho… ó, eu distribuo cestas básicas…”. Tudo isso para nada presta se não vier acompanhado de gestos práticos, atitudes e ações que dispensam o discurso.

Quem é bom mesmo não precisa dizer, repetir, alardear. A gente sabe. O mundo se dá conta e agradece de seu jeito. Mesmo que ninguém vá lhe oferecer a chave da cidade, um título de cidadão honorário e outros gestos tão úteis quanto distribuir capas de chuva na seca nordestina. Quem faz uma coisa boa não o faz porque espera que alguém reconheça e lhe dedique uma estátua em praça pública. Faz porque acha que deve fazer. Ou não?

Do mesmo jeito que ninguém precisa falar mal dos outros para dizer bem de si mesmo, ninguém carece mergulhar no autoelogio para provar o seu valor. Isso é chato, enfadonho, serve apenas para fazer a vida passar mais rápido.

Você não me leve a mal. Mas eu acho que quem precisa tanto falar bem de si mesmo tem das duas uma: ou uma imensa ignorância ou uma tremenda culpa no cartório. Deus nos livre de um e de outro.

Tornou-se pedra, a menina que um dia foi flor

Tornou-se pedra, a menina que um dia foi flor

Os dias mais marcantes são aqueles em que a gente sai deles um pouco modificados. São os dias que nos lembraremos para sempre, não importa quanto tempo passe. São os dias em que, sem anestesia alguma, somos confrontados com as verdades que nos fazem crescer, e de alguma maneira, enrijecer.

É preciso cuidado para não se blindar demais. Cuidado para não tornar pedra o que um dia foi flor. Cuidado para não deixar de acreditar na poesia, na delicadeza, no amor.

Todos nós passamos por sustos. Por momentos em que a vida nos dá uma rasteira e não sabemos mais em que solo pisamos. A gente se fere, se fecha, se ressente. Mas é preciso força para ser novamente semente. Para transformar pequenas gotas de orvalho em banho de chuva corrente. Para chorar mágoa e renascer flor. Para enxugar o pranto e cicatrizar a dor.

Não é de uma hora para outra que a gente endurece. A dor é cumulativa, e de tanto sentir o chão ruir, vamos nos fechando também.

Aos poucos fui tecida concreto, cimento e rocha. Aos poucos tornou-se pedra a menina que um dia foi flor.

Porém… Ninguém é feliz por inteiro quando perde a fé. Quando perde a esperança por dias risonhos e noites dançarinas. Quando não há transpiração nem emoção. Quando falta amor e sobra rancor.

Por isso e para isso existe o tempo. O tempo que sopra as feridas e afofa o solo árido de nossas crenças e emoções. O tempo que restaura a dor e seca o pranto. O tempo que possibilita que volte a ser flor o que um dia foi pedra.

Contrariando o que se esperava dela, a flor rasgou o chão. A flor rompeu a muralha de cimento e buscou a luz. A flor encontrou uma sutura mal feita na rocha e brotou inteira, forte e verdadeira, sob os raios de sol. A flor desafiou as intempéries da jornada e resistiu como alicerce de delicadeza e fortaleza.

Que haja mais motivos para ser flor do que pedra. Que minha alma não endureça a ponto de murchar diante do primeiro obstáculo, nem de perder o viço diante da aridez do terreno. Que não falte brisas de esperança, chuvas torrenciais de harmonia e luz abundante de calmaria.

Os dias mais marcantes são aqueles em que a vida contraria o óbvio. Em que os começos difíceis são massacrados pela força de um final feliz. Em que a brisa suave do pensamento leva embora um furacão de sentimentos. Dias em que a urgência de ser feliz aprende a ser calmaria do encantamento. E tempo em que toda a poesia grita em detrimento de todo barulho que há em mim…

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Que a leveza que liberta nos encontre desarmados

Que a leveza que liberta nos encontre desarmados

Vivemos a projetar a nossa felicidade em grandes feitos no tempo futuro. Quando eu tiver dinheiro suficiente para uma vida mais confortável serei feliz. Quando eu encontrar o amor perfeito da minha vida serei feliz. Quando eu tiver mais tempo disponível serei feliz. Quando eu conquistar o emprego dos sonhos serei feliz. Quando tudo estiver estabilizado eu finalmente serei feliz.

A rigor, o que estamos fazendo é de uma burrice sem tamanho, percebe? Projetamos a idealizada felicidade, segundo o roteiro de um filme desses de ficção científica. O problema desses filmes é que eles mostram terras áridas, construções monumentais em ruínas, cenários acinzentados para personagens acinzentados. O futuro é absolutamente incerto, essa é a nossa única certeza.

E não passa de utopias tolas essas condições limitantes a que nos submetemos por nossa própria conta e risco. O dinheiro nunca será o suficiente, posto que a nossa relação com os bens materiais é de total submissão: queremos sempre mais do que temos.

O amor da vida é tão subjetivo quanto uma bolha de sabão. Que vida? Em qual momento dela? Amor não é “da vida”, amor é construção de afeto. Perfeito? Como assim, perfeito?

O emprego dos sonhos só existe até a página quatro; a partir da página cinco você já estará às voltas com desafios de relacionamento entre hierarquias e achando que ninguém te dá o devido valor.

E essa história de estabilidade? Ah, fala sério… É da nossa natureza arranjar alguma coisa para se coçar, ainda que seja sarna. Basta algum setor da nossa existência ficar “estável” que a gente começa a pinicar por toda parte. Aliás, “estável” é uma palavra padrão para boletins médicos que se referem a pacientes em longos períodos de internação – “O paciente está estável.” –, desejo com todas as minhas forças, que os deuses (todos eles, antigos e novos) me defendam disso!

E toda essa expectativa em relação aos dias que estão por vir, sobre os quais não temos controle e a respeito dos quais pouco sabemos, só serve para nos colocar um peso insuportável nos ombros. Acabamos como vítimas de nossa própria eterna necessidade de adiar a felicidade, simplesmente porque não sabemos identificar as pequenas e inefáveis alegrias presentes.

Baixemos a guarda, as armas, as mãos. Paremos de nos assaltar em emboscadas, cujo único propósito é nos colocar contra uma parede que parece encolher a cada dia. Tenhamos a gentileza de nos estender a própria mão, num auto amor que já passou da hora de acontecer.

Marquemos um encontro com nosso riso fácil, nossos ombros relaxados, nossas pernas bambas do prazer dos afetos simples. Sejamos adoráveis a ponto de nos convidarmos, a nós mesmos para uma dança libertadora, sem passos demarcados, ritmos acertados, nenhuma coreografia. Corpo solto namorando a melodia.

Encontremos tempo para nos redescobrir enquanto é tempo. Enquanto ainda não nos corrompemos o suficiente para servir às coisas que nos matamos de trabalhar para conquistar. Enquanto ainda somos capazes de rir sem querer e chorar quando tiver vontade.

E que a leveza que liberta nos encontre desarmados, para que não nos reste nenhuma outra alternativa, a não ser nos entregarmos a ela. Brisa, sol de fim de tarde, noites de temperatura amena. Que seja leve tudo o que não for breve; e o que for breve que seja ainda mais leve!

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

” Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: e

— Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. ”

-Autor desconhecido

Lembra-se da última vez que respondeu com amor?

Lembra-se da última vez que respondeu com amor?

Responder com amor sim, não necessariamente com o coração porque nem sempre responder com o coração é responder com amor.

Uma vez escrevi um texto sobre esta questão sublinhando que o melhor desarme é o amor: ‘Responde com amor sobretudo quando não esperam que o faças. Não porque é o “correto”, não porque és fiel a determinada religião, mas porque só pode ser esse o caminho (…)’. O certo é que, revisitando esse texto, posso dizer que a estrada da vida tem continuado a mostrar-me isso mesmo.

O amor contagia. A bondade tem vontade própria, vontade de se multiplicar e crescer exponencialmente quando alimentada por pessoas do bem; não boas pessoas, pessoas do bem, porque todos nós temos as nossas imperfeições. O que distingue as pessoas é que quem é do bem disciplina o seu coração para não ceder ao ódio, à raiva ou ao rancor e para lembrar o melhor que cada um tem e traz à nossa vida.

O amor cura. Uma vez vendo um programa da Oprah (Winfrey) há alguns anos lembro-me de ouvir uma frase que me marcou: “Basta um pouco de amor para acabar com a loucura”…. Eu acredito nisso, no poder do amor para ajudar a Humanidade a encontrar o seu caminho.

Deparo-me por vezes com a situação incômoda de ver a importância do amor ser menosprezada e talvez para mim própria no passado essa relevância não fosse tão evidente como me é hoje.

É também para mim evidente que é tão mais difícil mantermo-nos “do bem” quando se olha em redor e não deixar corromper a nossa essência continuando a lutar pelos valores que nos fazem dormir com a consciência tranquila no final do dia. Admiro todos aqueles que se mantêm fiéis a si mesmos por mais que se sintam por vezes esmagados. E mais: ser do bem não é querer agradar a todos mas tratar com amabilidade todos aqueles que conhecemos ou desconhecemos a sua dor. É isso que faz de nós humanos, apenas.

Como terminei o texto que referi acima continua a fazer sentido dizer que ‘talvez escreva como vivo, no mundo da lua, mas ainda quero acreditar nos meus sonhos de criança, que este mundo pode ser melhor se assim o quisermos, que tu podes realmente melhorar se o desejares e que, juntos, podemos preservar o que de melhor este planeta tem…o amor”.

15 frases inspiradoras de “Comer, rezar, amar”

15 frases inspiradoras de “Comer, rezar, amar”

“Comer, Rezar, Amar” é um livro da escritora Elizabeth Gilbert e um filme de 2010, que narra a história da jornalista que troca a segurança de um casamento não muito feliz por uma viagem de redescobrimento. Muita gente se encantou com o livro e filme, e muitas frases foram eternizadas. Nós, da Soma de todos os Afetos, nos identificamos em diversos momentos, e percebemos que as situações vividas pela protagonista contam a história de todos nós. Por isso, selecionamos 15 frases que nos inspiram. Espero que gostem!

“A gente precisa ter o coração partido algumas vezes. Isso é um bom sinal, ter o coração partido. Quer dizer que a gente tentou alguma coisa.”

“Há momentos que temos de procurar o tipo de cura e paz que só podem vir da solidão.”

“Todo mundo fica assim no começo de uma história de amor: quer felicidade demais, prazer demais, até adoecer.”

“- Sinto sua falta.
– Então sinta minha falta. E me mande amor e luz toda vez que pensar em mim. Depois esqueça. Não vai durar pra sempre, nada dura.”

“Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.”

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Julia Roberts as “Elizabeth Gilbert” in Columbia Pictures’ EAT, PRAY, LOVE.

“Para chegar ao castelo, você precisa nadar pelo fosso.”

“Se houve sofrimento é porque você tentou.”

“Olhe o mundo através do seu coração, assim encontrará Deus.”

“Esses dois têm muitos problemas, problemas sérios que precisam resolver; mas juntos, são perfeitos um para o outro, existe sentimento, vai entender…”

“Há momentos que temos que procurar o tipo de cura e paz que só podem vir da solidão.”

“Melhor viver o seu próprio destino de forma imperfeita do que viver a imitação da vida de outra pessoa com perfeição. Então agora comecei a viver a minha própria vida. Por mais imperfeita e atabalhoada que ela possa parecer, ela combina comigo, de alto a abaixo.”

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“Tem que aprender a escolher seus pensamentos da mesma forma que escolhe suas roupas todos os dia, trabalhe sua mente é a única coisa que deve controlar porque se não dominar seus pensamentos terá problemas sempre.”

“E se a gente simplesmente reconhecesse que nosso relacionamento é ruim, e mesmo assim ficasse junto? […] Dai a gente poderia passar a vida inteira junto… infelizes, mas felizes por não estarmos separados.”

“Sabe o que senti quando acordei hoje de manhã? Nada. Nem paixão, nem entusiasmo, nem fé, nem emoção. absolutamente nada. Eu acho que eu passei do ponto onde se poder chamar isso de um mal momento e isso me apavora. Meu Deus, essa ideia é pior do que a ideia da morte. É essa pessoa que eu vou ser de agora em diante?”

“Quanta gente já ouvi dizer que os filhos são a maior realização e o maior reconforto de suas vidas? São aqueles com quem eles sempre podem contar durante uma crise metafísica, ou em um momento de dúvida quanto a sua relevância – Se eu não tiver feito mais nada nesta vida, então pelo menos terei criado bem os meus filhos.”

A cumplicidade do amor em 22 ilustrações que te farão suspirar

A cumplicidade do amor em 22 ilustrações que te farão suspirar

A Soma de Todos os Afetos, em parceria com a CONTI outra, separou para vocês uma seleção de trabalhos do artista coreano Puuung que vem fazendo muito sucesso com a sua maneira delicada e aconchegante de ver o amor.

Tendo como protagonistas um jovem casal, a série “Love is…” explora a rotina e o convívio dentro de um pequeno apartamento ou mesmo pelos arredores do bairro. As cores são quentes e os detalhes sempre apresentam uma gentileza ou demonstração de afeto.

Os pontos mais marcantes são a atenção e sintonia do casal ilustrando deliciosamente um ambiente de cumplicidade.

Confiram o vídeo e depois uma super seleção de ilustrações. Para cada detalhe, um suspiro!

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Todas as ilustrações Puuung

Vasilisa, A Bela – Uma iniciação feminina nos vales profundos do inconsciente

Vasilisa, A Bela – Uma iniciação feminina nos vales profundos do inconsciente

Vasilisa, A Bela é um conto russo de Alexander Afanasyev, que conta a história de uma menina – Vasilisa – que perdeu sua mãe e dela ganhou uma boneca que a auxiliou a lidar com sua madrasta e irmãs postiças e também com a bruxa Baba Yaga.

Vasilisa ou Vassilissa, a Bela ou a Sábia, juntamente com a bruxa Baba Yaga, são duas das figuras mais famosas do folclore russo, utilizadas em vários contos de fadas. O início do conto se assemelha bastante a outro conto famoso: Cinderela.

A menina fica órfã de mãe e passa a viver com uma madrasta e suas três filhas, que passam a persegui-la e a infringir todo tipo de tortura emocional e escravidão.

A morte da mãe e a substituição por uma madrasta é um tema recorrente em contos de fadas. Vemos isso em Cinderela, Branca de Neve e em Rapunzel, onde a mãe verdadeira some da história e uma bruxa assume seu lugar.

O diferencial é que nesse conto temos a boneca. Ao morrer sua mãe lhe dá uma boneca que a auxilia em sua jornada. Essa boneca pode ser uma herança psíquica, uma intuição e conhecimento interior, passados de mãe para filha. Algo sobrenatural que sobrevive a morte da mãe boa simbólica.

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Esses contos onde a mãe morre, mostram que deve morrer a identificação da mulher com sua mãe, para que possa desenvolver sua personalidade. É a saída do paraíso materno da infância. Essa benção materna junto com a boneca formam um par de opostos à bruxa e à madrasta. Esse duplo aspecto feminino é que inicia a menina.
A mãe boa se transforma em símbolo, em benção, que passa a auxiliar a estruturação da personalidade da menina, que está se tornando mulher.

Ai entra em cena a madrasta ou a bruxa, que simboliza a mãe terrível, ou seja, a realidade cruel da vida, o ciclo vida e morte, as doenças do corpo, a crueldade da natureza e o quanto somos meros mortais frágeis.

Mas a mãe terrível é extremamente importante para o nosso desenvolvimento psíquico; sem ela não assumimos a responsabilidade de ir para o mundo, de estar só. Assim aprendemos a deixar morrer o que precisa morrer.

A iniciação de Vasilisa, com a morte da mãe boa, ensina a mulher a ficar só para que descubra sua forma de cuidar de si mesma, e assim posteriormente se tornar ela própria mãe.

O nome Vasilisa é de origem grega e significa “Rainha”. A Rainha é uma mulher madura, que já não é menina e está pronta para assumir seu reino, ou seja, sua vida, seu trabalho, seus amores e sua riqueza de alma. É segura de si e de sua feminilidade. É mãe, mulher, senhora e soberana dentro do seu reino, da sua casa.

A iniciação feminina, diferentemente da masculina, acontece, como nesse conto, no aprendizado do ciclo da vida e da morte, pois a mulher contem em si os atributos da Grande Mãe naturalmente em seu corpo e psique.

O protótipo da iniciação feminina seria o parto, quer a mulher dê a luz ou não literalmente, pois a mulher sente a natureza em seu corpo como um todo, diferentemente do homem.

A bondade extrema de menina, é um aspecto do arquétipo feminino visto em vários mitos e contos de fadas. A bondade e a generosidade extremas, precisam ser combatidas por meio do confronto com nosso lado sombrio, que vemos no egoísmo da madrasta e das irmãs. Ser boazinha demais não é positivo para o desenvolvimento da mulher.

Esse egoísmo reprimido – simbolizado pela madrasta e irmãs –pode ser muito positivo para a mulher. Sem isso a mulher passa a atender os desejos de qualquer pessoa e esquece de si mesma entrando em uma alienação profunda.

Um aprendizado que temos também com essas princesas que realizam os serviços domésticos sem se queixar, é o de que precisamos algumas vezes aceitar a situação como ela é, limpa-la, organizá-la e colocá-la na rotina. Limpar e organizar nossa casa psíquica, nossas emoções.

Outro fator de muita relevância para compreendermos também é o significado da boneca. Para a menina, a boneca é considerada um suporte para a projeção dos fantasmas da maternidade e da relação com a mãe, pois se observarmos bem, elas imitam em suas brincadeiras a relação mãe e filha.

contioutra.com - Vasilisa, A Bela – Uma iniciação feminina nos vales profundos do inconscienteNa verdade, a relação da criança com qualquer objeto, como boneca, ursinho, paninho, ou qualquer outro objeto, é a primeira projeção onde a criança deposita uma força mágica e transcendente.

A madrasta e as irmãs são também um poder persecutório que começa a combater a realização interior desde seu aparecimento. Muitas vezes quando estamos nos desenvolvendo, o exterior começa a se levantar em críticas e gerar dúvidas em nós, isso porque em nosso interior há dúvidas também, medos e insegurança.

O conto mostra como sermos heroínas e enfrentarmos nossos medos e dúvidas. Vasilisa é então, enviada a floresta para se encontrar com esse um aspecto sombrio feminino, a Baba Yaga.

A Baba Yaga apresenta características da Grande Mãe antiga. Ela é boa e má ao mesmo tempo, tudo depende da atitude do herói ou heroína frente a ela.

A atitude de bondade excessiva, cultivada principalmente em sociedades patriarcais que primam por um feminino subserviente, precisa se encontrar com esse lado Megera da Grande Mãe, que vemos principalmente na natureza.

Ao ir para a floresta entra em contato com seus instintos e aprende a confiar neles. Ela alimenta a boneca, ou seja, ela alimenta esse instinto de preservação herdado da mãe e segue em rumo a individuação.

Ao chegar à casa da bruxa ela encontra um cavaleiro branco, um vermelho e um negro, remetendo as fases alquímicas albedo, rubedo e nigredo. Vasalisa vai sofrer uma transformação profunda, ela vai passar da inocência (albedo) à noite escura da alma (nigredo).

A casa de Baba Yaga pousa sobre pernas de galinha, que gira quando bem entende. Nos sonhos, o símbolo da casa reflete a organização do espaço psíquico habitado por uma pessoa, tanto no consciente quanto no inconsciente. Essa casa é um ser vivo, transbordante de entusiasmo, de alegria e vivacidade. Próxima ao nível animal, a casa é a estrutura do inconsciente que despertará em Vasilisa a chama do insight.

A Baba Yaga então surge em um pilão voador, que representa um útero simbólico. Algo feminino onde se mói os grãos, simbolizando o ato de nos sentirmos triturados, moídos por algo e reduzidos a pó.
Quando iniciamos nosso desenvolvimento nos confrontamos com nossas sombras, nossos “pecados”, nosso lado obscuro, e isso causa culpa e contrição.

O ego é reduzido a pó para então renascer de forma mais madura. O ato de o ego ser moído e reduzido a pó é necessário para que amadureçamos. É isso o que o arquétipo da mãe terrível faz, ela nos amassa e nos mói para que nos desidentifiquemos da nossa persona iluminada e infantil. Quem não está a altura desse desafio é engolido por ela.

Vasalisa então é deixada a noite para separar os grãos. O tema da separação dos grãos vemos também no conto Cinderela e Amor e Psique.

Esse ato é muito importante na vida da mulher. É um trabalho de discriminação, estabelecer ordem e leis internas. Saber aquilo que é seu e o que é do outro, o que é de si própria e o que ela herdou da família, o que ela gosta, o que ela busca e não o que lhe impuseram como verdade.

Isso representa então, esclarecer uma situação, separar as coisas. Isso evita que as situações fiquem confusas, mas se elas ficarem a mulher deve se perguntar por que a situação chegou a ficar daquele jeito.

Os grãos estão ligados a terra e a Grande Mãe. Sendo símbolo dos mortos e da ancestralidade. Grãos de papoula se associam ao mundo dos mortos e dos espíritos.

A mulher então aprende sobre o ciclo morte e vida, pois ela tem o poder da vida e da morte sobre os seres que a cercam, tanto psíquica como física também. É então importante tomar consciência de que ela tem poder sobre o clima ao seu redor. Em toda mulher a parte escura do Self tem o poder de desejar a vida e a morte.

O par de mãos que aparecem no conto, indica que se trata da crueldade da Baba Yaga e seu espírito sanguinário, que também se refere a natureza e seus aspectos cruéis. É a sombra abissal da natureza por trás da Baba Yaga, que só podemos olhar com terror. A natureza mata cruelmente e dá a luz a belas coisas.

Vasalisa também faz algumas perguntas à velha bruxa, e Baba Yaga que “saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo”.
A curiosidade feminina nos contos de fadas costuma ser punida, diferentemente da masculina. A heroína quase sempre paga com a vida.

Isso significa que há uma quantidade determinada de coisas que todos deveríamos saber em cada idade e cada estágio das nossas vidas. E isso é um grande aprendizado para o feminino.

A menina pergunta sobre os cavaleiros e não sobre as mãos; nesse momento ela refreia sua curiosidade graças à boneca. Existem mistérios sobre a natureza feminina que devem permanecer um mistério. Ai é que reside o encanto feminino.

O feminino deve aprender a guardar seus segredos, principalmente em relação aos seus mistérios de vida e morte. No campo dos relacionamentos a curiosidade indiscriminada pode ser fatal.
Baba Yaga então dá a menina uma caveira com o fogo, quando descobre a benção em sua casa – a boneca.

A bruxa não repele a benção em si, mas o lado “mãe boa demais” presente ali. Sua natureza não aceita aquilo. Ela prefere não estar próxima demais da luz, ela é um lado sombrio, mas assim como a mãe de Vasalisa, a bruxa dá à menina uma espécie de benção também, que a auxilia assim como a boneca. Ela recebe uma parte do poder selvagem da Deusa Megera, pois aprendeu com ela.

Ambas – boneca e caveira – formam a completude do materno: o lado luz e sombra, assimilados e integrados pela menina.

Ao retornar à casa da madrasta ela sente medo, o que é bastante natural, mas a caveira a tranquiliza. Isso mostra que ela assimilou e respeitou essa força da natureza.

A caveira é um símbolo da morte e da ancestralidade. A caveira traz a luz para a casa e seus olhos fixam na madrasta e nas filhas até que elas virem cinza. Seu olhar queima, destrói.

Vasalisa desceu até as suas sombras, conheceu sua crueldade. Ela era vítima dos outros por ser ingênua. Na verdade, ela era cruel consigo própria. O elemento sombrio nos faz sermos mais íntegros conosco mesmo. Conhecer nossa sombra nos traz o conhecimento da sombra dos outros.

Vasalisa não age por conta própria em sua vingança, mas quem age é caveira, com seu olhar que queima. Ela dá a corda para as mulheres se enforcarem.

O conto diz que devemos nos abster de nossa ânsia de poder, e que a própria psique se encarrega de trazer a vingança. A pessoa cai em sua própria avidez, o mal acaba sempre se destruindo.

A seguir Vasalisa volta a encontrar a mãe boa que cuida dela na cidade. Ela simboliza uma velha sábia que intermédia entre Vasalisa e o rei, que é o lado masculino positivo da mulher.

O conto então, nos ensina, que precisamos descer até a nossa natureza mais interior, encontramos com a Megera para aprendermos a deixar morrer aquilo que não nos serve mais. Aprendermos os mistérios da vida e da morte e o organizar de nossas emoções e ideias. Algo que somente o feminino consegue fazer com maestria.

Gente desinteressada desinteressa a gente

Gente desinteressada desinteressa a gente

É fato que não poderemos dar ouvidos a tudo o que nos chega, tampouco levar em conta a opinião de qualquer um, porém, mantermos uma atitude totalmente desinteressada e distante de tudo e de todos nos tornará uma pessoa desagradável e chata. Não poderemos deixar de nos importar com algumas pessoas que nos são especiais, ou a solidão será a nossa companhia enquanto vivermos.

O mundo de hoje nos cobra o mergulho no trabalho, o consumismo desenfreado e a harmonia estética. Com isso, muitas vezes nos afundamos em horas estendidas nos escritórios e nas academias, cuidando de nossa aparência, enquanto nos distanciamos mais e mais dos contatos humanos. Preocupados com as economias e com as contas pendentes, esquecemo-nos de olhar o nosso entorno, tornando-nos cegos frente a quem está ali nos amando e precisando de nós.

Da mesma forma, uma vez que esse mundo de aparências é por demais frívolo e superficial, além de competitivo em todos os setores, acabamos nos fechando, deixando-nos de nos abrir, de partilhar, de viver os encontros mágicos que a vida nos oferta, por medo de sermos usados como os objetos que tanto prezamos. Parece estar sendo valorizada, nesse contexto, a ideia de que não podemos nos apegar, de que devemos nos bastar tão somente sozinhos.

Talvez por conta dessa competitividade acirrada no trabalho e na vida, disseminam-se aconselhamentos que nos direcionam ao isolamento, ao “dane-se com tudo”, ao não se importar com o mundo lá fora. Logicamente, existe muita coisa e muita gente que precisaremos ignorar para manter nossa sanidade, no entanto, é preciso dar importância a quem realmente merece nossa consideração, pois existe quem precisa de nós, quem espera algo de nós, quem quer ser parte de nós, com verdade e amor.

Todos necessitamos de alguém com quem contar durante os tombos que levaremos, pois é quase impossível sair sozinho das ciladas que permeiam a nossa jornada de vida. Nosso equilíbrio, portanto, dependerá exatamente da forma como encararemos o que nos acontece, trazendo para junto de nós gente do bem, gente que traz luz, que sorri e faz sorrir, que abraça a nossa alma. Porque pessoas que não se interessam por nada neutralizam o amor em seus corações, tornando a felicidade algo que não se pode alcançar. E felicidade é possível, sim, para quem se importa com o que é de fato importante. Não mais.

Os apaixonados que me desculpem, mas o amor não é uma aposta

Os apaixonados que me desculpem, mas o amor não é uma aposta

Relacionamentos não podem ser um jogo de querer, onde quem demonstra mais, vence. Quando colocamos a vontade de estar junto sob essa perspectiva, perdemos o fio da meada. Abrimos mão de um possível encontro por uma migalha de carinho qualquer, num dia qualquer. Os apaixonados que me desculpem, mas o amor não é uma aposta.

É triste perceber que os amores já não carregam a mesma importância. Se antes, abraços, beijos e outras sinfonias românticas embalavam os apaixonados, hoje o que vemos é um distante desvencilhar entre quatro paredes. Os desencontros estão mais vivos do que nunca. Os dissabores, estes, cada vez mais constantes. Porque ninguém parece ter paciência para ouvir. Porque ninguém parece ter coragem para dizer. E nesse samba descompassado e líquido, o amor anda dando de cara no chão na primeira tentativa de sobressair-se frente a multidão. Nas conversas estabanadas, os apaixonados perdem a linha no quesito sincronia. Empurram-se de um lado para o outro e esperam que a sua companhia esteja ali, na mesma frequência. Mas o amor não é só sintonia. Nunca foi. E tampouco um lançar de dados. Esperar ao acaso que os dados da vida o coloquem nos pés dessa efervescência amorosa é, antes de mais nada, uma arrogância. Porque mesmo sendo necessárias gotas de sorte, o amor é também entrega, escolha e atitude.

Direcionar o coração para algo tão onírico pode parecer algo presunçoso, e talvez seja. Talvez ainda estejamos batendo cabeça para entender como tudo isso funciona. As carícias, a vontade de ficar, os sonhos em conjunto. De repente, tais encontros sejam mitos embutidos por corações que acreditam somente nos finais felizes. Mas, deixando os olhos bem abertos, até os infelizes são capazes de transbordar sorrisos. Mesmo eles, nas mais anestesiadas relações, conseguem encontrar refúgios sentimentais a serem expressados.

Às vezes, os apaixonados não são amor. Quem sabe um estágio inicial do que pode vir a ser, mas não o que de fato é. Almejar a imensidão prolífera do sentir por dois requer calma. É conhecimento das coisas simples e dos instantes não ignorados. Sem amarras ou vantagens previamente construídas, o descaminho dos futuros amantes deve ser pautado na sinceridade. Os apaixonados que me desculpem, mas o amor não é uma aposta. O amor é vivência.

Talvez a gente se esbarre e se conheça de novo com o olhar mais maduro e o coração mais decidido

Talvez a gente se esbarre e se conheça de novo com o olhar mais maduro e o coração mais decidido

“Talvez a gente se esbarre e se conheça de novo com o olhar mais maduro e o coração mais decidido.” Tatiane Argenta

Eu achava que, aos poucos, a gente morria de amor, depois do fim, depois da despedida, mas não, ninguém morre. Dói muito e a angústia chega a apertar o peito; você chora baixinho pra ninguém ouvir antes de dormir e a saudade invade de um jeito avassalador. Quantas vezes eu quis saber como você estava sem mim, se encontrou outro alguém ou se ainda pensava em nós. Mas todas as dores, as feridas, as noites em claro, a angústia que se fazia presente em meu peito, a dor que persistia em ficar, tudo isso passou, a tempestade acabou e deixou-me ainda mais forte. Depois do fim, é difícil recomeçar e como dói lembrar daquele adeus.

Eu nunca precisei esbanjar sorrisos de graça para parecer bem quando eu não estava. Nunca escondi a saudade e evitei a todo custo fazer pose para parecer feliz, quando de fato eu não estava. Portanto, se eu sorrir é porque estou bem, não preciso declarar a minha felicidade aos quatro cantos do mundo como quem precisa mostrar a todos que, depois do fim, superei de forma mágica, não sofri e que estou melhor do que nunca. Sinceramente, acho desnecessário querer parecer feliz e realizado logo após uma história tão bonita, quanto a nossa foi, ter se acabado. Também não vou me abrigar no primeiro abraço, nem me entregar ao primeiro beijo que me aparecer.

Não vou me tornar uma pedra e não vou me fechar para a vida, eu só quero um tempo. Um tempo não para ficar sofrendo, chorando e pensando em tudo que acabou, mas um tempo para aproveitar e sugar tudo o que há de bom, recarregar as energias, descobrir novos lugares para ir num sábado à noite, conhecer pessoas que nunca quis conhecer, terminar a minha lista de séries no Netflix, descobrir onde tem o melhor cappuccino, fazer um tour gastronômico pela cidade e planejar a minha próxima viagem. Esse meu coração teimoso precisa aprender a reencontrar o tal do amor próprio.

Hoje, tive um encontro comigo e descobri coisas que antes, sei lá, passavam despercebidas talvez. Mas sabe, meu sorriso é mesmo bonito, as minhas piadas são realmente muito ruins e eu não sou tão simpática assim. Não tenho preferência musical e meu gosto é um tanto quanto diferente, estranho talvez. Meu abraço é o melhor do mundo e sei apoiar alguém, como ninguém. Realmente, você tinha razão quando dizia que fico linda de pijama. Você tinha razão quando dizia que minha risada era engraçada e que sou a melhor companhia de viagem que alguém poderia ter.

Você estava certo quando dizia que me faltava coragem, às vezes, para lutar pelo que eu queria e que eu precisava não me esconder tanto do mundo, não precisava me defender tanto das pessoas e, por mais que as feridas fizessem morada em mim, eu precisava me esvaziar da dor. Lembrei de quando você me dizia o quanto eu era incrível e que eu merecia tudo de melhor. Eu realmente mereço e é por isso que eu não posso deixar o meu mundo desmoronar, é por isso que não posso criar um bloqueio e impedir que coisas boas cheguem até mim, pois a dor não pode ser maior do que as possibilidades tão lindas que vejo por aí, e não posso permitir que essa insegurança tire as coisas boas de mim.

Então, eu lhe desejo abraços calorosos, sorrisos que fazem a gente ganhar o dia, um cafuné num domingo à tarde, abraços de moletom no inverno, mensagens de bom dia e risadas que fazem doer a barriga. Seja feliz, porque eu também vou ser. Mantenha a sua fé, sua coragem e sua ousadia de viver, porque eu também vou manter a minha alegria, minha paz e meu sorriso encantador. Quero me encantar de novo com a vida, quero continuar me descobrindo, sei que, para pessoas como eu e você, sempre há coisas boas reservadas. E não pense que “não demos certo”, nós demos sim, e muito certo, por um tempo. E agora, outras coisas, pessoas e momentos vão aparecer em nossa vida e vai dar certo novamente, de uma forma diferente, mais intensa talvez ou mais devagarinho; mas vai, acredite.

Talvez a gente se esbarre por aí novamente, com o coração mais feliz e maduro, talvez a gente sinta falta e, depois de tantos e reencontros, decida pousar no mesmo lugar. Aprendendo a aceitar aquilo que não soubemos aceitar, amando aquilo que não conseguimos amar, descobrindo aquilo que tentamos esconder e resolvendo tudo aquilo que deixamos para depois. Talvez a gente se esbarre novamente com o coração mais calmo e decidido a lutar, a ficar, mas, por hoje, é melhor alçarmos voo.

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