Para quem quiser julgar meu caminho, empresto meus sapatos

Para quem quiser julgar meu caminho, empresto meus sapatos

Imagem de capa: Romanova Anna/shutterstock

Dizer que isso simplesmente não nos afeta pode, às vezes, não ser verdade.

Fazer ouvidos surdos a esses comentários, que ousam julgar nossas ações, nem sempre é fácil. Sobretudo se vêm da boca de pessoas importantes para nós: nossa família, amigos, professores, chefes, pessoas que consideramos autoridades e cuja opinião respeitamos.

Um verdadeiro amigo ou familiar não se atreveria a nos julgar sem conhecer a fundo nossas emoções ou todos os momentos vividos que carregamos sobre os ombros e em nosso coração.

Empreste seus sapatos, porque ninguém melhor do que você para conhecer a dor dos caminhos percorridos, os rios que teve que atravessar, as dificuldades que precisou enfrentar, às vezes sem pedir ajuda a ninguém… Hoje, convidamos você a refletir sobre isso.

O caminho que construímos e que nos definem
Você não é apenas essa pessoa que vê refletida no espelho. Não é apenas sua forma de vestir, ou as palavras que profere às outras pessoas.

Você é o seu caminho percorrido durante a vida, todas as suas experiências vividas e integradas no fundo do seu ser… Ninguém melhor do que você para saber o que motiva suas ações.

A própria pessoa apenas sabe o que teve que superar, suas decepções, dores, derrotas ou vitórias e o preço que pagou por cada uma. Então, por que algumas pessoas ousam, às vezes, a nos julgar sem saber, como se fossem donas de uma sabedoria universal?

Dois motivos comuns:

— As pessoas acostumadas a julgar os outros geralmente são as mais frustradas na vida.
— São pessoas insatisfeitas consigo mesmas que projetam sua necessidade de controle e intervenção nas vidas alheias.

É comum que muitos de nossos familiares tenham o hábito de nos julgar: “Você é muito ingênua, por isso que essas coisas acontecem com você”; “Você precisa amadurecer e enfrentar a vida como ela é”.

Julgam-nos com a intenção de nos ajudar e nos oferecer ensinamentos, mas na realidade nos desejam “encaixar” na maneira como eles pensam, de acordo com o que acham certo, errado ou mais adequado para nós.

Às vezes, quem julga seu caminho busca justificar a sua própria vida, desacreditando as outras pessoas. Diminuindo as escolhas dos outros. Infelizmente, isso é muito frequente.

Crítica construtiva sim, julgamento, não

Na realidade, quando essas pessoas nos julgam, não usam argumentos válidos, que sejam construtivos. Quase sempre buscam o ataque, a afronta ou o desprezo. Seus raciocínios são muito limitantes.

O que falta a esses “juízes” que adoram julgar os outros é a autocrítica. Não são capazes de valorar os seus próprios atos, suas palavras, para perceber que também cometem erros e que são capazes que causar danos a outras pessoas. Limitam-se a projetar suas críticas em outras pessoas.

Em geral, pessoas acostumadas a julgar nosso caminho não têm uma vida autêntica, com sonhos, paixões, amores e afetos que as ajudem a relativizar as coisas e abandonar o hábito de focar tanto na vida dos outros.

Como se defender dos julgamentos alheios

contioutra.com - Para quem quiser julgar meu caminho, empresto meus sapatos
Ilustração: Christian Schloe

Frequentemente, dizemos a nós mesmos: “isso não me afeta”. Pode ser verdade, sobretudo quando o julgamento vem de um colega de trabalho ou de alguém com o qual não temos um vínculo mais íntimo. Esqueceremos com facilidade.

Mas o que acontece quando um amigo, seu companheiro ou um familiar julga o seu caminho?

Nestes casos, é comum que nos sintamos ofendidos e até mesmo feridos. A primeira coisa a fazer é manter a calma e refletir a respeito das seguintes afirmações, que servem para proteger nossa autoestima:

— “Eu sei quem eu sou, sei o que já superei e tenho orgulho por cada passo do caminho, por cada aprendizado que obtive a partir de meus erros”.

— “Apenas eu tenho o direito de me julgar, porque somente eu sei como me sinto e o quanto sou feliz com minha maneira de ser e com tudo o que consegui até hoje”.

Após haver reafirmado sua autoestima, evite revidar com comentários hostis, prejudiciais, vingativos. Se demonstrarmos desprezo ou raiva, será mais difícil superar os sentimentos negativos, e eles farão ainda mais dano.

Expresse sua decepção. Deixe claro que ninguém tem o direito de julgar você assim e que o simples fato de fazê-lo demonstra que não o conhecem bem. Portanto, é como se fosse uma traição, nos casos mais abusivos, quando a outra pessoa tem o objetivo de controlar, manipular ou usar você de alguma maneira.

Liberte-se de relacionamentos opressivos

contioutra.com - Para quem quiser julgar meu caminho, empresto meus sapatos
Ilustração: Christian Schloe

Quem se atreve a criticar seus caminhos e suas experiências sem uma intenção pura de realmente desejar o seu bem, prova que não é um bom companheiro de viagem. E não importa que seja sua mãe, irmão, irmã, marido ou esposa.

Quem não aceita que, em alguma ocasião, você cometeu um erro e o julga por isso sente na verdade muita falta de amor por si mesmo e não se perdoa por seus próprios erros. Quem se vê como alguém que nunca comete erros ou toma decisões ruins carece de autocrítica e de empatia.

Se no dia a dia você apenas recebe julgamentos das pessoas ao redor, no fim, se sentirá escravizado pelas opiniões alheias. Não permita isso.

Nesses casos, será bom refletir se não vale mais a pena se distanciar de quem é incapaz ou não quer ver o seu valor, a luz que você transmite e a inteireza de sua vida.

Não espere que algo dê errado quando tudo estiver bem

Não espere que algo dê errado quando tudo estiver bem

Talvez a felicidade seja um estado de espírito, ou esteja presente enquanto procuramos por ela, quem sabe se encontre dentro de cada um. Fato é que ser feliz, a muitos, parece uma tarefa inglória, uma utopia, o impossível, o inalcançável. Ninguém é feliz o tempo todo – isso, sim, é utopia -, mas nunca se sentir bem ou satisfeito soa a uma patologia.

A vida é uma gangorra emocional, cheia de surpresas, tanto alegres quanto avassaladoras, porém, olhando bem, todo mundo pode ter a chance de passar por momentos alegres e especiais, por mais breves e ínfimos que sejam. Saciando a fome, sendo elogiado, terminando uma tarefa, saindo com amigos, ser visto com ternura, existem motivos que possam nos trazer algum alento reconfortante, mesmo quando a vida insiste em dizer não.

Alguns de nós, inclusive, teimamos em afastar qualquer possibilidade de nos sentirmos bem, como se estar contente não fosse algo a que temos direito. Basta nos sentirmos alegres e felizes, para começarmos a pensar que aquilo não pode estar acontecendo de verdade, que certamente algo ocorrerá e levará aquilo embora. Quanto medo de ser feliz, quanta resistência em abraçar tudo o que vem para deixar a vida mais doce e sossegada…

Parece que temos uma carga de culpa tão densa dentro de nós, que não concordamos com a ideia de que a felicidade pode fazer parte de nossa jornada. Amargamos de tal forma os erros que nos levaram até aqui, que enterramos no esquecimento o bem que já pudemos estender a outras vidas, anulando em nós qualquer merecimento de alguma coisa além de sofrimento. Sentimo-nos, assim, na obrigação de sermos punidos, sem parada, pela vida – isso é autoestima machucada, devastada, alquebrada.

Não fujamos, portanto, ao senso comum e passemos a nos valorizar, a nos amar, a praticar o “bem-me-quero”, o sou feliz porque eu posso, mereço, porque sou grato, saudável e tenho muitas qualidades. Sou feliz porque sim. As tempestades virão, mas nada poderá nos impedir de continuar acreditando, remando, nadando e seguindo em frente, trilhando o nosso caminho, vivendo as nossas verdades, sorrindo quando a vida assim nos pedir.

Temos que enxergar os nossos defeitos e assumir os nossos erros, sim, mas isso jamais poderá diminuir nossas chances de manter a esperança de uma vida melhor junto a quem vale a pena, onde os ares ventem sempre em nosso favor. Não podemos é desistir, simplesmente porque desistir de sorrir é como desistir de viver.

Imagem: Dark Moon Pictures/shutterstock

Gente que já acorda jurando que não fará concessões

Gente que já acorda jurando que não fará concessões

Imagem:  bomg/shutterstock

E começa o dia quebrando a promessa, porque a rotina é feita de cessões, concessões e negociações, para que, minimamente, se consiga algum êxito.

De nada adiantam a atitude superior e a carranca fechada, as exigências descabidas, as vias sem saída e as vontades mimadas. No máximo, cansam e afastam quem poderia contribuir para algumas soluções do dia.

Gente que se enxerga como o ponto focal, que desconsidera o espaço e valor alheios, que pega a primeira cadeira de qualquer lugar sem se incomodar com quem vem atrás. Gente que acha que conceder é sinal de covardia, que confunde arrogância com personalidade forte, e apresenta total falta de cortesia como seu cartão de visitas.

Gente que crê merecer sempre mais e melhor… do que os outros.

Tem gente que vive desse jeito, que não para para observar os movimentos e mudanças do mundo, das pessoas, dos comportamentos e relações. Gente que parou no tempo da realeza, que embora nada tenha de nobre, insiste em viver como tal.

A vida é dura para toda essa gente. Sem nenhuma noção colaborativa nem solidária, se perdem no oceano de reclamações e protestos quanto ao seu direito de exclusividade e prioridade. Sofrem com a ideia de compartilhar espaços, direitos, ideias e conquistas.

Se trancam na fortaleza reforçada de certezas e asperezas, solitários e mal humorados, prometendo em vão que jamais farão concessões.

E a vida vai passando, por vezes sorrindo, outras nem tanto, mas mudando sempre o caminho e as possibilidades dos encontros e uniões.

Por detrás das grades, gente que até queria seguir a vida, mas, por não fazer concessões, não encontra mais meios de se encaixar nem de seguir o ritmo. Gente que engessou as chances de ir adiante, por conta de um orgulho infantil.

E, por fim, para mudar essa história, só mesmo arrebentando as correntes, quebrando as juras, se misturando no mundo e perdendo o medo de ser gente como a gente. Qualquer gente.

Seu filho estuda numa escola desafiadora, ou apenas numa boa escola?

Seu filho estuda numa escola desafiadora, ou apenas numa boa escola?

Em torno dos 4 anos de idade seu filho estará matriculado numa escola pública ou particular, de acordo com a sua conveniência. Tudo o que se espera dele, é que seja aprovado nas várias matérias ofertadas pelo ensino regular até que o ensino médio esteja concluído.

São os anos de ouro. A criança vai para a escola, estuda meio período, e volta para brincar em casa, durante o outro período. Quem não se lembra do gostinho bom da liberdade, de chegar em casa e jogar sobre o sofá a bolsa pesada? Até o dia seguinte, dificilmente tínhamos que pegar em livros de novo.

Dos 4 aos 17/18 anos, o jovem gasta 14 anos da vida sem preocupações seletivas, não se compara com ninguém, estuda para passar de ano, e nem se importa caso precise eliminar uma matéria com a nota mínima exigida.

Mas, ao concluir o ensino médio, por volta dos 18 anos, esse estudante será confrontado com o sistema brutal de seleção das universidades e se fará esta pergunta: por que ninguém me falou sobre isso?

Pois é. Por que ninguém fala sobre isso? Por que se escolhe ignorar o funil pelo qual o estudante terá que passar aos 17, 18 anos? Por que não monitorar o sistema de ensino que a criança recebe desde sempre? Por que não otimizar o tempo?

A resposta, talvez, seja essa: porque a nossa cultura empurra com a barriga tudo o que pode ser deixado para o dia seguinte. Salvo exceções, as crianças são matriculadas na escola mais próxima de casa, e ali recebem o ensino que lhes é ofertado.

Sem mais. Não há acompanhamento por parte das famílias que nem sequer sabem o currículo que compõem as matérias escolares. Presume-se que a escola saiba o que ensinar. Nem sempre.

Em boa parte das escolas – e aqui incluo também as escolas particulares – a excelência cumpre o seu papel contemporizador, de maneira que se prepara o estudante para ser bom no que recebe, e não no que poderia receber.

Não há desafios, e sem desafios, o aluno não se destaca, a não ser em áreas que requisitem a criatividade.

Por pior que seja uma escola, a criatividade sempre se destacará, mas não se vence a concorrência nos vestibulares com criatividade, senão com método, técnica, didática, razão, conhecimento, e raciocínio lógico bem desenvolvido por horas extras que elucidem dúvidas, e forneçam instruções adicionais.

Algumas famílias vivem um paradoxo: creem estar oferecendo ao seu filho o melhor que podem, e ficam tranquilos com isso, mas se esquecem de perguntar se o que seus filhos estão recebendo é o máximo que podem receber, se estão sendo “aproveitados” em sua capacidade máxima, sem a qual todo estudante estará em desvantagem em relação àquele que foi desafiado em plenitude.

Eu arrepio sempre que vejo escolas que perdem tempo com programinhas culturais e festinhas que só desenvolvem o lado lúdico e social em detrimento do ensino de qualidade. Eu arrepio sempre que vejo adolescentes desocupados em casa sem preocupação com as exigências que a vida vai lhes cobrar, assim que terminem o curso médio.

Enquanto o menino ou a menina passam a tarde jogando na web há um aluno desafiado dando um extra para o seu intelecto, andando a segunda milha na companhia dos seus livros e cadernos.

Quem vencerá a concorrência? Certamente, o que se preparou melhor.

É questão de intelecto? Nem sempre. Os melhores nem sempre são os mais bem dotados intelectualmente, mas aqueles que forem desafiados, esses serão os melhores.

É questão de poder sócio econômico? Nem sempre. Os melhores nem sempre são alunos oriundos de classes economicamente privilegiadas, mas aqueles que forem desafiados, esses serão os melhores. Tudo é uma questão de desafios.

Se o seu filho vai para casa, dia após dia, sem que o colégio ofereça aulas de reforço, sem tarefas adicionais pesadas para o contra turno, de modo que, em resposta a esse desafio, o estudante se dedique 5 horas pela manhã e 3 horas adicionais à tarde, pode saber e pode ter certeza: seu filho não está sendo desafiado, e sem desafios, ele não será um adulto competitivo, nem no vestibular e nem na vida.

O que é uma pena! E vou além: é uma perda de tempo irreversível.
Nunca mais terá uma fase como essa com tempo totalmente livre para se dedicar aos estudos, sem nenhuma preocupação adicional.

Essa é a fase do aprendizado por excelência. Na infância e na adolescência, o menino ou a menina não têm outra obrigação que não seja estudar, e se forem desafiados por um colégio que leve a sério a missão de prepara-los para enfrentar a concorrência, responderão positivamente a esse desafio.

A escola que não desafia o seu filho não é uma boa escola para o seu filho. Não importa o nome da escola. Não importa o sistema de ensino que ela adote. Não importa se é da rede pública ou da rede privada. Não importa quão religioso lhe pareça o seu método e quanta ética lhe inspire a sua conduta.

Nada disso importa. O que importa é: quantas horas o seu filho estuda por dia? Ele tem a percepção de que sabe pouco e precisa saber mais? Ele escolhe voluntariamente estudar em casa como parte da consciência de que a vida é marcada por processos seletivos não apenas no vestibular, mas para sempre?

Se a resposta for “sim”, parabéns, seu filho está preparado ou está se preparando de maneira efetiva para concorrer com milhões de outros jovens que nasceram no mesmo ano em que ele nasceu.

Se a resposta for “não”, mesmo que ele estude no colégio mais caro da cidade, mesmo que ele tenha ótimas notas, será preterido por outro jovem que foi desafiado, e compreendeu que o desafio do vestibular e da vida depende unicamente dele e das respostas que der às demandas da concorrência.

Nesse caso, não tenha medo de mudar. Por mais que o colégio onde seu filho estude a vida toda lhe pareça um lugar muito seguro, por mais que tenha nome, por mais que ali estejam matriculados todos os seus colegas, ele ficará muito mais feliz ao ser desafiado do que permanecendo na zona de conforto até o limite em que será confrontado com o tempo que perdeu.

O desafio começa com você, pai, com você, mãe. Desafie o seu medo, o seu conforto, e o matricule numa escola que o desafie até o limite das suas potencialidades. Sem desafios não há crescimento. Com desafios, o crescimento será a única alternativa.

Mas não espere que a iniciativa parta do seu filho, porque são os pais quem devem antecipar-se às dificuldades, para que elas não sejam limitadores da vida de seus filhos.

Cuidado com a carência: ela costuma ver amor onde não tem.

Cuidado com a carência: ela costuma ver amor onde não tem.

Às vezes, sentimos falta de ter alguém ao nosso lado, que acompanhe essa caminhada da vida com a gente. Alguém que seja apoio nos dias ruins e que nos encoraje quando precisamos de coragem.

Por mais que nos declaremos suficientes e que tenhamos certa independência, no final do dia, no fim da noite, ou ao ver a foto de um casal estampada nas redes sociais, sentimos aquele desejo de ter alguém não para completar, mas para transbordar.

Eu entendo que, depois de tanto acreditar, a gente cansa de se recompor e de achar que agora irá dar certo. Cansa de fazer morrer os sentimentos que brotaram e de tocar a vida depois de uma decepção.

Mas a carência, aquela ânsia de ser amado(a) e de dividir a vida com alguém, pode nos levar a ver amor onde não existe. Ela pode confundir um simples oi com interesse. Uma ignorada com joguinhos, como se o outro de fato estivesse interessado, quando, na verdade, é só desinteresse mesmo.

Sempre que alguém diz que não quer namorar, de fato, ele(a) não está fazendo jogos para testar a sua paciência ou provar o quanto você gosta. Quando aceitamos a realidade, não nos deixamos guiar por hipóteses que não nos levam a nada, a não ser a frustrações.

Cuidado, porque alguém pode estar só interessado na sua aparência e não veja a sua alma bonita, não reconheça o quanto você é forte e não irá segurar sua mão nas tempestades. Não se iluda com a ideia de que alguém pode, de fato, “mudar de ideia” em relação a se comprometer e que, talvez, conhecendo-o melhor, convença-se de que assumir um compromisso é a melhor opção.

Não se envolva com quem oferece metades, com quem não se compromete em nada e que vive dando desculpas. Não tente achar o amor nas entrelinhas que só você consegue enxergar. Não veja amor no “oi sumida”, não veja como um tempo para conquistar as falas que esbanjam “esse não é o meu tempo, mas você é incrível”; não se prenda a isso, não, porque é cilada.

Quem quer dá um jeito, quem não quer dá desculpa. Cuidado, porque a carência transforma amizade em amor. A atenção – mesmo que mínima – em cuidado. Ela vê graça em falas que não refletem nenhum sentimento. A carência faz você acreditar que merece muito pouco, quando de fato você merece muito.

Imagem:Kseniia Perminova/shutterstock

Quem puxa saco também puxa tapete

Quem puxa saco também puxa tapete

Ninguém há de negar que muitas pessoas são adeptas da ideia de que os fins justificam os meios, não importando quais meios sejam usados, se éticos ou não. Numa busca desenfreada por seus objetivos, os quais tão somente envolvem aquisição de bens materiais e grau alto na hierarquia do trabalho, muitos passam por cima de valores morais, atropelando quem quer que pensem se encontrar no meio desse caminho.

É como se não pudessem fugir à máxima de que “a ocasião faz o ladrão”, uma vez que a vaidade e ambição então se aliam, em prol da realização daquilo que se quer, a todo custo, a qualquer preço. Para esses indivíduos, não existe outra forma de subir na vida a não ser focando exclusivamente seus esforços no objetivo, o qual deve ser a meta única e final de suas vidas, ainda que se machuquem ou se distanciem da vida de outras pessoas nesse caminho.

Esse tipo de gente parece não se apegar emocionalmente a ninguém, uma vez que qualquer um é visto como um concorrente, ou seja, um inimigo potencial. Assim, fica mais fácil mentir, trair, envolver o outro em fofocas, passando por cima de suas cabeças, sem dó, sem pensar duas vezes e sem olhar para trás, nem ao menos para checar os estragos deixados no rastro de suas ardilosas falcatruas.

Por essa razão, jamais possuirão um comportamento minimamente coerente, pautando suas ações pelas máscaras que lhes servirão aos escusos propósitos, aparentando cordialidade somente com quem possa lhes trazer algum privilégio na contrapartida. Não raro, cortejarão seus superiores, mostrando-se extremamente solícitos e competentes, leais e transparentes, até o momento exato em que possam derrubá-los, pois querem o seu lugar.

É preciso, pois, muita cautela com os bajuladores de plantão, visto que muitos deles estão esperando apenas o momento mais apropriado para usar contra nós tudo o que fizemos e/ou dissemos, principalmente aquilo que eles ouviram às escondidas e espalharam por aí, pelos ouvidos das pessoas mais mexeriqueiras com quem convivem.

Fato é que nosso coração, no fundo, sabe bem quem nos estima com verdade e intenções positivas, e serão estes que não medirão esforços para nos ajudar, não importando a posição que estivermos ocupando. E serão estes que deveremos manter junto, sem receio, sem hesitação, todos os dias.

Imagem: Tanya Zabula/shutterstock

A lei do galinheiro

A lei do galinheiro

Imagem: sylv1rob1/shutterstock

A lei do galinheiro dita que as aves que estão no poleiro de cima fazem o que bem desejam sem se importar com o que acontecerá no poleiro de baixo.

Não é uma lei tão desconhecida nossa, embora não sejamos galos nem galinhas enclausurados num cercado de arame.

O curioso é ver como essa lei tão sem lei é aplicada na vida da gente, e ainda mais triste, muitas vezes por quem a gente ama e admira. E, por costume ou resignação, vamos trazendo conosco a desvantagem de viver nos andares inferiores, aguardando o que nos cai na cabeça.

A lei do galinheiro não é justa, não é boa, não é educativa.

Mas ela existe nas relações de amor. Ela existe e é forte, a ponto de ser quase imperceptível e aceita como normal, principalmente nas relações de dominação.

Ela também existe nas relações profissionais, muitas vezes evoluindo ao status de rinha. Nas relações de amizade, onde há mais obediência do que companheirismo. Nas relações familiares, com vários níveis de poleiros e vários galos a disputar o mais alto.

Por fim, uma lei tão desprezível e revoltante, se aplica a muitas situações que sequer desconfiamos e vamos convivendo, achando normais os detritos que caem sem nosso consentimento, como os desrespeitos, os preconceitos, os julgamentos hipócritas, as mais loucas interferências e intervenções.

Mas, se a gente consegue identificar uma condição dessas, é hora de aplicar a lei da igualdade, mesmo que a duras penas (sem trocadilhos). A lei do galinheiro não é justa nem mesmo para galinhas e galos, e não seria portanto, melhor para nós.

Sempre será momento de lutar pelo próprio espaço, pela própria voz e por respeito, independente do tipo de relação e das regras a ela aplicadas. Regras e leis só são boas quando são justas para todos.

A lei do galinheiro existe porque ainda é aceita como válida por muitos de nós. Para cair, basta alinhar os poleiros.

Quer afastar uma pessoa da sua vida? Peça para ela ficar

Quer afastar uma pessoa da sua vida? Peça para ela ficar

Imagem: altafulla/shutterstock

Você pode amar a ponto o doer o peito, sentir saudade em um nível hard e não conseguir imaginar a viagem de fim de ano sozinho, mas, nunca, nunca mesmo, peça para alguém ficar na sua vida.

Conselho dado, agora vamos às provas reais que comprovem o fato: quando alguém se mostra interessado por nós, automaticamente, nosso ego cresce e começamos a prestar mais atenção naquela pessoa que, antes, nunca tínhamos notado.

A partir daí, se a pessoa for equilibrada e tranquila, a probabilidade do relacionamento passar de casual para algo mais sério é grande. Porém, se a pessoa pula os estágios da sedução, do flerte, do conhecimento e parte para um “amor eterno”, mostrando-se um psicopata em potencial, corremos dela como um maratonista na São Silvestre.

E por quê? Porque não damos valor a nada que é muito fácil e que demonstra desequilíbrio emocional. Simples assim!
Entenda a diferença: pessoas legais são legais. Pessoas legais demais são insuportáveis! Pronto!

Cá entre nós, ninguém quer ao lado uma pessoa que exala insegurança, que sirva de GPS e que pergunte o dia inteiro se você está com saudades. As pessoas gostam de se sentirem seguras, amadas e respeitadas dentro do seu próprio espaço. Freud dizia que ficamos fortes quando estamos seguros de sermos amados. Então, desacelere e deixe as coisas fluírem naturalmente.

Esqueça esses amores inventados que nos fazem acreditar que para merecer um grande amor devemos lutar por ele até a morte. Primeiro que o amor acontece naturalmente, segundo porque acontece de forma recíproca.

Um relacionamento só é bom, quando desperta o melhor que podemos. Se sair disso, é sinal de que você está fugindo da própria companhia e jogando no outro a responsabilidade em ser feliz. E, francamente, se você se encontra nesse estágio, você não está disponível para amar.

Não importa o que os outros digam ou te aconselham. Não importam as piadinhas do estilo “vai ficar para titia” ou as filas dos pretendentes apaixonados. Para estar bem com alguém, você precisar estar, primeiro, melhor sozinha.

Não tenha pressa de amar. Deixe partir quem não quer ficar, para que você não perca a vontade de viver um verdadeiro amor, porque um falso acabou indo embora.

Olhe em volta. Tantos sorrisos para conhecer, tantos cafés para tomar, tantos lugares para conhecer e você aí, insistindo em carregar quem não merecia nem sua carona.

Ela não tem o coração de pedra, tem a firmeza necessária contra amores fracos.

Ela não tem o coração de pedra, tem a firmeza necessária contra amores fracos.

Imagem: Alissa Kumarova/shutterstock

As pessoas confundem estar solteira com estar carente ou estar sozinha. Acham que todo mundo que não está em um relacionamento necessariamente sente falta de ter alguém.

Às vezes, precisamos de um tempo a sós, um tempo para rever nossas prioridades, nossos planos. Como posso querer entrar em um relacionamento desacreditando tanto do amor desse jeito? Como posso querer alguém ao meu lado, se estou cansada de olhar ao meu redor e de ver relacionamentos fracassados por falta de fidelidade, pessoas trocando joias por bijuterias, trocando um amor de verdade por uma atração fajuta.

Como eu posso pensar em entrar em um relacionamento, vendo tanta gente machucada por esse legado do “amor”? Acreditando que amar é necessariamente sofrer? Vejo tanta gente sendo enganada, corações sendo destruídos sem dó, que, às vezes, não ter ninguém é uma forma de se defender dos possíveis machucados.

Vejo tanta gente confundindo amor com apego, desistindo do amor por qualquer coisa e trocando gente de valor por gente que não valoriza, que acreditar em compromissos tem se tornado cada vez mais difícil.

Eu sei, eu posso não ter nada a ver com isso, mas eu já fui atingida por mentiras e meu coração já foi alvo de enganos, deixando-me em pedaços e eu me recompus. Não foi fácil, acredite. Levei fama de durona, como a tal coração de pedra, e diziam que eu escolhia demais.

Mas ninguém conseguiu ver a dor que estava por detrás de tudo isso, ninguém viu o coração que, embora pulsasse, estava quebrado, tentando se recompor, a passos lentos, daquelas promessas falidas. Ninguém entendia que esse lance de não querer ninguém era uma forma de me defender da dor e que, depois de um tempo, não querer me envolver era uma forma de não me decepcionar, o que, por sinal, funcionava muito bem.

Não é fácil ter um coração quebrado, assim como não é fácil se recompor. Tem dias em que a dor faz morada e joga a chave fora, não conseguimos sair e ficamos enclausurados nos nosso passado. Tem dias em que você chora sozinho e tem medo de não conseguir viver nunca uma história dessas bonitas que vemos por aí. Dessas histórias em que tem respeito, que tem amor, que tem paciência e lealdade e que a gente acaba achando ser apenas histórias, distantes da nossa realidade.

Eu não posso curar a minha dor machucando outra pessoa, não posso tornar isso um ciclo vicioso de tentar, tentar, machucar e reparar o erro. Depois que me permiti viver esse tempo, buscando sugar tudo o que há de melhor, estou melhor. Venho lendo livros novos, descobrindo umas séries incríveis, novas aptidões, vendo o quanto eu sou forte e capaz de alcançar os meus sonhos e como a caminhada até o sucesso é longa.

Não estar com ninguém, por medo de ficar só ou por carência, é a prova de que amadureci. Então, não me peça para aceitar qualquer coisa, ou para me entregar ao primeiro abraço. Cansei de ser guiada pelo coração, cansei de me deixar levar pela aparência, não quero mais viver uma mentira e sofrer as consequências dos meus enganos.

Eu não quero um amor raso, dessa vez eu quero mergulhar. E sim, enquanto eu não sentir que posso dar um passo à frente, eu vou permanecer aqui, como estou. Primeiro, eu preciso conhecer a mim, antes de conhecer alguém. Primeiro, eu preciso estar inteira, pois não posso ser metade. Primeiro, eu preciso estar segura, para, depois, poder confiar em alguém.

Sabe quando aquele vendedor passa e você diz: Hoje, não, obrigada? Quando me falam de relacionamento eu digo o mesmo: Hoje, não, obrigada. Mas, se você quiser, volte amanhã. Não há nenhum erro em não ter ninguém, mas há todo erro do mundo em ter alguém só pra preencher vazio, só pra matar a carência e, se for para viver uma história de erros, eu prefiro viver a minha, assim, porque estar solteira e feliz me ensinou a ser mais exigente.

Fazer cara de paisagem nos livra de muitos problemas

Fazer cara de paisagem nos livra de muitos problemas

Com menor ou maior frequência, sempre haverá aqueles dias em que desejaremos jamais ter saído da cama, em que nada parecerá dar certo, em que nada do que dissermos será entendido como queríamos, em que nada nos fará sorrir. Muito do que nos acontece é resultado de nossas próprias ações, mas também seremos importunados por todo tipo de gente que não fará outra coisa a não ser perturbar a paz de qualquer um.

Um dos maiores favores que poderemos fazer a nós mesmos, nesses casos em que alguém se encarrega de carregar o ambiente com fofoca e outros tipos de maldade gratuita, sempre será lutarmos contra a nossa vontade de explodir, para que não nos desequilibremos por conta de seres desprezíveis. Quanto mais esquentarmos a cabeça, quanto mais tentarmos esbravejar e mostrar descontentamento, menos fortalecidos ficaremos, uma vez que o esgotamento emocional acaba por trazer danos também ao nosso físico.

Tentar argumentar com quem não ouve ninguém além de si mesmo sempre será uma tarefa inglória e qualquer batalha que tentarmos travar contra suas maledicências não surtirá resultados dignos, uma vez que essas pessoas só trazem sujeira e inverdade aos ambientes, pois é somente isso que possuem dentro de si, é somente isso que têm a oferecer. Jamais conseguirão assumir o mal que carregam, simplesmente porque não possuem caráter suficiente para arcar com o que dizem e/ou fazem.

Apesar de se tratar de um esforço sobre-humano, manter a calma, o ar de que não percebemos nada nem nos importamos com as tramoias alheias nos poupará de muitos dissabores e de atitudes inúteis de tentar por em ordem a desordem moral de quem age sem pensar nos sentimentos de ninguém. Porque quem age de forma vil e antiética tem o coração vazio, sendo incapaz de demonstrar arrependimento e de pedir desculpas a quem quer que seja, afinal, posam como se nunca fossem culpados de nada.

Leva muito tempo para nos acalmarmos, após termos entrado em meio a tempestades que não foram por nós provocadas, ou seja, sabermos nos desviar dos contratempos que envolvem inverdades sobre nós, enquanto mantemos o semblante em estado de serenidade, é a atitude mais adequada a ser tomada. Não tem outro jeito, aliás, não existe nada melhor do que voltarmos olhos serenos na direção dos redemoinhos em que os próprios infelizes se afogam sozinhos.

Imagem: vladee/shutterstock

Me ama com tudo que em ti for amor

Me ama com tudo que em ti for amor

Imagem: Oleksandr Schevchuk/shutterstock

Podemos, só por hoje, esquecer o mundo lá fora?
Esquece a louça
a roupa suja
o trânsito
o compromisso de amanhã

olha pra mim
mas olha mesmo
como se nunca mais
eu fosse a luz a descansar na tua retina

como se nunca mais
eu fosse a mão que sempre escolhe segurar a tua
no meio da multidão

me engole com tudo que em ti for sede
me abraça com tudo que em ti for ternura
me ama com tudo que em ti for amor

porque, hoje, eu preciso da tua plenitude
para deixar respirar a minha

Patricia Pinheiro

“Eu, Daniel Blake” escancara o Estado sem sentimentos

“Eu, Daniel Blake” escancara o Estado sem sentimentos

Ken Loach foi além, como há muito tempo não o fazia. “Eu, Daniel Blake” é merecedor das nossas palmas, mas também da nossa atenção. Isso porque o veterano cineasta inglês arregaça as inúmeras burocracias do Estado, onde o cidadão de bem dificilmente é ouvido e contemplado nos seus direitos. É um filme sobre a falta de sentimentos e respeitos que, ironicamente, pagamos para não termos.

O roteiro escrito por Paul Laverty é mais uma parceria de Loach que discute os problemas dos cidadãos impedidos, maltratados e ludibriados pelo governo. Esse, responsável em nos prover segurança, liberdade e bens básicos para sobrevivência. Ignorar qualquer aspecto sentimental seria injusto porque a produção é respaldada, em cada diálogo e plano-sequência, na mais profunda imersão da relação entre os poderes públicos e civis. Mas antes que esta reflexão acarrete pensamentos distorcidos ou isentos de fatores importantes, precisamos entender, nada disso ocorre sem o nosso aval, sem o nosso silêncio.

Loach já havia atentado anos atrás sobre essa relação desumana com a qual trabalhadores são escravizados em Pão e Rosas (2000), que mostrava a luta de duas irmãs mexicanas numa América altamente fervorosa contra imigrantes. Infelizmente, nada mudou muito após dezessete anos. Em “Eu, Daniel Blake”, o embate continua, mas agora na pátria mãe do cineasta. Isso mostra que, independente do país, ainda existem mecanismos e obstáculos criados para desistências de benefícios fundamentais para uma vida digna de qualquer um. E isso nada tem a ver com argumentos e regras necessárias para uma manutenção do Estado ou mesmo para controle, mas concebidas unicamente com o intuito de separar tantos Daniel´s quanto de Katie´´s – mãe de dois filhos, excludente do sistema, do afeto.

O entristecedor é que continuamos sendo desfalcados a cada interesse do Estado em tapar o sol com a peneira. Queremos fazer o certo do jeito errado e quem sofre somos nós, pais, mães, solteiros, aposentados, negros, homossexuais, trans e todas as classes que estejam cuidadosamente destacadas por uma caneta qualquer em um formulário qualquer, seja ele físico ou digital.

“Eu, Daniel Blake” é o tipo de filme que não adianta copiar e colar a sinopse. Que não adianta deferir elogios e bater palmas. Esse é o tipo de filme que você precisa chegar e assistir. Fazer essa escolha consciente, interessada e aberta, pois estamos nos aproximando da barbárie e da subjugação entre quem pode e merece algum sentimento, algum alento. Loach e Laverty realizaram um abrir de olhos e coração, mas enganam-se quem pensam ser uma mensagem de protesto unicamente ao Estado. A mensagem é destinada também a todos os dissidentes dessa violência que chega quando mais precisamos e, certamente, não pedimos.

Se vira, meu bem! Minhoca anda e nem tem perna!

Se vira, meu bem! Minhoca anda e nem tem perna!

A paciência sempre foi o meu ponto forte! Aliás, o meu ponto mais forte! Entretanto, tem uma coisinha que anda tirando o meu estado perene de paz: gente que se faz de coitadinha!

Parece haver um surto de vítimas do destino e há uma outra proliferação endêmica de textos na web, escritos para alimentar nas pessoas essa sensação de ser um eterno perdedor.
O discurso é variado, mas se bater tudo junto num liquidificador, não rende um copo americano de suco ralo. Pode acreditar!

As queixas são sempre baseadas num ponto de vista de pobre coitado e na existência de um suposto carrasco – ou carrasca, a depender do caso -, sempre pronto para esfolar a pessoinha.

E nem é naquele modelo lá do filme famoso, daquela cor sem graça que supostamente tem vários tons… nana nina não! É um “chororô” sem fim mesmo, por tudo, por nada, por qualquer coisa.

Tem gente que chega à perfeição de nunca começar uma frase sem a presença de um “ai!”. “Ai, eu estou cansado!”; “Ai, eu não tenho nenhum mozão!”; “Ai, eu ganho mal!”; “Ai, as mulheres são mesmo interesseiras!”; “Ai, homem é tudo igual!”; “Ai, o cara não liga depois do encontro!”; “Ai, como eu sou sem sorte na vida!”; “Ai, nenhuma roupa me serve!”.

E por aí vai… uma ladainha chata e sem serventia nenhuma! Enquanto gasta tempo se lamentando da má sorte, e da vida difícil, e nhem nhem nhem… a pessoa perde um monte de oportunidades de virar o disco, mudar o falatório e quem sabe, dar até um sorrisinho de prazer efêmero.

Eu tenho uma amiga, cuja vida nunca foi moleza. A garota sempre trabalhou para se sustentar, desde muito nova; nunca dependeu de pai, mãe ou companheiros para arcar com sua sobrevivência. Criou uma filha, praticamente sozinha, com formação acadêmica impecável, inclusive. Acorda antes das cinco da manhã, pega três conduções para ir e mais três para voltar do trabalho, faz artesanato para ganhar um dinheiro a mais, faz hidroginástica e ainda acha tempo para ter fé na vida futura, abençoar o presente e ignorar o passado. É uma amiga para todas as horas, seja um petisquinho no boteco ou uma encrenca sem precedentes, nunca me deixou na mão! E é linda, inteligente e cheirosa!

O que difere um perdedor de uma pessoa disposta a ser feliz?! Não é o berço de ouro, porque tem muita gente bem-nascida que só chora a própria sorte. Não é nenhuma estrela na testa, porque coisas ruins acontecem com todo mundo. A diferença está na coragem de levantar depois de tombos ou maravilhosos gozos. Gente que vive choramingando não tem tempo de ser feliz! Pronto, falei!

Eu não entendi que era uma despedida

Eu não entendi que era uma despedida

Imagem: fizkes/shutterstock

Eu não entendi que era uma despedida quando você chorou e disse que precisava de um tempo para entender o que sentia.

Não entendi que era uma despedida quando me ligou no meio da madrugada e, encharcado de bebida, disse que ainda precisava de mim.

Eu não entendi que era uma despedida quando me lembrei que uma semana antes você fazia planos de eternidade, e postava no Instagram fotos de nossa felicidade.

Não entendi que era uma despedida quando percebi que algumas peças não se encaixavam; que o sorriso bobo da nossa imaturidade não combinava com a seriedade do fim.

Eu não entendi que era uma despedida quando seu olhar desencontrou o meu, e pela primeira vez o seu semblante era de adeus.

Não entendi que era uma despedida quando você disse que eu precisava de alguém melhor, e eu entendia que não haveria ninguém melhor do que você.

Eu não entendi que era uma despedida quando os nós dos seus dedos se afrouxaram, e pouco a pouco você soltou minha mão para construir novos laços.

Não entendi que era uma despedida quando reli suas mensagens e revi nossas fotos. Quando imaginei que você remava comigo e não compreendi os caminhos que levaram ao fim.

Eu não entendi que era uma despedida quando adormeci e sonhei com a gente junto; quando despertei e me deparei com sua ausência.

Não entendi que era uma despedida quando nossas malas seguiram juntas, combinando as etiquetas com nossos nomes e a vontade que não se desviassem nunca.

Eu não entendi que era uma despedida quando meu coração permaneceu ligado ao seu e minha lucidez não compreendeu o fim. Quando meu caminho mostrou marcas das suas pegadas, e eu não soube mais que estrada seguir.

Não entendi que era uma despedida, mas agora entendo que preciso cuidar mais de mim; que mesmo doendo, a história de nós dois chegou ao fim; e que mesmo sendo difícil, é hora de prosseguir.

Eu não entendi que era uma despedida, mas agora quem deseja que você vá sou eu, entendendo que o tempo da negação deu lugar à aceitação. Tempo de seguir adiante com convicção e finalmente percebendo que qualquer falta de certeza já é o prenúncio de uma definitiva despedida.

Sou grata a você por ter se despedido de mim. Ainda que tenha doído, e que eu não tenha entendido, foi o impulso necessário para eu buscar meu destino. Entendendo que meu caminho não era o mesmo que o seu, e que a despedida foi o gesto necessário para a concretização de uma vida feliz.

INDICADOS