Pega leve. Amor nenhum sobrevive a gente chata!

Pega leve. Amor nenhum sobrevive a gente chata!

Imagem de capa: klublu/shutterstock

O amor suporta cada uma! O tempo, a mágoa, a miséria, a distância, a doença. Até à morte ele resiste. Aguenta firme qualquer tranco. Pode com quase tudo. Poucas coisas o derrubam e sufocam. Gente chata é a primeira delas.

Incrível, mas nada é mais tóxico e daninho ao sentimento amoroso que uma pessoa enfadonha, tediosa, dona da verdade. Por mais saudável e exuberante que seja, todo amor cai doente e desenganado sob o olhar mesquinho de um amante grudento, enciumado e mandão.

Traição e deslealdade ferem o amor de morte. Mas o perdão é um milagroso remédio. Aplicado na dose exata por mãos generosas, faz efeito certo. Agora, contra gente estreita e tediosa, nem o perdão dá jeito. O amor definha e sucumbe sem mais.

Mandões e mandonas que perambulam por aí, berrando que “amor de verdade não acaba”, ordenando sua vontade egoísta feito matracas engasgadas, sequer fazem ideia do número de romances que eles mesmos já mandaram às cucuias. Deles e dos outros, porque a chatice é contagiosa e letal. Temerosos de responder-lhes “e daí se o amor não durar para sempre, ô criatura chata?”, simplesmente vamos embora e deixamos o monstro crescer livre, chateando mundo afora.

Gente chata no amor tem de todo jeito. Os que grudam e os que prendem, os que chantageiam e dramatizam, os engraçadinhos demais e os desprovidos de humor, os que sabem tudo, os sociopatas afeitos em isolar o ser amado do convívio de antigos amigos, os que adoram um papel de vítima, os que falam demais, os que falam de menos, os que imitam voz de bebê e os piores: os infantiloides incapazes de aceitar que o mundo não gira em torno de seus umbigos.

Esses, quando obrigados a encarar a realidade, são capazes de tudo. Inclusive de matar e de morrer. Nesse caso, o que morre não é só o amor. Cada vez mais, morre também quem ousa desobedecer à convicção de um ser insistente, autoritário e convencido de que a única verdade é a sua. Acredite. Gente chata é um perigo maior do que qualquer um imagina.

O que fazer com este vazio que te preenche?

O que fazer com este vazio que te preenche?

Imagem de capa: Wstockstudio/shutterstock

Então, você chegou numa altura da vida em que já conseguiu a maioria das coisas que planejava, ou está bem encaminhado para isso.

Todavia, há um vazio que insiste em te preencher. Você demorou a reconhecer ele… ora parecia ingratidão da sua parte para com tudo o que já tinha, ora parecia que estava perdendo o juízo perfeito das coisas e teve horas até que achou que era a tal da depressão.

Mas, não, investigações feitas, nada grave, ele restou: pura e simplesmente o vazio. O seu dia acaba e você sente que ficou algo por fazer e não é aquela tarefa atrasada, não. Chegou o fim de semana e você não se empolga tanto assim com os lazeres previstos. Você está sentado na mesa do seu trabalho e simplesmente sem empolgação de começar qualquer coisa a ele relacionado.

Você é abençoado com uma vida razoavelmente boa, têm plena consciência disso e valoriza tudo o que o envolve, mas sente que falta alguma coisa. Não sabe o quê. Só sabe que não dá para continuar assim. Que não é simplesmente seguir desta forma que, uma hora dessas, vai ficar tudo bem. Que não quer chegar ao final da vida com essa sensação de incompletude. Que algo precisa ser feito, afinal, nunca se sabe quando é o fim da vida.

Você sente, no seu íntimo, que não é possível que a vida seja apenas trabalhar, pagar contas, conviver com as pessoas, comer, dar uma curtida aqui, outra ali, descansar e começar tudo de novo, ainda que com algumas variações. Isso não faz sentido algum.

Estamos todos aqui, nesse mundo, na nossa vida, nesse momento, por um motivo. Um motivo muito maior, muito divino, muito lindo. Cada um tem o seu propósito, a sua missão, que podem ser as mais diversas possíveis.

Ocorre que não nascemos com manual de instruções para facilitar as coisas. Precisamos descobrir o que nos move, o que nos inspira, o que nos define. Essa caminhada, o do autoconhecimento, faz parte do plano maior.

Uns preenchem muito cedo o seu vazio, antes mesmo de se darem conta da sua existência. Outros morrem sem o ter investigado. Cada um tem o seu momento. Geralmente, quando os eventos externos se aquietam e ficamos frente a frente com nós mesmos. Como, por exemplo, quando conquistamos aquela pessoa, conseguimos aquele emprego “dos sonhos” (dos sonhos de quem mesmo?!), uma vida financeira estável, a melhora da saúde, filhos, ou seja o que for que parecia a grande questão da nossa vida. Daí paramos e pensamos: tá, e agora?! É só isso?! Não existe o felizes para sempre?!

E então ficamos inquietos. Tentamos canalizar essa ansiedade para uma coisa ou outra, mas nada funciona por muito tempo. E não podemos permanecer assim, vazios. Se ainda temos essa sensação, é porque alguma coisa está ali latente, esperando ser explorada. Precisamos nos mexer!

Mas como?! Por onde começar, são muitos os caminhos possíveis!

Primeiro, silenciando e ouvindo seu coração. De forma completamente aberta e livre das intenções e dos julgamentos alheios. Ninguém tem mais legitimidade para escolher o nosso caminho do que nós mesmos.

Pode demorar, podem haver desvios de rota, retrocessos, recomeços, faz parte. O importante é estar em busca, é ser um buscador. Ficar de braços cruzados esperando algo acontecer por si só realmente não vai funcionar…

O universo vai dando pistas, das formas mais improváveis possíveis… Precisamos ficar ligados, todo momento é momento de ir encaixando as peças. E muitos eventos podem nos ajudar, assim como um curso, um livro, um determinado programa de televisão, a fala de um desconhecido na rua, uma música…

Como diz OSHO, “opte por aquilo que faz seu coração vibrar”. O nosso coração é a nossa bússola, que vai indicar se estamos indo para o caminho certo.

Com o tempo, nossa intuição fica mais apurada, e a caminhada rumo à realização começa a ficar mais fácil.

A simples consciência da necessidade de busca do nosso propósito já irá começar a dissolver esse vazio. A busca de sentido, outrossim, nos preencherá de energia para a realização, que virá, mais cedo ou mais tarde. Pode acreditar!

Beijo na testa é o fim, certo? Ou, não é?!

Beijo na testa é o fim, certo? Ou, não é?!

Beijos são ícones de linguagem corporal. Por meio deles nos expressamos nessa fala sem palavras que diz muito mais de nós do que horas de tagarelice.

Beijos podem ser profundos, ligeiros, tímidos, ousados, dissimulados, explícitos. Ninguém beija por beijar, essa é que é a verdade. Beija-se para dar ao outro uma pista de nossas intenções, beija-se para descobrir quais são as intenções do outro em relação a nós.

No início de relação, os beijos vão ganhando desenhos geográficos cada vez mais intrincados em direção ao nosso interior, físico, psíquico e imaginário.

Os beijos poderiam ser os sinais de pontuação usados com maestria para redigir nossas histórias de amor. Às vezes são vírgulas; outras vezes, reticências; ora, uma sequência de pontos de exclamação; ora, uma enorme interrogação; e, quem diria, um beijo pode ser um redondo e definitivo ponto final.

Quem é que não tem em sua memória de coleções afetivas aquelas imagens dos beijos que fazem a gente ficar, insistir, investir… aquele beijo dado na curva do sorriso, querendo alcançar a boca… aquele beijo dado na linha do pescoço com o ombro que faz a alma arrepiar… aquele beijo dado sem demora, como se as horas pudessem ser ignoradas… beijos na palma da mão, indicando que ali há mais que um encontro acidental de corpos que se desejam.

Os beijos são fotografia em preto e branco, obras de arte das imagens mentais que tecemos ao longo de nossas vivências emocionais. Não há beijos iguais, nunca! Nem entre as mesmas pessoas, dados nas mesmas horas.

Beijos de bom dia, com o gosto morno da cama partilhada, beijos no decorrer das horas, dados de forma displicente – só porque já se adquiriu o hábito de beijar, beijos aflitos e intensos que antecedem os encontros mais íntimos da boca com a outra boca, da boca com o outro corpo, do corpo com o outro corpo. Cada beijo encerra uma coisa que não tem como ser dita de outra forma.

A intimidade tem esse poder bonito e único de nos fazer ler no outro, suas intenções, suas reservas, seus recuos e passos além. Ficamos íntimos com a convivência, com o tempo de partilha da vida; sonhos partilhados, projetos partilhados, vitórias e derrotas partilhadas.

Intimidade é presente raro. Não se tem com toda a gente. Não há que se confundir encontros íntimos com intimidade; pode-se mergulhar na boca e no corpo inteiro do outro num encontro inesperado, numa noite qualquer sem nunca chegar a ser minimamente íntimo.

Beijos intensos, urgentes, quentes… podem ser trocados com qualquer um. Mas o beijo daqueles que se dispuseram a dar um passo além da explosão dos desejos que envolvem toda a novidade de um novo amor… ahhhh… esse beijo não é apenas verso de um poema… é o poema inteiro, escrito de mãos dadas.

E o poema há de se fundir a outro, e mais outro… há de se emendar a um conto daqueles que valem mais de mil e uma noites. E nesse poema há de ter tantos beijos, quantas forem as histórias dignas de serem lembradas. E no meio desses tantos haverá lugar para os beijos mais preciosos.

É só quando se tem uma história de muitos capítulos que se descobre que um beijo na testa, dado com toda a comunhão e bênção de todo o resto do corpo, pode ser mais íntimo do que um beijo tórrido e molhado que envolve bocas, línguas e o fogo do desejo.

Engana-se quem olha de longe e interpreta em beijos inocentes o fim de um amor. Pode-se beijar na boca sem amor, pode-se beijar qualquer parte do corpo sem amor.

Não é onde se beija que revela o limite de uma história ou a sua transformação. O que ilumina ou rouba a luz de um afeto é justamente a falta dele. Um casal que é capaz de oferecer ao outro o afago de almas e o acolhimento por meio de um beijo de amor, encontrou o caminho para conversar em silêncio.

E nesse silêncio cabem todos os beijos da vida; inclusive, um verdadeiro, amoroso e revelador beijo na testa… um beijo que diz “Estou aqui, em qualquer circunstância! E hei de estar inteiro sempre, para envolver e proteger você de todo o mal desse mundo!”.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme “Querido John“.

Ah, se eu fosse mulher…

Ah, se eu fosse mulher…

Imagem de capa: Kristen Norman Photographer

Ah, se eu fosse mulher como a Fani, por exemplo. Trabalhadora desde cedo, cuidou de todos os irmãos mais novos, conheceu o Ceará e abraçou a vida na volta ao Rio. Teve um filho e passou por maus bocados, mas nunca desistiu. Ainda consegue sorrir todos os dias pela manhã. Ou fosse como a Maria, dos cabelos e dos versos, negra com orgulho e ser humano com prazer. Ah, se eu fosse mulher…

Ah, se eu fosse mulher poderia ser uma Ana, sempre disposta e acreditando no melhor das pessoas. Ou quem sabe uma Adriana, uma que correu atrás do sonho até conseguir realizá-lo, mesmo tendo passado por tantos anos difíceis. Mas tinha gatos. Quem sabe poderia ser uma Bárbara. Porque Bárbara é sinônimo de sensibilidade. Ela sente demais e não fica com vergonha disso. Também cairia bem ser uma Marcele, uma Regiani ou uma Josie, mulheres de fibra e encantos que ninguém pode questionar, não importa o dia. Nem seria justo, diga-se. Mas talvez eu queira ser uma Fernanda, engraçada, esperta e desinibida para felicidades. Se o passado não trouxe o seu melhor, azar o dele. Ah, se eu fosse mulher…

Ah, se eu fosse mulher certamente Ana Beatriz, Priscila ou Sabrina. Mulheres de um coração que não dá para ser medido nem com a maior régua do mundo. Algumas vezes, a vontade de continuar é abalada, mas elas seguem em frente. Sabem que, mais adiante, abraços vão chegar e novos começos surgirão. Ser uma Bruna também não está fora de cogitação, aliás. Mulher que sente de verdade e ama por tabela. Ah, se eu fosse mulher…

Ah, se eu fosse mulher. Mas mulher por todos os lados, por todas as histórias. Como a Dona Marisa, por exemplo. Ficou conhecida por ser esposa de ex-Presidente, mas poucos sabem que, antes de qualquer coisa, Dona Marisa foi mãe, conheceu o amor e acreditou em um mundo mulher. Infelizmente, a vida aprontou com ela uma daquelas que a gente nunca entende. E mais quem? Ah, tantos nomes que seria impossível preencher aqui. Começa da Dona Fátima, senhora com cheiro de vó que tem um bar/mercearia aqui do lado de casa até a frentista do posto, a motorista de ônibus ou cozinheira do restaurante do bairro. Sim, nenhuma delas poderiam ser esquecidas. Nem devem.

Porque se eu fosse mulher, talvez entendesse que apesar tantas histórias bonitas e de tantos laços afetivos eternizados, ainda existem outras que sofrem caladas, sozinhas e, principalmente, injustiçadas – como a jovem de 16 anos, vítima de um estupro coletivo. A questão não é somente reconhecer o porquê da mulher ser importante e merecer respeito. O sentimento é genuíno quando finalmente entendemos que as coisas precisam mudar e que sim, se eu fosse mulher, quem sabe, de repente poderia escrever isso tudo e ter a mesma voz como a que estou tendo agora, sendo homem.

Ah, se eu fosse mulher. Mas não sou. O que posso ser hoje é nada mais do que agradecimento e amor por ter convivido com algumas dessas mulheres. Se hoje sou menos homem, arrogante e machista é por causa delas. Se hoje consigo prestar o mínimo de desculpas e esclarecimento pelo certo, também é por causa delas. Ah, se todos fôssemos um pouco mais de vocês e um pouco menos de nós.

Lugar de mulher é no mundo

Lugar de mulher é no mundo

Imagem de capa:  g-stockstudio/shutterstock

Lugar de mulher é na cozinha, quem nunca ouviu essa máxima? Ou melhor (pior): quem nunca a ouviu em pleno século XXI?

Embora vivamos em um mundo moderno e pluralizado, de liberdades e igualdade de direitos, a mulher ainda continua sendo constantemente reduzida a lugares comuns do imaginário masculino, que já deviam há muito tempo ter sido superados. Entretanto, esse problema persiste e, portanto, faz-se mais do que necessário falar nele.

Muitas pessoas que argumentam contra a luta das mulheres pelo seu lugar na sociedade, dizem que o que elas pretendem é completamente incompatível com a sua natureza, uma vez que homens e mulheres são diferentes. Obviamente, existem diferenças biológicas entre os sexos, o que acaba acarretando em determinadas características possuírem um tom mais feminino e outras algo mais masculino.

No entanto, antes de qualquer coisa, isso não significa que existem características e coisas exclusivas de mulheres e homens, porque como disse certa feita Rubem Alves – o masculino e o feminino habitam o homem e a mulher. O que ocorre, a bem da verdade, é que essas diferenças têm servido ao longo da história como pretexto para que haja um determinismo aplicado em relação à mulher, o qual a leva para um estado de exploração, opressão e supressão de seus desejos e vontades, sendo reduzida aos desígnios da consciência masculina.

Dessa maneira, cria-se barreiras em relação às aspirações da mulher e ao seu acesso a setores que anseia no mundo, já que na visão do “macho”, determinados lugares são exclusivos para homens. E mesmo que alguma mulher ouse adentrar nesses “clubes do bolinha”, elas dificilmente são olhadas com o mesmo respeito e admiração destinados a um homem.

O medo por parte dos homens de que exista uma mulher no mesmo patamar que o seu ou em um nível superior é assustador, o que os leva a criar mecanismos que dificultem a ascensão delas, representando a vontade de manter o seu poder e influência sobre o gênero feminino.

A partir dessa cosmovisão vem a máxima de que “lugar de mulher é na cozinha”, pois para a maior parte dos homens é interessante que as mulheres fiquem circunscritas ao trabalho doméstico. O argumento utilizado para tanto é que cuidar do lar além de ser uma função primordial feminina, requer cuidados e capacidades que o homem não possui.

Ainda que admitamos isso e reconheçamos que cuidar do lar não é demérito nenhum, muito pelo contrário, por que os problemas que envolvem esse universo são sempre secundarizados em relação, por exemplo, aos problemas profissionais do homem? Ou seja, posto que o trabalho doméstico seja alvo de tanta estima pelos homens que querem as suas “doninhas”, por que os problemas provenientes dele são totalmente desvalorizados e tratados com completa falta de interesse por parte dos homens?

Simples, porque ele não é visto com a estima que se pronuncia, e sim como o único lugar em que a mulher deve ficar, mantendo a sua subserviência ao macho-herói que sai para ganhar a vida e, assim, não deve ser incomodado com qualquer tipo de besteira incrustada na cabeça da mulher (louca, histérica e paranoica, não raras vezes).

Esse exemplo, que é ao mesmo tempo corriqueiro e emblemático, demonstra de que forma a mulher é ao mesmo tempo setorizada e secundarizada, reforçando a ideia de que a mulher deve ser submissa ao homem, de que não deve obter conquistas próprias, dignidade própria e vida própria. Isto é, de que tudo que faça deva ser em função de um homem, a partir de um homem e para um homem.

Nesse emaranhando machista, há ainda que se observar o modo como até as conquistas femininas são monopolizadas pela visão masculina e se voltam contra elas, como é o caso, para exemplificar, da conquista da liberdade sexual pela mulher. Na medida em que a mulher se tornou mais livre sexualmente, houve também o aumento na estereotipação da mulher como libertina, o que é, evidentemente, uma construção masculina, assim como foi a de malignidade ligada à mulher na Idade Média, já que alguém deveria servir de bode expiatório para os pecados cometidos, acima de tudo, pelos homens.

É claro que nem todos os homens possuem uma visão limitada acerca da mulher, como também, esta conquistou espaços que outrora sequer se imaginava. Todavia, ainda há o predomínio de uma visão restrita (tanto em homens quanto em mulheres, afinal o machismo não é exclusivo de homens), a qual delimita a mulher a um espaço que está muito aquém da sua real capacidade, que é tão boa quanto a de um homem.

O que se precisa é abrir mão de preconceitos mesquinhos que ainda permanecem, mesmo que involuntariamente, e impendem que a mulher seja livre de qualquer imposição ou desígnio masculino, já que lugar de mulher é onde ela queira estar, sendo dona do seu querer e com brilho próprio. E isso, meus camaradas, não é abrir mão da masculinidade, pois todo macho que se preze sabe que lugar de mulher é no mundo.

Fuga do carnaval

Fuga do carnaval

O plano era redondo. Escrever sobre o carnaval e publicar em pleno carnaval. Oportuno e conectado com o momento. Comecei a pesquisa e veio o desânimo. Não pela falta, sim pelo excesso de informações.

Mas segui na luta e fiquei sabendo que na origem o carnaval se chamava entrudo. Festa trazida pelos colonizadores que ao bater na nossa terra se dividiu entre as versões familiar e popular. Dá para imaginar que a primeira era comportada, já a segunda flertava com a irreverência e o ritmo africano.

O entrudo popular foi abraçado, transformado, condimentado pelos escravos. Antecipando os versos de João da Baiana, popularizada na voz de Martinho da Vila, Batuque na cozinha / Sinhá não quer / Por causa do batuque / Eu queimei meu pé.

Continuei a investigação. Nadei nas águas foliãs dos cordões, ranchos, blocos, corsos, escolas de samba. Também nos bem mais recentes trios elétricos, sambódromos, globelezas. Fui a campo conferir o bebê da folia: o carnaval da Vila Madalena, em Sampa.

Ele não tem samba, tamborim, cuíca, pierrô, colombina. Tem canções de Rita Lee, Cazuza, Caetano, Mamonas Assassinas. Tem funk, cerveja, gatorade, pets. Também li matérias apontando que carnaval não é mais sinônimo de samba, marchinha, frevo, axé music.

Carnaval é hoje o que cada um disser que é carnaval. Daí, lembrei do Mário de Andrade (1893-1945) explicando que Conto é tudo o que o autor chamar de conto. Ao que acrescento: Crônica é tudo que o leitor chamar de crônica.

Nessa altura da pesquisa, perdi o foco e quase desisti de escrever sobre a folia na véspera da folia. Afinal há multidão de opiniões mais interessantes e balizadas do que a minha. Foi então que me deparei com uma foto, publicada no jornal O Globo, flagrando um passista da Mocidade Independente de Padre Miguel voando em pleno asfalto.

A data: carnaval de 1965, quando dos 400 anos da cidade maravilhosa. Extasiei, pois lembrei que, de mãos dadas com meu pai, assisti ao carnaval do Quarto Centenário na avenida Presidente Vargas. Recordei do meu maravilhamento. Compreendi meu desconcerto com carnaval sem samba no pé, sem bateria, sem maioria negra.

É direito de cada cidade ou bloco inventar a sua folia. Aliás a novidade de hoje pode ser a tradição de amanhã. Mas o meu afeto carnavalesco ficou preso nas asas daquele jovem negro voando na avenida.

Imagem de capa- meramente ilustrativa- é de CARLOS CHICARINO/AGÊNCIA ESTADO (Folião no desfile da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis. Rio de Janeiro, 1978.)

O melhor remédio para um coração machucado chama-se recomeço

O melhor remédio para um coração machucado chama-se recomeço

Pois não deve haver quem nunca teve vontade de recomeçar do nada, do zero, dos escombros emocionais em que se encontra, olhando somente para a frente, lá na frente, sem hesitação. Quem não desejou sumir, cair em outro planeta, mudar de pele, de planos, de sonhos, de tudo. Quem não se arrependeu das escolhas, dos amores nutridos, do que se investiu, do que se construiu.

Chega um momento, cedo ou tarde, em que a colheita se torna tão inevitável quanto amarga. Porque não há quem sempre acerte, quem não se decepcione, não se apaixone por gente errada, quem não tenha se equivocado no emprego, em casa, na rua. Embora sempre haja tempo para mudar, para reparar erros, mudar comportamentos, mudar o rumo do que se veio fazendo, muitas vezes as mudanças de que precisamos nos pedem desistências de muito do que esteja em nós.

Nossa salvação, em certos momentos, dependerá de renúncias, de desapego, de conseguir deixar para trás coisas e pessoas que queríamos junto. Muitos de nós acabamos nos prendendo ilusoriamente a muita coisa que nada mais faz do que nos achatar, subtraindo e sugando nossa essência, enquanto confundimos carência com amor, subserviência com amizade, costumes com necessidades. Juntar coragem para nos defender de nós mesmos e de nossas amarras cegas será essencial ao nosso recomeçar.

Quando tudo doer dentro de nós, a ponto de nos retirar qualquer raio de esperança, qualquer faísca de luz, quando já tivermos tentado e tentado além de nossas forças, além do que nosso coração é capaz de suportar, é momento de recomeçar. E recomeçar tanto em alguns setores específicos que nos desgastam, quanto recomeçar em tudo, por completo. Nunca será fácil nos desprender das pedras a que nos apegamos, porém, as recompensas virão e compensarão toda escuridão que tenhamos atravessado nessa nova jornada.

Ninguém está livre de passar por atribulações e ventanias emocionais doloridas, por conta das sementes que equivocadamente semeou enquanto corria atrás de seus sonhos. Todos estamos sujeitos a colher dores amargas, tanto pelo que fizemos, quanto pelo que não fizemos, seja por qual motivo tenha sido. No entanto, todo dia é tempo de recomeçar, de reiniciar a semeadura, de aprender com a dor e se fortalecer, tornando-se mais confiante de si e do que quer ao lado, bem como do que não quer mais junto. Enquanto vida houver, o recomeço estará pronto para nos receber.

Imagem de capa: PHOTOCREO Michal Bednarek/shutterstock

Clichê é fingir que não gosto de você

Clichê é fingir que não gosto de você

Imagem de capa: Kate Kultsevych, Shutterstock

Clichê é fingir que não me importo com você, que não penso em nós todas as manhãs. E seria um clichê ainda maior não dizer que sinto tanto por você e por esse amor que é só calmaria.

Clichê é não confessar que o seu sorriso diminui o peso nos meus ombros. Que, de alguma forma, quando você abre essa boca em felicidades, apenas sei que tudo ficará bem.

Clichê é não permitir te encontrar e estar empolgado com isso. É não deixar de vestir o melhor abraço pra te envolver e o melhor beijo pra te dar.

Clichê é, ainda, não dividir os momentos que podemos. Que dure um dia, que dure uma hora, que dure cinco minutos. Qualquer tempo com você faz valer a saudade que a gente soma.

Em outras palavras, clichê é não assumir – de uma vez por todas, que gosto de amar você.

No amor, Deus ajuda a quem cedo não gruda.

No amor, Deus ajuda a quem cedo não gruda.

Imagem de capa:  Antonio Guillem/shutterstock

Quem ama cuida. Não gruda. Grudar incomoda, aporrinha, atrapalha, estraga, prende. Amar são outras palavras. Quem ama acompanha, ajuda, contribui, favorece, liberta!

Está impresso em qualquer rótulo: cola boa é a que não descola mais. Grudou uma vez, adeus. Tente descolar e o estrago é certo. O dano é garantido. Descolar arranca a pele, maltrata, machuca. Funciona bem na depilação com cera quente e só.

Cá entre nós, por que misturar amor com essas coisas? Amar aproxima as pessoas, não as cola umas contra as outras para sempre. Ninguém precisa grudar em quem ama qual chiclete no cabelo para se fazer presente. O que gruda embaraça, paralisa, amarra. Machuca. Quem ama não precisa disso.

O amor é o que nos torna livres dos sentimentos rasteiros e das picuinhas, do ódio gratuito, da vingança e da inveja que nos amarra os braços e nos embaça os olhos. Amar é um voo livre. Não combina com asas grudadas e movimentos limitados. É um salto de pára-quedas. Ou você puxa a corda na hora certa ou se espatifa lá embaixo.

Gente amorosa deixa a pessoa amada ser quem ela é e também é livre para ser o que quiser. Ama seu trabalho, sua vida, sua família e todos os seus sonhos tanto quanto ama o outro e tudo o que ele conquiste.

Quem ama cuida. Não gruda. Compreende e não julga. Incentiva, não inibe. Liberta e não prende.

Assim, livres, seguimos ligados porque nos parecemos e nos queremos como somos. Unidos num abraço de três horas ou na distância de quem vive em cidades diferentes. Dançando de rosto colado ou aplaudindo de longe quem bem merece nossa admiração, nosso respeito e nosso amor. Libertos, amantes, amados, juntos.

Eu posso esquecer o que você diz, mas jamais esquecerei como você faz eu me sentir

Eu posso esquecer o que você diz, mas jamais esquecerei como você faz eu me sentir

Nossas memórias têm um papel fundamental em nossa vida, uma vez que as lembranças são capazes de nos acalentar, de nos acalmar, trazendo-nos conforto, ao nos transportar junto às pessoas e aos instantes em que a felicidade estava presente. Nos momentos de dor e desalento, rememorarmos sensações de paz e de sorrisos sinceros nos ajuda a atravessar a escuridão com esperanças fortalecidas.

Embora costumemos guardar aqui dentro más recordações, palavras ríspidas que nos dirigiram, comportamentos dolorosos que tiveram conosco, lágrimas que escorreram em determinadas ocasiões, aumentar o espaço das lembranças gostosas, capazes de nos fazer sorrir de novo, fará toda a diferença, cada vez que a vida disser não. Quanto mais enchermos nossos corações de positividade, mais forte ele se torna e cada vez mais imune à demora na dor.

Hoje, principalmente, parece que existe informação demais para ser guardada, haja vista a imensa variedade de assuntos que estão dispostos a qualquer um que tenha acesso à internet. Senhas, compromissos, matérias para a prova, datas de aniversários, contatos, é tanta coisa, tantos dados, que, sem a memória virtual do computador e do celular, ficaríamos perdidos. Nesse contexto, a memória como que vai se tornando meramente estatística, isentando-se de afetividade, uma vez que dados não aguçam os nossos sentidos.

O armazenamento de conteúdo, portanto, não pode achatar, num cantinho ínfimo de nossas lembranças, as memórias relacionadas à forma como nos sentimos em determinadas épocas, junto a certas pessoas, pois somos humanos e necessitamos de alimento afetivo também. O que nos ajudará a não desistir, a não sucumbir frente aos tombos da vida será exatamente aquilo que guardamos em nossas almas, aquilo que tocou os nossos corações.

Dados, números, idéias, tudo isso poderemos obter, recorrendo a pesquisas pela internet ou procurando nas agendas que acumulamos nas gavetas, no entanto, os sentimentos mais especiais e únicos, que preencheram nosso viver, somente estarão disponíveis, caso estejam impressos em nossa alma, enquanto os carregamos dentro de nós. A gente esquece o que já leu, estudou, viu ou ouviu, mas a gente não se esquece jamais daquilo que sentimos, do que nos fizeram sentir, ou seja, mesmo que o cérebro falhe, nosso coração sempre baterá mais forte com o que ficou junto à nossa essência, com verdade e amor sincero.

Imagem: HTeam/shutterstock

Educar nunca deixou de ser uma forma de amor explícito

Educar nunca deixou de ser uma forma de amor explícito

A criança sofre um grande impacto em sua formação, que pode ser positivo ou negativo, a depender das atitudes e comportamentos dos adultos que a cercam.

Quando somos incoerentes, a criança fica muito confusa; não consegue decidir sobre o que é correto ou não.

Quando nosso comportamento é pautado pelo respeito, pela ética e coerência, ela tem a possibilidade de sentir-se segura e amparada; e, assim, terá bons modelos nos quais possa se espelhar e configurar sua maneira de agir.

Muitas vezes, pode-se pensar que pequenas concessões no dia a dia, a favor do conforto e satisfação imediata do desejo, não prejudicarão a formação do caráter e a maneira de atuar no e com o mundo.

Grave engano! Nossos deslizes ou “jeitinhos” são observados com curiosa atenção pelos pequenos. E, mesmo que eles não nos compreendam, ou não tenham ainda recursos para refletir a respeito, irão reproduzir o que fazemos e o que dizemos.

Quando a criança deixa de fazer a tarefa da escola porque ficou até tarde numa festa ou evento, às vezes exclusivamente porque estava acompanhando os responsáveis, estamos passando uma mensagem.

Quando provocamos uma falta às aulas para viajar mais cedo e não pegar trânsito (em várias sextas-feiras e vésperas de feriado), estamos passando uma mensagem.

Quando premiamos a criança por ela ter lido uma quantidade estipulada de livros, estamos passando uma mensagem.

Quando não fazemos questão de que a criança trate com gentileza a todas as pessoas, sob quaisquer circunstâncias ou não somos um exemplo do que preconizamos como regra, estamos passando uma mensagem.

Quando ficamos ausentes, ainda que estejamos presentes de corpo, estamos passando uma mensagem.

Quando somos inconstantes no que elegemos como prioridade na vida, estamos passando uma mensagem.

Portanto, é preciso que se faça uma reflexão profunda acerca de nossas atitudes, porque é por meio delas que os pequenos vão construir seu modo de se expressar e seu caráter.

Se optarmos por trazer as crianças para conviver conosco em nossas vidas, é necessário assumir a tarefa de educá-las integralmente, todos os segundos de todos os dias. Educar nunca deixou de ser uma forma de amor explícito.

As crianças são extremamente vulneráveis e observadoras. Vão aprender conosco sempre, seja o bem ou o mal feito, pensado, expressado, sentido e vivido.

De nada adiantará garantir a frequência em escolas caras, oferecer cursos de Língua Estrangeira, clubes selecionados, viagens extraordinárias, se deixarmos que lhes falte a força que move o mundo e que promove as reais transformações: educação, bons exemplos, ética e generosidade!

Criança aprende pelo exemplo, seja ele bom ou péssimo! Sendo assim, vale demais a pena economizar no discurso e investir nas atitudes verdadeiras. O mundo que receberá as gerações futuras só terá pelo que nos agradecer.

Imagem de capa meramente ilustrativa: cena do filme “Uma lição de amor”.

 

Um dia você irá entender porque nunca deu certo com ninguém

Um dia você irá entender porque nunca deu certo com ninguém

Imagem: Versta/shutterstock

Você é uma boa pessoa, gosta de animais, trabalha como uma condenada, estuda à noite e seu coração não é um icerberg.

Eu sei que você ouviu várias vezes “amanhã eu te ligo” de quem nunca ligou. “Estou com saudades” de quem nunca te procurou e “o problema não é você, sou eu”, de quem terminou, na mesma semana, em que disse que te amava. Acredite, eu sei.

Eu sei que não foi fácil esquecer aquele amor. Demorou anos para se levantar, e, toda vez que você se curava, ele ressurgia das cinzas igual o Munn-rá dos Thundercats.

Eu sei o quanto doeu ser rejeitada, ver as mensagens visualizadas e não respondidas e ler “fulano está em um relacionamento sério” uma semana depois de terminar com você.Eu sei que você aceitou atrasos que viraram rotinas, que perdoou o imperdoável e que criou expectativas demais com pessoas de menos.

Eu sei que você está cansada e que jurou nunca mais amar. Mas, desculpe te decepcionar, você vai amar de novo sim. E vai amar muito!

Abaixe a guarda, tire essa armadura. Porque, querendo ou não, você vai amar novamente sim! Você vai se apaixonar como nunca, vai sentir saudades, paz, frio na barriga e vergonha de conhecer a família.

Você não vai ouvir um “qualquer coisa eu te ligo”, você irá ouvir seu telefone tocar. Você não irá ouvir um “qualquer dia a gente marca” porque ele estará te esperando na portaria do seu prédio. Você não ouvirá um “eu não estou pronto para me relacionar” porque ele terá medo em perdê-la.

Aproveite esse tempo sozinha e cuide de você. Faça aquele curso que você engavetou, recomece a academia, volte a tocar violão, volte a correr. E esqueça o mal que os outros fizeram. Primeiro porque você não é vítima, nem donzela no castelo. Você é uma guerreira que sabe muito bem o valor que tem. Segundo que sua felicidade não está nas mãos de ninguém, além de você. Faça como Cora Coralina te ensinou no livro do Ensino Médio: “Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.”

Lembra do filme “comer, rezar e amar”? – “ O importante é viver e ser feliz mesmo que isso signifique deixar tudo para trás e recomeçar, pois na vida e no amor as conquistas são feitas todos os dias”. Então, aproveite esse momento e lasque um sorriso nessa alma. Esse é o seu momento.

Um dia, quando você esbarrar com a pessoa certa, vai entender porque nunca deu certo com ninguém.

Quando o passado te ligar, não atenda

Quando o passado te ligar, não atenda

Não conseguiremos passar pela vida sem atravessar grandes tormentas, sem encontrar pessoas maldosas, sem sofrer por amor, por perder, por ser rejeitado. Enquanto caminharmos, estaremos sujeitos a tropeçar, a cair feio, a dar de cara contra o muro da decepção, da traição, e lá vem dor. É assim, não dá para fugirmos às chuvas que cairão sobre nossas cabeças, no entanto, sempre poderemos aprender a nos molhar de forma a não desistir de encontrar o sol, mesmo que demore, ainda que doa.

Na verdade, todo mundo sofre; em algum momento de sua vida, todo mundo passa por alguma dificuldade, porque viver é enfrentar perigos, cicatrizar feridas, colecionar choros e sorrisos, dia sim e no outro também. O que nos diferencia é a forma como lidamos com todas essas porradas que vêm nos machucar enquanto seguimos, a maneira como digerimos o que temos ali à nossa frente, ao qual não podemos fugir.

Cada um possui a sua própria forma de atravessar pelas correntezas pesadas das decepções, seja com mais ou com menos força, seja rapidamente ou de maneira mais demorada. Os sentimentos de cada pessoa tornam cada um de nós especialmente único, por isso é que ninguém sente o mundo exatamente igual a ninguém. Mesmo assim, o que importa é sair de onde não há luz, nem ar, tampouco amor. O que importa é se desprender do que faz mal, libertando-se e prosseguindo.

Muitos de nós passamos por uma infância difícil, uma adolescência conturbada, um relacionamento tóxico, um trabalho aviltante, por experiências doloridas e, muitas vezes, traumáticas. Há quem supere e ressignifique sua essência com ajuda especializada, ou quem consiga ultrapassar cada pedra lidando sozinho com aquilo, talvez com ajuda de um amigo, de um amor, de alguém próximo. Importa mesmo é ir em frente, mais forte, mais gente, mais certo do que não se quer mais.

É preciso ter a certeza de que o que ficou lá atrás não tem mais poder algum sobre nossas vidas. Somos resultados das escolhas que fizemos e, embora muito do que nos aconteça independa de nossa vontade, tomar as rédeas da própria vida sempre será libertador e essencial, para que consigamos caminhar sem o peso de um passado dolorido. Como dizem, caso o passado ligue, não atendamos, pois ele não terá nada de novo a nos dizer.

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A poesia inexplicável da vida

A poesia inexplicável da vida

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Drummond certa feita disse: “Se você procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.

O poeta estava certo, por mais que tentemos, procuremos, tornemos a procurar, não adianta, não há como encontrar explicação para a vida em sua totalidade. Ela é muito complexa e cheia de nuances, de modo que é impossível compreendê-la perfeitamente, sobretudo, em função da sua dimensão trágica. Esta se encontra na morte. E não há como escapar dessa angústia, muita embora, ela não seja capaz de nos afastar desse cálice.

Um amigo, que passou por uma experiência de quase morte, confessou-me que no momento em que sentia que a morte o espreitava, toda a sua vida passara em um piscar de olhos. Todos seus amores, seus sonhos, seus fracassos, seus desejos mais subterrâneos. E, diante disso, sentiu-se completamente só e impotente. Não existia céu, nem inferno.

Apenas uma solidão que ecoava dentro do seu corpo e gritava em sua mente. Gritava e dizia que a sua vida acabaria ali, do mesmo modo que começou, em um completo silêncio, em um completo vazio. Sem ninguém para abraçá-lo, ainda que quisesse – mais do que em qualquer momento da sua vida – repetir que fosse por um segundo, o amor que tivera por ela. Mas estava só e essa solidão flertava com seu espírito, e ele sentia que não possuía força para resistir.

Após o ocorrido, ele completou dizendo que essa angústia era sufocante e questionou-me de que adianta a vida e tudo que lutamos, conquistamos, amamos, se um dia, sem hora marcada, sem explicação, ela acaba?

Então, retomei para ele e prosseguirei para vocês, o versinho de Drummond do início do texto. Ou seja, a vida não possui explicação na sua dimensão trágica e somos incapazes de ter uma compreensão ou entendimento maior sobre ela. Sendo assim, resta-nos aquilo sobre o qual temos controle: o caminho que fazemos. E neste podemos encontrar (e devemos) a “poesia inexplicável da vida”.

Entretanto, não adianta procurar nas grandiosidades. Temos que procurar com olhos de menino, fazendo descobertas, esmiuçando as miudezas e as pequenezas do cotidiano, pois são nesses lugares que a poesia da vida se esconde. E também não existe fórmula. Cada um tem que criar o seu próprio método, descobrir o seu próprio ritmo, encontrar a sua própria poesia, transver o seu próprio mundo.

A vida pode não ser explicada, mas pode ser poetizada, pois como lembra Ferreira Gullar: “Sei que a vida vale a pena mesmo que o pão seja caro e a liberdade pequena”. No entanto, a vida, o viver, não bate à nossa porta, é preciso sair e convidá-la para dançar. É preciso correr atrás do tempo, já que ele é só um menino danado querendo alguém para brincar.

Por mais que o fim seja triste, quando conseguimos encontrar a poesia inexplicável da vida, parece que o tempo se abre para nós em uma espécie de linha paralela, contendo o agora e o depois simultaneamente, como se fôssemos divinos e capazes de criar infinitudes dentro de instantes e continuidade mesmo no fim.

Quando percebemos que a morte é uma pedra no meio do caminho, percebemos que existe um caminho antes da pedra e que, portanto, é ele que importa, não a pedra. E, assim, nos damos conta de que podemos viver sem a explicação duvidosa, mas jamais sem sentir, mesmo que por um segundo, a inexplicável poesia que existe em cada segundo se soubermos procurar.

Só quem entende isso é capaz de compreender que é possível ser eterno, mesmo sendo finito, porque, como disse, o tempo é só um menino danado querendo alguém para brincar.

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