Muitas vezes, ainda que cheios de projetos e ambições, encolhemo-nos por medo de não dar certo. Nos escondemos atrás de um personagem socialmente criado, que muitas vezes não traduz em nada o que somos. Por medo de fracassar, muitas vezes nem cogitamos tentar.
Pelo receio da mudança e do desconhecido, não buscamos sequer descobrir a nossa verdade, o que faz nosso coração vibrar.
Ocorre que, assim, o tempo vai passando, cada vez mais ficamos sem energia e viramos meros telespectadores da nossa própria vida. Não podemos deixar isso acontecer, definitivamente!
Se não der certo, tudo bem, vamos tentar de novo, vamos tentar de outro modo, vamos tentar outra coisa, só não podemos ficar estagnados numa vida que não nos realiza. Precisamos dar nossa cara à tapa!
Precisamos correr riscos (inclusive o de dar mais certo do que imaginávamos)! O que os outros vão pensar? Para onde vai a nossa reputação se fracassarmos? Como vamos ficar conhecidos? Não importa. Verdadeiramente, isso não deve fazer diferença alguma.
Aliás, muito melhor ser lembrado como alguém que sucumbiu aos seus sonhos, cometeu algumas loucuras e foi feliz no fim das contas, do que aquela pessoa boazinha, que fez tudo certinho, mas viveu frustrada e com um sorriso amarelo por medo de ir atrás do que realmente queria.
Quantas coisas maravilhosas foram feitas nesse mundo por pessoas tidas como “com um parafuso a menos”, mas que tiveram a coragem necessária para vencer as barreiras externas e internas e tentar. Talvez não uma ou duas vezes, mas várias. Pessoas que não ignoraram o seu coração, que não silenciaram a sua intuição e deram um pulo no abismo, ainda que sem saber ao certo o que iria acontecer.
Precisamos fazer valer nossa passagem por aqui.
E, com certeza, ser bonzinho para agradar – ou apenas não desagradar – aos outros não é algo que traduza exatamente evolução. Nosso compromisso maior é conosco mesmos, com o nosso aprimoramento, com o nosso despertar. Às vezes, precisamos ser um pouco egoístas. Colaboramos com um mundo melhor quando melhoramos a nós mesmos.
Vamos olhar para dentro, nos sentir, nos autoconhecer, nos cuidar, ver nossas necessidades, o que faz nosso olho brilhar. Sejamos bonzinhos conosco mesmos, ora!
E brindemos os corajosos, os desencanados, os “surdos” e os “loucos”! Temos muito a aprender com eles…
Tenho visto tanta gente confundindo amor com apego, achando que controle, posse, é sinônimo de amor. Não, amor não é isso. Amor não é ciúmes exagerado, não é ditar o que você veste, não é humilhar e fazer você acreditar que não vive sem esse alguém.
Uma coisa são aquelas brincadeiras de casais; outra coisa, bem diferente, por sinal, é ser constrangido o tempo todo na frente dos amigos e da família, com piadinhas do seu parceiro em tom de voz grosseiro.
Tenho visto muitos relacionamentos abusivos sendo confundido com amor. Não entendo e talvez nunca consiga entender por completo, mas compreendo o quanto é difícil enxergar que isso não é amor, o quanto é difícil chutar o balde e dizer adeus.
Mas que fique claro: quem ama não humilha e nem faz com que você se ache o problema de tudo. Quem gosta de você não aprisiona e nem faz pensar que não existe vida para além daquele relacionamento.
Não sei, mas talvez ele(a) a(o) convença de que você não é nada sem ele(a), diz que sente ciúmes e justifica todas as imposições e atitudes grosseiras afirmando amar demais. O “não vai com essa roupa”, ou até mesmo as incontáveis ligações pra saber onde você está, seguem a mesma teoria: é amor demais.
Pera lá, amor é leve e bonito, amor não é esse furacão, essa tempestade toda, não. Parem de confundir amor com controle, fidelidade com estar sempre de olho. Quem ama não despeja a culpa no outro, fazendo com que ele se sinta um lixo, quem ama não quer ver o outro mal.
Manipulação não é amor, controle não é amor, ordens não são sinônimo de cuidado; o nome disso tudo não é um relacionamento feliz, mas um relacionamento abusivo.
Não vale a pena manter um relacionamento que vive a base da desconfiança, de alguém que te manipula o tempo todo e faz você perder a sua autenticidade. Alguém que a proíba de sair com as amigas, mesmo que seja para tomar um café.
Não vale a pena estar com alguém que suga as nossas energias, que não nos oferece respeito e nem cuidado. Não vale a pena estar com quem abusa do seu amor, com quem rouba a sua alegria, as suas amizades.
Não vale a pena estar com quem faz você acreditar que merece gritos, palavras duras, xingamento, ordens, brincadeiras sem graça na frente dos amigos. Não, não vale a pena dividir a vida com quem faz você acreditar que merece pouco.
Existem casais que permanecem juntos por toda uma vida, mesmo que o amor já tenha arrefecido, pois já se acostumaram com a presença, com a companhia do parceiro. Isso porque a gente se habitua a tudo, até mesmo com o que não nos faria falta, e ter a noção exata do tanto de amor que resta pode fazer toda a diferença em nossas vidas.
Talvez pela natureza gregária dos seres humanos, muitos de nós resistimos à ideia de ficar sozinho, sem alguém ao nosso lado, como se fosse inconcebível ser feliz sem um parceiro. E, assim, nos apegamos ao companheiro além da conta, sufocando em nós os sonhos de algo que ele não é mais capaz de nos oferecer. Com isso nos conformamos, agarrando-nos à famosa falácia: “ruim com ele, pior sem ele”.
Da mesma forma, podemos às vezes nos submeter ao convívio sem amor por conta de normas impostas por sei lá quem, que ditam a obrigação de casar, ter filhos, mantendo uma casa que nem mais lar é. Sentimos vergonha de quebrar a ordem das coisas, considerada natural, como se a felicidade dos outros valesse o nosso mergulho numa vida que não mais nos pertence.
Na verdade, desistir de algo ou de alguém é visto como fraqueza por muitos, haja vista a tendência em sermos aconselhados constantemente a continuar, a tentar, a persistir, principalmente quando há filhos em jogo. Quantas vezes não ouvimos alguém comentando que fulano se separou porque só pensa nele mesmo, em mais ninguém, tampouco nas crianças?
Tenhamos, então, a consciência de que, não importa qual atitude tomarmos, seremos sempre alvo do julgamento alheio, uma vez que não poderemos agradar a todo mundo. Ou nos criticarão por manter uma relação sem amor, ou porque resolvemos sair dela cedo demais, e por aí vai. Teremos que viver de acordo com o que alimenta os nossos sonhos, ou viveremos de migalhas alheias.
Precisaremos refletir muito ao tomarmos decisões que envolvem pessoas que caminham conosco, sabendo que toda batalha traz perdas, dor, vazio e lágrimas. Caso estejamos seguindo o nosso coração, então haveremos de nos encontrar e de encontrar o amor verdadeiro, pois o novo sempre vem. E, retomando a felicidade, poderemos enriquecer a vida de quem está ao nosso lado com mais força, porém, caso mantenhamos nosso coração ofegante ao lado do que não nos emociona mais os sentidos, traremos infelicidade ao nosso redor, pois é só isso que teremos a oferecer.
O amor deve ser uma troca. É quando estamos abertos para ouvirmos a pessoa com quem estamos. Porque ninguém sabe de tudo, isso é um fato. E quando existe carinho e respeito entre os amores que estão juntos, conversar é tão natural quanto os abraços dados. Ensinar e aprender com o outro é o que faz do amor algo que vale a pena viver.
Essa história dos opostos que se atraem é discurso para vender relacionamentos encomendados. Assim como também não é tão simples para os amantes cheios de afinidades. Sempre há algo, em algum ponto da relação, que demonstra diferenças. E ter diferenças é completamente saudável. Pensar igual e concordar com tudo o que o outro diz não existe. O problema é quando o respeito funciona em mão única, colocando sentimentos em prol de vontades e opiniões egoístas.
Paciência é complemento no amor. Não pode ser lá um grande sacrifício respirar fundo, ouvir e dizer, com palavras brandas, algo sobre qualquer coisa que a outra pessoa diga e faça. Mas é claro que existem limites. Obviamente, tolerar raivas e atitudes intempestivas não trazem benefício algum para quem quer caber no mesmo afeto.
Sim, mais do que respeitar, o amor é para quem tem interesse em ensinar e aprender. É para quem está disposto a crescer junto. É saber encontrar equilíbrio entre tudo o que você e essa pessoa que você diz amar, quer. Se não é possível, que sigam adiante. Mas, se mesmo nos dias mais ou menos, o coração for tranquilidade para ambos, segure firme. É respeito, é amor. Ensinem-se.
Olhe em volta, para cima, para baixo. Feche os olhos, espie o que passa aí dentro. Solte o olhar e deixe a vista passear lá fora, como um cachorro sem corrente que dispara em direção do nada, eufórico, embriagado de liberdade, feliz da vida. Mire para frente, para trás, para um lado e para o outro. Em todo canto, a todo tempo há o que pode nos tornar piores e o que há de nos fazer melhores.
O caminho anda cheio do que pode piorar tudo. Tombos que nos roubam a coragem de andar, tropeços que nos paralisam, desencontros que nos tornam perdidos, sem rumo, sem sono nem sonho. Se deixar, cada tombo que a gente leva nos leva embora um pouquinho do que nos mantém de pé.
Por aí não falta o que tem tudo para nos tornar piores. Se a gente deixa, a gente piora. Se a gente cuida, a gente melhora. O mesmo tropeção que me parte as unhas me leva dois, três passos à frente. A mesma rasteira que me derruba me acende um ímpeto furioso de apoiar a mão no chão e me jogar para cima. Defender a mim e a minha gente de quem nos ataca. Proteger nossa paz e nossa casa lutando sem medo contra o mal que nos espreita. Melhorando nosso jeito de andar pela vida.
É aí que o amor revela sua cara linda, forte, angulosa. Esse amor que nem sempre chega sorrindo mas que só existe para melhorar a gente. O amor é o que nos faz melhores, nunca piores. É o que nos fortalece, jamais nos enfraquece.
Amar nos transforma em bichos firmes, corretos, bondosos. A insegurança, a mesquinharia e o ciúme rastejam em outros terrenos. O amor é tudo o que nos faz melhores. O resto é apego, posse, vaidade, conversa errada.
O sujeito que ama se importa com o ser amado tanto quanto consigo mesmo. Quer dar jeito no mundo como quem se aplica a pintar a casa. Sem perceber, envolve-se em causas alheias, desenvolve o hábito das atitudes gentis. No duro, o amor é o que melhora a gente. O resto é conversa mole.
Quem sente amor vive disposto para o trabalho, seja o peso de levantar uma casa, a leveza de assoprar um joelho esfolado ou o desprendimento de soltar o corpo e a alma na preguiça do sofá num amorzinho bom, melhorando em seu tempo como um bolo gostoso que cresce no forno da vida.
E ainda que estejamos sós, um sentimento bom de que estamos entre amigos há de nos acolher e abraçar. É o amor que mora no coração de cada um. Esse amor que é a bondade da gente, o abrigo firme na chuva de canivete, a razão de ser, a impressão de que toda aporrinhação vale a pena. Amor que é o lugar onde se mora, de onde se sai e para onde se volta, onde quer que a gente esteja. O amor que melhora o mundo e os que ainda restam, teimosa e amorosamente, vivos. Porque amar, minha gente, amar ainda é o jeito mais bonito de estar na vida.
Uma das melhores sensações da vida é estar apaixonado. Se assim não fosse, a ciência não teria dedicado anos de estudo ao tema, para comprovar o que sentimos na pele: o cérebro realmente se altera quando a pessoa está apaixonada.
A situação ficou pior quando os cientistas descobriram que o cérebro demora um quinto de segundo para se apaixonar, além de liberar substâncias como dopamina, ocitocina, adrenalina e vasopressina (as mesmas substâncias liberadas no consumo de drogas como a cocaína). Resumindo: nos apaixonamos na velocidade de um piscar de olhos e com o perigo do vício imediato.
Quando nos apaixonamos, ficamos felizes, sentimos que estamos completos e planejamos a vida a dois para os próximos dois séculos. O problema é que, como tudo na vida tem dois lados, a paixão também tem os seus: se por um lado dá asas e nos dá a sensação de poder voar, por outro, permite que algumas pessoas viciem no estado eufórico que ela produz e, quando o mesmo acaba, acreditam que o amor acabou também.
Temos aqui dois problemas: os que acreditam que os relacionamentos são medidos pelas sensações de entusiasmo diante do novo e os que agem no calor dessas emoções e se arrependem depois.
O “novo” sempre encantou e isso não é nenhuma novidade. É maravilhoso conviver com o mistério e descobrir aos poucos o que a nova relação nos reserva. Novos gostos, novas personalidades, novos pontos de vistas…tudo encanta em um primeiro momento. Isso explica porque nos apaixonamos por pessoas tão diferentes de nós.
Ninguém se apaixona pelo gosto musical, literário ou pela cor dos olhos. Gostamos do que é diferente e nos encantamos pelo inatingível. O problema é que esse estágio acaba rápido e o que era “novo” passa a ser rotina e o ‘diferente” a ser irritante. Nesse momento a paixão tem que decidir: ou vira amor ou morre.
Todos nós (ou quase todos) já vivenciamos o sentimento de alegria que a paixão proporciona. Como, também, já sentimos o efeito contrário que ela produz. Já vimos beleza onde não tinha, qualidades em que nunca as possuiu e acreditamos em promessas nunca cumpridas.
Paixão é um sentimento meio cafajeste mesmo. No calor dela casamentos são aceitos, tatuagens são feitas e amor eterno jurado, mas depois que a tempestade passa, quase nada é cumprido. Para Shakespeare “as juras mais fortes consomem-se no fogo da paixão como a mais simples palha”.
Quando um sentimento não é correspondido sofremos de ansiedade, expectativas e de uma dose cavalar de orgulho. Sentimos como se estivéssemos sido traídos pelo próprio coração e entramos em um ciclo de depressão e baixa estima. Mas, um dia tudo passa e começamos a ver a vida com outros olhos e a entender que paixão boa é paixão recíproca! Fora isso, é tortura psicológica.
A ciência não tirou a vontade de nos apaixonarmos, tão pouco o lirismo do sentimento. Pelo contrário, provou que para duas vidas se tornem uma, antes, é necessário apaixonar-se muitas vezes e percorrer um longo caminho de amadurecimento sentimental.
A sabedoria vem de entender a diferença entre viver uma paixão e permitir que ela direcione a sua vida. Como dizia François La Rochefoucauld: “um homem sensato pode apaixonar-se como um doido, mas não como um tolo”.
A sociedade nos dita regras e normas de convivência, como se existissem manuais de como se portar perante os outros, como se houvesse homogeneidade naquilo que podemos ou não fazer, naquilo que devemos sempre sentir, em tudo o que é errado, inconveniente, e no que é o correto. Esquecem-se de que sentimentos não vêm com manuais, muito menos caráter. Esquecem-se de que não são as regras de etiqueta, mas sim o nosso comportamento com o próximo, que nos define a essência humana.
Existem pessoas extremamente polidas, bem vestidas, com um currículo acadêmico impecável, mas que não cumprimentam ninguém por onde passam. Existem indivíduos que vivem em missas e cultos religiosos, que ditam de memória qualquer versículo bíblico, que participam ativamente dos eventos das paróquias, mas que só sabem fofocar e criticar a vida dos outros. Não podemos confundir apenas o que vemos superficialmente com o que cada um possui dentro de si.
Por outro lado, há pessoas que são solidárias, acolhedoras, agradáveis, éticas, que nos abraçam com verdade, que nos orientam com propriedade, que nos ouvem em silêncio reconfortante, sem precisar se mostrar, brilhar, sem afetações. São os sorrisos mais sinceros e curativos que existem. Pessoas que nos curam a alma, que nos resgatam dos escombros emocionais, que nos guiam para longe do nosso pior, que são felizes e por isso não aborrecem ninguém.
São aquelas pessoas doidas, simplesmente porque não se ajustam às convenções impostas, caso tenham que perder aquilo que as define, caso tenham que se anular para se adequar à suposta normalidade de uma sociedade hipócrita, cujos discursos, em sua maioria, cheiram a mofo. Na verdade, são doidas pela verdade, são loucas para ajudar, são malucas pelo bem do todo, pelo contentamento natural, sentindo-se bem quando quem caminha junto também está bem, sem inveja, sem mesquinharia alguma.
Se prestarmos atenção em tudo o que estamos perdendo, por conta de ficarmos dando importância a coisas inúteis, a momentos que devem ser deletados sumariamente e a pessoas desprezíveis, perceberíamos que falta muito pouco para sermos realmente mais felizes e tranquilos. Falta apenas caminhar junto das pessoas certas, guardando no coração somente o que nos fez melhores e nos desviando daquilo que não serve para nada, mas nada mesmo. É assim que deve ser e é de nós que isso depende, de mim e de você.
Para você, cujos olhos eu enxergo a cada vez que me olho no espelho; para você, que vibrou com meus primeiros passos e hoje não mais anestesia minhas quedas; para você, pai, tento, sem muito sucesso, encontrar palavras que dimensionem e aliviem a saudade que não é pouca.
A saudade do teu riso de criança ecoando pelos cômodos da nossa casa amarela.
A saudade do barulho da TV ligada pelas madrugadas, que velava meu sono ao sinalizar tua presença.
A saudade dos dedos com cheiro de bergamota; do peito que se fazia travesseiro para meus sonhos de criança; da pele cujo cansaço já desenhava marcas.
Ainda é, por vezes, dolorido conquistar o mundo e não receber teu sorriso orgulhoso como recompensa.
É dolorido conhecer e amar novas pessoas para quem só conseguirei mostrar a beleza da tua existência através de fotografias e histórias.
É dolorido existir num mundo que nos arranca precocemente justamente aqueles que nos curam de existir.
Mas toda a dor que mora na saudade é, também, testemunha da minha infinita capacidade de sentir amor. E isso é bonito.
Só por hoje eu me rendo, como poucas vezes me rendi.
Caio de joelhos, e balbucio uma oração ininteligível para uma divindade qualquer.
Só por hoje, deixo de lado o peso, a dor de ter que aguentar tanta coisa em silêncio, e não suportar mais sorrir apesar de.
Apesar de, eu também tropeço e desabo. Apesar de, eu também sofro e choro.
Na maioria das vezes, escondido no banheiro, longe de um abraço que possa me levantar.
Só por hoje, abandono o personagem forte que montei ao longo dos anos, e resgato o verdadeiro rosto que me habita. Estendo a mão ao amigo que, assim como eu, desiste da armadura e se desmancha em lágrimas, porque já não pode esconder o que lhe dói. Está frágil demais para impedir que a emoção alcance os olhos.
Hoje, e não só por hoje, me permito ser mais flexível ao deixar o peito transbordar amor sem esperar que me amem da mesma forma. Hoje, mesmo sofrendo, me dou conta que ainda existe um riso frouxo atrás da cara amarrotada. O menino que mora em mim, estende as mãos e pede colo porque está assustado com os nãos do mundo.
Digo sim ao menino que sou, o acalmo no remédio de uma antiga canção, mesmo sabendo que ele não consegue mais dormir. Penso no quanto tenho deixado a desejar por não nutrir mais o imaginário da criança. Estou cansado demais para deixar que ela sonhe.
Mas não importa o que aconteça, eu não vou perder a fé. Não agora. Não neste exato instante, em que miro os olhos aflitos no espelho e vejo ali uma faísca de alegria, um punhado de esperança. A alma é uma imensa gaveta de sonhos multicoloridos, e eu não posso soterrar o menino que ainda sorri. Ainda há tantas paisagens para ver. Tanto mar. O sussurro no escuro me faz lembrar o quanto estou vivo, e por mais que diga que não, desejo a vida mais vibrante e bela.
Só por hoje, faço deste silêncio a minha prece mais genuína. Desta lágrima insistente, o grande salto para o recomeço. Bem provável, que ainda caia outras vezes e me renda, se assim tiver que ser. Mas não importa o que aconteça, eu não vou perder a fé.
Alguns relacionamentos nascem de forma completamente instantânea. São aquelas pessoas que cruzam nosso caminho num ângulo qualquer, mas acertam o nosso coração bem no meio da nossa capacidade de sentir afeto, desarmar barreiras e confiar.
E o problema com essa relação afetiva que estoura feito pipoca, é que o recém-conhecido que era desconhecido até um minuto atrás, não tem uma estrela na testa. Nem estrela, nem asteroide com poderes de causar a destruição de um planeta.
A gente reage, movido pela aura de afinidade aparente; encorajado por coincidências de gosto que parecem surgir num passe de mágica. Aquele estranho, ali na nossa frente, parece ter sido enviado por um anjo de bom humor e, ao que parece, sem nada melhor para fazer no momento.
O mundo está coalhado de gente “iluminada”, pessoas de riso fácil, cheias de carisma e magnetismo. E não é nada difícil acabarmos bancando a mariposa que, hipnotizada pela atração da luz, acaba sem rumo e sem asas.
Amigos fiéis, daqueles que a gente pode contar até debaixo d´água, ou em longos períodos de seca, são coisas raras. Esse monte de companheiros de festa que a gente junta por aí, não pode carregar, nem tampouco merecer, toda essa expectativa.
E, verdade seja dita, nem a gente é capaz de ser melhor amigo de todos aqueles que compõem os nossos círculos de amizade. E tudo bem! A vida não é mesmo feita só de relações profundas. Há lugar de sobra para encontros leves e sem compromisso.
No entanto, cabe sempre observar… Gente falsa é nociva em qualquer esfera; causa estrago, independente do grau de intimidade.
A vida nos dá de presente inúmeras oportunidades de aprender uma valiosa lição: nunca se deve oferecer espaço para esse tipo de pessoa que adula demais, que vive distribuindo elogios rasgados e afagos melados além da conta.
Essa simpatia exagerada não combina com o que é possível numa relação de fato e de verdade. Amigos do peito não são ursinhos de pelúcia treinados para dizer “eu te amo”. Amigos de verdade dizem coisas difíceis, perdem a paciência, respeitam o nosso espaço e esperam que a gente respeite o deles.
Por isso, pense bem… porque os gatos, quando não gostam de alguém, eriçam os pelos e podem até causar alguns arranhões. Os cães, quando não vão com a sua cara, rosnam, mostram os dentes, e podem até morder pra valer. Mas as cobras… essas que andam sobre duas pernas… essas não dão pista, nem demonstram claramente o que pensam ou sentem. E quando menos você espera… já tomou um bote!
Carros rasgam as ruas com seus corações movidos a álcool, buzinas ressoam alto e pessoas caminham ou correm nas calçadas e faixas de pedestres de acordo com suas emergências ou atrasos. A vida segue apressada e, em meio a tanto caos, penso nas pessoas que vivem em alguns desses apartamentos incrustados em prédios que timidamente se erguem em direção ao vazio dos céus.
Penso, especificamente, naquelas que vivem em seus universos particulares, criados pela falta de um elemento muito caro a todos nós: a memória. Não apenas a lembrança de nomes e rostos, mas também a de como se fazem tarefas que antes eram simples e, muitas vezes, automáticas. A vida às vezes bate doído demais e muitas vezes nem sabemos de onde veio o golpe.
Foi divagando sobre isso que saí do elevador em direção ao consultório do doutor Rodrigo Shcultz, que me aguardava para uma entrevista à CONTI outra. Sabe como é, jornalista não é aquele que sabe de tudo e sim aquele que consegue encontrar quem sabe – já dizia Zuenir Ventura.
Rodrigo Schultz trabalha na Unifesp, onde cuida de um laboratório de demência avançada, é também voluntário como diretor científico da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer). Ainda na Unifesp, é responsável pelo Instituto da Memória, importante órgão no estudo do envelhecimento cerebral e para o desenvolvimento de novas drogas para o tratamento da Doença de Alzheimer.
Ele divide o espaço bem instalado na Borges Lagoa, em São Paulo, com outros dois colegas de profissão, com quem trabalha há mais de 20 anos. A atendente é sorridente e a sala é impecável. O ar condicionado disfarça o calor escaldante do lado de fora e as persianas abaixadas segredam uma vista que não consigo decifrar.
Boa parte dos primeiros minutos de conversa foi dedicada à explicação do que é a doença que acomete mais de 1,2 milhão de pessoas só no Brasil. Ela se caracteriza pelo declínio progressivo e irreversível de funções cognitivas e corresponde a 50-60% das causas de demência. No entanto, é preciso cuidado para não transformar Alzheimer e demência em sinônimos, já que existem vários outros tipos desta segunda.
“As pessoas realmente fazem essa confusão”, confirma Dr. Rodrigo. “Não só as pessoas de uma forma geral, as pessoas que não são da área, mas até alguns médicos que tratam tudo como se fosse Alzheimer. Na verdade eles não tiveram essa formação, de que existem outras, de que é um diagnóstico diferencial que é amplo.”
É comum imaginar que as alterações presentes em pacientes com Alzheimer fazem parte do envelhecimento normal, mas não é bem assim. Em matéria publicada pelo Valor, o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil, afirmou que, caso não haja doenças e com os cuidados certos, o cérebro do idoso pode trabalhar tão bem quanto o de qualquer jovem.
Alexilusmedical/shutterstock (neurônios em degeneração)
O maior fator de risco está relacionado à idade – normalmente acima dos 65 anos, podendo vir a acometer pessoas entre os 55 e 60 em casos mais raros e ainda não se sabe como ela ocorre. Entre outros fatores estudados estão hereditariedade, ambiente, atividade mental e traumatismos na cabeça.
Existem formas de classificações diversas e em dado momento surgem questões sobre a variedade de escalas usadas para medir o grau ou estágio da doença. Dr. Rodrigo então me mostra algumas delas, como a CDR (Clinical Dementia Rating) e a FAST (Functional Assessment Staging). Estão impressas e encadernadas em blocos de papel que ficam ao alcance das mãos dele, mas que funcionam como guias abstratos na identificação do estágio de cada paciente.
“Você pode dividir em 3, em 15, em 100 se você quiser. A maneira de dividir em um número maior de fases te ajuda a compreender com mais facilidade como a pessoa está”, explica. Diferentemente, em caso de pesquisas clínicas, exige-se sempre o uso da mesma escala, pois elas exigem esse tipo de metodologia. “O importante não é como chegar lá, mas chegar lá”, disse, “usando escalas confiáveis e adequadas, claro”.
“Não existe um teste para diagnosticar a doença de Alzheimer. O diagnóstico é hoje feito por um processo de eliminação excluindo outras doenças e condições que podem causar falta de memória. Com isto se obtém uma precisão que supera os 90%”, informa Ana Hartmann, psicóloga especialista no assunto e autora do livro Desembarcando o Alzheimer: Um Guia Prático Para Familiares e Cuidadores (L&PM, 2012). “O único exame que garante 100% de certeza é o exame microscópico do tecido cerebral, que só pode ser feito após a morte do paciente”, completa.
Recentemente, a notícia de que um teste para diagnosticar a doença está sendo desenvolvida com sucesso por pesquisadores da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) tem causado alvoroço entre leigos e pesquisadores.
A pesquisa foi financiada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico), e pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), por meio de bolsas de pesquisas concedidas a estudantes de pós-graduação e graduação.
A promessa de um diagnóstico rápido e preciso gera discussões éticas sobre como tal teste será usado. A principal crítica gira em torno do propósito final dela. Apenas informar que uma pessoa está doente, sem fornecer o acompanhamento ou os conhecimentos necessários para lidar com uma doença que não tem cura, é o suficiente?
Procurada pela reportagem, Tatiane Liberato, da Agência de Inovação da UFSCar informou que “o teste em estudo, caso venha a ser aprovado, poderá vir a ser comercializado como teste para o diagnóstico de Alzheimer. Neste sentido, os estudos indicam que o teste poderá ser utilizado tanto para o diagnóstico precoce quanto no acompanhamento da progressão da doença”.
A previsão é de que os estudos necessários para que o teste seja aprovado levem de 05 a 10 anos.
Lighthunter/shutterstock
Sintomas e Tratamento
Mudanças de comportamento como irritabilidade, comportamento depressivo, ansioso ou esquecer o que antes não esquecia; até mesmo uma interferência no dia a dia, como esquecer de tomar os remédios que sempre tomou ou se atrapalhar na volta para casa, por exemplo. Estes são apenas alguns dos sinais que podem indicar o início de um quadro de Alzheimer.
“Existe o tratamento farmacológico e o não farmacológico e são igualmente importantes. O não farmacológico envolve fisioterapia, fonoaudiologia, musicoterapia, psicologia, neuropsicologia, enfermagem, assistência social, nutrição. Tudo isso ajuda na hora de superar algumas dificuldades”, esclarece Rodrigo. As drogas disponíveis não são inibidoras da evolução da doença, elas são sintomáticas e as reações podem variar. “Algumas pessoas têm melhor resposta que outras, algumas continuam piorando da mesma maneira e algumas ficam estáveis por um período.”
Não é raro surgirem de tempos em tempos notícias de alguma cura milagrosa ou de cirurgias que prometem fazer mais do que se pode no momento. “Meu conselho é que as pessoas ao escutarem notícias desta natureza se aconselhem com o seu médico assistente ou outro profissional da área” adverte Ana, que já tem presença confirmada em congresso que ocorrerá em Londres, no qual são apresentadas as últimas pesquisas e descobertas ao redor do planeta.
Em relação ao futuro das pesquisas, Rodrigo, médico competente e ateu não militante, é direto: “Nada a curto, mínimo a médio e, a longo prazo, talvez”, mas reitera a importância das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas e do esforço dos profissionais envolvidos.
A rotina
Ser esquecido de maneira gradual e involuntária por quem se ama. Acompanhar de perto o declínio físico e mental de quem um dia se dedicou a cuidar de nós. Esse é o destino de grande parte dos familiares de pacientes com Alzheimer. Pessoas que assumem responsabilidades muito pesadas, fazendo de cada uma delas um Atlas, sustentando o peso de seu próprio mundo nas costas.
Algumas delas fazem terapias e tomam medicamentos para aliviar o estresse, enquanto outras buscam ajuda e apoio em lugares não tão convencionais como as redes sociais. Na internet é possível encontrar diversos grupos e comunidades virtuais que agregam responsáveis por cuidar de pacientes com Alzheimer, sejam eles parentes ou profissionais.
Durante duas semanas a reportagem acompanhou alguns desses grupos. A sensação é bastante ambígua. De um lado, muita força e superação; do outro, desolação que beira o desespero. Os relatos são fortes e refletem a dura realidade do que é lidar cara a cara com a doença diariamente.
Nestes espaços, os familiares cuidadores encontram apoio e trocam experiências e dicas entre si. Lá desabafam e contam os pormenores de uma vida difícil e cheia de percalços.
Para permanecer nesses grupos é preciso ter “estômago forte”. Durante o tempo de observação, mais de uma pessoa abandonou alguns deles, alegando que estavam sofrendo demais com os relatos ali colocados e que achavam melhor se afastar temporária ou permanentemente.
Ao procurar saber um pouco mais do drama pessoal de algumas dessas pessoas, tornou-se bastante evidente que eles, os cuidadores, também precisam de cuidados. Em muitos casos, a rotina é estritamente fechada e quase não sobra tempo para qualquer outra atividade que não esteja relacionada aos cuidados com o paciente. Além disso, os custos são altos.
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Uma doença dispendiosa
Pelas contas do Dr Rodrigo Schultz, “vai uns 300/400 reais de início na fase leve, podendo chegar a 500 reais se for um antidepressivo junto ou algum remédio pra agitação, fora os cuidados”. O custo nas fases avançadas pode ser três vezes maior – lembrando que essa conta inclui apenas o tratamento farmacológico.
Uma das participantes dos grupos, que preferiu não se identificar, afirmou à reportagem gastar até R$ 1.500 por mês só com os cuidados necessários de sua mãe, de 78 anos, de quem cuida há 5 anos e meio. Sua rotina inclui dar os remédios, servir as refeições (exclusivamente pastosas), dar banho e trocar de roupa – tarefa que ela considera a mais difícil. “Às vezes só consigo trocar a roupa dela quando ela está dormindo”, conta.
Cooperação familiar
No Alzheimer, em relação às outras doenças do envelhecimento, o desgaste emocional do cuidador é muito maior que o desgaste físico. Não é que não exija esforço, mas a cabeça e as emoções tendem a ser mais abaladas que o próprio corpo.
A cooperação entre familiares é elemento importante no cuidado, uma vez que muitos casos, dependendo da fase da doença, exigem atenção 24 horas. E é justamente nesse ponto que a coisa parece desandar para muita gente. São diversos os casos de quem não pode contar com a ajuda de parentes próximos (quase sempre irmãos), isso faz com que essas pessoas assumam sozinhas todas as tarefas.
Alesandra Souza, 34 anos, teve sorte nesse quesito. Ela cuida da mãe há sete anos, com a ajuda das irmãs. “Revezamos os dias, na segunda, terça sou eu e uma das irmãs, um dia dou o banho e troco ela enquanto a outra vai lavando os lençóis da cama e faz alga para ela comer com os remédios de cada manhã. Nos banhos da noite é só uma, porque na manhã fazemos em duas para não atrasar a hora do trabalho. Então à noite fiquei com a quarta e a sexta, para dar banho, janta, remédios e deitar ela. Temos os dias de dormir com ela no seu quarto, os meus são: segunda, terça e sexta”, detalha.
Para casos onde existem desavenças ou desentendimentos sobre a divisão das tarefas de cada, o doutor Rodrigo Schultz aconselha apenas uma coisa: conversa. “A maioria das pessoas não conversa. Elas perguntam e perguntar não é conversar”, dispara.
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O cuidado humanizado
Muito se fala em humanização no cuidado aos idosos acometidos por doenças do envelhecimento. A doutora Ana Hartmann conta que este tema o carro-chefe do seu trabalho e que lida com ele doze horas por dia. Segundo ela, o melhor jeito de se atender alguém é através de algo chamado manejo, que nada mais é do que “a forma correta de atender alguém com um quadro demencial”.
Questionada sobre o que falta para termos um cuidado mais humanizado para estes pacientes, respondeu: “Eu lhe pergunto se um médico que tem formação em clínica geral, mas que seja super humano, terá sucesso em fazer uma cirurgia cardíaca? Obviamente que não! Porque uma cirurgia cardíaca exige conhecimento específico. O mesmo temos em relação ao cuidado de pessoas com Alzheimer.”
E continuou: “Erroneamente, e por falta de outros recursos, as famílias contratam cuidadores de idosos ou técnicos em enfermagem para cuidar de seus entes queridos com Alzheimer. Primeiro erro gritante: estes cuidadores irão tratar um paciente doente como um idoso”, argumenta, na tentativa de demonstrar que envelhecimento não é doença. “Eu tenho trabalhado a mais de 16 anos treinando pessoas para este fim. E veja bem, este treinamento não é apenas para cuidadores. Este treinamento é para o dentista que atende estes pacientes, para o médico do atendimento de emergência, para o atendente do balcão do aeroporto, do advogado, do funcionário do banco… Assim como todos nós que, hora ou outra, nos depararemos com esta doença que exige conhecimento, muito conhecimento.”
Na opinião do doutor Rodrigo, é necessário dar a atenção devida ao cuidador, pois quanto melhor informado e orientado ele estiver, melhor será a evolução do paciente.
Com o fim do nosso tempo de entrevista, me despeço e volto para a rua abafada pelo mormaço da tarde paulistana, saudando intimamente a coragem e dedicação dos profissionais e familiares que vivenciam de perto a difícil batalha pelo direito à memória.
A CONTI outra sempre fala sobre o Alzheimer. Saiba mais.
Tudo bem, nada na sua vida anda muito fácil, seus sonhos estão meio nebulosos, pessoas boas ao seu redor são escassas, a grana é meio curta, os desejos são imensos, o País vai mal, as perspectivas para o futuro não são das melhores…
Você não acha nada anormal estar “azedo” diante deste panorama. Afinal, não há muito com o que se animar. Nada empolgante, nenhuma novidade, poucas esperanças…
Então você pensa: “deixe-me, ora, cada um se sente como quer”. Acredita que irritação, ansiedade e desânimo fazem parte, simplesmente. E vai seguindo vida afora, dia após dia, exarando negatividade. Até pensa que uma hora vai passar, mas fica esperando que passe sozinho. Ou com a melhora da economia mundial. Com o aumento do seu salário. Com a aproximação de pessoas legais.
E não percebe que essa nuvem negra que lhe acompanha atinge, direta e principalmente, você mesmo. Você pode até tentar “descontar” nos outros, mas sairá mais prejudicado do que eles. Não se dá conta de que o universo ressoa a energia que você emana e que, se continuar vibrando azedume, só atrairá situações que irão lhe causar mais aborrecimentos, nervosismo e descontentamento. Um legítimo círculo vicioso.
Então, a primeira coisa a fazer é assumir a responsabilidade pela sua vida, pelo seu presente e pelas suas emoções. Apesar dos eventos ruins que possam ter acontecido na sua vida, a maneira como você reage a tudo é que importa. Não interessa o que os outros lhe fizeram, pois as pessoas só o atingem até onde você permite. O que foi, foi, você precisa se preocupar com a sua vibração nesse momento, pois viver bem o presente lhe garantirá, de quebra, um futuro igualmente promissor.
Reconhecer e perdoar fatos e pessoas que lhe atingiram de alguma forma é, realmente, libertador. Se perdoar pelos próprios erros cometidos no passado, igualmente. Sair da frequência do que já foi e não há como se mudar, é a melhor coisa que se tem a fazer.
E quando você pensar, ainda que por um instante, que não tem nada com o que se empolgar, pare e feche os olhos. Apenas sinta. Sinta o seu coração batendo. Sinta a grandiosidade desse universo. Sinta como você faz parte, como está ligado a tudo isso. Atente às maravilhas todas que te cercam. Ao milagre da vida pulsando dentro de você. Respire. Agradeça.
Você está tendo a oportunidade de fazer parte de algo muito especial. Dentro de você há infinitas possibilidades. Basta silenciar a mente e ouvir a sua alma. Conectar-se com o sagrado que de tudo e de todos faz parte. Aumentar sua frequência. Sentir um amor puro e grandioso surgindo dentro do seu ser.
Sou feita de estranheza e feminices. De candura e aspereza. De alecrim e quebra-pedra. Relicário que tem por tampa os mistérios de minhas mulheres.
Soube de muito que um chá curava tudo, de dor de moça em dia de chico a aperto no coração em caída de tarde, mas que era leite queimado que acalmava a tosse em noite de lua.
Aprendi sobre a lua… e nas viradas ainda uivo… como toda loba de boa matilha, me ensinaram a cuidar da cria, mas amamentar filhote alheio. E ir abarcando rebento de leite e irmã de peito, sabendo que amiga na guerra é aliada… e luta é o que nunca há de faltar.
Aprendi cedo a chorar baixo e a cantar alto. Mesmo lamento de enganar solidão ou espantar mau-olhado, porque quebranto se afasta com reza mas só finda na oferenda. É que a santa tem força e capricho, e as benzeduras, incensos e promessas, mal nunca hão de fazer.
Fui crescendo ouvindo conselho para não ouvir coitada, com amargo de boldo e água de cheiro, patuá feito com pano branco e muito sal grosso… que servia pra olho gordo, mas também pra fechar ferida.
Muito de quando em vez, ajudava na lida. Varria pó com vassoura fina… e de leva, qualquer pensamento ruim. Deixava pronta a sala pra visita, que entrava sem cerimônia… porque a casa se tinha porta, a porta não tinha tranca… amigo era bem vindo e não carecia de aviso… desafeto, acaso existisse, a espada de São Jorge recebia ou tratava de aviar… e todo dia tinha alguém de fora pra almoçar!
Quem chegava, encontrava fumaça no fogão, e em dia de segunda, angu mole com carne moída e couve picada fininha. café com pão sem miolo, que eu nunca aprendi a gostar…
Como nem tudo era delicadeza, percebi que mulher se metia em assunto de homem. Batia prego, asa, ponto e muita perna na rua. E sabia como ninguém juntar os poucos dinheiros e fazer com que a caixinha desse pra semana… por sina e por desvelo, carregava o peso do trabalho durante o dia, o do marido no claro da madrugada e das culpas por todas as horas.
Prazer, se havia, era coisa que não se mostrava. Pra que esbanjar com a alegria, se o bonito era sofrer… no máximo o luxo de um banho bem quente e de banheira, onde no segredo das vergonhas, se olhava sem se tocar.
No mais o tudo era o fiar e a lembrança das coisas, umas de ver de perto e outras de ouvir falar. Muito! Pois causo é coisa que se repete! E a gente ia sabendo o final e apurando o detalhe… percebendo a escorregadela em algum ponto… do enredo ou da costura. Rendados de tear… trama de tricô e barrados de crochê feitos com agulha miúda… e eu gostava mesmo é da bordadura em ponto de cruz e com linha de tecer sonho. E que ninguém me cobrasse o avesso.
No correr da brevidade, seguia a certeza de que a vida ia dando certo na medida da pouca cobiça, e que o filho ia ser estudado! Os medos rodavam na altura das saias e as aflições se desmanchavam em recatos, pudores, ousadias e coragens. E todo o amor se fartava, na benção de minhas mulheres encantadas. De Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!… que é sempre quem salva. E do sagrado feminino.
Não quer dizer sim. Talvez quer dizer não sei. Sim quer dizer sim, estou livre para escolher. São muitos códigos, alguns sem lógica alguma, criados para não serem jamais decifrados.
Vivemos uma longa lista de sentimentos camuflados, entrincheirados, na tocaia, aguardando um momento de trégua para enfim, partir para a exposição.
Somos preconceituosos com nossos sentimentos. Somos antiquados. Somos reféns da opinião alheia, da aprovação dos chegados, da benção da família, do vizinho, da time line.
Curiosidades e emoções brotam fora da lógica de qualquer um, ganham vida nos devaneios e sonhos de realização. Mas, como não se enquadram nos padrões, acabam por se refugiar na trincheira dos segredos, alertas para não serem descobertas ou traídas por uma palavra, gesto ou olhar.
Lidar com esse time de intrusos que ameaça a normalidade das coisas é tarefa que exige coragem. Mandar embora sem tentar entender razões, pode ser uma porta escancarada para a entrada de frustrações pesadas. Negar, rejeitar, despachar, varrer… Cada um certamente sabe o que fazer com o que aparentemente não lhe cabe.
Preocupante é condenar ao descarte por razões externas. Por que não saber o que está de fato rolando com esse sentimento que a gente nem desconfiava que pudesse existir? Pode ser o surgimento de outro olhar para a vida, pode ser um tiro na água, pode ser qualquer coisa, mas certamente será mais um aprendizado na jornada do autoconhecimento.
Se conhecer é experimentar liberdade, é saber de si e ter consciência de que ainda há muito para conhecer. É usar espelho próprio e não o do outro, saber dos padrões, mas não usá-los como correntes.
Todo mundo guarda sentimentos camuflados e escondidos, velados, platônicos. Não mexer com eles é escolha. Vivê-los e arriscar o caminho desconhecido, também é escolha.
A escolha é sempre livre, soberana. Cabe a cada um decidir quando é a hora de tirar a camuflagem e declarar o fim da guerra interior.