“Talvez o amor não seja para todos. Talvez ele não seja para mim”

“Talvez o amor não seja para todos. Talvez ele não seja para mim”

“Talvez o amor não seja para todos. Talvez ele não seja para mim” – Gabriela Santos

Talvez o amor não seja para todos, essa coisa de: “quando menos se espera vem” pode ser até verdade, mas acredito que a regra não se aplica necessariamente a todos.  Já cansei das inúmeras vezes em que achei que daria certo. Das vezes em que eu, mesmo com medo, tentei. Lembro- me dos tombos e de como tudo aquilo me machucou. Meu coração se fechou para o tal do amor e levei fama de coração de pedra.

Já havia decidido que minha vida tomaria determinado rumo e que essa historia de vida a dois não era para mim. Mas, às vezes, acho que a vida gosta de nos testar e lá vem alguém com a ideia de que tudo será diferente. Depois de muito relutar decido dar uma nova chance para o amor. Mais uma chance, porém, que não passou de uma tentativa frustrante e ainda mais dolorosa. Sabe, talvez o amor a dois não seja para todo mundo e muito se engana quem acredita que a felicidade se resume a isso.

Quanto mais eu me distancio dessa ideia, mais percebo o quanto outras coisas me fazem bem também. Continuo chorando em casamentos, continuo achando filmes de romance uma gracinha e vibro quando alguém que gosto decide tomar a decisão de unir sua vida com a de quem ama. O amor é bonito demais e não podemos negar. Mas, há amor em tantas outras coisas que pode ser que o amor a dois não seja para todo mundo, por alguma razão qualquer. Prender-de a ideia de que necessariamente eu PRECISO ter alguém é frustrante demais: é chamar a felicidade pelo nome errado e depositar toda a sua energia em algo que pode simplesmente não acontecer. Descobri que viagens me deixam com o coração tão feliz e que as pequenas conquistas do meu dia a dia me tornam mais forte. Tenho aproveitado esse tempo para rever minhas prioridades e, ter mudado o foco do tal do amor, me fez ver que há muitas coisas que também nos fazem transbordar.

Já sofri demais e já questionei a Deus e a todos. Já achei que o problema era eu e já tentei mudar milhares de vezes. Sabe, essa busca incansável pelo tal do amor ainda irá te machucar muito. Muitas coisas simplesmente acontecem na vida da gente e o amor a dois é uma delas. Não dá para simplesmente forçar ou insistir. A vida não se resume a isso.

O desespero e a carência podem nos levar a aceitar muito pouco e achar que isso é suficiente. Isso faz com que a gente acredite que estar acompanhado é não estar só quando, na maioria das vezes, estamos vivendo uma solidão a dois. Talvez o amor não seja para todos e talvez não seja para mim. E sabe? Tudo bem. Tudo bem mesmo. Eu não vou me tornar um coração de pedra e detestar saber de como tem sido a vida de casada de tal amiga ou de vibrar com o pedido de noivado da outra. Não vou me tornar a chata que odeia falar sobre o amor e que diz não acreditar nele. Eu acho sim que o amor existe e que, embora seja uma raridade uma história a dois, é algo bonito e nobre. O amor é como aquela roupa que a gente acha linda nos outros, mas quando provamos em nós não gostamos. É aquela bolsa cara que alguém consegue comprar e você prefere gastar o seu dinheiro com viagem. É aquela bota que fica bem na sua amiga, mas não combina com o seu estilo. O amor é algo singular. E o amor a dois talvez não seja para todos, talvez ele não seja para mim.

Imagem de capa: LenaSunny/shutterstock

A nova geração é mais liberal, mimada e ansiosa que a de seus antepassados

A nova geração é mais liberal, mimada e ansiosa que a de seus antepassados
Serious old man talking with grandson and explaining by hand

A nova geração é mais liberal, ansiosa e mimada que a de seus antepassados. Antes, trabalho duro sem qualidade de vida era algo aceito pelos que não tinham uma opção melhor; agora, isso é quase inadmissível pela infinidade de opções profissionais disponíveis.

Estuda-se de 10 a 15 anos na escola e mais um punhado de tempo na universidade – para os que podem – sem a tal garantia do emprego estável – para os que querem.

O indivíduo finalmente conclui sua graduação para depois ganhar incríveis mil e duzentos reais mensais, o que sustenta o aluguel num apartamento corroído por traças na periferia da cidade, ração para o cachorro, hambúrgueres do Mc Donald’s e passagens de transporte público.

Se em tempos atrás qualquer ofício que levasse a um bom gerenciamento de dívidas bastava para dormir de consciência tranquila, hoje trabalhar usando a justificativa principal de não morrer de fome virou símbolo de uma existência desperdiçada para muitos que querem um “algo a mais”.

O ditado “Tudo que vem fácil vai fácil” está na boca dos pais que guardam todas as suas gotas de suor num recipiente de nobreza. A maioria hoje bebe do néctar dos frutos que foram plantados por outrem; enquanto uns agradecem por esse privilégio delicioso e tratam de trabalhar em benefício de sua reputação, outros se chafurdam na lamentação da falta de independência.

Não é nada vergonhoso poder usufruir de uma vida confortável que não foi conquistada por mérito pessoal; ninguém escolhe sua família original. O que envergonha é a submissão ao conforto, agir como os abutres preguiçosos que só se alimentam de restos de carniça a curto alcance.

A real autonomia está no que Immanuel Kant chamou de “esclarecimento”, a saída do homem de sua menoridade. O ser menor carece de disposição e coragem para usar do próprio entendimento sem uma orientação externa; o ser maior, por sua vez, não possui maior entendimento, e sim mais vontade de assumir os riscos de obtê-lo.

“É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase que uma segunda natureza.”

Sim, é muitíssimo complicado sustentar todos os ideais individuais sem um sentimento de insegurança. Mais cômodo é seguir caminhos conhecidos, apoiar em bases já construídas, consumir em vez de produzir.

Como viver uma vida nos moldes de Peter Pan e ao mesmo tempo ser levado a sério é um enigma que os adultos saudosos de sua infância gostariam de resolver, talvez mais do que todos seus anseios de maturidade. Os adultos mais infelizes insistem em silenciar a criança dentro de si nas ocasiões que convém o senso lúdico. As crianças, enquanto inocentes, ainda não sabem a vantagem que têm sobre a idade.

Uma característica intuitiva do ser moderno é o grande apreço pelo valor de sua liberdade, da possibilidade imanente de escolher e perder, da responsabilidade de voar. Em sua obra A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera, muito inspirado na leitura de Kierkegaard, escreve:

“Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem. O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda da qual logo nos defendemos aterrorizados.”

O nada possível chama a atenção da indiferença, o tudo possível chama a atenção do terror. A libertação máxima significa desespero, mas abster-se do poderio decisório acarreta em menos fruição. Toda escolha requer uma exclusão, como o ex-anjo Lúcifer compreendeu ao gananciar o poder absoluto de um reino que está fora da sua inteligibilidade e competência.

Quando os homens das planícies de Sinear resolveram se unir para construir uma torre (a de Babel) à altura dos céus, sedentos para experimentar o paraíso que acreditavam ter lhes sido prometido, Deus, em sua ironia cáustica, presenteou aqueles trabalhadores obstinados com a confusão generalizada de linguagens, de modo que eles não puderam mais se comunicar nem se entender, e o empreendimento teve que ser imediatamente cancelado. Os espíritos da atualidade querem chegar ao topo do modo mais fácil, tentando driblar os ocasos do destino antes que ele lhes teste.

Inegável que a liberdade passou a ser um valor impassível de perda, intransferível por excelência, até mesmo em circunstâncias que exigem o desprendimento do eu. A insegurança inerente à vertigem da liberdade tem sido considerada pelos modernos um mal menor ao possível arrependimento futuro de uma vida inautêntica.

Autenticidade é não deixar guiar-se pelo não-ser, parar de querer ser outro e fazer comparações levianas. Duas pessoas não leem o mesmo livro, nem levam a mesma vida. Cada qual tem seu tempo e sua medida. Uns casam aos 26 anos, outros nunca casarão. Uns têm o primeiro filho aos 42 anos, outros morrerão sem deixar herdeiros. Uns trabalham na mesma empresa há 35 anos, outros já passaram por 14 empresas em 48 anos de carreira. Uns se aposentam aos 75 anos, outros só param de trabalhar quando a vida acaba. Uns conseguem comprar a casa própria aos 31 anos, outros só morarão em residências alheias por caridade. Uns contam com um amor maior para o além, outros nem sabem o que é isso.

Algo que não se aguenta mais ouvir dos sociólogos pessimistas é que o amor está em crise, ou melhor, que a morte do amor vive uma fase áurea. O amor nocivo tem a ver com a falha administrativa da tal leveza do ser – do orgulho idiota em não se assumir frágil para que o amor lhe empodere. O que se encontra hoje é um apego hediondo ao mimo, calor que protege aqui e acomoda lá. Seria generalização presumir que os atuais netos têm menos tutano nos ossos que seus avós tiveram? O amor necessita de mimo, mas o excesso de mimo conduz à imaturidade amorosa.

Sempre que o amor falha, o peso existencial mostra como somos leves e, por isso, sua busca é interminável, até mesmo para os misantropos assumidos. Talvez esse problema esteja em enxergar o amor como uma commoditie propensa à negociação e oscilação de valores, e não uma arte a ser tratada como arte.

O sentimento de posse em relação ao amado é o ódio se aproveitando da situação. “Eu te amo” é querer enriquecer ao ser libertado da prisão do isolamento. “Eu te tenho” é querer se destruir ao ser atraído pela possessividade amorosa. É mortal a vontade de alguém só para preencher a lacuna da solidão, e orgásmico encontrar alguém que ajude a iluminar a sombra dentro de si.

Se a vontade de querer alguém for motivada apenas por um sentimento de carência, a pessoa estará assinando um tratado de incompletude. Tendo achado esse alguém, o vazio não é resolvido, da mesma forma que tapar o sol com a peneira apenas reflete a intolerância à claridade da própria visão. Os sonhos amorosos são muito substanciados pelo desapego à solidão. Ninguém evolui sozinho, mas todos tendem a regredir se dependerem unicamente de ajuda externa para seu sustento.

Foi dito à Amélie Poulain que “São tempos difíceis para os sonhadores”. Sonhar nunca foi tão barato, e o fazê-lo mais, tão incentivado. Mas o educador Mário Sérgio Cortella já alertou para a confusão entre sonho e delírio. O sonho é o “desejo factível”; delírio, “ideal impossível”.

Beethoven, mesmo surdo, compôs sinfonias brilhantes – sua Nona Sinfonia, ou Ode à Alegria, foi classificada pela Unesco como patrimônio cultural mundial. O que parecia impossível (fazer música sem o aparelho auditivo) se concretizou, mas claro que não se trata de um caso sobrenatural. Desde cedo, Beethoven foi apaixonado por música e, todos os dias, atentava às habilidades artísticas de seu pai, um tenor. Antes de se tornar músico, ele estudou dezenas de orquestras e com determinação apurou sua sensibilidade, a ponto de adquirir um conhecimento robusto que o fez transformar em sonho realizado o que para a maioria não passava de uma pretensão ridícula. Não foi fácil para o alemão, que sofria de depressão, paranoia persecutória e crises de pânico. Em 1801, aos 31 anos, Beethoven escreveu em carta para o amigo Franz Wegeler:

“Há quase 2 anos me afastei de todas as atividades sociais, principalmente porque me é impossível dizer para as pessoas: Sou surdo! […] Se minha profissão fosse outra, talvez poderia me adaptar à minha doença, mas no meu caso a surdez representa um terrível obstáculo. Para meus amigos e aqueles que pensavam que eu era antissocial, distraído e ermitão, me julgaram mal. Vocês não conheceram a causa secreta disso tudo. Nascido com um temperamento ardente e ativo e sensível às atrações da sociedade, bem cedo tive que me isolar e transcorrer a vida em solidão […] Para te dar uma ideia desta estranha surdez, no teatro eu tenho que me colocar pertíssimo da orquestra para entender as palavras dos atores, e a uma certa distância não consigo ouvir os sons agudos dos instrumentos e do canto […] Quase coloquei fim à minha vida algumas vezes. Foi a música que me entreteve. Parecia-me impossível abandonar este mundo antes de criar todas as óperas que sentia imperiosa necessidade de compor.”

Como alguém que vive de música e se torna surdo consegue manter-se em atividade? Todos os mais próximos de Beethoven, incluindo seu pai, julgaram que seu sonho era um delírio juvenil, mas a arte está repleta de casos de gente improvável que melhorou a humanidade.

Mentirosos, porém, os que dizem que histórias de superação como essa apoiam todas as motivações humanas imagináveis. Alguns delírios são definitivos, e as pessoas menos desiludidas sabem que determinados sonhos devem ser abandonados, coisa que a nova geração mal suporta, do que decorre seu mal lidar com a frustração.

Muitas pessoas não querem, sob hipótese alguma, sacrificar sua juventude temporária com atividades a elas desprovidas de significado. Querem, sim, aproveitar o gozo do descompromisso libertário, fazer o que gostam, em superação a certas obrigações que julgam ser descartáveis. Contudo, para fazer o que se quer deve-se fazer muitas coisas que não se quer. O desejo vem sendo colocado à frente do dever, e a necessidade, considerada um impedimento do prazer.

A importância do ócio criativo não é um segredo às mentes preocupadas em elaborar estratégias que as façam diferenciar um trabalho maçante, mas efetivamente necessário, de um divertido, mas absolutamente infrutífero.

Outra coisa bem repartida hoje é a definição de sucesso. Ser milionário, entretanto, ainda é uma meta clichê para “vencer na vida”, apesar de o dinheiro estar sendo menos perseguido como queijo no labirinto, informação extraída de muitas pesquisas sobre critérios de satisfação no trabalho.

O velho Stephen King é conhecido pela altíssima eficiência na escrita; produz com ambas velocidade e qualidade. Seu sucesso na mídia é assim por ele justificado:

“Talento é mais barato que sal. O que separa a pessoa talentosa da bem-sucedida é muito trabalho duro.”

Trata-se de uma fórmula antiga que sempre funciona? Não, para controvérsia entre profissionais de recursos humanos. Labuta diária não garante recompensa futura de sucesso, tampouco a preguiça intimiza com a sorte. Maquiavel disse que a sorte é mulher: complexa, imprevisível, fascinante e amiga dos mais jovens.

Trabalho duro está para o sucesso assim como a ética está para a felicidade. Uma vida segura da virtude moral não é garantia de uma vida feliz, pois, embora a fuga da moralidade vá diretamente contra o bom senso por natureza, a distribuição entre a ação adequada à ação virtuosa e o sentimento feliz varia de pessoa para pessoa. Dever moral e felicidade relacionam-se, mas não de forma simétrica. Se causa e efeito sempre fossem, a imoralidade estaria resolvida; a paz, universalmente perpetuada; e a felicidade, facilmente previsível, isto é, tornada em mera banalidade e indigna de conquista. A pessoa consciente de ter cumprido seu dever não necessariamente sentirá contentamento em aspecto de felicidade, mas decerto terminará desiludida se sacrificar o dever por pensar que ser feliz independe de cumpri-lo. A maioria raciocina que o sucesso deva ser procurado como um fim definitivo da atitude trabalhadora, mas isso seria petulância demasiada. A sensação de sucesso é subjetiva e moldável, e não deveria servir como único incentivo do trabalho, visto que, se a motivação para trabalhar for somente sucesso, a virtude do esforço não será nada mais que reação ao medo do fracasso, quando na realidade sem a possibilidade de fracasso não haveria como perceber-se bem-sucedido.

Se às vezes há um conflito injusto entre trabalhar pesado e falta de realização, e se estar feliz marca os indivíduos altamente produtivos, o trabalho não será sempre satisfatório, porque não abrange todos os motivos para se levantar da cama.

Um serviço que acrescente em valor e que promova o ânimo pela sua própria causa passou de um conceito antiquado reservado à uma elite privilegiada a requisito para quase todos os trabalhadores da nova safra, que especialistas em gestão categorizam como da “geração Y”.

Nunca se usou tanto a palavra “equilíbrio” em capas de revistas sobre bem-estar e livros de autoajuda, uma tática comercial bastante apelativa. O balanceamento perfeito entre vida profissional, social e romântica só ocorre se o homem estiver apaixonado por seu trabalho, produtivo no romance e, fundamentalmente, poder abdicar desses papeis quando sua mente precisa de repouso. A desarmonia nasce quase sempre da inflexibilidade em relação a este último quesito pessoal, que, destarte, nunca deve ser deixado de fora da lista de prioridades.

A partir da nada saudável premissa de que a vida fora do escritório é mais importante, trabalhar passa a ser um exercício de sofrimento a ser aliviado com toda sorte de vícios – vinho, sexo, tabaco, meditação, yoga, dança, luta livre, jogatina –, domingo à noite vira um prelúdio da lástima, segunda de manhã um tormento psicológico digno de pedir socorro, e sexta à noite um pretexto para a libertinagem. Canalizando-se as energias do espírito não somente depois, mas também durante a execução do ofício profissional, os vícios não atacam com tanta brutalidade, e as ressacas perdem um pouco seu caráter sacrificial.

Outro elemento indisfarçável na sociedade é a baixíssima resistência à ofensa, aquela reação parcial à crítica tão conhecida. Algumas críticas são de fato destrutivas, e o agressor deseja que a vítima se desgrace justamente entrando no seu jogo.

Uma coisa é ter humildade para reconhecer besteiras ocasionais no pregar atitudes idealíssimas, e as pessoas que a têm são admiráveis. Outra coisa é ter a prepotência de achar que todas as críticas são um atentado à importância da sua autoimagem.

Certo que, se o problema estiver na pessoa criticada, e ela não quiser resolvê-lo, ou ter o crítico em descrédito, não só não ouvirá a crítica, mas defenderá seu orgulho com a própria vida. Certo também que, se o problema não estiver na pessoa criticada, mas no crítico, e este quiser negá-lo, o fará criticando, pois dessa maneira pensa que se protege, enquanto está se escondendo.

Os pais se sentem no dever de dizer a seus filhos que, se estes agirem como hedonistas impulsivos, sem planejamento e gestão de riscos, nunca terão um futuro. Para contar essa verdade, oferecem lições baseadas na sua experiência. O confronto de gerações, nesses casos, surge de dois possíveis equívocos: por parte dos pais, que presumem que seus filhos cometerão exatamente os mesmos erros que eles cometeram, tanto em grau quanto em espécie; por parte dos filhos, que ignoram o fato de que seus pais obrigatoriamente carregam nas costas uma bagagem mais pesada de conhecimentos das leis empíricas da vida. Ao projetarem seus fantasmas na cabeça dos filhos, os pais estão com medo de se sentir culpados pela segunda vez. Ao descartarem conselhos de seus pais, os filhos querem mostrar que têm força para aliviar sua consciência por si mesmos.

A falta de paciência

As coisas na natureza não acontecem na mesma velocidade do pensamento civilizado, instintos selvagens não correspondem à organização sistemática das máquinas que o homem cria para otimizar suas demandas, a temperatura do ambiente não muda conforme os humores internos. Tudo isso faz emergir a relevância de uma das virtudes que permitem uma existência mais autocentrada ou menos perdida: a paciência. Se há algo a ser ilustrado por uma teoria da escassez capitalista, é a inabilidade do homem de ser paciente.

Ter paciência é saber quando, como e por que esperar, uma das coisas mais difíceis do mundo. Quem espera demais padece em apatia, procrastinação e impotência. Quem espera de menos padece em loucura, hostilidade e esgotamento. Quem espera moderadamente exerce aquela temperança que Aristóteles tanto manifestava em seus discursos, e da qual até se duvida (por inveja) que o mesmo tenha tão bem se aproveitado.

Ao ouvirem uma pessoa dizer “Tenha calma”, muitos se sentem tentados a mandá-la à merda, perguntando: “Na real, em que mundo você vive?”. Toda a gente recomenda calma, mas age como se a calma fosse um besouro chato zumbindo na orelha. O ilustre Sêneca informava seus discípulos com sermões sobre a brevidade da vida, no intuito de prepará-los à moderação do senso de urgência. Todos solicitam tempo, e esquecem de que são o tempo. “Parece que nada se pede e nada é dado”.

De acordo com os budistas, paciência é o comportamento virtuoso do ser humano que nem foge da ação em circunstâncias que exigem seu controle, nem se mantém estático sobre as circunstâncias que lhe fogem. Portanto, a impaciência é uma luta estéril contra a imperfeição do futuro.

O estresse é natural até o ponto que ajuda a evitar a desatenção em situações emergenciais reais; para além, há severas represálias psíquicas. A paciência, por si só, não resolve necessidades urgentes, mas ajuda a evitar problemas desnecessários.

Dos males que acometem a modernidade, a ansiedade está em primeiro lugar, basta verificar a quantidade de benzodiazepínicos vendida diariamente, empregos sendo largados pela falta de reconhecimento imediato, suicídios sendo cometidos pela recusa em abandonar uma solução final do absurdo existencial, potenciais amizades sendo desnutridas porque o frágil ego foi ferido pelo silêncio de uma mensagem a mais de dois dias não respondida, namoros e casamentos sendo aniquilados a partir do período em que sua representação se torna menos conveniente, e psicólogos, psiquiatras e psicanalistas enriquecendo aos montes.

A virtude da paciência precisa ser uma tarefa exercida com disciplina ascética pelos ansiosos crônicos, do mesmo jeito que os diabéticos não podem ignorar a necessidade de controlar a ingestão abusiva de açúcar sem correrem o risco de sofrer de ataques glicêmicos.

Adiar a gratificação parece a muitos um sacrifício temporal negligente, como se partissem da convicção de que amanhã acabará a comida no supermercado ou o sol perecerá no oeste. Porque o gozo não é para sempre, torna-se inaceitável o desprazer presente. Aproveitar o momento, sentir o coração suspirando e as pupilas dilatadas frente às delícias da vida é um comportamento estimulado pelos hedonistas, que explicam a ansiedade e o estresse como decorrentes da privação de prazeres sensoriais. Ora, já que o mundo não espera por ninguém, o ato de esperar é visto como um defeito a ser varrido pela felicidade aqui e agora. A questão que não quer calar é que o desejo, quando insubordinado aos escrutínios da razão, domina o bom senso e está livre para assassinar reputações.

Todos já ouviram falar de Baco, o deus do vinho, da orgia e das festas. Seus admiradores enxergam-no como um guru que os inspira a lidar com as angústias da vida usando de um certo subterfúgio: álcool. Essa promessa tem pavio curto, porque os bêbados, passado o período de embriaguez, retornam a viver os mesmos temores de sempre. Baco seria mais amado se ensinasse a seus súditos estratégias para um melhor relacionamento com a sobriedade. Os bêbados menos degenerados procuram sair do palácio de sua realidade de vez em quando, não antes de checar se as coisas estão no lugar. Como administrar a ansiedade fóbica sem recorrer a remédios desesperados é algo que os psiquiatras são suscitados a esconder para manterem sua fonte de renda.

Necessidade de estímulo constante, agigantamento do tédio, alto nível de intolerância à realidade e ânsia desesperada por conectividade digital fazem com que o estresse olhe para o espelho e se sinta vaidoso, enquanto os estressados apelam para a criação desenfreada de válvulas de escape e são desafiados a fortalecer sua capacidade de resiliência, fator cada vez mais procurado pelos líderes e nos líderes.

A crescente impaciência vem da redução da eficácia da gestão do tempo, que significa a redução da eficácia do ser humano. Tanto impulsividade na tomada de decisões quanto falta de firmamento da estratégia têm sido apontados como hábitos clássicos dos sabotadores profissionais, que contrariam Sun Tzu e vão à guerra em primeiro lugar para depois buscarem a vitória.

Aquela calma dos ermitões da floresta, que dizem ouvir, a um quilômetro de distância, o som das águas dos lagos chacoalhando, o bater de asas dos condores e o sussurro das árvores agitadas, é uma incógnita para quem mora em metrópoles urbanas movimentadas pelo barulho das buzinas, cheiro de fumaça negra e pessoas aceleradas aos milhares.

Em um universo tecnológico eufórico, as oportunidades para a sabotagem são autossuficientes, por isso é tão bom procrastinar em redes sociais, por exemplo. Enquanto um serviço sem pausas leva ao definhamento físico, a inércia prolongada promove o ostracismo psicológico. Inúmeros executivos em cargos de liderança têm reclamado da epidêmica improdutividade associada às distrações dos seus funcionários; inclusive, algumas culturas de trabalho já incluíram no código de conduta que se mantenha os celulares desligados durante o expediente, não importa se o marido sofreu um ataque cardíaco ou se a casa está pegando fogo com as crianças dentro. Se não é certo levar problemas caseiros para o escritório, também é errado esquecer que uma organização é composta de sangue, carne e osso. As máquinas desumanizam tanto que sem elas já não há humanidade.

Com poucos cliques no mouse do computador ou toques no celular tem-se ao poder dos olhos informações infinitas. Dá para saber se João está namorando, se Maria atualizou no perfil a efetivação que tanto esperava, se o labrador da tia está melhorzinho da infecção estomacal, se a colega de academia morando nos EUA está fininha ou engordou, se o amigo de infância está vivo. Um sintoma primário da perda de paciência está na substituição emocional (contato, fricção, tesão) pela contemplação tecnológica (achismo, teses vazias, frigidez), algo que não deve ser feito por quem preza um relacionamento genuíno.

Hoje em dia, caem por terra os defensores da ideia de que a distância nada significa para amigos e familiares que se amam de coração. Afeto exige toque, carinho, estímulo e risada ao vivo. Isso evoca um dos diagnósticos de Ludwig Feuerbach (tirado de seu contexto religioso original):

“E sem dúvida nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.”

Os dias são muito melhores quando estou com você

Os dias são muito melhores quando estou com você

E como são melhores. É como se a vida tivesse nos proporcionado um largo sorriso, onde podemos mergulhar em cada momento de nós. Não tem outra explicação. Com você, além de ser leve, é também inesquecível.

Cansei de enumerar os amores nos quais recebi tamanha tranquilidade em troca. Não foram muitos, sinceramente. Mas com você, preciso confessar, não me lembro de experimentar nada igual. Porque não atropelamos o que o outro sente. Sabemos o que é preciso para somarmos. Você fica sem obrigação. Eu vou até você sem peso. Você me escuta porque gosta. Eu te admiro porque não posso ignorar. A nossa troca é sinal de franqueza.

Quem dera se todos os amores tivessem essa simplicidade que escolhemos carregar. Nenhum dia ao seu lado é motivo para desviar o olhar. De um jeito ímpar, a gente se esbarra ao acordarmos e também ao irmos dormir. Há sempre algo a ser dito e demonstrado. Parece que, mesmo na distância, reconhecemos os afetos um do outro. Isso é sintonia. É sorte estar com você.

Os dias são muito melhores quando estamos juntos e nenhum de nós se preocupa em negar. Pelo contrário, caímos de coração nesses instantes em que estivemos entrelaçados. Por isso é tudo tão sob medida, porque já passamos da fase de procurarmos o que acontece naturalmente, bem assim, entre a sua chegada e a minha permanência.

Imagem de capa: Hrecheniuk Oleksii, Shutterstock

Farinha do mesmo saco

Farinha do mesmo saco

Por Fabíola Simões

Outro dia, um amigo de longa data se referiu a mim e a uma amiga em comum como “farinhas do mesmo saco”. E ri da expressão, orgulhosa de ser o mesmo tipo de pessoa que minha amiga.

Dizem que os opostos se atraem. Talvez porque eu busque no outro o que me falta, ou aquilo que desejo revelar, mas só ele consegue exteriorizar.

Porém, em se tratando de amizades, felicidade é ser farinha do mesmo saco, do tipo que engrossa o mesmo caldo ou dá consistência ao fermento que fomenta a vida.

Quero ser farinha do mesmo saco de quem mora longe, mas se faz sempre perto, e não deixa a saudade distanciar. De quem cuida da amizade com vontade de estar presente, sem correr o risco de que o tempo apazigue a memória do que sempre queremos lembrar;

Desejo ser farinha do mesmo saco de quem não tem medo de ser imperfeito, e trata com carinho seus deslizes, compreendendo que nossas incompletudes são partes do mesmo saco também;

Sou farinha do mesmo saco de quem compartilhou um tempo bom, e fez da trilha sonora e cinematográfica de sua vida parte da minha também, eternizando “Grease”, os clássicos de Woody Allen, “Moon River”, Legião e “Go Back” _ na versão linda com Fito Paez;

Sou farinha do mesmo saco de quem me viu modificar com a idade, e transformou-se comigo, superando as dificuldades do caminho e prosseguindo lado a lado, compreendendo que ainda que os roteiros sejam distintos, permanece aquela linha invisível ligando os mundos;

Quero ser farinha do mesmo saco dos amigos que inventam grupos no whatsapp, e espalham videos, fotos e outras bobagens só pelo pretexto de nunca mais deixarem a distância apartar;

Sou farinha do mesmo saco de quem não consigo esconder um segredo, e partilho mesmo correndo o risco de chorar; entendendo que no mesmo saco encontro amparo para meus medos e conflitos também;

Sou farinha do mesmo saco de quem entende minha reserva de tempos em tempos, a necessidade de encontrar abrigo em meu universo particular, de quem supera meu contraste e introspecção;

Sou farinha do mesmo saco de quem não se fragiliza diante de minha alegria, mas partilha do mesmo sorriso quando a vida floresce em meu canteiro;

Quero ser farinha do mesmo saco de quem compartilha sua alegria sem rodeios, e não se intimida quando o tempo traz a poda de suas _ e minhas _ mudas ou estruturas;

Sou farinha do mesmo saco de quem não tem medo de chegar, e não vive com receio de que a proximidade derrube as portas que construiu pra se blindar. De quem entende que a amizade é um sentimento mútuo, que só cresce reciprocamente;

Sou farinha do mesmo saco de quem perdoa a si mesmo, e aprende a não se culpar em demasia. De quem me ensina a relevar meus próprios julgamentos e entende minhas pequenices, tombos e fraquezas, sem usar isso pra me desconcertar;

Quero ser farinha do mesmo saco de quem ama sem impôr condições, e permite que lhe amem na mesma proporção. De quem não evita a possibilidade de ser melhor com o tempo, mas tenta se aprimorar com a passagem dos momentos;

Sou farinha do mesmo saco de quem sabe dirigir o olhar com delicadeza e serenidade, acreditando que é merecedor de dádivas e milagres diários. De quem sabe agradecer o presente que é a própria vida e tolera os imprevistos com ginga e sabedoria;

Quero ser farinha do mesmo saco de quem tem tanto a me ensinar, pois meus pés ainda trilham terra barrenta, que tem tanto a se transformar.

A vida nos pede ânimo novo todos os dias. Precisamos ser farinhas do mesmo saco. Precisamos de quem nos ajude a lapidar nossas arestas e arredondar nossos cantos ou esquinas.

Bom mesmo é encontrar quem nos acolha. Quem tem tanto a oferecer e nos enxerga com olhos generosos. Quem nos abraça e convida a ser assim, simplesmente… Farinhas do mesmo saco…

Imagem de capa: savageultralight/shutterstock

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“Sons que confortam”, crônica de Martha Medeiros

“Sons que confortam”, crônica de Martha Medeiros

Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele que conta, hoje, adulto: Nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

Inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. Na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.

E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

Deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza.

O aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

A sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

O sinal da hora do recreio.

A música que você mais gosta tocando no rádio do carro. Aumente o volume.

O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

E o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

Martha Medeiros no livro Felicidade Crônica

Indicação dos nossos parceiros Psique em Equilíbrio.

Imagem de capa: Olena Yakobchuk/shutterstock

A alma do outro, por Lya Luft

A alma do outro, por Lya Luft

“No relacionamento amoroso, familiar ou amigo
acredito que partilhar a vida com alguém que
valha a pena é enriquecê-la. Permanecer numa
relação desgastada é suicídio emocional, é
desperdício de vida”

“A alma do outro é uma floresta escura”, disse o poeta Rainer Maria Rilke, meu único autor de cabeceira.

A vida vai nos ensinando quanto isso é verdade. Pais e filhos, irmãos, amigos e amantes podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir juntos e sofrer juntos, ter gostos parecidos ou complementares, ser interessantes uns para os outros, superar grandes conflitos – mas persiste o lado avesso, o atrás da máscara, que nunca se expõe nem se dissipa.

Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação. Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito?

(…)

Amor e amizade transitam entre esses dois “eus” que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilhamento ou de vida em comum, vontade de fazer e ser um bem, e de obter do outro o que para a gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte. Pontes podem ser precárias, estradas têm buracos, caminhos escondem armadilhas inconscientes que preparamos para nossos próprios passos em direção do outro. O que está mergulhado no inconsciente é nosso maior tesouro e o mais insidioso perigo.

Pensar sobre a incomunicabilidade ou esse espaço dela em todos os relacionamentos significa pensar no silêncio: a palavra que devia ter sido pronunciada, mas ficou fechada na garganta e era hora de falar; o silêncio que não foi erguido no momento exato – e era o momento de calar.

Mas, como escrevi várias vezes, a gente não sabia. É a incomunicabilidade, não por maldade ou jogo de poder, mas por alienação ou simples impossibilidade. Anos depois poderá vir a cobrança: por que naquela hora você não disse isso? Ou: por que naquele momento você disse aquilo?

Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.

No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida. Entre fixar e romper, o conflito e o medo do erro.

Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração. A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?

Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.

Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.

Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.

Lya Luft

18 bons motivos para você correr o quanto antes para praia

18 bons motivos para você correr o quanto antes para praia

Título original: 18 coisas que apenas as pessoas que vivem perto da praia entendem

Por Vanessa-Jane Chapman

Para a maioria das pessoas a praia é um lugar para se passar as férias ou para um passeio ocasional. A ideia de viver em real proximidade com o mar pode parecer um sonho para os visitantes de temporada, mas como realmente vivencial a relação com o mar aqueles que vivem ao seu lado?

Aqui estão 18 coisas que só podem ser plenamente compreendidas por aqueles que vivem perto da praia.

1. Você entende que a praia não é apenas para o verão
Vestir algo quente e sair para uma caminhada em uma praia deserta no inverno é uma experiência única e revigorante.

2. Você sempre sentirá um certo orgulho
Afinal de contas, você vive em algum lugar em que as pessoas anseiam para visitar durante todo o ano.

3. Você descobriu que as soluções para a maioria dos problemas pode ser encontrado sentado na praia e olhando para a água
Da mesma forma, se você precisar de pouco de inspiração, você pode encontrá-la enquanto mergulha os dedos dos pés na areia.

4. Você tomará como um insulto pessoal quando alguém deixar lixo na praia
Você não deixaria lixo em seus quintais, então, como as pessoas ousam jogar lixo em sua praia?

5. Você sempre tem algo para fazer quando você mora perto da praia
Mesmo que seja apenas ficar sentado na praia-  que é uma maneira perfeitamente válida para passar o tempo- ao contrário de ficar sentado em qualquer outro lugar.

6. Você sabe que qualquer comida tem gosto melhor quando comida sentado na areia
Ainda melhor se ela for preparada na praia. Você já aperfeiçoou a arte de preparar e comer o alimento na praia sem ingerir areia ao mesmo tempo? Esta é uma habilidade que deve ser invejado pelo visitante ocasional da praia.

7. Você nunca se cansar da vista
Especialmente do pôr do sol.  E do nascer do sol. E, durante o sol do meio-dia.

8. Você aceitou que sua casa nunca vai ser completamente livre de areia
Assim como o seu carro, roupas, cabelo e animais de estimação.

9. Você pode categorizar instantaneamente os visitantes da praia segundo”tipos” específicos só de olhar para eles
Esta categorização permite prever o seu comportamento na praia e ainda proporcionando-lhe muitas outras horas de entretenimento.

10. Você espera nunca perder o encanto infantil de sua relação com a praia
O prazer de encontrar e recolher conchas bonitas ou de ouvir através de pequenas criaturas do mar não está reservado a crianças ou visitantes ocasionais.

11. Você sabe que não há som no mundo mais bonito do que o bater das ondas na praia
Assim como não existe melhor cheiro do que o do ar que vem do mar salgado.

12. Você está constantemente dividido com relação aos seus sentimentos em relação a turistas
Você entende que eles são essenciais para a economia da área, e você gosta de vê-los chegar, mas você gostaria que eles fossem ser menos invasivos com relação as praias paradisíacas da região, que houve um maior controle para que a natureza não seja destruída. Você quer ser simpático e acolhedor com eles, mas desejaria que, às vezes, eles mostrassem mais consideração por suas imediações e pelos residentes locais.

13. Seu guarda-roupa é 80% roupa de praia
No verão você pode facilmente esquecer que existem outros tipos de roupas.

14. Você respeita o poder do oceano
Você já o viu em seus melhores e piores dias e compreende a necessidade de respeitá-lo sempre.

15. Você ficar na defensiva se alguém compara sua praia desfavoravelmente a outras praias
Eles claramente não entenderam a sua praia e esta situação deve ser corrigida imediatamente.

16. Você equivocadamente acha que já viu de tudo
No entanto, todas as vezes que vai à praia sempre vê algo novo, sente algo novo, ouve algo diferente.

17. Você não não é capaz de entender como alguém pode não gostar de praia
Eles poderiam muito bem dizer que eles não gostam de respirar.

18. Você não pode imaginar viver em qualquer outro lugar
Você pode viver fora por um tempo, mas você sabe que voltará. Quem morou perto do mar sempre volta.

Do original  18 Things Only People Who Live By The Beach Understand

Traduzido e adaptado exclusivamente para o CONTI outra.

Imagem de capa: Rocksweeper/shutterstock.com

As mentirinhas perversas, por Fabrício Carpinejar

As mentirinhas perversas, por Fabrício Carpinejar

Protegemos nossas pequenas mentiras em vez de cuidar do relacionamento.

— O que está pensando?
— Por que fez aquilo?
— O que deseja?

Não respondemos o que vem à cabeça, filtramos o que seria mais importante falar, o que daria mais ibope, o que nos fortaleceria naquela situação.

A vontade de agradar é maior do que a vontade de ser verdadeiro.

Não aceitamos nossas imperfeições, e mascaramos os defeitos com imprecisões. A vergonha de errar nos leva aos grandes erros.

Sem querer, já estamos mentindo. E mentimos porque a verdade não impressiona. A verdade não tem roupa de festa. Ela fica abandonada enquanto exercitamos as mentirinhas. Não nos sentimos culpados, pois ninguém conhece a nossa verdade.
Batemos o pé por bobagens, compramos brigas desnecessárias, geramos discussões à toa.

Usamos a toalha do outro por engano. Pode estar encharcada e sustentamos que não foi a gente. Comemos um doce reservado na geladeira e somos capazes de jamais admitir a autoria e desfazer o mal-entendido. Quebramos um objeto na sala e fingimos que ele sumiu de repente.

Era algo simples de ser assumido, e deixamos passar. Criamos uma avalanche a partir de uma pedra de gelo.

Não confessamos o que aconteceu, e o costume ainda é incriminar quem nos chamou atenção, invertendo o jogo: – Não acredita em mim?
Trocamos a espontaneidade pelo orgulho, a franqueza pela persuasão.

Subestimamos quem nos escuta ou não nos julgamos dignos do que pensamos. Planejamos o nosso depoimento para soar natural. Premeditamos nossa conduta para receber somente elogios. Ao evitar os castigos e reprimendas, evitamos também a autenticidade.

Uma mentirinha é logo esquecida em nome de uma nova e não acompanhamos os juros.

A mentira é um modo de não ser julgado. Mas estamos nos condenando secretamente a nos afastar do que nos incomoda.

Nem é mentir no início de um relacionamento, o que é perdoável, é exagerar um pouco por dia. Sobre o emprego. Sobre o sexo. Sobre o amor. É falsificar nossa pobreza. Colocar uma manta para cobrir o sofá rasgado.

A partir de uma resposta mais agradável, desviamos o caminho, distorcemos algumas frases e somos obrigados a inventar todo um passado.

Prefiro estar acompanhado numa estrada real, ainda que penosa, do que viver sozinho em minha imaginação.

Imagem de capa: Reprodução

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 17/11/2013 Edição N° 17617

10 filmes para repensar caminhos quando a vida parece perder o sentido

10 filmes para repensar caminhos quando a vida parece perder o sentido

A ausência de sonhos e perspectivas é um pedido de ajuda, merece um olhar delicado, acolhimento e suporte. A falta de perspectivas é um lugar, muitas vezes, povoado de culpa e vergonha, apontando para a necessidade de ampliarmos nossos corações nessas travessias, sem julgamentos, dando espaço para falarmos sobre os pedidos de cuidado que cercam essa vivência.

1-HEROIS IMAGINÁRIOS:

Uma típica família norte-americana vive uma rotina perfeita à primeira vista. Porém sob a aparência de normalidade esconde-se uma também típica família em crise. Tim (Emile Hirsch), o filho mais novo, experimenta as angústias da adolescência; seu pai, Ben (Jeff Daniels), vive atormentado pelos erros do passado; e sua mãe, Sandy (Sigourney Weaver), administra seu rancor com o consumo de drogas. E agora Sandy está prestes a revelar um terrível e doloroso segredo capaz de dividir os membros da família.

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2-O PRINCIPE DAS MARÉS: Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado da Carolina do Sul, que vai a Nova York apoiar a irmã, uma poetisa, que agiu contra a própria vida. Lá ele se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela, mas seu casamento em crise e seus filhos, além de um terrível segredo de família, perturbam sua mente.

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3-ELENA: Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar. Deixa Petra, a irmã de sete anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas. Filmes caseiros, recortes de jornal, um diário. Cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos. E acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem, já não se sabe quem é uma, quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

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4-GENTE COMO A GENTE: A morte prematura em um acidente de um dos filhos de uma família de classe média alta acaba afetando a todos, principalmente o irmão da vítima, que se considera responsável pelo ocorrido e está em tratamento psiquiátrico. No entanto a mãe faz questão de manter as aparências, para não dar a entender que a unidade familiar foi quebrada.

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5-ENSINA-ME A VIVER: O relacionamento entre um rapaz de 20 anos com obsessão pela morte, que passa seu tempo indo a funerais e simulando atos contra a própria vida, e uma senhora de 79 anos encantada com a vida. Eles passam muito tempo juntos e, durante esta convivência, ela expõe a beleza da vida.

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6-O VALE DO AMOR: Isabelle e Gérard vão a um estranho encontro em Death Valley, Califórnia. Eles não se viam há anos e vão para responder a um convite de seu filho Michael.

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7-ORAÇÕES PARA BOBBY: Mary é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho Bobby revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo”.

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8-INTERIORES: A aparente rotina de tranquilidade de uma família burguesa de Manhattan é abalada quando o pai decide abandonar a casa para viver com outra mulher.

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9-AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL: A história é narrada por um adolescente tímido e impopular que descreve a sua vida em uma série de cartas para uma pessoa anônima e explora as fases difíceis da adolescência, incluindo o uso de drogas e sexualidade.

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10-CANÇÃO DA VOLTA: Um dia, Eduardo chega em casa e descobre que Júlia, sua esposa, tentou se matar. Deixou o marido e os dois filhos, sem dar explicação. Algum tempo depois, ela volta para casa. Eduardo faz de tudo para recolocá-la nos eixos, mas a impossibilidade de conhecê-la por inteiro o aflige. A ressonância da perda e o inevitável fantasma de uma nova tentativa pairam sobre todos os envolvidos. Eduardo insiste em desvendar sua mulher, mas um ciúme crescente e a descoberta de um passado insuspeito passam a torturá-lo. Ele não percebe que, muitas vezes, a busca por controle transforma-se facilmente em obsessão.

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Sinopses via //filmow.com

Dez coisas que toda criança com autismo gostaria que você soubesse

Dez coisas que toda criança com autismo gostaria que você soubesse

Por Ellen Nottohm

1) Antes de tudo eu sou uma criança.

Eu tenho autismo. Eu não sou somente “Autista”. O meu autismo é só um aspecto do meu caráter. Não me define como pessoa. Você é uma pessoa com pensamentos, sentimentos e talentos. Ou você é somente gordo, magro, alto, baixo, míope. Talvez estas sejam algumas coisas que eu perceba quando conhecer você, mas isso não é necessariamente o que você é. Sendo um adulto, você tem algum controle de como se auto-define. Se quer excluir uma característica, pode se expressar de maneira diferente. Sendo criança eu ainda estou descobrindo. Nem você ou eu podemos saber do que eu sou capaz. Definir-me somente por uma característica, acaba-se correndo o risco de manter expectativas que serão pequenas para mim. E se eu sinto que você acha que não posso fazer algo, a minha resposta naturalmente será: Para que tentar?

2) A minha percepção sensorial é desordenada.

Interação sensorial pode ser o aspecto mais difícil para se compreender o autismo. Quer dizer que sentidos ordinários como audição, olfato, paladar, toque, sensações que passam desapercebidas no seu dia a dia podem ser doloridas para mim. O ambiente em que eu vivo pode ser hostil para mim. Eu posso parecer distraído ou em outro planeta, mas eu só estou tentando me defender. Vou explicar o porquê uma simples ida ao mercado pode ser um inferno para mim: a minha audição pode ser muito sensível. Muitas pessoas podem estar falando ao mesmo tempo, música, anúncios, barulho da caixa registradora, celulares tocando, crianças chorando, pessoas tossindo, luzes fluorescentes. O meu cérebro não pode assimilar todas estas informações, provocando em mim uma perda de controle. O meu olfato pode ser muito sensível. O peixe que está à venda na peixaria não está fresco. A pessoa que está perto pode não ter tomado banho hoje. O bebê ao lado pode estar com uma fralda suja. O chão pode ter sido limpo com amônia. Eu não consigo separar os cheiros e começo a passar mal. Porque o meu sentido principal é o visual. Então, a visão pode ser o primeiro sentido a ser super-estimulado.  A luz fluorescente não é somente muito brilhante, ela pisca e pode fazer um barulho. O quarto parece pulsar e isso machuca os meus olhos. Esta pulsação da luz cobre tudo e distorce o que estou vendo. O espaço parece estar sempre mudando. Eu vejo um brilho na janela, são muitas coisas para que eu consiga me concentrar. O ventilador, as pessoas andando de um lado para o outro… Tudo isso afeta os meus sentidos e agora eu não sei onde o meu corpo está neste espaço.

3) Por favor, lembre de distinguir entre não poder (eu não quero fazer) e eu não posso (eu não consigo fazer)

Receber e expressar a linguagem e vocabulário pode ser muito difícil para mim. Não é que eu não escute as frases. É que eu não te compreendo. Quando você me chama do outro lado do quarto, isto é o que eu escuto “BBBFFFZZZZSWERSRTDSRDTYFDYT João”. Ao invés disso, venha falar comigo diretamente com um vocabulário simples: “João, por favor, coloque o seu livro na estante. Está na hora de almoçar”. Isso me diz o que você quer que eu faça e o que vai acontecer depois. Assim é mais fácil para compreender.

4) Eu sou um “pensador concreto” (CONCRETE THINKER). O meu pensamento é concreto, não consigo fazer abstrações.

Eu interpreto muito pouco o sentido oculto das palavras. É muito confuso para mim quando você diz “não enche o saco”, quando o que você quer dizer é “não me aborreça”. Não diga que “isso é moleza, é mamão com açúcar” quando não há nenhum a mamão com açúcar por perto e o que você quer dizer é que isso e algo fácil de fazer. Gírias, piadas, duplas intenções, paráfrases, indiretas, sarcasmo eu não compreendo.

5) Por favor, tenha paciência com o meu vocabulário limitado.

Dizer o que eu preciso é muito difícil para mim, quando não sei as palavras para descrever o que sinto. Posso estar com fome, frustrado, com medo e confuso, mas agora estas palavras estão além da minha capacidade, do que eu possa expressar. Por isso, preste atenção na linguagem do meu corpo (retração, agitação ou outros sinais de que algo está errado).
Por um outro lado, posso parecer como um pequeno professor ou um artista de cinema dizendo palavras acima da minha capacidade na minha idade. Na verdade, são palavras que eu memorizei do mundo ao meu redor para compensar a minha deficiência na linguagem. Por que eu sei  exatamente o que é esperado de mim como resposta quando alguém fala comigo. As palavras difíceis que de vez em quando falo podem vir de livros, TV, ou até mesmo serem palavras de outras pessoas. Isto é chamado de ECOLALIA. Não preciso compreender o contexto das palavras que estou usando. Eu só sei que devo dizer alguma coisa.

6) Eu sou muito orientado visualmente  porque a linguagem é muito difícil para mim.

Por favor, me mostre como fazer alguma coisa ao invés de simplesmente me dizer. E, por favor, esteja preparado para me mostrar muitas vezes. Repetições consistentes me ajudam a aprender. Um esquema visual me ajuda durante o dia-a-dia. Alivia-me do stress de ter que lembrar o que vai acontecer. Ajuda-me a ter uma transição mais fácil entre uma atividade e outra. Ajuda-me a controlar o tempo, as minhas atividades e alcançar as suas expectativas. Eu não vou perder a necessidade de ter um esquema visual por estar crescendo. Mas o meu nível de representação pode mudar. Antes que eu possa ler, preciso de um esquema visual com fotografias ou desenhos simples. Com o meu crescimento, uma combinação de palavras e fotos pode ajudar mais tarde a conhecer as palavras.

7) Por favor, preste atenção e diga o que eu posso fazer ao invés de só dizer o que eu não posso fazer.

Como qualquer outro ser humano não posso aprender em um ambiente onde sempre me sinta inútil, que há algo errado comigo e que preciso de “CONSERTO”. Para que tentar fazer alguma coisa nova quando sei que vou ser criticado? Construtivamente ou não é uma coisa que vou evitar. Procure o meu potencial e você vai encontrar muitos! Terei mais que uma maneira para fazer as coisas.

8) Por favor, me ajude com interações sociais.

Pode parecer que não quero brincar com as outras crianças no parque, mas algumas vezes simplesmente não sei como começar uma conversa ou entrar na brincadeira. Se você pode encorajar outras crianças a me convidarem a jogar futebol ou brincar com carrinhos, talvez eu fique muito feliz por ser incluído. Eu sou melhor em brincadeiras que tenham atividades com estrutura começo-meio-fim. Não sei como “LER” expressão facial, linguagem corporal ou emoções de outras pessoas. Agradeço se você me ensinar como devo responder socialmente. Exemplo: Se eu rir quando Sandra cair do escorregador não é que eu ache engraçado. É que eu não sei como agir socialmente. Ensine-me a dizer: “você esta bem?”.

9) Tente encontrar o que provoca a minha perda de controle.

Perda de controle, “chilique”, birra, mal-criação, escândalo, como você quiser chamar, eles são mais horríveis para mim do que para você. Eles acontecem porque um ou mais dos meus sentidos foi estimulado ao extremo. Se você conseguir descobrir o que causa a minha perda de controle, isso poderá ser prevenido – ou até evitado. Mantenha um diário de horas, lugares pessoas e atividades. Você encontrar uma seqüência pode parecer difícil no começo, mas, com certeza, vai conseguir. Tente lembrar que todo comportamento é uma forma de comunicação. Isso dirá a você o que as minhas palavras não podem dizer: como eu sinto o meu ambiente e o que está acontecendo dentro dele.

10) Se você é um membro da família me ame sem nenhuma condição.

Elimine pensamentos como “Se ele pelo menos pudesse…” ou “Porque ele não pode…” Você não conseguiu atender a todas as expectativas que os seus pais tinham para você e não gostaria de ser sempre lembrado disso. Eu não escolhi ser autista. Mas lembre-se que isto está acontecendo comigo e não com você. Sem a sua ajuda a minha chance de alcançar uma vida adulta digna será pequena. Com o seu suporte e guia, a possibilidade é maior do que você pensa. Eu prometo: VAI VALER A PENA.

E, finalmente três palavras mágicas: Paciência, Paciência, Paciência. Ajudam a ver o meu autismo como uma habilidade diferente e não uma desabilidade. Olhe por cima do que você acha que seja uma limitação e veja o presente que o autismo me deu. Talvez seja verdade que eu não seja bom no contato olho no olho e conversas, mas você notou que eu não minto, roubo em jogos, fofoco com os colegas de classe ou julgo outras pessoas? É verdade que eu não vou ser um Ronaldinho “Fenômeno” do futebol. Mas, com a minha capacidade de prestar atenção e de concentração no que me interessa, eu posso ser o próximo Einstein, Mozart ou Van Gogh. Eles também eram autistas.Talvez um dia iremos encontrar uma possível resposta para o alzheim ou para o enigma da vida extraterrestre – O que o futuro tem guardado para crianças autistas como eu, está no próprio futuro. Tudo que eu posso ser não vai acontecer sem você sendo a minha Base. Pense sobre estas “regras” sociais e se elas não fazem sentido para mim, deixe de lado. Seja o meu protetor seja o meu amigo e nós vamos ver até onde eu posso ir.
CONTO COM VOCÊ!!!

A tradução do texto foi realizada por Andréa Simon do site autismo.com.br

Imagem de capa: Aleksei Potov/shutterstock

As nossas possibilidades de felicidade, um texto de Sigmund Freud

As nossas possibilidades de felicidade, um texto de Sigmund Freud

É simplesmente o princípio do prazer que traça o programa do objetivo da vida. Este princípio domina a operação do aparelho mental desde o princípio; não pode haver dúvida quanto à sua eficiência, e no entanto o seu programa está em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo como com o microcosmo. Não pode simplesmente ser executado porque toda a constituição das coisas está contra ele; poderíamos dizer que a intenção de que o homem fosse feliz não estava incluída no esquema da Criação. Aquilo a que se chama felicidade no seu sentido mais restrito vem da satisfação — frequentemente instantânea — de necessidades reprimidas que atingiram uma grande intensidade, e que pela sua natureza só podem ser uma experiência transitória. Quando uma condição desejada pelo princípio do prazer é protelada, tem como resultado uma sensação de consolo moderado; somos constituídos de tal forma que conseguirmos ter prazer intenso em contrastes, e muito menos nos próprios estados intensos. As nossas possibilidades de felicidade são assim limitadas desde o princípio pela nossa formação. É muito mais fácil ser infeliz.

O sofrimento tem três procedências: o nosso corpo, que está destinado à decadência e dissolução e nem sequer pode passar sem a ansiedade e a dor como sinais de perigo; o mundo externo, que se pode enfurecer contra nós com as mais poderosas e implacáveis forças de destruição; e, por fim, a relação com os outros homens. A infelicidade que esta última origina é talvez a mais dolorosa de todas; temos tendência para a considerar mais ou menos um suplemento gratuito, embora não possa ser uma fatalidade menos inevitável do que o sofrimento que provém das outras fontes.

Não é de admirar que, debaixo da pressão destas possibilidades de sofrimento, a humanidade esteja habituada a reduzir as suas exigências de felicidade, nem que o próprio princípio do prazer se modifique para um princípio da realidade mais acomodado sob a influência do ambiente externo. Se um homem se julga feliz, fugiu simplesmente à infelicidade ou a dificuldades. Em geral, a tarefa de evitar o sofrimento atira para segundo plano a de obter a felicidade. A reflexão mostra que há várias formas de tentar cumprir esta tarefa; e todas estas formas foram recomendadas por várias escolas de sabedoria na arte da vida e posta em prática pelos homens. A satisfação desenfreada de todos os desejos impõe-se em primeiro plano como o mais atrativo princípio orientador da vida, mas implica preferir o gozo à prudência e penaliza-se depois de uma curta satisfação. Os outros métodos, nos quais o evitar do sofrimento é o principal motivo, distinguem-se segundo a fonte de sofrimento contra a qual estão dirigidos. Algumas destas medidas são extremas e outras moderadas, algumas são unilaterais e outras tratam vários aspectos do assunto ao mesmo tempo. A solidão voluntária, o isolamento dos outros, é a salvaguarda mais rápida contra a infelicidade que possa surgir das relações humanas. Sabemos o que isto significa: a felicidade encontrada neste caminho é a da paz. Podemos defender-nos contra o temido mundo externo, voltando-nos simplesmente para uma outra direcção, se a dificuldade tiver que ser resolvida sem ajuda. Há na realidade um outro caminho melhor: o de cooperar com o resto da comunidade humana e aceitar o ataque à natureza, forçando-a a obedecer à vontade humana. Trabalha-se então com todos para o bem de todos.

Sigmund Freud, in ‘A Civilização e os Seus Descontentamentos’

Via Citador

Imagem de capa: Reprodução

A mentirosa liberdade – Lya Luft

A mentirosa liberdade – Lya Luft

Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.

Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?

Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda agüenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?

Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise. Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.

Lya Luft

Imagem de capa: Reprodução

Amar é desapegar na medida certa

Amar é desapegar na medida certa

Por Marcela Alice Bianco e Juliana Santos

Dependência emocional, ciúmes, possessividade, controle e desconfiança! Quantos dos nossos relacionamentos são marcados por essas características tão destrutivas? Qual seria a origem de tantos males? Por que muitas vezes não conseguimos viver formas mais livres e genuínas de amor? Por que nos custa tanto o desapego, tão necessário às relações saudáveis?

O Psiquiatra suíço, C. G. Jung sabiamente afirmou que “as grandes decisões da vida humana estão, em regra, muito mais sujeitas aos instintos e a outros misteriosos fatores inconscientes do que a vontade consciente, ao bom-senso, por mais bem-intencionados que sejam”. Assim, para entendermos esta questão precisaremos ir a fundo nos aspectos que permeiam o relacionamento humano.

Há muito tempo as pesquisas em neurociências empenham-se em desvelar os meandros das relações humanas. Hoje, já é sabido que nosso cérebro executa sua plasticidade a partir das interações que nos proporcionaram, e das que fomos capazes de fazer ao longo de nossa vida. Ou seja, nosso futuro não é um fato isolado, mas uma consequência daquilo que oportunamente nos foi possível aprender e apreender desde que fomos concebidos, somados às nossas capacidades individuais. Assim, quando se trata de entender as relações, nos é necessário considerar o modo como estas são construídas desde a nossa infância.

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Somos essencialmente sociais e subjetivos! Quando bebês, carregamos dentro de nós um instinto de ligação e formamos com nossos cuidadores uma importante relação de apego. Ao mesmo tempo, eles também se ligam a nós. Este elo que se forma, fundamental ao cuidado e à proteção da vida, poderá oferecer ao indivíduo um senso de segurança, que lhe garantirá a sobrevivência psíquica, ainda que em ambientes ameaçadores.

As relações de apego são essenciais para a ativação e estimulação das nossas capacidades e habilidades, potencializando o crescimento humano. As primeiras interações são primordiais para que a criança crie registros de memória de segurança ou insegurança diante do mundo que a cerca. Esses vínculos poderão marcar o tom emocional que daremos aos fatos por toda a nossa trajetória de vida, influenciando nosso comportamento, nossa percepção da realidade e expectativa do futuro, em geral de maneira inconsciente.

Quando o cuidado ocorre na medida certa, crescemos com uma base segura e confiante! Serão sólidas nossa autoestima, independência e autonomia. Consequentemente, nos relacionaremos com os outros de maneira mais leve, harmoniosa e saudável.

Mas, esse carinho e proteção na dose ideal, não é tão fácil assim de acontecer. No nosso nascimento estamos condicionados à biografia dos nossos pais, à nossa genealogia e ao nosso self social e cultural. E no caminho da evolução humana temos encontrado inúmeros desafios para a realização plena dessa medida certa do cuidado.

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Dominados por uma cultura predominantemente patriarcal, desde cedo impomos regras para a expressão do amor. Tendemos a ditar o que é certo e errado, a traçar curvas de normalidade para os comportamentos, enquadrar e organizar as experiências humanas em padrões morais, estéticos, herméticos e racionalizados. O conhecimento e o relacionamento por meio da experiência dos sentidos e das sensações, mais ligados à experiência do matriarcal, ficam negligenciados e, por consequência, perdemos o contato com nossa essência e com os caminhos do amor verdadeiro.

Nesta continuidade histórica, podemos nascer em famílias despreparadas para oferecer essa relação de apego seguro, porque elas mesmas não vivenciaram tais experiências na construção de suas personalidades, levando à diante um ciclo contínuo de transmissão intergeracional de insegurança.

Muitas crianças sobrevivem hoje em lares devastados pela insuficiência de amor, nos quais prevalecem as relações de poder, de insegurança ou de indiferença. São envolvidas nas agressões, nos limites rígidos, nos descontroles, vícios, ciúmes, possessões, processos depressivos, choros contidos, isolamentos, distanciamentos afetivos e em tantos outros processos desumanizantes. Flagelos à alma ainda indefesa e em desenvolvimento, que fazem com que o amor e a capacidade de amar, cresçam minguados, confusos e solitários, precisando sempre testar a realidade do momento para determinar o próximo passo.

Crianças que vivem em ambientes assim, usurpam inadequadamente o uso de sua função intuitiva afim de proteger-se antecipadamente das consequências desestruturantes dos momentos de insegurança, negligência e terror, pelos quais passam. Elas aprendem que para sobreviver, é preciso se defender dos monstros que moram dentro e fora delas. Estas feridas emocionais podem perdurar pela vida inteira (veja também 5 feridas emocionais da infância que podem persistir na idade adulta).

Repetidas experiências de desamparo, provenientes da pessoa por quem a criança investiu energia, afeição e confiança, resultarão na incapacidade de ligar-se satisfatoriamente a outras figuras de apego ao longo da vida.

Segundo a psicóloga clínica Ana Maria G. Rios, “falhas nos relacionamentos interpessoais levam a dificuldades de criação de um sentimento de unidade e continuidade de si mesma na criança, sentimento este que constrói sua narrativa de vida através do passado, em direção ao futuro“.

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Fixada num comportamento egocêntrico, quando adulto, possivelmente verá diante de si dois caminhos: ou não se apegar mais a ninguém ou investir em relacionamentos afetivos marcados pela dependência, pelo ciúmes, possessividade, carência e controle. O Outro deverá viver, sintonicamente, atendendo seus desejos ou necessidades, caso contrário, estes adultos se desestruturam, vivenciando uma verdadeira experiência de luto, ou confusos, agem agressivamente na tentativa de reverter a situação e manter a pessoa amada por perto.

As feridas da infância são assim projetadas nas relações atuais, tanto porque não há outro repertório a ser usado pela pessoa, quanto porque a nova relação também constitui terreno fértil para a reconstrução do afeto e de novas conexões e caminhos neuronais, agora mais saudáveis e equilibrados. Cada novo amor é uma nova chance de aprender a amar e ser amado!

Assim, aqueles que se veem envolvidos em relações perturbadoras, dependentes e desestruturantes precisam amadurecer o afeto dentro de si! Rever, reajustar e ressignificar as primeiras relações de apego. Compreender quais as vias seguras e saudáveis para a vivência e expressão do amor. Porque se sufocarmos ou destruirmos o Outro por causa do nosso medo da solidão e do desamparo, também sufocaremos e destruiremos nossos próprios potenciais de humanização, autonomia, independência e segurança sobre as próprias bases, sobre os próprios pés.

Precisamos de apego para aprender o desapego! Para amar é preciso “desapegar na medida certa”!  Nem demais e nem de menos! Se amar é “Ser com o Outro”, há de se ter espaço para a expressão das individualidades e isto implica liberdade, segurança e confiança. Seja e deixe o Outro Ser! Só assim permitiremos que tanto nós quanto o Outro possa se sentir feliz, seguro e realizado. Para que o amor e o encontro sejam o que têm de ser:  um momento de plenitude e estímulo aos nossos potenciais de realização humana.

Para que o amor seja nosso antídoto e não nosso veneno. Para que ele permita a transformação e não a estagnação. Para que ele seja a luz que ilumina o nosso caminho e não as trevas que nos lançam na escuridão.

Para que através do amor possamos reconhecer o que há de melhor no Outro e em nós e assim, nos libertemos dos grilhões patriarcais da nossa história pessoal e de toda humanidade.

Para que as novas relações não sejam uma reprise dos nossos primeiros vínculos desajustados e insuficientes, mas que sejam nossa verdadeira salvação!

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Biografia

Bowlby, J. (1990). Apego e perda. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1969).

COZOLINO, L. The Neuroscience of Psychoteray: Healing the social brain. WW Norton & Company, 2010.

JUNG, C. G. Obras Completas. 7ª Edição. Petrópolis: Vozes, [1971], 2011, v. XVI/1

RIOS, A.M.G. Resiliência na infância. In: ARAUJO, C.A.; MELLO, M.A.; RIOS, A.M.G. (Orgs) Resiliência: Teoria e Práticas de pesquisa em Psicologia.  São Paulo: Ithaka Books, 2011, p. 42-67.

WHITMONT, E. C. A busca do símbolo: Conceitos básicos de Psicologia Analítica. São Paulo: Cultrix, 2008.

Autoras

contioutra.com - Amar é desapegar na medida certaMarcela Alice Bianco 

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae. CRP: 06/77338

 

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Juliana Pereira dos Santos – Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica Junguiana. Aprimoranda em Psicopatologia e Psicologia Simbólica pelo Instituto Sedes Sapientiae e Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching. CRP: 06/ 108582

O olhar adulto, Rubem Alves

O olhar adulto, Rubem Alves

Foi ele mesmo que me contou, como confissão de cegueira, dando depois permissão para que eu relatasse o milagre desde que não revelasse o santo. Médico, chegou a seu consultório com seus olhos perfeitos e a cabeça cheia de pensamentos. Eram pensamentos graves, cirurgias, hospitais, e os doentes o aguardavam na sala de espera.

Entrou o primeiro paciente que se submeteu mansamente à apalpação médica. Terminada a consulta, escrita a receita, no ato de despedida ele fez um elogio: “Doutor, que lindas são as orquídeas na sua sala de espera!”

Meu amigo sorriu embaraçado, com vergonha de dizer que não havia notado orquídea alguma na sala de espera e que, portanto, nada sabia da beleza que o doente notara. Teve vergonha de revelar sua cegueira. Entrou o segundo paciente. Ao final da consulta, sem conseguir conter o que sentia, observou: “São maravilhosas as orquídeas na sua sala de espera, doutor!” Novamente o sorriso amarelo, sem poder dizer o que não sabia sobre as orquídeas que não havia visto.

Veio o terceiro paciente e a coisa se repetiu do mesmo jeito. Aí o doutor deu uma desculpa, saiu da sala, e foi ver as orquídeas que o jardineiro colocara na sala de espera. Eram, de fato, lindas. Mas aí veio o agravante, pois o paciente, não satisfeito com a humilhação imposta ao doutor cego, observou que, na semana anterior, a árvore dentro da sala de consulta, plantada num vaso imenso, num canto, não era a mesma que ali estava, naquele dia. Mas o doutor cego de olhos perfeitos não notara a presença da árvore naquele dia nem a presença da árvore na semana anterior…

Ah! Você se espanta que tal cegueira possa existir! Mas eu lhe garanto que é assim que funcionam os olhos dos adultos em geral.

Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço – segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão os dois pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Blake dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho por que anda a mãe não é o mesmo caminho por que anda a criança.

Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorrinhos num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente no ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa, depois é uma vagem seca de flamboyant pedindo para ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter olhos que saibam brincar, ela tem muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança, se ela conseguisse ver e brincar com os brinquedos que moram no caminho, ela não precisaria fazer análise…

A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando para frente e para o chão. Olhando para o chão, ela procura pedras no meio do caminho, não por amor ao Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher, de nome Poça d’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça d’água suja do Escher os adultos não vêem, só as crianças e os artistas…

 

A mãe não nasceu assim. Pequenina, seus olhos eram iguais aos olhos do filho que ela arrasta agora. Eram olhos vagabundos, brincalhões, que olham as coisas para brincar com elas. As coisas vistas são gostosas, para ser brincadas. E é por isso que os nenezinhos têm este estranho costume de botar na boca tudo o que vêem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam é realmente comer o que veem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as
montanhas e beber os mares. Os olhos nascem brincalhões e vagabundos – veem pelo puro
prazer de ver, coisa que, vez por outra, aparece ainda nos adultos no prazer de ver figuras. Mas aí a mãe foi sendo educada, numa caminhada igual a essa, sua mãe também a arrastava pelo braço, e quando ela tropeçava numa pedra ou pisava numa poça d’água, porque seus olhos estavam vagabundeando por moscas azuis e cachorros sem-vergonha, sua mãe lhe dava um safanão e dizia: “Olha pra frente, menina!” “Olha pra frente!” Assim são os olhos adultos. Olhos não são brinquedos, são limpatrilhos.

Servem para abrir caminhos na direção do que se deve fazer. Assim eram os olhos daquela minha amiga que os usava para cortar cebola sem cortar o dedo, até que, um dia, o olho que mora dentro dos seus olhos se abriu e ela viu a beleza maravilhosa do vitral translúcido que mora nas rodelas de todas as cebolas, e ela tanto se espantou com o que via que pensou que estava ficando louca…Coitados dos adultos! Arrancaram os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituíram por olhos ferramentas de trabalho, limpa-trilhos. Assim, eram os olhos daquele meu amigo médico: não viam nem as orquídeas nem as árvores que estavam dentro do seu consultório. Seus olhos eram escravos do dever. E ele não percebia que as coisas ao seu redor eram brinquedos que pediam aos seus olhos: “Brinquem comigo! É tão divertido!Se vocês brincarem comigo, eu ficarei feliz, e vocês ficarão felizes…”

Rubem Alves
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Imagem de capa: Volodymyr Tverdokhlib/shutterstock

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