Na última semana nós publicamos o texto Uma reflexão psicológica da animação Frozen, da psicóloga Viviane Lajter Segal. A aceitação dos leitores foi incrível pois, mesmo que no fundo, todo mundo saibe da importância e das lições que as historias infantis têm na vida das crianças. É lá que, junto com seus personagens prediletos, elas enfrentam medos, superam obstáculos, sofrem perdas e lutam por seus objetivos.
Na lista abaixo, elaborada pela Juliana, mãe do Olavinho e administradora do Blog Just real Moms, você encontrará 10 consequências dos contos infantis na formação da personalidade das crianças.
Vale conferir.
1- Ajudam a criança a lidar com as dificuldades e seus sentimentos!
Os contos ajudam a criança a lidar com as dificuldades do seu dia a dia e a elaborar melhor os sentimentos negativos tão comuns na primeira infância, como medo, frustração, abandono, rejeição, rivalidade entre irmãos, inveja, relação com os pais, inferioridade, vingança etc. Por isso, elas pedem para ler diversas vezes a mesma história.
2- Aprendem a diferença entre o bom e o mau!
Os contos mostram que existem os bons e os maus, deixando transparecer valores sempre atuais. A bruxa, o lobo, o pirata e outros personagens maus, representam sentimentos ruins, são arquétipos desses sentimentos, portanto querer que estes personagens morram não é uma atitude violenta, mas sim a necessidade de acabar com estes sentimentos ruins. É preciso lembrar que nas histórias a morte não é violência, é o símbolo da transformação que vai ajudar a criança a elaborar os sentimentos ou sensações que a incomodam.
Não devemos nos preocupar quando a criança festeja a morte desses personagens, eles representam seus medos e esta é a forma que ela tem de vencê-los ou elaborar estes sentimentos que a angustiam.
Fotografia: Elena Shumilova
3- Aprendem a lidar com as frustrações!
Reconhecer a dor e aceitá-la é um meio de superá-la e assim ser feliz. As crianças aceitam com mais naturalidade as desilusões que encontrarão no dia a dia, pois sabe que, à semelhança do que acontece nos contos de fadas, os esforços desprendidos hão de ter uma grandiosa recompensa.
4- Por meio das histórias podemos trabalhar sentimentos e sensações muito presentes nas crianças!
Ingenuidade: Branca de Neve e Pinóquio (acreditam no personagem do mal)
Feiura: Patinho Feio (um irmão mais bonito do que o outro)
Medo: Chapeuzinho Vermelho, Aladim (medo de estranhos)
Inexperiência: Os Três Porquinhos (o irmão mais velho sabe tudo)
Insegurança: Alice no Pais das Maravilhas, Mogli, Peter Pan (sentir-se inseguro diante de situações novas)
Rejeição: Cinderela
Culpa: Rei Leão, Pinóquio
Dor: A Pequena Sereia
Abandono: João e Maria (sentimento de abandono pela ausência dos pais)
5- Podemos trabalhar o conceito de “finitude”!
Tudo na vida tem um começo, meio e fim. As crianças precisam saber que as pessoas não são como os personagens dos desenhos ou jogos eletrônicos, que nunca morrem. Diante de tanta tecnologia, nunca os contos foram tão importantes e necessários na vida da criança como hoje.
6- Aprendem o “limite”!
Por meio dos contos de fadas a criança consegue discernir o certo do errado, o que pode e o que não pode fazer, enfim, reconhece o sim e o não.
7- Aprendem a ética e valores importantes da vida humana!
Os contos de fada sobreviveram ao tempo justamente porque contêm ensinamentos que falam à alma da criança, falam de valores imutáveis, caso contrário já teriam desaparecido, apagados pelo tempo e caídos no esquecimento.
Passar valores à criança é algo complexo. As histórias são, por isso, um meio facilitador de resolver algumas das questões que esta tarefa nos coloca. Se, por um lado, divertem as crianças, estimulam a sua curiosidade e promovem competências cognitivas e de oralidade, por outro lado são também a forma de concretizarmos alguns dos valores que consideramos aceitáveis e oportunos transmitir à criança.
Por isso, os pais devem usar e abusar dos contos. Só assim poderão sonhar com um final feliz para nossa sociedade tão carente dos verdadeiros valores.
8- Tornam-se otimistas e com vontade de vencer obstáculos!
Os contos de fadas exercem uma influência muito benéfica na formação da personalidade porque, pela assimilação dos conteúdos da estória, as crianças aprendem que é possível vencer obstáculos e saírem vitoriosas (o herói sempre vence no final). Isso ocorre porque, durante o desenrolar da trama, a criança se identifica com as personagens e “vive” o drama que ali é apresentado de uma forma geralmente simples, porém impactante.
Essas estórias de contos de fadas normalmente começam com “Era uma vez…” e terminam com “viveram felizes para sempre”. Essa ideia cria a esperança de que as coisas na vida podem dar certo e elas podem ter sucesso em suas dificuldades.
9- Cada criança interpreta a estória da sua forma, entenda qual o significado do conto para seu filho!
Os contos de fadas possuem significados e significantes diferentes em determinadas faixas etárias, como por exemplo, ter um significado para uma criança de cinco anos e outro para uma de treze na mesma estória, já que as situações, os sentimentos, os desejos e anseios são outros.
10- Serão adultos mais felizes!
Os contos de fadas são para serem escutados, apreciados e internalizados, cumprindo desta forma com seu papel que é a construção da personalidade infantil, criando bases sólidas que favoreçam o desenvolvimento intelectual, moral e psíquico. Dessa forma, ao se tornarem adultos, saberão resolver dificuldades, terão uma estrutura mais forte para aguentar seus problemas e saberão que mesmo depois de tantas amarguras terão uma recompensa que será a resolução do que os afligia. Pode não ser a resolução esperada, mas uma coisa é certa: sempre haverá a possibilidade para uma nova descoberta e um recomeço, pois a beleza da vida é justamente lutar por seus ideais e conquistá-los. E isso, só os contos de fadas são capazes de proporcionar ainda na tenra idade!
A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmissível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta atual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
— “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
— “Mar”…
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elaborou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
— “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
— “Vamos filha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrespou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
— “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temeroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
— “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”…
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
— “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.
A leitura é uma ótima maneira de desenvolver o seu cérebro. Além de aumentar o seu vocabulário e capacidade de interpretação, também ajuda no armazenamento de informações importantes. Ao ler os clássicos da literatura mundial, você aumenta suas habilidades de escrita e compreensão de textos.
Se você deseja melhorar a sua mente por meio da leitura, veja como os clássicos da literatura podem ajudar:
1. Aumento de vocabulário
Ao ler os clássicos, você vai encontrar muitas palavras que não fazem parte do seu cotidiano. Aprender novas palavras ajuda a enriquecer o seu vocabulário. Ter um amplo vocabulário é como ter um grande arsenal de palavras. Isso permite que você se expresse de maneira mais eloquente. Desenvolvendo essa habilidade você será capaz de se comunicar com precisão e criar uma percepção de mundo inteligente.
2. Melhorar a escrita
Ler os clássicos da literatura é a maneira mais fácil de melhorar a sua escrita. Durante a leitura você acaba absorvendo a gramática e o estilo do autor. Isso contribui para o desenvolvimento da sua escrita melhorando a concordância e gramática.
3. Desenvolver a fala
Antes de se tornar um bom orador, você precisa ser um bom escritor. Estudar as obras que foram desenvolvidas por gênios vai ensinar você a se expressar com clareza e estilo. Ao melhorar seu domínio do idioma, você vai se tornar mais persuasivo, e poderá desfrutar de uma vantagem sobre as pessoas menos articuladas.
4. Novas ideias
Observar as mesmas ideias que as outras pessoas gera um pensamento genérico e repetitivo. Para ser original você precisa desenvolver novas ideias, e isso você pode retirar dos clássicos da literatura. Ao ler os livros você desenvolve a sua inspiração e tem a oportunidade de melhorar a sua criatividade.
5. Perspectiva histórica
Uma pessoa que apenas lê jornais e revistas fica dependente dos preconceitos e modas do seu tempo. Por isso, a leitura de livros antigos é importante para aumentar a sua perspectiva história e desenvolver o senso crítico. Os clássicos são importantes para estimular a sua mente a partir de pensamentos e experiências de outras pessoas.
6. Entretenimento educativo
A leitura de grandes livros é um passatempo divertido. Você pode encontrar muitas curiosidades sobre a história e também o vocabulário da época em que a obra foi escrita. Outra opção é procurar as versões mais modernas dos clássicos, isso também ajuda a aumentar o entretenimento durante a leitura.
7. Sofisticação
Se você gosta de se destacar nas conversas entre amigos, ter conhecimento dos clássicos da literatura é essencial. Você aprofundará suas ideias e desenvolve o senso crítico. Além disso, quando você tem propriedade para falar sobre certo assunto você pode até ganhar uma discussão.
8. Leitura mais eficiente
Ler diversos livros aumenta a sua rapidez na leitura. Por isso, a ideia é procurar livros de diferentes épocas e temas para desenvolver uma leitura mais eficiente.
9. Desenvolve o senso crítico
Se você é um escritor ou blogueiro ignorar os clássicos é um erro. Independentemente do tema que você aborda em seus textos, você precisa ser persuasivo e desenvolver seu senso crítico. A melhor maneira de aprender é com os mestres. Portanto, não perca tempo! Passe algum tempo com os clássicos e tire vantagem sobre isso.
10. Aumenta o repertório
Ler é um ato valioso para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional. A literatura clássica é forma de ter acesso às informações e, com elas, buscar melhorias para o mundo. Repertório cultural é importante para escrever bons textos e ser crítico.
Você por acaso está entre aqueles que tem medo da palavra “feminismo”? Sente um frio no estômago, falta de ar, taquicardia…
Que acha que feminista é o inverso de feminina, que se trata de “guerra dos sexos”, na qual a mulher busca a supremacia? Então, você não leu o “Feminismo para leigos”, publicado na Carta Capital, por Clara Averbuck.
Trata-se de um texto claro, lúcido, explicativo.
Confira.
Feminismo para leigos
Por Clara Averbuck
É comum escutar: “Não sou feminista, sou feminina”; “Não sou feminista e nem machista”. Mas será que você sabe o que é feminismo? Descubra.
É assustadora a quantidade de gente que não sabe o que é feminismo. Ninguém tem a obrigação de saber, é claro, mas a partir do momento em que você decide opinar sobre um assunto, é de bom tom saber do que se trata. As pessoas são “contra” o feminismo sem sequer saber o que significa.
É comum escutar:
“Não sou feminista, sou feminina”,
“Não sou feminista e nem machista”,
“Não sou feminista e nem machista, sou humanista”,
“Não sou feminista, acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos”.
Bom, vamos lá.
Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualdade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais.
Então se você diz “não sou feminista, acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos” você está dizendo, exatamente: “não sou feminista, mas sou feminista”. E se você se diz humanista, bom, acredito que saiba então que o humanismo é uma filosofia moral baseada na razão humana e na ética, que coloca o ser humano acima do sobrenatural, de deuses, de dogmas religiosos, da pseudociência e das superstições e que não tem nada a ver com o assunto.
Existe essa grande falha lógica que é o sujeito achar que você tem que ser contra uma coisa pra ser a favor de outra; neste caso, “contra” os homens para ser “a favor” das mulheres. O feminismo não luta contra os homens, e sim contra o supracitado sistema de dominação, que, veja só, privilegia os homens e foi criado por… homens. Fica clara a diferença entre lutar contra um sistema e lutar contra todo um gênero?
Feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou dar de quatro. Ninguém vai confiscar sua carteirinha de feminista se você usar rímel. Mas te abre para a possibilidade de só usar maquiagem quando quiser, não porque tem que obrigatoriamente estar impecável e linda todos os dias a enfeitar o mundo.
Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. É claro que existem feministas misândricas, mas você não é obrigada a ser uma delas.
Feminismo não tem nada a ver com esconder o corpo; muito pelo contrário, exigimos o direito de andar com a roupa que bem entendermos sem assédio ou constrangimentos. Taí a Marcha das Vadias que não me deixa mentir.
Feminismo não tem nada a ver com não ter filhos, e sim com a escolha de como e quando esses filhos virão, e se virão.
Feminismo não tem nada a ver com não ser feminina. E nem com ser.
Feminismo tem a ver com liberdade, com eu, você, elas e eles podermos todos viver e ser sem ninguém dando pitaco em como devemos nos portar, como devemos nos vestir, o que devemos dizer, do que devemos fazer com nossos corpos.
Outra coisa importante: nem todas as feministas estão de acordo a respeito de todos os tópicos. Cada um constrói seu feminismo. Como disse a Tavi Gevinson, a jovem editora da RookieMag, em uma palestra do TEDxTeen, o feminismo não é um livro de regras, mas uma discussão, uma conversa, um processo. E cada um tem o seu. Feminismo, caros, não é uma seita que reprime e excomunga quem quebra seus preceitos.
Vale sempre lembrar que o mundo machista também oprime os homens com esse negócio de que eles têm que ser os provedores, que eles têm que ser durões, que não podem chorar, que não podem demonstrar nenhuma característica atribuída ao feminino porque isso é considerado uma fraqueza – já que as mulheres são consideradas mais fracas, logo, inferiores. Gay é “xingamento” porque ser gay é ser um homem mulherzinha. Gente, não dá mais isso, 2013, sabe? Chega de reproduzir conceitos sem sequer parar para pensar neles.
Há um teste simples pra saber se você é uma pessoa que se identifica com o feminismo.
1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?<
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?<
6. você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?
Respondeu sim pra tudo?
Está confortável na cadeira?
Você é pró-feminismo, ou até… Feminista! Uau!
Você não precisa ser ativista para ser feminista. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se você acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres, você é feminista.
As pessoas confundem feminismo com um monte de coisas. As pessoas têm medo da palavra FEMINISMO.
As características pessoais de cada pessoa são fruto de uma conglomerado fascinante de atitudes, crenças, desejos e aspirações. Compreender por que alguém se apaixonou por um homem ou uma mulher- e não por outros- é um desafio que tem atraído a atenção de psicólogos ao longo dos tempos.
Vamos dar uma olhada mais de perto …
O CÉREBRO NO AMOR
Ao nos indagarmos sobre os processos que ocorrem em nosso cérebro quando estamos apaixonados, a magia pode perder um pouco de seu encanto e a ciência trará informações sobre os neurotransmissores que são capazes de causar a sensação conhecido como “estar nas nuvens”. As endorfinas, encefalinas e feniletilamina são responsáveis por nossa euforia e felicidade, elas nos dão uma injeção de emoções positivas.
Mas o que ativa esses processos? O que faz com que o nosso cérebro obtenha essas respostas químicas frente a algumas pessoas e não a outras?
Teoria 1: similaridades familiares
Às vezes, nós nos sentimentos atraídos por pessoas que nos fazem sentir bem porque elas nos lembram, em algum aspecto, os nossos pais. Algo nelas nos dá segurança e confiança. Sentimos atração por elas porque, de alguma forma, elas nos são familiares e estar com eles nos envolve uma agradável sensação de afinidade e/ou familiaridade.
Nota CONTI outra: Outras vezes essa atração, que tende a algum tipo de repetição, também pode gerar escolhas de pares que trazem consigo características familiares, porém não positivas como da mulher, filha de pai alcoolista, que casa-se com marido alcoolista (e vice-e-versa).
Teoria 2: correspondência
Outra teoria é a da “correspondência”. De acordo com cientistas o que teria um peso primordial nesses casos seriam as afinidades, as experiências semelhantes. A atração seria fruto da identificação e compartilhamento de gostos e valores semelhantes.
Teoria 3: admiração
Às vezes, a admiração por alguém se traduz em amor. É aquela pessoa que serve como um espelho, onde identificamos fortes aspirações ou dimensões que sempre quisemos para nós mesmos e que de alguma forma ainda não alcançamos. Seria aqui, por exemplo, onde as atrações com pessoas que são muito diferentes de nós aparecem. Podemos nos sentir atraídos por pessoas confiantes, extrovertidas e empreendedoras, enquanto nós somos mais inseguros e até um pouco tímidos. Os opostos se atraem porque, no fundo, complementar é uma tentativa de suprir as necessidades de cada um.
Teoria 4: questão de química, questão de glândulas
Muitos estudos mais atuais falam na importância dos chamados feromônios . Eles são secretados por certas glândulas presentes nos lábios, axilas, pescoço, virilha. São substâncias aparentemente imperceptíveis, mas que são percebidas por nossos corpos e permitem o reconhecimento mútuo e sexual dos indivíduos. Os feromônios são algo único em cada pessoa e que, de alguma forma, também nos determinada.
Estas são as teorias mais comuns quando se fala em paixão. Se, após a atração e o início da relação, os relacionamentos serão bem sucedidos só o tempo dirá, pois, é só quando o estágio da cegueira da paixão perde sua intensidade, suas nuvens e flashes … é que voltamos a ver a realidade.
Seja também um propagador de gentilezas, de amor, de carinho, de ajuda… faça de coração, sem esperar nada em troca. Porque um dia, sem que você espere, a vida se encarrega de te devolver todo bem que fizeste ao outro.
No youtube existe um canal chamado Minutos Psíquicos onde podemos encontrar diversos vídeos ilustrados de poucos minutos falando sobre temáticas da área da Psicologia.
Além de indicar o canal, selecionei para você um vídeo em especial que, em 5 minutos, faz a diferenciação entre pessoas de comportamento agressivo, passivo e assertivo.
Entenda a diferença e aproveite as sugestões para a melhora da comunicação.
As ilustrações são de Pedro Francisco, vídeo/edição de Pedro Costa e voz e texto de André Rabelo.
Leymah Gbowee, a ativista liberiana que ajudou a dar fim à Segunda Guerra Civil da Libéria, discute a percepção do “eu fiz sozinho”, que torna a contemporaneidade um período de individualismo ilusório. Para Gbowee, Prêmio Nobel da Paz, a ideia de ter alcançado algo sozinho representa uma falta de pensamento crítico sobre as situações e sobre todas as pessoas que ajudaram, mesmo que indiretamente, o indivíduo a conquistar suas metas. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2013.
Milan Kundera é um escritor tcheco de 85 anos, naturalizado francês e que ficou conhecido mundialmente após a publicação do livro “A insustentável leveza do ser”.
Vladimir Kush é um artista russo que, através de suas imagens, retrata mitos, metáforas e poesias.
Da soma desses dois artistas surpreendentes, segue a homenagem abaixo.
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“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo ‘esboço’ não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Vladimir Kush
“Não estava certo de ter agido bem, mas estava certo de ter agido como queria.”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Vladimir Kush
“O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada? Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de o amar.”
Milan Kundera, in “A Imortalidade”
Vladimir Kush
“Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.”
Milan Kundera, in “A Imortalidade”
Daisy Games, Vladimir Kush
“As perguntas verdadeiramente importantes são as que uma criança pode formular – e apenas essas. Só as perguntas mais ingénuas são realmente perguntas importantes. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é um obstáculo para lá do qual não se pode passar. Ou, por outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência.”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Fauna in La Mancha
“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Metamorphosis
“Mas o amor nascente aguçou nela a percepção da beleza, e ela jamais esquecerá essa música. Toda vez que a ouvir, tudo o que acontecer em torno dela, nesse momento, ficará impregnado com seu brilho.”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Ocean Sprouts
“Primeiro título pensado para A Insustentável Leveza do Ser: «O Planeta da Inexperiência». A inexperiência como uma qualidade da condição humana. Nascemos uma vez por todas, nunca poderemos recomeçar uma outra vida com as experiências da vida anterior. Saímos da infância sem sabermos o que é a juventude, casamo-nos sem sabermos o que é ser casado, e mesmo quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes da sua velhice. Neste sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.”
Milan Kundera, in “A Arte do Romance”
Vladimir Kush
“Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento.”
Milan Kundera, in A Insustentável leveza do ser
Vladimir Kush
“No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.”
A pressa cotidiana nos sufoca os sentidos. Já não vemos direito. A beleza do mundo nos passa sem que a percebamos, as cores já não fazem mais efeito, as delicadezas nos fogem por completo à observância. Mal sentimos o sabor das refeições. Comemos rapidamente, olhando a TV, chegando o celular, observando a contagem do tempo para voltar ao trabalho, já não há tempo para saborearmos a vida e ela segue, como se insípida. Nossos ouvidos andam destreinados a ouvir o que não é o necessário, o que não é o essencial. Se o seu filho te diz: “mãe, olha que lindo aquele azul em torno da nuvem!”, adivinha? Você nem o escuta. Afinal, nos ouvidos precisam estar livres para ouvir as coisas sérias do mundo. Os nossos dedos já não buscam a espessura do que tocam, a leveza do que afagam… Nosso olfato anda descordado para as essências mais sublimes. Então, exercitemos a calma… Serenemos o espírito e façamos o seguinte exercício.
Caminhe lentamente
Vale caminhar, ao menos uma vez por dia, sem a pressa do agora. Lentamente. Ver as frestas dos muros. Talvez exista vida nas frestas dos muros. Que insetos vivem ali? Como vivem. O que será que eles fazem enquanto você passa por eles, sem dar fé de suas existências, todos os dias? Os espaçamentos da calçada… A senhora que caminha devagar do outro lado da rua. A criança que chora e grita para que a sua babá a leve no colo: – Vai andando mesmo, já é mocinha! O branco encardido do meio-fio. Tudo isso integra a sua vida e você nem se apercebe disso.
Responda lentamente
Seguramente uma resposta imediata pode dar a você ares de quem detém as soluções do mundo em prontidão, no cérebro. Contudo, essa resposta não trará ao interlocutor a sensação que, certamente, você deseja causar. Quando você responde muito rapidamente, você supervalora a resposta em detrimento da pergunta. Se você para, medita, faz uma pausa antes de responder, você valoriza a conversa, dá ao outro a sensação de que o que perguntou é algo importante que merece ponderação. E isso fortalece os laços entre vocês. Mas, o mais importante, é que você poderá, mesmo, pensar melhor no que responder. Muitas respostas prontas transformam-se em pesadelos eternos… Responda lentamente pesando a intensidade e aferindo a dimensão de cada palavra.
Cultive o silêncio a dois
Quando você consegue estar ao lado de alguém em silêncio, mas percebe que o silêncio não é lacuna. Que o silêncio apenas adorna o momento, enfeita a circunstância, alicerça as palavras que ainda virão. Você percebe que o silêncio pode dizer muito. Pode ser elo. Pode ser o corolário de um sentimento que, de tão grande e intenso, não necessita, no momento, da concreção de qualquer palavra. Então você olha o silêncio com a calma de quem está de flerte com a vida, num namoro com o que ela tem de eterno e encantado. Você não tem pressa para dizer nada. Tudo está dito e é infinito.
Levantou os olhos como se alcançasse o céu. Sua felicidade atingia o mar, o movimento das ondas, o brilho do dia, a cor das plantas, toda uma beleza natural nela se fazia em metamorfose. Ia casar. Ia mudar de vida e ter a sua própria família. Ia ser outra neste espaço sem lugar.
Nas vésperas do seu casamento, Mbale não se bastando do presente e dos conselhos dados pela mãe pôs-se a fazer um pedido, queria um presente não surpresa como o que recebera, mas um proposto por ela. O que Mbale pediu foi de assustar mesmo muito singular, de arrepeiar as veias da mente.
Ela pediu uma cabra, sim… uma cabrita. Mas o que uma cabra podia mudar na sua vida? Que de diferente podia ter isso?
Para a mãe da Mbale isso era radicalmente diferente, era o mesmo que lhe pedir ouro em estado animal ou mágico se prefirirem. Esse pedido foi extremamente ousado para o entender dela.
–”O quê?! … Tu sabes que a Mamedjane é como se fosse minha filha. Não a quero perder principalmente agora que te vais embora.” –Disse a mãe da Mbale.
Mamedjane era a cabra. Ela é que fazia todos os trabalhos domésticos e era a melhor companheira da mãe da Mbale. Linda, de cores nunca antes vistas, uma verdadeira harmonia celestial. Para além da beleza extra gozava igualmente de uma outra; a intra essa que descrevia o Ser de Mamedjane por completo, conquistava o mundo dentro de um um outro mundo, qualquer um que se fizesse perto dela; arrancava-se a razão, muito apesar de que isso nunca se tenha vindo a suceder (estar perto dela).
–”Mamedjane não pode ser vista por ninguém…” –Comentou a mãe, por saber que Mamedjane era uma “cabrita mágica”, e seria um verdadeiro escândalo se a vissem.
Todos que visitavam a casa da Mbale nunca a viram. Mamedjane vivia no mato perto da casa. Na verdade, não vivia morava no mato. Mamedjane vivia mesmo era no seu interior, rodeiada da humana-animal que era. Mamedjane se parecia com ela mesma.
Chegou o dia do casamento, e Mbale suplicou, pediu de joelhos a Mamedjane.
–”Por favor dê–me a …sabe que não cozinho bem ainda, e lá no meu lar há muita coisa por fazer…muitos trabalhos domésticos… por favor não quero passar vergonha, não quero perder o lar…” – Disse Mbale disse lacrimejando.
–”Está bem…dar–te–ei…mas com uma condição: Mamedjane não ficará todo o dia com contigo, trabalhará até ao meio–dia, e não deixes que alguém a veja por nada, ouviste bem?… Prometa–me…prometa–me isso”. –Disse a mãe de Mbale.
E Mbale prometeu cumprir com a promessa.
Assim já tinha quem lhe ajudasse nas tarefas domésticas do lar.
“Ghu…ghu…ghu”, chegava a cabra na casa da família Mhuhere.
–”Hiiiii… é uma cabra, olha a cabra com a lenha na cabeça” –Dizia uma criança chamando as outras. Enquanto isso Mamedjane descarregava a lenha atrás da casa.
Todas as crianças aproximaram–se ao redor de Mamedjane, obeservando–a admirando a situação.
Todos os dias Mbale acordava para ir à machamba e quando voltasse não mais se preocupava com nenhum trabalho caseiro. Pois Mamedjane já os tinha feito todos. Mamedjane cartava água, arrumava a casa, recolhia lenha, e pilava.
Mbale encontrava tudo feito. Todos os dias Mamedjane descarregava lenha atrás da casa. E sempre que fizesse isso era vista pelas crianças da família Mhuhere.
Passado algum tempo ela já era conhecida por todas crianças. A alegria e simpatia de Mamedjane eram radiantes, enfeitiçava qualquer um.
Mamedjane conversava muito, cantava, ria, contava estórias, enfim… era uma óptima amiga. As crianças gostavam tanto da sua canção que nalgumas vezes davam–lhe comida para que Mamedjane cantasse para elas.
–”Mamedjane, canta para nós! Leva esta manga e este pedaço de xima” –Pedia uma criança.
Mamedjane cantava e dançava mas não parava de fazer os seus trabalhos. Enquanto cantava, as crianças aplaudiam radiantes de alegria…
Dias alegres passavam Mamedjane e as crianças naquela casa. De nenhuma maneira o marido de Mbale deveria descobrir, senão se separava dela.
Dias passaram…passaram dias… e organizou–se uma festa na casa da família Mhuhere. E como era normal e habitual as mulheres da família tinham que trabalhar triplicamente nos dias de festa. E Mbale quis poupar esforços, usando a Mamedjane para trabalhar nos preparativos da festa (como sempre faziam os trabalhos quando todos estivessem na machamba).
Já se tinha feito todas as compras: bebidas, comidas, roupas… pois era uma festa de convívio. Havia muito milho por pilar… . Enquanto Mbale ia à machamba, Mamedjane fazia parte dela nos preparativos da festa. Mbale foi ao mato onde vivia Mamedjane avisar para que Mamedjane não fosse trabalhar no dia da festa.
–”Como já sabes, amanhã teremos festa, trouxe comida e bebida já que não deves vir porque ninguém te pode ver. Fiz a questão de seleccionar as melhores partes das comidas e bebidas para ti”. –Explicou Mbale.
Feito isto, Mamedjane deciciu fazer a festa na sua “casa”, começou então a comer e beber. Bebeu…bebeu…bebeu… embriagou tudo que podia. Mamedjane não resistiu a bebida que se encontrava nos potes, aliás a bebida é que não a resistiu e, a bebeu primeiro, num acto assim: metido na vontade quase confundido com tudo que é inabalável, humano e mundano e insano.
Uma das crianças da família Mhuhere, deixou escapar contando ao pai tudo que acontecia quando ele se encontrava ausente.
–”Pai quando não estás cá em casa vem uma cabra descarregar lenha atrás da casa, e ainda por cima ela faz todos trabalhos domésticos”. –Contou uma das crianças, de forma ingénua.
–”O quê?…Que estória é essa? Deves estar a delirar” –Respondeu o pai.
–”Ė verdade pai… ” Insistiu a criança e o pai continuava a não acreditar, pensado que aquilo era apenas uma imaginação infantil.
No dia seguinte, o Sol acordou mais belo que nunca antes tinha se visto. A anunciar a grande e esperada festa na família Mhuhere. Galinhas, vacas, bebidas…e muito mais eram transportados de um lado para o outro.
A correria era intensa, e até se podia ver poeira em todo o quintal. O barulho era mais do que sons gritantes. Muita dança e cantoria faziam–se sentir, a casa estava completamente em orgia.
No meio daqueles tumultos apareceu Mamedjane com lenha nas costas como era habitual, descarregou atrás da casa, só que desta vez todo o mundo estava a ver.
Mamedjane não perdeu tempo, foi levar o pilão e começou a pilar, a cantar … e a rir.
As crianças que lá estavam começaram a saltar de alegria ao ver a sua querida amiga. Puseram–se então a cantar a famosa canção de Mamedjane:
Oooh…Gumba nhfuuu… Vha ca Mhuhere gumba nhfuuu… Va hê mhacinwine gumba nhfuuu…
Tradução:
Oooh… (som do pilar)
A família Mhuhere… (som do pilar)
Foi à machamba… (som do pilar)
Aquilo foi um autêntico escândalo. Ver uma cabra a pilar e cantar! E ainda por cima embriagada… Não é normal. E é quase inacreditável.
–” Olhem…olhem…é uma ca…cab…cabra… a pilar…”
–”Que tipo de feitiçaria é essa?” Gritavam e comentavam apavoradas as pessoas.
O mais engraçado de tudo isto foi toda a gente ver que Mamedjane era conhecida por todas as crianças da família.
O marido da Mbale não levou tempo com a sua arma de caça Bhum…bhum…bhum…atirou no animal matando–o.
Isso era a última coisa que não devia ter acontecido à Mamedjane.
Mbale desesperou–se, pois, já tinha perdido a Mamedjane e não tinha conseguido cumprir com a promessa da sua mãe. Do lado de fora podia-se ouvir alto:
–”Leva o teu animal e SAIA JÁÁA daqui…SUA PREGUIÇOSA…afinal casei–me com quem, contigo ou com a tua cabra?”
Enquanto isso um outro lado se abria dentro dela para que se ouvissem outras vozes: a da dor gritada pelo olhar; e da lágrima num silêncio…
Quadro do pintor Norberto Geraldes
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Hirondina Joshua
Nasceu em Maputo, Moçambique, a 31 de Maio de 1987. Está integrada em várias antologias, revistas, jornais, sites, blogues nacionais e internacionais. Teve Menção Extraordinária no Premio Mundiale di Poesia Nósside 2014.
O filme O Xadrez das Cores, de Marco Schiavon, foi lançado em 2004 e traz uma história tensa, que se desenvolve como um jogo de xadrez. A temática, séria e profunda, fala prioritariamente de descriminação racial.
Entretanto, a história ultrapassa a questão racional e aborda questões como a pobreza, a solidão, a velhice, a perda, e, o que considero mais importante, a superação.
O elenco apresenta Anselmo Vasconcellos, Mirian Pyres, Zezeh Barbosa.
NOTA da CONTI outra: como todo texto de opinião amplamente compartilhado na internet, os posicionamentos de Ruth Manus não agradam a todos. Entretanto, trazem em si a reflexão de uma jovem que, a partir sua própria realidade, empresta a voz para toda uma geração de homens e mulheres que buscam seu lugar social em um mundo em constante transformação.
Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:
“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.
Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.
Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.
Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”
Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos.
Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?
Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.
“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”
Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.
O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?
E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.
No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.
Na imagem, Amelie Poulain, pensonagem emblemática por sua busca de um lugar no mundo e de sua própria função social no filme O fabuloso destino de Amelie Poulain
“É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.” Eliane Brum em A delicadeza dos dias
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NOTA da CONTI outra: É com a frase acima que a jornalista e escritora Eliane Brum define no artigo A delicadeza dos dias a fuga que, muitos de nós, ainda encontramos no mundo das artes. Busca-se algo com o quem se identificar, onde aliviar o mal estar constante que, dia a dia, mina o encanto pela vida e pela existência.
É assustador que, ao contrário de inspirar, a arte tenha se tornado rota de fuga existencial. No texto que transcrevo abaixo, a autora segue na construção do raciocínio sobre o mal estar geral da humanidade com outra crítica relevante, a necessidade da antiautoajuda e do enfrentamento do mal estar no sentido de impacto com a realidade.
As ilustrações que selecionamos para acompanhar o texto são de John Holcroft e falam por si.
Em defesa do mal-estar para nos salvar de uma vida morta e de um planeta hostil. Chega de viver no modo avião
Não tenho certeza se esse ano vai acabar. Tenho uma convicção crescente de que os anos não acabam mais. Não há mais aquela zona de transição e a troca de calendário, assim como de agendas, é só mais uma convenção que, se é que um dia teve sentido, reencena-se agora apenas como gesto esvaziado. Menos a celebração de uma vida que se repactua, individual e coletivamente, mais como farsa. E talvez, pelo menos no Brasil, poderíamos já afirmar que 2013 começou em junho e não em janeiro, junto com as manifestações, e continua até hoje. Mas esse é um tema para outra coluna, ainda por ser escrita. O que me interessa aqui é que nossos rituais de fim e começo giram cada vez mais em falso, e não apenas porque há muito foram apropriados pelo mercado. Há algo maior, menos fácil de perceber, mas nem por isso menos dolorosamente presente. Algo que pressentimos, mas temos dificuldade de nomear. Algo que nos assusta, ou pelo menos assusta a muitos. E, por nos assustar, em vez de nos despertar, anestesia. Talvez para uma época de anos que, de tão acelerados, não terminam mais, o mais indicado seja não resoluções de ano-novo nem manuais sobre ser feliz ou bem sucedido, mas antiautoajuda.
Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas, se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso tempo.
John Holcroft’s work
Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?
A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.
John Holcroft’s work
Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.
Sobre essa particularidade, a psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um livro muito interessante, chamado O Tempo e o Cão (Boitempo), em que reflete de forma original sobre o que as depressões expressam sobre o nosso mundo também como sintoma social. Logo no início, ela conta a experiência pessoal de atropelar um cachorro na estrada – e a experiência aqui não é uma escolha aleatória de palavra. Kehl viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor. É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada por essa época em que o tempo foi rebaixado a dinheiro – uma brutalidade que permitimos, reproduzimos e com a qual compactuamos sem perceber o quanto de morte há nessa conversão.
John Holcroft’s work
Sobre a aceleração, diz a psicanalista: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (…) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (…) Do mau encontro, que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu para-choque. (…) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”. O que acontece com as manchas escuras, com o sangue deixado para trás, dentro e fora de nós? Não são elas que nos assombram nas noites em que ofegamos antes de engolir um comprimido? Como viver humanamente num tempo não humano? E como aceitamos ser submetidos à bestialidade de uma vida não viva?
Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.
John Holcroft’s work
Em uma entrevista recente, aqui publicada como “Diálogos sobre o fim do mundo”, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro evoca o pensador alemão Günther Anders (1902-1992) para explicar essa alienação. Anders afirmava que a arma nuclear era uma prova de que algo tinha acontecido com a humanidade no momento em que se mostrou incapaz de imaginar os efeitos daquilo que se tornou capaz de fazer. Reproduzo aqui esse trecho da entrevista: “É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas, dá uma espécie de paralisia cognitiva”.
O fato de se alienar – ou, como fazem alguns, chamar aqueles que apontam para o óbvio de “ecochatos”, a piada ruim e agora também velha – nem impede a corrosão acelerada do planeta nem a corrosão acelerada da vida cotidiana e interna de cada um. O que quero dizer é que, como todos os nossos gritos existenciais, o fato de negá-los não impede que façam estragos dentro de nós. Acredito que o mal-estar atual – talvez um novo mal-estar da civilização – é hoje visceralmente ligado ao que acontece com o planeta. E que nenhuma investigação da alma humana desse momento histórico, em qualquer campo do conhecimento, possa prescindir de analisar o impacto da mudança climática em curso.
John Holcroft’s work
De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.
São Paulo é, no Brasil, a vitrine mais impressionante dessa monumental alienação. A maior cidade do país vem se tornando há anos, décadas, um cenário de distopia em que as pessoas evoluem lentamente entre carros e poluição, encurraladas e cada vez mais violentas nos mínimos atos do dia a dia. No último ano, a seca e a crise da água acentuaram e aceleraram a corrosão da vida, mas nem por isso a mudança climática e todas as questões socioambientais relacionadas a ela tiveram qualquer impacto ou a mínima relevância na eleição estadual e principalmente na eleição presidencial. Nada. A maioria, incluindo os governantes, sequer parece perceber que a catástrofe paulista, que atinge a capital e várias cidades do interior, é ligada também à devastação da Amazônia. O tal “mundo como o conhecemos” ruindo e os zumbis evolucionando por ruas incompatíveis com a vida sem qualquer espanto. Nem por isso, ouso acreditar, deixam sequer por um momento de ser roídos por dentro pela exterioridade de sua condição. A vida ainda resiste dentro de nós, mesmo na Zumbilândia. E é o mal-estar que acusa o que resta de humano em nossos corpos.
É de um cientista, Antonio Nobre, um texto fundamental. Ler “O futuro climático da Amazônia” não é uma opção. Faça um favor a si mesmo e reserve uma hora ou duas do seu dia, o tempo de um filme, entre na internet e leia as 40 páginas escritas numa linguagem acessível, que faz pontes com vários campos do conhecimento. Há trechos de grande beleza sobre a maior floresta tropical do planeta, território concreto e simbólico sobre o qual o senso comum, no Brasil alimentado pela propaganda da ditadura civil-militar, construiu uma ideia de exploração e de nacionalismos que só vigora até hoje por total desconhecimento. É também por ignorância nossa que o atual governo, reeleito para mais um mandato, comanda na Amazônia seu projeto megalômano de grandes hidrelétricas com escassa resistência. E causa, agora, neste momento, um desastre ambiental de proporções não mensuradas em vários rios amazônicos e o etnocídio dos povos indígenas da bacia do Xingu.
John Holcroft’s work
Antonio Nobre mostra como uma floresta com um papel – insubstituível – na regulação do clima do Brasil e do planeta teve, nos últimos 40 anos, 762.979 quilômetros quadrados desmatados: o equivalente a três estados de São Paulo ou duas Alemanhas. Ou o equivalente a mais de 12 mil campos de futebol desmatados por dia, mais de 500 por hora, quase nove por minuto. Somando-se a área de desmatamento corte raso com a área degradada, alcançamos a estimativa aterradora de que, até 2013, 47% da floresta amazônica pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. “A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente”, escreve Nobre. “Mas em menos de 50 anos está ameaçada pela ação de humanos.” A Amazônia dá forma ao momento da História em que a humanidade deixa de temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.
Como é possível que isso aconteça bem aqui, agora, e tão poucos se importem? Se não despertarmos do nosso torpor assustado, nossos filhos e netos poderão viver e morrer não com a Amazônia transformada em savana, mas sim em deserto, com gigantesco impacto sobre o clima do planeta e a vida de todas as espécies. Para se ter uma ideia da magnitude do que estamos fazendo, por ação ou por omissão, por alienação, anestesia ou automatismo, alguns dados. Uma árvore grande transpira mais de mil litros de água por dia. A cada 24 horas a floresta amazônica lança na atmosfera, pela transpiração, 20 bilhões de toneladas de água – ou 20 trilhões de litros de água. Para se ter uma ideia comparativa, o rio Amazonas lança menos que isso – cerca de 17 bilhões de toneladas de água por dia– no oceano Atlântico. Não é preciso ser um cientista para imaginar o que acontecerá com o planeta sem a floresta.
John Holcroft’s work
Nobre defende que já não basta zerar o desmatamento. Alcançamos um nível de destruição em que é preciso regenerar a Amazônia. A floresta não é o “pulmão do mundo”, ela é muito mais do que isso: é o seu coração. Não como uma frase ultrapassada e clichê, mas como um fato científico. É o mundo e não só o Brasil que precisa se engajar nessa luta: o cientista defende que, se não quisermos alcançar o ponto de não retorno, deveríamos empreender – já, agora – um esforço de guerra: começando por uma guerra contra a ignorância. Fazer uma campanha tão forte e eficaz como aquela contra o tabaco. Isso, claro, se quisermos continuar a viver.
Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. Como cidadão, a maioria no máximo recicla o seu lixo, achando que está fazendo um enorme esforço, mas não se informa nem participa dos debates e das decisões sobre as questões do clima, da Amazônia e do meio ambiente. Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.
É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: “É preciso viver com terror e alegria”.
Só o mal-estar pode nos salvar.
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.