Se o amor da minha vida não chegar

Se o amor da minha vida não chegar

Se o amor da minha vida não chegar, vou publicar todos os meus casos de amor. Em de-ta-lhes. E vão ser vários. Vou chorar pitangas com as amigas, fazer brigadeiro, depois vou à academia e pintar o cabelo de loiro. Vou odiar tanto a cagada que o cabeleireiro fez, que nem vai dar tempo de lembrar quem era esse otário que me fez chorar. Vou fazer hidratação e vou voltar a ter meu cabelo castanho de sempre, só que com um pouco menos de brilho, porque não há cabelo que sustente uma água oxigenada. Vou comprar batons de várias cores chamativas e misturar com roupas de cores diferentes. Até azul eu vou comprar. Vai que eu resolvo me fantasiar de alguma coisa…

Vou alugar um apartamento só meu. E vou pintar uma das paredes de vermelho. Vou começar a decorar pelos quadros. Vão ser fotos do Oprisco por todos os lados. E fotos das minhas diversões ao longo da vida. Eu vou ter uma cama de casal para poder levar quem eu quiser. E o lençol tem que ser branco. Não vou precisar decidir se vou casar ou comprar uma bicicleta. Eu vou comprar uma bicicleta e pronto. Minha casa sempre vai ter gente, mas, alguns dias, eu vou preferir ficar sozinha lendo um livro e tomando um bom vinho. Em outras noites, vou tomar leite com Nescau, vestida com meu casaco de lã. Vou ver “Como perder um homem em 10 dias” pela décima vez e dormir antes de chegar ao final, que é a parte mais previsível. Outras noites, eu vou ficar no redbull, porque vou ter alguns textos para entregar e outros para decorar. Vou chegar sempre por volta das 23h, porque eu estarei envolvida com vários projetos artísticos e sempre com várias pessoas. A noite é feita para aqueles que ainda não encontraram o amor da vida, então, eles vão distribuir esse amor com um monte de gente por aí. Vou continuar tendo meus inúmeros casinhos, mas sempre vai ter um que tira minha noite de sono, seja rolando na cama ou porque estou desabafando sobre ele com uma amiga ou com o Word. Depois vai passar e eu vou me apaixonar de novo e de novo. E eu não vou ter problema em conhecer outro cara incrível em uma viagem que eu fizer sozinha, porque meu coração vai ser só meu.

Eu vou viajar quinta à noite, sem avisar ninguém (só meu chefe), porque um amigo conseguiu alugar uma casa aqui pertinho. Eu vou juntar grana, fazer um mochilão pela América Latina, porque Europa já está batido, por mais que eu nunca tenha conhecido a Europa. Eu vou querer me mudar pra Ásia quando eu conhecer o cara dos meus sonhos que vai se mudar pra lá. Vou fazer todos os planos, até que um dia, sem querer, eu vou ter uma noite maravilhosa com outro rapaz e aí a Ásia pode ficar para depois.

Todos os dias vão ser diferentes, porque nunca fui muito de rotina. Sexta, eu vou chamar minhas amigas pra fazer uma comida diferente em casa, enquanto a gente espera a cerveja gelar. Domingo, eu vou fazer um almoço para aqueles de quem eu mais gosto, depois vou ao cinema assistir a um filme cult que eu não entenda nada. Em outro fim de semana, eu vou sair para dançar, tomar uns drinks diferentes e voltar para casa sozinha, mas com o coração cheio, porque sair só para dançar é uma das coisas que me deixam mais completa. Por mais que nenhum cara acredite, uma das coisas que as mulheres mais gostam de fazer é sair SÓ para dançar. A gente gosta de se sentir bonita, viva, feliz e desejada, mas isso não quer dizer que queremos sair de lá com um cara qualquer. Um cara qualquer não substitui a felicidade de dormir sozinha até meio dia, porque passou a noite dançando suas músicas preferidas junto com suas amigas preferidas. Isso também não quer dizer que a gente não ligue para sexo. Até porque eu ligo bastante. Mas entre sexo meia-boca e uma boa noitada suando a camiseta, eu fico com a segunda opção. É muito bom se sentir desejada, mas, ao mesmo tempo, não sentir desejo por ninguém.

Em outros fins de semana, eu vou para a praia cedinho, vou fazer suco verde e fingir para mim mesma que agora eu virei saudável. E, já que um grupo de amigos legais é tudo de que uma pessoa solteira precisa, é com eles que vou dividir meus dias, por mais que todos comecem a se casar. Vou estudar fora. Em qualquer lugar em que pintar uma oportunidade de fazer arte. Depois vou passar um tempo morando em Sâo Francisco, porque dizem que lá é a minha cara – eu quero me entupir de conhecimento, cerveja e de pessoas que aquecem o coração.

Enfim, vou descobrir que de nada vale encontrar o amor da vida se eu não viver o melhor da vida comigo mesma. Então, se ele não chegar, eu vou viver minha vida como eu sempre vivi, sem esperar um “feliz para sempre”, mas investindo no “feliz agora”. Vai ter espaço para muito amor, por mais que eu me sinta sozinha em alguns dias, por mais que me olhem com cara de pena, por mais que achem que eu me envolva com várias pessoas para preencher esse vazio. Mas não tem vazio nenhum, é só muito amor para dar e pouca vida para ser desperdiçada.

E se, por um acaso, isso de amor da vida existir, eu vou saber quando ele chegar, porque eu não vou precisar abrir mão de nada disso.

Mãe, tem brinquedo no céu?

Mãe, tem brinquedo no céu?

Por Adriana Vitória

Quando minha filha estava com cinco anos não queria mais ir à creche. Não estava muito feliz, então decidi mudá-la de escola. Ainda faltava um ano pra que fosse alfabetizada, mas quando fui a uma reunião de avaliação para a matricula, me disseram que ela iria para o primeiro ano, antigo CA ou classe de alfabetização.

Achei que ainda era muito cedo, mas me disseram que como ela já conhecia todas as letras e contava ate sei lá quanto, estava pronta.

Minha intuição, que sempre foi minha melhor amiga na criação da minha filha, me dizia que deveria esperar, mas a diretora parecia tão segura que concordei.

O ano começou, e o mundo lúdico de aprendizado com pinturas, colagens e música se extinguiu do dia pra noite.

Eram toneladas de deveres de casa todos os dias. Se uma palavra fosse mal escrita, teria que ser reescrita em casa vinte vezes.

Ela chorava e aquilo me fazia mal. Eu sempre procurei respeitar o desenvolvimento dela, físico, mental, emocional e espiritual. Eu a observava cuidadosamente: deixou a fralda, a mamadeira e a chupeta em seu tempo. Nem mais, nem menos. Ia se transformando de acordo com sua necessidade.

Mas naquele momento, o que eu via era que sua natureza estava sendo violentada. Ela tinha que correr para acompanhar um processo imposto que não era o dela.

Dois meses se passaram e, um dia, durante a volta da escola ela me perguntou: Mamãe, quando morremos podemos levar nossos brinquedos pra brincar no céu?

Essa foi a deixa. Tínhamos chegado ao limite. No dia seguinte fui a escola e disse que ia tirar minha filha de lá.

A coordenadora não tinha argumentos. Me pediu que a deixasse. Ao mesmo tempo, ela não queria deixar as amiguinhas. Decidi deixá-la terminar o ano mas ela não teria que fazer nenhum dever de casa.

Continuei observando. Ela aproveitou o resto do ano e finalmente nos mudamos de cidade. Agora ela esta tranquila em uma escola que ainda esta longe de ser a ideal, mas que acompanha seu desenvolvimento com respeito.

Esta na hora das escolas reverem seus conceitos. Nós, como pais, devemos estar atentos ao que nos chama a atenção e não parece natural. Nossa intuição é uma grande conselheira. Basta ouvi-la.

contioutra.com - Mãe, tem brinquedo no céu?

Os cinco começos de livro mais bonitos de 2014 (e que continuam lindos em 2015)

Os cinco começos de livro mais bonitos de 2014 (e que continuam lindos em 2015)

Por  Wendel Valadares

Outro dia vi uma entrevista com a escritora Nélida Piñon, onde ela comentava os inícios de livros mais bonitos que ela já tinha lido. Isso mesmo, a primeira frase, o primeiro parágrafo, o primeiro capítulo, o ponto de partida de cada leitura.Achei genial e é claro que fui conferir todos os livros que ela citou. Então, resolvi adaptar a ideia e listar para vocês os cinco começos de livros mais bonitos que eu li em 2014.A escolha foi super difícil, porque esse ano eu li muita coisa bacana, então tentei buscar os que mais me marcaram, mas é claro que houveram outros tão lindos quanto.

Vamos lá:

1) Lavoura Arcaica – Raduan Nassar

“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo…”

2) Antes de Nascer o Mundo – Mia Couto

“A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final…”

3) Tempo das Frutas – Nélida Piñon

“A bondade de proteger os viajantes, todo homem que passava pela sua porta. Agora que finalmente afugentara o medo, ou o que o representasse,ofertava-lhes o corpo, só depois restaurando a preocupação do pão, e a comida necessária. Era o seu jeito tímido de seriamente se orientar passageira na vida dos outros. Em verdade, compreendia a serenidade das coisas, sobretudo os viajantes que nem formulavam exigências que ela já não as tivesse cumprido…”

4) O Discípulo da Madrugada – Pe. Fábio de Melo

“Os descaminhos também nos fazem chegar. Ainda que nos falte discernimento para perceber, a natureza da vida é paciente com os debilitados. E não poderia ser diferente. Ela está atada ao inesgotável coração de Deus, origem de toda compaixão…”

5) A Confissão da Leoa – Mia Couto

“Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus…”

Nota da CONTI outra: o texto acima foi reproduzido com a autorização do autor.

contioutra.com - Os cinco começos de livro mais bonitos de 2014 (e que continuam lindos em 2015)

Wendel Valadares

Nascido e criado no interior de Minas Gerais, me deixei apaixonar pela poesia e percebi que o sentimento foi recíproco, ela também amou-me. Minha poesia é simples, livre do compromisso de se encaixar em algum gênero, ela simplesmente quer acontecer…É feita de essências e descompromissos, é pura e foi intensamente vivida antes de ser escrita… Sou inconstante e imediatista, mudo o tempo todo e quero tudo agora…
Conheça o blog de Wendel Valadares

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

Morar no campo e a “qualidade de vida”

Morar no campo e a “qualidade de vida”

Por Luis Gonzaga Fragoso

Moro numa chácara. Lugar com verde exuberante. Tucano, beija-flor, quero-quero, e mais uma infinidade de pássaros fazem o pano de fundo musical.

Para terem uma ideia do sossego, escrevo em pleno dia de Carnaval. O praticumbum-bungurundum do vizinho durou meia hora, se muito.

Volta e meia, um visitante solta o comentário: “Aqui, sim, vocês têm qualidade de vida!”.

Ao ouvir isso pela primeira vez – há seis anos –, pensei, todo pimpão: “É verdade!”.

Da segunda vez em diante, comecei a ficar encafifado. Cada vez mais, a frase me cheira a slogan publicitário. Lenga-lenga de anúncio de condomínio fechado.

Que diabos significa ter “qualidade de vida”? Respirar ar puro? Viver sem estresse? Poder desacelerar o ritmo de trabalho?

Em tese, isso tudo acontece. Mas… a decisão de deixar a metrópole para morar no campo fará de mim um cara zen, com uma rotina também zen? Ora, a própria natureza do meu trabalho pode me transformar, fácil, num “workaholic”.

A mera mudança de paisagem, estar rodeado de verde em vez de concreto, pode muito bem ser inócua. Exemplo disso: nosso ex-vizinho, da primeira chácara em que moramos, era a antítese da imagem que se faz do homem do campo. Estressado como só ele. E já morava ali há 15 anos!

Aliás, não é incomum que, engatado à frase que louva nossa “qualidade de vida”, apareça o comentário: “Bendita hora que vocês saíram daquele inferno que é São Paulo”.

Pigarro. Pigarro duplo. Pois o que me levou a deixar a metrópole nada tem a ver com estar farto dos problemas da cidade. Aconteceu de estarmos disponíveis para os movimentos do universo. Bela manhã, Mulher e eu viemos visitar uma chácara, e nossa intuição sussurrou: “Este lugar é pra vocês, e este é o momento, venham pra cá!”. Em dois meses mudamos, de mala e cuia.

Saí em paz com a metrópole, e nela voltaria a morar, caso necessário. Adoro o lufa-lufa de São Paulo. Mas também adoro as várias pausas que cultivo aqui. Movimento e repouso, essa dança me faz muito bem.

O problema básico na busca da “qualidade de vida” me parece ser a crença do indivíduo, de que um fator externo – paisagem física, silêncio, distância considerável de vizinhos etc – pode operar uma mágica em sua vida. Bobagem. E nesta crença está embutido um condicionamento nocivo: o hábito de culpar as circunstâncias externas e a paisagem física por suas frustrações. Com isso, evita-se assumir uma responsabilidade que demanda energia e empenho – mudar o que não lhe agrada, e que o faz infeliz.

Mas, da próxima vez que me deparar com o louvor à tal “qualidade de vida”, posso poupar meu visitante deste discurso verborrágico que você, paciente leitor, acaba de aturar. A ideia é sair à francesa, e colocar o CD de Gilberto Gil pra tocar baixinho, nesta faixa abaixo, cujo refrão sintetiza isso tudo.

LUIS GONZAGA FRAGOSO

Tradutor e Revisor

[email protected]

Nota da CONTI outra: A publicação do texto acima foi autorizada pelo autor.

Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém

Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém

Susan Ryder é uma artista inglesa internacionalmente conhecida tanto por suas pinturas de família (chegou a pintar tanto a princesa de Gales, em 1981, quando a própria rainha da Inglaterra em 1997) quanto por suas pinturas de interiores que explodem em cores e detalhes de luz e sombra.

Nessa seleção, trago uma coletânea de suas pinturas de “Interiores”.

Site oficial de Susan Ryder.

contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder
contioutra.com - Conheça as obras da artista inglesa que já pintou a rainha e que retrata interiores como mais ninguém
Susan Ryder

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

“Só queria dizer que estou feliz”

“Só queria dizer que estou feliz”

Por Patrícia Pinheiro

Na noite de réveillon, após jantar, esperar o relógio marcar meia noite e abraçar os que me rodeavam, por morar relativamente perto da praia, decidi que seria bom ir até lá. Busquei o chinelo de dedo mais confortável que tinha e fui caminhando lentamente pela madrugada chuvosa, enquanto observava tudo o que acontecia ao meu redor: os fogos ainda explodiam no céu e uma multidão se encaminhava para o mar.

Em meio a diversas pessoas trajando branco, falando alto, bebendo e tirando fotos, notei que uma menina, com seus, no máximo, 6 anos, puxava incessantemente o vestido da mãe, na tentativa de ter a atenção que precisava para dizer-lhe algo. “Mãe, mãe!”, ela gritava, e, quando a mãe finalmente voltou os olhos para a criança e perguntou o que ela queria, veio a resposta: “Só queria dizer que estou feliz”.

Desde então, a fala daquela criança me acompanha. Será que, como ela, somos capazes de reconhecer – e, principalmente, em voz alta – os momentos de felicidade? Mas, o mais importante: sabemos que ela reside em momentos?

Acho que, nessa busca pelo “felizes para sempre”, acabamos, muitas vezes, perdendo a capacidade e sensibilidade para buscarmos e reconhecermos os momentos felizes. Ocupados construindo nossa felicidade, esquecemos que ela não é um estado a ser alcançado somente quando concluirmos nosso doutorado ou comprarmos um carro, é, sim, embriagante e passageira como o otimismo e fé que nos preenchem na noite de ano novo.

Além disso, penso no quanto é positivo para os que nos acompanham – seja por breves momentos ou por uma vida – esse pronunciamento de felicidade. Um “eu estou feliz por estar aqui contigo” é gostoso demais de se ouvir. A certeza da alegria de quem eu amo é capaz de renovar a minha.

Assim como sentimos necessidade de externalizar e compartilhar nossas tristezas, que possamos, também, estar receptíveis para todas as doses de felicidade que se encontram espalhadas por aí, sem medo de gritá-las. Naquela noite, antes de dormir, fui ao quarto da minha mãe, e disse: “Só queria dizer que estou feliz”.

Documentário “I AM” – Você tem o Poder de Mudar o mundo.

Documentário “I AM” – Você tem o Poder de Mudar o mundo.

Do diretor de O Mentiroso, O Professor Aloprado, O Todo-Poderoso e Ace Ventura: Um Detetive Diferente, chega um surpreendentemente poderoso e inspirador filme. I AM é a história de Tom Shadyac, um diretor de sucesso em Hollywood, que após um perigoso ferimento na cabeça e experimenta uma jornada para tentar descobrir e responder duas questões bem básicas: “O que está errado no mundo?” e “Que podemos fazer sobre isso?” Com uma equipe de quatro pessoas, Tom visita algumas das grandes mentes dos dias de hoje, incluindo escritores, poetas, professores líderes religiosos e cientistas (Howard Zinn, Lynn McTaggart, Desmond Tutu, Thom Harmann, Coleman Barks), buscando descobrir o fundamental problema endêmico que causa todos os outros problemas, refletindo simultaneamente em suas próprias escolhas de excesso, ambição e possível cura. E se a solução para os problemas do mundo estivesse bem na nossa frente o tempo todo?


Nota da CONTI outra: O documentário também consta no catálogo de filmes da Netflix.

Recomendamos também o documentário Eu maior.

“O corvo”: animação baseada no conto de Edgar Allan Poe (narração Guto Russel)

“O corvo”: animação baseada no conto de Edgar Allan Poe (narração Guto Russel)

The Raven (“O Corvo”) é um poema do escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe. Ele foi publicado pela primeira vez em 29 de Janeiro de 1845, no New York Evening Mirror. É um poema notável por sua musicalidade, língua estilizada e atmosfera sobrenatural provenientes tanto da métrica exata, permeada de rimas internas e jogos fonéticos, quanto do talento singular de Poe, um dos maiores expoentes tanto do romantismo quanto da própria literatura americana. Neste poema, que apresenta uma temática típica do romantismo, a figura do misterioso corvo que pousa sobre o busto de Pallas (ou Atena, na maioria das traduções feitas para o português como a de Fernando Pessoa) representa a inexorabilidade da morte e seu impacto sobre o personagem, o qual, no seu papel de arquétipo correspondente às tendências da geração literária de Poe, lamenta e sofre profundamente com a perda de sua amada Leonora (Lenore, no original). No final do poema, o corvo, o qual representa, como dito acima, a inexorabilidade da morte, repousa sobre o busto de Pallas simbolizando o pesar eterno que se abateu sobre a alma do protagonista. – Wikipédia.

contioutra.com - "O corvo": animação baseada no conto de Edgar Allan Poe (narração Guto Russel)

O animação traz a interpretação do Locutor Guto Russel

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

A literatura é um denominador comum da experiência humana, Mario Vargas Llosa

A literatura é um denominador comum da experiência humana,  Mario Vargas Llosa

De Mario Vargas Llosa

Do original: A importância da Literatura

Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de nós.

Em feiras de livros ou mesmo livrarias, frequentemente alguém se aproxima pedindo-me autógrafo. “É para minha mulher, filha ou mãe”, explica. “Ela adora ler!” De pronto pergunto: “E o senhor? Não gosta de ler?” E a resposta é quase sempre a mesma: “Gosto, mas sou muito ocupado.”

Já ouvi essa explicação dezenas de vezes. Esse homem – e milhares outros como ele – tem tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades, que não pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.

Segundo esse raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma diversão que somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.

Gostaria de apresentar alguns argumentos contra a ideia da literatura como passatempo e em prol de considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais.

Vivemos numa era de especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e da conseqüente fragmentação do conhecimento em incontáveis avenidas e compartimentos.

A especialização traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é a força motriz do progresso. Mas também destrói os denominadores comuns culturais que permitem a coexistência, a comunicação e a solidariedade. E leva à separação dos seres humanos em guetos culturais de especialistas, confinados – pela linguagem, por códigos de conduta e pelo conhecimento particularizado – a uma especificidade contra a qual um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na folha, a ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.

Em grande medida, a noção da existência dessa floresta depende do senso de conjunto que une a sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena de especificidades. A ciência e a tecnologia, portanto, já não podem desempenhar esse papel unificador da cultura.

A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico.

Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.

Ler boa literatura é ainda aprender o que e como somos – em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e nossos fantasmas -, tanto no espaço público como na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas – a filosofia, a história ou as artes – conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.

O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura.

O que a literatura deu à humanidade, então?

Um de seus primeiros efeitos benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.

Uma humanidade sem romances seria muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos. Isso também vale para o indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe de um repertório mínimo de palavras para se expressar.

Não se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e conhecimento, porque os conceitos pelos quais assimilamos a realidade não são dissociados das palavras que nossa consciência usa para reconhecê-los e defini-los.

Nenhuma disciplina substitui a literatura na formação da linguagem. O conhecimento transmitido por manuais técnicos e tratados científicos é fundamental, mas eles não nos ensinam a nos exprimir corretamente. Ao contrário, com freqüência são mal escritos porque os autores, às vezes expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem transmitir seus tesouros conceituais.

Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.

A literatura apazígua essa insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais intensos, mais complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não nos sentirmos enganados depois de ler “Guerra e Paz” ou “Em Busca do Tempo Perdido” e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?

[quote_box_right]Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais.[/quote_box_right]

Quer dizer, a vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito, e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar.

A sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes, difíceis de manipular, em constante efervescência espiritual e cientes da necessidade de examinar continuamente o mundo em que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de viver.

Sem insatisfação e rebeldia, ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável. Para esse espírito que despreza a vida como ela é – e, com a insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o sonho realidade -, a literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o desenvolvimento da mídia audiovisual – que ao mesmo tempo que revoluciona as comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer, relegando a leitura a segundo plano – permite-nos imaginar para um futuro próximo uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e microfones, mas sem livros.

Temo que esse mundo cibernético seja profundamente incivilizado, sem espírito, apático – uma resignada humanidade de robôs.

Evidentemente , é muito improvável que essa terrível perspectiva venha algum dia a se concretizar. Não existe um destino que decida por nós o que vamos ser. Depende de nosso discernimento e de nossa vontade que essa utopia macabra se realize ou se apague.

Se queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis – e com isso o desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de nós.

contioutra.com - A literatura é um denominador comum da experiência humana,  Mario Vargas Llosa

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

Pablo Neruda: poema XX

Pablo Neruda: poema XX

POEMA 20

Pablo Neruda

Vinte poemas de amor e uma canção desesperada

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quiz e por vezes ela também me quiz
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.
(Pablo Neruda)

Fonte: Arabe

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

“Não há tempo para nada que não seja essencial”: trechos da carta de despedida de Oliver Sacks

“Não há tempo para nada que não seja essencial”: trechos da carta de despedida de Oliver Sacks

Existem 2 grandes paixões na minha vida que foram contempladas pelas obras de Oliver Sacks: O estudo da neurologia e a paixão pela literatura.

Como escritor, esse grande neurologista sempre foi capaz de fazer com que os casos mais raros e os conceitos mais complexos fossem compreensíveis lhes fornecendo toques de romance e belíssimas descrições bibliográficas como a que fez com a autista savant  dra Temple Graudim em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” ou mesmo em “Tempo de Despertar, romance baseado em fatos reais que deu origem ao filme e descreve as mudanças acarretadas em alguns pacientes de uma casa de repouso após a inserção de uma medicação específica.

Abaixo, um texto publicado originalmente publicado em: New York Times, em 19 de Fevereiro. traz uma notícia muito triste: a carta de despedida de Oliver Sacks que descobriu recentemente um câncer terminal no fígado.

Compartilho com pesar, emoção e profundo agradecimento. Mesmo no fim da vida, Oliver Sacks transmite as características que fazem com que o admiremos e respeitemos hoje e sempre: sua inteligência, humildade e ternura.

Josie Conti

***

contioutra.com - “Não há tempo para nada que não seja essencial”: trechos da carta de despedida de Oliver Sacks

Do original: Oliver Sacks, neurologista e escritor, anuncia câncer terminal e afirma: “Não há tempo para nada que não seja essencial”.

Em trechos de sua “carta”, Sacks afirma: “Não há tempo para nada que não seja essencial”. “Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.”

Oliver Sacks (81 anos), neurologista e escritor britânico ficou conhecido, dentre outras realizações, pelos livros “Tempo de despertar” e “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. A primeira obra, datada de 1973 é um relato baseado em suas próprias experiências como médico e foi posteriormente adaptada e protagonizada por Robert Williams e Robert DeNiro no cinema, obtendo três indicações ao Oscar. Seus livros foram traduzidos para mais de vinte línguas e são sucesso de vendas, conquistando diversos prêmios pelo mundo. O neurologista também é membro honorário da Academia Americana de Artes e Letras, da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia das Ciências de Nova Iorque.

Nesta semana, Sacks anunciou a descoberta de um câncer em estágio terminal no fígado. O anúncio se deu por meio de um artigo intitulado “Minha própria vida”, originalmente publicado pelo New York Times no dia 19 de fevereiro.

Ele inicia o texto contando como foi a descoberta da doença:

“Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Há nove anos, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar da radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.

Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.”

Sacks ainda fala de como pretende viver de agora em diante:

“Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava também com uma doença terminal aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

Ainda inspirado em Hume: “Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.”

 

Sacks conta que Hume, no texto citado acima escreve que era “um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as paixões.” Relata a seguir que aí se distancia do filósofo: “apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.”

O médico conta ainda:

“Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altura, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.

Pelo contrário, eu me sinto intesamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).”

E continua: “Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.

Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.”

E Oliver Sacks conclui seu texto:

“Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.

Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.”

Nota da Conti outra: o texto acima foi publicado neste site com a autorização da autora.

***

Fonte indicada em português 

contioutra.com - “Não há tempo para nada que não seja essencial”: trechos da carta de despedida de Oliver Sacks

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe

Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto

Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto

Por Nara Rúbia Ribeiro

Mia Couto é conhecido internacionalmente por suas extraordinárias histórias. Seus contos e seus romances são lidos em todos os continentes, em línguas, culturas e credos diversificados.

Valendo-se de uma linguagem marcadamente poética, essas histórias encantaram o mundo.

Como se não fosse o bastante, Mia é também autor de quatro livros de poesia: “Raiz de orvalho e outros poemas” (1999), “Idades, cidades, divindades” (2007), “Tradutor de Chuvas” (2011) e “Vagas e Lumes”, este publicado em 2014.

Selecionamos dez poemas dessas quatro obras de sorte a trazer a todos um indício valioso da genialidade poética desse escritor.

contioutra.com - Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto
Mia Couto por Maria José Cabral

1 – O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

No livro “Idades cidades divindades”

2 – Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

3 – Destino

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

4 – Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

No livro “Tradutor de Chuvas”

5 – Saudade

Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

No livro “Tradutor de Chuvas”

6 – Mudança de Idade

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

No livro “Tradutor de chuvas”

7 – Idade 

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto

No livro “Vagas e lumes”

8 – Companheiros

quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

9 – Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se

ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

No livro  “Raiz de orvalho e outros poema”

10 – O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades”

contioutra.com - Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto

Nara Rúbia Ribeiro: colunista CONTI outra

contioutra.com - Dez inesquecíveis poemas de Mia Couto

Escritora, advogada e professora universitária.
Administradora da página oficial do escritor moçambicano Mia Couto.
No Facebook: Escritos de Nara Rúbia Ribeiro
Mia Couto oficial

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

No espelho de suas vontades o que aparece refletido?

No espelho de suas vontades o que aparece refletido?

Coisas para se dizer, um desejo de ajudar, sem intromissões: foi assim que a ideia deste texto começou. Deve haver verdade na frase que diz que a gente não precisa saber muitas coisas: já fica de bom tamanho e renova as energias se conseguir vivenciar algumas delas com naturalidade e paz interior.

Reside certo encanto no gesto de se permitir um olhar para o espelho das suas vontades: o que de você aparece nele refletido? Pretende-se falar aqui de obviedades que, sorrateiras, costumam passar despercebidas à nossa frente.

Podem ser vistas como desejos que querem um pouco mais de atenção. Mesmo sabendo que no reino das vontades sempre há espaço para o silêncio, para o deixar tudo como está, deve valer a pena exibir alguma vontade de mirar-se, de vez em quando: assim, muita coisa poderá surpreendê-lo, ao acontecer de maneira natural e prazerosa.

Para cada tópico desponta uma palavra-guia: pode-se, antes da leitura do restante do texto, deter-se um pouco para observar se eles fazem sentido isoladamente e se há harmonia em seu conjunto, respondendo a indagações internas sobre o que possam ter a ver com você.

Se nada disso lhe disser respeito diretamente, por se constatarem obviedades em seu mundo, quem sabe não traz algum chamamento que poderá ser útil a alguma pessoa em especial dentre aquelas com quem convive? Vamos lá, que o passeio pelas verdades interiores começou:

  1. AUTODIRECIONAMENTO: Concentrar-se mais nas ações, esforços e tentativas de aprendizado, refletindo a respeito e tomando decisões com base na realidade que lhe diz respeito diretamente, tirando o foco das conversas miúdas sobre a vida alheia, principalmente os deslizes e as transgressões deles que não lhe dizem respeito, por estarem no campo da subjetividade.
  1. TRANSPARÊNCIA: Reservar à Ética um espaço significativo nas diversas formas de se relacionar, a começar com uma boa convivência consigo mesmo: dizer menos vezes “sim” quando o seu desejo é negar irá poupá-lo de tensões, contrariedades, somatizações, todos com risco de desagradáveis consequências ao seu metabolismo.
  1. REVERÊNCIA: Quando fizer parte de uma roda de conversa, entender que quem está fazendo uso da palavra é, naquele momento, a pessoa mais importante do grupo, merecendo o respeito e a atenção de todos: convém, assim, controlar o ego e a ansiedade, não interrompendo quem fala, apenas para mostrar que sabe alguma coisa sobre o assunto.
  1. FOCO: Controlar a natural autodispersão (preguiça, não-priorização) quando a situação pede que direcione as energias na análise e resolução daquele problema em discussão. Cuidar, nesses momentos, para não atrapalhar quem está produzindo: fugir das brincadeiras bobas ou levianas inferências que em nada ajudam no dimensionamento e na compreensão do que está sendo discutido.
  1. COMPARTILHAMENTO: Difundir textos interessantes com habilitadas fontes no seu grupo de relacionamento é uma maneira afetiva de buscar maior participação na vida das pessoas. Nessa ação ajuda muito se for acompanhada de posicionamentos e indicadores de cenários, possibilidades, tendências, ou até mesmo indicação de leituras complementares.
  1. VALIDAÇÃO: Desenvolver a habilidade e entender a importância de fazer pertinentes elogios: em um processo de carência natural as pessoas tendem a necessitar ser validadas no dia a dia (os que parecem dispensar essa mesura apenas disfarçam melhor). Mostra uma grandeza e uma generosidade do ser e funciona como elemento balizador de suas condutas e do desejo de feliz
  1. CONSCIÊNCIA: Avaliar a pertinência de assumir – sempre que a situação o pedir – publicamente as suas posições, harmonizando o pensar, o falar e o agir: constitui uma maneira saudável de colocar em debate e fortalecer as suas convicções, além de manter distância da alienação (isolamento no mundo interior). Se convencido da inviabilidade da sua proposta, saber reconhecer o fato e dar méritos e créditos a quem o merece.
  1. CONSISTÊNCIA: Evitar fazer prejulgamentos: se resolver fazê-lo, por entender que a situação pede alguma ação sua, reunir um mínimo de evidências com consistência. Ter como propósito passar ao largo das leviandades que envolvem críticas negativas, depreciativas, incriminatórias ou ridicularizantes: o sofrimento alheio pede respeito.
  1. COMEDIMENTO: Ao ser atingido por comentários ou sentir-se prejudicado em algum acontecimento, procurar controlar a impulsividade e o ego: dificilmente a primeira ideia que vem à mente no caso mostra-se ponderada, adequada, abrangente. Antes do impulso de fechar questão bruscamente, correndo o risco de tornar pior a situação, oferecer à pessoa envolvida a chance do esclarecimento ou reposicionamento. Assim, a chance de injustiça e de arrependimento diminui consideravelmente.
  1. ABERTURA: Ao se abrir para o diálogo terá oportunidade de revisitar conceitos: podem naturalmente, por extensão, surgir aí algumas oportunidades de rever posturas que contribuam para o seu crescimento pessoal e paz interior, permitindo participar, por extensão, do crescimento de outros, no mínimo sendo uma referência.
  1. GRATIDÃO: Reservar olhares e gestos de reverência e agradecimento às pessoas e às experiências vivenciadas, tanto as que trouxeram felizes desdobramentos, como as que apresentaram frustrantes resultados. Talvez elas todas se justifiquem na linha do tempo e queiram ser vistas como necessárias etapas de um natural processo de maturação.

Cada possibilidade gosta de ser apreciada com distinção e delicada atenção, com espaços para as pausas subjetivas e reflexões. Ao final da leitura pode abrir-se um leque para entrarem em cena propósitos e acenos no campo das divagações que fomentam novas deliberações.

Quem se permite olhar para si pode despertar, também, alguns de seus adormecidos elementos para renovar os encantos com a sua realidade e o seu jeito de ser, como quem se redescobre: “Olhe só quantas virtudes eu cultivo e as pratico, sem me dar conta disso!”.

Reúne, por extensão, possibilidades de se abrir um pouco mais para o outro, havendo lirismo no gesto de dizer, uma vez mais, de diferentes maneiras, “sim” à vida, que se revigora, pulsando intensamente.

 

LOURIVAL  ANTONIO CRISTOFOLETTI

contioutra.com - No espelho de suas vontades o que aparece refletido?Paulista de Rio Claro e residente em Vitória/ES. É mestre em Administração pela UnB – Universidade de Brasília, Analista Organizacional e Consultor em Recursos Humanos. Atualmente atua como professor na Graduação e MBA na FAESA – Faculdades Integradas Espírito-Santenses; Instrutor na UFES – Universidade Federal do ES e na ESESP– Escola de Governo do ES.

Livro publicado: COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES
Livraria Logos (vendas pelo site)

E-mail de contato: : [email protected]
No Facebook: Lourival Antonio Cristofoletti No Instagram: lourivalcristofoletti

Se os tubarões fossem homens – Bertold Brecht (interpretação Antonio Abujamra)

Se os tubarões fossem homens – Bertold Brecht (interpretação Antonio Abujamra)

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos

Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

***

Sobre o(a) autor:
Bertold Brecht (1898-1956), nascido em Augsburgo. Escritor e dramaturgo alemão, além de grande teórico teatral. Desde menino escrevia poesias de forte conteúdo social. Foi perseguido pelos nazistas pelo seu comunismo militante.

Interpretação Antonio Abujamra

Fonte do texto: Rizomas

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

INDICADOS