E quando tudo estava se ajeitando, aconteceram coisas inexplicáveis que levaram embora as melhores esperanças…
Quando tudo se despedaçou, a vida apresentou novas oportunidades, novos rostos, rotinas, hábitos e alegrias…
Quem realmente nunca viveu momentos de euforia, viu seu mundo cair, fez um sucesso inesperado, virou a vida de cabeça para baixo, deixou o dinheiro acabar, a TV quebrar, o carro enguiçar, a relação esfriar, tudo ao mesmo tempo , indo direto para ou céu, ou caído sem vida no chão?
Acontece sim com todo mundo, várias vezes na vida, e, a cada vez ficamos igualmente perplexos, tentando explicar a coisa toda com teorias tão loucas quanto possíveis, mas o fato é que sempre saímos mais fortes de todo o caos em que estávamos pouco antes. Num segundo distraído, deixamos de fazer parte daquele cenário e já estamos em outro, e aí aparece aquele lampejo da mudança. Alguns dirão: – Finalmente terminou meu inferno astral, ou, ao contrário, – Nessa época tudo de ruim me acontece. Outros não dirão nada, só ficarão gratos, revoltados, inconformados, se achando merecedores. E tantos outros sentimentos serão válidos, de acordo com a disposição de cada um. É do jogo, como aceitamos as posições em que estamos no momento.
É preciso aceitar que a vida realmente é tecida por milhões de conjunções possíveis. E, assim como ela, fazemos associações a todo instante, respiramos profunda ou rapidamente, sorrimos ou fechamos a cara. Olhamos para os lados, para trás, para baixo, ou piscamos os olhos e deixamos de ver um lindo sorriso lançado para nós naquele justo instante. Prestamos atenção no que achamos que nos interessa, mas também deixamos passar muitas, muitas outras atenções. É a combinação de escolher e ser escolhido.
O jogo da vida é dinâmico e incontrolável. As peças mudam assim como os humores, as chances, as células do nosso corpo, o clima, os cabelos, a sorte… E quando passamos por tempos de tormenta significa que algumas combinações não deram certo. E seguimos pois precisamos acreditar nisso para que estejamos com boa disposição para as perfeitas que certamente virão e não durarão o tanto que gostaríamos, como todas as outras vezes.
Tratemos portanto de soprar os dados e jogar honestamente, buscar e lembrar de tudo o que aprendemos com as derrotas e vitórias anteriores, ficarmos firmes nas péssimas jogadas e vibrar intensamente com as certeiras!
A velha máxima diz: “O que importa é competir”; Mas gosto ainda mais de pensar que existe uma que repete sempre para cada um de nós: Queira vencer, mas antes de tudo, queira estar no jogo, viva o jogo, entenda as mensagens em cada recuada, em cada passada. E volte quatro casas se assim for preciso!
Em um país muito longe daqui, onde o frio é forte e impera, todo bebê nasce e já ganha o seu cobertorzinho. Esse cobertorzinho o acompanhará por toda a sua jornada até a idade adulta. O tecido é aconchegante e macio, quente e envolve a criança, sanando suas necessidades de calor e proteção nas noites gélidas e escuras.
O pequeno corte desse tecido de inverno, entretanto, não acompanha o crescimento da jovem alma que rápido se desenvolve. E, tempos depois, já vemos os pezinhos quase descobertos.
Os pais, conhecendo a necessidade dos filhos e a tradição de seus ancestrais, improvisam como podem: cortam pedaços de seus antigos cobertores, e com eles fornecem calor, afeto e história para o ser que cresce. Às vezes, o tecido é velho e puído, mas, tem cheirinho de amor. Em outras, é mais fino, mas, traz cores de alegria. Outras ainda são um pouco mais ásperas e até espetam, mas, a criança sabe que, se achar a posição correta e deitar sobre aquele pedacinho, ele pode ser o mais quentinho.
A criança continua crescendo e lá vêm os avós, tias e primos, cada um com sua contribuição. Vermelho, amarelo, xadrez. Verde, azul e violeta. Por mais simples que seja a família, sempre aparece mais um paninho.
Sob esses tecidos e protegido por eles, a criança cresce forte e segura, assim como acolhe a doação de quem faria qualquer coisa para cuidar dos seus.
Ao anoitecer. vemos uma criança deitada em seu mundo encantado, facetado e multicolorido, onde cada um que podia emprestou um pouco do que tinha.
Um belo dia, sem que ninguém espere ou saiba o momento, aquele que até hoje apenas recebeu, vai até um canto de sua casa e corta um pedaço do seu querido cobertor.
“Passei a infância toda
Achando que a minha mãe
Gostava de pés de galinha,
Comia com tanto gosto
Chupava até os ossinhos.
“Ninguém come os pés, são meus”- dizia
Toda a carne dividia
Peito, coxas e titela,
Fígado, coração e muela,
Mas os pés, os pés era só prá ela.
Depois de todos servidos,
Então sentava e comia.
Mas o tempo foi passando,
A criançada crescendo,
Os maiores trabalhando,
A vida foi melhorando.
Depois de uma infância dura
Começamos Ter fartura.
Vi minha mãe na cozinha
Tratando de uma galinha
E ao contrário de outrora
Flagrei aquela velhinha
Jogando os pèzinhos fora
Ao notar o meu espanto
Aquele coração santo
Da minha doce mãezinha
Apressou-se em explicar:
“Nunca gostei do tal do pé de galinha”
É que a carne era tão pouca,
Prá tantas bocas não dava,
E prá você não ficar triste
Eu fingia que gostava.”
Demorei sete anos (desde que saí da casa dos meus pais) para ler o saquinho do arroz que diz quanto tempo ele deve ficar na panela. Comi muito arroz duro fingindo estar “al dente”, muito arroz empapado dizendo que “foi de propósito”. Na minha panela esteve por todos esses anos a prova de que somos uma geração que compartilha sem ler, defende sem conhecer, idolatra sem porquê. Sou da geração que sabe o que fazer, mas erra por preguiça de ler o manual de instruções ou simplesmente não faz.
Sabemos como tornar o mundo mais justo, o planeta mais sustentável, as mulheres mais representativas, o corpo mais saudável. Fazemos cada vez menos política na vida (e mais no Facebook), lotamos a internet de selfies em academias e esquecemos de comentar que na última festa todos os nossos amigos tomaram bala para curtir mais a noite. Ao contrário do que defendemos compartilhando o post da cerveja artesanal do momento, bebemos mais e bebemos pior.
Entendemos que as BICICLETAS podem salvar o mundo da poluição e a nossa rotina do estresse. Mas vamos de carro ao trabalho porque sua, porque chove, porque sim. Vimos todos os vídeos que mostram que os fast-foods acabam com a nossa saúde – dizem até que tem minhoca na receita de uns. E mesmo assim lotamos as filas do drive-thru porque temos preguiça de ir até a esquina comprar pão. Somos a geração que tem preguiça até de tirar a margarina da geladeira.
Preferimos escrever no computador, mesmo com a letra que lembra a velha Olivetti, porque aqui é fácil de apagar. Somos uma geração que erra sem medo porque conta com a tecla apagar, com o botão excluir. Postar é tão fácil (e apagar também) que opinamos sobre tudo sem o peso de gastar papel, borracha, tinta ou credibilidade.
Somos aqueles que acham que empreender é simples, que todo mundo pode viver do que ama fazer. Acreditamos que o sucesso é fruto das ideias, não do suor. Somos craques em planejamento Canvas e medíocres em perder uma noite de sono trabalhando para realizar.
Acreditamos piamente na co-criação, no crowdfunding e no CouchSurfing. Sabemos que existe gente bem intencionada querendo nos ajudar a crescer no mundo todo, mas ignoramos os conselhos dos nossos pais, fechamos a janela do carro na cara do mendigo e nunca oferecemos o nosso sofá que compramos pela internet para os filhos dos nossos amigos pularem.
Nos dedicamos a escrever declarações de amor públicas para amigos no seu aniversário que nem lembraríamos não fosse o aviso da rede social. Não nos ligamos mais, não nos vemos mais, não nos abraçamos mais. Não conhecemos mais a casa um do outro, o colo um do outro, temos vergonha de chorar.
Somos a geração que se mostra feliz no Instagram e soma pageviews em sites sobre as frustrações e expectativas de não saber lidar com o tempo, de não ter certeza sobre nada. Somos aqueles que escondem os aplicativos de meditação numa pasta do celular porque o chefe quer mesmo é saber de produtividade.
Sou de uma geração cheia de ideais e de ideias que vai deixar para o mundo o plano perfeito de como ele deve funcionar. Mas não vai ter feito muita coisa porque estava com fome e não sabia como fazer arroz.
Sou uma mulher de cem anos. Meu coração é fraco. Choro ao ler um poema e ao ver um menino no semáforo. Não tenho mais medo da morte, mas amo muito a vida. Amo tanto que cuido. Amo tanto que guardo nas mãos, como pintinho indefeso e sem mãe. Amo tanto que rego as minha flores todos os dias e tento regar as flores dos quintais vizinhos.
Sou uma velha sem importância. Tenho vontade de permanecer em silêncio em meio às tantas falas. Não ligo para presentes e conquistas. Os assuntos desse mundo me interessam menos que um sorriso de uma criança. Fujo da realidade olhando um voo de borboleta.
Sou uma senhora aposentada, não sirvo mais para nada. Tenho a pele fina, os ossos frágeis, os olhos cheios de lágrimas, um sorrisinho nos lábios e o pensamento longe. Tudo em mim se distrai, até minha identidade.
Sou uma velhinha sem forças, mas cheia de sentido no olhar. Sentada, tricotando um cachecol para reaquecer os corações. Pronta para a vida, mas não para o mundo.
Muitas pessoas se deslumbram com as possibilidades do Facebook e não pensam nas consequências de postagens que podem gerar desconforto em seus amigos virtuais.
As principais razões das amizades desfeitas no Facebook podem ser enumeradas da seguinte forma:
1. Discussões sobre política
Claro que emitir a sua opinião sobre política pode ser interessante, principalmente se você aprecia estudar a respeito e tem amigos que se interessam pelo assunto. Mas cuidado para não se envolver em discussões infundadas e inoportunas. Essa matéria alerta: “Talvez seja a hora de aceitar que o Facebook é um meio ruim para o debate político”.
2. Discussões sobre religião
Se você não quer ter apenas amigos da sua religião, seja comedido nas postagens religiosas e se precisar conversar sobre elas, não aceite polemizar.
3. Divisão de ideias
A mesma matéria acima divulga um estudo recente da Universidade do Colorado em Denver que concluiu que entre as razões mais citadas para desfazer amizades na rede é a polarização de ideias. As pessoas costumam manter contato com as que tenham pensamentos afins.
4. Postagens repetitivas
Se você postar sempre sobre o mesmo assunto, uma hora o interesse acaba e você será tido como uma pessoa chata e cansativa.
5. Grosseria
Educação é fundamental em toda e qualquer forma de comunicação, inclusive no Facebook. Xingamentos, palavrões e ofensas não são aceitáveis por muitos que preferirão clicar em “desfazer amizade”.
6. Comentários nas postagens dos amigos
Comentar a postagem de alguém deve ter um bom motivo, pois não é conveniente provocar polêmica. Não se esqueça: você não precisa comentar tudo o que lê e se o fizer seja razoável e respeitoso.
7. Postagens pornográficas
Ninguém é obrigado a ficar vendo ou lendo esse tipo de postagem e muitos vão se incomodar e preferir ficar longe.
8. Postagens violentas
Muitas pessoas ainda se comprazem com notícias, fotos e vídeos com conteúdo violento e hostil, mas felizmente, muitos também usam das ferramentas de denúncia do Facebook para eliminar tais postagens e bloquear os que as fazem.
9. Atualizações racistas
Esse tipo de postagem é totalmente inadequado e costuma causar muitos debates desrespeitosos e até mesmo violentos. Aliás, quem se presta a isso dificilmente manterá amigos.
10. Fazer do Facebook um diário
Você posta desde que levanta até que vai deitar, incluindo o “fui” trabalhar, correr, estudar, comer, passear… É muito chato!
11. Manifestações preconceituosas
Claro que você pode manifestar suas opiniões, mas precisa ter cautela com a forma pela qual se expressa. Demonstrar sentimentos hostis, generalizando seres humanos é inaceitável.
12. Exposição contínua de sentimentos
Pode ser que em algum momento você tenha vontade de expor algum sentimento, mas observe se isso pode interessar aos seus amigos, afinal você está escrevendo para que eles leiam, certo?
13. Mudança de interesses
Suas postagens têm a ver com o que você está vivendo, assim se você se casa, ou se separa, ou tem filhos, enfim, quando muda o tipo de postagem pode fazer com que muitos percam o interesse em ter você como amigo.
14. Atualizações arrogantes ou tidas como tal
Segundo esse artigo: “(…) o caráter da relação virtual induz a maior espontaneidade, favorece desencontros, atitudes irreflexivas e mesmo abusos. Nem sempre o bom senso e o respeito prevalecem”.
15. Todo tipo de excesso
As postagens no Facebook favorecem a ilusão e o apelo à aparência e tudo o que é demais fica enfadonho e, notadamente, irreal, assim ser feliz demais, viver deprimido, ostentação ou qualquer tipo de exagero costuma ser um bom motivo para “cortar” amigos na rede.
Bom deixar claro que perder contatos virtuais não é sempre algo ruim, afinal o ideal é interagirmos com pessoas que possuem algum tipo de afinidade conosco.
O Facebook é uma forma muito interessante de reatar e fazer novas amizades, de aprender a entender pontos de vista diferentes, além de promover ideias pessoais e profissionais. Obviamente, a escolha de como usar essa potente ferramenta é de cada um de nós.
Acima, no alto do estrado, envergando sua toga negra, o presidente do tribunal.
À direita, o advogado.
À esquerda, o promotor.
Degraus abaixo, o banco dos réus, ainda vazio,
Um novo julgamento vai começar.
Dirigindo-se ao meirinho, o juiz, Algonso Hernández Pardo, ordena:
– Faça o condenado entrar.
A mãe e o pai dos direitos civis
Num ônibus que circulava pelas ruas de Montgomery, Alabama, uma passageira negra, Rosa Parks, negou-se a ceder seu assento a um passageiro branco.
O motorista chamou a polícia.
Chegaram os guardas, disseram: lei é lei, e prenderam Rosa por perturbar a ordem pública.
Então um pastor desconhecido, Martin Luther King, propôs, em sua igreja, um boicote contra os ônibus. E propôs assim:
– A Covardia pergunta:
– É seguro?
A Conveniência pergunta:
– É oportuno?
E a Vaidade pergunta:
– É popular?
Mas a Consciência pergunta:
– É justo?
Ele também foi preso. O boicote durou mais de um ano e desencadeou uma maré irrefreável, de costa a costa, contra a discriminação racial.
Em 1968, na cidade sulina de Memphis, um tiro arrebentou o rosto do pastor King, quando ele estava denunciando que a máquina militar comia negros no Vietnã.
De acordo com o FBI, ele era um sujeito perigoso.
Como Rosa. E como muitos outros pulmões do vento.
Malditos sejam os pecadores
No idioma aramaico, que Jesus e seus apóstolos falava,, uma mesma palavra significava dívida e pecado.
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está à sua espera com os credores.
Na época em que o primeiro filho nasceu, a atriz e cineasta francesa Clara Bellar dividia seu tempo entre o Rio de Janeiro, Paris e Los Angeles. Em vez de decidir por um desses locais para poder matricular o menino na escola, ela e o marido preferiram entender como crianças poderiam aprender de maneira livre e conviveram durante dois anos com famílias que optaram pela não escolarização. O resultado foi uma jornada que é mostrada no documentário “Ser e vir a ser – Vivendo e aprendendo”.
O filme é uma busca pelo “desejo inato de aprender”, conforme define a sinopse de divulgação. Ele explora o conceito de desescolarização (unschooling, na expressão em inglês) e apresenta famílias da Alemanha, Estados Unidos, França e Reino Unido que vivem ou vivenciaram essa experiência, além de ouvir educadores e especialistas no tema. Também é possível ouvir histórias e conhecer jovens que tiveram uma educação livre, porém, mais tarde optaram por ingressar no ensino formal em renomadas universidades. Segundo Clara, que é mãe de uma menina de um ano e um menino de 6, a intenção não é julgar a escola ou tentar apontar um único caminho, mas mostrar que também existem outras possibilidades para aprender. “O importante é informar para que as pessoas possam escolher, cada um para a sua família”, defende.
Confira a seguir alguns trechos da conversa com a cineasta.
Quais foram os primeiros questionamentos que surgiram quando você começou a pesquisar sobre desescolarização?
Quando ouvimos falar pela primeira vez sobre não escolarizar – e não apenas o fato de não ir para uma escola e fazer a escola dentro casa –, não entendíamos como era possível aprender sem a necessidade das coisas serem ensinadas. Estávamos muito formatados e não conseguíamos imaginar fora desse paradigma. Conhecendo as crianças que aprendem de maneira livre, descobrimos que elas aprendem vivendo. Como falou Alan Thomas, professor da Universidade de Londres, durante o filme, tudo o que você precisa para funcionar na sociedade, você vai aprender vivendo. Na verdade, se você vive em uma cultura com livros e coisas escritas nas paredes, no metrô, vai acabar lendo, escrevendo e aprendendo matemática básica – como fazer uma receita para mais pessoas ou dar trocos. Esse tipo de coisa, aprendemos fazendo.
Um dos questionamentos era se os pais precisavam saber de tudo. E na verdade, não. Eu pensava que seria preciso buscar tutores e professores particulares, mas vi que não era exatamente assim. Muito em breve se acham pessoas. Uma aposentada que mora no mesmo prédio pode ficar feliz em partilhar a paixão dela com um jovem. Eles não aprendem a fazer amizade por faixa de idade. Também existe muita troca com outros pais.
De que forma os pais devem estar preparados para isso?
O que os pais [ouvidos durante a produção do documentário] me falaram é que para as crianças aprenderem é preciso viver. O difícil é os pais fazerem um trabalho em si para não criarem muitas expectativas, não colocarem pressão e terem confiança – nas crianças e em si –, o que é muito difícil na vida. Eles reaprendem a ter autoconfiança quando começam a confiar mais nos filhos.
Nas famílias que aparecem no documentário é possível notar uma proximidade com a natureza. Você acredita que a desescolarização tem relação com um estilo de vida próprio?
É muito raro que a desescolarização seja apenas uma opção por uma maneira de instruir os filhos. A vida das pessoas apresenta uma volta para a natureza e a liberdade. Mas muitas pessoas no filme moram na cidade, só que as entrevistas são na natureza porque as crianças passam muito tempo fora. Elas não são presas entre quatro paredes. Quando eu ia conhecer uma família, muitas vezes ela estava fazendo uma atividade fora. Eu até descobri parques públicos em Paris que não conhecia. Foi interessante. Eles têm mais tempo na natureza, é verdade, mas isso não quer dizer que necessariamente moram fora da cidade.
A desescolarização não é possível para qualquer pessoa?
Eu prefiro falar que não é para qualquer um por causa do jeito que a sociedade está organizada. Mas aí existe um problema de sociedade que não tem nada a ver com uma questão de aprendizagem. Se todo mundo seria capaz em uma sociedade natural? Sim. É assim que os mais tradicionais funcionavam. É assim que as pessoas sempre aprenderam: vivendo, olhando, imitando e indo atrás dos seus interesses. Mas na sociedade do jeito em que está, claro que existem pessoas que podem ter alguma situação que não permitiria isso.
Mas eu vejo pessoas que decidiram sair da cidade e ganhar menos no trabalho. Conheci muitas pessoas que viram o filme no cinema na França e me contaram exemplos muito extremos. Uma mãe solteira, com dois filhos adolescentes, contou que eles viveram com 500 euros por mês durante anos. Esse é um exemplo extremo, mas todo mundo poderia. As pessoas reinventam a vida que realmente convém para elas.
As crianças, jovens e adultos não escolarizados que aparecem no documentário apresentam algumas características em comum, como o interesse pelas artes e a criatividade. A educação livre estimula o desenvolvimento dessas habilidades?
Como é falado no filme, toda criança tem essas características de criatividade e imaginação. Você começa uma história e eles inventam o fim. Isso é natural. Eu não acho que a desescolarização desenvolve mais. Mas eu acho que, na maioria das escolas, o fato de os alunos ficarem muitas horas sentados e fazendo o que os outros falam tira uma parte da criatividade. São outras necessidades. São as necessidades da revolução industrial, dessa coisa de escola para todos. Aí você não tem mais muito tempo de imaginação.
As crianças não escolarizadas, pelo menos a partir de observações no documentário, parecem não fazer muita separação entre o tempo do aprendizado e tempo da diversão. Como isso muda a forma de encarar o mundo e encontrar prazer nas coisas que se faz?
A gente não nasce com essa separação. Ela começa na idade em que a gente entra na escola. Minha filha com seis meses parecia que queria andar, e a gente acreditou. Ela estava tão decidida, mas demorou seis meses. Durante esse tempo ela ficou caindo e ficou frustrada, mas era lúdico. Não havia separação: “Agora vou trabalhar e fazer um passo e meio, depois eu vou brincar.” Não. Aprender é brincar; e brincar, o meu trabalho.
As duas coisas mais difíceis que as pessoas aprendem na vida inteira, que são andar e falar, ninguém vai ensinar. “Vamos trabalhar e vamos fazer uma hora de andar. Uma hora de falar português.” Isso não existe. Mas aí chega uma idade, como o Alan Thomas fala, e todo mundo tem que mudar a maneira de aprender. Aí falam “olha, você vai fazer uma coisa que não é sua, mas você vai ter a recompensa e poder brincar depois.” Aí começa a separar. É tão triste.
Alguns especialistas criticam o modelo pela questão da socialização, mas no filme percebemos que as crianças também convivem com outras crianças, jovens e adultos. Como essa mistura de idades diferentes pode enriquecer o aprendizado?
Eu acho que, mais uma vez, entra essa coisa de separação, agora por idades. Como não acontece isso, eu acho que socialização e o isolamento é o primeiro preconceito que cai porque você percebe que é ao contrário. Não é a socialização de estar com 20 crianças que nasceram no mesmo ano, no mesmo bairro (se for o caso de uma escola pública) e da mesma categoria social (se for uma escola privada) onde os pais têm rendas similares. Aí você não tem uma quantia representativa de crianças do seu país.
Um dos pontos que chama bastante atenção no filme é a fala de adultos que tiveram uma educação livre durante a infância e adolescência e, mais tarde, optaram por ingressar no ensino formal em grandes universidades. A desescolarização é um caminho flexível que possibilita entrar e sair dele?
Totalmente flexível. Eu conheço famílias em que um filho vai [para escola] e outro não. Não é uma coisa que você precisa decidir para 12 anos. É um dia de cada vez e o que funciona melhor para a pessoa. Dentro de cada família vai ser diferente para cada criança. Cada criança tem necessidades diferentes.
E como avaliar o aprendizado?
Eu realmente não acho que deve ser avaliado. Tem um fato bem interessante no filme, na cozinha da Naomi [entrevistada no documentário], quando se fala “mas como você sabe que está expondo o suficiente?”. Você vê se a criança está bem. Uma criança que não estaria aprendendo, não estaria bem. Você, como pai, convive com ela e vê se está se desenvolvendo e se está entusiasmada quando acorda de manhã… se está indo à luta. Se [a criança] está, quer dizer que ela está aprendendo o que quer aprender e o que deve aprender. Se você vê que a criança está apagada, aí tem um problema. Se eu tivesse que resumir, unschooling é confiar e escutar uns aos outros. Você conversaria e acharia uma solução. Você veria qual necessidade fundamental da criança não está sendo satisfeita. Você acharia outras maneiras. Mas agora avaliar, não. Quem decide o que vai ser uma matéria?
Eu acho que não só não é necessário, como também não é saudável. Aí que começa perder a autoconfiança. Começa a se comparar com os outros. É uma condicionalidade de dizer que você não é suficiente. Eu adoro uma frase do Einstein que aparece no filme: “Todo mundo é um gênio. Mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele vai passa a vida toda acreditando que é estúpido.”
Entrevista originalmente publicada no site Porvir, que promove a produção, difusão e troca de conteúdos sobre inovações educacionais. Via Opera Mundi.
Abaixo, segue uma mostra da genialidade de Sagan, restando esta muito bem demonstrada no livro “O mundo assombrado por demônios“. Vale a leitura e a meditação.
“Ele tinha um apetite natural pelas maravilhas do universo. Queria conhecer a ciência. O problema é que toda a ciência se perdera pelos filtros antes de chegar até ele. Os nossos temas culturais, o nosso sistema educacional, os nossos meios de comunicação haviam traído esse homem. O que a sociedade permitia que escoasse pelos seus canais era principalmente simulacro e confusão. Nunca lhe ensinara como distinguir a ciência verdadeira da imitação barata.”
“Os relatos espúrios que enganam os ingênuos são acessíveis. As abordagens céticas são muito mais difíceis de encontrar. O ceticismo não vende bem.”
“Ele simplesmente aceitou o que as fontes de informação mais difundidas e acessíveis diziam ser verdade. Por ingenuidade, foi sistematicamente enganado e ludibriado.”
“O físico britânico Michael Faraday alertou contra a tentação poderosa de procurar as evidências e aparências que estão a favor de nossos desejos, e desconsiderar as que lhes fazem oposição […]. Acolhemos com boa vontade o que concorda com nossas ideias, assim como resistimos com desgosto ao que se opõe a nós, enquanto todo preceito de bom senso exige exatamente o oposto.”
“Como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar.”
“Essa é uma das razões pelas quais as religiões organizadas não me inspiram confiança. Que líderes dos principais credos reconhecem que suas crenças talvez sejam incompletas ou errôneas, e criam institutos para revelar possíveis deficiências doutrinárias?”
“Um extraterrestre, recém-chegado à Terra – examinando o que em geral apresentamos às nossas crianças na televisão, no rádio, no cinema, nos jornais, nas revistas, nas histórias em quadrinhos e em muitos livros –, poderia facilmente concluir que fazemos questão de lhes ensinar assassinatos, estupros, crueldades, superstições, credulidade e consumismo. Continuamos a seguir esse padrão e, pelas constantes repetições, muitas das crianças acabam aprendendo essas coisas. Que tipo de sociedade não poderíamos crias se, em vez disso, lhes incutíssemos a ciência e um sentimento de esperança?”
“A sedução do maravilhoso embota nossas faculdades críticas.”
“Quanto mais desejamos que seja verdade, mais cuidadosos temos que ser.”
“Aqueles que têm alguma coisa para vender, aqueles que desejam influencia a opinião pública, aqueles que estão no poder, diria um cético, têm um interesse pessoal em desencorajar o ceticismo.”
“Só confie numa testemunha quando ela fala de questões em que não se acham envolvidos nem o seu interesse próprio, nem as suas paixões, nem os seus preconceitos, nem o amor pelo maravilhoso.”
“É impressionante como as emoções podem se acirrar sobre uma questão a respeito da qual conhecemos de fato muito pouco.”
“O medo de coisas invisíveis é a semente natural daquilo que todo mundo, em seu íntimo, chama de religião. Thomas Hobbes, Leviatã.”
“Em nossa vida diária, incorporamos sem esforço e inconscientemente normas culturais que transformamos em coisas nossas.”
“Um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento. – Francis Bacon, Novum Organon (1620)”
“Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é evitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados.”
“Quando aparece alguém que desafia o nosso sistema de crenças, declarando que sua base não é suficientemente boa – (…) – tal fato se torna muito mais do que uma busca pelo conhecimento. Nós o sentimos como um ataque pessoal.”
“Ninguém pode ser inteiramente aberto a novas idéias ou completamente cético. Todos temos que traçar o limite em algum lugar.”
“Conheço muitos adultos que ficam desconcertados quando as crianças pequenas fazem perguntas científicas. Por que a Lua é redonda? (…) ‘Como é que você queria que a Lua fosse, quadrada?’ As crianças logo reconhecem que esse tipo de pergunta incomoda os adultos. Novas experiências semelhantes, e mais uma criança perde o interesse pela ciência. Porque os adultos têm de fingir onisciência diante de crianças de seis anos é algo que nunca vou compreender. O que há de errado em admitir que não sabemos alguma coisa? A nossa auto-estima é assim tão frágil?”
“O que elas querem que seja verdade, elas acreditam que é verdade.”
“Somos viciados em significados.”
“Os estereótipos são numerosos. (…) A interpretação mais generosa atribui esse modo de pensar a uma espécie de preguiça intelectual: em vez de julgar as pessoas pelos seus méritos e deficiências individuais, nós nos concentramos em uma ou duas informações a seu respeito, que depois inserimos num pequeno número de escaninhos previamente construídos. Isso poupa o trabalho de pensar, embora em muitos casos custe o preço de cometer uma profunda injustiça. Com isso, aquele que pensa por estereótipos também fica protegido do contato com a enorme variedade de pessoas, a multiplicidade de maneiras do ser humano.”
Certa vez, num bate papo despretensioso com uma grande amiga e mãe de gêmeos, ela me disse: “Não sei o que vou ser quando eles crescerem”.
Em um primeiro momento essa frase me soou um pouco indigesta. Fiquei espantada com essa reflexão.
Pensei que, antes da maternidade, estamos empoderadas de uma identidade: somos mulheres, profissionais, amigas, ocupamos um lugar na sociedade e enfim, somos tudo que podemos ser num contexto “sócio-político-econômico-espiritual-familiar”.
Conversamos um pouco mais sobre sua preocupação, mas não aprofundamos o tema. Nos despedimos e fiquei pensando nessa indagação: “Não sei o que vou ser quando meus filhos crescerem”.
Fiz essa pergunta a mim mesma e confesso que minhas respostas foram bem vagas. Pensei que com todo o tempo que me sobrará quando meu filho não depender mais de mim que posso ser astronauta, física, arqueóloga, musicista ou veterinária.
Pensei nessas possibilidades, porque todas essas profissões eu desconheço, mas me sobrando tempo poderia me aprofundar em todos esses temas.
Lembrei-me da primeira semana que meu filho foi á escola. Tinha 1 ano e 6 meses. Tinha confiança extrema nessa escola para entregar meu filho e nessa fase de adaptação ficaria das 13:00 as 15:00 horas.
Essa foi nossa grande primeira separação. Obvio que ele chorou um pouquinho na porta da escola para se despedir e sai com o coração aos pedaços. Como psicóloga, sempre disse que os filhos são para o mundo e antes de ser mãe, achava que essa missão era fácil por ser óbvia.
Voltei para a casa, não quis assumir compromisso algum esse dia, pois talvez meu filho chorasse tanto que precisasse voltar para a escola e busca-lo mais cedo que o previsto.
De volta para a casa, senti um estranhamento estar com os braços vazios. Casa que tem bebês tem um cheiro muito especial, um cheirinho delicado, encontramos apenas o cheiro de bebê e pela primeira vez nesse tempo todo, nos deparamos com a ausência dele.
Fiz um café e nesse dia meu marido também estava nessa missão comigo. Foi ideia dele colocá-lo na escola, afinal, como um bom pai, consegue preparar mais facilmente o filho para o mundo. Finalmente tomamos o café para aliviar o vazio e esperar o tempo passar e por alguns momentos achei que o relógio estivesse quebrado, pois o tempo não passava.
E chegou a hora de buscá-lo na escola. Imaginamos que nos contariam que ele chorou, pediu e implorou pela mãe e pelo pai e todas as fantasias que rondam na grande primeira separação entre pais e filho. Entretanto, a professora e os funcionários da escola disseram que ele tinha ficado muito bem. Comeu, brincou e explorou o ambiente.
Confesso que fiquei um tanto perplexa, pois a separação para ele foi menos difícil do que para nós pais.
E, depois de passada a perplexidade, pensei que foi menos difícil para ele porque estamos fazendo um bom trabalho e por isso ele conseguiu se desprender de nós com certa facilidade. Confia no amor que sentimos por ele a ponto de estar seguro que voltaremos para buscá-lo.
E é assim que deve ser, pois pais bons colocam os filhos para fora do ninho. O maior desafio dos pais é criar os filhos para o mundo e prepará-los para as adversidades da vida.
Quando ele nasceu tive que reorganizar toda a minha vida. Diminuir minha agenda, fazer o tempo durar mais, ver menos meus amigos, deixar as leituras de lado, assistir menos filmes entre diversas outras adaptações. Fiz toda uma organização para ele ficar bem acomodado na minha vida e, de repente, eles está se independendo, já não precisa de fraldas, colo e se diverte sozinho ou com os amigos. E a mãe já não é tão necessária, começa a sobrar tempo. E o que fazer com esse tempo que sobra e que antes faltava?
Claro que continuarei a ser mãe, psicóloga, esposa, amiga e tudo que eu já sou, entretanto, fiz o tempo esticar tanto nos últimos anos que sobrará horas do meu dia, e, com todo o tempo que sobrar, talvez eu possa ser astronauta e física, arqueóloga e veterinária e até cantora, tudo junto.
E se fizermos um bom papel de mãe e pai certamente os filhos irão embora algum dia e carregarão dentro deles tudo o que conseguimos passar de bom, e sempre voltarão quando quiserem, precisarem ou sentirem saudades.
Depois de cumprirmos essa missão com êxito, nos sobrará o tempo, e seremos melhores em qualquer coisa que decidirmos fazer, pois depois da maternidade mudamos nosso olhar sobre o mundo, somos menos exigentes, mais gentis, persistentes e, sobretudo, mais fortes. Sendo mais fortes, qualquer desafio ou sonho parece possível de ser alcançado, afinal, se conseguirmos colocar nossos filhos num bom caminho e prepará-los para as dificuldades do mundo, todo o resto é possível.
Quando se espera um filho, a primeira coisa que passa pela sua cabeça é “qual será o sexo do bebê?” Essa curiosidade parece tomar conta de meio dia da vida de uma mulher grávida e não é somente porque esta é uma questão das mais sérias, definitiva mesmo, que vai ou não responder às expectativas e desejos acalentados, às vezes, por anos a fio (algumas mulheres desde meninas decidem se querem ser mães de meninas ou meninos), mas também é porque ela inaugura um período maravilhoso e ansiosamente esperado da maternidade: a fabulosa temporada de compras!
A partir do momento em que se sabe o sexo do bebê é dada a largada para uma corrida contra o tempo, afinal só temos cerca de 7 meses para comprar tudo (eu disse TUDO e algumas mulheres costumam levar isso ao pé da letra) o que sonhamos a vida toda para o nosso bebê e também uma corrida contra os nossos bolsos (e, por vezes, dos maridos), pois gastamos na gravidez muito mais do que conseguimos gastar em todos os Natais da nossa vida. Também, pudera… a gravidez trás essa sensação de poder nunca antes experimentada, seja porque você tem o poder de criar uma vida, de gestá-la no interior de seu ventre ou o poder, de pela primeira vez, conseguir gastar mais do que o Ike Batista em suas melhores fases.
A descoberta do sexo do bebê é mais ou menos como ganhar na loteria (há mulheres que não têm mesmo, pelo menos é o que dizem, uma preferência definida). Você pode até não jogar, mas sempre pensa na possibilidade de ganhar e no que irá fazer quando a grana toda estiver nas suas mãos. Então, é mais do que justo que, ao descobrir se irá ter um menino ou uma menina, você queira comprar todas aquelas roupinhas lindas (gente tem coisa mais fofa do que roupa de bebê?), decorar o quarto dos seus sonhos (ainda que o resto de casa se pareça mais com um pesadelo) e gastar todas as suas economias (e a do marido, dos pais, quem sabe até da vizinha) comprando o enxoval mais lindo e maravilhoso de todo o mundo, pois é assim mesmo que as futuras mamães se sentem.
Alguns poucos casais preferem não saber o sexo do bebê até a hora do parto. Acredito que não haja muitos estudos sobre isso e não se sabe até o momento se é por algum tipo de superstição, crença religiosa ou se é apenas uma estratégia masculina para frear o consumismo desesperado que costuma assolar as grávidas na compra do enxoval. Sinceramente, fico com a terceira opção. Porém o não saber o sexo do bebê tem virado moda e é visto como algo cool, especialmente entre as celebridades que mais parecem o Dalai Lama, de tanta serenidade que demonstram ao conseguir controlar a curiosidade natural sobre saber o sexo do bebê (a maioria de nós, no entanto, não parece ter conseguido alcançar tamanha elevação espiritual). Sinceramente acho que essa postura está mesmo relacionada ao status financeiro do casal, pois deixar pra comprar a maioria das coisas de última hora, só após o nascimento, sem lançar mão do milagre da multiplicação que permite o parcelamento das compras, só pode ser coisa mesmo de gente rica. Até porque, cá pra nós, nem o Pelé iria conseguir comprar todo um enxoval em peças verde ou amarelo que, como dizem por aí (há controvérsias!) vão servir tanto para meninas quanto para meninos.
Apesar das compras, (vamos, admita! rs), serem um dos pontos altos da gestação, a fase em que a gente ainda não sabe o sexo do bebê também pode ser um período bem divertido. Quase todo mundo que você conhece vira vidente. Todos tentam advinhar o sexo do seu bebê e, pra isso, vale tudo: ver se você tem ou não uma dobrinha no queixo ao apertá-lo (algumas pessoas apertam tão forte que você passará a tê-la e até hoje não descobri se isso fez o seu bebê mudar de sexo), a simpatia do garfo e da colher, pegar um cordão e balançá-lo como um pêndulo e dependendo da direção que ele tomar, será menino ou menina, entre outras tantas. Não, realmente não irei contar aqui o que significa você ter ou não a dobrinha no queixo e o que quer dizer o modo como o seu cordão balança. Primeiro, porque não iria, de maneira nenhuma, estragar a alegria das suas tias, madrinhas e amigas e porque, sinceramente, percebi, ao longo das minhas próprias gestações, que esses critérios podem mudar, dependendo da memória de quem aplica esses “métodos infalíveis”. Tá bom, tá bom, admito que não acredito muito nessas coisas, mas pra seu consolo, às vezes elas podem dar certo (os famosos 50%) e é isso que mantém viva a reputação de muitas videntes que você encontrará pelo caminho. Agora, se no seu caso, sua tia ou madrinha for a mãe Diná, retiro tudo o que eu disse e pode sair comprando tudo já no segundo mês.
Uma coisa, tenho que admitir. Independente de qualquer crença, todo o carinho, o interesse e a atenção que você recebe nesses momentos é que, sem dúvida nenhuma, serão algumas das melhores coisas que você irá vivenciar durante a sua gravidez. E, pra falar a verdade, menino ou menina? Tanto faz! Quando nasce, isso é o que menos importa. O que vale é que ter o seu bebê nos seus braços é uma felicidade tão grande que poucas experiências se compararão a isso. Será aquele amor nunca antes experimentado e que, independente da cor, seja ela rosa ou azul, fará você se sentir como se tivesse encontrado o pote depois do arco-íris, porque o amor, ah, esse é colorido!
Luzes da Aurora Boreal nem sempre são verdes. Tem azul, purpura, vermelho, explicou Brotto
“Em certo momento, um monstro verde veio do céu. Parecia que ele iria me abraçar ou me engolir. Eu fiquei com medo. Não tinha para quem perguntar se aquilo tudo era verdade. Será que estou sonhando? É tão lindo assim? Senti medo, senti encantamento. Desconfiei até mesmo daquilo que eu estava olhando, tamanha era a beleza. Aí foi paixão.”
Poderia ser um sonho ou até mesmo cenas de filme de ficção científica, mas a descrição acima é a mais pura realidade. É o relato de quando Marco Brotto, 44 anos, viu pela primeira vez os raios de luz da Aurora Boreal.
Brotto é um “caçador” de Aurora Boreal, como são chamadas as pessoas que saem pelos países nórdicos em busca de presenciar o mágico fenômeno. A história dele chegou até mim por indicação de uma amiga no Facebook. E foi assim que conheci a saga dele e o procurei para dar uma entrevista aqui pro Vidaria. Eu pouco sabia sobre Aurora Boreal, mas se já fico encantada com o céu iluminado numa noite de lua cheia em São Paulo, consigo imaginar o quão grande deve ser o encantamento ao ver tais raios de luzes no céu. Ter conhecido a história dele e seu encantamento pelo fenômeno só reforça minha pergunta: qual é o sentido disso tudo?
Luzes da Aurora Boreal nem sempre são verdes. Tem azul, purpura, vermelho, explicou Brotto
Mas vamos à história de Brotto. O comerciante me contou que o acontecimento descrito no começo deste texto, um “marco” em sua vida, ocorreu em 2011, na Noruega. Ele estava sozinho e tinha ido ao país nórdico justamente em busca do fenômeno. As temperaturas chegavam a -16ºC e fortes nevadas levaram a uma sequência de cancelamentos de excursões coletivas que caçariam a Aurora.
Brotto não desanimou, alugou um carro e saiu a sós pela região. Com dicas da central de turismo local, encontrou pontos onde é possível ver o fenômeno. O que ele não imaginava é que conseguiria ver a Aurora na última noite de sua viagem.
Era a segunda vez que o comerciante viajava em busca das “mágicas” luzes no céu. A primeira tentativa foi em 2008, no Alasca, quando ele comprou um pacote de cruzeiro para a região. “Ingenuamente eu achei que durante todo o cruzeiro eu poderia ver a Aurora, que era só olhar para o céu e tudo ficaria verde.” Não deu certo porque os cruzeiros não chegam até o local das auroras, explicou.
Foi uma conversa entre amigos em 2007 que originou a perseguição de Brotto pelas Auroras. Ele estava com o grupo no Death Valley, nos Estados Unidos. “Conversávamos sobre as estrelas e sobre o silêncio assustador que tem no deserto. Veio daí a imaginação de como seria ver essas luzes verdes que vêm do Norte”, explicou. “Resolvi pesquisar. Deu nisso.”
De lá para cá Marco já fez 15 expedições para o Ártico. Já conheceu Noruega , Estados Unidos (Alasca), Canadá , Rússia , Islândia , Finlândia, Suécia e Dinamarca (Ilhas Faroá). “Falta a Groenlândia para fechar os países que o círculo polar ártico corta”, disse.
Somente na primeira viagem, ao Alasca, é que Brotto não viu a Aurora Boreal. “Depois disso eu tive muita sorte. Praticamente todos os dias eu consegui ver. Às vezes, durante a noite, vemos dois ou mais eventos”, relatou.
‘Arrepia tudo’
A Aurora Boreal é um fenômeno visual que ocorre no extremo norte da Terra. De acordo com o site “Só Geografia”, as luzes aparecem no céu função do contato dos ventos solares com o campo magnético do planeta (leia mais aqui).
Apesar da explicação científica, presenciar essas luzes não é apenas um fenômeno para se observar, mas sim sentir, segundo Brotto. “Eu digo que a gente não vê, a gente sente. Arrepia tudo. Mesmo no frio, parece que os poros abrem e você descarrega as coisas ruins e se purifica. É um encontro mágico com um fenômeno que você não acredita que está vendo, o céu em chamas verdes.”
Brotto relatou que a duração da Aurora é variável, sendo que ele já presenciou Auroras fantásticas de 3 minutos e outras de oito horas. “É adrenalina o tempo todo. No Alasca já teve noite que eu fui à caça às 4h da manhã, quando a maioria das pessoas acha que não tem mais Aurora.” Além da adrenalina, há o frio – ele explicou que usa cinco camadas de roupas, “uma cebola”, nas palavras dele.
Coach de Auroras
O que o move a sempre voltar e ver uma nova Aurora não é só o prazer de presenciar o fenômeno, mas sim de compartilhar tamanha beleza com os demais. Em 2014, após 10 viagens, passou a realizar, como coach, expedições para levar a experiência a outras pessoas, em parcerias com agências de turismo.
“É um assunto apaixonante, lindo, que me atrai pela realização de ajudar as pessoas a realizar seus sonhos. Eu acho que a gente tem que compartilhar informações, dividir conhecimento e experiência. Quando recebo um recado de alguém grato pela minha ajuda, me realizo.”
Aliás, Brotto compartilha uma série de fotos e informações a respeito das viagens na página www.auroraboreal.blog.br. Quem quiser ver suas lindas fotos também pode segui-lo no Instagram: @marcobrotto
Brotto: ‘Quando vejo uma Aurora, perco totalmente a noção de tempo e espaço’ (Foto: Divulgação)
Cores
O caçador de Auroras explicou que nem sempre as luzes do fenômeno são verdes. “Tem azul, rosa, púrpura. O verde é o mais comum porque é o contato do plasma com o oxigênio da atmosfera, daí o nitrogênio forma verde e tons avermelhados. Quando a tempestade é mais forte, ela entra mais na atmosfera pegando mais nitrogênio nas baixas camadas, por isso aparece mais vermelho”, explicou.
Ele também lembrou que cada pessoa tem uma percepção diferente das cores. “Tem pessoas que simplesmente não veem os vermelhos. O azul e o verde são muitas vezes confundidos”, disse.
Apesar de toda a experiência e das expedições, o comerciante diz que ainda não consegue viver financeiramente apenas de ver a Aurora Boreal. Diz que é bastante econômico e que a maioria das viagens que faz é com recursos próprios.
Sentido da vida
Para Brotto, a vivência de ter visto a Aurora Boreal e o desafio que enfrentou para ver o fenômeno o fez pensar bastante sobre o sentido da vida. “Quando eu voltava sozinho da minha primeira Aurora, foi um marco na minha vida, retornou na memória a tentativa frustrada no Alasca, as dificuldades, o sonho, a persistência, o frio, e assim por diante. Hoje sou muito mais desapegado das coisas materiais, tento ser mais justo nas relações humanas, praticando empatia, me colocando o lugar dos outros.”
Ele disse acreditar que todo mundo pensa a respeito do sentido da vida. “Temos que viver intensamente todos os dias, não como se fosse o último, mas como se fosse o único. O último parece que temos que acelerar para fazer tudo de uma vez. O único é mais prazeroso e saboroso.”
Quando vê uma Aurora, Brotto diz que sai do tempo. “Quando vejo uma Aurora, perco totalmente a noção de tempo e espaço. Começo a pensar nas coisas que existem e não sabemos. Sentir a Aurora não é somente olhar para o céu e ver a chuva de luzes, vai muito além disso.”
Chove. Chove no domingo. Chove muito neste domingo.
Chove porque quero e também porque preciso que chova.
Chove muito: por dentro e por fora de mim.
A gota que cai é a mesma lástima que respingo.
A lágrima que cai é a mesma chuva que lá fora se faz – gotas parecidas, motivos distintos. Chove muito neste domingo.
E assim eu o precisava.
À medida em que me intensifico, intensificam-se as gotas – para fora de mim. Em lágrimas, e rua, caindo, estreitas assim.
A chuva lava minhas impurezas – porque também erro no amor (e admito).
Lava a mim. Lava a meu ser, minhas dores, meus receios e anseios.
A chuva que cai fora de mim é a chuva que eu preciso que caia.
Deixo para com ela tudo o que não fui, tudo que não disse, tudo que não fiz. Toda oportunidade que adormeceu. Tudo que não compreendo: afinal, às vezes não compreendo nem a mim ou às nuvens chuvosas presentes em dias ensolarados. Ela vem e se intensifica, e quão mais forte se torna, mais sereno me comporto.
Vou sentindo este manto, este velcro, este torpor.
Sinto alegria e amenismo, esta hipérbole dentro de um senhor.
E também envelheço!
Acalmo-me quando a chuva se acalma. Vou-me quando ela se vai.
O banho não é de desígnios, mas de alma.
O estalar das gotas no chão ecoa e seu barulho simboliza o término de cada emoção que a gota representa.
Mimetismo e analogia.
Animosidades e desígnios.
O estalar das gotas pontua-me.
Me leva.
Me lava.
Alexandre Bonilha
Alexandre Bonilha é advogado, poeta às vezes e filósofo – quase – sempre, aprecia o “CONTI outra” desde quando começou.
Otto era um imigrante que, depois de andar pelo mundo como embaixador, resolveu se estabelecer no país para que os quatro filhos, ainda jovens, pudessem criar algumas raízes.
Era um homem culto de educação formal, a mesma que passou aos filhos. Otto não cultivava paixões. Adorava ler e era um profundo conhecedor de arte e música clássica. Em seus momentos livres e de solidão, se dedicava as coisas que lhe tocavam o coração.
Um dia, depois de um almoço em família, como de habito, se retirou e foi ler um pouco. Seus três filhos mais velhos, já casados ou vivendo por conta própria, tinham retornado às suas casas. O mais novo tinha saído com amigos e só restavam ele e sua amada esposa, que se ocupava de colocar a casa em ordem.
Sem que percebesse, um de seus filhos tinha deixado em sua cabeceira um livro, “O Homem que Amava Caixas”.
O pequeno e poético livro de Stephen Michael King, conta a historia do menino que ama o pai, que, por sua vez, amava caixas. O pai não era capaz de demonstrar ao filho o quanto o amava, então ele passou a fazer milhares de brinquedos para o menino, demonstrando assim o seu amor.
Ele leu e o releu diversas vezes. Seu coração estava apertado, como se uma mão o segurasse. Seus olhos lacrimejavam sem controle. Otto nunca tinha sido capaz de abraçar nenhum um de seus filhos. E dar-se conta disso aquela altura o deixou muito, muito triste.
Pensou em seu próprio pai, figura seca apesar de presente. Falecido há tantos anos. Otto jamais soube se era amado por ele. E chorou. Chorou pensando que estava envelhecendo e que seus filhos também não saberiam se eram amados por ele.
Ficou ali, sentado um bom tempo com seus próprios questionamentos.
Embora nunca tenha deixado totalmente de trabalhar, já tinha se aposentado há alguns anos.
Pensou e pensou até que, uma luz o iluminou, e se levantou com uma nova decisão. Iria se tornar alfaiate. Sim, alfaiate!
Nos meses que se seguiram, sem dizer nada a ninguém, Otto fez cursos aqui e ali, comprou uma máquina de costura e, em um dia de dezembro, num almoço qualquer, chamou os filhos em seu pequeno escritório, agora transformado com tesouras, tecidos e moldes.
Ninguém dizia nada. Ele então, ignorando a total perplexidade da família, se aproximou com um largo sorriso, jamais visto por eles e falou:
– Agora posso fazer seus ternos, mas para isso, preciso tirar suas medidas.
Todos sorriram desconcertados. Então, cada um deles foi se aproximando, e ao final de cada medida tomada, Otto os abraçava … e eles choraram.