Temos preguiça, sentimos fadiga, criamos temores, vivemos com medo de as coisas darem certo

Temos preguiça, sentimos fadiga, criamos temores, vivemos com medo de as coisas darem certo

Sabotagem. Eis uma palavra que não é tão comum, mas também está longe de ser uma desconhecida em qualquer história de vida.

Você é sabotado, quando te omitem uma verdade, quando é lesado, enganado, injuriado, prejudicado…

Você poder ser sabotado infinitas vezes ao longo da vida. Pode descobrir, pode sequer desconfiar, pode nem querer saber e ir levando…

Você pode achar normal, que é do jogo, pode se sentir ultrajado, magoado, revoltado, enganado…

Mas, e quando a sabotagem parte da parte que deveria se defender das possíveis sabotagens, intencionais ou não?

Fazemos isso? Fazemos esse total desserviço a nós mesmos, sabotando-nos e nos subtraindo oportunidades que poderiam ser positivas para nossas próprias vidas?

Sabotamo-nos quando temos preguiça. Preguiça de tentar algo, pesquisar, preguiça de entender, considerar, analisar. Deixamos de entrar em contato com um monte de novos caminhos, possibilidades, pessoas e lugares, por conta da tal preguiça.

Sabotamo-nos quando sentimos fadiga. Com a velha desculpa de que estamos cansados de tentar isso ou aquilo, que estamos exaustos de bater com a cabeça na parede, a cara das portas, a mão na ponta da faca… sentimo-nos feridos e abatidos pela fadiga. E, para evitar mais dores e mais suores, sabotamo-nos, crendo que estamos fazendo o certo.

Sabotamo-nos quando criamos temores. Da mesma forma que criamos desenhos, textos, looks e fantasias, criamos temores. Temores robustos, bem alimentados, verdadeiros paredões que nos impedem de ultrapassar as dificuldades e enxergar possíveis soluções. E nos sabotamos, em total paralisia.

De fato, queremos demais que a vida seja leve, que o café esteja quente, que a chuva só caia, quando estivermos abrigados e agasalhados, que a saúde esteja em dia e que o mal passe bem longe.

Mas, para afastar o que não queremos por perto, para manter o que já conquistamos e para dar passos mais adiante e vislumbrar outros horizontes, precisamos urgentemente derrotar, esmagar, dizimar esse medo que nos cai tão bem quanto um par de botas de chumbo. Precisamos, finalmente, deixar as coisas darem certo!

Texto revisado por Flávia Figueirêdo

“Minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, por Herberto Helder

“Minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, por Herberto Helder

Herberto Helder — Poemacto II

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

– Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
– Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como direi? –
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder, Poemacto II

O mundo está dividido entre os indignos e os indignados

O mundo está dividido entre os indignos e os indignados

Confira abaixo a íntegra da entrevista concedida por Eduardo Galeano ao programa Singulars, da TV3, no dia 23 de maio. Nela, ele conta as suas impressões ao se deparar com a Espanha dos “indignados”, fala sobre a crise do sistema econômico e político institucional e também comenta a respeito de futebol. Sobre as manifestações, ele acredita que “são os invisíveis se fazendo visíveis, e os que pareciam mudos fazendo-se escutar. E estão dizendo aquilo que têm que dizer. E neste mundo em que todos falam sem dizer, eles dizem dizendo”.

Eduardo, você chega e encontra as praças cheias de gente gritando “outra democracia é possível!”. Que lhe parece?

Eduardo Galeano – Me parece uma experiência estupenda. A verdade é que foi muito emocionante, para mim, estar entre essas pessoas quando cheguei a Madri e recuperar esta energia, este entusiasmo. Esta vitamina “E” de entusiasmo, que às vezes parecia perdida neste mundo que nos convida ao desânimo. Então acho que é uma experiência estupenda, e segue sendo, e a palavra entusiasmo é uma palavra linda, de origem grega, que significa “ter os deuses aqui dentro”. E isso foi o que senti quando perambulava entre as pessoas na Puerta del Sol.

“Nos tiraram a justiça e nos deixaram a lei.” Esta é uma das frases que você pôde ler na Puerta del Sol. Que lei nos deixaram, senhor Galeano?

Galeano – A lei do mais forte. É esta lei que rege hoje o mundo, dentro de cada país e entre os países também, e é uma lei insuportável. Parece hoje que os jovens vêm crescendo em matéria de desobediência contra esta lei que os condena à resignação, à aceitação do mundo tal qual é. E hoje há na América Latina toda, ou quase toda, um problema visível e preocupante que é o divórcio, a separação – eu diria que é um divórcio – entre os jovens, as novas gerações, e o sistema político e o de partidos vigentes. Eu não reduziria a política às atividades dos partidos, porque a política vai muito além. Mas, sim, me preocupa que, por exemplo, nas últimas eleições chilenas dois milhões de jovens não tenham votado. E não votaram porque não se deram ao trabalho de se registrar e porque, no fundo, não creem nisto. Suponho que, principalmente, por não acreditarem nisto. E me parece que isto não é culpa dos jovens, é muito fácil culpá-los, mas a questão vem de cima, está concentrada no topo, e a estes não importa nada de nada. E também nesse sentido gostei de estar nas manifestações, pelo menos na da Puerta del Sol que foi onde pude estar.

Sabe quanta gente não votou ontem na Espanha?

Galeano – Não, não imagino.

Dez milhões de pessoas não foram votar.

Galeano – Bem, é grave, não?

Mas também é um direito não votar, certo?

Galeano – Claro, claro que sim. E é também, por vezes, um modo silencioso de protesto. E também acho legítimo que as pessoas se expressem falando ou calando, pois o silêncio às vezes diz mais que as palavras. E o que eu gostei foi de ver toda esta ebulição de um protesto pacífico, sem violência, como o que vi circulando entre a gente nas diferentes horas do dia, e da noite também. Muito solidariamente, unidos em uma causa comum, e sustentado com convicção a partir da situação tão penosa que vivem hoje na Espanha e em muitos outros lugares do mundo sobretudo os jovens, e, sobretudo os jovens que não têm uma posição, digamos, acomodada. Lá na Sol diziam “com causa, mas sem casa!”, e isso me pareceu revelador, porque uma boa parte das pessoas que estavam ali ficaram sem casa e sem trabalho. Isto é uma coisa a ser levada em conta.

O que está acontecendo neste momento, em distintos países europeus – e eu suponho que no seu mundo, a América Latina, também, mas conheço mais a situação europeia – é que o povo está dizendo “basta!”, algo tão claro como nós, pais, dizendo que nossos filhos não terão o mesmo que nós. E tão claro como nós vemos que isto que nós temos é graças à luta que, em seus momentos, lutaram nossos pais e avós com sangue, suor e lágrimas, e conseguiram os direitos que nós, como pais, não podemos dar a nossos filhos.

Galeano – Claro, este é um dos dramas do mundo em nosso tempo, internacionalmente. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para as classes trabalhadoras, para os que trabalham, estão sendo descartados, jogados no lixo, por governos que obedecem a uma tecnocracia que se crê eleita pelos deuses para comandar o mundo, esta espécie de governo dos governos. Como este senhor que ultimamente se dedicou a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido enquanto o fazia e não foi preso por isso. Ele teria que ter sido preso pelas duas coisas, não só pelas camareiras. É esta estrutura de poder que às vezes é invisível e que, no fundo, controla tudo. Então, quando se consegue aglutinar vozes capazes de dizer “basta!” ou “não, chega!”, a primeira coisa que se deve fazer é escutar estas vozes, com respeito, sem desqualificá-las de antemão, e saber esperar para ver o que é que a vida quer viver. Estas pessoas não parecem esperar ordens de ninguém, atuam espontaneamente, unindo a razão à emoção. Alguns me perguntam “como vai acabar isso?” e eu digo “Não sei como vai acabar, talvez nem acabe. E se acabar, aí veremos”. É como o amor que é infinito enquanto dura.

Sabe… O senhor, Eduardo Galeano, com José Luis Sampedro e Arcadi Oliveres, são referências internacionais de pessoas que, em seu momento, já há bastantes anos, disseram “basta!”. E Sampedro, muito maior, mas muito jovem, este fim de semana fez uma declaração, não me recordo exatamente, mas era algo assim: “As batalhas, temos que erguê-las e lutá-las. Se ganhamos, ou se perdemos, mas temos que lutá-las. Por que este ato solitário de erguê-las, e de lutá-las, é o que as torna tão valiosas.”

Galeano – Ele é um querido amigo pessoal, e eu o respeito muito. E isto é verdade. Estamos também enfermos de existir. O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o sucesso acima de tudo, e, por outro lado, condena o fracasso. Perder é o único pecado que no mundo de hoje não tem redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar. E, bem, ao longo da história muitas pessoas melhores perderam, e isto não lhes tira nem um pouco a razão. Os dois homens mais justos na história da humanidade, Sócrates e Jesus, morreram condenados pela justiça. Os mais justos foram condenados pela justiça. E não deixam de ser justos.

E nos deixaram a lei.

Galeano – E nos deixaram coisas muito importantes. Em primeiro lugar, amor e coragem.

A santíssima trindade, também chamada de Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch, são as agências que qualificam os riscos. Hoje, elas estão fazendo cair as bolsas e o euro, na Europa, porque voltaram a baixar a qualificação da dívida grega. Quem são estas agências? E a quem obedecem?

Galeano – Segundo minha mulher, Helena Villagra, são “As Meninas Superpoderosas”. Eram personagens de um desenho que passava há não muito tempo. Então são estas meninas, que se consideram no direito de classificar e qualificar os países, e dizer se este ou aquele país está indo por um bom caminho, que é sempre o caminho da obediência às ordens ditadas por um sistema que é sempre inimigo do povo. E são dirigidas por tecnocratas que mandam mais que os governos. Ninguém os elegeu, em nenhuma eleição. Que eu saiba, ninguém votou na Standard & Poor’s – que, se não estou equivocado, significa Médios e Pobres.

Mas você conhece os crimes que cometeram estas agências? Eu entendo quando alguém se equivoca porque se equivoca, sem querer. Mas elas estão destruindo países inteiros, estão jogando contra países inteiros, e ninguém diz nada!

Galeano – E os banqueiros de Wall Street, que foram os principais protagonistas desta crise, que provavelmente é a crise mais grave que o mundo já sofreu em muitos séculos de história, talvez a maior fraude já cometida. E nenhum destes banqueiros foi preso. Vão presos os ladrões de galinhas, mas os banqueiros superpoderosos, como as meninas superpoderosas, estes não vão presos nunca. E cometem crimes de desumanidade. Eu vi agora que o Tribunal Penal Internacional quer julgar Gadafi. Sabemos que não é nenhum santo e que seguramente merece ser julgado, mas muito mais merecem ser julgados estes senhores que arruinaram o planeta.

E que hoje nos cobram mais que ontem.

Galeano – E que foram recompensados. Eu havia até proposto uma campanha, quando via os pobres banqueiros chorando suas misérias, este desastre, e junto com outros companheiros nós articulamos uma campanha que não teve muito êxito: “adote um banqueiro”. Vê-se que o mundo tem um mau coração, ninguém o fez.

Eduardo Galeano, como acha que se explica porque nestas reuniões de G20, G8, G1040 – todos dão na mesma –, por que nenhum mandatário, por que nenhum governante, e há alguns das esquerdas, por que nenhum deles se levanta e diz “Basta, acabou! Este mundo não é possível! Eu não vou condenar meus concidadãos à miséria. Não! Basta!” Por que não há nenhum que se levanta, por quê?

Galeano – Há alguns que se levantaram.

No G20?!

Galeano – Não, não, fora do G20. No “G-7 bilhões”, que é esse que abarca a humanidade inteira. Uns tantos se levantaram e disseram “basta!” e por isso foram condenados ao inferno, claro. Por exemplo, me recordo quando o presidente do Equador, Correa, anunciou que não ia pagar a dívida, que não era legítima. Ou seja, que havia nascido de uma armadilha, de uma fraude, de uma violência. E o mundo se doeu: “Mas como? O Equador vai acabar, esse país vai naufragar. Como é que alguém se atreve?”. E não se acabou nada, porque era perfeitamente legítima a decisão de não pagar as dívidas ilegítimas, que são as que estrangulam a maior parte dos países, sobretudo os países mais pobres.

Então, você vê, o problema é que não falta quem o diga, mas sim, digamos, que… Há um sistema que absolve ou condena segundo a boa ou má conduta dos diferentes governos. Mas às vezes as lições de vida, as lições de dignidade que o mundo necessita são dadas pelos menores. Por exemplo, a Islândia. A Islândia é um país minúsculo, perdido aí nos mares do Norte do mundo, habitado por pouca gente – não sei, cerca de 150 mil pessoas, algo assim –, e foi o que mais claramente disse “não”, nestas circunstâncias muito difíceis, ao Fundo Monetário Internacional e à ditadura financeira do mundo, em dois plebiscitos. Porque o FMI e a União Europeia (UE) já haviam dado a ordem à Islândia de que a população, ou seja, os islandeses, teriam que pagar a bancarrota de três bancos de lá, dois bancos muito importantes e outro não tanto, que tinham recebido depósitos de outros países e não podiam pagá-los, e, portanto, a população deveria pagar 12 mil euros per capita. Ou seja, cada cidadão deveria pagar 12 mil euros pela bancarrota dos bancos! Eu não digo que todos os banqueiros sejam delinquentes, mas há banqueiros que são os assaltantes de bancos mais perigosos que há. Eles não carregam nenhuma arma, nem avisam que estão entrando, porque, afinal de contas, estão entrando em suas “casas”. Mas estes são os mais perigosos. E a população da Islândia foi capaz de dizer “Não! Não aceitamos”, e então se fez um plebiscito.

Mas, como para o FMI e para a UE não pareceu ser suficiente, fizeram outro. E ganharam os dois. A Islândia se negou a aceitar como destino a obediência. E afinal, defenderam dignidade humana. Porque este movimento é um movimento tão lindo, que me encanta ver. Este se chama Movimento dos Indignados, e eles não se equivocam com este nome, porque afinal o mundo está dividido entre os indignos e os indignados.

A Islândia disse “Não!” aos mercados. Nós, jornalistas, dizemos “os mercados”. Quem são?

Galeano – Sim, os mercados… É um termo que se usa. Na infância, era uma palavra lindíssima que dava nome ao local de encontro dos vizinhos do bairro. Com todas as suas cores, das verduras, das frutas, as vozes dos vendedores que vinham até os bairros para vender suas coisas. E era uma palavra muito linda. Mas depois se converteu no nome de um deus invisível e muito cruel, que é este que rege nossos destinos. Então, sempre se diz: “Não, isso não. Vai irritar o mercado!”, porque ele tem humor, este deus. E o mercado manda, mas ninguém sabe muito bem quem é ou do que se trata. É como quando se fala em “comunidade internacional”. “A comunidade internacional não deveria permitir isto”, a comunidade internacional é um clube de banqueiros e generais, senhores da guerra e senhores do dinheiro que decidem quem é democrata e quem não é, e decidem quem merece o sucesso, e quem merece a desgraça. E, no entanto, ainda há gente que acredita que outro mundo é possível.

Ontem, ocorreram na Espanha, como se sabe, eleições locais e regionais e o eleitorado espanhol resolveu, por assim dizer, castigar muito duramente o Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Que você acha disso?

Galeano – De fora, não sou ninguém para ditar à Espanha, ou às espanhas contidas na Espanha, normas de boa ou má conduta, até porque justamente agora eu estava falando contra os sistemas autoritários de poder. E também creio que são autoritários alguns intelectuais que vão dar lições às pessoas nos lugares onde estão visitando. Eu vivi na Catalunha muitos anos, dez anos, não me considero estrangeiro aqui, mas deve se ter muito cuidado ao julgar ou emitir opiniões a respeito de acontecimentos tão complexos como é uma eleição, nada menos.

Em princípio, me pareceu muito crível uma manchete do Diário Público do dia 23, que vi, que dizia que o PSOE havia sido castigado por praticar uma política de direita. Provavelmente algo disso deve ter havido, porque o governo talvez não tivesse mais remédio. Não sei precisamente. Mas sei que sim, a Espanha concordou em fazer coisas que não coincidiam muito com o programa de governo do Partido que segue, contudo, governando a Espanha.

Eu antes fiz uma pergunta dizendo que, para um governante, pode ser cruel, especialmente se o governante luta para conseguir mais igualdade. Eu disse que nenhum governante se levantava em nenhuma reunião internacional para dizer “Basta!”. Então volto a perguntar: podem fazê-lo? Me refiro ao G20.

Eu repito: se o G20 não é capaz de tolerar, admitir e promover a diversidade no mundo, ou seja, se não é capaz de praticar a democracia – porque a democracia é isso, diversidade, escutar todas as vozes, outras vozes, em pé de igualdade –, bem, então é necessário substituir o G20 pelo “G-7 bilhões”, que é esse de toda a humanidade.

E isto, como se dará?

Não há receita para isso. Eu não conheço, pelo menos. E desconfiaria muito de alguém que quisesse me vender esta receita. São processos muito complexos, muito complicados, e, além disso, a História é uma senhora de ações lentas e andar suave. As coisas não mudam em uma semana ou um mês. É legítima a necessidade humana de que as coisas mudem enquanto estou vivo, claro, eu quero ver estas mudanças. Esta é uma paixão humana completamente compreensível e partilhável. Mas, não condiz com a realidade. A realidade tem seus tempos e o mundo tampouco caminha em linha reta.

A História é lenta, estou de acordo. Mas imagine você estas dezenas de milhares de pessoas que saíram às ruas, que estão ocupando agora mesmo a Plaza Catalunya, aqui em Barcelona, além de outras cidades da Espanha. Quando isto terminar, pois decidiram terminar daqui a algumas semanas, o que vai acontecer? Estes governantes e políticos democrática e legitimamente eleitos vão levar em conta o que foi feito nas praças, o que foi dito nas praças ou não dará em nada?

Nada dá em nada quando, digamos, se transmite energia. A energia fica, de alguma maneira. Às vezes se transforma em outra coisa, se arranja de outras maneiras. Mas é muito importante o que está ocorrendo nestas concentrações, que são sobretudo juvenis, mas não somente juvenis. Pois, em última instância, são os invisíveis se fazendo visíveis, e os que pareciam mudos fazendo-se escutar. E estão dizendo aquilo que têm que dizer. E neste mundo em que todos falam sem dizer, eles dizem dizendo. E dizem coisas que vale a pena escutar. E eu acredito que estas vozes vão seguir ressoando. Contudo, não quero ser um otimista profissional porque eu sou otimista de acordo com a hora do dia, às vezes sou muito pessimista. E a esperança é uma coisa que por vezes me cai do bolso, e tenho que buscá-la, descobrir onde ela está, recolher alguns pedacinhos, muitas vezes. Não sou um otimista full time, e, além disto, não acredito em quem é. Em muitos momentos tenho esperança, mas, quando não tenho, agarro meus cabelos e rezo para uma nave espacial me levar para outro planeta.

Por que você acha que neste último domingo, no Uruguai, se disse “Não” à suspensão da lei de anistia?

Sim, este também é um processo complicado de explicar assim. Mas, sim, se perdeu por um voto, uma coisa lamentável. Deve-se acabar com uma lei infame, que é uma lei de impunidade. Eu fui membro das duas comissões que organizaram os dois plebiscitos, e os perdemos. Por muito pouco, mas perdemos. E seguiríamos perdendo, um milhão de vezes. Porque eu não creio que valha a pena viver para ganhar, vale a pena viver para fazer o que tua consciência te diz para fazer. E não o que te convém. E isto vale para tudo, para a política, para a vida, para o amor, futebol. O futebol parece estar agora condenado a jogar pelo dever de ganhar, e não pelo prazer de jogar. Por isto estou muito contente de estar aqui em Barcelona para receber um prêmio de um clube que recuperou o prazer de jogar com beleza e limpamente.

Claro, você vai receber amanhã o Prêmio Manuel Vázquez Montalbán de Jornalismo Esportivo.

Sim, e é uma sorte para mim. Sou muito fã de futebol, muitíssimo fã de futebol. E creio que o futebol é um espelho do mundo, que a vida se reflete ali. O melhor e o pior da condição humana estão no campo.

Você é muito fã de futebol, como disse, então suponho que verá este time prodigioso que está fascinando o mundo inteiro, como o Barça, certo?

Sim, sim. Eu adoro o Barça, e, além disso, gosto muito de ver o Messi jogando. Vou contar algo que me veio à cabeça agora e que tem relação com isto… Eu estava no México e, em uma das intervenções públicas que estive, me permiti sugerir aos meus amigos mexicanos que tivessem cuidado com seu poderoso vizinho do Norte que tem o péssimo costume de “salvar” os demais países. E lhes contei que quando vou aos Estados Unidos e faço leituras de meus livros, ou vou às universidades, coisas assim, sempre começo por suplicar que, por favor, não me “salvem”. Eu não quero ser salvo, e este poderoso vizinho do México “salvou” o Iraque, convertendo-o num manicômio, está “salvando” o Afeganistão, convertendo-o em um vasto cemitério. Então eu dizia aos mexicanos “Vamos desconfiar dos messianismos, dos messiânicos. O único messianismo que não é perigoso é o que se chama Lionel Messi.”

O que é Messi?

É a alegria de jogar. Ele joga como se fosse uma criança na várzea, em um campinho, com essa mesma alegria. Espero que não a perca nunca. Ele é excepcional. Por jogar como profissional, tem que cuidar das pernas de outra maneira, mas ele joga esquecendo de que é o número um. Ou seja, Lionel Messi não acredita ser Lionel Messi, por sorte.

Guardiola?

Merece tudo isto, e repito desde que ele era um grande jogador. Não podemos esquecer de que ele foi um grande jogador antes de ser um grande técnico capaz de organizar uma equipe solidária. Um por todos, todos por um, mas onde todos podem jogar e desfrutar. A verdade é que não digo estas coisas para ficar bem com o lugar onde estou, são coisas que acredito profundamente. Não tenho o costume de elogiar quando me convém.

Você sabe que nestas últimas semanas duas equipes antagônicas, Madri e Barça, se enfrentaram quatro vezes, creio. Você enxerga um estilo diferente no Galeano Real Madrid, você que é tão fascinado por futebol?

Sim. Com Mourinho, sim. Mas o Real Madrid pode muito mais do que tem feito nas mãos deste senhor, que além de tudo é muito antipático, porque é muito arrogante. O médico me proibiu contato com os arrogantes.

O médico proibiu? E há muitos deles?

Sim, há muitos deles, e eu não sei lidar!

Eduardo Galeano, outra das frases, ou mensagens, das concentrações nas praças da Catalunha e da Espanha é esta: “Se não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir!”. E eu vou pedir agora, espero que aceite, que nos faça sonhar com a leitura de algum de seus fragmentos.

Sim. Vou ler algumas palavrinhas que têm a ver com o direito de sonhar, com o direito ao delírio, a partir de algo que me ocorreu em Cartagena das Índias, há algum tempo, quando eu estava na universidade fazendo uma espécie de palestra com um grande amigo, diretor de cinema argentino, Fernando Birri. E então os meninos, os estudantes, faziam perguntas – às vezes a mim, às vezes a ele. E fizeram a ele a mais difícil de todas. Um estudante se levantou e perguntou “Para que serve a utopia?”. Eu o olhei com dó, pensando “Uau, o que se diz numa hora dessas?”, e ele respondeu estupendamente, da melhor maneira. Ele disse que a utopia está no horizonte, e disse “Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que se eu caminhar dez passos, ela ficará dez passos mais longe. Quanto mais eu buscar, menos a encontrarei, porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo”. Boa pergunta, não? Para que serve a utopia? Pois a utopia serve para isso: caminhar.

Já sei que você não vai gostar do que eu vou perguntar a seguir, mas devo perguntar. Vamos falar um pouco de você. Você tocou em quase todas as teclas: narrativas, crônicas, jornalismo, desenhista.

Sim, é verdade. E é verdade também que aquilo que escrevo é inclassificável e isto me dá muita alegria. Porque um dos vícios deste mundo, mundo nosso que nos cabe viver, tem um costume perverso, uma espécie de mania, de colocar uma etiqueta na testa de cada pessoa, talvez para poder manipular melhor a condição humana que, por si, tende à liberdade. Classificar-nos seria uma maneira de nos tornar prisioneiros, então o mesmo acontece com os gêneros literários. E aí é que me encanta não ser classificado, quando dizem “O que é isso que estou lendo? É ensaio, poesia, crônica, é ficção, não ficção, de que se trata?”, e eu respondo que não tenho a menor ideia e não quero saber do que é isto que faço. Porque eu sigo o conselho que um senhor me deu, estando eu perdido pelas ruas de Cádiz, há um tempo, me perco sempre porque sou muito disperso e não tenho senso de orientação, ou tenho um grande senso de desorientação, pois me perco continuamente. E estava perdido em Cádiz e eu perguntei pelo Mercado Viejo a um senhor que estava contra a parede, apoiado, e sem desencostar ele me disse: “Nada, faça o que a rua te disser!”. E eu faço aquilo que a rua me diz. Na literatura e na vida também.

 Eduardo Galeano, era escritor e jornalista uruguaio, autor de “As veias abertas da América Latina” e “Memórias do fogo”.

* Transcrição e tradução: Cainã Vidor.

** Publicado originalmente no site da Revista Fórum.

Fonte indicada: Envolverde

Antes duas mãos vazias e todos os pássaros voando

Antes duas mãos vazias e todos os pássaros voando

Quem me dera fosse certo esse ser que diz que bastaria sua presença em minha vida para eu ser feliz. Que esse tempo que consumo com o que me dá prazer, e esse gosto que degusto da vida às vezes é trabalho, às vezes é lazer, é tempo perdido se não lhe dou espaço para adentrar no meu universo.

Confundem retiro com fuga, escolha com falta de abertura. Que liberdade me ditam, que não posso simplesmente saber do que preciso? Por acaso tenho pedido ajuda? Não. Que esses bondosos mosqueteiros possam procurar suas donzelas em perigo. Estou mais para uma amazona cavalgando no prado.

Em lugar de uma noite de sexo, ando preferindo um amigo, um filme, um livro, uma noite contemplando o horizonte. Ando preferindo relações de laços e redes tecidas pela natureza das intensidades, em vez de nós embrutecidos pelos embaraços. Ando refletindo, reorientando meu caminho, e só.

Tenho visto o desespero para além das marquises e dos corpos que se abandonam nas esquinas. Tenho visto o desespero nesses corpos famintos de interesse prometendo soluções para a vida alheia, até destilarem em suspiros prazerosos suas boas intenções. Depois passarão pelos corredores como estranhos.

Troco essas promessas de salvação por novos figurinos para minhas esperanças que contracenam Sonhos de Vigília. Troco esse cofre de ilusões cumulativas por um vale de possibilidades. Troco esse fardo de convenções impositivas por um trago de liberdade.

Conversando com o vazio, descobri seus artifícios – é no vazio que há espaço para os acontecimentos, é o vazio, o espaço latente para a vida. Passando, vou, vejo o que quero deixar, o que quero levar. Que as bagagens sejam leves para poder dançar os tangos das surpresas.

Não me disponho a estar presa, quando finalmente encontrar a centelha de vida que iluminará minha existência. Até lá, alegro-me em acender minhas velas e brincar formas nas sombras. Ter as mãos vazias para colher frutos, dar piruetas, nadar nos rios, experimentar a textura das coisas, cruzá-las sob a nuca, enquanto deitada na relva, acompanho o voo dos pássaros.

Deixo a gaiola aos que temem a imensidão do céu. Deixo as mãos cheias aos que se esquecem da fugacidade da vida. Deixo as lágrimas pelos pássaros cativos e pelas mãos enrijecidas. Deixo ir… Mantenho as mãos livres e os pássaros voando. Procuro o voo meu. Hora dessas, um pássaro livre me pousa no ombro.

Texto revisado por Flávia Figueirêdo

“As Controladoras”, por Flávio Gikovate

“As Controladoras”, por Flávio Gikovate

Elas querem saber onde estão seus companheiros e o que seus filhos fazem “a esta hora ainda fora de casa”; preocupam-se excessivamente com a saúde dos seus pais e de outros parentes queridos. As mulheres controladoras temem que qualquer titubeio ou desatenção traga consequências desastrosas. Acreditam que as coisas estão calmas graças ao empenho que têm em se concentrar o tempo todo nelas. Sabem que gastam enorme energia nesse esforço, mas acham que seu sacrifício é responsável pela conquista de longos períodos de concórdia e bem-estar.

Essa tendência não é exclusividade das mulheres, mas vou refletir sobre a questão, aqui, considerando apenas o aspecto feminino. Mulheres controladoras tendem a ser muito ciumentas em relação aos seus maridos. À noite, fazem aquelas perguntas aparentemente sem importância, mas que expressam um desejo enorme de saber exatamente por onde andaram esses homens – que, segundo elas, estão sempre dispostos a viver aventuras românticas e eróticas. São possessivas também com os filhos, que tentam manter sob suas asas.

Diante de qualquer suspeita de que algo escapou do controle, entram imediatamente em pânico. Experimentam um desespero brutal ao imaginar seus maridos com outras mulheres e terríveis desastres envolvendo seus filhos. Tudo isso acontece sempre que algum deles se atrasa uns poucos minutos. Suas mentes são catastróficas e pessimistas.

A verdade é que não sabemos nada do que realmente importa. Não sabemos de onde viemos, para onde vamos, por quanto tempo estaremos aqui na Terra, nem quais as coisas boas e más que ainda estão para nos acontecer. Nem todos toleram bem essa falta de respostas. Aliás, aprender a lidar com a incerteza em torno da nossa condição é fundamental para que consigamos viver de forma mais feliz. Quem aceita isso sabe que o futuro é desconhecido e o compara a um jogo, como se estivéssemos em um grande cassino onde, todos os dias, podemos ganhar ou perder.

Pessoas que não suportam a ideia da incerteza vivem em um estado de permanente ameaça, a um passo do pânico e do desespero. São criaturas frágeis, pois não se sentem com força para suportar as frustrações e decepções que a vida pode nos impor a qualquer momento. Vivem eternamente preparadas para o pior. Como não podem se assegurar de que as coisas vão dar certo, optam pela certeza de que vão dar errado. E essa certeza nós conseguimos ter, uma vez que induzimos os fatos na direção negativa com muito mais facilidade do que na positiva. Por exemplo, a mulher que teme ser abandonada por um homem poderá se comportar de modo tão desagradável e destrutivo que irá contribuir para que seu pesadelo vire realidade.

É difícil conviver com mulheres tão negativas. Ainda que nem sempre seja sua intenção, elas exercem controle total sobre aqueles que lhe são caros. Transformam-se em tiranas, em criaturas que tentam mandar em tudo e em todos, sempre com o intuito de impedir as desgraças. Aborrecem aqueles que mais amam, além de tornar suas próprias vidas miseráveis. E, pior do que tudo, não conseguem impedir tragédia alguma. A única saída é aceitar a vida como ela é.

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
Facebook: www.facebook.com/FGikovate
Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Casamentos são para sempre. Até que a vida os separe.

Casamentos são para sempre. Até que a vida os separe.

Em nome da felicidade dos casais, as cerimônias matrimoniais religiosas deviam ser radicalmente reconfiguradas. Tá aí uma medida para anteontem. A ladainha do “até que a morte os separe” é uma incorreção flagrante, um equívoco. No mínimo, uma brutal ingenuidade. Porque a morte não separa nada!

Ao contrário, com duas ou três exceções, alguém que enviúva fica ligado para sempre à lembrança do cônjuge que partiu. Ser viúvo é uma espécie de tatuagem emocional, um estigma indelével, uma cicatriz que até se pode amenizar, mas nunca se apaga totalmente. E se você pensar mais além, é bem possível que os casais que se amaram aqui, no solo rachado do planeta, se reencontrem na imensidão do paraíso, dependendo de sua vontade, de seu merecimento e de outras questões. Vai saber, né?

De qualquer forma, o “até que a morte os separe” é uma balela. O que separa mesmo um casal é a vida. Ela, vivinha que só, pulsando volúpia em cada nova possibilidade de afeto. Impossível ser casado, monogâmico e feliz sem fechar as portas, as janelas e os olhos para um monte de coisas da vida além do casamento, a vida que passa “lá fora”, alheia aos compromissos do casal, indiferente à rotina do matrimônio.

Em muitos sentidos, casar-se é renunciar a tudo o que está em terras de além-porta de casa. É, sim, trancar-se a chave nas possibilidades do caminho a dois — que, aliás, são inúmeras e podem ser maravilhosas, mas que a vida, em sua profusão de eventos e em sua diversidade insana, pode fazer parecer mirradas e ridículas. Nesse sentido, ser casado e ser feliz é “abrir o ângulo e fechar o foco”, só para lembrar uma musiquinha linda de Gilberto Gil, que tantas vezes se casou e em todas elas praticou a tão sonhada felicidade conjugal. Até a vida chegar com outra proposta.

Se você se casou e é feliz, parabéns! Merece mesmo toda a felicidade do mundo. Agora, ai de você se olhar para o lado. Deixe entrar no seio nupcial a vida, com suas correntes de vento, pra ver no que dá. Tchauzinho, tranquilidade do casamento. Agora, se o idílio já é nada senão solidão e tristeza, se insistir em reencontrar o amor perdido só aumenta a desilusão, se não há mais sequer respeito entre os dois, desejo do fundo do coração que a felicidade da vida lhe chegue de todos os lados. Do nada e com tudo. Derrubando muros e medos, receios e preconceitos. E que fique só o que tiver de ficar.

A vida entra impetuosa. Mais cedo ou mais tarde, invade o bunker da proteção matrimonial. Chega como uma amiga ou um amigo interessante do casal, enchendo de minhocas a imaginação da mulher, encharcando de volúpia a boca do homem. Chega como um mero desejo de um e de outro relembrarem a alegria da solteirice em inocentes saídas desacompanhadas. Chega sob a forma perversa das chateações inevitáveis do trabalho.

Ah! A vida também chega como um filho, fazendo de amantes insaciáveis pais incansáveis mas quase sempre cansados, consumidos pelo amor dedicado e emocionante da paternidade que nos transforma, por um lado, em pessoas melhores, mais cuidadosas, mais responsáveis e, por outro lado, nos rouba quase todo o tempo, o desejo e a energia que antes nos faziam atravessar a noite em ímpetos de amor louco e desejo insano. Não é regra, mas acontece também.

E aí vem uma vontade boba de viver de novo a doce irresponsabilidade de antes. Daí para o fim do casamento é um pulo. Porque a vida une de um lado e separa dos outros. Ah, a vida…

Portanto, é urgente que as cerimônias matrimoniais — e todo um estado de coisas que elas encerram e representam — ajustem de uma vez essa abordagem. Assim, livres desse peso bizantino da posse infinita sobre o outro, os casais serão mais felizes, sem ilusão, sem ingenuidade, sem cobranças impossíveis, sem mutilar seus instintos.

Liberados da fantasia do amor eterno, os noivos serão mais felizes e livres para se amar e respeitar e trabalhar por seu amor sincera e genuinamente, em seu tempo, com o que têm de melhor, na troca honesta de duas pessoas que se encontram e se doam por livre e espontânea expressão de sua vontade, não pela pressão de suas famílias e suas convenções recalcadas e vingativas. Talvez esteja aí uma boa e ampla definição para a palavra “lealdade”.

E que assim se amem lindamente. Até que a vida os separe. Ou — quem sabe? — os una para sempre.

Acumule vida, não coisas.

Acumule vida, não coisas.

Temos um conceito de necessidade bem versátil, no que diz respeito a gostos e recompensas. A palavra “necessidade” vem com tudo, quando estamos defendendo o que desejamos, sonhamos e acreditamos piamente que precisamos e sem o qual não vivemos. Necessitamos, precisamos a qualquer custo e não sossegamos, enquanto não conseguimos. E começamos a acumular necessidades…

Acumulamos tudo. Papel demais, vaidade demais, lixo demais, comida demais, promessas demais, móveis demais, manias demais, peso demais para uma vida que não depende, nem se garante por nada disso.

Se vamos ao supermercado, enlouquecemos. Compramos muito mais do que precisamos, saímos de lá exaustos, lisos, e com carrinhos abarrotados de coisas que não precisamos, que não suprem a fome que realmente temos. Mas, naquele exato momento, juramos que não haverá possibilidade de vida, se não levarmos quatro potes de cera líquida para tacos. Assim somos. Insaciáveis.

Se passamos na farmácia, viramos imediatamente doentes, de tanta medicação que precisamos ter com urgência em casa, para o caso de uma febre, uma torção, um ataque cardíaco, laringite, sinusite, tendinite…

Em viagem, perdemos totalmente a noção de estadia provisória, levando uma bagagem gigante, pesada, desnecessária, desconfortável e ridícula.

Olhando assim de passagem, eu diria que, compatível com as angústias que desejamos deixar para trás, muitas vezes.

Nós guardamos livros que não iremos ler mais, material escolar que jamais voltaremos a consultar, rolhas de garrafas, vidros vazios, revistas, sacolas, roupas, enfeites, comidas, remorsos, mágoas, invejas, lamúrias, ressentimentos e toda espécie de peso em nossos ombros.

Por fim, ficamos totalmente soterrados e engolidos, desfigurados, irreconhecíveis, distantes demais do que já ousamos sonhar em ser. Não há espaço mais para acomodar a liberdade, não há braços para carregar os sonhos, não há fôlego para acompanhar a vida que passa.

Joguemos fora, portanto, o que nos limita os movimentos. Tenhamos coragem de nos desfazer de coisas e causas que nos paralisam. Necessidade é viver em paz! Necessidade é colecionar lembranças, acumular memórias, estocar conquistas, cercar-se de afetos.

Saiamos das trincheiras, de peito aberto para vida, sem escudos nem proteções. A vida passa rápido demais para sermos unicamente vigias dos nossos pertences. Pertençamos nós à vida, da forma mais livre possível.

Texto revisado por Flávia Figueirêdo

O desinocência dos inocentes

O desinocência dos inocentes

“O inocente é o mais perigoso. Ele tem a raiva maior e age de forma mais destrutiva num relacionamento, porque acha que está com a razão. Perde o senso de medida. O culpado está sempre mais disposto a ceder e a reparar. Via de regra, a reconciliação fracassa não pelo lado do culpado, mas do inocente.”

– Bert Hellinger

Certa vez uma amiga me disse que escrevo em um nível que a maioria das pessoas nem chegou a contemplar, que tenho uma maneira romântica de olhar o mundo. Eu achei graça, mas não esqueci suas palavras, até porque ela não foi a única a achar que tenho uma maneira peculiar e deveras romântica de olhar o mundo. Na época entendi como se fosse um elogio, acredito que foi esse o intuito, mas hoje em minha concepção de mundo, já não considero um grande elogio.

A maneira como vejo o mundo, as exigências que me faço, o que sonho para mim e para aqueles que amo é muito diferente da realidade, eu sempre soube disso. Reconheço que possuo uma ingenuidade da qual muitas vezes tentei me libertar e nem sempre fui bem sucedida. Em desespero, resolvi apelar para os florais, o meu pedido para a “floraterapeuta” foi: “- quero ser mais cética, quero parar de sonhar com um mundo que não existe” (e sim, quero ser cética que ainda acredita em florais). Eu duvido que alguém já tenha pedido algo parecido e meu tom não era de vitimização, era apenas uma constatação de como quero libertar-me de uma espécie de inocência tola que não já não deve pertencer aos adultos.

Explico:

Com certeza é melhor acreditar demais nas pessoas do que viver desconfiada, mas ser cético é diferente de ser desconfiado e é também mais saudável. Além do mais, existe um tipo de inocência que cega, que não é natural dos adultos, que coloca o inocente em risco. As crianças nasceram inocentes, acreditando em palavras, confiando em todos. Ao longo do nosso percurso a maturidade deve nos presentear com uma boa dose de ceticismo e isso não é ruim, é bom desenvolver um olhar mais crítico daquele que aprende a observar. Esse é o processo orgânico do crescer, evoluir, amadurecer, o nosso cérebro é de certa maneira programado para tanto, ou então não existiria diferenciação entre ser criança e ser adulto.

Estive recentemente em um evento de literatura, o Pauliceia Literária, organizada pela AASP e dentre tanta coisa boa, uma das melhores mesas foi a de dois biógrafos e historiadores – Lira Neto e Mário Magalhães. A maneira entusiasmada com que eles falavam de seus trabalhos foi contagiante (até me deu vontade de escrever uma biografia). Um deles disse “o biógrafo deve ser cético, precisa buscar provas de fontes diversas e não parar enquanto não tiver prova suficientemente convincente. É preciso duvidar, sempre!”. E ouvindo isso cheguei a conclusão que no momento não vai dar para escrever uma biografia pelo simples fato de que eu ainda não desenvolvi esse ceticismo todo.

Recentemente vivi um conflito que me despertou para essa deficiência em mim. E engana-se quem acha que me senti a grande vítima da situação, os conflitos são ótimos para dosar nosso auto-conhecimento. Não, não tem nada de belo em ser inocente quando essa inocência pode te colocar em risco e te expor a dramas que você já não deseja mais viver. Lembrei-me da inocência da Chapeuzinho Vermelho que mesmo avisada pela mãe, distraída adentra a floresta, conversa com o Lobo Mau e mais tarde é devorada por ele. Não existe saúde alguma nesse tipo de inocência, é preciso desenvolver um olhar mais aguçado para evitar as (muitas) armadilhas que encontramos pelo caminho.

Ludibriar é um verbo transitivo direto, é uma ação que não acontece sem a relação sujeito-objeto, só ludibria quem tem alguém que se permite ludibriar. Acontece que em uma cultura que preza pela vitimização só leva a culpa o sujeito da ação, o lobo mau, o vilão. Mas no fim do dia, na vida real, na lida do eu-com-eu, onde não existe o julgamento do que a sociedade acha certo ou errado, tampouco existe vilão e mocinha, o que existem são apenas os fatos: enquanto um mente o outro acredita (ou finge que acredita, ou quer acreditar), mas não podemos nos enganar, só existe uma maneira de conhecer alguém de verdade e é sempre através das suas ações.

Seria bom viver em um mundo onde o que vale é a palavra, mas estamos muito longe disso. Os fatos da história, muitos dos políticos e tantos outros acontecimentos nos fazem recordar de que palavras muitas vezes são vazias e falham ao mostrar o caráter de um sujeito. É certo que incoerência existe em todas as partes, cada dia mais e a cada dia mais existem belos discursos de gente que não os coloca em pratica. E é verdade que ninguém consegue ser 100% coerente, mas aproximar o andar do falar é uma missão que todos nós deveríamos nos propor nessa existência. Mas, enquanto houver incoerência no mundo (e sempre haverá) e para evitar constrangimentos e dramas, é preciso ser cético.  Os fatos comprovam, as atitudes denotam e o que uma pessoa diz, é nada mais apenas o que ela diz.

Portanto livremo-nos das máscaras do bonzinho, da vítima que acreditou demasiadamente, da donzela indefesa, pois mentir pode ser ruim (e as pessoas mentem por diversos motivos), mas se deixar enganar por palavras também não é uma atitude muito salutar; e deixemos a inocência pura, de quem acredita demais, para as crianças, ou quem sabe para a maneira como contemplamos a natureza, para os tratamentos alternativos, para acreditar nas utopias. Enfim, tem muita coisa para crer com certa inocência, nenhuma delas inclui os relacionamentos inter-pessoais. Para os relacionamentos de qualquer tipo, é preciso ter perspicácia e esperteza; é preciso afinar o olhar, aprender a observar. É preciso adquirir um quê de São Tomé, aquele que vê para então crer.

Pois, repito, não importa o que alguém diga, as atitudes sempre, sempre terão mais força e veracidade do que as palavras.

Sem sonho a vida é um longo pesadelo.

Sem sonho a vida é um longo pesadelo.

Prepara-te. A qualquer instante, quando menos esperares, alguém fará pouco de teus sonhos. Virá de um canto insuspeitado, do seio de tua família, do campo de teus amigos, da sem somultidão de teus estranhos e fará coro com um bando descrente, rasteiro, numeroso e empenhado em manter a rasa normalidade das coisas.

Juntos, rirão de tuas ambições, teus desejos e intenções essenciais. Tentarão diligentes, aplicarão forças com empenho em seu intento brutal. Como quem laça nas ruas o pescoço de cachorros sem dono, sem raça, e os lança em jaulas frias de ferro e sangue, caçarão teus sonhos mais fundos até arrancá-los de tua alma.

Revela querer o mundo, vai, e dirão que a ti mal cabe o teu quintal. Confessa a tua busca por enxergar além de teu umbigo e caçoarão da tua cegueira. Defende a luz que te orienta e voltarão a ti um olhar de sombras. Experimenta celebrar a fantasia e julgarão tua loucura como a peste.

Sob tuas narinas ardendo com a fuligem de tanto sentimento baixo, arrastarão casa afora teus velhos propósitos de leveza que o tempo e os deveres de cada dia tornarão pesados como antigas cômodas e penteadeiras e aparadores. Olha ao redor. Tem gente levando teus sonhos embora.

Assim, escarnecendo do que tu queres, tentarão fazer-te desistir, fraquejar, esquecer que tens o tamanho de tua coragem, a gravidade de teus valores e a riqueza de teus sonhos roubados aqui e ali. Aos poucos, sorrateiros como os ratos e as cobras, levam-te o que tens de mais sublime. E tu nem percebes.

Quando te deres conta, serás só uma criatura miserável extorquida de tuas possibilidades, largada à rua da amargura, envolta nos trapos da rotina, racionando tua comida e teus anseios, mendigando atenção falsa.

Antes, defende teus sonhos. Os fáceis e os impossíveis. São eles que nos salvam das vidas cretinas e certezas burras, dos gênios arrogantes, da perfeição idiota, da paralisia barulhenta. É o sonho que nos mantém em movimento. Sonhando, cumprimos nossa vocação essencial de pessoas simples, seres perplexos, criaturas operosas olhando a vida com espanto e humildade.

Quando o amor fez as malas

Quando o amor fez as malas

Na alegria que não vingou, no olhar negado, no desejo ausente, o amor chorou…

Ele olhou as paredes, os móveis, o chão e o teto e sentiu que não estava mais ali. Não queriam mais que estivesse. A moça o trocou por alguém que veio de longe sem mala nenhuma.

Chorou os anos que desfrutaram a mesma cama. Chorou o orgasmo e o beijo quente. Chorou as mãos que um dia teimaram em se grudar. Chorou o filme triste que se tornou. Chorou…

Abriu o guarda-roupa e suas camisas se agarraram aos vestidos e saias. Foi tamanha teima em não sair dali, que rasgaram o vestido vermelho que o amor havia presenteado à amada em data especial.

O amor pegou seus panos, perfumes, sapatos e saiu com seus danos, em um dia de sol escaldante. Saiu com sua dor, seu ciúme, seu medo e sua fome à procura de um nome que receba suas malas e o faça se reconhecer no teto, na parede, nos móveis…

“A função da arte”, minuto sabedoria de Eduardo Galeano

“A função da arte”, minuto sabedoria de Eduardo Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Me ajuda a olhar!

Eduardo Galeano
Excerto retirado de “O livro dos abraços

“Nossas grandes transições”, por Flávio Gikovate

“Nossas grandes transições”, por Flávio Gikovate

Desconsidero aqui a primeira e maior das transições, que é a do nascer, assim como a da morte. Penso nas dificuldades que uma criança tem ao perceber que está prestes a se tornar adolescente; quando percebe a chegada dos primeiros sinais da puberdade, ansiada por um lado e temida por outro. Sim, porque mudar de condição, deixar de ser criança – com direito a uma boa dose de irresponsabilidade – provoca medo, já que não se sabe exatamente o que esperar, como se comportar, quais são as novas vantagens e desvantagens. Por outro lado, na atualidade, a chegada da adolescência é percebida, especialmente pelas meninas, como muito interessante, já que se preparam para o exercício da sensualidade desde os 7-8 anos de idade e sentem os primeiros gostos por atrair olhares de admiração. Quanto aos meninos, sentem menos pressa e talvez mais medo dessa evolução inexorável. De todo o modo, a verdade é que, em ambos os sexos, muitos expressam claramente o desgosto por crescer e que adorariam ser crianças para sempre.

A adolescência e os primeiros anos da vida adulta correspondem a um período extremamente gratificante para uns e um tanto sombrio para outros. Os mais populares, os que se dão bem com os eventuais parceiros sexuais e/ou sentimentais e gostam dos programas típicos dessa idade – baladas, bebedeiras, conversas de botequim, estudos levados de um jeito não tão sério… – curtem muito o período e gostariam que ele não terminasse jamais. De fato, muitos tentam estendê-lo por tempo indeterminado e são hoje chamados de “adultecentes”. Os mais tímidos, reservados, pouco afeitos às atividades sociais e mais dedicados aos estudos aproveitam menos essa fase, mas se encontram mais preparados para avançar, de modo que chegam à maturidade de uma forma mais natural.

A fase adulta é, sem dúvida, a de maiores responsabilidades e a mais desgastante. Corresponde ao período em que as pessoas costumam ter que se estabelecer profissionalmente, tentar consolidar alguma estabilidade financeira, casar, ter filhos, por vezes cuidar de pais mais idosos e necessitados… É claro que existem várias transições que acontecem ao longo dessa fase que dura três a quatro décadas: o próprio casamento aparece como cheio de tensões e medos para os noivos, as gestações provocam desconfortos que vão desde os ciúmes do novo membro da família até a preocupação com sua saúde; não são raros os que terão que enfrentar a dramática transição do divórcio e eventuais segundas e terceiras uniões, além dos dilemas com os filhos; a regra é que acompanhem doenças e morte dos parentes mais velhos e tenham que assumir responsabilidades crescentes. Enfim, tudo muito difícil; as crianças não estão tão equivocadas quando não querem crescer e os adolescentes que não querem amadurecer também têm suas boas razões!

Apesar de tudo, hoje vivemos o período em que a vida adulta e suas graças (eróticas, sentimentais, o consumismo, as viagens, os avanços profissionais…) estão em alta, de modo que muitos tentam adiar ao máximo a próxima transição, qual seja a do envelhecer. As cirurgias plásticas indicam exatamente esse desconforto das pessoas ao terem que conviver com a perda de viço de seus corpos, a diminuição da libido, com os cabelos brancos, a calvície. Da mesma forma, a aposentadoria aparece como grave ofensa à vaidade, já que o papel social se tornará menos prestigiado, o telefone tocará muito menos, a pessoa não mais se sentirá indispensável.

Em certos aspectos, e quando a saúde ajuda, essa terceira e última fase da vida se assemelha muito à da adolescência: as responsabilidades diminuem, os filhos já estão crescidos, já se sabe o que deu certo e o que deu errado (e essa é uma grande vantagem sobre os anos da juventude). É claro que um lado difícil dessa fase é a proximidade da morte, percebida como dramática e apavorante pela maioria. Assim, muitos tentam se manter ativos como se ainda fossem moços para parecer que o horizonte ainda é bem extenso. A própria diminuição do ritmo de trabalho, quando não bem entendida, pode ser sentida como ócio, desocupação que provoca o tédio, uma espécie peculiar de depressão na qual a pessoa não vê sentido algum para a vida.

A verdade é que a velhice, quando saudável, pode ser uma fase excelente, mais leve e gratificante. Isso se a pessoa conseguir se adaptar à nova condição, coisa nada fácil, já que a capacidade de mudar costuma diminuir com os anos e muitos são os idosos que “cristalizaram” suas convicções e formas de ser. Todas as transições exigem competência para adaptação e a velhice deixa de ser bem aproveitada por aqueles que não entenderam que a diminuição da mobilidade física não precisa vir acompanhada de igual rigidez psíquica!

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
Facebook: www.facebook.com/FGikovate
Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Quem lê livros não só é mais inteligente como também é o melhor tipo de pessoa para se apaixonar

Quem lê livros não só é mais inteligente como também é o melhor tipo de pessoa para se apaixonar

Você provavelmente já conhece os inúmeros benefícios que a leitura pode trazer para sua vida.

Mas e se eu te falar que a experiência é tão significante que podemos até mesmo comprovar, com argumentos científicos, que as pessoas que leem são as melhores pessoas para se viver uma paixão?

Foi exatamente isso que a escritora norte-americana Lauren Martin fez ao publicar, no site do Elite Daily, o seu artigo “Why Readers, Scientifically, Are The Best People To Fall In Love With” (em português: “Por que os leitores, cientificamente, são as melhores pessoas para se apaixonar”).

Para te ajudar a entender o porquê dessa afirmação, separamos os melhores trechos do texto de Lauren. Confira.

“Você já leu um livro até o fim? Realmente até o fim? Capa a capa. Fechou-o com aquela sensação de voltar lentamente à realidade? Você suspira fundo e fica ali, sentado. Com o livro em suas mãos…”

“É como se apaixonar por um estranho que você nunca verá novamente. O desejo e a tristeza que sente por um caso de amor que acabou dói, mas ao mesmo tempo você se sente saciado, cheio pela experiência, a conexão, a variedade que surge após digerir outra alma. Você se sente alimentado, mesmo que por pouco tempo.”

É assim, comparando as emoções vividas em uma paixão com o processo de terminar um livro, que a autora começa a explicação para a sua afirmação. Mas a “teoria” também tem base científica.

De acordo com estudos de 2006 e 2009, publicados por Raymond Mar, psicólogo da Universidade de York, do Canadá, e por Keith Oatley, professor de psicologia cognitiva na Universidade de Toronto, quem é um profundo leitor de ficção possui maior capacidade de empatia e de desenvolver a chamada “teoria da mente”, que é a habilidade de aceitar outras opiniões, crenças e interesses, além de seus próprios.

Ou seja, os leitores são mais capazes de considerar outras ideias sem rejeitá-las e, mesmo assim, manter as suas próprias. Para ter essa característica pessoal, a autora acredita que é preciso ter uma boa “diversidade de experiências sociais” e a falta dela é provavelmente a razão para seu “último companheiro ser tão narcisista”.

A explicação para o leitor ser mais desenvolvido na “teoria da mente” é a de que ele vivencia experiências através de outros olhos, vendo o mundo de outra perspectiva e absorvendo sabedoria de cada uma delas.

“Eles aprenderam como é ser uma mulher, e um homem. Eles sabem como é ver alguém sofrer. Eles são maduros, sábios.”

Para reforçar a teoria, a autora ainda se baseia em um estudo de 2010, também de Raymond Mar, que diz que quanto mais histórias foram lidas para uma criança, mais aguçada é a “teoria da mente” dela. A criança torna-se mais sábia, adaptável e compreensiva.

“Porque ler é algo que molda você e aumenta o seu caráter. Cada triunfo, lição e momento crucial da vida do protagonista se tornam seu.”
“Eles não vão falar com você. Eles vão conversar com você.”

Segundo o artigo, os leitores escreverão cartas e versos. São eloquentes no bom sentido, não dão respostas simples, mas apresentam pensamentos profundos e teorias intensas, encantando com o conhecimento de palavras e ideias.

contioutra.com - Quem lê livros não só é mais inteligente como também é o melhor tipo de pessoa para se apaixonar

“Faça um favor a si mesmo e namore alguém que realmente saiba como usar a língua.”

“Eles não apenas te entendem. Eles te compreendem.”

De acordo com o psicólogo David Comer Kidd, da New School for Social Research, “O que os autores fazem de maravilhoso é transformar você no escritor. Na literatura de ficção, a incompletude das personagens faz com que sua mente tente entender a mente de outros”. Com isso, os leitores desenvolvem a capacidade da empatia. Eles podem não concordar com você, mas vão tentar ver as coisas do seu ponto de vista.

“Você deveria se apaixonar apenas por alguém que consiga ver sua alma. Deve ser alguém que não apenas te conhece, mas que te compreenda completamente.”

“Eles não são apenas inteligentes. São sábios.”

“Ser inteligente demais pode ser desagradável, mas ser sábio é algo cativante.”

Quem é que não gosta de ter um bate-papo inteligente e sempre aprender alguma coisa? Se apaixonar por um leitor irá melhorar o nível das conversas. Os leitores profundos são mais inteligentes devido ao maior vocabulário, melhor memória e pela capacidade de detectar padrões.

“Se você namora alguém que lê, então você também viverá milhares de vidas diferentes.”

Espécie em extinção

Se você gostou dos argumentos e já não vê a hora de procurar sua paixão, é preciso se apressar, pois a autora acredita que os chamados “profundos leitores” estão acabando no mundo, já que as pessoas muitas vezes apenas “passam o olho” ao invés de realmente ler.

“Se você ainda procura por alguém que te complete, que preencha o vazio em seu coração solitário, procure por essa raça que está se extinguindo. Você os encontrará em cafeterias, parques e no metrô.”

“Você os verá com mochilas, bolsas e maletas. Eles serão curiosos e sensíveis, e você saberá nos primeiros minutos de conversa com eles.”

Fonte indicada: Awebic

“O mundo”, por Eduardo Galeano

“O mundo”, por Eduardo Galeano

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.

Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos mar de fogueirinhas.

– O mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Eduardo Galeano
Texto extraído de “O livro dos abraços

INDICADOS