“Um artista da fome”, um inesquecível conto de Franz Kafka

“Um artista da fome”, um inesquecível conto de Franz Kafka

O interesse pelos jejuadores profissionais cai consideravelmente nos últimas décadas. Se antigamente a organização por conta própria deste tipo de espetáculos trazia o seu lucro, hoje em dia isso seria absolutamente impossível. Os tempos eram outros. Houve época em que a cidade inteira sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitação à medida que o jejum se prolongava, querendo todos vê-lo ao menos uma vez por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os últimos espetáculos, sentando-se desde manhã até a noite diante das grades da jaula. As exibições noturnas eram realçadas por archotes e, quando a temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado às crianças como divertimento especial.

Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilhéria, aceita por estar em moda, mas as crianças ficavam boquiabertas, de mãos dadas para se sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem pálido, de costelas salientes, que vestia justas calças negras e não tinha sequer uma cadeira, sentando-se na palha espalhada no chão. Às vezes ele inclinava a cabeça cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido às perguntas que lhe eram feitas, estendendo de vez o braço através das grades, para que verificassem como estava magro. Recolhia-se depois à sua mudez, não prestando atenção a nada nem a ninguém, nem mesmo ao relógio para ele tão importante e que era a um único adorno ou utensílio da jaula.

Ficava a olhar o vazio, de pálpebras semi cerradas, de vez em quando alcançando um pequeno copo d’água e tomando um gole para umedecer os lábios. Além dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo público, que se revezavam. Por estranho que pareça, em geral eram açougueiros, em grupos de três, que tinham por obrigação observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfarçadamente algum alimento. Mera formalidade, instituída para tranqüilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunstâncias, nem mesmo a força o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profissão o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreensão.

Freqüentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente intenção de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinência insuportável. Às vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era possível, tentando provar a injustiça de tais suposições. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, não se contentando com a parca iluminação do local, lançavam sobre ele o clarão direto das lanternas elétricas que o empresário pusera à sua disposição.

A luz dura não o incomodava. De qualquer maneira, não podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar,sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a pilheriar com eles, contendo-lhe histórias de sua vida nômade, qualquer coisa que os conservasse acordados para demonstrar que não tinha comida na jaula e era capaz de uma abstinência que nenhum deles suportaria. Mas o momento mais feliz era quando chegava a manhã e vinham servir aos guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com feroz apetite de homens robustos, após cansativa noite de vigília.Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeição uma desleal tentativa de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte, sem a expectativa do café da manhã esquivavam-se, embora continuassem
teimosamente a manter suas dúvidas.

Tais suspeitas, no entanto, eram inevitáveis na profissão. Impossível, naturalmente, ficar uma pessoa e observá-lo continuamente, dia e noite, e ninguém poderia garantir, por experiência própria, que o jejum fora rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o único realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente satisfeito. Talvez não fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido àquele estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem, embora a contragosto, por não poderem suportar o espetáculo. A insatisfação para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu depauperamento. Só ele sabia o que não era dado a saber nem mesmo a outros iniciados: como era fácil jejuar. A coisa mais fácil do mundo. Não fazia segredo disto, mas o povo não lhe dava crédito. Quando muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo fazer publicidade, ou, então, que se tratava de um trapaceiro que descobrira meio de tornar fácil o jejum e cinicamente o confessava.

Ele vira-se obrigado a aceitar tal reação e, com o tempo, a ela se habituara, mas a íntima satisfação persistia e nunca, justiça seja feita, deixara a jaula por espontânea vontade, quando chegava o término da prova. O prazo máximo fora fixado em quarenta dias pelo empresário, que não lhe permitia ir além, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas razões para isso. A experiência demonstrara que, durante 40 dias, a curiosidade do público podia ser mantida pela pressão de anúncios, mas depois disso o povo começa a se desinteressar, diminuindo o numero de simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este ou aquele país, mas em geral 40 dias era o limite.

Assim, no quadragésimo dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores. Entusiásticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante. Finalmente apareciam duas moças, felizes por terem sido escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam à mesa onde se achava a refeição cuidadosamente preparada para um homem em suas condições físicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os braços descarnados às duas moças que sobre ele se inclinavam para auxiliá-lo, mas não queria saber de levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, após 40 dias? Agüentara por muito tempo: por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser exato, ainda não estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a glória de ser, não apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez já fosse) mas a de sobrepujar seu próprio feito, com uma demonstração que ninguém julgaria possível? Ele sabia não haver limite para sua resistência. Já que público parecia admirá-lo tanto, por que não se mostrava mais paciente? Se ele podia suportar uma abstinência prolongada, por que não aguentavam eles o espetáculo?

Além do mais, estava cansado, achava-se sentado confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse para comer! Só de pensar nisto sentia náusea e somente a presença das moças o impedia de manifestá-la e, assim mesmo, com esforço. Fitou-as, aparentemente tão amigas, mas na realidade cruéis; e sacudiu a cabeça que lhe pesava no pescoço enfraquecido. Aconteceu então, o que sempre acontecia. O empresário adiantou-se sem dizer palavra – a banda impossibilitava qualquer espécie de discurso – ergueu os braços acima do artista, como que a convidar o céu a olhar para aquela pobre criatura ali na palha, mártir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas precauções, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua frágil condição, e entregou-o as moças, muito pálidas, dando-lhes disfarçadamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas trôpegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabeça tombada sobre o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conservação,as pernas se arrastavam como se ele não pisasse terreno firme e, apesar disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moças.

Ofegante, ela olhou à volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de honra não correspondia à expectativa, e espichou o pescoço o mais que pôde para livrá-lo do contato desagradável. Vendo que era impossível e que sua mais feliz companheira não lhe vinha em auxílio, limitando-se a segurar na mão trêmula o feixe de ossos que era a mão do artista, rompe em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituída por um funcionário, que ali se achava de prontidão. Chegou a hora da comida e o empresário conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lábios de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo, alegremente, para que ninguém notasse o estado do jejuador.

Depois, foi feito ao público um brinde, aparentemente instigado por um murmúrio do artista ao ouvido do empresário. A banda confirmou-o com um vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos com o que tinham visto, com exceção do homem que se exibira, que nunca se sentia satisfeito.

Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperação, em plena glória, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que ninguém parecia levar a sério seu desgosto. Que palavras de conforto precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa vontade, dele se apiedando, tentava consolá-lo, dizendo que o jejum devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de cólera, principalmente quando a prova já ia adiantada. Com alarme geral, punha-sea sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empresário tinha meios de pôr cobro a essas explosões, com as quais o artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento.

Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstinência, que pessoas bem alimentadas não estavam em condições de compreender.

Depois, numa transição natural, mencionava a também incompreensível jactância do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambição, a boa vontade, o espírito de sacrifício implícitos em semelhante declaração. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os fotógrafos que iriam vender ao público os retratos onde se veria o jejuador, no quadragésimo dia, caído na palha, quase morto de exaustão. Essa distorção da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas conseqüência do precoce término do jejum era apresentado como causa! Impossível lutar contra a geral incompreensão. Inúmeras vezes, com o máximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empresário, mas, assim que chegavam os fotógrafos, caía de novo na palha, com um gemido, e o público, tranqüilizado, podia de novo aproximar-se para contemplá-lo. Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam,não podiam às vezes compreendê-las. É que, neste meio-tempo, o interesse por essas exibições esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para dia.

Talvez houvesse razões profundas para o fato, mas quem iria se preocupar em analisá-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fomeviu-se um belo dia abandonado pelas pessoas ávidas de divertimento, que iam agora em busca de espetáculos mais atraentes. Num derradeiro esforço, o empresário correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada. Tudo em vão. Em toda a parte, como que por secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente isto não poderia ter surgido assim tão de repente. É claro que tal fenômeno não aconteceu de um momento para o outro e que agora, retrospectivamente, as pessoas se lembravam de alguns acontecimentos aos quais na altura não fora dada a devida atenção, indícios que não foram devidamente suprimidos, mas de qualquer das formas já era demasiado tarde para os tentar combater. Que poderia então fazer o artista da fome?
Fora aplaudido por milhares de pessoas e não queria agora conformar-se com exibições em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra profissão, não somente estava muito velho, como era fanático pela sua.

Assim, despediu-se do empresário, companheiro de uma carreira inigualável, e firmou contrato com um grande circo. Para não ferir a própria susceptibilidade, evitou ler-lhe as cláusulas. Um circo importante, que está continuamente contratando e substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, até mesmo um jejuador, contanto que não exija muito. No caso presente, não estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama, durante longos anos adquirida.

Considerando-se a peculiaridade de seu ofício, que não se prejudicara com a idade, não se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e não se achando mais em plena forma, viera buscar refúgio num circo. Pelo contrário, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinência tanto quanto antes e disso não se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcançado. Tal declaração provocou risos nos outros profissionais, pois não estava sendo levada em conta a frieza do público, fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.
No íntimo, ele não deixava de perceber a verdadeira situação.

Conformou-se em ver sua gaiola colocada, não no meio da arena, como principal atração, e sim fora, perto das jaulas dos animais -–local, afinal de contas – bastante acessível. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espetáculo. Quando o público vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, não fossem os empurrões dos que vinham atrás, pela estreita passagem, e que não compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razão que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, começasse a temê-las. A princípio, mal podia esperar pelos intervalos.

Era excitante ver a multidão escoar para o seu lado, até que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se render à evidência. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensação mais agradável sempre fora vê-los de longe.

Quando se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados, constituídos, um, pelos que desejavam parar para observá-lo (não por real interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo começou a detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior número, vinham os retardatários. Embora pudessem contemplá-lo à vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olhá-lo, tal o medo de chegarem atrasados às jaulas dos animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de família parava com os filhos, apontando-o e explicando o fenômeno, contando histórias de anos passados, quando ele próprio assistira a espetáculos mais emocionantes.

As crianças, sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se não o tivessem colocado tão perto dos animais. Isto tornava ao povo fácil a escolha, mesmo não se levando em consideração que ele sofria com o cheiro desagradável, a inquietação das feras à noite, a passagem dos pedaços de carne crua, o ruído na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas não ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluência de tantas pessoas e sempre podia haver alguém que o notasse e lembrasse de sugerir lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse atenção para sua existência e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obstáculo à passagem do público.

Pequeno obstáculo, não havia dúvida, e que cada vez menor se tornava. As pessoas familiarizavam-se com a estranha idéia de que delas se esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta familiaridade era justamente o veredicto contra ele. Poderia jejuar à vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse alguém explicar a arte do jejum! Quem não a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreendê-la. Os belos cartazes foram tornando-se sujos e ilegíveis e acabaram sendo em parte arrancados. A pequena tabuleta indicando o número de dias, havia muito marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforço parecia útil aos funcionários. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como antes fora seu sonho. Isto não o incomodava, como ele soubera, que não o incomodaria. Mas ninguém mais contava os dias, ninguém.; nem mesmo o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu coração se confrangia.

Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho deitado ali no chão, falando em fraude, tratava-se da mais estúpida mentira jamais inventada pela indiferença e malícia humanas. Não era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.

Muitos dias se passaram e também aquilo chegou ao fim. Um fiscal apareceu ali e perguntou aos funcionários por que se desperdiçava uma jaula que continha apenas um monte de palha suja.Ninguém soube responder até que um deles, notando o cartaz com o número de dias,lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.

– Ainda está jejuando? – perguntou o inspetor. – Quando, em nome dos céus, pretende parar?

– Perdoem-me todos – murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o ouvido perto das grades, conseguiu entendê-lo.

– Claro que o perdoamos – respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.

– Sempre desejei que admirassem minha resistência.

– Claro que a admiramos – disse o fiscal, amavelmente.

– Mas não deviam admirar.

– Está certo, não admiramos, então, mas por que diz isto?

– Porque tenho que jejuar, não posso evitá-lo.

– Que tipo você é! – exclamou o inspetor – Por que não pode evitá-lo?

– Porque não consegui encontrar comida a meu gosto – respondeu o artista, erguendo um pouco a cabeça e falando junto ao ouvido do outro, para que não se perdesse uma sílaba. – Se a tivesse encontrado, creia que não teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.

Foram estas suas ultimas palavras, mas não olhos apagados restava a firme, embora não mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.

– Pois bem, limpem isto aqui! – ordenou o fiscal.

Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram uma jovem pantera. Até mesmo as pessoas mais insensíveis acharam agradável ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo tão lúgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impressão de sentir a ausência de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao máximo de todo o necessário, parecia trazer em si a própria liberdade. A alegria de viver fluía de suas faces com tal ardor, que aos espectadores não era difícil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se à volta da jaula, e acabavam não querendo mais se afastar.

Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 — Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um escritor tcheco autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX.

Bipolar: duas almas habitando o mesmo corpo

Bipolar: duas almas habitando o mesmo corpo

Tropeçar faz parte do processo de avançar nas etapas da vida. Desde os primeiros ensaios para caminhar sobre as duas pernas, aprendemos que, sem coragem para encarar a dureza do chão, não iremos muito longe. Tropeçamos, caímos, choramos e voltamos a tentar. No momento em que decidimos dar o próximo passo, o medo da queda já foi esquecido. A dor é tempero do crescimento. O entusiasmo também. O excesso dos dois é o caos, o sofrimento e a solidão. Os destemperados aprenderão, cedo ou tarde, que seu transtorno invisível é seu inferno particular e de mais ninguém.

O humor é como uma paleta de cores a transformar o pano de fundo de nossa vida. Acontecimentos felizes produzem sensações agradáveis: vontade de compartilhar a vida, leveza, presença de pensamentos positivos e pró-ativos; é como se o mundo ganhasse novas cores, mais vivas e vibrantes. Episódios tristes nos remetem ao oposto disso tudo: queremos nos encolher, buscamos apenas a companhia daqueles que nos são muito próximos, o coração fica pesado, os pensamentos evoluem em câmera lenta, perdemos a fé; é como se todas as cores perdessem o viço e a vivacidade. Existe uma lógica em tudo isso. Todos nós estamos sujeitos às oscilações da vida; e reagiremos melhor ou pior a depender de fatores internos e externos, que utilizaremos como recursos para nos reequilibrar.

Para quem sofre de Transtorno Bipolar, entretanto, essa lógica não passa de ficção. Esse Transtorno Afetivo é uma doença mental e está entre as dez que mais afastam os brasileiros do trabalho e do convívio social, tamanho impacto que causam em suas rotinas. Até que seja diagnosticado corretamente o paciente, em geral, já terá passado por inúmeros profissionais de saúde; já sentiu dores por todo o corpo; já sofreu com intermináveis noites insones; perdeu empregos, amizades e arruinou relacionamentos amorosos; pensou em morrer; tentou morrer. O Transtorno Bipolar ocupa o terceiro lugar na lista dos transtornos psiquiátricos, depois da depressão e da esquizofrenia, conforme levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS). E, mesmo sendo tão frequente, é extremamente desconhecido e difícil de detectar.

A Bipolaridade pode apresentar-se na forma mais clássica, na qual as oscilações de humor ocorrem em momentos alternados. A pessoa passa por períodos de depressão, durante os quais têm pouca ou nenhuma disposição para atender aos compromissos; tudo fica excessivamente cansativo e custoso; a concentração é prejudicada; a memória falha; o desejo de viver fica perdido em algum lugar. Aos poucos, a fase depressiva vai esmaecendo, perdendo a força e deixando como resultado uma pessoa extremamente frágil do ponto de vista emocional e vulnerável às situações externas. Pode haver, nesse caso, um período mais estável, ou não. Na sequência, o Bipolar é atingido por uma onda de euforia; o pensamento fica acelerado; a pessoa é tomada por um sentimento de poder e pela necessidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo; diminuição da necessidade de sono, ideias de grandiosidade e comportamentos desinibidos e pouco críticos, que podem resultar em gastos excessivos, por exemplo. Soma-se a essa confusão estabelecida, o possível surgimento de agressividade, que tanto pode ser consigo mesmo, quanto com as pessoas mais próximas. Muito do que se faz nessa fase, o Bipolar nem sequer sonharia em fazer no estado normal de humor.

Além da forma clássica, a Bipolaridade também pode apresentar-se na forma de episódios mistos de depressão e euforia. O bipolar, neste caso, pode apresentar a agitação motora e mental de uma fase de humor elevado e, ao mesmo, tempo expressar sentimentos de falta de esperança, de culpa ou de baixa auto-estima, como numa fase de humor deprimido. Ele também pode estar eufórico agora e, literalmente cinco minutos depois, estar deprimido e chorando.

O desencadeamento de uma crise não tem relação com motivações ou situações específicas. O detonador pode estar atrelado ao stress, tanto positivo quanto negativo: ser promovido ou demitido; apaixonar-se ou romper um relacionamento, podem provocar o mesmo impacto devastador. Essa imprevisibilidade vai desestruturando de tal forma a vida, que muitas vezes a pessoa vê-se em situações de perda terríveis; precisando recomeçar do zero, muitas e muitas vezes.

Uma das principais evidências de que a doença está relacionada às reações químicas do cérebro é que os remédios, quando acertadas a droga e a dosagem, dão resultado. Entretanto, o mecanismo de funcionamento da doença é um processo extremamente complexo. Ainda não há certezas sobre neurotransmissores ou reações químicas que estejam envolvidas no desencadeamento da doença. O que se sabe é que alterações da serotonina e da noradrenalina cerebrais estão relacionadas à depressão e a dopamina é o neurotransmissor mais relacionado aos episódios de mania. E que, além do tratamento medicamentoso, o Bipolar precisa de acompanhamento Psicológico e apoio da família.

O diagnóstico correto é a única “luz no fim do túnel” para quem sofre de Transtorno Bipolar. É preciso que haja o envolvimento comprometido dos familiares e amigos mais próximos para que o paciente encontre maneiras de administrar a doença. Uma vez diagnosticado e tratado, ele terá de volta a capacidade de viver uma vida equilibrada em todos os aspectos. Em geral, a procura por ajuda ocorre nos períodos de depressão, nos quais o sofrimento é mais evidente. Nas fases de euforia, raramente alguém procura por socorro, já que aquele estado de energia intensa traz uma felicidade ilusória. No entanto, por mais agradável que pareça, é uma doença grave, por conta dos riscos a que a pessoa se expõe, como a impulsividade que leva a comportamento sexual desinibido; envolvimento com drogas; comportamentos compulsivos, entre outros atos impensados.

Embora a doença apareça mais frequentemente no fim da adolescência ou início da vida adulta, crianças e pré-adolescentes também podem sofrer com esse transtorno. Nos EUA, o número de diagnósticos de bipolaridade entre crianças e adolescentes cresceu 40 vezes na última década. A hipótese para esse aumento é a maior conscientização de médicos sobre o transtorno ou ainda um possível excesso de diagnóstico, em que uma criança mal-humorada pode ser tratada como doente.

Além de ser “invisível”, a Bipolaridade é uma doença incurável, assim como o Diabetes ou a Hipertensão; só que ao contrário dessas enfermidades físicas, a Bipolaridade vem carregada de preconceito, acarretando ao portador dessa síndrome uma situação de grave solidão. Ser Bipolar é um desafio diário, tanto para a compreensão pessoal da doença, quanto para a dificuldade de compartilhar o que sente. A grande maioria guarda para si o “segredo de ser diferente”. A grande maioria tropeça, cai e levanta sozinho. A grande maioria precisa apenas do que todos nós precisamos: sermos aceitos com nossas belezas e horrores; termos o direito à tentativa de fazer melhor no próximo dia; termos acolhidas as nossas dores e compartilhadas nossas alegrias. É muito? É pouco? Não sei… Apenas diria que é justo, direito e necessário.

Ana Macarini

O emprego da sua vida ainda nem existe

O emprego da sua vida ainda nem existe

Texto revisado por Flávia Figueirêdo

Os tempos mudaram, minha gente. E nós somos a última geração que viveu em um mundo sem internet e logo depois com internet. A gente viu essa ruptura, a gente viu as coisas surgindo, a gente viu a comunicação mudando. Quem tem cabeça pra lidar com essa confusão toda? Ninguém. Por isso, a gente parece perdido. Aí vem a crise, a gente não arranja emprego, tem um monte de gente fazendo nada da vida e ganhando dinheiro por ser gatinho no instagram, tem um monte de gente querendo ser isso, porque quer viver a vida viajando e fazendo nada. Mas, não dá pra fazer tudo. Ou você rala pra cacete pra poder fazer seu ano sabático e viajar pra onde quiser ou você é rico o suficiente e não precisa ligar pra nada disso. Não dá pra fazer os dois. Até essas blogueiras que vocês acham que viajam toda hora, ralam pra caramba. Um dia desses fui a um jantar de imprensa e conheci um bando de blogueiro desesperado, porque tinha que arrumar a mala pra viajar no outro dia cedinho e tinha acabado de chegar de outra viagem no mesmo dia. Viajar é bom, mas toda hora cansa, principalmente, por que viajar como blogueiro ainda é trabalho.

Eu já escrevi um texto sobre a geração Y e eu conto por que estamos tão frustrados. Pensa só, estamos no meio de uma revolução da era digital, a comunicação mudou todinha, novas profissões surgiram e o mundo está em crise e somos nós (geração entre 20 e 30 anos) que está iniciando a carreira, ralando pra caramba pra conseguir o que quer. Não tem como não entrar em parafuso.

Hoje, nossa maior crise é escolher um caminho, porque temos muitas possibilidades. É muita opção pra uma vida só. Eu queria ser atriz, escritora, blogueira, viajante, astronauta, degustadora de cerveja e ainda ficar domingo à noite assistindo tv em casa. E eu podia ser tudo isso, mas, não de uma vez. Só que o problema é que cada escolha é uma renúncia, ou melhor, a cada escolha, a gente renuncia todas as outras possibilidades e isso é muito frustrante. Eu me vejo constantemente cercada de portas que eu poderia abrir, mas ao abrir uma, não tem como voltar atrás e eu nunca vou saber o que tinha atrás das outras portas que eu deixei de escolher. Mas, eu tento me convencer do seguinte: eu não acredito em destino, porque acho que a gente cria nosso destino a cada escolha que faz. Então, se é a gente que cria a própria realidade, não existe nada atrás daquelas outras portas que eu não escolhi. O que existe ali atrás é a gente que inventa, a gente que traça. Daí fica muito mais fácil ir com fé e abrir a porta que a gente quer.

Mas, voltando à crise (não a econômica, mas a pessoal). Internet, revolução digital, novas comunicações, possibilidades e uma coisa fantástica que a gente não ta vendo. Às vezes, a profissão da nossa vida ainda nem existe! Talvez seja a nossa chance de criar essa profissão. Por exemplo, analista de mídias sociais, blogueiro, analista de SEO, programador de app… nada disso existia 15 anos atrás. E quem sabe daqui a 10 anos, o mercado esteja cheio de profissões novas. A internet possibilita lançar alguma coisa nova e alcançar muito mais gente em pouco tempo. Não preciso de um mega investidor pra fazer meu negócio pela internet. Pelo menos, no começo. E pensa só quanta coisa ainda vai mudar. A tecnologia cresce exponencialmente, ou seja, se a gente já viu essa transformação toda em apenas 15 anos, isso quer dizer que daqui a 15 anos vamos ter tido 30 vezes mais mudanças em um mesmo período de tempo.

Eu demorei muito pra entender isso. Sempre achei que eu era um ET que chegou aqui na Terra e ficou perdido, porque não queria fazer nada que existia. Até que, aos poucos, eu fui percebendo que eu podia juntar as coisas que eu gostava fazer. E pensar que na escola eu tava em parafuso, porque não sabia se escolhia jornalismo ou direito. Ah, como a gente é bobo! Então, a moral da história é que tudo bem se sentir perdido, porque ninguém entendeu ainda o que está acontecendo. Estamos no meio da mudança! E a mudança não é um evento, é um processo. E a parte boa é que agora nós temos a chance de mudar e criar algo novo. Saca só quanta coisa nova tá surgindo! Até a relação de consumo mudou. Hoje tá todo mundo em grupo de trocas em vez de sair comprando tudo novinho. Tá tudo se transformando, e nós estamos no olho do furacão. Cabe a nós aproveitar o momento pra chorar e se lamentar ou perceber que não vamos entender nada agora e talvez não dê tempo pra entender em vida. Você acha que o pessoal do século 18 entendeu a revolução industrial? Nada! A gente só conseguiu decifrar essa mudança muito tempo depois. Precisamos tirar proveito disso tudo sem ficar nessa ansiedade louca. É hora de chacoalhar com as nossas certezas e investir no novo.

Esse nosso estranho medo de ser feliz

Esse nosso estranho medo de ser feliz

Todos flertamos com a felicidade, ela é o ápice dos nossos objetivos mais vibrantes.  Defini-la é algo muito complexo, ela pode ter definições distintas para cada um de nós, contudo o estado de ânimo que nos causa, esse sim é singular. O êxtase e o torpor trazido pela felicidade é algo indescritível.

Há algum tempo li o livro “Julie & Julia” da escritora Julie Powell. A leitura foi muito doce e agradável e por se tratar de um romance autobiográfico, muito encorajadora.

Uma funcionária pública, que um dia aspirou ser atriz, tinha um trabalho desmotivante, morava com o marido, um homem dos sonhos, em um apartamento ruim, com uma cozinha minúscula e dois gatos e um dia resolveu criar um projeto de vida e ir até o fim, ou seja, alcançar aquele cume no qual a felicidade luminosa nos aguarda. Ela foi encorajada pelo marido a criar esse projeto, que seria preparar em um ano 524 receitas de um livro homônimo lançado por Julia Child na década de 60, e após cada preparo escreveria suas impressões em um blog pessoal.

Até ai tudo bem, palmas para ela e para o marido que a intimou a concretizar uma meta. O projeto foi um sucesso, o blog deu vida a um livro que por sua vez virou um filme estrelado por Amy Adams e Meryl Streep e no fim dessa história em largas letras a vida desenhou para Julie um “Felizes Para Sempre”.

Não, não foi bem assim. Aconteceu à jovem escritora o que acontece com praticamente todo ser humano adulto, em maior ou menor grau: a autossabotagem ou melhor dizendo, o autoboicote da felicidade.

Vocês já ouviram falar que muitas vezes podemos ser nosso maior inimigo? Depois de ler o segundo livro de Julie, o “Destrinchando”, minha mente pairou afoita sobre a verdade dessa afirmação e sobre seus fundamentos.

De acordo com o psicoterapeuta Flávio Gikovate todos somos tomados por um medo iminente da catástrofe quando alcançamos a felicidade. Ficamos felizes e logo depois aflitos, com pavor de perder o tão almejado estado de graça. Dessa forma acabamos tomando medidas inconscientes para tratar de, se não extinguir a felicidade, ao menos minimizá-la, tornando-a aceitável. Em outras palavras, nos autoaniquilamos.

Esse medo repentino, e muitas vezes avassalador, após uma sensação de realização plena, pode ter suas raízes em algo que vivenciamos ao nascer: a ruptura da harmonia perfeita na hora do parto. Algo descrito como trauma do nascimento por Otto Rank.

Resumidamente esse mecanismo segue sempre um ciclo padrão: a felicidade atingida ativa memórias que nos alertam sobre a ruptura iminente desse estado, dessa forma, movidos por um medo exacerbado, buscamos impedir que essa ruptura aconteça.

Vamos dar um exemplo. Não é incomum que, logo após comprar um carro novo, algo que hipoteticamente pode nos deixar felizes, acabemos ralando-o ligeiramente na primeira pilastra que nos salta aos olhos. E, estranhamente, depois de livrar o carro de sua aura etérea e perfeita, e de nos culparmos um pouco por isso, sentiremos um certo alívio. Isso acontece porque um carro ligeiramente ralado, não mais perfeito, deixa de simbolizar a felicidade plena e o estigma que ela carrega e com isso aquele medo iminente de que algo dará errado simplesmente desaparece.

Voltando à nossa Julie, vamos dizer que sua vida se tornou repleta de felicidade após a concretização de seu projeto “Julie & Julia”. Ela teve a possibilidade de deixar o emprego que não lhe satisfazia. Ganhou muito dinheiro com a publicação do livro, assim como pela venda dos direitos para a realização do filme, o que permitiu que ela saísse de seu antigo apartamento. Seu ótimo marido esteve ao seu lado e assim continuou. No entanto Julie jogou a felicidade para o alto em um tempo relativamente curto após experimentá-la e buscou inconsciente e afoita sua autodegradação física e emocional, a ponto de seus familiares se negarem a ler seu segundo romance autobiográfico. E eu não os culpo!

Gikovate afirma que o medo da felicidade não tem cura (que lástima!) e que algumas pessoas até mesmo usam artifícios supersticiosos como batidinhas na madeira ou amuletos para prolongar hipoteticamente a duração desse estado de bem estar e impedir que alguma desgraça aconteça. Outros ainda fazem uso de artifícios sociais que ajudam a abraçar a felicidade sem pudores. Uma rodada de álcool com amigos, por exemplo, encoraja a aceitação do que é extraordinariamente bom e entorpece o medo. Contudo, não é politicamente correto incentivar o misticismo ou o uso indiscriminado do álcool como elixir mágico.

Encarar a realidade de frente pode ser uma saída para entender e controlar essa nossa ansiedade detonadora. Ser sincero consigo mesmo é um ponto de partida essencial. Admitir que se é de carne e osso e que, após atingir um estado de felicidade plena, um medo relativo de ser cuspido dele certamente virá, é imprescindível. Apenas cientes desse medo podemos então minimizá-lo.

Devemos traçar nossos objetivos e nos manter firmes em lutar por eles, sem protelá-los, aceitando com plenitude a felicidade que decorrer de nossas conquistas. É essencial que acreditemos ser merecedores dessa felicidade e não devemos abrir mão dela pelo medo que nos virá inevitavelmente afligir. Devemos ser persistentes em controlar nossos impulsos de colocar tudo a perder.

Se nos interessarmos por alguém, não devemos criar obstáculos que nos impeçam de nos aproximarmos dessa pessoa. Se juntarmos dinheiro para fazer uma viagem dos sonhos ao redor do mundo, nosso avião não cairá por isso. Se ganharmos uma promoção, a empresa que nos emprega não aderirá à demissão em massa. Esses medos sempre nos assombrarão, contudo não podem ditar nossos passos.

Devemos caminhar em direção à felicidade e assumir que, uma vez felizes, nos rasgaremos sim em medo, contudo, conscientes desse pavor estaremos preparados para mergulhar de corpo e alma nas profundas águas da felicidade. E nelas poderemos assim restar, até que nossos dedos se dobrem em rugas.

Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

Não se preocupe comigo, eu me curo

Não se preocupe comigo, eu me curo

Não se preocupe comigo e, sim, com você, que repete os mesmos comportamentos de menino, dando e pedindo as mesmas desculpas, chegando e saindo sem qualquer responsabilidade, levando muitas vezes o que não te pertence e sem permissão.

Querido, eu me curo. Da mesma forma que eu não sou para você, você também não é novidade para mim. Você não é o meu primeiro príncipe, meu primeiro engano, meu primeiro erro. Portanto, querido, nem toda essa importância você pode reclamar para si.

Querido, o que foi bom, foi ótimo. Fiquemos unicamente com isso. Não lamente por mim, não troque a sua culpa pela dó, não faça essa barganha desonesta. Saia desse contexto o mais limpo possível, sustentando suas certezas, assumindo suas escolhas e, principalmente, leve com você a sua parcela de responsabilidade. Não a deixe de herança para mim, pois, já tenho a minha própria e a usarei como argumento para seguir em frente.

E, querido, não seja tolo, não me olhe como se eu fosse frágil, delicada e vulnerável. Sou mais forte do que pensa e, te aconselho a não ficar com a imagem de biquinhos e suspiros como lembrança, pois, definitivamente, não é meu retrato fiel. Entenda que as ferramentas de um diálogo não são a parte em si. Somos muito mais, tanto eu quanto você. Se quiser, leve com você a inquietação de não ter visto o melhor nem o pior de mim. Eu abrirei mão dessa parte, aceitando que já vi o que era preciso e, daqui para frente, nenhuma explicação será mais útil ou necessária.

Por fim, querido, peço que não me pendure como coitadinha na sua galeria de lembranças, já que, por mim mesma, também não te citarei com despeito.
E, não me peça mais desculpas por ter escolhido outra vida. Desculpe-se somente por sua falta de coragem para me contar, dividir suas dúvidas, olhos no olhos.

Quanto a mim, não tenha dúvidas, eu me curo!

Texto revisado por Flávia Figueirêdo

Todo nascimento custa uma -ou mais- morte(s)

Todo nascimento custa uma -ou mais- morte(s)

Por Diego Caroli Orcajo

Provavelmente teremos alguns problemas com o título, porém não havia forma melhor de expressar a proposta do texto. Vamos lá!

Uma jovem acabou de descobrir que está grávida. Assim que o marido chega em casa ela lhe faz uma surpresa, e ao final, diz que estão esperando uma criança.

Ok, até aí tudo bem. Certo? Sim, correto! Porém peço-lhes que foquem atenção a um fato. Ao saber que uma criança nascerá, o casal de imediato se prontifica a idealizar diversas características desse novo ser – que ainda está longe de dar as caras.

Existem as idealizações orgânicas:

– “Será um menino”; “Será uma garota”; “Terá os olhos claros como os do pai”; “Os cabelos serão escuros e encaracolados como os da mãe”; “Será alto como o avô”; “Terá uma saúde perfeita”.

E também as aspirações intelectuais e comportamentais:

– “Será um grande médico”; “De repente jogador de futebol”; “Terá uma inteligência invejável”; “Ficará famoso(a)”.

Obviamente citei apenas alguns exemplos para que a compreensão fosse facilitada. Vamos adiante!

Alguns meses se passaram e adivinhem, a criança nasceu. Agora o nosso título começará a fazer sentido.

A criança que nasceu não é exatamente aquela que foi idealizada – a menos que os pais tenham excelentes dotes em prever o futuro, o que não creio ser possível. Desejaram uma menina, nasceu um menino. Desejaram uma criança plenamente saudável, porém a que nasceu tem sérios problemas cardíacos. Esperaram uma criança extremamente intelectual, porém a que nasceu tem uma síndrome que torna extremamente complexo o seu desenvolvimento cognitivo.

E aí? Simples. Para que uma criança possa receber todo o amor necessário de seus pais é preciso que algo ocorra. Já conseguem dizer qual o requisito mínimo?

Sim, uma morte precisa acontecer. E qual criança precisa morrer? A criança idealizada! Enquanto os pais não fizerem o luto pela criança idealizada estes serão plenamente incapazes de receber a criança real que ali se apresenta.

Legal, mas então só os futuros pais precisam se preocupar com as informações do texto?

Olhem, eu até gostaria que sim, porém eis uma problemática universal da qual nenhum de nós escapa.

Enquanto não elaborar o luto do antigo relacionamento, não será capaz de amar devidamente a atual ou próxima namorada. Enquanto não elaborar o luto dos pais que desejaria ter tido, da criação que gostaria ter recebido, não será capaz de enxergar e dar valor aos pais que de fato estão em sua frente. Enfim, poderíamos citar milhões de exemplos, porém julgo já ter trazido o suficiente para que o entendimento seja pleno.

O que desejo que vocês apreendam de tudo que foi dito? Cautela e atenção. De repente a incapacidade de progredir, seja uma dificuldade em abandonar os objetos e idealizações perdidos. Lembrem-se sempre, o mesmo passo que te coloca mais próximo de um ponto, é o que te afasta de outro. Não há movimento sem perda. O caminho da direita pressupõe o abandono de todas as possibilidades existentes no da esquerda.

Abraços e vamos nos falando!

Diego Caroli Orcajo. Águas de Lindóia

Sem tempo pra ser mãe

Sem tempo pra ser mãe

Hoje no restaurante estava ouvindo a conversa de duas mulheres e uma delas estava se lamentando pela dificuldade de ficar com os filhos nos dias de hoje e dar conta de todo o resto que faz parte dessa versão pós-moderna do universo feminino, em que assumimos tantas funções.

Também percebi que no intervalo entre o papo com a amiga e algumas garfadas e olhadas no celular, em nenhum momento a vi interagindo com o filho que tentou, por algumas vezes, lhe mostrar o desenho que havia feito no guardanapo.

Fiquei observando a cena e só me vinha a mente que sim, é realmente muito difícil o papel da mulher nos dias de hoje. Nisso, ela tinha razão. Complicado cuidar da casa, das crianças, dos maridos, de si mesma e do trabalho, fora todo o apelo do mundo virtual que acaba por roubar uma boa parte do nosso tempo.

Mas as tentativas frustradas do filho em obter a atenção da mãe, também me faziam pensar na incapacidade que algumas mulheres têm de se vincular afetivamente aos filhos e que isso, na maioria das vezes, pouco tem a ver com falta de tempo ou excesso de tarefas.

O trabalho pode até servir como desculpa para as que vivenciam, nessa seara do encontro com o outro, especialmente com suas crianças, alguma dificuldade emocional. Nada além disso.

As crianças, em particular, desejam e demandam um tipo de intimidade emocional que envolve muito mais que disponibilidade de tempo, mas que tem a ver com entrega, aconchego, carinho, suporte, investimento. Nada fácil e, para alguns, tarefa quase impossível. Principalmente se você não teve isso na sua história, se em seu baú de emoções e lembranças não há resquícios de uma infância bem nutrida afetivamente.

Ainda assim, acredito que somos capazes de buscar esses recursos de outras maneiras e aprendermos a enfrentar o desafio da intimidade emocional que uma criança nos coloca.

Todo o trabalho, o auto-cuidado, o tempo para tantos afazeres, a autonomia que as mulheres têm hoje em dia são conquistas  e nada tem a ver com a capacidade de se vincular afetivamente. Eu sempre trabalhei e, por mais que a maternidade tenha me imposto limites, pausas e rearranjos, continuei com meu trabalho e isso, de maneira nenhuma interferiu negativamente no meu exercício da maternidade ou na minha vinculação com as minhas filhas.

Se você tem este desejo e se dispõe a isso, não é o trabalho ou qualquer outra coisa que vai te impedir. As dificuldades podem aparecer, mas você será capaz de vencê-las se assim o desejar. Pra começar, basta olhar pro lado, reparar naquele desenho, seguir as pistas que a criança te dá e tornar o seu tempo com ela, especial.

A recompensa será o sorriso, o afago, a companhia que não apenas serão as sementes para fertilizar o solo da segurança emocional de seu filho, mas também ajudarão você a curar suas próprias feridas e a encontrar um pouco mais de suprimento no seu baú de emoções.

Fácil, realmente não é.

Só sei que vale muito a pena tentar.

“O diagnóstico e a terapêutica”, por Eduardo Galeano

“O diagnóstico e a terapêutica”, por Eduardo Galeano

O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas.Qualquer um reconhece os dentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.

O amor pode ser provocado quando cair um punhadinho de pó-de-me-ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada.

O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem porção capaz de evitá-lo, embora as vivandeira apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo.

Eduardo Galeano
Excerto de “O livro dos abraços”, Editora LPM

“Sofrimento produtivo e improdutivo”, por Flávio Gikovate

“Sofrimento produtivo e improdutivo”, por Flávio Gikovate

Podemos tentar classificar nosso sofrimento íntimo como normal ou patológico. Trata-se de uma avaliação complexa e difícil. Podemos pensar em tristeza com causa objetiva determinante e estados depressivos (tristeza e depressão são, hoje em dia, usados como sinônimos) definidos antes de tudo por alterações na química cerebral. Não se deve subestimar a dificuldade presente neste tipo de divisão, pois estados de alma interferem sobre a química e vice-versa.

Penso que é muito mais útil separar os estados depressivos em sofrimento construtivo e produtivo ou improdutivo e pouco útil – senão completamente inútil. Do ponto de vista prático, esta é a classificação que determina o tipo de interferência do profissional de saúde.

O sofrimento produtivo é aquele que deriva da tomada de consciência de erros que cometemos: a autocrítica é sempre muito dolorosa quando, por exemplo, um empresário tem que perceber que sua situação financeira se deteriorou por força de equívocos previsíveis; dói para alguém que perdeu o parceiro sentimental por razões que poderiam ter sido evitadas, dentre tantos outros exemplos.

A fase de avaliação do ocorrido é extremamente produtiva e pode levar a importantes mudanças psicológicas, melhorando as condições da vida futura. Numa situação dessas seria quase criminoso fazer uso de algum tipo de medicação que viesse a prejudicar a reflexão em toda sua profundidade.

Nos casos de luto por morte de pessoa querida a situação é diferente, já que não temos que aprender nada acerca de nossas atitudes. Talvez tenhamos muito a aprender sobre condição humana e, é claro, cabe a dor e sofrimento que, diga-se de passagem, nenhum tipo de medicamento é capaz de atenuar muito durante a fase aguda da tristeza.

Acontece que, tanto no caso da autocrítica útil e construtiva quanto no luto necessário para melhor entendermos nossa condição, pode acontecer do estado depressivo se estender para além do útil e conveniente.

No caso do empresário que aprendeu com seus erros, é claro que ele terá que sair do estado depressivo e ir atrás de salvar o que restou de seus negócios. Para conseguir fazer isso é preciso que esteja um pouco mais disposto.

Isso vale para quase todas as condições depressivas que se prolongam para além do que é produtivo e útil. Aí cabe sim tentarmos ajudar a pessoa a sair do atoleiro depressivo (que, muitas vezes, já se tornou um fato químico) por meio do uso de medicamentos e psicoterapia (que está indicada também na fase de autocrítica).

Nos casos em que a depressão é de origem essencialmente química, todo o sofrimento é inútil e a mente patina em medos e pensamentos obsessivos de caráter negativo dos quais nada de bom se pode extrair. Cabe lançar mão de todos os recursos hoje disponíveis para amenizar este tipo de dor que não leva a nada.

Para mais informações sobre Flávio Gikovate

Site: www.flaviogikovate.com.br
Facebook: www.facebook.com/FGikovate
Twitter: www.twitter.com/flavio_gikovate
Livros: www.gikovatelojavirtual.com.br

Fotografia de Anna O

“Vivemos numa sociedade falocêntrica”, é o que explica Leandro Karnal

“Vivemos numa sociedade falocêntrica”, é o que explica Leandro Karnal

Leandro Karnal, Doutor em História e professor da UNICAMP desde o ano de 1996, fala, neste vídeo, sobre a supervalorização do masculino e dos esteriótipos a ele associados em nossa sociedade, atribuindo a essa visão predominante a exaltação da violência, do ódio, do contender.

Trata-se, pois, de mais uma dentre as fantásticas reflexões de Leandro Karnal.

“Do livro do desassossego”: trechos selecionados confirmam a genialidade de Fernando Pessoa

“Do livro do desassossego”:  trechos selecionados confirmam a genialidade de Fernando Pessoa

Livro do Desassossego – Fernando Pessoa

“O coração, se pudesse pensar, pararia.”

“…não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.”

“É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”

“A solidão desola-me. A companhia oprime-me. A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos.”

“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria.”

“Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.”

“Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias. (…) Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. (…) Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.”

“O oráculo que disse “Conhece-te” propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge.”

“Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais.”

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.”

“Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto.”

“Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”

“O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. (…) Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.”

“Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam?”

“Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.”

“Sou uma prateleira de frascos vazios.”

“Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a quem me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.”

“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”

“Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto.”

“Minhas pálpebras dormem, mas não eu.”

“Parece-me que sonho cada vez mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.”

“A alma humana é um abismo escuro e viscoso, um poço que se não usa na superfície do mundo”

“No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade…”

“Sou os arredores de uma vila que não há. (…) Sou uma figura de romance por escrever.”

“A liberdade é a possibilidade de isolamento. (…) Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

“…certas personagens de romance tomam para nós um relevo que nunca poderiam alcançar os que são nossos conhecidos e amigos, os que falam conosco e nos ouvem na vida real.”

“…como tudo dói se o pensamos como conscientes de pensar, como seres espirituais em que se deu aquele desdobramento da consciência pelo qual sabemos que sabemos!”

“A condição essencial para ser um homem prático é a ausência de sensibilidade (…). A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve que esquecer.”

“O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo.”

“Dói-me o universo porque a cabeça me dói.”

“A memória, afinal é a sensação do passado… e toda sensação é uma ilusão.”

“Fechos subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem.”

“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.”

“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (…) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

“Errei sempre os gestos que ninguém erra; o que os outros nasceram para fazer, esforcei-me sempre para não deixar de fazer. Desejei sempre conseguir o que os outros conseguiram quase sem o desejar. Entre mim e a vida houve sempre vidros foscos: não soube deles pela vista, nem pelo tato; nem a vivi essa vida ou esse plano, fui o devaneio do que quis ser, o meu sonho começou na minha vontade…”

“Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais do que ser uma dor que nós temos.”

“O maior domínio de si próprio é a indiferença por si próprio.”

“A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque sempre faz tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.”

“Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas (…) E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”

Fonte indicada: Fragmentos

Três poemas de Neruda que farão com que o seu coração acelere imediatamente

Três poemas de Neruda que farão com que o seu coração acelere imediatamente

Poema 20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escrever por exemplo:
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Eu a quis e por vezes ela também me quis
Em noites como esta, apertei-a em meus braços
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito
Ela me quiz e as vezes eu também a queria
Como não ter amado seus grandes olhos fixos ?
Posso escrever os versos mais lindos esta noite
Pensar que não a tenho
Sentir que já a perdi
Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela
E cai o verso na alma como orvalho no trigo
Que importa se não pode o meu amor guardá-la ?
A noite está estrelada e ela não está comigo
Isso é tudo
A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Para tê-la mais perto meu olhar a procura
Meu coração procura-a, ela não está comigo
A mesma noite faz brancas as mesmas árvores
Já não somos os mesmos que antes havíamos sido
Já não a quero, é certo
Porém quanto a queria !
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido
De outro. será de outro
Como antes de meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos
Já não a quero, é certo,
Porém talvez a queira
Ah ! é tão curto o amor, tão demorado o olvido
Porque em noites como esta
Eu a apertei em meus braços,
Minha alma se exaspera por havê-la perdido
Mesmo que seja a última esta dor que me causa
E estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

Pablo Neruda

Não te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Antes

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda

Os desafios da escolha profissional

Os desafios da escolha profissional

Por Juliana Santos  e Lilian Marin Zucchelli

O que você quer ser quando crescer? Todos nós quando crianças ouvimos esse questionamento, não é mesmo? Mas, quando chega o momento da decisão, nem sempre estamos preparados para esse grande desafio que é a escolha profissional.

Houve um tempo em que a humanidade acreditava que seus talentos eram dados pelos deuses. Assim, estes seriam como um guia a conduzir o homem em seu destino. Vivê-los, portanto, significava cumprir o próprio destino e alcançar a sensação indescritível de ter compreendido o motivo e o mistério da própria existência.

Milhares de anos se passaram e a descoberta da própria vocação continua sendo um dos temas mais inquietantes de nossas vidas. Afinal,para que estamos aqui? Nossos talentos apontam para qual direção? Que profissão escolher diante de tantas possibilidades? Estes e outros tantos questionamentos preocupam e inquietam cada vez mais cedo a mente dos adolescentese suas famílias.

Geralmente, esta escolha se faz na adolescência, fase marcada pela transição entre a infância e a vida adulta. Se pudéssemos usar uma imagem para simbolizá-la seria a de um “Portal”. Dentro dele, o espaço é intermediário, sem muitas seguranças, e o ego vai flutuando hora para lá e hora para cá, e por isso as influências ganham tanto espaço.

As demandas são muitas: modificações na personalidade; experiências de autoconhecimento; mudanças corporais e hormonais; ampliação da visão de mundo; novas definições de identidade e papéis sociais; mudanças nas relações familiares; identificações com pessoas, ideais ou grupos; novas responsabilidades ea definição de uma profissão!

Tantas transformações simultâneas podem ser exigentes o bastante para gerar angústia e ansiedade. E, por isso, é comum que muitos adolescentes e suas famílias recorramà uma Psicoterapia ou à ajuda de um Orientador Profissional que lhes auxilie a “organizar a própria casa” para então se posicionar diante de um menu recheado de profissões.

A escolha profissional é mais um momento difícil, sofrido e sentido da vida do adolescente que progressivamente, interna e externamente, vem optando por algumas coisas e tendo que abrir mão de tantas outras. Ela não é um fato isolado, mas algo que se insere no todo da vida, intrinsecamente ligada à individualidade, à realização, aos sonhos, esperanças, fantasias, medos e amor. Neste conflito heróico em que se busca a confirmação da autonomia e a autoafirmação, o adolescente mergulha dentro de si mesmo, se confronta com suas questões pessoais, e então avança para uma escolha que lhe seja capaz de satisfazer a alma e não apenas o bolso.

Na contramão deste processo, a sociedade pós-moderna capitalista tem favorecido cada vez menos espaço para o contato do ser humano com as individualidades de sua alma. As exigências sociais, bem como as expectativas familiares nem sempre respeitam o tempo necessário para o adolescente fazer o seu caminho de escolha. Isso se confirma, por exemplo, quando buscamos uma escola de educação infantil para nossos filhos e vemos na campanha de marketing da instituição que o foco da educação é o vestibular.

Mas quem, lá pelas tantas da vida, não gostaria de sentir-se no lugar certo, feliz e satisfeito com seus talentos e interesses diante da vocação escolhida?

A família e a escola são os espaços privilegiados onde os adolescentes poderão encontrar-se. Inúmeras vezes segue-se o desejo de ser como a mãe, o pai, o avô ou algum outro parente com quem se identifica e que lhe toca os talentos no coração. Alguns professores tambémpoderão influenciar esta escolha já que são capazes de arrancar do aluno uma admiração que lhes favorece a formação da autoimagem através de uma relação de afeto, onde certamente haverá espaço para o diálogo, feedbacks positivos e críticas construtivas a respeito de seu desempenho nas matérias e na vida.

Um cuidado que precisa ser tomado é que os pais e familiares precisam estar atentos, para não projetarem em seus filhos suas expectativas quanto à carreira e sucesso profissional, baseados em suas próprias crenças e experiências pessoais passadas. Frases como: “Você tem que ser médico como seu pai, que já tem um consultório onde você poderá trabalhar!” ou “Nesta profissão você não vai ganhar dinheiro ou ser bem sucedido!” podem ser extremamente prejudiciais na medida que se fazem imposições ao adolescente sem considerar seus talentos e individualidades.

Seguir uma imposição que não realize a alma é sempre optar por abrir mão da própria vida, para viver a do outro. Mais cedo ou mais tarde, a vida deixada de lado voltará a bater na porta para cobrar o seu espaço. Sempre caberá aos pais a função do aconselhamento e cuidado, mas o lugar ideal será sempre o do lado e até de mãos dadas, mas à frente, nunca.

Há também a influência do grupo de amigos, onde todos estão na mesma situação. O jovem tende a identificar-se com seus pares e, muitas vezes, para ser aceito no grupo, adere à opinião dos mais “influentes”. Isso, normalmente não dura muito tempo e faz parte do processo de amadurecimento e da formação da própria identidade.

A escolha de uma profissão precisa ser feita com sabedoria e discernimento, pois caso contrário, as chances de fracasso ou de uma futura insatisfação profissional tornam-se muito grandes. Porém, vale lembrar que sempre nossa vida e personalidade, são dinâmicas! Deste modo, pode acontecer de escolhermos algo que nos realize por algum tempo, mas que depois, com as mudanças que vamos passando, essa opção não nos satisfaça mais. É hora de desatar o barco e partir para um novo cais!

A verdade é que não existe uma profissão certa ou errada, melhor ou pior a seguir, todas podem trazer prazer, sucesso e felicidade, desde que cumpra o papel de proporcionar à pessoa a realização no mundo de suas habilidades e talentos.  Afinal, no quebra-cabeças da humanidade, toda peça é fundamental para a construção do sonhamos viver.

Neste tempo de escolha, o serviço de Orientação Profissional pode ser um recurso de grande valia para afinar a visão e afunilar as muitas possibilidades, já que quando tratamos de humanidade, não existem verdades absolutas. Através de um processo estruturado e orientado, o Psicólogo poderá favorecer o autoconhecimento através do uso de diversas técnicas e estratégias de ação.São atividades que auxiliam na reflexão sobreos sonhos e aspirações, sobre si mesmo e a própria história, sobre as possíveis profissões e expectativas em relação ao futuro e ao papel que se quer ocupar na sociedade.

Testes psicológicos, entrevistas, pesquisas de profissões, jogos psicopedagógicos, escuta analítica e outras técnicas,são ferramentas que possibilitarãoa reflexão e o autoconhecimento. Este processo poderá levar o adolescente a perceber que todas as respostas para as suas questões já se encontravam dentro dele, e que só precisava de ajuda para descobri-las.

Assim, muitos adolescentes e familiares que passam por este momento tão importante, podembuscar estratégias e soluções que auxiliem os que ainda não sabem ou têm dificuldades de decidir para onde desejam mirar as suas flechas. O caminho será sempre o que realiza o coração e lhe faz crescer em humanidade. Afinal, não há valor que pague a sensação de termos encontrado nosso lugar no mundo!

Passos da Orientação Profissional

1- Despertar

No consultório, através das entrevistas iniciais, o adolescente poderá revisitar a própria história, levantar e classificar suas múltiplas inteligências, competências, aptidões, recursos, valores e princípios.

2- Desbravamento

Baseando-se nos recursos que tem, o adolescente terá a oportunidade de analisar o mercado de trabalho, escolas, cursos e grades curriculares, a fim de ganhar conscientização e criticidade para sua escolha.

3- Indo à campo

O adolescente terá a missão de conversar com vários profissionais das áreas que mais lhe interessam para, pouco a pouco, afunilar as possíveis possibilidades de escolha.

4- Encerramento

Ao final, o adolescente deverá se sentir mais autoconsciente, confiante e criativo frente o caminho que se abrirá para a continuidade de sua jornada. 

 

Autoria

contioutra.com - Os desafios da escolha profissionalLilian Marin Zuchelli – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana pela PUC-SP. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Institiuto Sedes Sapientiae. CRP: 06/23768

contioutra.com - Os desafios da escolha profissional

Juliana Pereira dos Santos – Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica Junguiana. Aprimoranda em Psicopatologia e Psicologia Simbólica pelo Instituto Sedes Sapientiae e Coach formada pela Sociedade Brasileira de Coaching. CRP: 06/ 108582             

                

A insustentável leveza do sexo

A insustentável leveza do sexo

Estar sozinho. Sentir-se sozinho. Ter apenas o próprio reflexo. A solidão é algo de que todos, de uma maneira ou de outra, buscam afastar-se. Seja pela dificuldade que temos de olhar a nós mesmos (como dizia Pascal), seja pela dificuldade de encarar a existência, com toda sua complexidade, sem nada para nos apoiarmos. A solidão nos aflige, porque há um vazio dentro de nós, o qual só pode ser preenchido por outra pessoa. Sendo assim, busca-se, no amor, a solução para o vazio existencial.

No mundo líquido, esse vazio existencial é preenchido pelo sexo. As pessoas possuem incontáveis “parceiros”, contudo, são incapazes de relacionar-se, de tal modo que o sexo casual, totalmente desconectado com um relacionamento e, consequentemente, com o amor, não pode preencher esse vazio, mas, antes, afastá-lo dos outros. Erich Fromm, sabiamente, diz:

“O sexo só pode ser um instrumento de fusão genuína – em vez de uma efêmera, dúbia e, em última instância, autodestrutiva impressão de fusão – graças a sua conjunção com o amor. Qualquer que seja capacidade de fusão que o sexo possa ter, ela vem de sua camaradagem com o amor.”

Não quero fazer um culto de negação ao corpo, mas parece-me que o sexo desvencilhado do amor ou de qualquer outra coisa, isto é, o sexo livre de ligações no dia seguinte, não conseguiu o que prometia. Em um primeiro momento, pode ser empolgante caminhar no mundo do “sexo puro”, mas e quando a correnteza não puder ser controlada? Afinal, deve-se ser livre, pois ter algo que o prenda é proibido nesse jogo. Então, estar à deriva é tão bom assim? Preenche o vazio? Segundo Bauman, não, pois,

“Voar suavemente traz contentamento, voar sem direção provoca estresse. A mudança é jubilosa; a volatilidade incômoda. A insustentável leveza do sexo?”

Essa insustentável leveza do sexo pode ser percebida nos muitos casos que chegam aos consultórios, de pessoas frustradas, já que o remédio que prometia curar causou mais moléstias. Dessa forma, o sofrimento torna-se ainda maior, pois, na medida em que se tentou afastar-se da solidão com o “sexo puro”, percebeu-se que se estava mais só do que antes. Essa frustração ocorre porque o sexo esvaziou-se de sentimentos e, portanto, não permite, em si, a capacidade de realização que se pretende. Em outras palavras,

“Quando o sexo se apresenta como um evento fisiológico do corpo e a palavra sensualidade pouca evoca senão uma prazerosa sensação física, ele não está liberado de fardos supérfluos, avulsos, inúteis, incômodos e restritivos. Está, ao contrário, sobrecarregado, inundado de expectativas que superam sua capacidade de realização.”

Assim sendo, o “sexo puro” é caracterizado pela rotatividade e não pela qualidade ou capacidade de realização. Essa rotatividade é uma das principais características do “homo consumens”, uma vez que, na modernidade líquida, o sucesso não é caracterizado pela capacidade de ter bens, pois, para que você possua algo, é preciso guardá-lo, e o homem pós-moderno, ou “consumens”, não quer ter esse trabalho. O sucesso, assim, é medido pela capacidade de usar, desfazer-se e usar algo novo.

“É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo consumens.”

O “sexo puro” encontra-se em perfeita consonância com essa ideia, em que os encontros não devem passar de um episódio e todos devem estar preparados para ser descartados. O grande paradoxo nisso é que esse “sexo puro” prometia resolver o problema da solidão. Mas parece-me improvável que assim o seja, quando o outro vale menos que uma camisa, visto que esta é usada mais de uma vez.

Quando se determina que os encontros não devam passar de um episódio, cria-se uma ditadura, em que toda forma de relacionamento deve ser assim. Há, dessa maneira, o banimento dos sentimentos do sexo. Entretanto, esquecem que, quando se tenta retirar o acaso, o inesperado da vida, retira-se, imprescindivelmente, o que há de mais sublime na vida: o amor.

O “sexo puro” é a tentativa de uma sociedade insegura de sair da solidão, mas sem sair da zona de conforto. Obviamente, quando não se criam expectativas no outro, dificilmente haverá decepção. Mas, se não se espera nada no outro, talvez isso não seja amor. Para muitos estudiosos, na raiz do verbo amor está impressa a ideia de plantar, semear. Portanto, necessariamente, se há amor, há expectativas, pois ninguém semeia sem acreditar na colheita.

A insustentável leveza do sexo consiste em acreditar que pode se relacionar com outra pessoa e portá-la para dentro de si sem que haja envolvimento. Todavia, para que algo se desenvolva, é preciso envolvimento, muito embora essa não seja uma característica do homem líquido. Criar laços fortes pode deixar-nos mais vulneráveis, mas ao amor são inerentes a vulnerabilidade e a incerteza – e já disse que as melhoras coisas só acontecem no terreno do inexplicável.

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