Freud tinha razão: sobre Eros, o sexual, e Thanatus, a morte

Freud tinha razão: sobre Eros, o sexual, e Thanatus, a morte

Sobre Eros

Sabem porque é que o Leão copula com a Leoa? Porque tem um desejo sexual instintivo por ela, e ela por ele. Nunca copulariam com o intuito reprodutivo de garantir a sobrevivência da sua espécie, como entenderão. Não fora este desejo sexual instintivo e esta espécie não sobreviveria. O mesmo acontece com o macaco, que não copula com a macaca por frete, para subsistência da sua espécie, mas por um desejo sexual instintivo e incontrolável, que impede ambos de não o fazerem.

E assim sobreviveram e sobrevivem as espécies. É razoavelmente credível que o instinto de vida encontre aqui a sua mais irrecusável expressão, já que na ausência desta condição a sobrevivência da maioria das espécies não poderia ter tido lugar.

Acontece que o homem não se fica pelo instinto, ele é o único animal que tem uma representação mental elaborada do instinto e da sexualidade nele enraizada – Uma psico-sexualidade. Elaborada e de que maneira. Sei que não vos faltará a imaginação para perceberem do que estou falando; e o problema é esse: tanta elaboração mental também criou uma pesada moralidade, até certo ponto necessária, para frear os excessos do instinto.

O tabu do incesto, para não perder mais tempo, é prova definitiva das aflições em que se tem visto o animal homem, desde que representou mentalmente o instinto sexual e avaliou as suas expressões e consequências. A força do tabu, como entenderão, só é necessária para frear um desejo de igual intensidade.

Ora não fora a excessiva sexualização que atribuíram à sexualidade proposta por Freud, ou seja, não fora o olhar intensamente moralizante com que avaliaram e avaliam a sexualidade proposta por Freud – que até cometeu o pecado de destituir a criança, como perverso polimorfo, do seu consagrado estatuto até aí ocupado, como anjo assexuado –, seria mais fácil perceber uma coisa simples: Freud mais não fez do que integrar o homem na cadeia da natureza animal de que faz parte, onde sobreviveu do mesmo modo que as outras espécies, através de um instinto sexual, tendo em conta que, a par do grau de desenvolvimento que a sua inteligência assumiu, este instinto adquiriu uma complexa e conflituosa expressão, ao nível da representação mental – Questão que a pulsão conceptualiza; a pulsão de vida, que tem como representante uma libido sexual sublimável.

Sobre Thanatus

Depois temos um outro conceito, que instaura a dualidade pulsional mais além do princípio do prazer, que é o conceito pulsão de morte, que é antes de mais a tendência para a constância originária, ou uma irreprimível “vontade” de retorno ao estado de inorganicidade e, portanto, de morte. Este é, por ventura, o conceito de Freud mais difícil de compreender e aceitar, que aliás muito poucos mostram compreender.

Como acredito que a descoberta pessoal é o único processo efetivo para a aquisição de certos conhecimentos, principalmente os de difícil aceitação, fica por vossa conta uma mais profunda exploração desta parte, que completa o quadro que configura as dimensões mais elementares e abstratas, sobre as quais se alicerçam todas as consequentes e complexas expressões da vida mental humana.

Fiquem apenas com esta incitação: o homem, dotado de um inexorável instinto de vida, começa na verdade a morrer a partir do momento em que nasce, como de resto todos os outros animais, da cadeia natural em que se integra; mas é o único que tem consciência disso e por isso conta o tempo.

Para finalizar resta constatar que, de natureza inexorável, da integração destes processos decorre a evolução da nossa espécie, naquilo que de mais fundamental a condiciona.

27 fotografias de cães com uma beleza que você nunca viu antes

27 fotografias de cães com uma beleza que você nunca viu antes

Título original: Fotógrafa une paixão por cachorros e fotografia em uma série apaixonante

Autoria:  Andreia Verrone

Licenciada em desenvolvimento urbano e regional, Anne Geier tem como hobby seu carinho e amor em juntar dois de seus talentos, a fotografia e os animais.

Anne Geier cria cliques mágicos e une a beleza de paisagens maravilhosas com a baleza e simpatia de seus modelos mais sinceros e verdadeiros.

São cachorros de todas as raças e que transformam suas fotografias em algo ainda mais lindo e completo.

Ela consegue capturar situações tão reais, tão sensíveis que deixa as fotografias ainda mais especiais.

Confira muito mais sobre seus trabalhos com seus amigos de quatro patas, no site de Anne Geier, clicando aqui, onde ela compartilha muitas outras séries de suas fotografias.

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Quando renascer é preciso

Quando renascer é preciso

Muitas vezes escutamos que para não morrer em vida precisamos nos reinventar, precisamos renascer para uma existência nova. Nesse sentido, morrer e renascer em vida no meu entender seria deixar de lado aquele ser desanimado, cansado e até mesmo triste para recomeçar com uma nova roupagem e com um novo fôlego.

Somos humanos e não máquinas capazes de programar como será nossa existência do nascimento até a morte. A imprevisibilidade da vida, o amadurecimento, as falsas fantasias, os novos interesses, as perdas são algumas das situações postas que nos fazem repensar o que queremos.

As vezes sonhos antigos tornam-se irrelevantes e as receitas sempre utilizadas já não nos servem mais. É simples assim, o que nos realizava antes pode ser motivo de desinteresse e desânimo no presente. Não significa que nossas escolhas antigas deram errado, mas apenas que queremos ou precisamos de algo diferente. Não significa que vamos descartar nosso passado, mas apenas que desejamos exercer o poder (que temos!) de alterar o presente para que assim o futuro fuja da previsibilidade há tanto alinhavada e não mais desejada.

São tantos os exemplos para essa situação, pessoas que deixam de ser passivas diante da vida, que superam dificuldades, que passam a enfrentar seus medos e até mesmo as que vivem situações terríveis e mesmo assim decidem seguir em frente de forma diferente.

Até porque, não são apenas os nossos desejos que nos movem para mudanças, pois nem sempre as queremos. As vezes a própria vida nos surpreende com fatos que nos obrigam a uma reinvenção.

Reinventar-se pode ir de situações menos complexas, como uma mudança de profissão ou de país, por exemplo, para situações bem mais complexas, como decidir dar uma chance à vida mesmo quando sofremos perdas irreparáveis e perdemos a fé. Em suma, pouco ou muito complexa a mudança nunca será fácil ou indolor.

O que me despertou a vontade de escrever sobre o assunto foi ter assistido recentemente, numa madrugada insone, o filme Gravidade do diretor mexicano Alfonso Cuarón, que fez muito sucesso de crítica e público na época de sua exibição nos cinemas.

A verdade é que o filme é uma bela metáfora sobre o “renascimento”. Bom, quem não assistiu e não quer saber detalhes do filme é bom parar de ler o texto por aqui.

O longa se passa no espaço, onde astronautas são atingidos por detritos que causam mortes e avarias na nave. Após o ocorrido, restam vivos, inicialmente, apenas a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e o comandante Matt (George Clooney).

Em determinada cena do filme, o comandante Matt pergunta à personagem de Sandra Bullock quem estaria, naquele momento, olhando para o céu e pensando nela e, então, ela revela a tragédia que envolveu a sua família. É nesse exato momento que entendemos que a Dra. Ryan tinha perdido tudo e que a sua vida era um enorme vazio.

A questão é que no meio do filme ela decide viver e então Cuarón nos apresenta, através de fascinantes imagens, o seu “renascimento”. É a nave como útero em que vemos a personagem em posição fetal, os cabos como cordão umbilical, a sua luta para chegar ao planeta Terra e, finalmente, a cápsula espacial debaixo d’água e o esforço da personagem para sair dela nos fazendo lembrar um parto natural. A Dra. Stone não apenas sobrevive, ela renasce, ela decide recomeçar, dar uma chance à vida… apesar de toda dor.

contioutra.com - Quando renascer é preciso

Cuarón nos mostra de forma poética a fragilidade humana e principalmente que as vezes precisamos nos reinventar, renascer, recomeçar, e que, sim, somos capazes de fazer isso por mais difícil que pareça.

Achei o filme muito bonito e a reflexão muito válida, pois a passividade, o medo, o desânimo, muitas vezes nos impede de dar novos passos, passos necessários para que a nossa vida seja, se assim for nossa vontade ou necessidade, reinventada.

O tema também me faz lembrar a poesia “Reinvenção” de Cecília Meireles e por isso termino com ela:

A vida só é possível reinventada.

Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas. . .

Ah! Tudo bolhas que vêm de fundas piscinas de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.

Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcança…

Só – no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.

Só – na trevas fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.”

O que podemos aprender com o bambu?- Fernanda Alcantara

O que podemos aprender com o bambu?-  Fernanda Alcantara

Por Fernanda Alcantara

Este belo arbusto pode ser usado para diversos fins.
Seu uso vai da produção de papel à construção civil, tanto nas construções a prova de terremoto quanto em casas artesanais e ecológicas, passando ainda pela confecção de instrumentos musicais, móveis, artigos de decoração, instrumento para a prática de massagem terapêutica (bambuterapia) e até alimentos como é o caso do broto de bambu comestível, dentre outras coisas.
Toda esta versatilidade só é possível devido a características importantes desta planta: por sua resiliência, flexibilidade e força.

Não é de se estranhar que esta planta nos traga algumas reflexões importantes. Circula na internet um texto chamado “As sete verdades do bambu” onde são analisados alguns aspectos do bambu deixando ao leitor alguns pontos de aprendizado sobre a resiliência da planta. Mas, como o bambu é uma fonte inesgotável de possibilidades, muitas outras reflexões e analogias podem ser feitas. Afinal, assim como nós, trata-se de uma planta bastante versátil, sem deixar escapar que é de fato uma das plantas mais resilientes de flora. Portanto, vale a pena dedicar mais tempo ao aprofundamento destas reflexões.

Então, vamos lá explorar ainda mais o bambu e suas contribuições para a nossa vida:

Nosso crescimento e maturidade podem demorar um tempo para se mostrarem visíveis ao mundo.
Depois de plantada a semente do bambu leva 5 anos para que a planta fique visível a olho nu! Nestes primeiros anos após o plantio todo o crescimento do bambu é subterrâneo. É o momento em que sua raiz se estende vertical e horizontalmente pela terra preparando toda a estrutura que manterá o bambu em pé durante sua vida. Então, mesmo que para o mundo externo não apareçam os “seus brotos”, as suas raízes estão crescendo internamente para lhe dar suporte e te manter firmes ao longo da vida. Muitas vezes, é justamente assim que as mudanças se processam em nós. Os processos de amadurecimento geralmente se iniciam de dentro para fora. Em alguns momentos da vida é necessário que haja uma pausa para que este movimento intenso possa acontecer em nosso mundo interno. Assim como ninguém vê o que ocorre debaixo da terra nos primeiros 5 anos após semear o bambu, é muito provável que as pessoas ao redor nem sempre perceberão isto, porque por mais energia que este movimento intenso demande, ele acontece primeiramente no mundo interno, para depois se externalizar nos mais diversos comportamentos. Então, quando estiver nesta jornada de autoconhecimento e resgate de si mesmo, apenas dê o tempo necessário para que suas raízes se estruturem.

Precisamos de um bom alicerce para nos desenvolvermos plenamente.
As raízes profundas do bambu são muito difíceis de ser arrancadas. Geralmente, a proporção de altura que um bambu atinge para cima (da terra) é equivalente a que se desenvolve para baixo. Desta forma, ele constrói bem suas raízes, mesmo que ninguém veja o que está acontecendo e se estrutura de forma que, aconteça o que acontecer ele estará firme. De maneira semelhante, nossos primeiros anos de vida e a maneira como nossas vivencias contribuirão para nossa formação são essenciais para a estruturação das nossas forças e capacidade de resistir as adversidades da vida. Precisamos de raízes sólidas e bem desenvolvidas que nos apoiem nos momentos adversos da vida e nos deem segurança para um caminhar tranquilo durante a vida.

Uma aparência frágil não significa falta de resistência.
O bambu é um arbusto é extremamente resistente! Devido a sua firme estrutura é muito difícil arrancar um bambu. Entretanto, ele parece tão frágil, tão fino e sem galhos. Pois é! O bambu pode nos servir para refletir sobre imagens e aparências. Ele não tenta parecer forte para que outras plantas ou animais tenham dele outra percepção. Por esta ótica podemos pensar que quando alguém se estrutura e se conhece, mais deixa de se importar com as opiniões ou as adversidades que a vida impuser. Se for necessário esta pessoa se envergará, mas não se quebrará, independente do que achem ou deixem de achar. Muitas vezes confundimos fragilidade e sensibilidade com fraqueza, mas nem sempre essas características são equivalentes. Aliás, nossa força, não precisa incluir a dureza ou a rigidez, mas sim a capacidade de encontrar os recursos necessários para se estruturar e se desenvolver bem apesar das adversidades. Isto é ser resiliente!

Precisamos ser firmes em relação aos nossos propósitos.
O bambu cresce em direção ao alto. Lá está seu objetivo e aconteça o que acontecer é para lá que ele vai. Talvez você já tenha visto arranjos que fazem com o bambu onde ele toma forma de um espiral. Se você observar verá que aquele bambu está seguindo sua direção, contornando os obstáculos impostos e seguindo para alto. Ou seja, se nos mantemos focados em nossos objetivos podemos contornar os obstáculos, até nos desviar um pouco do caminho se for o caso, mas sem deixar de seguir para o nosso propósito.

Nossas marcas nos transformam e fortalecem.
O bambu é cheio de nós. São estes nós que dão forças ao bambu para ficar em pé porque ele é oco e os nós são o ponto de força e resistência da planta. Mas eles não tiram sua flexibilidade. Podemos olhar para os nós exatamente como são: nós! Os nós que damos em nossas vidas, as dificuldades que enfrentamos, os problemas que passamos e todas as dores que acabam por cercar a existência, ou alguns aspectos dela. Não é possível evita-los, mas podemos fazer como o bambu e seguir rumo aos nossos objetivos usando estes nós para nos fortalecer, sem nos fazer perder a flexibilidade.

Apesar de vivermos em sociedade nosso desenvolvimento é individual.
E por falar em nós, vem outra lição importante que o bambu nos permite aprender: eles estão sempre juntos. Mesmo que cada bambu cresça e se estruture individualmente ele nunca está sozinho. Sempre que você ver bambus plantados verá que há vários deles! Este aspecto do bambu pode nos despertar para o quanto somos responsáveis por nós, pela nossa estrutura, pelo nosso crescimento e desenvolvimento. Mas nem por isso estamos sozinhos! Sempre temos alguém ao lado enfrentando as mesmas adversidades, seja na família, no trabalho, nos relacionamentos, enfim, por onde passamos encontramos pessoas vivendo diferentes processos, mas dentro do que lhe é pertinente. Mudam as questões, mas os processos são parecidos: pessoas em busca de seus objetivos! Uma seguindo reto, outras não, mas sempre em busca de algo, mesmo que seja descobrir o que é este algo. Por isso, há que se cultivar a medida certa do apego, mas também da independência emocional. Mesmo juntos e nos apoiando uns aos outros, há que responsabilizar-se pelo próprio caminho.

Precisamos valorizar nossas sementes!
Por fim, vamos voltar a falar das sementes do bambu: Elas são raras e valiosas. Dependendo da espécie, o bambu pode levar uma quantidade de anos comparável a uma vida humana para dar sementes, o que torna suas sementes tão valiosas, dada a sua raridade. Ou seja, o bambu respeita seu tempo! Aprender a respeitar o tempo é dar valor às nossas sementes. O tempo é o que temos de mais precioso, é através dele que existimos e nós realizamos. Um dia que se vai não volta mais e isto pode parecer bastante óbvio, não é? Mas, o que você tem feito do seu tempo? A quem e para que ele tem servido? Cuide do seu desenvolvimento e do seu tempo, para cultivar boas sementes, seja para a sua própria vida, seja para a humanidade.

A resiliência que o bambu nos ensina vai além do envergar e não quebrar. Ele nos ensina a olhar para nossas raízes, nossas expectativas, força, coragem, objetivos, individualidade, coletividade e até para como nos vemos. Ele nos ajuda a entender que precisamos sempre fazer o exercício de olhar para dentro de nós mesmos e para a nossa relação com os outros e com o tempo. Ele nos auxilia a compreender que a nossa força também está em nossa fragilidade, em nossas marcas e que elas são essenciais para outras conquistas como saber esperar, saber se curvar, saber lidar com nossos nós e obstáculos que encontramos no caminho, valorizando nossas sementes. Ele nos ensina que com bases fortes, poderemos sempre seguir a diante e mais além!

Acompanhe a autora em sua página no FacebooK.

A má vontade disfarçada

A má vontade disfarçada

Puxa, que pena que as pessoas andam tão ocupadas… Que chato é querer muito matar umas saudades já crescidas e não conseguir por falta de tempo; não poder sentar em um banco de praça e comer pipoca; possuir o direito de escolha, os meios de realização, a razão para aconselhar, a intuição para confirmar, a emoção para empurrar, mas preferir dar a mão à má vontade e ainda colocar a culpa no tempo.

Um convite declinado é quase sempre uma oportunidade perdida. Vai saber o mundo que estaria aguardando se a resposta fosse outra.

Uma chamada recusada, salvos os momentos de real impossibilidade, deixa uma ponta de rudeza, apesar das desculpas sempre cheias de detalhes coloridos e interessantes.

O abre alas da má vontade é a falta de tempo. O tempo que colocamos na posição de um senhor controlador e austero, que só demonstra colaboração para as tarefas que precisamos realizar, mas total desprezo pelas coisas e pessoas que queremos acessar. O tempo, pela versão da dona má vontade, é um tirano. É ele que não deixa que vejamos os amigos, que tiremos uma tarde para fazer nada, que alcancemos o telefone para dizer tão e somente um: Oi, como você está?

O tempo faz isso com a gente, mas, e ao mesmo tempo, sempre ele, ele nos deixa interagir horas seguidas com o mesmo telefone, nos aplicativos que nos mostram para o mundo, ainda que nos mostrem quase sempre editados e melhorados. Nessa questão nem percebemos o passar do tempo.

A má vontade pensa que é má para o outro, para o que ouviu a recusa, a desculpa, a mentirinha branca.

Mas, uma vez desobrigada de fazer o que pensava não querer, ou que estava com preguiça, ou que não valia à pena, a má vontade tira o disfarce, pendura na cadeira e vai ficar sozinha novamente, talvez sonhando com outra má vontade ainda maior, que hoje lhe deu um cano.

E o tempo, esse senhor de atitudes controversas, vai fazendo o papel de escudo, protegendo quem pede para ser protegido, mas, e felizmente, oferecendo bastante tempo a quem não quer fazer o pacto com a má vontade.

Alma errada- Mário Quintana

Alma errada- Mário Quintana

Há coisas que a minha alma, já mortificada não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há… e quem é que hoje faz questão de virgindades…
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até
que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…

Mário Quintana

Declaração de males

Declaração de males

 Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios… the pule cast of throught… sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.
Paulo Mendes Campos  

Texto extraído do livro “O amor acaba”, Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 259, organização de Flávio Pinheiro.

O amor, quando se revela…- Fernando Pessoa

O amor, quando se revela…- Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

Por que não eu?

Por que não eu?

Oportunidades não são iguais para todos; sobretudo num país como o nosso, onde a equidade, além de ser um sonho distante, não é um desejo legítimo e unânime. Há muitos que, gozando de situação social privilegiada, não fazem questão alguma de modificá-la; outros tantos, sequer pensam a respeito. Há ainda, aqueles que já estiveram expostos às vicissitudes da vida, as mais diversas; mas, tendo conseguido acesso a condições melhores, esquecem-se de suas origens. Não nos esqueçamos, também, daqueles que embora empreguem inúmeros esforços, enfrentam dificuldades e privações. No entanto; e felizmente, há uma categoria de gente que, com muitos, poucos ou quase nenhum recurso, encontram jeito, tempo e lugar para doar-se. Exatamente! Doar-se! Porque para doar a si, não é necessário dispor de “coisas”; basta dispor de vontade e algum amor.

Um pouco de reflexão e de disposição para sair do “modo automático”, de repente, é capaz de abrir diante de nós um leque de descobertas inquietantes. As grandes tragédias, por exemplo. Somos apresentados, com alguma frequência a situações de catástrofe que, em sua magnitude, arrebatam vidas, destroem bens, desestruturam famílias. O choque da notícia, ao invadir nossa rotina, causa espanto, medo, comoção. Mas, com o passar dos dias, a tragédia do outro vai ocupando cada vez menos espaço na mídia e na nossa vida, sendo substituída por outras manchetes mais impactantes e ficando relegadas às gavetas do esquecimento.

Esquecer é nosso maior recurso de proteção. Esquecemos as dores sofridas, esquecemos amores perdidos, esquecemos dificuldades vividas. Caso não nos fosse concedida a bênção do esquecimento, enlouqueceríamos em pouquíssimo tempo. Por sorte, ou felicidade, os acontecimentos e pessoas mais extraordinárias de nossas vidas ficam guardadas com a prima mais amorosa do esquecimento, a memória. Guardamos na memória cantinhos de vida que nos tocaram, pela doçura, dureza ou sobressalto; guardamos pessoas que vieram morar dentro de nós, pela relevância ou delicadeza; guardamos tombos inesquecíveis, conquistas inolvidáveis, aprendizados indispensáveis.

Aprendemos que cabem a nós tarefas e missões das quais não podemos e nem devemos querer escapar. Aprendemos que o tempo, esse sábio senhor, guarda tudo em seu lugar, a depender de sua proporção e importância. Aprendemos que duas mãos unidas fazem do peso insuportável, um fardo possível de carregar. Aprendemos que as melhores coisas que podemos conquistar não podem ser guardadas em cofres. Aprendemos que sem frio na barriga a vida não passa de um carrossel enfadonho e previsível. Aprendemos que a nossa parte é tudo aquilo que honrarmos acolher, com coragem na alma, luz nos olhos e doçura no coração.

E, no decorrer do caminho, vamos tendo encontros felizes com pessoas intensas e admiráveis que, só por existirem já fazem brotar na gente o que de melhor podemos ser. Porque toda gente, tem em si um brilho que é só seu; um atributo único, feito para iluminar a vida com seu jeito de existir no mundo.

Há Pedros, Marianas e Sofias que, sendo ainda tão jovens, exibem em seu caráter, integridade, afetividade e coragem para abraçar carreiras, não apenas por seu retorno ou notoriedade, mas pelo compromisso que assumiram em fazer o outro sentir-se acolhido, protegido e respeitado; que fazem a gente ousar acreditar que o ser humano ainda é digno de confiança. Há Joãos de corações enormes, cujo maior objetivo na vida é cuidar de todos com desvelado carinho, sem distinção; cujo abraço imenso não escolhe a quem abrigar, socorrer e acalentar; cuja simplicidade desconcertante, guarda um homem íntegro, honesto e amoroso. Há Elianes, que são capazes de amar seus pais, com amor desmedido de mãe; que têm sempre um colo pronto para quem dele precisar; que ofertam sempre uma palavra boa para iluminar a gente por dentro; que são pura alegria, mesmo quando têm inúmeros motivos para estarem tristes. Há Marias que parecem nunca se cansar, não conhecer dificuldades e ter a capacidade de carregar no peito, como filhos, todo aqueles que a quiserem chamar de mãe; que são o lastro da família, o chão, o teto e as paredes desse lugar sagrado que chamamos de lar. Há Rosanas, Paulos e Mirians que amam, como se fossem seus, sobrinhos postiços que a vida trouxe de presente; que tem as mãos sempre firmes e prontas a acolher mais um irmão ou irmã; que são queridos e respeitados por sua retidão e generosidade. Há Beths que estão sempre prontas a nos ouvir; a guardar nossos segredos; a nos fazer ficar fortes, mesmo quando morremos de medo; que nos amam pelo que somos, sem nunca julgar os nossos erros, por mais assustadores que eles sejam. Há Rosas, que são puro amor; que acolhem o irmão sem teto, dando-lhe além do alimento físico, razões para acreditar que a vida ainda vale a pena; que se transformam em palhacinhas amorosas para levar sorrisos a rostinhos cuja alegria foi roubada pela doença. Há Ricardos e Rodrigos que tiveram o capricho de nascer juntos, no mesmo dia, no mesmo ventre; homens honrados e talentosos, com almas antigas e corações de menino; que são amados e admirados por sua genuína e imensa capacidade de amar.

Há, enfim, jeitos infinitos de transmutar esse mundo num lugar menos árido, mais possível e mais digno. Há inúmeras oportunidades, não de receber apenas. Mas de oferecer, de coração, alguma parte mais bonita de nós. Que os Pedros, Sofias, Joãos, Elianes, Marias, Rosanas, Paulos, Mirians, Beths, Ricardos e Rodrigos nos sirvam de estrela, a guiar nossa vontade, na direção do desejo de fazer diferente e diferença. E, se formos capazes de enxergar no outro a sua porção mais humana e iluminada, comecemos fazendo uma pequena parte hoje, mais uma amanhã, e depois, e depois. Pois essa pequena parte há de crescer, germinar e se espalhar. Assim, se a vida espera que tenhamos o atrevimento para assumir a difícil missão de subverter a ordem desigual, cabe perguntar, por fim: Por que não eu? – Por que não você? – Por que não nós?

A gente tem que continuar…

A gente tem que continuar…

Algumas séries me fisgam pelas beiradas. São frases, ditas no meio de um episódio, que me levam a refletir os últimos acontecimentos de minha vida, e de repente estou apaixonada pelas personagens, feito a Teresa, de “Três Teresas”, na noite de ontem. Lá pelas tantas, a frase: “O mundo da gente começa a morrer antes da gente… e a gente tem que continuar…” _ Pronto. Foi a deixa para meu pensamento voar, entender alguns desencaixes, suportar certas partidas, colocar algumas peças no lugar.

A gente tem que continuar mesmo depois que o arroz queima, a água seca, o vinho entorna. A gente continua depois de descobrir que os defeitos pioram com a idade e as qualidades viram hábito no dia a dia. A gente tem que continuar depois do luto, da partida, da despedida, das horas frias, do caminho incerto. A gente continua e aprende a cantar “apesar de você, amanhã há de ser outro dia…” para o amor que não deu certo, para as falhas recorrentes, para nós mesmos que nem sempre somos aqueles que gostaríamos de ser. Apesar de nós mesmos, de nossas fissuras e desencantos, a gente tem que continuar…

E aprendemos que ter que continuar é muito mais que traçar um caminho que justifique nossa esperança por dias melhores. É saber deixar pra trás com sabedoria, entendendo que a vida é constituída de muitas histórias, e que finalizar um capítulo não significa dar fim ao que somos.

O mundo da gente começa a morrer antes da gente, e aceitar nossa responsabilidade em deixar o mundo se modificar, se despedir ou se transformar requer coragem. Coragem de romper com modelos antigos do que fomos e assumir com maturidade novas versões _ muitas vezes melhores _ de nós mesmos.

De vez em quando nos habituamos a antigos nós. Preferimos a dificuldade do que é conhecido à facilidade de novos e perfeitos voos. Desdenhamos a felicidade como quem se empenha em ser infeliz e construímos muros a nos proteger da vida que chega trazendo ares de esperança e novidade. Preferimos nos refugiar no que é conhecido, e nem sempre melhor.

Muita esperança chega junto ao fim de ano e a promessa de novos dias, limpinhos, pra gente escrever a história da melhor maneira que puder. Talvez precisemos aprender a aceitar as novas realidades que inevitavelmente ocorrerão.
Haverá a mãe que terá que se adaptar ao fim da licença maternidade, a adolescente que verá seu namoro ruir, o homem que receberá o pedido de divórcio numa manhã aparentemente comum, a senhorinha que vai enviuvar, os pais que levarão seu menino ao aeroporto para fazer intercâmbio, a menina que verá o fim da infância num teste de gravidez, a decepção do jovem, o casamento da moça dos sonhos, o ninho vazio, as novas dores da maturidade, a traição, o recomeço, a renegociação com a vida.

Talvez seja isso. Aprender a renegociar com a vida, descobrindo que novas portas estão sendo abertas, mesmo que haja a tendência de nos fixarmos em cadeados fechados. O mundo da gente começa a morrer antes da gente, mas o futuro também guarda boas surpresas, e o que se pode chamar de “nosso mundo” não existe só no passado, mas na realidade que construímos diariamente e somente nós podemos lapidar.

A gente tem que continuar. Que os dias tragam o reconhecimento de nossos presentes, dádivas reais que permanecem além da morte de nosso mundo ou de um tempo. O que ninguém nos tira: a capacidade de nos recriarmos em qualquer tempo. A alegria de nos percebermos resistindo, apesar de tudo. A satisfação de percebermos nossa coragem. E finalmente, a paz de nos aceitarmos por inteiro.

Imagem: Via pinterest, por Edouard Boubat

Não, não deixa a vida te levar, não. Esse trabalho é teu mesmo.

Não, não deixa a vida te levar, não. Esse trabalho é teu mesmo.

Faz um favor a ti mesmo e a nós todos: assume a tua responsabilidade. Não “deixa a vida te levar”, não. Isto só funciona no samba. Nem o próprio cantor que deu fama ao chavão acredita. Ele trabalha, canta, grava, ensaia, dá entrevistas. Se deixasse mesmo que “a vida” o levasse sozinha, ficaria em casa esperando tudo cair do céu. E não é o caso.

Pensa, criatura. Se deixares “a vida” te levar, assim, feito mágica, na brisa, sem nada fazeres a respeito, ela vai levar-te, sim, mas direto, sem escalas, para o fim mais fácil e óbvio de todos: a tua morte sem mais, ora essa.

Para, mas para já, de levar fé em lugar comum, fórmula fácil, solução mágica. Tu não vais ganhar na loteria se não fizeres tuas apostas. E, cá entre nós, tem gente que faz isso toda semana, há um milhão de anos, e jamais foi sorteado. Então, facilitemos as coisas: é bem provável que tu jamais ganhes na loteria.

Sonho sem plano é tempo jogado no lixo. Tu podes sonhar, sim. É claro que podes. Mas dá aí o teu jeito de realizar o que sonhas. Pensa a respeito, encontra caminhos, investiga saídas. Na pior das hipóteses, vais perceber que sonhavas o sonho errado e vais largar o osso, partir para outra, seguir em frente.

Quem não trabalha pelo que sonha é qual cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mas quem se deixa levar pelo vento, inerte, conformado, esperando sentado que a vida faça por ele o que ele devia fazer por ela é pior ainda: é um tronco morto boiando à deriva.

O máximo que a vida faz sozinha é existir. Pronto. Ganhaste a vida! Ela é tua. Parabéns! Agora, o resto é de tua alçada. Agradece e vai. Vai ganhá-la de fato. És tu quem deve levar a vida a algum lugar. E não o contrário!

Sê feliz e agradece, sim. Muito. Agradece por acordares de manhã. E segue teu rumo. Ao trabalho! Para de pedir a Deus o que é de teu departamento conseguir. Ele ajuda, mas tu tens de fazer a tua parte. É certo que Deus só dá o que é de teu merecimento. Ele ajuda a quem sai em busca, quem toma o leme, agarra as rédeas, aperta o passo e segue para onde quer e pode.

Não, não deixa a vida te levar, não. Isto é uma fantasia boboca e irresponsável. Só funciona no samba. Se o fizeres, vais jogar no lixo o que te foi dado de mais sagrado e valioso: a vida e a chance de levá-la adiante.

Quem espera que a vida caminhe sozinha é gente chata, enfadonha e cansativa. Vive clamando e reclamando dela. Faz de tudo, simpatia, promessa, dívida, menos o óbvio: tornar-se dono e senhor da própria vida, tomá-la pela mão e levá-la adiante.

Vai, pega tuas coisas, te apronta e sai. Leva tua vida em frente que esse trabalho é teu. Toma teu rumo. Esse trabalho é só teu.

Sou da época em que as coisas eram feitas para durar, inclusive o amor

Sou da época em que as coisas eram feitas para durar, inclusive o amor

Olhando ao nosso redor com um pouco mais de atenção, percebemos que todos parecemos estar passando pela vida sem olhar à nossa volta, sem sair de nós mesmos, de nosso mundinho egoísta e apressado. Não dispomos de tempo, tampouco de disposição, para relaxar e prestar atenção no que ocorre além de nós, no que vive lá fora, tão perto, mas tão longe.

A tecnologia avança num ritmo frenético, a ponto de tornar obsoletos produtos recém-lançados, promovendo o consumismo desenfreado de objetos que cairão em desuso dali a pouco. Tudo, aliás, parece ter duração curta: as músicas, os artistas, os eletrodomésticos, as roupas, os produtos, e, infelizmente, os sentimentos acabam entrando nesse rol material, perdendo em muito sua essência humana.

Talvez porque as pessoas confiavam mais umas nas outras, quando o mundo não era tão competitivo, ou porque se preocupavam menos com a necessidade de possuir itens que carregassem status, fato é que antigamente éramos mais amigos uns dos outros. Vizinhos conheciam-se e relacionamentos duravam, resistindo ao tempo e ao espaço, tudo isso sem internet. Os sentimentos tinham longuíssima duração, pois moravam em nós.

Hoje não se retém nada por muito tempo, nem conhecimento, nem objetos, nem convicções, muito menos pessoas. Por isso mesmo, é triste assistirmos ao vai-e-vém dos relacionamentos fugazes e superficiais, haja vista a desistência precoce do continuar lutando junto de alguém. Poucos persistem na manutenção do amor em suas vidas, desistindo tão logo surge o primeiro problema a ser enfrentado.

Uma coisa é descartar objetos, outra muito diferente é o descarte de pessoas. Sim, muitos de nós descartamos de nossas vidas, num piscar de olhos, quem não nos agrada em algum aspecto, bloqueando pessoas no Facebook e na vida. Porém, nenhum relacionamento está isento de adversidades e de discrepâncias, ou seja, caso não lutemos pelas pessoas que estão junto de nós, perderemos todas elas pelo caminho.

É preciso deixar morar em nós o amor que sentimos pelas pessoas, para que possamos nos tornar mais dispostos a ser gente, a viver além do eu, mais solidários e mais felizes, capazes de enxergar e valorizar quem está ao nosso lado com verdade. É preciso humanizar-se, sentir, compadecer-se, cultivando a gratidão junto a todos que fazem parte de nossas vidas e a tornam mais gostosa de se viver.

O mundo necessita de mais tempo longe das preocupações e atribulações diárias. As pessoas precisam parar para refletir sobre o que vêm fazendo de suas vidas e o que vêm sendo na vida de quem está ali ao lado. Sem essa reflexão contínua, vamos nos robotizando, endurecendo nossos corações e nos tornando fechados aos encontros afetivos que alimentam a nossa essência mais humana.

Viver sem cultivar o amor nem vale a pena, no final das contas. Sem amor, não teremos a chance de chegar ao fim da vida munido de lembranças doces e mágicas, que nos darão força contra a solidão. Sem praticar o amor, tudo se torna frio e insosso, porque, sem amor, sobrevive-se, mas sem viver de verdade.

Onde estão as pessoas interessantes? Tati Bernardi

Onde estão as pessoas interessantes? Tati Bernardi

Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes, muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo, tia.

Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar.

Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”. Infelizmente essas festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. To fora de gente desesperada, ainda que eu seja quase uma.

Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que exibem a chave do Audi to mais do que fora, baladas playbas com garotas praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho playmobil também to fora.

O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música, mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim, felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?” Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo todo. To procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra.

Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana, estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha ninguém bacana. Na praia quem é interessante além de se isolar acorda cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar
achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de todos?

Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.

A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

Tatiane Bernardi Teixeira Pinto é uma publicitária paulistana, autora de quatro livros e muito conhecida no mundo virtual por seus textos, site e blog.

Você precisa aprender a deixar ir

Você precisa aprender a deixar ir

Deixar partir talvez seja o ato mais altruísta que alguém pode ter dentro de um relacionamento.

Como em tudo nessa vida, no amor também é preciso saber a hora de parar. Deixar ir talvez seja o ato mais altruísta que alguém pode ter dentro de um relacionamento. Afinal, pra que serve uma presença que lá no fundo deseja se ausentar?

Se você se acostumar a receber migalhas, é isso que terá para o resto da vida. Migalhas não alimentam ninguém. Exija mais, mereça mais. Lutar pela atenção de alguém que prefere não te enxergar é um erro. Se for pra lutar, que seja pra que você consiga enxergar melhor, a si mesma e ao mundo ao seu redor. Por isso, esqueça essa história de que o que os olhos não veem o coração não sente. Isso é só uma desculpa de gente que gosta de fechar os olhos, acreditando que assim as coisas ficarão mais fáceis.

Pessoas não são laranjas pela metade. Também não são tampas de panelas ou qualquer outra metáfora esdrúxula que se usa por aí. Elas são inteiras e quanto mais cedo você entender isso, mais cedo irá parar de tentar “se encontrar” em outro alguém. Projetar é um dos erros mais recorrentes em relacionamentos, pois quando o período de sonho passa, nem sempre o que sobra daquela projeção é o suficiente pra continuar.

Ninguém nasce um par, um par se faz através das experiências do cotidiano, das cervejas no boteco da esquina, das estórias pra dormir, das brigas por motivos banais, dos compromissos adiados, das mentiras que escolhemos não contar e das verdades doloridas. É no dia-a-dia que o milagre do bem querer se faz presente.

E mesmo depois que um par está feito, é possível que seja necessário a separação. Nada sob o sol foi feito pra durar eternamente. Pessoas vêm, pessoas vão. Afetos se renovam ou se destroçam feito casa de palha em meio a um vendaval. Não depende só de você, acredite.

É preciso fazer com que a eternidade caiba em cada minuto e cada hora em que estamos juntos de quem a gente gosta. Despedir-se e guardar o que de melhor aconteceu, os aprendizados, os xingamentos novos, os novos livros, as novas bandas, os novos hábitos. São nos pequenos atos que residem a grandeza de dividir seu tempo com alguém. Por isso, não faz sentido se desgastar quando o que você precisa é entender que deixar ir é um ato de amor maior, para nós mesmos e para o outro.

Respeitar a partida da mesma forma que apreciamos a chegada, é disso que precisamos.

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