Das vezes que aprendi com um não

Das vezes que aprendi com um não

– Não, você não pode sair com essa roupa, porque não te cai bem, ou está provocativa, ou te engorda, ou me aborrece.

Aprendi a sair como bem entendo, sem pedir opinião ou aprovação.

– Não, você não deve tocar neste assunto, porque vai provocar polêmica, ou porque não é de bom tom, ou incomoda, ou simplesmente não interessa a ninguém.

Aprendi a selecionar com quem trocar ideias e questionamentos.

– Não, você não se enquadra neste cargo, apesar de ter experiência, conhecimento e o perfil adequado, mas estamos procurando alguém mais provocador, impetuoso, ambicioso e tudo mais.

Aprendi que com o tempo, provavelmente eu também estaria procurando algo menos agressivo.

– Não, você não é a pessoa ideal para mim.

Aprendi que correspondência de sentimentos é algo que não se manipula nem se obriga. Que os nãos são a forma mais honesta e delicada que pode haver, sempre preferíveis às mentiras e desculpas covardes.

Mas não, eu não desanimo com esse monte de nãos, e todos os dias constato que eles puseram em outro patamar de raciocínio e pensamento sobre a vida e até onde as pessoas são totalmente isentas de fazer as minhas vontades.

A minha vontade vai esbarrar milhares de vezes com um sonoro não, mas agora ela já consegue fazer a curva, contornar o obstáculo e seguir em frente.

Os nãos que antes soavam como pedras, agora posso reconhecer como boias que não me deixaram afundar em vontades mimadas e incapacidade de lidar com uma contrariedade.

E eles se apresentam todos os dias, delicada ou grosseiramente. Mas aprendi a sorrir para eles e dar passagem para que liberem o caminho que pretendo seguir, cuidadosa mas não rancorosa.

Sobre a Estrutura Borderline, ou Estado-limite

Sobre a Estrutura Borderline, ou Estado-limite

O border não tem uma estrutura organizada pela culpa-castração, não é um neurótico; o border tem uma estrutura organizada pela angústia de perda de objeto. A depressão e o suicídio no border reclamam as lógicas do masoquismo primário, não as lógicas do masoquismo secundário. A este nível do masoquismo primário o border não se situa como uma estrutura conflitual, mas sim como uma estrutura aconflitual, marcada por mecanismos de fuga-evitamento (ao conflito). O border orienta-se no exclusivo sentido da ausência de tensões, portanto, pelas lógicas do masoquismo primário, que estão ao serviço direto de uma pulsão de morte, nunca neutralizada pela gratificação libidinal.

Ao nível da relação o border não pode estar com o objeto (é intolerante à conflitualidade inerente), nem sem o objeto (é intolerante à ausência, pois a perda é uma ferida sempre aberta). O objeto é ausência insuportável e intruzividade intolerável. Este é o dilema border. O objeto de dependência, no lugar de ser aquilo que torna tolerável a pulsão, é aquilo que a torna ainda mais intolerável. O border não pode estar com o objeto, nem sem o objeto. O dramático é pois que, para além de tudo, o border é efetivamente a estrutura mais dependente, aquela que mais necessita do objeto, para que o objeto lhe organize a expêriencia emocional, dada a percaridade das suas capacidades de elaboração-mentalização. O border é extremamente dependente porque necessita do objeto como “segunda pele”. O border procura pensar dentro do outro, porque não pode pensar dentro de si próprio. Vem dai a dependência e o excesso de identificação projetiva, que marcam o seu funcionamento.

Mas, uma vez que o objeto está destinado a conter a marca dos seus próprios interesses pulsionais e, portanto, a marca da dissidência inevitável, está invariavelmente destinado a despertar no sujeito (através da identificação projetiva excessiva), a reactualização projetiva da perda (perda de objeto), sempre revivida como uma rutura brusca e destrutiva, de acordo com o modelo de uma verdadeira revivescência traumática atual.

Esta organização dependente atua num registo de relação dual, com exclusão do terceiro e com um recurso muito ativo a mecanismos de evitamento do conflito (lógica aconflitual). Não há aqui conflitualidade Edipiana. Esta estrutura é analisável, mas não através do modelo da neurose.

Última nota: O border não é neurótico mas é maioritariamente um cidadão comum. Na maioria dos casos estes sujeitos casam, têm filhos, emprego, são professores, engenheiros, pedreiros, empregados de mesa, psicólogos, psiquiatras, pescadores, músicos, etc. Não deliram nem alucinam. A psicose aqui é um mito. Mas a instabilidade afetiva, os ataques de pânico, as fobias, a ansiedade, as adições, as somatizações, os agires, etc., são por seu turno muito comuns.

Não carregue o peso do mundo nos seus ombros

Não carregue o peso do mundo nos seus ombros

O mundo carece de pessoas que se disponham a se colocar no lugar do outro, para que a empatia minimize o egoísmo e a intolerância que lotam as sociedades, afastando-nos uns dos outros. É preciso ter consciência de que cada um age conforme aquilo que possui dentro de si, para podermos acolher o outro em nossas vidas com sinceridade. Porém, não poderemos trazer para dentro de nós o peso de cargas que não nos dizem respeito, ou nos distanciaremos mais e mais do que a vida nos reserva.

É inevitável nos envolvermos de perto com as vidas daqueles que amamos, dividindo com eles alegrias e tristezas, para que os passos de todos encontrem uma tranquilidade que não paralise nem diminua o ritmo de nosso caminhar, sempre em frente, como deve ser. Infelizmente, acabamos por nos tornar ligados ao outro de uma forma tão intensa, que nossa felicidade em muito depende de que nossos queridos também estejam felizes.

Os pais desejam que os filhos estejam bem, assim como os irmãos são cúmplices na manutenção da felicidade. Os sentimentos dos amantes dependem da felicidade do parceiro para que a própria se complete. Verdadeiros amigos, da mesma forma, incomodam-se com os problemas uns dos outros, assim como ocorre com todas as pessoas que se relacionam tendo o amor sincero como sustentáculo.

Para que não nos distanciemos demais do contentamento e dos sorrisos a que temos direito, necessitaremos sempre ter a consciência de que a cada um estão reservadas as consequências de sua forma de agir. Muito do que entrava o caminho das pessoas é resultado do que elas mesmas vêm semeando ao longo da vida. Devemos, sim, estender ajuda, apoiar e clarear os passos de quem caminha conosco, mas jamais tomando como nossa toda carga negativa que o outro atraiu para junto de si.

Caso não consigamos ser solidários sem carregar em nossos ombros os pesos que não são nossos de fato, não conseguiremos ajudar a ninguém, tampouco a nós mesmos. Para que possamos encontrar saídas possíveis aos problemas que afetam os nossos queridos, teremos que primar pela lucidez e pelo equilíbrio de nossos sentidos, ou seremos um peso morto que só atrapalhará ainda mais a vida do outro. Ao menos nós estejamos fortes em meio às tempestades alheias.

Não podemos ser insensíveis, passando por cima de tudo o que à nossa volta parece ruir, tampouco seremos felizes por completo, caso quem amamos esteja passando por problemas. Entretanto, só estaremos aptos a ajudar, quando conseguirmos nos aproximar do próximo e estender as mãos com leveza, para que o tragamos junto à nossa luz, à nossa serenidade tranquilizadora.

Caso contrário, seremos nós sugados pela escuridão alheia, tornando, assim, o alívio e as soluções cada vez mais distantes. Enfim, saber o que é da nossa conta nos tornará mais resistentes e felizes e só assim seremos capazes de ser e de fazer gente mais feliz e confiante.

Às vezes é preciso mandar à merda mesmo- Sílvia Marques

Às vezes é preciso mandar à merda mesmo- Sílvia Marques

Por Sílvia Marques

Infelizmente, algumas pessoas param de encher o saco apenas quando são tratadas com firmeza e um pouco de ironia. Caso contrário continuam se achando as maravilhosas do pedaço.

Como defendi em muitos artigos e defendo vigorosamente em minha vida cotidiana e banal, a generosidade e a gentileza devem ser palavras de ordem. Dizer bom dia, boa tarde, boa noite, sorrir, acenar, falar obrigado e por favor, pronunciar um elogio sincero fazem bem para os outros e para nós mesmos.

Por outro lado, paciência tem limites e bondade não é sinônimo de burrice. Às vezes é preciso mandar ir à merda mesmo, alto e em bom som caso a pessoa em questão não escute direito ou tenha problemas para abstrair.

Ninguém é obrigado a pensar como ninguém, mas ninguém precisa destilar suas verdades como o mais vil veneno. Ninguém é obrigado a simpatizar com ninguém, mas ninguém tem o direito de jogar tal antipatia na cara dos outros. Mas se por acaso alguém desrespeita a opinião alheia, dá um show de antipatia ou esculhamba por falta de coisa melhor para fazer ou simplesmente para se sentir menos péssimo consigo mesmo, deve preparar-se para ir à merda.

Muita gente acha que é falta de educação dar respostas malcriadas para gente sem noção, que se sente dona da verdade, que quer convencer os outros com argumentos baixos, que finge não entender para criar polêmica. Acho que a pessoa perde o direito de ser tratada com educação quando ela é propositadamente idiota.

Infelizmente, algumas pessoas param de encher o saco apenas quando são tratadas com firmeza e um pouco de ironia. Caso contrário continuam se achando as maravilhosas do pedaço. Acham-se poderosas e assertivas por dizerem palavras ofensivas. Para mim estas pessoas inconvenientes, pretensiosas, que vomitam suas lindas verdades sem filtros têm preguiça mental porque discordar com classe e educação exige um trabalho intelectual muito mais elaborado e cuidadoso do que simplesmente exibir o seu acervo de grosserias.

Mandar ir à merda não significa necessariamente usar estas palavras. Às vezes mandamos à merda com um olhar de desprezo, com uma resposta irônica ou apenas com um constrangedor silêncio. Um e-mail não respondido, um convite não aceito podem ser formas bem eloquentes de mandar ir à merda. Não quero dizer que toda vez que não respondem a um e-mail nosso, estão nos mandando ir à merda. Às vezes a pessoa em questão não respondeu porque está num mau momento. O mesmo se refere a convites. Mas quando alguém começa a nos evitar de forma sistemática, ela provavelmente está nos mandando ir à merda. Às vezes com motivo, às vezes sem motivo. Não entrarei nesta questão.

O que desejo ressaltar é que não precisamos engolir tudo. Não precisamos levar na cara e achar normal. Ninguém é saco de pancada de ninguém. E se alguém se sente no direito de transformar os outros em sua válvula de escape para o estresse do dia a dia , mande à merda sem a menor cerimônia.

Digo mais: quando o idiota em questão for você mesmo, mande a sua insegurança e os seus traumas e manias irem à merda também. Seu lado medroso está te privando de um prazer delicioso? Mande-se à merda! As suas manias estão roubando o seu tempo livre e o seu bom humor? Mande-se à merda! O seu passado triste está atrapalhando o seu presente? Mande-se à merda juntamente com quem te ajudou a ferrar o seu passado! Pode ser bem divertido!

Leia mais artigos da autora AQUI.

Vídeo mostra como crianças com autismo vivenciam sobrecarga sensorial

Vídeo mostra como crianças com autismo vivenciam sobrecarga sensorial

Entenda:
Muitas crianças com autismo podem apresentar uma condição co-existente com autismo conhecida como Disfunção de Integração Sensorial e às vezes podem sofrer uma sobrecarga sensorial aguda. Esse problema acontece quando recebem muita estimulação sensorial, como se fossem um computador tentando processar muitos dados e, por consequência, superaquecendo.

O vídeo:
Para ajudar as pessoas a compreenderem como o autista “sente” o mundo, a The National Autistic Society, instituição de caridade voltada para o autismo que atua no Reino Unido, criou um novo projeto em vídeo que mostra como algumas pessoa com autismo reagem em situações em que há excesso de estímulos, como em um shopping…

O vídeo ganhou o nome de “Você pode fazer isso até o fim?” (“Can you make it to the end?” ), *tradução livre) e mostra como é desafiador um simples Passeio ao shopping.

O vídeo da uma sensação de compreensão maior de como é a visão do próprio autista ao ambiente, permitindo que o espectador uma clareza melhor de cada estimulo recebido, e logo no fim do vídeo o desabafo do menino que emociona: “Eu não sou desobediente, eu sou autista”.

Legenda: Entenda o autismo, a pessoa e o que fazer. Eu não sou impertinente. Eu sou autista. Para as pessoas autistas como eu, o mundo pode ser um lugar assustador. Às vezes soa e sinto que minha cabeça está explodindo. A Roupa sinto que minha pele está queimando. E quando uma coisa pequenas mudanças, parece que meu mundo está acabando. Às vezes recebo muita informação. E se você só vê um garoto travesso, você não aprendeu o suficiente.

#AutismTMI Aviso: este filme contém luzes que piscam, cores brilhantes e alto, ruídos repentinos

O que faz um casamento feliz não é a sorte. É o amor dos noivos.

O que faz um casamento feliz não é a sorte. É o amor dos noivos.

Então alguém decide se casar. De repente, no meio de tanta gente bagunçando a vida, uns se odiando aqui, outros tentando agradar todo mundo ali, alguém é capaz de um gesto simples, verdadeiro e bom: olhando nos olhos do ser amado, pede-lhe a mão em casamento, ouve um “sim” emocionado e pronto. O mundo ficou mais bonito.

Porque você sabe: o que deixa o mundo mais bonito não são as grandes resoluções políticas inalcançáveis, os programas sociais do governo, as decisões restritas a poucas mãos, a boa vontade dos líderes mundiais ou a vaidade dos gatos pingados nadando em dinheiro que, de quando em vez, decidem distribuir cestas básicas para aplacar sua consciência. Isso até ajuda, mas não basta. O que deixa tudo melhor mesmo é o amor.

Quem faz das suas por um mundo justo, inclusivo, tolerante e livre nem sempre são super-heróis, empresários bilionários, filantropos poderosos. São pessoas que amam a vida e sua gente. Assim, de amar o que fazem e o que são, elas vão fazendo a coisa entrar nos eixos.

E me perdoem os céticos, mas eu ainda acho que casar é uma boa forma de praticar amor. Quando alguém se casa, desafiando todos os motivos contrários, os conselhos pessimistas, as piadas que transformaram o matrimônio em tortura, alguma coisa pequenininha acende aqui dentro de mim. É uma emoção sem nome, mistura de alegria e de coragem, de respeito e de esperança. Alguém vai se casar porque sente amor!

Confesso. Eu sou dessa gente que chora em casamento. Não é o tipo da coisa que se diga numa entrevista de emprego. Uma entrevistadora muito séria e competente vai anotar na sua ficha: “desequilibrado emocional”. Mas como aqui ninguém está avaliando o currículo de ninguém, eu repito. Choro de olhar os noivos vivendo seu sonho, os sogros e as sogras se dando conta de que suas crianças cresceram e agora vão ganhar o mundo, as madrinhas borrando a maquiagem, as daminhas bagunçando a igreja, correndo pelo salão, enchendo a cerimônia de festa infantil, como o futuro que se anuncia leve, divertido e feliz. O futuro falando com voz de criança.

Nessa hora eu choro mesmo. Eu, que conheci a felicidade conjugal por duas vezes mas até agora não tive uma cerimônia de casamento, choro de ver gente casando. É choro de alegria. Aquela alegria segura de saber que dali em diante, enquanto tudo acontecer lá fora, os noivos estarão juntos. No frio e no calor, na chuva e no sol. Na música, no silêncio. Na dor, no prazer. No trabalho ou na falta dele, na luta de cada dia, na presença e na saudade, na chegada e na partida, quem se casa escolhe viver em paz nesse tempo tão afeito ao conflito. Não é pouco, não.

A todas as pessoas que decidem ficar juntas, se amando, se ajudando, trabalhando e cooperando por seu amor, vai aqui minha gratidão. Obrigado por deixarem o mundo mais bonito. Que a vida se transforme numa festa sem fim e a felicidade lhes seja franca, farta, generosa e lírica como as cantoras de ópera.

E a nós, que de olhar pessoas queridas se casando enchemos os olhos d’água e o coração de alegria, que os intervalos entre uma festa e outra sejam sempre e cada vez menores. Esse mundo anda mesmo carecido de amor e beleza.

(para os noivos Bruno e Daniela, doravante Senhor e Senhora Marte)

O Lado “B” (Bom) do meu coração

O Lado “B” (Bom) do meu coração

Que um dia, você tenha notícias minhas. Que saiba que melhorei da minha dor. Que saiba que o meu coração está saudável, cheio de vaga-lumes e borboletas.

Que saiba que cresci de dentro pra fora, como você me ensinou.

Que saiba que o seu sorriso ficará guardado em mim, como o mais precioso presente, a mais bela recordação que me faz sorrir de volta toda vez que vejo a sua foto.

Que ao ver uma estrela, o céu rabiscado de nuvens com aquela pipa redonda de papel crepom, você saiba que o meu coração acende porque você está lá.

Você está nas coisas maravilhosas! No dia que se abriu lá fora, no mar que ainda não conheço, nas plantas que reguei de manhã, nos meus testes fotográficos, nos quadros que ainda não pintei, nos livros que amenizam a minha solidão, nas palavras inventadas, nos meus protótipos de gesso. Você está nos detalhes, naquela folha colorida que dobrei ao meio e esqueci de colocar dentro do envelope vermelho, naquela música que a última frase é nossa.

Desejo que você não esqueça de algo bom que eu tenha feito. Das manhãs com descrições das paisagens, das palavras com risos e canções. Das trocas de afeto. Dos sonhos compartilhados.

Desejo que um dia, eu possa acender de novo o Sol que você plantou em mim, e que apaguei com as mãos frias, como quem apaga uma vela e depois chora no escuro.

Desejo que um dia você conheça o lado “B” do meu coração, o lado bom, que às vezes aparece para brindar a vida. O lado “B”, que me faz andar sem sapatos e correr na chuva. O lado “B” que ainda estou conhecendo e por isso não sei dividi-lo nem mostrá-lo integralmente.

Que um dia, não sei exatamente quando, você possa acreditar que é verdade, que eu sou de “verdade” e os meus inventos são feitos de palavras e sons, e que, às vezes, me perco nessa mistura toda que é a vida.

Que um dia, você saiba que sinto medo e choro todas as vezes que tento apagar os meus erros e a borracha falha.

Que um dia, não sei quando, e que o “quando” não seja muito tarde, ainda nesta vida,

eu saiba ser luz, e irradie nos passos, abraços e corações todo amor que você me deu.

13 Linhas para viver- Gabriel Garcia Márquez

13 Linhas para viver- Gabriel Garcia Márquez

1. Gosto de você não por quem você é, mas por quem sou quando estou contigo.
2. Ninguém merece tuas lágrimas, e quem as merece não te fará chorar.
3. Só porque alguém não te ama como você quer, não significa que este alguém não te ame com todo o seu ser.
4. Um verdadeiro amigo é quem te pega pela mão e te toca o coração.
5. A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca vai poder tê-lo.
6. Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiveres triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso.
7. Pode ser que você seja somente uma pessoa para o mundo, mas para uma pessoa você seja o mundo.
8. Não passes o tempo com alguém que não esteja disposto a passar o tempo contigo.
9. Quem sabe Deus queira que você conheça muita gente errada antes que conheças a pessoa certa, para que quando afinal conheças esta pessoa saibas estar agradecido.
10. Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.
11. Sempre haverá gente que te machuque, assim que o que você tem que fazer é seguir confiando e só ser mais cuidadoso em quem você confia duas vezes.
12. Converta-se em uma pessoa melhor e tenha certeza de saber quem você é antes de conhecer alguém e esperar que essa pessoa saiba quem você é.
13. Não se esforce tanto, as melhores coisas acontecem quando menos esperamos.

Gabriel Garcia Marquez

Canto Triste- Edu Lobo / Viní­cius de Moraes

Canto Triste- Edu Lobo / Viní­cius de Moraes

Porque sempre foste a primavera em minha vida
Volta pra mim,
Desponta novamente no meu canto,
Eu te amo tanto…mais, te quero tanto mais
Há quanto tempo faz, partiste.
Como a primavera que também te viu partir
Sem um adeus sequer
E nada existe mais em minha vida
Como um carinho teu…como um silêncio teu
Lembro um sorriso teu…tão triste
Ah, Lua sem compaixão, sempre a vagar no céu
Onde se esconde a minha bem-amada?
Onde a minha namorada…
Vai e diz a ela as minhas penas e que eu peço
Peço apenas

Que ela lembre as nossas horas de poesia,
Das noites de paixão,
E diz-lhe da saudade em que me viste
Que estou sozinho…
Que só existe meu canto triste…
Na solidão

Composição: Edu Lobo / Viní­cius de Moraes

A geração do “promova o desapego”- Nathalí Macedo

A geração do “promova o desapego”- Nathalí Macedo

Por Nathalí Macedo

Alguns amores modernos me assustam. Esses amores efêmeros, frágeis, superficiais. Esses amores que destoam assombrosamente do que um dia já pudemos, com todas as letras e toda a certeza, chamar de amor.

Somos a geração das selfies, do beijinho no ombro, do rei do camarote, do “promova o desapego”. A geração do egocentrismo cego. É tanta mediocridade que o amor genuíno arrumou suas trouxas e foi-se embora.

A verdade é que vivemos relações descartáveis. E se num dia o amor parece transbordar pelos poros, converte-se, vertiginosamente, em ódio ou desprezo, no momento em que a atração termina ou surge uma mínima mágoa.

Ninguém ama o outro depois que a relação deixa de ser conveniente. Pior do que isso, alguns não conseguem expressar sequer a mínima humanidade em relação àquele que julgou amar um dia. Ninguém quer que o outro seja feliz em outros braços – alguns preferem, aliás, vê-lo mendigando afeto, chorando de saudade, lamentando o fim da relação.

O egocentrismo grita alto e ordena que, se o outro consegue superar o fim do relacionamento, devemos nos sentir diminuídos. Que desejar a felicidade do outro é incompatível com buscar a nossa própria felicidade. O egocentrismo cego nos diz que temos que mostrar que não nos importamos, que somos felizes e desapegados. Que temos que sorrir cada lágrima do ex.

Nesse oceano de modernidade, é bom lembrar que não são os amores não duráveis que me assombram; compreendo que a cada um assiste o direito de trocar de parceiro como quem troca de roupa, se isto lhe faz feliz. O que me assombra é a capacidade humana de converter amor em ódio, o bem querer em desprezo, o apego em maldizer. É a velocidade com que fotos românticas são substituídas por indiretas ácidas, e declarações de amor por palavras amargas e cheias de mágoa.

Temo que a geração do egocentrismo já não saiba amar nada além de si mesma. Temo que tenhamos desaprendido a, simplesmente, querer bem. A manter o respeito pelo outro quando o próprio amor já não existe. Temo que ninguém mais consiga elevar seu espírito de tal modo que o desapego passe a ser uma consequência, e não uma busca implacável, uma mentira deslavada que contamos para nós mesmos.

E que sejamos nobres o suficiente para querer bem ao outro sem que precisemos esfregar a nossa felicidade na cara de ninguém. Que cada um compreenda que estar de bem com a gente mesmo é o que importa, no fim das contas, e que querer ver o fiasco daquele que um dia já nos fez feliz não é exatamente uma atitude madura. Pior do que isso: é mesquinho.

E que o fato de amarmos – no sentido humano da palavra – a quem nos fez sofrer por um instante não significa que não amamos a nós mesmos. Às vezes, pode significar justamente o contrário: Por que só distribuímos o que temos de sobra. E que um dia se possa compreender que o amor genuíno nunca deixa de existir: ele só muda de forma.

As escolas que (de)formam nossas crianças e adolescentes

As escolas que (de)formam nossas crianças e adolescentes

Tremendo engano supor que crianças e adolescentes não gostam da escola. Eles adoram a escola! Basta observá-los à hora da entrada, quando trocam uma ideia, de forma espontânea, sobre a vida, seus problemas, as fases do videogame; pode até rolar um papo informal sobre o fim de semana, o Impeachment, “os coxinhas e mortadelas”, o terremoto no Japão, a dengue. Ou, quem sabe, ver com que entusiasmo correm para o recreio; batem uma bolinha sob o sol de rachar a cuca; ouvem músicas e cantarolam, partilhando o mesmo fone; dividem o lanche e as incertezas; compartilham pequenos segredos e azucrinam a vida uns dos outros. Tudo no maior engajamento, no maior foco, na maior diversão!

A escola é um lugar maravilhoso para aprender a conviver com as igualdades e as diferenças. É território seguro, onde não se precisa temer a violência lá de fora. É espaço de troca, partilha, exercício de tolerância, oportunidade de trabalhar em equipe, chance de vencer as dificuldades com apoio e respeito. Escola é ambiente propício ao exercício da democracia, onde todos devem ter o direito a falar o que pensa e o dever de exercitar a habilidade de ouvir.

E para que esse lugar de aprendizagens e “ensinagens” seja constituído assim, de maneira tão rica e verdadeira, faz-se necessária uma profunda reforma íntima na essência política dessa escola. Faz-se urgente rever crenças e configurações que, ao contrário de propiciar o exercício do diálogo; atiçar o fogo da curiosidade; alimentar o espírito científico; desenvolver capacidades de interpretação, reflexão e argumentação acerca do mundo, dentro e fora dos muros da escola; acolher eventuais necessidades especiais, adequando o ambiente de aprender e conviver de forma a integrar e, de fato, incluir a todos; as escolas, em sua grande maioria permanecem engessadas e à margem das transformações a que se renderam tantas outras esferas da sociedade.

Uma pena constatar que uma grande parcela das instituições de ensino, sejam públicas ou mantidas por mensalidades altíssimas, ainda adotam estruturas de ensino inchadas, repetitivas, pouco desafiadoras; baseadas em currículos nos quais as áreas do conhecimento não conversam entre si. Estrutura essa que gera nos estudantes uma postura de risco calculado cujo objetivo maior é obter uma nota suficiente para alcançar a média.

Triste demais observar crianças e adolescentes cativos em salas de aula, organizados de maneira rígida, onde ficam fadados a encarar a nuca do colega durante, no mínimo, cinco horas seguidas. Desperdício de tempo, de esforço e de energia. Não pode ser feliz, um professor cuja rotina diária fique resumida a reproduzir conceitos e fatos durante horas e horas, diante de uma plateia cujos interesses estão a quilômetros de distância da sala de aula.

Em pleno século XXI ainda há escolas cuja política educacional sustenta-se sobre um código de valores e diretrizes comportamentais tão arcaicas que pressupõe ser desrespeitoso o fato de o aluno interromper a “aula do professor” para fazer uma pergunta ou tecer um comentário. Prega a escola que “enquanto o professor estiver ensinando, a turma deve permanecer atenta e em silêncio”; assim, questionamentos e contribuições ficam guardados para depois, quando o professor determinar que já concluiu seu raciocínio, fala, discurso ou coisa que o valha.

Ora, essa escola parece desconhecer que uma pessoa em silêncio externo, pode estar vivendo uma avalanche de ideias, e pensamentos, e sonhos bem ali na sua frente, sem que se perceba. Essa escola não entendeu que o pensamento é livre (graças aos deuses!); e que, ao impor tão descabida regra, ensina em seu “currículo oculto” a dissimulação e a falta de honestidade.

Outra não menos lamentável questão advém da equivocada postura de algumas instituições de ensino, pautada na cega ambição de vender ao seu consumidor a ideia de “escola forte”; postura esta que, para sustentar-se, lança mão da simples transmissão de conhecimentos, despejados sobre os alunos, sem qualquer exercício de reflexão! É esse um dos mais estúpidos erros que uma escola pode cometer.

Focadas em resultados, procuram otimizar o tempo dos alunos de forma a fazê-los ingerir a maior quantidade possível de conteúdos programáticos, no menor tempo possível. Sem ter oportunidade suficiente para digerir tamanho tsunami de informações, crianças e adolescentes correm o risco de sofrer importantes deformações em sua relação com a aprendizagem, desenvolvendo desinteresse pelo estudo, comportamento irritadiço e agitado, falta de concentração, ansiedade e depressão.

A educação descontextualizada é caracterizada por propostas descoladas umas das outras, sem nenhuma possibilidade de estabelecer relações entre a teoria que se apresenta, a prática pedagógica que se espera ver desenvolvida e a capacidade de relacionar-se com o que acontece no mundo e além dele, desde seu entorno mais próximo até outros cantos do universo.

E para agravar o quadro, observamos na maioria das escolas uma visível falta de preparo e conhecimento para lidar com situações de conflito. Chega a ser assustadora a maneira como algumas delas são omissas diante de comportamentos abusivos, desavenças no futebol, questões de relacionamento, dificuldades para compreender limites de convivência e questões relacionadas às práticas sociais. A falta de tato para gerir conflitos é tão primária que num caso de desavenças na hora de “bater figurinha”, ou enfrentamentos mais incisivos na hora do futebol, por exemplo, a atitude que se escolhe assumir é proibir as figurinhas e tomar a bola.

O ambiente escolar clama por educadores que estejam preparados a criar espaços que possibilitem o desenvolvimento de habilidades para viver os conflitos, colocar-se no lugar do outro e respeitar o espaço de convivência. No lugar da proibição ou da punição radical, deveria entrar a prática da discussão construtiva, da construção de regras, do estabelecimento de limites e compromissos; assim como a definição de sanções que tenham relação direta com a transgressão praticada, de forma a garantir procedimentos disciplinares justos e real observância aos direitos e deveres de todos os envolvidos na comunidade educativa.

O cenário assustador fica completo quando, perplexos, observamos crianças de 7 anos fazendo provas; meninos e meninas sendo soterrados em quilos de lições de casa mecânicas e desinteressantes; maços de dinheiro gastos em materiais didáticos que não correspondem às necessidades dos alunos; cargas horárias cada vez mais estendidas, a ponto de as crianças passarem mais tempo na escola do que em casa; professores exaustos, atolados em pilhas de provas, fichas, livros, apostilas e cadernos para corrigir; turmas quase inteiras com notas abaixo da média, lotando salas de recuperação, cuja proposta é apenas oferecer um jeito de tentar reverter a situação da nota, nada além disso.

A solução para tamanho descompasso está no que deveria constituir a essência de qualquer escola: o diálogo e a participação democrática. Está nas mãos da sociedade batalhar por uma transformação profunda nas políticas educacionais, e interromper essa prática irrefletida que só faz fortalecer as desigualdades. A escola é terreno fértil para o desabrochar de cidadãos, em cujo espírito se faça brotar o anseio pela ação conjunta em sociedade. Que essa escola, se edifique graças à ação de todas as mãos que compõem uma comunidade educativa: educadores, pais, alunos, funcionários, vizinhos, familiares; todos vivendo a única e insubstituível experiência de pertencer.

Que comece a se constituir dentro das escolas o ambiente favorável à formação político-crítica de nossas crianças. É esse o ÚNICO caminho possível para quebrar o círculo vicioso de uma engrenagem corrompida social e politicamente. É essa a ÚNICA forma de transformar a mentalidade do nosso povo cuja subserviência é fruto da falta de conhecimento e gera, como consequência, um povo oprimido que não se mostra capaz de escolher, eleger e monitorar seus representantes políticos.

Não morra sem viajar sozinho

Não morra sem viajar sozinho

Por Eduardo Benesi

Viajar sozinho é um grito existencial de liberdade. Estar a deriva, jogado ao acaso, se virar na lei global da selva, sorrir quando não se sabe dizer, descobrir espaços em você que até então estavam dormentes.

Deixar bagagens mentais e problemas que vieram junto se diluírem pelo caminho. Você e as nuvens. Não, não é tão difícil assim; vai depender das suas escolhas.

Costumo dizer que quando fazemos um caminho e nos perdemos, se estivermos acompanhados de alguém isso se torna até algo divertido, prazeroso, se perder de dois nunca é tão grave assim. Mas quando se está sozinho, se perder sozinho só é agradável caso você esteja viajando. A coisa que eu mais gosto de fazer quando viajo é isso, me perder.

– One information please? How can i lose my self?

Posso afirmar que tudo que de melhor me aconteceu em minhas viagens foi me perdendo, me entregando a situações que não tinham hora para fechar, que não tinham batalhões turísticos tirando foto, que não tinham no meu guia Frommer’s.

Foi assim que em uma madrugada no Havaí, pulei a cerca de um parque que já estava fechado, atravessei um vale carbonizado por uma hora e me deparei com um lindo vulcão que despejava lava contra o mar, o Kilauea.

Foi assim que em Berlim fui parar em uma cervejada dentro de uma estação espacial desativada toda feita de motivos ufológicos, a beira do rio Spree. Nela haviam senhores loucos falando sobre extraterrestres, vários videos reveladores em projeção, muita piração e cervejas do leste europeu.

Foi assim que em Golden Coast na Austrália, eu fui parar em um parque de diversões de um brinquedo só. O brinquedo era o oposto do elevador do Playcenter. Ele te lançava para o espaço com uma rapidez de querermos vomitar o estômago. E o mais legal, ele tinha duas vagas, e eu fiz amizade com uma muçulmana que topou ir comigo.

Quando viajamos sozinhos não se faz necessário negociar nossa liberdade com o outro. Você se reinventa, você é livre até para ser quem você (não) é, pra decidir cancelar todo o roteiro do dia e sentar numa praça só para ver a vida passar, puxar assunto com gente nativa e saber um pouco mais sobre como é morar naquele lugar. Mas não se entristeça. É possível viajar sozinho, mesmo se estando acompanhado. Os companheiros ideais de viagem são aqueles que te deixam livre, que não pesam com a presença.

Que são capazes de entender quando você não está a fim de ir no Louvre e que aceitam se separar por um dia para que cada um faça o que está a fim, que aceitem “relacionamento aberto” em viagens. Lembrando que isso vale mais para amigos e parentes; em casal isso fica mais difícil de se aplicar.

A última dica para se viajar “sozinho em dois” é quase uma regra: nem sempre o seu melhor amigo é o melhor companheiro de viagem. Às vezes aquela escolha aleatória decidida no meio de uma conversa com um meio amigo pode render uma bela viagem. Sim, é geralmente assim que aparece a pessoa ideal para nos acompanhar.

Um dos melhores lados de viajar sozinho é saber que no seu destino tem sempre alguém te esperando, e geralmente esse alguém ainda não sabe que está. Viajar guarda o lado mais bonito do encontro, ou do reencontro.

A vida seria mais simples se as pessoas não vomitassem felicidade falsa

A vida seria mais simples se as pessoas não vomitassem felicidade falsa

Por Sílvia Marques

A vida seria mais simples se as pessoas fossem mais elas mesmas. Se elas olhassem nos olhos dos outros e falassem sobre seus problemas, seus medos. A vida seria mais simples se a gente não precisasse provar que é bem-sucedido o tempo todo. Seria mais simples se a gente pudesse gostar das pessoas independentemente da vida que elas levam.

Se a gente pudesse dizer sem constrangimento algum que está se sentindo um monte de merda e que a vida pode ser bem complicada sim. Talvez, se admitíssemos mais o caos que é viver, não sofreríamos tanto. Talvez, se desfocássemos mais daquilo que dizem que é importante , mas que não faz sentido para nós, fôssemos mais bem sucedidos num sentido mais amplo.

Sim, a vida seria bem mais simples e espontânea se as pessoas não vomitassem felicidade falsa nem tentassem o tempo todo provar um equilíbrio que elas não têm. Ninguém acorda super bem todos os dias. Ninguém se sente disposto para uma cerveja depois do expediente todos os dias. Ás vezes a gente fica mal mesmo, lembra de um monte de fatos trash e quer chorar na cama que é lugar quente. Ás vezes as coisas não parecem fazer muito sentido e a gente quer ficar fechadinho dentro da gente mesmo.

A gente não é obrigado a ficar feliz e comemorar porque é (determinaram que tal dia é especial). A gente não precisa necessariamente sorrir e querer curtir porque faz sol, porque a gente está na praia ou porque disseram que a vida é simples e é o ser humano que complica.

A gente não precisa rejeitar a tristeza como se fosse uma doença pestilenta. Ela faz parte da vida como a alegria. Só precisamos tomar cuidado para não transformá-la em um hábito ou nos esconder atrás dela por medo de ser feliz ou ainda dar importância demais a problemas e principalmente à pessoas pequenas. Este é um exercício e tanto que pode levar anos ou a vida inteira. Mas me parece que vale a pena.

A vida seria mais simples se as pessoas fossem mais elas mesmas. Se elas olhassem nos olhos dos outros e falassem sobre seus problemas, seus medos. A vida seria mais simples se a gente não precisasse provar que é bem-sucedido o tempo todo. Seria mais simples se a gente pudesse gostar das pessoas independentemente da vida que elas levam.

Se a gente pudesse dizer sem constrangimento algum que está se sentindo um monte de merda e que a vida pode ser bem complicada sim. Talvez, se admitíssemos mais o caos que é viver, não sofreríamos tanto. Talvez, se desfocássemos mais daquilo que dizem que é importante , mas que não faz sentido para nós, fôssemos mais bem sucedidos num sentido mais amplo.

Talvez se mostrássemos mais os nossos rostos demaquilados e nossas almas nuas, se não nos defendêssemos tanto uns dos outros, se não nos importássemos tanto em mostrar que somos melhores do que os outros, pudéssemos ser mais unidos, mais solidários, mais amados, mais amantes.

Se a gente entendesse que todo mundo está no mesmo barco… Rogo pelo dia em que as mulheres casadas se assumam sozinhas e mal amadas. Rogo pelo dia em que as mulheres solteiras confessem que uma companhia faz falta sim e que fazer tudo sozinha pode ser muito triste. Rogo pelo dia em que os homens tanto casados como solteiros afirmem com todas as letras que morrem de medo das mulheres e que nunca deixam de ser meninões. Rogo pelo dia em que as mães gritem desesperadas o quanto estão cansadas e as que não têm filhos lamentem esta lacuna em suas vidas.

Que os (cegados) reclamem dos grilhões da fé (mal direcionada) e que os ateus lamentem não crer. Que todos se assumam meio perdidos, meio sozinhos nesta vida louca. Rogo para que as pessoas assumam como o passado é doloroso e o futuro incerto. E depois de tantas confissões acaloradas, que elas possam respirar fundo, sorrir umas para as outra e seguir em frente cheias de coragem. Que depois de tudo, a gente pudesse cantar juntos I will survive e nos sentir intimamente ligados ao outro por meio da nossa vulnerabilidade, por meio da nossa capacidade irrestrita e desgovernada de dar e receber amor.

Mania de discutir pelo motivo errado

Mania de discutir pelo motivo errado

Não assumimos a real natureza do descontentamento. Procuramos disfarçar o motivo da reclamação, o que confunde quem está ao nosso lado.

Não ensinamos o que não gostamos. Não nos mostramos óbvios, diretos e acessíveis. É ficar magoado por uma situação e encontrar uma próxima para procurar briga.

É não dizer na hora o que dói e achar pretextos absolutamente desconexos e posteriores com o que gerou a raiva.

A escola da dissimulação é estabelecida na infância, quando não revelamos as nossas molecagens, fugimos dos castigos, transferimos a culpa para os irmãos e colegas.

Somos educados a trancar as vontades e despistar os desejos.
Camuflamos, omitimos, nos envergonhamos de estar sentindo algo e procuramos enobrecer com outras justificativas.

A maior parte das brigas é por algo que não foi contado, por isso nunca são resolvidas. Se me bate ciúme da mulher porque ela voltou tarde de uma saída com as amigas, por exemplo, sou capaz de jamais tocar no assunto. Pelo contrário, apresento-me independente e bem resolvido e até inspiro que ela repita os encontros. Mas depois comprarei uma discussão boba pela bagunça do nosso quarto.

Assim não sou honesto com a irritação. Transferi o que me perturbava para um cenário diferente, sem nenhuma correspondência com o verdadeiro. A esposa me entende distorcido: vê que sou extremamente chato com a arrumação da casa, e não que sou ciumento.

Há uma deslealdade ingênua em curso, involuntária e automática, que trará sérias dificuldades de comunicação. A mulher enxerga a ansiedade do ciúme, porém as minhas palavras dizem o oposto. Como me encabulo da insegurança amorosa, não comento o que me enervou, e vou catando conflitos falsos para explodir e desabafar. Ela me interpreta errado pois transmiti a mensagem errada.

Ao esconder a origem da minha angústia, é certo que brigaremos mais vezes. O que explica o quanto casais estouram do nada em restaurantes, em passeios, em bares. Ninguém compreenderá o estopim da guerra. A motivação parece sempre absurda (falar de boca cheia, rir demais).

Só que o nada não é nada. O nada é um desconforto atrasado, um pequeno ressentimento que não foi desfeito no flagrante. A gota d’água costuma vir de uma torneira diferente daquela que encheu o copo.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS), 09/08/2015 Edição 18252

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