Influencers em crise: Por que continuamos dando palco para tanta gente irresponsável?

Praticamente todos os dias um influencer digital é “cancelado” na internet devido a alguma conduta irresponsável durante a pandemia. Entretanto, um pedido de desculpas e alguns dias com as redes sociais desativadas já são o suficiente para a maioria deles voltarem a arrebanhar seguidores e a vender produtinhos de beleza. Por quê continuamos dando palco para essas pessoas?

Felipe Souza

O mundo vive nos últimos meses uma crise de saúde sem precedentes devido à pandemia de coronavírus, que só no Brasil já tem a assustadora marca de um milhão de casos confirmados e 468.881 vítimas fatais. A crise afeta também a vida de milhares de pessoas que perderam seus empregos ou viram seus pequenos negócios irem à falência e hoje lotam filas para sacar um auxílio emergencial que nem de longe cobre despesas básicas de uma família de classe média baixa no país. Entretanto, neste cenário que inspira inúmeras preocupações, ainda há quem esteja vivendo uma realidade paralela, ignorando o caos e abraçando a ignorância e a futilidade como se fossem estas as únicas alternativas. É o caso de muitos dos chamados “influencers digitais”, que seguem sua rotina de expôr marcas e vender a ilusão de um estilo de vida à la Kardashians em um país com mais de 13 milhões de pessoas vivendo na linha de extrema pobreza, de acordo com o IBGE.

Desde o início da pandemia, são raros os dias em que um influencer não vira manchete nos portais de notícia e trending Topic no Twitter devido a alguma conduta equivocada – para dizer o mínimo. Na última sexta-feira (19), a socialite e blogueira Fabianne Fonseca, mais conhecida como Fabi Raíssa, causou furor na internet ao ostentar sua luxuosa festa de aniversário em Brasília, onde os convidados eram recepcionados na porta por um grupo de enfermeiros, que lhes impunham testes de Covid-19 como condição para entrar. “Aqui só entra Covid Free”, disse uma das convidadas em um vídeo que foi imensamente compartilhado nas redes sociais. E este é só o último caso notório. Antes dela, passaram pela “roda do cancelamento” Gabriela Pugliesi – pelos menos umas três vezes – , e mais recentemente a ex-BBB Rafa Kalimann, com seu arraiá junino em meio à pandemia. O que está em discussão neste texto não é a validade da prática bastante questionável e cada vez mais recorrente de cancelamentos na internet, mas sim as perguntas que pairam no ar após esses episódios: o que foi que deu errado para que pessoas com tão ponto conteúdo substancioso ganhassem tamanha notoriedade? Por que, mesmo depois de inúmeras provas de que exercem o pior tipo de influência possível para jovens que se pretendem politizados, essas pessoas continuam arrebanhando seguidores e fazendo da ignorância e do desrespeito uma ostentosa bandeira?

A resposta a esses questionamentos talvez seja tão simples quanto ultrajante: mesmo que estejamos acompanhando o desabrochar de importantes revoluções comportamentais, como a popularização das pautas feministas e o avanço sobre as discussões raciais, toda sociedade ainda precisa do seu bobo da corte. Assim como o clã Kardashian choca e fascina os Estados com as suas extravagâncias e excentricidades proporcionadas por uma fortuna incalculável, muitos dos influencers brasileiros cumprem com louvor o seu papel de expôr a nossa face mais ridícula. O mesmo seguidor que cancela é aquele que clica avidamente na manchete que anuncia o novo deslize da Pugliesi. Há um deleite coletivo no acompanhar dos deslizes dessas pessoas. É quando o seguidor inconscientemente se vinga daquela pessoa que dedica seus dias a lhe esfregar na cara um estilo de vida que ele tanto despreza quanto deseja. É um jogo cruel, do qual boa parte dos influencers aceitam fazer parte por saberem dos benefícios – e eles não são poucos. A parcela bovarista dos seus seguidores insiste em acreditar que uma marca de maquiagem, ou um perfume, ou um tênis caríssimo vai fazê-lo mais próximo de seu ídolo. Vem daí o benefício que faz valer o risco iminente de cancelamento a cada post, a cada storie, a cada tuíte. Quem, afinal, é o bobo?

Nos últimos meses, uma série de artigos insistem em predizer o fim da era dos digital influencers. Esse pensamento talvez seja resultado dos últimos acontecimentos e das conhecidas consequências financeiras para os personagens envolvidos. A já citada Gabriela Pugliesi perdeu a parceria de 17 marcas após a sua comemoração em casa durante a quarentena. Entretanto, é bem possível que não esteja sendo considerado nesta conclusão precipitada o talento inequívoco das redes sociais de fazerem surgir um novo ídolo a cada post no instagram ou a cada videozinho divertido no Tik Tok. A internet é uma fonte inesgotável de personagens cativantes prontos a se tornarem potenciais vendedores de produtos que você PRECISA ter em casa. Além do mais, uma carta aberta de desculpas e alguns dias fora de circulação nas redes sociais já costumam ser o suficiente para que os “cancelados” voltem a fascinar plateias com sua empolgante rotina de pilates e cuidados com a pele. Bem-vindos ao nada novo-normal, meninas!

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Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição. Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.