Há fotografias que documentam um acontecimento. Outras acabam se tornando parte dele. A imagem de Omayra Sánchez pertence ao segundo grupo: ao mostrar uma adolescente imóvel entre água, lama e destroços, ela também expôs o colapso de uma operação de resgate que tinha pessoas dispostas a ajudar, mas não contava com os equipamentos necessários.
O retrato foi feito pelo fotojornalista francês Frank Fournier em novembro de 1985, durante a tragédia de Armero, na Colômbia. Desde então, uma pergunta acompanha a circulação da fotografia: por que ele permaneceu atrás da câmera, em vez de retirar a menina dali?
A resposta é mais dura do que a acusação sugere. Fournier não tinha como libertá-la. E, quando chegou ao local, equipes de resgate já tentavam fazer isso havia muitas horas.
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A erupção que apagou Armero do mapa
Na noite de 13 de novembro de 1985, o vulcão Nevado del Ruiz entrou em erupção. O calor derreteu parte da neve e do gelo acumulados no topo da montanha, formando lahars, correntes densas compostas por água, lama, rochas e detritos vulcânicos.
Esses fluxos desceram pelos vales em direção às comunidades próximas. Armero, cidade localizada no caminho da enxurrada, foi atingida com violência. Ruas, casas, hospitais e redes de comunicação desapareceram sob a lama. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, cerca de 23 mil pessoas morreram na cidade. Considerando as demais áreas afetadas, estimativas sobre o desastre ultrapassam 25 mil vítimas.
A dimensão da perda foi agravada por falhas de prevenção. A atividade do vulcão vinha sendo acompanhada, e mapas de risco já apontavam que uma erupção poderia produzir fluxos de lama na direção de Armero. Mesmo assim, não houve uma retirada eficiente da população antes que o lahar chegasse.
O resultado foi uma das erupções vulcânicas mais letais do século XX, embora a explosão em si não tenha sido excepcionalmente grande. O principal agente de destruição foi a lama produzida pelo derretimento do gelo, que percorreu os canais naturais da montanha e atingiu a cidade durante a noite.
Omayra ficou presa nos escombros da própria casa
Omayra Sánchez Garzón tinha 13 anos e vivia em Armero com a família. Quando o fluxo atingiu a cidade, a residência desabou e ela ficou presa entre pedaços de concreto, madeira e outros destroços.
Os socorristas conseguiram alcançar a adolescente, mas descobriram que suas pernas estavam imobilizadas sob a estrutura da casa. Relatos da época indicam que havia corpos e partes da construção abaixo dela, o que tornava qualquer tentativa de puxá-la extremamente perigosa.
Para evitar que afundasse, os homens colocaram um pneu ao redor de seu corpo. Omayra permaneceu parcialmente submersa enquanto voluntários, médicos, jornalistas e moradores procuravam uma maneira de retirá-la.
O resgate exigia bombas capazes de reduzir o nível da água e equipamentos cirúrgicos para uma possível amputação. Esses recursos não chegaram a tempo. A infraestrutura local havia sido destruída, as estradas estavam comprometidas e milhares de pessoas precisavam de atendimento simultaneamente.
Durante aproximadamente 60 horas, Omayra alternou momentos de lucidez, cansaço e confusão. Conversou com quem estava ao redor, pediu alimentos doces, falou sobre a família e, em certos momentos, mencionou a escola. Seu estado se deteriorou à medida que as horas passavam.
A aparência dos olhos chamou atenção na fotografia
Na imagem feita por Fournier, os olhos de Omayra parecem quase completamente negros. Esse detalhe ajudou a transformar o retrato em uma cena especialmente perturbadora e deu origem a diversas explicações posteriores.
Há versões que atribuem a aparência a hemorragias, à pressão exercida sobre seu corpo ou às alterações físicas provocadas pelo longo período em que permaneceu presa. Contudo, não existe um laudo médico amplamente divulgado que permita definir, com segurança, uma única causa para o aspecto registrado na foto.
O que se sabe é que suas mãos estavam inchadas, seu rosto havia mudado de aparência e o corpo apresentava sinais de falência após dias de exposição à água contaminada, ao frio e aos ferimentos.
Frank Fournier chegou quando o resgate já estava paralisado
Fournier viajou até a região depois de saber da erupção. Ao chegar a Armero, encontrou centenas de vítimas presas e equipes trabalhando em condições precárias. Um morador o conduziu até Omayra.
O fotógrafo percebeu que havia várias pessoas ao redor dela. Portanto, não se tratava de uma criança abandonada diante de um homem que poderia simplesmente estender a mão e puxá-la. Ela estava fisicamente presa sob uma estrutura pesada, e qualquer intervenção improvisada poderia causar uma hemorragia fatal ou fazê-la afundar.
A equipe precisava de máquinas, bombas e material médico. Fournier carregava câmeras.
Em entrevista concedida anos depois, ele explicou que se sentiu impotente diante da situação. Também relatou ter ouvido pedidos de socorro por toda a área, seguidos por um silêncio que o marcou profundamente.
Sua decisão foi registrar o que estava acontecendo. Para Fournier, a fotografia poderia mostrar ao restante do mundo a gravidade do desastre e a falta de recursos enfrentada pelos socorristas.
“Era impossível fazer alguma coisa”
Quando a imagem começou a circular, Fournier foi acusado de frieza e exploração. Parte do público interpretou a fotografia como se o profissional tivesse escolhido uma boa imagem em lugar de um salvamento possível.
O fotógrafo rebateu essa leitura. Segundo ele, retirar Omayra dali era uma operação tecnicamente impossível nas condições disponíveis. Os socorristas já haviam tentado libertá-la e aguardavam equipamentos que não chegaram a tempo.
Fournier afirmou ainda que preferia enfrentar a indignação provocada pela foto a perceber que ninguém se importava com o ocorrido. Para ele, a reação pública demonstrava que a imagem havia rompido a distância confortável entre o leitor e a catástrofe.
A fotografia também direcionou atenção internacional para as falhas das autoridades colombianas e para a precariedade da resposta ao desastre. A discussão ética, porém, continuou: até onde um fotojornalista deve registrar o sofrimento e em que momento precisa abandonar a câmera?
No caso de Omayra, essa pergunta costuma partir de uma premissa equivocada. Fournier não tinha diante de si duas escolhas equivalentes, fotografar ou salvar. Salvar a menina dependia de recursos que ele, os médicos e os voluntários presentes não possuíam.
Uma fotografia premiada e contestada
O retrato recebeu o prêmio World Press Photo of the Year em 1986. A própria organização descreve Omayra presa entre os escombros enquanto os socorristas aguardavam a chegada de materiais necessários para libertá-la.
O prêmio aumentou a exposição da imagem e intensificou o debate sobre os limites do fotojornalismo. Fournier foi chamado de “abutre” por alguns críticos, enquanto outros defenderam que seu trabalho tornou visível uma tragédia que poderia ser reduzida a números em uma notícia distante.
A fotografia funcionou como prova de uma falha coletiva: havia conhecimento sobre o risco do vulcão, havia pessoas tentando resgatar vítimas e havia tempo suficiente para perceber o que Omayra precisava. O que faltou foi uma estrutura capaz de transformar essas informações em ação.
As últimas horas de Omayra
Omayra morreu na manhã de 16 de novembro de 1985. Sua mãe estava fora de Armero quando ocorreu a erupção e sobreviveu. O pai e uma tia morreram no desastre; o irmão também conseguiu sobreviver.
A menina permaneceu consciente durante boa parte do tempo em que esteve presa. Câmeras de televisão registraram algumas de suas falas, inclusive mensagens de afeto dirigidas à mãe, ao pai e ao irmão.
Sua morte foi atribuída às consequências dos ferimentos e do longo período de aprisionamento. O registro do World Press Photo informa que ela perdeu a consciência e morreu enquanto os socorristas ainda aguardavam os materiais necessários.
Depois da tragédia, a Colômbia ampliou o monitoramento dos vulcões e reformulou estruturas de prevenção e resposta a desastres. Observatórios foram criados, sensores passaram a acompanhar o Nevado del Ruiz e protocolos de evacuação ganharam maior importância. Quatro décadas depois, o vulcão continua monitorado, agora cercado por uma rede de vigilância que não existia de forma adequada quando Armero foi destruída.
A explicação de Fournier, portanto, não oferece alívio. Ele não salvou Omayra porque uma câmera, duas mãos e boa vontade não removem toneladas de concreto nem substituem bombas, instrumentos cirúrgicos e uma operação pública preparada. A fotografia sobreviveu justamente por mostrar o preço dessa ausência.
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