A atriz que superou um casamento traumático com um esquizofrênico e hoje ostenta a “Tríplice Coroa da Atuação”

Antes que o público a conhecesse pelo terror de O Exorcista, pela força dramática de Réquiem para um Sonho ou pelo Oscar de melhor atriz, Ellen Burstyn precisou aprender algo bem menos glamouroso: como sobreviver a ambientes nos quais deveria ter se sentido protegida.

Aos 93 anos, ela reúne uma carreira que atravessa teatro, cinema e televisão, marcada por personagens complexas e por uma longevidade profissional rara. Fora das telas, porém, enfrentou uma infância difícil, violência conjugal, perseguição e ameaças de morte.

O contraste entre essas experiências e sua trajetória artística ajuda a explicar por que tantas de suas atuações parecem carregar uma intensidade que não nasce somente da técnica.

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Uma infância da qual Ellen queria escapar

Ellen Burstyn nasceu Edna Rae Gillooly em 7 de dezembro de 1932, em Detroit, nos Estados Unidos. Seus pais se separaram quando ela ainda era criança, e Ellen passou a viver com a mãe, os dois irmãos e o padrasto.

Anos depois, a atriz descreveu a infância como um período infeliz. A relação com a mãe era marcada por controle, frieza e agressividade, enquanto o pai permaneceu praticamente ausente. Segundo o material que serviu de base para esta matéria, Ellen chegou a prometer a si mesma que deixaria a casa da família assim que completasse 18 anos.

Durante o ensino médio, ela foi líder de torcida, participou do conselho estudantil e presidiu o clube de teatro. Apesar do envolvimento com tantas atividades, abandonou os estudos no último ano após enfrentar dificuldades acadêmicas.

A saída da escola deu início a uma sequência de empregos. Ellen trabalhou como dançarina, modelo e integrante de programas de variedades. Nesse período, adotou diferentes nomes profissionais, entre eles Kerri Flynn, Erica Dean e Ellen McRae. O sobrenome Burstyn apareceria mais tarde, após seu terceiro casamento.

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Dos trabalhos como modelo ao reconhecimento em Hollywood

Ellen estreou na Broadway em 1957 e passou anos assumindo pequenas participações na televisão. A mudança decisiva aconteceu no início da década de 1970, quando começou a receber personagens que exigiam mais do que uma presença elegante diante das câmeras.

Em A Última Sessão de Cinema, de 1971, interpretou Lois Farrow e recebeu sua primeira indicação ao Oscar, na categoria de atriz coadjuvante. Dois anos depois, viveu Chris MacNeil, a mãe desesperada de uma adolescente possuída, em O Exorcista.

As filmagens do clássico de terror foram fisicamente desgastantes. Em uma das cenas, Burstyn foi puxada com força por um equipamento preso ao corpo e sofreu uma lesão nas costas. Sua reação de dor acabou permanecendo no filme. O papel lhe rendeu outra indicação ao Oscar e transformou definitivamente sua posição na indústria.

Em 1974, Martin Scorsese a dirigiu em Alice Não Mora Mais Aqui. Ellen interpretou uma mulher viúva que tenta sustentar o filho enquanto retoma o desejo de trabalhar como cantora. A atuação lhe garantiu o Oscar de melhor atriz na cerimônia de 1975.

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Naquele mesmo período, ela brilhou na Broadway com a peça Same Time, Next Year, pela qual recebeu o Tony de melhor atriz. Décadas depois, conquistou um Emmy por sua participação em Law & Order: Special Victims Unit, completando a chamada “Tríplice Coroa da Atuação”, formada por Oscar, Tony e Emmy. A Academia de Televisão confirma que o prêmio de 2009 completou essa combinação.

Burstyn voltaria a ganhar um Emmy em 2013, por Political Animals. Ao longo da carreira, também foi indicada ao Oscar por produções como Ressurreição, Amor Eterno e Réquiem para um Sonho.

O casamento que se transformou em ameaça

A vida afetiva de Ellen foi marcada por três casamentos. O primeiro, com Bill Alexander, começou quando ela tinha 18 anos e terminou em 1957. No ano seguinte, casou-se com Paul Roberts. Os dois adotaram um filho, Jefferson, mas se divorciaram em 1961.

Em 1964, Ellen se casou com o ator Neil Nephew, que posteriormente passou a usar o nome Neil Burstyn. Ela o descreveu como inteligente, engraçado, talentoso e excêntrico. Com o avanço de seus problemas psiquiátricos, porém, o comportamento dele se tornou agressivo.

Ellen relatou em sua autobiografia, Lessons in Becoming Myself, que sofreu violência durante o casamento, incluindo estupro conjugal. Na época, esse tipo de agressão ainda não era reconhecido legalmente como crime em boa parte dos Estados Unidos. Ela também contou que recebeu ameaças de morte e que, ao procurar ajuda, ouviu da polícia que as autoridades não interferiam em “problemas domésticos”.

Os dois se divorciaram em 1972, mas a separação não encerrou o medo. De acordo com o relato de Burstyn, Neil continuou perseguindo-a durante cerca de seis anos. Ele morreu por suicídio em 1978.

A fonte fornecida para esta matéria reúne os relatos de perseguição, violência sexual e ameaças descritos pela atriz em suas memórias.

É importante fazer uma distinção que títulos sensacionalistas costumam esmagar com a delicadeza de um trator: esquizofrenia, por si só, não transforma alguém em uma pessoa violenta. O caso de Ellen envolve o comportamento específico de seu ex-marido e não deve ser usado para reforçar preconceitos contra pessoas que convivem com transtornos psicóticos.

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Uma decisão tomada após anos de relações difíceis

Depois da morte de Neil, Ellen não voltou a se casar. Em entrevistas e em seu livro, explicou que passou a enxergar a vida sozinha como uma possibilidade legítima, e não como uma situação que precisava ser corrigida por outro relacionamento.

Também buscou compreender melhor sua história familiar. Com o tempo, percebeu que a própria mãe havia vivido uma relação frustrante e despejado parte de sua insatisfação sobre os filhos. Essa compreensão não apagou as agressões, mas ajudou Ellen a abandonar parte do ressentimento que carregava.

Terapia, meditação, estudos espirituais e períodos de recolhimento passaram a ocupar espaço em sua rotina. Em vez de esconder os episódios mais dolorosos, ela os transformou em matéria de reflexão na autobiografia publicada em 2006.

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A atriz que recusou depender da aparência

No começo da carreira, Ellen percebeu que poderia receber trabalhos apoiados sobretudo em sua beleza. Decidiu, contudo, que esse caminho teria prazo curto e concentrou seus esforços no aprimoramento como atriz.

A escolha se mostra clara em seus papéis. Em Réquiem para um Sonho, lançado em 2000, interpretou Sara Goldfarb, uma mulher solitária que desenvolve dependência de medicamentos enquanto tenta emagrecer para aparecer na televisão. Sua transformação física e emocional rendeu uma das atuações mais comentadas de sua carreira e a sexta indicação ao Oscar.

Ellen continuou trabalhando depois dos 80 e dos 90 anos, com participações em produções como Interestelar, O Segredo de Adaline, House of Cards, Pieces of a Woman e The First Lady. Em 2026, aos 93 anos, também lançou Poetry Says It Better, livro no qual apresenta poemas que a acompanharam em diferentes momentos da vida.

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Sua “Tríplice Coroa” resume o reconhecimento recebido em três meios distintos, mas deixa de fora aquilo que os troféus não conseguem medir: a capacidade de sustentar uma carreira por quase sete décadas, recusar personagens decorativos e continuar trabalhando muito depois da idade em que Hollywood costuma afastar suas atrizes dos papéis principais.

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Gabriel Pietro
Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.