Dicas imprescindíveis para iniciar no Trekking, por Ricardo Feres

CONTI outra

Com frequência eu recebo mensagens de pessoas que querem se iniciar no trekking (trilhas a pé) mas não sabem qual o primeiro passo. Como a quantidade de mensagens aumentou após a publicação do livro As Mais Belas Trilhas da Patagônia e, coincidentemente, fui convidado pela CONTI outra para falar sobre o tema, resolvi escrever algumas dicas que te ajudarão nesse início.

Fazer trilha, trekking ou hiking?

Antes de escrever sobre o que é mais importante, é bom entender os termos trekking e hiking, pois se você ainda não os conhece, certamente encontrará em sites, livros e guias de trilhas. Em quase todos os artigos brasileiros você encontrará a definição de que hiking é uma caminhada na natureza com curta duração (um dia) e trekking é uma caminhada mais longa, exigindo maior condicionamento físico e pernoites na natureza. Porém isso não é verdade nos países de língua inglesa, de onde importamos esses termos. Nos Estados Unidos, por exemplo, quase não se usa o termo trekking, eles se referem às trilhas de um dia como day hike e trilhas com vários dias de multi-day hike. Na Inglaterra, mesma coisa. Já nos países europeus onde não se fala inglês, trekking é usado com certa frequência, apesar de ser menos popular que aqui.

Pessoalmente eu não gosto de usar palavras estrangeiras mas, nesse caso, a palavra trekking ajuda a diferenciar de outras atividades. Por exemplo, se eu escrever para um grupo de amigos “vamos fazer uma trilha amanhã?”, parte deles vai supor que farei uma trilha a pé, outros pensarão que é mountain-bike e alguns podem imaginar que é trilha com 4×4. Mas, se eu escrever “vamos fazer um trekking amanhã?”, todo mundo sabe que estou me referindo a uma trilha a pé.

Aprender com os mais experientes ou ser autodidata?

Pelo que vejo, o maior obstáculo para quem quer se iniciar no trekking é por não saber onde buscar informações, quando essa pessoa não tem amigos que já praticam. Hoje em dia, toda a informação necessária está disponível na internet, mas assim como há bastante coisa boa, também há muito lixo escrito por quem não tem experiência alguma. E você, que não tem uma base, como vai diferenciar o que é certo do que é errado? Com bom senso e muita pesquisa, é possível, mas não há dúvida de que é mais fácil e seguro procurar um curso ou, se não houver curso na sua região, entrar em fóruns e grupos nas redes sociais para conhecer pessoas que você possa acompanhar nas primeiras trilhas.

Também é possível começar a fazer trilhas sempre com acompanhamento de um guia e, com as conversas, aprender de modo seguro e mais rápido do que por conta própria, mas essa segurança só virá se o guia for bom (o que vale também para os cursos), então pesquise muito antes de contratar.

Praia do Bonete, Ilhabela, SP- fotografia Ricardo Feres

Condicionamento físico

Muita gente deixa de fazer trilhas por achar que não tem preparo físico suficiente, já que nas redes sociais as pessoas adoram escrever sobre como foi difícil e cansativa a trilha que fizeram. Em primeiro lugar, vale dizer que muita gente diz que é mais difícil do que realmente é para posar de valente. Também é importante lembrar que há trilhas de todas as dificuldades, desde algumas curtas e quase sem elevação, até outras que realmente exigem condicionamento excepcional, então não deixe de começar por isso, apenas escolha as mais leves e, aos poucos, aumente as distâncias e, principalmente, a elevação acumulada durante a trilha, que é o que cansa mais.

O melhor treinamento para um esporte é sempre o treinamento específico, ou seja, praticar o próprio esporte ao menos 3 vezes por semana. Mas, se você não tem a possibilidade de fazer trilhas com frequência, pode treinar subindo e descendo as escadas de um prédio, o que simula com razoável eficiência o que encontramos em muitas trilhas. Também é bom procurar uma academia para fazer reforço muscular sob orientação de um profissional de educação física, ele vai te deixar pronto até mesmo para longas trilhas e, tendo músculos e tendões fortes, a chance de se lesionar é muito menor.

Equipamentos

Ter os melhores equipamentos fará, sem dúvida alguma, que você tenha mais conforto e até mais segurança, mas não deixe que o preço dos equipamentos te afaste do trekking. É perfeitamente viável fazer trilhas com equipamentos baratos, eles não são necessariamente ruins e muitas vezes os equipamentos simples de hoje são melhores que os topo-de-linha usados décadas atrás.

Como escolher os equipamentos renderia páginas e páginas, vou citar apenas algumas dicas que considero importantes para você iniciar sua busca.

Calçados: sem dúvida esse é o equipamento mais importante e mais difícil de escolher, pois a bota que fica perfeita pra mim, pode ficar ruim em você. Bota ou tênis? Impermeável ou não? Ultraleve ou mais pesado e resistente? São muitas opções e cada uma delas vai funcionar melhor de acordo com o seu estilo e o tipo de ambiente que vai caminhar, mas o que é essencial em qualquer calçado é uma sola com boa aderência ao piso e, também, que a forma do calçado encaixe bem no formato do seu pé, para evitar bolhas. Antes de usar seu novo tênis ou bota na trilha, use-o por um tempo na cidade para ver se está realmente confortável e, por via das dúvidas, leve esparadrapo para a trilha para proteger pontos onde ele pode te machucar.

Roupas: leve sempre roupa suficiente para o pior clima que você pode encontrar, não confie na previsão do tempo, pois ela pode falhar. Considere também que sua trilha pode demorar muito mais que o previsto, caso você se perca ou alguém se machuque e isso atrase o retorno. Aliás, esse ponto leva ao equipamento abaixo.

Lanterna: mesmo que você saiba que vai voltar antes do pôr do sol, leve sempre uma lanterna, pois, em caso de acidente, pode ter que caminhar no escuro. Não conte com a lanterna do celular porque, além de fraca, a bateria acaba rapidamente com a lanterna ligada.

Bastões: além de diminuir a chance de um tombo, uma vez que você terá mais pontos de apoio, os bastões também diminuem o impacto nas articulações e a fadiga nos músculos das pernas, já que parte do esforço será feito pelos braços e tronco. Tem gente que usou e não gostou e eu respeito essa opinião, só não leve em consideração as piadas infantis do pessoal que diz que bastão é coisa de velho, esse é o tipo de gente que encara o trekking como uma competição e não como uma forma de se integrar à natureza. Um exemplo: durante a viagem que rendeu o livro de fotos sobre a Patagônia, quando eu fui pela segunda vez fazer o circuito de trekking em Ushuaia, vi que havia esquecido os bastões no barco na noite anterior. Fui sem os bastões e, no primeiro dia, caminhei 26 km, uma distância grande para fazer com a mochila cargueira cheia de equipamentos e comida para 5 dias mas eu já havia feito isso várias vezes durante a viagem. Porém, essa foi a única vez que tive uma câimbra, já quando estava descansando na barraca, pouco antes de dormir. Coincidência? Acredito que não, pois foi a única trilha que eu fiz sem bastões em mais de 1.200 km caminhados.

Fotografia: Ricardo Feres/ Capa do livro As Mais Belas Trilhas Da Patagônia

Alimentação e hidratação

Para quem está se iniciando no trekking e vai fazer trilhas de um dia, não há necessidade de uma alimentação especial e nem precisa se preocupar muito com o peso, como quem faz trilhas de vários dias. Tenha um café da manhã reforçado e leve alimentos que sejam fáceis de comer e que não derretam com o calor, guardando-os de modo que não sejam amassados dentro da mochila. Importante é não deixar de comer, pois se o corpo ficar sem carboidratos para metabolizar durante a caminhada, começará a metabolizar os músculos, ou seja, você perderá massa muscular.

Já a hidratação merece bastante atenção, mesmo em trilhas de um dia, pois a desidratação pode causar, entre outros sintomas, dor de cabeça, câimbras, tontura e fadiga, transformando em sofrimento o que deveria ser diversão.

Orientação

Está se tornando cada vez mais comum ver notícias de pessoas perdidas, seja inverno (temporada de montanhas no sul e sudeste do Brasil) ou verão (grupos buscando cachoeiras e praias afastadas). É verdade que hoje, com as informações sendo difundidas rapidamente, é bem mais fácil de se informar sobre os incidentes (que às vezes se tornam acidentes), mas a verdade é que a popularização dos aplicativos de GPS nos celulares faz com que todo mundo se ache capaz de chegar até o destino e voltar para casa. Mas e se o mapa estiver errado? E se acabar a bateria do celular? Se ele quebrar? Se você perdê-lo? Aí começam os problemas que, algumas vezes, terminam de forma trágica.

Para não fazer parte da estatística, você deve aprender a se orientar não só com o uso do GPS como também através de bússola/mapa e mesmo sem nenhum aparelho. Como eu disse no início desse artigo, você pode aprender na internet ou, melhor ainda, fazendo um curso ou acompanhando pessoas que já têm experiência. Até estar realmente seguro, vá apenas para trilhas que sejam totalmente autoguiadas, com boa sinalização em todo o percurso, inclusive em caso de virada de tempo e perda de visibilidade.

Parque Nacional Torres del Paine, Patagônia Chilena- Fotografia Ricardo Feres

Mínimo impacto

A popularização do trekking tem feito com que as trilhas de todos os níveis recebam muito mais gente do que recebiam até o início dos anos 2000. O aumento de praticantes é positivo porque promove o crescimento do mercado (lojas, cursos etc) e também porque as pessoas (que têm bom senso e empatia) cuidam do que conhecem, então é importante mostrar para mais gente as belezas naturais do Brasil que só podem ser acessadas a pé.

O problema é que a facilidade de acesso tem atraído não apenas quem gosta da natureza mas também quem apenas quer usá-la para conseguir curtidas nas redes sociais ou por quem leva o estilo de vida que tem na cidade para a natureza, fazendo barulho, deixando lixo e, ainda pior, causando incêndios. É verdade que apenas uma minoria faz isso, mas imagine que há 20 pessoas em uma cachoeira. Se essas 20 pessoas respeitam umas às outras e, mais importante ainda, respeitam o ambiente, todo mundo se diverte e, no fim do dia, a trilha da cachoeira não sofrerá danos. Porém, basta que uma dessas 20 pessoas seja egoísta e/ou inconsequente que as outras 19 terão que aguentar sua caixa de som abafando os sons da natureza. Basta uma pessoa para que o lugar fique poluído. Basta uma pessoa para que toda a mata pegue fogo, o que pode parecer exagero mas, se você acompanhar as notícias, verá que acontece com bastante frequência, vide o imenso incêndio na Serra Fina (SP) em 2020.

Será que é possível fazer com que as pessoas tenham, na natureza, um comportamento melhor do que demostram na cidade? Acho difícil mas, se não explicarmos para os iniciantes como agir da forma correta e se não chamarmos a atenção dos que já têm alguma experiência e, ainda assim, ignoram as regras de mínimo impacto, em breve todos os locais de fácil acesso estarão degradados.

Abaixo listo algumas atitudes que devem ser seguidas para que as pessoas tenham uma boa convivência entre si e a fauna e flora seja minimamente impactada pela nossa presença.

• Não deixe lixo: essa é uma regra de convivência tão básica que é até difícil escolher palavras educadas para explicar que não se deve jogar na natureza as embalagens de comida, bitucas de cigarro e qualquer outra coisa que você levou para a trilha. É muito simples: se levou, traga de volta!

• Não faça barulho: para não incomodar os outros e não espantar os animais, converse sem gritar e, se quiser ouvir música, use fones de ouvido. Se os sons da natureza não são agradáveis o suficiente para você e tem vontade de escutar algo diferente, lembre-se que o seu direito de ouvir música não se sobrepõe ao direto das outras pessoas de ouvir o som ambiente, então deixe sua caixa de som em casa!

• Não faça fogueira: eu sei que é uma delícia ficar olhando para o fogo durante uma conversa com os amigos de trilha mas o causador de quase todos os incêndios nas montanhas brasileiras somos nós, humanos. Isso acontece às vezes de forma intencional mas, normalmente, é por descuido de alguém que jogou fora uma bituca ainda acesa, manuseou o fogareiro em local errado ou fez uma fogueira que, por descuido ou falta de experiência de quem a fez, saiu de controle. É claro que você está pensando “eu sei fazer fogueira” mas acidentes acontecem e não é à toa que é proibido fazer fogueiras em todas as áreas naturais protegidas, então seja consciente e não crie nenhuma chance de começar um incêndio que matará incontáveis plantas e animais.

• Necessidades fisiológicas: se bater aquela vontade de ir ao banheiro, afaste-se da trilha e mantenha distância de no mínimo 60 metros de qualquer curso d’água. Cave um buraco para que as fezes não fiquem expostas mas não jogue o papel higiênico no buraco, leve-o embora porque o tempo de decomposição do papel higiênico é muito grande.

As regras acima são as mínimas necessárias para uma convivência harmoniosa das pessoas entre si e também com o meio ambiente, mas recomendo que se informe mais fazendo uma busca por “mínimo impacto leave no trace” e entre nessa atividade tão fascinante de modo consciente e responsável.

***

Imagem de capa: Travessia da Serra Fina, Mantiqueira, SP

Leia também: “As Mais Belas Trilhas da Patagônia”, livro do fotógrafo Ricardo Feres

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