Com 3 anos, o câncer tirou um de seus olhos. Hollywood disse que ele nunca seria um ator, mas ele se tornou um dos detetives mais icônicos da TV ao transformar seu ‘defeito’ em sua marca registrada

Antes de vestir o sobretudo amarrotado de Columbo, Peter Falk precisou convencer diretores e produtores de que seu rosto poderia aparecer diante das câmeras. O olho direito artificial, consequência de um câncer enfrentado ainda na infância, era visto por parte da indústria como uma limitação difícil de contornar.

A previsão não poderia ter envelhecido pior.

Com uma maneira peculiar de olhar, falar e se movimentar, Falk construiu um dos personagens mais reconhecidos da história da televisão. Columbo parecia distraído, fazia perguntas aparentemente bobas e quase sempre chegava aos locais do crime com a roupa desalinhada. Enquanto os suspeitos o subestimavam, ele observava cada contradição até encontrar o detalhe que desmontaria toda a história.

A característica física apontada como um obstáculo acabou ajudando a formar a imagem inconfundível do detetive.

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O câncer descoberto quando Peter Falk tinha 3 anos

Peter Michael Falk nasceu em Nova York, em 16 de setembro de 1927. Aos 3 anos, foi diagnosticado com retinoblastoma, um câncer raro que se desenvolve na retina e costuma atingir crianças pequenas.

O tumor maligno exigiu a retirada cirúrgica de seu olho direito. A partir daí, ele passou a usar uma prótese ocular, responsável em parte pelo olhar semicerrado que mais tarde se tornaria uma de suas características mais conhecidas.

A perda do olho não o afastou das atividades comuns da infância. Falk praticava esportes coletivos, especialmente beisebol e basquete, mesmo tendo uma percepção de profundidade mais limitada.

Ele também aprendeu cedo a usar o humor para lidar com perguntas e comentários sobre sua aparência.

Uma das histórias mais conhecidas ocorreu durante uma partida de beisebol no colégio. Irritado depois de ser declarado eliminado na terceira base, Falk teria retirado o olho artificial e o oferecido ao árbitro, sugerindo que ele precisava enxergar melhor. O episódio virou uma anedota recorrente em entrevistas e perfis sobre o ator.

Antes da atuação, uma carreira bem diferente

Peter Falk não começou a vida profissional sonhando com estúdios de cinema. Depois dos estudos, trabalhou como analista administrativo no governo do estado de Connecticut.

A atuação surgiu com mais força quando ele já estava perto dos 30 anos. Ao procurar oportunidades nos palcos, ouviu avaliações pouco animadoras sobre suas chances diante das câmeras. Sua prótese ocular era apontada como um problema, pois diminuía a mobilidade de um lado do rosto e produzia um olhar considerado irregular pelos padrões rígidos da indústria.

Em vez de tentar esconder essa característica, Falk aprendeu a incorporá-la à maneira como interpretava.

Seu rosto dificilmente passava despercebido. A voz rouca, os gestos inquietos e a expressão desconfiada davam a seus personagens uma presença pouco convencional. Em uma indústria obcecada por simetria, ele descobriu que ser facilmente reconhecido podia valer mais do que parecer igual a todos os outros atores disponíveis para o papel.

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Duas indicações ao Oscar em anos consecutivos

A carreira de Peter Falk avançou rapidamente no cinema. Em 1960, ele interpretou o criminoso Abe Reles em Murder, Inc.. O papel lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

No ano seguinte, voltou a concorrer na mesma categoria por Pocketful of Miracles, dirigido por Frank Capra e estrelado por Bette Davis. A Academia confirma a indicação de Falk na cerimônia de 1962.

Conseguir duas indicações consecutivas já seria uma resposta bastante convincente aos agentes que viam seu olho artificial como impedimento. Ainda assim, o personagem que definiria sua carreira estava por aparecer.

Columbo parecia desorganizado, mas sempre estava alguns passos à frente

Peter Falk interpretou pela primeira vez o tenente Columbo no telefilme Prescription: Murder, exibido em 1968. Depois de um segundo filme para a TV, o personagem ganhou espaço regular em 1971, dentro do programa rotativo NBC Sunday Mystery Movie.

Columbo contrariava a imagem tradicional do investigador sofisticado.

Ele dirigia um carro velho, usava um sobretudo amarrotado, fumava charutos baratos e mencionava constantemente uma esposa que quase nunca aparecia. Falava com educação, parecia confuso e deixava os suspeitos acreditarem que tinham controle sobre a conversa.

Quase sempre, porém, o público já sabia quem havia cometido o crime.

O suspense não dependia da identidade do assassino, mas da maneira como Columbo provaria a culpa. O espectador acompanhava o criminoso elaborar um álibi cuidadoso e, em seguida, via o detetive encontrar pequenas falhas na encenação.

Quando parecia finalmente satisfeito, ele se virava antes de sair e retomava o interrogatório com sua frase mais famosa: havia “só mais uma coisa” que ainda o incomodava.

O olhar que ajudou a definir o personagem

A prótese ocular de Peter Falk limitava alguns movimentos e acentuava sua expressão semicerrada. Em Columbo, isso contribuía para a impressão de que o detetive estava cansado, distraído ou tentando compreender algo óbvio.

Essa leitura favorecia o método do personagem.

Os criminosos, geralmente ricos, influentes e seguros de sua inteligência, olhavam para aquele policial desalinhado e concluíam que ele não representava perigo. A aparência de desatenção reduzia a resistência dos suspeitos, que acabavam falando demais ou tentando explicar detalhes que Columbo ainda nem havia questionado.

Falk também colocou elementos pessoais no personagem. O famoso sobretudo veio de seu próprio guarda-roupa, e o ator participou de decisões criativas da produção, chegando a dirigir episódios da série.

Aquilo que um agente teria considerado inadequado para o cinema passou a funcionar como parte essencial da atuação. Não era a prótese por si só que criava Columbo, mas Falk entendia perfeitamente como sua expressão poderia reforçar a falsa fragilidade do investigador.

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Quatro Emmys por um mesmo personagem

Peter Falk interpretou Columbo em diferentes fases, entre 1968 e 2003. A produção teve uma sequência regular durante os anos 1970 e depois retornou em filmes e episódios especiais a partir de 1989.

Ao longo desse período, o ator ganhou quatro prêmios Emmy por sua atuação como o tenente: em 1972, 1975, 1976 e 1990. Também recebeu um Globo de Ouro pelo papel.

O sucesso transformou Falk em uma das figuras mais valiosas da televisão de sua época. O detetive ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos e conquistou público em vários países, mantendo popularidade por décadas por meio de reprises.

Apesar da forte associação com Columbo, Falk continuou trabalhando no cinema e no teatro. Participou de filmes como Husbands, A Woman Under the Influence, The In-Laws, Wings of Desire e The Princess Bride. Sua carreira reuniu mais de 50 longas-metragens e se estendeu por mais de cinco décadas.

Um detetive diferente dos heróis policiais tradicionais

Boa parte da força de Columbo vinha do contraste entre aparência e competência.

O detetive não precisava intimidar ninguém fisicamente. Também não carregava o ar aristocrático de investigadores clássicos da ficção. Sua principal arma era a paciência.

Ele deixava que os suspeitos se sentissem superiores, retornava várias vezes ao mesmo assunto e fingia dificuldade para acompanhar explicações elaboradas. Aos poucos, transformava pequenos erros em provas.

Essa combinação tornou Columbo próximo do público. Ele enfrentava pessoas mais ricas e socialmente poderosas, mas não permitia que títulos, mansões ou profissões respeitadas interferissem na investigação.

Seu jeito modesto funcionava como disfarce. Por baixo do sobretudo amassado havia um profissional metódico, obsessivo e muito mais atento do que parecia.

Os últimos anos de Peter Falk

Peter Falk continuou interpretando Columbo até 2003. Seus últimos trabalhos como ator foram lançados na segunda metade daquela década.

Nos anos finais de vida, ele desenvolveu demência associada à doença de Alzheimer. Peter Falk morreu em 23 de junho de 2011, aos 83 anos, em sua casa em Beverly Hills.

Na época de sua morte, diretores e colegas destacaram sua capacidade de criar personagens humanos, engraçados e difíceis de imitar. Steven Spielberg afirmou ter aprendido mais sobre atuação observando Falk no início da carreira do que com qualquer outra pessoa.

Décadas depois de sua estreia, Columbo continua sendo reconhecido pelo sobretudo gasto, pelo charuto, pela voz rouca e pelo olhar peculiar de Peter Falk. A mesma característica que poderia ter fechado as portas de Hollywood ajudou o ator a criar um rosto que a televisão jamais confundiria com outro.

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Gabriel Pietro
Gabriel Pietro tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 12 mil textos assinados até aqui.