Carta aberta aos machistas

Muitos de vocês já se reinventaram, e depois de muito sofrimento entenderam que o machismo faz vítimas também entre os próprios homens. Outros, no entanto, precisarão viver algumas situações desagradáveis para absorver a realidade que se anuncia.

Caríssimos,

Os últimos acontecimentos me trazem aqui novamente.

Diante de tanta revolta contra vocês, houve  um momento em que cheguei a pensar que meu artigo sobre a banalização do machismo não tinha nenhuma procedência. Mas foi tanto chororô, tanta mágoa – tanto mimimi para usar a expressão da moda – diante do suposto “linchamento” produzido por uma simples “brincadeira de bêbados”  que cheguei à conclusão de que vocês, realmente, não entenderam nada. Vocês sequer sabem que são machistas.

Estou bem cansada de ter que desenhar para fazer vocês entenderem. Mas, vamos lá.

Antes de mais nada, quero lhes chamar a atenção para algo que vocês talvez nunca tenham cogitado.

A Convenção das Nações Unidas sobre todas as formas de discriminação contra a mulher, de 1979, ressalta em seu preâmbulo “ a eliminação do apartheid, de todas as formas de racismo, discriminação racial, colonialismo, neocolonialismo, agressão, ocupação estrangeira e dominação e interferência nos assuntos internos dos Estados é essencial para o pleno exercício dos direitos do homem e da mulher”.

Vocês devem estar pensando: o que raios o racismo, o colonialismo, a intervenção nos assuntos internos dos Estados têm a ver com vocês?

É que o machismo, assim como a xenofobia, a homofobia, o racismo, o colonialismo, é uma faceta de um fenômeno maior: a covardia.

A ONU sabia disso já em 1979. Viram como a opressão é uma só? Entenderam como o assunto é sério?

Eu sei que a emancipação da mulher é recente.

Até o início do século passado o mundo praticamente não conhecia o sufrágio feminino.

Nossa entrada no mercado de trabalho ocorreu durante a primeira grande guerra. O que são 100 anos na história?

O controle sobre nossos corpos só veio em 1960, com a invenção da pílula.

A queima de sutiãs ainda não fez 50 anos, e a verdade é que nenhum sutiã foi queimado naquele 7 de setembro de 1968, na escolha da Miss America, em Atlantic City. A fogueira foi só simbólica.

Olha, se um século e meio é pouco para a humanidade, é muito para uma vida humana. Dentro desse tempo aí cabem a minha vida toda, a da minha mãe e a da minha avó.

Sou de uma geração de mulheres que viveu entre a luta e a transigência. Tivemos nossos casamentos, senão destruídos, seriamente ameaçados em pelo menos uma vez na vida pelo machismo. Amamos homens machistas e até proferimos frases machistas muitas vezes ao longo de nossas vidas. Lutamos contra o machismo no trabalho, na rua, em casa, na família, dentro de nós e vindo de outras mulheres. Chegamos aos  40-50 anos com a voz rouca de tanto falar sobre isso. Entendam nosso exaurimento.

Para vocês que acham que estamos exagerando, esperem para ver a geração de nossas filhas. Se nossos medidores de transigência disparam no vermelho, o delas não existe, pelo simples fato de que são um modelo aperfeiçoado. Já saíram de fábrica com índice de tolerância zero contra o preconceito em todas as suas formas.  Nós fomos a vida inteira gentis, compreensivas com vocês. Mas elas não parecem nem um pouquinho dispostas a isso.

O que quero dizer é que, para seu bem, para a felicidade de seus filhos, entendam que chegamos a um caminho sem volta, o que os anglófonos chamam de “ponto de não retorno”. Vocês tiveram todas as chances históricas de entender isso com suavidade.

Aliás,  muitos de vocês já se reinventaram, e depois de muito sofrimento entenderam que o machismo faz vítimas também entre os próprios homens.

Outros, no entanto, precisarão viver algumas situações desagradáveis para absorver a realidade que se anuncia.

Eu sei, é chato deixar a própria zona de conforto, acomodar-se a alguma perda de poder.

Não sejam infantis, por favor. Ninguém quer crucificá-los. Mas vocês são grandinhos e perfeitamente capazes de lidar com críticas, por mais contundentes que sejam.

Não contem  mais com nossa indulgência. Nossa resignação realmente chegou ao limite. Decidimos destinar  nossa empatia às múltiplas vítimas do preconceito que inexplicavelmente ainda consome tantas sociedades.

De agora em diante, os marmanjos se viram sozinhos, ok?

Aprendam a lidar com isso.

Agradecemos a compreensão.

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


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Ana Flavia Velloso
Formada em Direito pela Universidade de Brasília, e mestre pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Advogada, é professora de Direito Internacional Público no Uniceub-DF. É muito feliz na escolha profissional que fez, mas flerta desde sempre com as letras. Também se aventurou pelo jornalismo quando morava na França.