A diferença entre vontade de amor e amor por vontade

A vontade de amor é produto da sensibilidade pura que move o ser para um objetivo consciente, de acordo com sua personalidade – está na égide do empoderado afetivo que oferece sem precisar pedir. O amor por vontade é consequência da insensibilidade, incerteza emocional e superficialidade – está na égide do miserável afetivo que só mendiga e não sabe doar. Um se tem; pelo outro se é tido.

O “Eu te amo” do miserável esconde um “Por favor”, um vazio desesperado para ser preenchido. O “Eu te amo” do empoderado revela um “Obrigado”, uma gratidão essencial que o mantém feliz e protege.

Amar a vontade significa ser controlado por ela, enquanto a vontade de amor estabelece uma força que não encontra resistências.

Em sua obra metafísica conceitual Ethics, Benedict de Spinoza afirma que a essência de amar é uma “potência de agir”. O frágil admite-se como tal pela verdade da sensibilidade que busca, sinal de que não a encontrou em absoluto e está no caminho certo, dado que seu encontro final marcaria o início de um declínio de potência. Quanto mais ressonância com o mundo, mais amor se sente, porque a razão se torna ela mesma e a liberdade dos sentidos está sendo direcionada. Em vida, a redução e aumento da energia sensível se dá em processo ininterrupto que pode ser ilustrado por um pêndulo – ele oscila para lá e para cá, sem nunca chegar a uma extremidade.

Em cada ser há uma reserva energética de vontade que suplanta o próprio amor verdadeiro, mas essa reserva não é como um gerador que se usa em casos de pane geral no sistema, mas um ideal da imaginação, produto da inteligência humana.

É tranquilo administrar o poder de amar quando as coisas estão indo bem – em casa, no trabalho, nos estudos e no lazer. Mas a validez do amor também se mede no caos, na doença, no infortúnio, na desgraça, na possibilidade de ruptura. Porque alguém com legítima vontade de amar preza a reciprocidade, mas, substancialmente, não depende da boa vontade alheia e se esforça para adaptar-se a seu vazio, de forma que, mesmo se perturbado, não ousa duvidar de seu amor, sabendo que a vida às vezes lhe derrubará independente de como se aproveita dela.

Muita gente julga que a necessidade de poder no ato de amar remete a egoísmo. Mas isso se deve à concepção narcísica de poder. Todos sabem como termina Narciso, o eterno contemplador de si. O poder, no sentido de potência, é um efeito claríssimo do amor, como não?

Quem tem vontade de amor simplesmente não precisa caçá-la, porque o amor por vontade relaciona-se com o desejo e, se o desejo dita os termos da relação, está no controle, o que é um gravíssimo problema, pois gera seres possessivos de amor, efetivamente o oposto de amar. Se o homem se comporta como um caçador de emoções, não sente; e, se está sentindo, elas voluntariamente lhe vieram.

As pessoas pensam que são livres para desejar, mas é a vontade de desejo que as governa e apenas suas escolhas conscientes dão-se à liberdade; desconhecem as causas de seus instintos. Portanto, amar o desejo é uma forma de se aprisionar, e a vontade de amor (subsidiada por ações livres à sua realização) caracteriza um ser preparado para amar, não para ser livre.

O desejo de estar com alguém, por si só, não é suficiente; precisa haver respeito, mas o respeito considerado um fim em si mesmo, imune a tentações opostas de toda espécie, até mesmo à privação do desejo. Não sendo um fim, inexiste a base sólida de amor e, se este declina, o sujeito está propenso a se considerar vítima das circunstâncias.

O mito de Orfeu e Eurídice ilustra bem como o desejo incontrolável é capaz de arruinar um homem. Conta-se que Orfeu era o compositor predileto dos gregos. Sua música fazia o velho mais insensível chorar rios de lágrimas, a criança mais entediada bradar em êxtase e a mulher mais odiosa ajoelhar a seus pés suplicando para ele nunca mais interromper suas melodias. Orfeu devotava-se à arte, sem ela não existiria, mas sua maior razão de viver era a esposa Eurídice. Contudo, o destino haveria de decepcioná-lo: uma serpente venenosa e letal a picou e ela foi encaminhada para o reino de Hades, onde perambulam as almas dos mortos. Desolado, mas com esperanças, Orfeu pega sua harpa e desce até o submundo para reaver a amada. Chegando ao rio Estige, Caronte, o barqueiro que vigia a passagem, tentou barrá-lo, mas foi imediatamente hipnotizado pela canção que Orfeu lhe apresentou. Tendo ultrapassado as margens do rio, deparou-se com Cérbero, o terrífico cão protetor do inferno, mas toda a ferocidade do animal foi amansada tão logo Orfeu dedilhou sua harpa.

Quando se apresentou à Hades, o deus maligno que até então não conhecia o significado de misericórdia, Orfeu colocou em prática a música que compôs assim que soube da morte da esposa. Ela soava tão triste e melancólica que Hades, senhor dos mortos, não pôde negar que o amor naquele homem era muito mais forte do que todo seu ódio acumulado. Emocionado como nunca, concordou em libertar Eurídice do submundo, mas sob uma condição: até chegar lá em cima, à luz do sol, Orfeu não deveria olhar para a face de sua esposa. Durante o caminho de volta, Eurídice ia recuperando as forças vitais enquanto seu marido tocava a harpa, à sua frente. No entanto, o desejo de olhar no rosto da amada foi maior que a prudência em honrar o acordo com Hades. Ao chegar à superfície, Orfeu olhou para trás e, por um segundo, vislumbrou a imagem de Eurídice tal como lhe surgia nos seus sonhos mais lindos, até que uma força invisível puxou-a de volta às profundezas e de lá ela nunca mais saiu. O desejo apaixonado dominou Orfeu e, em vida, sua arte perdeu o sentido.

É uma história trágica, nada irreal. Spinoza chega a questionar: “Por que os homens lutam por sua servidão tão teimosos como se fosse sua salvação?”. Talvez por suspeitarem que as próprias forças do coração agem por livre-arbítrio e indiferentes a um condicionamento externo. Não é tarefa de um mortal resolver esse mistério.

A substância do amor por vontade, que se chama de paixão, uma vez manifestada neste mundo – com todas suas alegrias, tristezas e confusões – só pode ser resolvida neste mundo, então qualquer solução trágica não adianta, porque nesse caso vai-se embora o portador da substância, ainda que permaneça o eco de suas forças apaixonadas. A frustração mortal resulta da manutenção entrópica da irracionalidade.

O risco de perder o amor já está presente desde que ele começou; negar essa possibilidade é investir num ideal de perfeição amorosa que faz sofrer infinitamente mais do que o descaso que acarretaria a obtenção de uma garantia de qualidade afetiva ininterrupta.

Um artista plástico, para fazer uma pintura, tem que estar próximo dela. À distância eles não se conversam, não se olham, não há reconhecimento nem empatia. Toda sua intuição de nada vale se a obra estiver fora de alcance. As habilidades sensíveis esfriam conforme ele se afasta demais do fruto de sua invenção. O pintor dedica sua paixão à obra e sem ela não sabe mais quem é. Essa obsessão é positiva na arte, pois demonstra o alto nível de compatibilidade entre criador e criatura. Em um relacionamento conjugal, entretanto, a obsessão gera o efeito totalmente contrário: ódio. Porque um considera o outro como se fosse matéria de sua predileção, como coisa que vale tanto quanto tornada utilitária, como objeto de sua construção, enquanto as pessoas são todas obras inacabadas.

Ao defenderem a necessidade de controle, muitos distorcem o amor. Esse tipo de poder não é positivo, mas letárgico e ainda acusa impotência. Os impotentes, por inclinação, querem dominar, pois estão passivos de si mesmos e com medo de ser dominados. Potência é requisito da liberdade, algo que os moralistas tradicionais abominam com medo de ela ser usada para todos os fins que não o de potência.

Quanto maior o desejo de controle, menor será a percepção de união. Só que as pessoas, em sua maioria, enxergam isso como falta de firmeza, atitude dos ingênuos. Por quê? Provavelmente pela associação de que permitir a liberdade do outro significa não se importar que as coisas saiam do normal. A liberdade existirá enquanto houver regras. Todo relacionamento é uma espécie de contrato, diferindo cada um em rigor de execução. O problema é que os possessivos apelam para a chantagem emocional sobre as consequências da insubordinação, o que reflete sua desconfiança.

Dar liberdade é respeitar o fato de que cada um tem seu próprio tempo e espaço; há várias formas de fazer jus à palavra e seguir as normas de um relacionamento sem que para isso se falte com a dignidade. Nem todos merecem a liberdade que têm, e, no fim, alguns merecedores saem perdendo, mas não terá sido culpa sua.

Spinoza assevera:

“Se alguém imagina que uma coisa que ele ama é unida por outra por um vínculo de amizade tão próximo ou mais próximo que aquele com o qual ele mesmo, sozinho, possui a coisa, será afetado com ódio sobre o que ama e invejará o outro.”

O vínculo de reconhecimento afetivo concernente ao amor próprio não se compara, porque uma pessoa que se dá a transcender o afeto por outrem do de si mesmo não quer seu amado por admiração, mas deseja possui-lo para se libertar do ódio insuportável de si mesmo. É o fenômeno que acontece no homem apaixonado e com ciúme: vacilação sobre a amada somada com o ódio de um possível inimigo. A paixão o faz escravo e ele está muito feliz de sê-lo enquanto não houver outro que a possua além dele; havendo, mostra todo seu lado colérico.

Ódio, aponta Spinoza, pode ser destruído pelo amor, e uma vez que é totalmente destruído pelo amor será, então, maior do que se não tivesse sido precedido de ódio.

A mulher não consegue doar ao homem ciumento a mesma ternura do que faz quando ele não gasta tempo útil lutando contra ameaças externas do romance mas, em vez disso, valoriza-a aqui e agora. O que é muito difícil para um homem apaixonado entender é que, se ele diz que luta contra inimigos (por ciúme) para proteger a sua amada, de fato quer proteger-se da própria insegurança, partindo do pensamento de que ela não tem força e autonomia para se defender por si mesma. Isso ofende a mulher. Estando ela convicta da relação, lutará para se desvencilhar dos que pretendem prejudicá-la; não estando, ele saberá.

Se o ciúme tem motivo real, o homem tomará as devidas providências ao descobrir, não antes. Ocorre que muita paranoia ronda quem precisa apossar-se da amada para fugir do espectro da solidão e do ódio.

Nada dura para sempre, inclusive o desejo. Mas por que quem ama de verdade parece sentir a sua eternidade e não quer largá-la?

Em 1901, Bertrand Russell, honorável escritor britânico, vinha de um casamento de sete anos com Alys Smith, seu primeiro amor. Em um dia gélido de outono, ele escreveu em seu bloco de notas:

“Saí para andar de bicicleta em uma tarde e, de repente, enquanto pedalava por uma estrada rural, percebi que não mais amava minha esposa Alys. Até aquele momento, não tinha ideia de que meu amor por ela estava enfraquecendo. O problema apresentado por esta descoberta foi muito grave. Desde o início do nosso casamento, convivemos na mais próxima intimidade possível. Sempre compartilhamos uma cama e nenhum de nós precisou dormir em um quarto separado. Conversamos abertamente sobre tudo que nos aconteceu… Eu sabia que ela ainda estava devotada a mim. Eu não desejava ser indecente, mas acreditava, naqueles dias, que nas relações íntimas é preciso falar a verdade.”

A verdade que abateu Russell naquela tarde não lhe era nada conveniente, mas o britânico não conseguiu escondê-la; dizia muito sobre sua vontade de amor. Alys era extremamente ciumenta e controladora. Manipulava os amigos e familiares mais próximos de Russell para tê-lo em tempo integral. Embora alimentasse a discórdia com sua insegurança, dizia amá-lo profundamente. Eles ficaram juntos mais alguns anos, até que o casamento atingiu um ponto insustentável. Russell se apaixonara por outra pessoa e, como não era propenso a trair, disse à ex-mulher que precisava ir embora, dessa vez sem volta.

Tempos depois, Alys se casou com outro homem. Num surto de sinceridade, lúcida e visivelmente desapegada daquele ciúme, escreveu mensagem para uma amiga:

“Bertie era um companheiro ideal, ele me ensinou mais do que eu jamais poderei pagar. Nunca fui inteligente o bastante para ele, e talvez ele fosse muito sofisticado para mim. Eu estive idealmente feliz por vários anos, quase delirantemente feliz, até que uma brusca mudança de sentimentos tornou nossa vida mútua muito difícil. Uma separação final levou ao divórcio, quando ele se casou novamente. Mas isso foi realizado sem amargura, brigas ou recriminações. Minha vida foi completamente alterada e nunca mais consegui encontrá-lo novamente por medo da renovação da minha terrível miséria.”

Muitos casais vivem anos e anos em um relacionamento possessivo simplesmente porque não imaginam uma vida sem o outro. Estão tão apegados à outra pele e insensíveis às injustiças entre si que suas manifestações de desamor acabam despercebidas e, pior, justificadas pelo desejo de posse. Um dito de Russell aborda o dilema crítico entre esconder uma mentira para não ferir o outro e dizer a verdade para manter a dignidade na relação:

“De todas as formas de cautela, a de amor é, talvez, a mais fatal para a felicidade verdadeira.”

A perspectiva do abandono é tão terrivelmente evitada e, devido às condições instáveis no mundo atual, agigantada, que a genuinidade na comunicação de sentimentos se tornou quase que uma ameaça à apropriação da felicidade, e por isso os casais mais felizes costumam dizer que o silêncio de um é ouvido pelo outro e não há segredos que, compartilhados, causariam mais estragos do que a sua omissão.

Não adianta ter vontade de amar se ela não for aplicada do modo correto, e isso exige o entendimento de que as pessoas não serão exatamente as mesmas amanhã do que foram ontem. Amar uma pessoa significa compreendê-la, e isso requer aprendizado constante. Quem age com preguiça sobre o amado pode desaprender-se dele, colocando o próprio amor em risco, e depois não terá direito de reclamar. A melhor forma de nutrir a relação é gostando de aprender, e, com a devida experiência, aprender a gostar: amor.

Muitas pessoas caem no erro de julgar como péssimo um relacionamento antigo que, enquanto durou, foi maravilhoso – simplesmente porque teve fim. Pior ainda se acabou sem uma razão convincente: pensam que não devia ter acabado. Assim, elas trocam a lembrança de todos os pequenos eventos positivos que lhes permitiram ficar juntos (saudade) pela cicatriz de não mais vivê-los (melancolia). Por outro lado, se o relacionamento era tóxico e terminou, mesmo que de forma violenta, vê-se isso com alívio. Um relacionamento ótimo terminado sem motivo é intolerável, deixa mágoa; um relacionamento abusivo terminado de forma consciente deixa as pessoas livres para amar novamente, pois permitiram a resiliência ao aceitar o perdão.

Há os que dizem “Segue o baile”. Mas não existe paranormalidade. A música não tocará sozinha, alguém deve se predispor a organizar o ambiente para que se dance nele. A importância de um bom planejamento é subestimada. “Deixe fluir”. Deixar fluir é uma coisa, não fazer nada e esperar acontecer é outra.

O discurso de abandonar a filosofia do carpe diem (viva o presente) para adotar o senso visionário (crie o amanhã) somente é óbvio para quem considera que o tempo de amadurecimento é o mesmo para todos. Não é. Esse moralismo até ajuda a tomar partido do que realmente importa para sustentar afetos, mas a troco de muita ofensa e hipocrisia.

Há quem adore nadar na liquidez e superficialidade. Não é uma lei da vida que se deva substituir o descompromisso libertário pela relação privada e segura. Porém, existe uma tendência inevitável de, com o passar dos anos, a pessoa ir trocando liberdade por segurança, por dois motivos principais: medo da solidão e percepção da finitude da vida.

As melhores coisas na vida acontecem naturalmente, com base em espontaneidade, a qual produz o ser feliz. Dizem que para tudo há uma primeira vez. Besteira. O mundo não corresponde a todos os anseios do homem, é responsabilidade deste significar o mundo; forjar as suas respostas, em vez de aguardá-las.

Muito se confunde o ato de cuidar e ensinar responsabilidades (próprio dos educadores) com controlar e tolher a individualidade do outro (próprio dos doutrinadores). Muitos responsáveis dizem que controlam para proteger. Às vezes, suas intervenções são realmente necessárias. Mas há casos em que interferem indevidamente. A perpetração inflexível da disciplina transforma vigilância em hábito e seus dependentes estarão sendo treinados para acreditar que a divergência de opiniões é um entrave à sua formação, que atitudes destoantes da tradição cultural são estranhos e perigosos à ordem, e o resultado são mais fantoches pertencentes à massa de manobra.

Muitos pais obrigam os filhos a adotar comportamentos idênticos aos seus apenas para dizer aos outros como se sente portentoso pelo que se tornou e causar inveja naqueles que estão sob sua má consideração. Que honra há nisso? Ser homogêneo é a coisa mais fácil que existe.

O jardim do vizinho só é considerado mais verde se faltou carinho e dedicação da parte do invejoso. Nada a ver com diferença de talento. Não é a beleza das plantas que chama a atenção, mas o esforço em criá-las; não o senso de competição, mas a necessidade de buscar referências para o próprio desenvolvimento.

Legiões de crianças praticam a atividade do livre pensamento, mas a maioria dos educadores as reprova por esse hábito, já que, segundo seu modelo pedagógico de mundo, não há nada de novo sob o sol e as tentativas de questionamento da obediência são sujeitas à patologização. Como resultado, essas crianças crescem sem personalidade, achando que um mundo estranho as cerca e que devem ter um parafuso a menos na cabeça, não se identificando em lugar nenhum. O respeito colocado como um fim libera a tentação de castrar a autenticidade do outro, tudo por causa de um amor que não é.

Não é fácil assumir toda a responsabilidade pelos ideais defendidos sem uma sensação ambígua de desamparo e arrependimento – facilmente usada como motivo de submissão aos poderes tutelares. Há, pois, certa abstenção da liberdade de pensamento para ensinar o que se quiser, em prol de uma obrigação ideológica de silenciar aquilo que não deve ser aprendido, de acordo com a segurança das massas.

A vontade de criar seres à própria imagem mostra que a cópia é preferível ao original, afinal, custa menos, mas também diminui o orgulho da criação. Ser original é um ideal que vai muito além da capacidade de aceitar seus perigos. A exclusão é um risco de ser autêntico. Talvez isso explique o fato de que, à medida que se fica mais velho e, obviamente, mais seletivo, aumenta-se o grau de invisibilidade.

O homem preocupado com o amor genuíno alia três elementos interconectados: o da razão em vias de orientar seus impulsos e desejos, o da dignidade moral através do respeito humano, e o da inteligência na busca do conhecimento.

Os homens são seres de desejo, daí a necessidade de ética. E a ética, como estratégia social de sobrevivência, não se sustenta por desejo, mas impreterivelmente pela razão que o economiza ou gasta quando precisa.

Uma das falácias mais proferidas pelo senso comum é que um ser muito racional automaticamente sente menos, que a administração das emoções é bem feita quando se deixa a razão de lado, e que quem pensa muito racionalmente carece de sentimentos espontâneos. O engano está em colocar razão e sensibilidade como inimigas. Ignorando-se o conhecimento de uma emoção, nada sobra a não ser intuições vazias. Outra falácia popular está em dar as expressões “Ter razão” e “Estar certo” como sinônimas. A verdade nem sempre está com razão.

O entendimento só existe em comunhão com a sensibilidade, porém, nem todas as emoções são inteligíveis, e ainda bem, porque, se fossem, os psicólogos cessariam suas pesquisas e morreriam de tédio.

Razão depende da sensibilidade; esta oferece as informações, aquela decide como utilizá-las. Um homem sem percepção não é capaz de fazer quaisquer julgamentos, tampouco sentir.

Certas pessoas, ao serem questionadas sobre seus sentimentos, logo respondem: “Não sei, só sinto”. Como elas podem sentir algo sem entender? O coração as informa e não precisam de mais nada? Prosa poética sem fundamento. As emoções só sobrevivem em um ser dotado de razão; recursos emocionais nas mãos de um mau senhor o fazem para o abismo. O que se demonstra mesmo é preguiça de pensar, embora o amor não tolere preguiçosos.

Pregar amorosidade é muito fácil, por isso todos o fazem, sinal de que deve ser simples. Ninguém é inteiramente bom e, se fosse, seria péssimo para o amor, pois, como arte, sua intuição só se percebe na superação do erro, com treinamento.

Os frustrados de amor são levados a pensar – por ressentimento ou depressão – que a sua vontade de amar é uma armadilha: a fuga da infelicidade que sentem. Mas, na verdade, eles temem o amor e não o estado infeliz; seu sofrimento é mal justificado. Agem como os cadáveres que temem o amor, idealizando uma vida sem sofrimento, aquela que é exclusiva dos mortos.

Charles Bukowski acreditava que o amor é tudo aquilo que não se diz sobre ele. Sim, o amor foge de todas suas definições e, enquanto se o vive subjetivamente, conforme a oportunidade, destaca-se como o mais objetivo dos sentimentos. Os livros de autoajuda continuarão vendendo que nem água porque as pessoas tendem a procurar uma alquimia infalível do amor, um atalho que facilite sua experiência. O dinheiro que gastam com esses livros roda apenas a economia e não o amor.

Dois seres humanos estão namorando. Eles têm química, combinam-se harmonicamente e o clima está favorável. Mas, se um deles perde a casa, o carro, o emprego, a saúde e as finanças zeram, o outro, em vez de ficar, foge desesperadamente para longe como se o espírito do Diabo estivesse prestes a apossá-lo. Trata-se do sentimento capitalista que Maquiavel denunciou no seu O Príncipe e Franz Kafka na sua Metamorfose: fique com a pessoa enquanto ela lhe proporciona bens materiais, conforto e prazer, mas não hesite em ir embora e desprezá-la se perceber que não terá mais essas vantagens. Amor por vontade – boa parte dos relacionamentos é assim.

A vontade de amor é o que mantém casais juntos por cinquenta, sessenta, setenta anos e, melhor, felizes, apesar das várias limitações orgânicas e desgastes no percurso. Duas pessoas idosíssimas não terão o mesmo desejo que compartilhavam em outrora, e não é por falta de querer. Mas eles não reclamam da abstinência de paixão, seria inútil. Se pudessem, gozariam dela regular e intensamente como provavelmente faziam, mas sabem que existem coisas mais importantes do que o prazer para viabilizar a longevidade de uma parceria.

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Eduardo Ruano

Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.


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