“Tenho medo de que coisas cotidianas não voltem nunca mais”, diz Contardo Calligaris

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris falou recentemente sobre como encara as consequências da pandemia de coronavírus.

REDAÇÃO CONTI outra

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris, 71 anos, concedeu recentemente uma entrevista ao GaúchaZH, e falou sobre diversos assuntos, entre eles sobre como sentiu o impacto devastador da covid-19 em seu país natal, a Itália. “Senti de duas maneiras. Primeiro, pelos sobrinhos que tenho na Itália, que são quatro, considerando que os dois são casados. Todos são médicos, e um deles passou 14 dias em ventilação mecânica. Por sorte não veio a óbito. O outro deixou a mulher e filhos em casa e está morando sozinho em um hotel, há dois meses, para proteger a família. A minha família são eles e meu filho, que está em São Paulo.”

“O segundo impacto foi pela vida na Itália. Houve várias fotografias publicadas durante a quarentena, mostrando lugares bonitos, conhecidos, que hoje estão desertos. São os lugares da minha infância e adolescência, e de repente a Itália parecia uma praça metafísica de De Chirico (pintor considerado precursor do surrealismo, 1888-1978), habitada somente por estátuas.”, continua o psicanalista.

“Há um vídeo em particular que tem um efeito muito grande em mim. Vou explicar com um exemplo. Talvez você conheça Piazza del Campo, em Siena, é uma das praças mais lindas do mundo, em forma de concha. Desejo que você a visite um dia. Metade dela é ocupada por bares e restaurantes, que não valem nada, você come uma pizza mediana. Mas o que importa é que todo mundo senta e, na frente, à noite, passeiam os jovens e as jovens, numa ida e volta constante por aquela praça grande. Não dá para chegar de carro, daí os guris, criados nessa cultura falocêntrica do automóvel, caminham balançando as chaves dos carros, para aparecer a marca e as minas verem. Hoje, aplicativos como o Tinder devem facilitar as coisas, os jovens podem marcar um encontro na praça. Mas, na minha época, a atração era passear, cruzando os olhares na espera de um momento, de um gesto a mais que sinalizasse uma possibilidade de romance. Vi a imagem da Piazza del Campo vazia e pensei nessa cena. Senti o medo de ela nunca mais voltar. Não é uma coisa extraordinária, é uma coisa cotidiana, e tive medo de que essas coisas não voltem mais, de que fossemos viver durante muito tempo uma desconfiança da presença do outro, tornando essa convivência impossível.”

Calligaris também falou sobre sua apreensão em relação ao que pode acontecer no Brasil.

“Estou de dedos cruzados. (….), tendo a pensar que o distanciamento social no Brasil ainda não é suficiente, mas se aparecerem dados comprovando que o esforço que já fizemos conseguiu achatar a curva, bom, vamos lá, a gente não aguenta mais a quarentena. Que não seja pelo exemplo sinistro do nosso presidente, que não só é grosso, mas cruel. O fato é que há um comércio caindo aos pedaços, há gente que não tem mais como pagar o aluguel, cada um tem suas razões para querer voltar. Ninguém sabe se entramos em quarentena na hora certa.”

“No fundo, existe uma grande perplexidade. Mesmo quando o isolamento for levantado e as crianças puderem voltar à escola, imaginemos julho, realmente não sei se vou concordar com a ideia de que meu enteado volte à escola naquele dia. Eu não sei se, no dia em que alguém declarar (o fim das restrições), vou ao cinema. Acho que não. E quando é que realmente vamos nos sentir bem para subir em um avião? Estou tentando me aproximar amigavelmente do Amyr Klink (navegador) para ver se depois que tudo isso acabar ele me leva para a Europa.”.

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Destaques Psicologias do Brasil, página parceira. Com informações de GaúchaZH
Foto destacada: Contardo Calligaris / Arquivo Pessoal.

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