Stephen Hawking, o homem que voou alto

Ontem (14/03/2018) um homem memorável e raro encantou-se e expandiu-se no universo que ele tanto amou pesquisar. Ele, que além de gênio, era um autêntico fenômeno da natureza. Stephen Hawking encantou, e encantou de todas as formas. Não tenho o vocabulário e a vivência da ciência, pacata que sou. Encontrei mais afinidades com artes, bobagens e algumas insignificâncias na vida. E das minúcias do brilhante cientista que foi não vou aqui falar, pois falta a competência. Os jornalistas pelo mundo hoje o fazem com festa. Stephen Hawking foi um forte, raro e nobilíssimo homem.

Ele tinha o dom de simplificar os conhecimentos científicos mais complexos. Popularizou a ciência para milhares de pessoas com uma linguagem direcionada para a simplicidade. Pela forma como os assuntos foram desenvolvidos, resta clara a intenção de torná-los tendencialmente compreensíveis para o leitor comum. Queria que seus livros fossem vendidos em lojas de aeroporto, vejam só. É necessário inteligência e sensibilidade para isso. Avalio como um compromisso com a educação, com o saber e com a democratização do conhecimento acima de tudo.

Até eu, leitora contumaz de humanidades, comecei a ler com prazer Uma breve História do Tempo, misto de aventuras para meu mundo. Ler sobre buracos negros, horizonte aparente, teoria do big bang ou do espaço-tempo é quase uma aventura fantástica. Louca por viagens no tempo desde sempre, procurava por máquinas do tempo e manipulações das horas nas ficções dos livros e dos filmes. Então ver um cientista renomado admitir empiricamente essa possibilidade foi a minha Eureca, a minha desculpa. Descobri que o mundo real também pode ser mágico. O desbrave do universo é das águas mais profundas, das sagas mais complexas e poéticas, pela sua infinitude.

Vejam que língua simples era a desse homem, nesse livro que é um dos mais vendidos e celebrados no mundo – Uma breve História do Tempo : “Na teoria da relatividade, não existe tempo absoluto único; em vez disso, cada indivíduo tem sua própria medida do tempo, que depende de onde ele se encontra e de como está se movendo”. Foi quando descobri que o tempo, esse bichinho do qual somos tão escravos, na verdade não existe per si. É uma abstração, convenção criada como tantas outras. Nossa necessidade humana de quantificar, metrificar e delimitar tudo foi o mote originador. A relatividade do tempo parece mais evidente quando conseguimos enxergar que nosso tempo é um ritmo e uma escolha natural e particular. O tempo é aquilo que somos e fazemos.

Aos vinte e um anos, Stephen Hawking recebeu o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica, doença neuromotora voraz, que paralisa todo o corpo e mata em pouco tempo. O próprio físico explicou que tal cenário de morte precoce foi a gênese para que ele se dedicasse com voracidade às descobertas intelectuais, mas isso não dá conta de tamanha façanha. Sua força ( física, inclusive ), sua dignidade e seu otimismo diante de tal fatalidade pareceram-no rondar tanto ou mais que a celebração mundial do seu brilhantismo.

A ELA é uma doença rara e devastadora, pois limita toda a parte neuromotora e mata em poucos anos. Em 2014 eram cinquenta mil casos no mundo e aproximadamente doze mil no Brasil. Segundo a ABRELA (Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica), o doente fica fisicamente paralisado, porém não altera a inteligência, o que pode psicologicamente ser aterrador para muitos. Há uma lesão degenerativa dos neurônios motores, e isso afeta a mobilidade do braço e das pernas, tornando o paciente tetraplégico. A possibilidade de comer e de respirar também fica comprometida, pois os músculos responsáveis pela fala, pela deglutição e pela respiração também são afetados. O paciente tem uma brusca perda da qualidade de vida, até que morre. Não tem causa definitiva, e costuma ser diagnosticada após os cinquenta anos em média. Tive um tio vítima dessa doença, que morreu poucos meses após o diagnóstico. Ele estava aparentemente saudável e vivia normalmente. Foi um choque para a família.

O cientista inglês é uma das poucas pessoas no mundo a conseguir conviver com a doença por mais de cinco décadas. Talvez movida pela repercussão do filme que relata a história do físico inglês, em 2014 houve uma campanha dos EUA que desafiava qualquer um a jogar um balde de água gelada na cabeça e divulgar o vídeo, ou a doar cem dólares para a ALS Association, organização sem fins lucrativos que ajuda pacientes portadores da doença. Muitas pessoas comuns, políticos e famosos pelo mundo aderiram à campanha e apareceram em vídeos tomando banho com água e gelo. O paralelo foi com o real “balde de água fria” que é receber o diagnóstico da doença sem cura.

Mas Stephen Hawking tinha um brilho peculiar, pois além da coragem, seu bom humor foi exaltado por muitos. O ator Eddie Redmayne, que em 2014 interpretou Hawking no filme “A teoria de tudo” e ganhou o oscar pela sua interpretação do físico, descreveu: “um cientista surpreendente e o homem mais divertido que eu tive o prazer de conhecer”. O jornalista estadunidense Larry King por sua vez falou: “Uma vez perguntei a Stephen Hawking em uma entrevista o que mais o enlaça em todo o universo. ‘Mulheres’, ele respondeu.”

Não foi um homem que hoje encantou-se, mas um ser extraordinário e especial entre os demais. O homem pequenininho em tamanho e preso à cadeira de rodas não parecia ter amarras e escondia um dos cérebros mais colossais que já existiu. Costumamos reclamar ou nos achar imperativos por pouco, não é? Contudo quando a vida parecer pesada ou parecermos demasiado importantes, é bom olhar para o exemplo dele.

Acima da celebridade, o homem. E que homem! Que o legado humano dele não seja esquecido e ao menos hoje possamos seguir o conselho da Universidade de Cambridge, onde Hawking lecionava: “Olhe para as estrelas e não nos seus pés”. Que não miremos para baixo, mas para o alto. Que ao invés de olharmos para as bolinhas dos nossos umbigos, olhemos para a beleza do universo e sua infinitude, suas galáxias invisíveis, seus planetas, suas estrelas… Que olhemos também para o que construímos com as pessoas em nossa volta, pois certa vez o físico disse: “Não seria muito um universo se não fosse o lar das pessoas que você ama”. Stephen Hawking, enfim, agora voa mais alto pelo universo que tanto amou pesquisar. Voa! Voa! Voa!

Imagem de capa: Martin Hoscik/shutterstock

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Denise Araujo
Sou Denise Araujo e não tenho o hábito de me descrever. Não sei se sei fazer isso, mas posso tentar: mais um ser no mundo, encantada pelas artes, apaixonada pelos animais, sonhadora diuturna, romântica incorrigível, um tanto sensível, um tanto afetuosa, um tanto criança ...

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