Sobre entusiasmo, continuidade, permanência e sustentação: lições de um coração maduro

"Me atinja no coração, é lá que mora o gênio" . Alfred de Musset

Eu já tinha ouvido dizer que isso às vezes acontece na vigília da manhã, entre o sono e o pleno despertar. Ele dribla a vigilância da mente, ainda sonolenta, e se insinua, puxa conversa, pede atenção, aconselha.

Foi assim que ele se manifestou naquele domingo. Queria saber sobre meus planos naquela manhã ensolarada. Respondi que uma pilha de louças me esperava na cozinha, provas para corrigir, um artigo a reler. E que aproveitaria, enfim, para colocar as coisas em seus devidos lugares.

Ele então me questionou sobre o que seria o “devido lugar das coisas”. E percebendo minha hesitação, precipitou-se na resposta:

– Há momentos em que o devido lugar das coisas é na escala última das suas prioridades.

Começou então um diálogo , que merece ser contado.

– Quem é você ?

– Seu coração.

– Você fala!

– Sempre falei. A diferença é que agora você me escuta . Parece que minha voz se propaga melhor na sua alma madura.

– E o que é maturidade para você, coração?

– A capacidade de dar atenção a mim é um bom medidor. Há maturidade, por incrível que pareça, em levar-se menos a sério, rir de si próprio, simplificar as coisas.

– Incrível, estou mesmo ouvindo sua voz.

– Primeiro sinal de maturidade.

– hahahahahahaha!

– Mais um! Agora, mostre que você captura o sentido de “simplificar”. Que sinônimos você indicaria para o verbo?

– deixa ver… desacumular, desmistificar, desapegar… Gostei da brincadeira.

– Então, escuta: você pretende mesmo passar o domingo nesses afazeres todos? Estou vendo que você se julga imortal, mas não haveria nada mais inspirador para ocupar essa eternidade?

– Gosto da arrumação. Preciso disso, aliás.

– Já reparou na desproporção entre o tempo de arrumar e o de desarrumar?

– Claro! Minha família é bagunceira, eu própria sou bagunceira. É esse o motivo.

– A ordem é efêmera. A vida é movimento, e o movimento conduz ao caos.

– Mas é importante organizar, e nisso você concorda comigo. A atmosfera fica leve e os bons fluidos circulam.

– Sim, mas veja bem, a organizaçao é ferramenta para não se perder, não virtude em si mesma. Não deve ser propósito de vida, mas meio de sobrevivência.

– É. O perfeccionismo é uma brincadeira de faz-de-conta. Ele nos distrai da nossa finitude e nos faz esquecer que estamos envelhecendo…

– Pois é. Mas envelhecer também tem seus prós.

– Ah, coração…Pode me dizer quais?

– O “pra sempre”, deixa de custar caro. Voce pode, enfim, usá-lo sem moderação.

– É porque ele se torna tangível, mensurável.

– O “pra sempre” se abrevia com o avanço da idade…Por exemplo, quantas vezes você quis dizer “eu te amo pra sempre” , ou “quero isso pra sempre” e se conteve, com medo de não honrar a promessa?
– Várias!
– Pois ficou mais fácil ceder a esse elã formidável. O risco de isso não ser verdade é bem menor que aos 20 anos. Aproveite.

Nesse momento, meu coração e eu nos entregamos juntos a uma morna e silenciosa gargalhada. Até que retomei a conversa:

– Mas o que exatamente isso tem a ver com meu domingo?

– Estou tentando convencer você a NÃO passar o dia como planejou. Pense bem: se você empregar menos tempo na ilusão de controle da existência, sobra mais tempo para a fruição dela. Sobra mais tempo pra viver.

– Na verdade eu só queria silêncio, hoje.

– Pronto: momento ideal pra ouvir o outro, pra meditar, pra me ouvir…

– Pra fazer planos…

– Ou não fazer nada…

– Quando não faço nada, faço planos.

– Eu sei que você gosta disso. É quase um hobby…

– Pena que que muitos não vão adiante. A empolgação cede aos obstáculos da realidade.

– Sua realidade não comporta seus sonhos?

– Ou meus sonhos é que não miram a realidade, não sei.

– Talvez seja só uma gestão imperfeita do entusiasmo principiante. Como é mesmo o nome da escritora belga que gostamos de ler?

– Amélie Nothomb.

– Aquela passagem que você anotou no seu caderninho, como é?

– “Me atinja no coração, é lá que mora o gênio” . Na verdade, essa é uma frase de Alfred de Musset, um expoente do romantismo literário francês do século XIX.

– O que quer dizer isso?

– Pelo que entendi, somos treinados a acreditar que os recursos estão no intelecto, e deixamos de procurá-los em outra esfera de cognição, mais emocional, mais intuitiva, talvez…

– Então te convido a me consultar antes de construir projetos. Depois, tente administrar com eficiência seu tempo, suas energias. Poupe, reabasteça.

– Como?

– O que a crise lhe ensinou sobre economia do combustível do carro?

– Evitar arranques frequentes, pisar no acelerador com delicadeza , manter estável a velocidade. E algo que soube outro dia, mesmo: pneus calibrados poupam gasolina.

– É preciso dar a partida, mas se for necessário impulsionar o veículo muitas vezes, haverá desperdício de combustível.

– Sim.

– Entende que ter que recomeçar a todo instante mina suas forças? O ímpeto é a faísca de desejo que quebra a inércia e promove a largada. Mas o querer firme, contínuo, sem grandes variações, aquilo que chamamos de força de vontade, é o que garante a realização do percurso.

– E os pneus, onde entram?

– Os pneus sustentam o movimento. Se não estão firmes, a máquina consome energias demais para rodar. É a importância de ajustar as bases, conquistar o apoio das pessoas que te cercam, de quem você depende, que dependem de você. Não deixe o sonho sem sustentação. Lutar contra as demandas alheias e do cotidiano dissipa a vontade.

– Os sonhos precisam se encaixar na nossa realidade…

– Sim. Caso contrário, algo precisa ser ajustado: o sonho ou a realidade.

– E como decidir no que mexer?

– Definindo prioridades. Pois é, nunca disse que seria fácil.

– Economia é emprego eficiente de recursos. E o reabastecimento?
Pra encher o tanque é preciso parar o veículo.

– A pausa!

– Mas e a continuidade?

– Pausa não significa descontinuação. As escolhas se debilitam, sim, nas interrupções, mas se fortalecem nas pausas. Letargia, abandono, desvio de rota, nada disso se parece
com a pausa, que aprovisiona, oxigena, inspira. Pense no que nutre sua alma. Essa é a pausa de que você precisa.

– O que alimenta meu ser é a meditação, a literatura, a família, a música, o cinema, a companhia dos amigos, as caminhadas na natureza, as conversas longas, os olhares demorados…

– Quando vier o cansaço, pare e repouse o espírito em tudo isso. Depois, retome o trajeto! A motivação talvez tenha arrefecido. É momento de amadurecer os anseios, de aceitar o passo a passo.

Lembra quando você decidiu correr? Na sua cabeça, você correria como uma atleta, linda, leve e lépida.

– Mas eu não era tão veloz como gostaria, e me cansava muito. As dores não estavam no script, nem os momentos em que precisava caminhar, o tédio…

– Desconstruir a idealização é o grande e necessário desafio. Acolher o que se tem de concreto. É o famoso “o que temos pra hoje”. Não adianta sonhar com o caminho, é preciso percorrê-lo, sentir a dureza do solo, a aridez do clima, os limites do corpo.

– Mas sabe que acabei me sentindo gratificada pelo esforço em si, pelos lentos e graduais progressos?

– Aceitar a realidade fez você ficar. Que bom, você conheceu a permanência.

– Eu queria falar de uma angústia. É o desconforto de uma ideia recorrente, o pesar pelas oportunidades que deixei passar, o receio de ser tarde demais para recomeços.

– Seria o medo da morte?

– Não. Nada a ver. Não tenho medo de morrer.

– Então por que a angústia com o tempo?

– Uma incômoda sensação de atraso me persegue. Vergonha do que deveria ter feito antes, receio de fazer errado a essa altura do campeonato.

– Vamos às simplificações?

– Sim.

– Você não fez. E a idade não vai impedir você de errar.

– Agradeço.

– Não quero ser duro, muito pelo contrário. Para seu próprio bem, calce as sandálias da humildade e…Faça! Os únicos limites reais são a morte e a demência. Qualquer outro entrave é imaginário.

– Mas o escrutínio do outro inibe, perturba.

– Não é o SEU próprio olhar sobre si? O que imagina ser julgamento alheio talvez venha de você. Não de mim, seu coração, nunca! É daquela que agora cochila: a mente, suposta senhora da razão. Saia já desse lugar, ele sorve absurdamente o melhor do seu ânimo vital.

– Ah, o tempo… Que relação contraditória e imperfeita temos com ele…Às vezes nos sentimos eternos, outras vezes, atrasados em nossas próprias vidas.

– É sempre tempo de pegar a estrada. O caminho…. Nada mais seu que sua trajetória! É isso que te constitui. Segue.

– “Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo de ser velho” . Esqueci de quem é essa frase…

– É bem isso: ser velho é perder a capacidade de se surpreender. Repare na maioria das pessoas idosas, em como elas tendem a fazer tudo igual.
Envelhecemos criando antídotos contra a novidade, talvez para nos proteger de qualquer remorso. Mas é um reflexo errado, que só nos aproxima da decadência.

– Tudo que eu não quero é ser uma velhinha chata, repetitiva…

– Qualquer perplexidade, assombro ou fascínio, é anti-oxidante para o cérebro.
Falar menos, ouvir mais. Economizar palavras, distribuir ouvidos. Pemitir-se conhecer impressões e histórias diferentes .

– E a alegria de viver? Como cultivá-la, apesar do tempo que nos extrai pessoas queridas, ameaça o vigor, a saúde do corpo, a higidez do pensamento?

– É possível. De novo: não é fácil. Mas é o único jeito.

– Qual?

– Sonhar e acreditar. Na vida, no mundo, nas pessoas, nos sentimentos, no amanhã, em nós mesmos.

– E o que mais?

– Acreditar de novo. E sonhar outra vez. Perseverar na crença. Reincidir no sonho. Teimosa e reiteradamente. Até o último sopro de vida. Pra sempre.

Vamos?

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Ana Flavia Velloso
Formada em Direito pela Universidade de Brasília, e mestre pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Advogada, é professora de Direito Internacional Público no Uniceub-DF. É muito feliz na escolha profissional que fez, mas flerta desde sempre com as letras. Também se aventurou pelo jornalismo quando morava na França.