Sempre surgem coisas boas quando as ruins vão embora

Uma de nossas maiores lutas diárias vem a ser mantermos o discernimento diante daquilo que perdemos, seja aos poucos, seja de repente. Inevitavelmente, embora também agreguemos muito, quanto mais o tempo passa, mais nos vemos tendo que nos despedir de coisas e de pessoas, de instantes e de lugares, de toques e de olhares.

O que nos mantém firmes, nessa viagem sem volta do despedir-se contínuo, são as lembranças que guardamos de tudo o que foi bom e especial. Revivermos aquilo que nos tocou fundo nos ajuda a não sucumbir diante das despedidas, muitas vezes súbitas, sem aviso prévio, que a vida nos obriga a enfrentar. Guardar o amor em um lugar especial nos salva todos os dias.

Muitas vezes, porém, não nos conformamos com o que se vai, não aceitando a inevitabilidade dos términos que pontuarão os diversos caminhos que trilharmos. Ficaremos arrasados, como que se não pudéssemos mais sobreviver sem aquilo que, na verdade, nem mais tinha razão de ser. Em que se pesem algumas exceções, isso costuma ocorrer quando nos apegamos ao que nos diminui e causa dor, quando damos mais valor a qualquer coisa que não a nós mesmos.

A não ser em casos de perdas por demais avassaladoras, como em relação a um ente querido, por exemplo, quase nada do que possuímos é insubstituível, pois até mesmo muitas pessoas que pensamos ser imprescindíveis em nossa vida não o são. Isso porque, não raro, depositamos todas as nossas forças no que está lá fora, deixando a nossa essência frágil e vazia.

Não podemos nunca nos esquecer de nós mesmos enquanto caminhamos, enquanto construímos nossas vidas, com ou sem alguém do nosso lado, ou nos tornamos cada vez mais ocos e carentes, pois nada conseguiremos enxergar de bom aqui dentro e então teremos que procurar no outro o que às vezes já temos em abundância. E assim não perceberemos o quanto já somos e temos, sem precisar de ninguém mais.

Estarmos seguros quanto ao que somos e temos a oferecer nos tornará mais fortes, para que não procuremos pelo que não precisamos em quem não nos merece, para que não soframos quando algo sair de nossa vida, algo ruim, algo que nem deveria ter entrado.

E esse discernimento se consegue através do fortalecimento do amor-próprio, pois, quando gostamos de nós mesmos, quando nos amamos, não deixamos que nada e nem ninguém machuque o nosso maior tesouro, qual seja, esse nosso eu, lapidado a duras penas, através de nossas lágrimas e de nossos sorrisos, e que tanto e sobretudo devemos preservar.







"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.