Se o inferno são os outros, nós também somos os outros de alguém! Confere?

Há uma possibilidade nova de reflexão no ar. Acredito que, mesmo aqueles que têm no máximo dois neurônios funcionando, e defendem o fim do isolamento, negam a existência do vírus e acreditam que temos um planeta em forma de pizza, em algum momento do dia, para consigo mesmo e pensa: “E se eu estiver errado?”; “E se alguém que eu amo adoecer?”; “E se...?”. Pronto! Até esse micro milésimo de pensamento reflexivo tá valendo! Quem não faz nem isso, pode parar de ler esse texto por aqui mesmo. Se é que já não parou.

Ana Macarini

Há uma possibilidade nova de reflexão no ar. Acredito que, mesmo aqueles que têm no máximo dois neurônios funcionando, e defendem o fim do isolamento, negam a existência do vírus e acreditam que temos um planeta em forma de pizza, em algum momento do dia, para consigo mesmo e pensa: “E se eu estiver errado?”; “E se alguém que eu amo adoecer?”; “E se…?”. Pronto! Até esse micro milésimo de pensamento reflexivo tá valendo! Quem não faz nem isso, pode parar de ler esse texto por aqui mesmo. Se é que já não parou.

Pois então, hoje despertei no meio da madrugada acordada por um sonho, ou melhor, um pesadelo, no qual eu me encontrava em uma casa, na companhia de pessoas das mais diversas épocas da minha vida, todas elas protagonistas de algum conflito com a minha pessoa. Ocorria nessa situação o seguinte: éramos em uns 30 indivíduos naquela casa.

Indivíduos mesmo, cada um no seu quadrado, cuidando de sua própria vida. Lá pelas tantas, fiquei com fome e fui pra cozinha, cozinhar. Neste momento fui tomada por um dilema: cozinharia só pra mim ou pra toda a galera que, sequer notava a minha nobre presença. Acabei fazendo uma belíssima refeição para todo mundo. Atraídos pelo aroma, todos apareceram para comer. E se fartaram, em meio a suspiros de prazer. No entanto, assim que terminavam de comer, cada um simplesmente saía da mesa e voltava para o seu quadrado. Nada de “Muito obrigada, obrigado”; nada de “Deixa que eu lavo a louça”. Acabei de volta à cozinha cercada de pratos, talheres, utensílios, copos e panelas para lavar.

Esfregava a louça, com vontade mesmo era de esfregar a cara dos meus “companheiros de isolamento”. Mas não disse nada. Apenas xingava mentalmente. Pior é que acontecia um fenômeno intrigante: as louças pareciam se multiplicar, não acabavam nunca.

Já anoitecia quando finalmente consegui lavar o último copo. Exausta e tomada pela revolta, fui saindo da cozinha quando a dona da tal casa me interpelou perguntando: “Não vai ter janta?”. Foi a gota d’água. Enfurecida, subi as escadas até o local que seria o meu quarto, joguei meus poucos pertences numa mochila, calcei botas de caminhada, um casaco forte, gorro, luvas e máscara, decidida a ir embora dali. No entanto, ao abrir a porta da casa, do lado de fora não havia nada. E, se eu desse um passo adiante, cairia num precipício. Desalentada, dei um passo atrás, voltei pra dentro da casa, fechei a porta atrás de mim e me deparei com os outros 29 ocupantes do local, rindo muito da minha inocente rebeldia. Tirei as botas, o gorro, as luvas, o casaco e a máscara, deixei a mochila no chão e fui pra cozinha fazer o jantar.

Bem, claro que depois de um pesadelo desses, não consegui mais dormir. E, já que não dormia, me pus a registrar o sonho pra não me esquecer do enredo depois. Ocorre que enquanto escrevia, milhares de pensamentos vieram me cutucar.

Cheguei à conclusão, já vendo o dia amanhecer com uma caneca de café na mão, de que tudo aquilo que me incomoda no outro, habita em mim, mesmo que seja em camadas muito, muito profundas – tirando a crença da Terra plana e outras teorias delirantes da conspiração.

Num primeiro momento, lá nos primeiros dias da quarentena, eu também acordava de manhã querendo acreditar que era um engano, um sonho ruim, uma pegadinha – afinal, tudo parecia muito surreal! Eu também fiquei bolada de ter perdido o show do Oswaldo Montenegro, que foi remarcado para maio, mas obviamente não vai rolar em maio também. Eu também achei um exagero as escolas interromperam aulas (isso lá no comecinho de março). Eu também pensei “Será que é pra tanto?”. Eu também já tive vontade de ir dar só uma caminhadinha naquela praça que eu amo. Eu também já fiquei bem “p da vida” porque não tem mais cinema. Eu já pensei em ir até a porta do hospital de carro, só pra ver meu filho que é médico, nem que fosse de longe, porque a saudade e a preocupação com a segurança dele dói demais. Eu também tô preocupada com meu futuro financeiro porque nem todas as famílias toparam fazer atendimentos online, e a maioria só pode pagar um valor bem menor do que o usual, posto que estamos todos passando por dificuldades. Eu também já pensei em dispensar a diarista, porque vai ficar pesado mantê-la recebendo sem trabalhar. Eu também já quis sair de casa, abraçar gente que eu nunca vi, tomar um sorvete na rua, deitar na grama do parque…

Acontece que eu não fiz NADA DISSO! E tem dia que eu fico mal à beça; tem dia que bate uma tristeza, uma raiva, uma revolta de pensar que a única coisa útil que eu posso fazer agora é ficar em casa. Tenho ajudado algumas pessoas como posso: pequenos restaurantes, ONGs que atendem pessoas mais vulneráveis em situação de rua, compro alimentos dos pequenos comerciantes, faço pequenas doações em dinheiro, ofereço colo e escuta virtual… Mas não consigo me livrar da sensação de impotência nem da raiva de “gente” que se apega a crenças negacionistas pra preservar ilusoriamente o próprio umbigo.

Sendo assim, hoje minha reflexão é: que bom que as minhas rebeldias individualistas acontecem só no plano subjetivo dos desejos. Que bom que eu realmente seria a pessoa que vai pra cozinha, faz comida pra todo mundo e lava toda a louça sozinha. Assim eu posso olhar no espelho e não ter vergonha desse reflexo que me contempla do outro lado. E isso, pra mim, basta, por enquanto.

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Imagem: Pexels

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"