São as perdas que tiram o nosso sono

“As brigas que ganhei... nem um troféu como lembrança pra casa eu levei As brigas que perdi... essas sim eu nunca esqueci, eu nunca esqueci...”

Trechos de música costumam casar bem com o que sentimos, pensamos, desejamos ou queremos esquecer. A música é uma espécie de linguagem universal que une as pessoas, não importa onde ela tenha nascido, qual a cor da sua pele, seus ideais políticos, sociais ou religiosos.

Eu, por exemplo, posso afirmar que são raros os dias em que não acordo com uma música na cabeça e passo o tempo todo cantarolando baixinho, ou mesmo, mentalmente. Às vezes, inclusive, pode acontecer de eu ser assaltada e rendida por canções das quais nem gosto, mas por terem aquela característica de chiclete, grudam na mente e são difíceis de remover.

Existem as “músicas chiclete”, e existem as “lembranças chiclete”. E, curiosamente, essas tais lembranças grudentas são, em 90% dos casos, coisas que nos fizeram sofrer, ou que nos constrangeram de alguma forma.

São as perdas que nos fazem companhia voluntária e espontânea, sobretudo em noites insones. Basta alguém nos perguntar de alguma situação que nos tenha ferido ou magoado que, imediatamente, forma-se uma fila indiana e organizada – se bobear as danadinhas exibirão até senhas numéricas em suas malvadas mãozinhas -, de lembranças ruins.

A gente lembra e recebe com café coado na hora, acompanhado de uma generosa fatia de bolo de fubá, os tombos, os enganos, os pés na b….., os deslizes, os foras, as gafes, os fracassos.

Tudo isso parece ter direito a uma tribuna de honra em nossas memórias. E acredite, essas lembranças, além de serem danadinhas, são também muito bem-educadas. Recebem com alegria nossas honrarias, aceitam de bom grado nossa tola receptividade. Sentam-se, acomodam-se e ficam.

Podem se transformar de visitas em hóspedes, num piscar de olhos.
E, assim, quando menos estivermos esperando, elas estarão confortavelmente deitadas ao nosso lado na cama, nos fazendo cafuné.

E, nós, ingênuos que somos em relação às peças que a nossa mente pode nos pregar, acharemos que aquele cafuné é bendito, que nos pertence, que fizemos por merecê-lo.

Em poucas noites, estaremos viciados nesse falso conforto, nesse canto de sereia. Estaremos atados à nossa mania torta de nos apaixonar pela dorzinha da picada que não sara, e por isso, coça, coça, coça.

É bom que sejamos um tiquinho mais espertos em relação às nossas auto armadilhas. É bom que aprendamos a reconhecer o falso sorriso das perdas, e seu jeitinho doce de nos convencer de que elas eram perfeitas e que sem elas não somos capazes de viver.

É necessário sepultar as perdas, conceder-lhes um justo funeral, chorar por elas algum tempo, e entender que são os vivos que merecem as flores e que quem se apega ao que perdeu não tem olhos para enxergar o que está deixando de ganhar.

Às nossas perdas… nossa mais profunda gratidão pelos ensinamentos ofertados… E um definitivo e sincero adeus. Para sempre!

Já vão tarde, queridas!

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"